português Entrevista com Hernán Díaz Alonso, realizada a partir da pesquisa “A Educação do Arquiteto para o Século 21 – O Ensino do Projeto de Arquitetura e Urbanismo no final do Curso", em desenvolvimento no Propar UFRGS, com verba de custeio Capes.
english Interview with Hernán Díaz Alonso, based on the survey "Architect's Education for the 21st Century – Teaching the Architecture and Urbanism Project at the end of the Course", under development in the Propar UFRGS, with funding from Capes.
español Entrevista con Hernán Díaz Alonso, basada en la investigación "La educación del arquitecto para el siglo 21 – Enseñanza del Proyecto de Arquitectura y Urbanismo al final el Curso", en desarrollo en el Propar UFRGS, con fondos de Capes.
como citar
Sérgio M. Marques.
“Entrevista com Hernán Díaz Alonso”.
Vitruvius entrevista, ed. 21.082. 2020.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7718
SCI-Arc e, à esquerda, o 438 – unit apartment complex, arquiteto Michael Maltzan Architecture (MMA), 2014
No campo do ensino superior e da pesquisa científica, já há mais de um século os Estados Unidos lideram os rankings de melhores instituições universitárias e os maiores índices de patentes, artigos e publicações científicas produzidas. Além das tradicionais instituições de ensino da Nova Inglaterra, como Harvard e M.I.T., Princeton em Nova Jersey, Yale em Connecticut e as Universidades de Nova York como Columbia e The Cooper Union, o ensino da arquitetura na costa oeste, em franco diálogo com a indústria da tecnologia, da moda e da cultura, seguidamente é apontado como o avant-garde da cena contemporânea. Ainda que na América Latina mudanças radicais no ensino superior, como o ingresso de multinacionais de ensino, com ações na bolsa, no outrora "mercado" dominado exclusivamente pelas universidades públicas e gratuitas e/ou privadas sem fins lucrativos, tenham trazido impactos negativos sem precedentes na qualidade, acompanhados pelo uso indiscriminado de novas tecnologias como o EAD, justamente conhecer o que pensam e o que praticam as instituições de referência no próprio contexto norte-americano parece ser uma necessidade estratégica.
Portanto, no sentido de construir uma visão crítica, não apenas recessiva, desde a margem vulnerável e ao sabor das mudanças de interesses de toda ordem, mas com intuito de entender a visão de futuro, de escolas e lideranças que ocupam a ponta destes movimentos e determinam tendências, é que parte desta pesquisa foi realizada. A Southern California Institute of Architecture SCI-Arc em Los Angeles figura frequentemente nos rankings internacionais como uma das cinco melhores faculdades de arquitetura do mundo. Com história semelhante à da Escola da Cidade em São Paulo – fundada por arquitetos com objetivo de inovar o tradicional ensino de arquitetura – e com investimentos pesados na infraestrutura e na pesquisa, a SCI-Arc, se não ocupa de fato uma condição de referência para a reflexão sobre o futuro da profissão e da educação do arquiteto, traz enorme produção e material para isto.
Favoreceu tremendamente o reconhecimento sobre as experiências da SCI-Arc a presença de seu atual diretor, o Arquiteto Hernán Díaz Alonso, nascido em Buenos Aires, Argentina, e formado em Rosário, mais ou menos da mesma geração. Neste sentido os paralelos com a América Latina e os contrastes com o contexto norte-americano se explicitam com clareza não só através de interpretações acadêmicas, mas pela experiência pessoal, principal condição perseguida pela pesquisa. Em um período letivo, visitamos a SCI-Arc, no Arts Districts em Los Angeles, uma área industrial dominada por fábricas desativadas e pavilhões de logística, atualmente em franca revitalização, como se pretende com o Quarto Distrito em Porto Alegre.
