português Entrevista realizada a partir da Pesquisa "A Educação do Arquiteto para o Século 21 – O Ensino do Projeto de Arquitetura e Urbanismo no final do Curso", em desenvolvimento no Propar UFRGS, com verba de custeio Capes.
english Interview based on the survey "Architect's Education for the 21st Century – Teaching the Architecture and Urbanism Project at the end of the Course", under development in the Propar UFRGS, with funding from Capes.
español Entrevista basada en la investigación "La educación del arquitecto para el siglo 21 – Enseñanza del Proyecto de Arquitectura y Urbanismo al final el Curso", en desarrollo en el Propar UFRGS, con fondos de Capes.
como citar
Sérgio M. Marques.
“Peter Eisenman in loco”.
Vitruvius entrevista, ed. 21.082. 2020.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7694
Peter Eisenman assinando o livro A Revisão do Movimento Moderno? Arquitetura no Rio Grande do Sul dos anos 1980de Sérgio Marques, do qual ele ganhou um exemplar com indicação de projeto seu incluído no livro
Fontes bibliográficas, textos e imagens com referências arquitetônicas sempre foram matéria-prima preciosa para o conhecimento de arquitetura. No entanto, na prática de projetos de arquitetura e no exercício do ofício, pessoalmente, desde cedo, aprendi com Le Corbusier e outros arquitetos viajantes que a visita in locoa obras referenciais, ou simplesmente a vivência em contextos urbanos distintos, trazem outro nível de percepção e aprendizado, próprio da experiência. Passei, portanto, boa parte de minha vida fazendo viagens arquitetônicas, muitas vezes condicionando familiares e acompanhantes em férias a este objetivo.
Nos últimos anos, dedicado à pesquisa no campo do ensino do projeto de arquitetura, em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Propar UFRGS, lendo material a respeito e participando de eventos da área, senti a mesma necessidade: ver in loco o que fazem e pensam professores/ arquitetos de projeto em outras instituições, em escolas referenciais e em seus escritórios. Conversar com "fontes bibliográficas" e "referencias arquitetônicas" ao vivo, visitar seus espaços de ensino e de trabalho e ouvir seus depoimentos sobre o futuro de nossa profissão tem sido uma fonte de compreensão da cena contemporânea igualmente preciosa. Durante três anos, com verba proveniente do Prêmio Capes de Tese, coloquei em marcha um plano ambicioso de visitas a instituições referenciais e professores/ arquitetos formadores de opinião, de diversos segmentos, gerações ou tendências. Após estadias em Toronto, Nova York, Troy, Boston, Cambridge, São Diego, Los Angeles, Santa Bárbara, São Francisco, Paris e Lima, nas missões de pesquisa já realizadas até agora e com algumas dezenas de entrevistados, o material recolhido e absorvido começa a permitir compartilhamento. Peter Eisenman talvez dispense apresentações, pelo menos aos da minha geração, mas para quem não vivenciou a crise da arquitetura moderna no Brasil, a partir do final dos anos 1980, vale a pena conhecer um dos grandes críticos e pensadores de arquitetura da segunda metade do século 20, bem como um dos exponenciais arquitetos da cena internacional, cujos textos e obras impactaram a cultura arquitetônica mundial por mais de uma geração. Esta entrevista, portanto, mostra um Peter Eisenman "sênior" e sua visão sobre as novas crises que se avizinham, mudanças contemporâneas e o futuro da arquitetura.