O Santa Fé Freight Depo, um prédio do início do século 20, projetado por Harrison Albright, foi adaptado para sediar a escola, antes localizada em Santa Monica, por um graduado da SCI-Arc e atual membro da faculdade, arquiteto Gary Page. O edifício, um pavilhão longitudinal de mais de uma centena de metros, é lindeiro ao 438 – unit apartment complex projetado por Michael Maltzan Architecture (MMA), em 2014, com tipologia aparentada aos pavilhões da vizinhança. O prédio da SCI-Arc, com sua longitudinalidade visível desde a generosa circulação que vertebra toda a escola, como uma rua interna, igualmente revela uma cena contemporânea. Os espaços flexíveis, a intercomunicação de áreas de trabalho com superfícies para exposições, circulações entremeadas por lugares onde constantemente acontecem críticas públicas de projetos acadêmicos, espaços recheados de maquetes, desenhos e peças de design produzidas pelos estudantes redobram a ideia de vanguarda da escola. Impressiona igualmente a disponibilidade de infraestrutura com postos de trabalho para estudantes, dotados de impressoras 3D individuais, maquetarias com robôs e outros recursos futuristas.
No dia da entrevista, um problema de agenda de Hernán nos obrigou, para esperá-lo, a comer um dos melhores hambúrgueres consumidos na Califórnia, servido na cantina da escola.
Santa Fé Freight Depo, projetado por Harrison Albright em 1907, adaptado para sediar a SCI-Arc por Gary Page em 2000
Entrada do SCI-Arc
Sérgio M. Marques: Caro Hernán, sou filho de um arquiteto das primeiras gerações da Arquitetura Moderna no sul do Brasil, perto da Argentina e do Uruguai. Meu pai foi um arquiteto prolífero nesta época e região... Tenho um livro com o tema de tese de meu doutorado que retrata esta geração (Livro FAM). É um presente para ti.
Hernán Díaz Alonso: Muito obrigado!
SMM: Bem, como curiosidade. É mais modesta que São Paulo e Rio mas é a Arquitetura Moderna no sul brasileiro.
HDA: Ui! Lindo... (olhando a REFAP no livro FAM).
SMM: Sim... É a arquitetura destes modernos que de alguma maneira sempre estava bem... A distância entre os melhores e os piores não era grande.
HDA: Mas isto aqui não é pouca coisa, hein? Onde é isto (REFAP)?
SMM: É uma refinaria de petróleo perto de Porto Alegre. Está há uns trinta quilômetros. Porto Alegre é mais ou menos mil e quinhentos quilômetros de Buenos Aires e novecentos quilômetros de Montevidéu.
HDA: É a cidade do Inter?
(Risos)
SMM: Sim. Eu vivo perto do Inter...
HDA: Era o time do Falcão. Fantástico!
SMM: O Rei de Roma. Este jogava muito. Está por lá ainda, maduro, mas segue. É um bom comentarista de futebol... Bem, introduzindo a questão, minha geração, que é mais ou menos a tua, foi a geração do Pós-Modernismo...
HDA: Eu nasci em 1969...
SMM: Ah, és um pouco mais jovem.
HDA: Não, não, mas isto passou comigo também. Na Argentina os professores jovens eram pós-modernistas e os antigos, modernistas. O Pós-Modernismo eu odiei durante toda a faculdade. E sigo odiando. Nunca soube bem por quê... Me ensinaram a odiar... Nesta época já estavam Aldo Rossi, Mario Botta, o teórico Taffuri, a Bienal de Veneza...
SMM: Sim, eu estudei arquitetura bem no momento da crise... Em parte, por esta razão é que estou fazendo esta pesquisa, para tentar entender a educação hoje, a arquitetura contemporânea e o futuro para a próxima geração (apontando para o Lucas)...
HDA: A educação dele? Esta pergunta eu não sei responder!
(Risos)
SMM: Então a pergunta de arrancada é: qual é sua opinião sobre o futuro de nossa profissão?
Circulação longitudinal e espaço de exposições, críticas e apresentações de trabalhos
HDA: Bem, vamos ver... Sempre as perguntas são simples e as respostas complexas... Te respondo em sequência: sou argentino, estudei a primeira parte da minha formação em arquitetura em Rosário, na Argentina. Nasci em Buenos Aires mas cresci em Rosário. Tive sorte pois nesta época havia uma onda muito interessante na cidade, com jovens arquitetos como Gerardo Caballero, Rafael Iglesias e Marcelo Villa, que eram uma via alternativa da arquitetura, com Miralles e Álvaro Siza...
Me parece uma discussão complexa, portanto te explico um pouco onde estamos em SCI-Arc e do contexto, para tentar responder para onde vamos. Fiz meu mestrado nos Estados Unidos e armei a minha carreira acadêmica aqui. Faz vinte anos que estou na América, portanto a maior parte de minha vida profissional foi nos Estados Unidos. O contexto acadêmico norte-americano é muito distinto do latino-americano. Aqui o ensino é uma indústria. Não são instituições no profit como na Argentina, sem fins lucrativos. É outra mentalidade. Custa muito dinheiro, há uma indústria de inovação, não só na arquitetura, mas em todo o sistema norte-americano, financiada por institutos como o de Soros, há investimentos e pressão por inovar. Como na SCI-Arc.
Apresentações de trabalhos de estudantes do undergraduate e graduate
A SCI-Arc nasceu em 1972 como um ato de rebeldia de seis arquitetos, que estão todos vivos (Ray Kappe, Thom Mayne, Jim Stafford, Glen Small, Ahde Lahti, e Bill Simonian). Alguns com repercussão a nível mundial, como Thom Mayne. A escola foi fundada com espírito de rebeldia e como alternativa para repensar o modelo de educação em arquitetura. Hoje se vê a escola muito distinta, mas o espírito segue. Então até onde vamos no futuro, ou até onde cremos que vamos, tem a ver com a tecnologia e com as mudanças culturais e sociais. Meu argumento é que os arquitetos são especialistas em ser generalistas. Ou seja, não somos especialistas em nada. Somos especialistas, como se diz, em "mal interpretar" tudo. Os arquitetos "mal interpretam" filosofia, artes, moda, música, desenho e nos apropriamos destes conhecimentos... Mas, para mim, isto pode ser uma virtude, não um defeito! Então eu creio que em um mundo onde todos vão para especializações, nós arquitetos temos a oportunidade de repensar que os edifícios não são a única coisa com que podemos contribuir para a cidade. A SCI-Arc até hoje tem sido uma escola de arquitetura sempre no limite, flertando com outras áreas. Uma escola de architectural thinking, de pensamento arquitetônico, onde os arquitetos têm uma maneira de pensar e que podem aplicar este conhecimento em outras áreas que não sejam apenas edifícios. Creio que o futuro da arquitetura tem muito a ver com isto.
Sei que muita gente na América Latina não vai gostar quando ler isto, ainda que o Brasil tenha sido sempre um pouco distinto da América Latina. Não só por linguagem, mas culturalmente falando, o Brasil tem ido sempre em seu próprio ritmo...
SMM: Pela dimensão poética?
HDA: Pelo tamanho do país, cultura, linguagem e uma série de coisas que fazem com que o Brasil tenha seu próprio mundo. Portanto quando falo em América Latina falo desde Argentina até México. Brasil eu não tiraria completamente fora, mas é distinto.
Então, eu creio que o futuro passa por entender que nós arquitetos temos a virtude de compreender o mundo de um modo geral e de aplicar este conhecimento em muitas áreas, como na inovação e na tecnologia. Na América Latina há muita resistência em relação a esta noção e me parece que é um erro. Por que a modernidade da geração do teu pai e dos arquitetos brasileiros foi tão importante? Porque eles sabiam conceitos que a cultura e a sociedade demandavam. Ainda que a sociedade não entendesse naquele momento, a modernidade. O moderno não foi um êxito imediato. Quanto tempo passou para que a sociedade aceitasse viver baixo as regras do Movimento Moderno no Brasil? Trinta anos? Quarenta anos? Mas os arquitetos tinham uma visão de como era o mundo e em que direção ele ia. E a arquitetura e os arquitetos empurravam a sociedade a repensar o mundo nesta direção.