Entrada do escritório Eisenman Architects
Peter Eisenman mostrando seu escritório e explicando o projeto para o Yenikapi Archaeological Museum and Archeo Park, feito em parceria com Alper Aytac Architects, vencedor de concurso em Istambul em 2012
Sérgio M. Marques: A razão de estarmos aqui advém de uma pesquisa sobre a Educação do Arquiteto para o século 21 que estou desenvolvendo. Sou descendente das primeiras gerações de arquitetos modernos no sul brasileiro e filho de um representante desta vanguarda na região. Portanto me criei em contato com a arquitetura moderna. No entanto, quando estava na escola, nos anos 1980, esta arquitetura estava em crise, dentro do chamado pós-modernismo, o qual me pus a estudar para entender o fenômeno. Peter Eisenman era uma referência importante. Depois de estudar o pós-modernismo no mestrado, estudei o movimento moderno no doutorado. Agora sou professor e participei da elaboração de projetos pós-modernos e modernos com meu pai... Meu filho Lucas é estudante de arquitetura e vivemos outras crises, com mudanças importantes na tecnologia, meio ambiente, economia, política etc. Portanto minhas questões consistem em conhecer sua opinião sobre a cena contemporânea, o futuro da educação em arquitetura e a formação necessária para o ofício e qual sua percepção sobre as novas gerações.
Peter Eisenman: Meu sentimento em relação à geração Millennium é a seguinte: sinto que, em geral, nos Estados Unidos e na Europa os jovens pensam que já sabem o que precisam saber. Não necessitam ser ensinados. Eles não precisam aprender nada porque já sabem o que necessitam... Apesar de não saberem nada, certo (risos)? Esses grupos de pessoas são realmente difíceis de ensinar. Porque não acreditam em conhecimento. Em outras palavras, eu ensino há cinquenta anos e escuto dizerem: "não nos importamos com o que vocês sabem. Nós sabemos o que precisamos saber. Não precisamos que vocês nos ensinem". Então essa é uma situação realmente difícil, especialmente em uma escola como a Universidade de Yale, onde eu leciono. Onde todos os alunos são ainda mais que Millenniums. São Millenniums ricos, certo? Então eles não apenas acham que sabem tudo, mas sabem melhor do que ninguém! Portanto você tem alguns alunos realmente muito difíceis... Eles acham que não precisam conhecer a história. Eles só precisam conhecer técnicas, saber como rodar um computador, conhecer o software, eles precisam saber construir sistemas de informação...
SMM: Atuar em ambientes virtuais.
PE: Sim... sim.... Então o que eu defendo, o que eu ensino, é algo que é referência na maior parte do que já foi discutido antes. Para mim, arquitetura e educação em arquitetura estão em uma espécie de crise, como na política. Se você olhar para a política deste país ou da União Europeia ou da América do Sul... Acho que a democracia, não o capitalismo tardio, mas a democracia não consegue mais competir com o populismo nacionalista, porque o populismo nacionalista diz que a democracia não está nos trazendo o estilo de vida que precisamos, o tipo de emprego que precisamos, o tipo de informações de que precisamos. Assim este país está se voltando contra os sistemas democráticos. Outro dia o presidente disse que temos que ter uma verdade alternativa... Mas que diabo? Isso é voltar ao fascismo... Quero dizer, vocês todos no Brasil sabem sobre essas coisas tão bem quanto eu.
SMM: Sim...
PE: Então, a democracia no Brasil é muito frágil, mas está se tornando ainda mais frágil neste país. E na Europa. Hoje mesmo me comentaram, sabe, porque eu fiz o Memorial do Holocausto em Berlim, e o partido alemão de direita disse: não queremos mais esse memorial em Berlim. Nós queremos destruí-lo! O mundo está mudando...
SMM: Sim. Muito rápido.
PE: O medo... Veja, o nacionalismo, seja fascismo ou comunismo, é contra o globalismo. Globalização é o que o nacionalista populista enxerga como um problema. Que trabalhar com a China, com países muçulmanos é um problema. Existe esse sentimento geral de que não queremos mais fazer isso, queremos nos fechar... E então acho que são tempos muito estranhos. Veja a Grã-Bretanha, a Alemanha, olhe para a França, a Itália, veja os Estados Unidos... E você pensaria que um país grande e poderoso como o Brasil não teria problemas, e ainda assim está sempre tendo problemas políticos, econômicos. Constantemente... Então, ensinar é o mesmo. Como lidamos com a educação arquitetônica? O verdadeiro problema atual é: como lidamos com as situações sociais e políticas? Estruturas que suportam, supostamente, a arquitetura.