Apresentações de trabalhos de estudantes do undergraduate e graduate
Me parece que o modelo neomodernista que agora se implantou na América Latina é um pouco impermeável em relação a isto. Tenho a impressão que lá vemos o arquiteto aprender a profissão apenas como uma questão de ofício, como um carpinteiro ou um sapateiro, e não como um agente cultural. Vemos arquitetura como ofício: "arquiteto constrói edifícios". Arquitetos não constroem edifícios! Arquitetos fazem projetos, desenhos, detalhes construtivos, especulam conceitualmente os espaços com materiais e passam estes documentos para alguém que constrói. Para mim parece um mito dizer que o arquiteto constrói. Não somos um carpinteiro que constrói uma mesa com suas mãos. Somos um agente cultural, que trata da cultura em relação ao capitalismo, aos investidores, ao Estado, seja quem for o promotor. O interesse que temos na SCI-Arc vai por este lado. Não que vamos abandonar os edifícios e achar que a arquitetura tradicional não existe mais. Mas não é suficiente.
Se olharmos o renascimento como origem da cultura ocidental, quando engenharia, medicina, arquitetura e advocacia eram as quatro carreiras tradicionais... Tu és jovem (Lucas) e tens hoje muito mais carreiras disponíveis. Eu tenho cinquenta anos, e quando tinha dezoito, não havia publicidade e outras carreiras contemporâneas... sim que havia na Argentina, mas eram inexpressivas. Predominavam as quatro carreiras tradicionais. Mas arquitetura é a única que não se diversificou. Hoje você não é apenas advogado. É advogado penal, criminal ou comercial. Engenheiro elétrico, civil ou mecânico. Médico o mesmo, neurocirurgião, etc. Arquitetura é a única que é apenas arquiteto. Oscar Niemeyer era arquiteto, e o que, em Nova York, faz arquitetura corporativa horrível para o mundo globalizado, também é arquiteto. É o mesmo título para todos e a mesma educação para todos. Não faz muito sentido se parar para pensar. Quando pensas em todas as possibilidades. Parece que o futuro passa por aí. Passa pela inovação, em absorver a tecnologia, o que a arquitetura sempre fez. A modernidade também aconteceu pelas mudanças tecnológicas, mudanças na construção e na comunicação. Para um arquiteto brasileiro podia chegar um livro de Le Corbusier. Isto no século 17 já não sucedia. Agora tem internet, smartphone...Tem tecnologia e comunicação. Já está provado que Le Corbusier foi ao Brasil, que conheceu a Pampulha e uh! Apareceu Ronchamp!
(risos)
Havia esta comunicação através de viagens de arquitetura globais, que começavam a surgir no princípio do século 20 também. Então não é nada novo. Por isso creio que arquitetura como educação perdeu o norte. É o que se vê no Brasil, Argentina, Chile e México, com todas estas escolas que hoje são modernistas. Reduziram a modernidade a um estilo. A modernidade não era um estilo. Era toda uma concepção cultural, intelectual e social de ver o mundo. Com um compromisso contemporâneo em fazer futuro.
Isto que fez teu pai, ele fez porque sabia fazer, e sabemos quando e por que ele fez. Mas depois de cinquenta anos, um arquiteto latino-americano que segue fazendo arquitetura assim, para mim não está bem. Ninguém sabe para onde vai o futuro, mas na universidade temos que empurrar os limites. O que significam inteligência artificial, movimentos de dados em real time, a volta da cidade-Estado, megacidades? A arquitetura de iPhone!É arquitetura! Provavelmente o designerda moda mais importante do mundo, Virgil Abloh da Off-White, é arquiteto, Tom Ford é arquiteto. A maioria dos grandes media artists,osmais influentes,são arquitetos. O líder do Samsung Research Lab, que é da SCI-Arc, é arquiteto. O diretor criativo principal da Nike, John Cook, é arquiteto. São formas criativas de arquitetura e muito rápidas, no contexto de hoje. A formação da arquitetura tem que ser mais culturalmente orientada. Temos que pensar nisto.
Desculpe se te dei uma resposta longa para uma pergunta simples, mas não há como responder isto objetivamente. E também acho que na universidade temos que saber dizer "não sei" para os estudantes. Não sei exatamente qual é o futuro...Temos que experimentar coisas... Não há fórmulas. Não sei como é na tua escola, mas estive na América Latina recentemente e os currículos que vi eram os mesmos de trinta anos atrás, quando estudei. No primeiro ano fazer uma residência, no segundo um museu, no terceiro um hospital. Não sei se há apenas isto para apreender...
Apresentações de trabalhos de estudantes do undergraduate e graduate
Exposição permanente de trabalhos acadêmicos
Sérgio M. Marques: Mas em termos de habilidades, e considerando o que estás expondo, em relação ao arquiteto atuando em outras áreas, isto não passa pelo domínio do projeto? O que o arquiteto aporta em outras áreas não é sua especificidade de dominar o processo de projeto?
Hernán Díaz Alonso: Sim! E entender também outras partes, já que arquitetura também é arte, ciência, sociologia, economia, psicologia... Há poucas disciplinas criativas que têm que manobrar com tantas variáveis. É diferente de um artista. Este produz obras de arte, depois vê se alguém compra ou não... Arquiteto nunca cria isolado, tem que atender um cliente público ou privado, tem que ser viável financeiramente, tem que entender como construir, que fará parte de uma cidade e suas necessidades sociológicas... Tem muitos "chapéus" para pensar. Tem que ter conhecimento de História, de Urbanismo, do tempo... Na moda tens que pensar na coleção da estação, porque depois de três meses já vem outra... Na arquitetura não podes fazer um edifício diferente por ano. É o peso do tempo...
SMM: É por isto que tenho outra dúvida: na América Latina, está em voga o tema da participação conjunta, as decisões são compartilhadas coletivamente e não pertencem mais a alguém que projeta ou planeja...
HDA: Eu não gosto disto. A ideia de desenho comunitário é um erro. Social Design é um erro. Imagina que tenhas um tumor cerebral. E o melhor cirurgião de São Paulo, chamado João Gilberto (risos), vai a tua casa e propõe que chames os vizinhos e os amigos para avaliarem a melhor maneira de tratares o câncer.
(Risos)
E nós arquitetos aceitamos isto com naturalidade? Estão loucos (risos)! Isto é um problema que a comunicação traz... A tecnologia traz coisas boas e coisas ruins. Hoje qualquer um opina. Qualquer um sabe. Por isto no tema da educação estou convencido de outra coisa: você e eu somos mais ou menos da mesma geração, não?
SMM: Sou sete anos mais velho...
HDA: Mas é a mesma geração, não importa. Fomos educados em depth of knowledge. Conhecimento profundo! Biblioteca, livros... A geração dele (Lucas) é density knowledge. Conhecimento por densidade. Tem acesso a tudo. É tanta informação que é difícil de entender. Na nossa época, história era com Bruno Zevi, modernidade era com Le Corbusier. Havia cânones. Agora nós como professores temos duas alternativas: ou nos colocamos como experientes dizendo que no nosso tempo o significado era este ou dizemos, OK, vamos ver como trabalhamos com esta densidade, vamos ver como isto pode ser uma oportunidade. Por exemplo, vejo que os estudantes da SCI-Arc sabem um pouco de tudo e não sabem muito de nada. Se perguntares a um deles qual seus quatro arquitetos favoritos dirão que não têm nenhum, o que na nossa época era impensável. Lucas, tu tens um arquiteto favorito?
Lucas C. M. Marques: Hum....
(risos)
HDA: Podemos discutir se isto é bom ou ruim. Mas temos que nos adaptar ao fato de que hoje o tempo e a maneira com que recebemos e distribuímos conhecimento são diferentes. Ninguém pode eleger quando mudar o tempo ou quando a cultura muda. As coisas mudam e temos que entender como operar dentro desta lógica. Isto me parece fundamental. Não estamos incorporando esta mudança com serenidade. Estas são as coisas boas e más da densidade. Da democratização do conhecimento. Na música, por exemplo, eu normalmente escutava um Long Play (vinil) inteiro. Não pulava de uma música para outra a cada minuto. Do Brasil eu gostava dos Paralamas do Sucesso. Então comprava um LP por causa de uma música ou duas e escutava inteiro várias vezes. E me dava conta, depois da quarta ou quinta vez, que havia outras músicas que também estavam bem... Então o conhecimento se acumulava de outra maneira. Hoje em dia com o smartphone,posso armar uma playlist com o que há de melhor dos Rollings Stones e escutar só isto. Mas eleger o que tem de melhor, também é bom. É outra forma de entender as coisas. Você (Lucas) escuta música de maneira distinta da que nós consumíamos. Qual é o equivalente disto em arquitetura? Passamos de profundidade para densidade. Temos que aprender como operar com isto. Como sofisticar a densidade. Como ensinar a eles que há tanto à disposição e eles têm que aprender a navegar entre o ruim e o bom.
E para mim boa e má arquitetura não mudam. Mas como se chega a isto muda.
Ateliês de Projeto abertos para a circulação longitudinal
Robot – House
Sérgio M. Marques: Eu trabalhei muitos anos no final do curso de arquitetura em Porto Alegre. Como está armado isto aqui na SCI-Arc?
Hernán Díaz Alonso: Estamos organizados em distintas maneiras. A escola tem quinhentos estudantes. Duzentos e cinquenta estão em undergraduate, com cinco anos, que chamamos de graduação na América Latina, duzentos estão em graduate, que seria especialização, e cinquenta em postgraduate, um ano,que seria mestrado na América Latina. Depois vem o PhD (doutorado).
Undergraduate (Bachelor of Architecture - B.Arch - program) tem um core education, umnúcleo de educação de três anos e meio com ateliês de projeto três vezes por semana e seminários semestrais, com orientações distintas (Liberal Arts, Architectural History and Theory, Visual Studies, e Applied Studies). Depois vem o advanced level onde mesclam todos os cursos, e no penúltimo semestre a preparação da tese final, dois estudantes por instrutor. No semestre final cada estudante escolhe seu orientador e pode escolher a temática de trabalho dentro de algumas opções oferecidas. Nenhum professor pode ter mais de seis estudantes.
Graduate há dois: M. Arch 01, que são três anos e meio e é para quem já tem undergraduate em outras áreas, como filosofia, artes, matemática etc. É uma espécie de bacharelado que se chama Master of Architecture degree(acreditado pelo National Architectural Accrediting Board).M. Arch 02 são dois anos e meio, para quem cursou o undergraduate em arquitetura.É um segundo professional degree muito popular entre arquitetos estrangeiros, pois ficam habilitados para exercer nos Estados Unidos, sem precisar fazer o postgraduate.
Nosso postgraduate não está acreditado, e é um post professional degree, para gente mais experiente que já estudou arquitetura. Temos quatro departamentos de postgraduate: um se chama Architecture of Technology, com robôs, Inteligência artificial etc., Architecture of the City, que tem a ver com a cidade mas não é desenho urbano, Architecture entreitaiment fiction, que é arquitetura mesclada com o mundo do videogame e do cinema, que é muito popular, e Architecture of Design of Theory and Pedagogy, para gente que se interessa em ensinar mas não quer fazer um PhD. E vamos lançar mais dois que serão Architecture for the Body, moda e Architecture Sinhetic Landscape, arquitetura para a paisagem, mas sem água, pois aqui na Califórnia não temos água (risos).
Então os trabalhos de conclusão são o undergraduate thesis,onde os trabalhos normalmente são projetos de arquitetura de edifícios. No graduate thesis há projetos de edifícios mas também projetos em outras áreas como cinema, moda etc. No postgraduate, (SCI-Arc EDGE, Center for Advanced Studies in Architecture) chamamos trabalho final de carreira. Todos estes níveis são similares na estrutura, mas com conteúdos e profundidades diferentes. Todos apresentam o trabalho final ao mesmo tempo, em alguns dias, o Thesis Weekend,onde há mais de oitenta convidados de todas as partes do mundo para avaliar.
SMM: E os convidados têm relação com os temas desenvolvidos?
HDA: Sim e não. Trazemos gente interessante. Gente interessante pode falar sobre qualquer coisa. Além de arquitetos, vêm advogados, artistas...
SMM: Sim, é um tema de densidade...
HDA: Sim!
SMM: Muito obrigado pela entrevista, Hernán. Podemos olhar algumas coisas da escola juntos?
HDA: Claro. E já te pergunto também de outras coisas do Brasil...
Fabrication Shop
Da esquerda para a direita, Lucas C. M. Marques, Hernán Díaz Alonso, Mônica L. Bohrer e Sérgio M. Marques
Hernán Díaz Alonso
Nascido em Buenos Aires, Argentina (1969), arquiteto formado em UNR Rosário, Argentina, mestre em Design Avançado de Arquitetura – GSAPP, Columbia University, Nova York. Arquiteto sênior da Eisenman Architects, Nova York. Professor na Columbia University (2004/2011). Fundou o escritório de arquitetura HDA-x em Los Angeles (2001). Professor de Projeto da SCI-Arc (2001), coordenador do programa de tese de pós-graduação (2007/2010) e presidente de programas de pós-graduação (2010/2015). Diretor e CEO da SCI-Arc (2015).
Sérgio M. Marques
Arquiteto e urbanista pela FAU UniRitter, mestre e doutor pelo Propar UFRGS. Professor do Propar UFRGS, Secretário executivo do Docomomo RS e diretor da MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Coordenador da pesquisa e da entrevista.
Mônica L. Bohrer
Arquiteta e urbanista pela FAU PUC-RS, mestre e doutoranda pelo Propar UFRGS. Diretora do BML8 Estúdio criativo e colaboradora da MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Colaboradora da pesquisa e da entrevista.
Lucas C. M. Marques
Arquiteto e urbanista pela FAU UniRitter, colaborador do Mapa Arquitetos e da MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Bolsista de iniciação científica FAU UniRitter, da pesquisa, na época da entrevista.
Entrevista
A entrevista foi realizada no dia 06 de fevereiro de 2019, na Southern California Institute of Architecture SCI-Arc, 960 East 3rd Street, Los Angeles, Califórnia, com a participação do entrevistado Hernán Díaz Alonso e dos entrevistadores Sérgio M. Marques, Mônica Bohrer e Lucas C. M. Marques. A série de entrevistas da pesquisa será publicada pelo portal Vitruvius e as já disponíveis são as seguintes:
Entrevista 02: MARQUES, Sérgio M.; BOHRER, Mônica L.; MARQUES, Lucas Canez M.. Entrevista com Hernán Díaz Alonso. O ensino no Southern California Institute of Architecture – SCI-Arc. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.03, Vitruvius, abr. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7718>.
Entrevista 04: MARQUES, Sérgio M.. Pierre Fernandez, l´Ecole Nationale Supérieure d´Architecture à Toulouse. Arquitetura, Meio Ambiente, a França e o Brasil. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 084.02, Vitruvius, out. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.084/7911>.
Produção
degravação e tradução da entrevista Sérgio M. Marques