Portanto penso que é um momento muito difícil. Eu ministro um curso sobre a evolução da teoria no século 17 na Itália, porque eu não sei nada da atualidade que eu possa ensinar, quero dizer, as coisas que acontecem no mundo são malucas... Você sabe, não há nada que substitua o movimento moderno, quer dizer, ele foi substituído, mas nenhuma estrutura ideológica, cultural ou social substituiu o modernismo. Então eu não tenho resposta para a sua pergunta!
(risos)
Quero dizer, eu pensava que tinha várias respostas, porém eu não sinto mais isso, e é muito difícil. Hoje eu acho muito difícil ensinar, antes de tudo, porque eu sou mais velho, e os alunos dizem que ideias europeias são ideias antiquadas. Se você quer ideias jovens, então você quer professores que não sabem de nada...
(risos)
Portanto não posso fazer nada, além de dizer: Ei! Ainda acredito em arquitetura, ainda acredito no ensino, ainda acredito na possibilidade da democracia e não sou populista. Esse tipo de novas ideias, pensamentos coletivos que, você sabe, ouvimos todo mundo e eles nos dizem o que fazer... Não há perícia, então eu não acredito nessas coisas. Acredito que temos que ter escolas de excelência, temos que ter profissionais de excelência, temos que ter pessoas que sabem o que é bom e o que é ruim. E temos que ter certos valores ou temos que ter certas verdades. Meus alunos, por exemplo, não sabem quem é Bob Venturi (risos). Como você pode fazer qualquer coisa hoje se não sabe quem é Bob Venturi? Eles não sabem quem é Aldo Rossi!
(risos)
Quem é Aldo Rossi? Perguntei aos alunos na semana passada, uns vinte e oito, vinte e nove estudantes. Talvez dois ou três sabiam. Eu acho importante, eles precisam saber quem é Aldo Rossi, precisam saber quem é Jim Stirling, precisam saber quem é Bob Venturi, se não sabem, como podem fazer alguma coisa? Eu disse ao meu reitor: olha, nós temos que dar a eles um curso sobre o que é arquitetura, onde estamos, quem foram os mestres. Esqueçam de saber quem é “Chenko”, ou quem é “Ladú”, ou saber de qualquer figura do século 19. Eles não conhecem as figuras do século 20! Eles mal conhecem Adolf Loos, sabia? Portanto, não pode haver visão sem conhecimento. Mas eu sigo muito otimista comigo mesmo, porque realmente não me importo com o que as pessoas dizem. Eu, você sabe, escrevo meus livros, (bate na mesa), construo meus edifícios, tenho bons projetos a fazer... Então, eu escrevo, ensino, projeto e construo. Isto é tudo o que um arquiteto pode fazer.
Maquete de estudos do projeto, feita no escritório de Peter Eisenman
Peter Eisenman e Sérgio Marques durante a entrevista
Peter Eisenman: Você evidentemente escreve, evidentemente ensina e eu presumo que você também constrói.
Sérgio M. Marques: Sim.
PE: Então, você tem sorte.
(risos)
SMM: E ainda tenho meu filho...
(risos)
PE: Sim, mas não estou tão certo quanto a isso...
(risos)
PE: Quero dizer, para você isso é importante, eu também tenho meu filho. Mas eu não o deixaria ser um arquiteto ...
(risos)
PE: Não é tão bom... Então você (Lucas) terminou a escola?
Lucas Canez M. Marques: Não, eu estou no terceiro ano.
PE: terceiro ano... E é Programa de bacharel?
LCMM: Sim.
SMM: Mas no Brasil é diferente, ainda temos a formação generalista. Não temos programas de mestrado para habilitação de exercício profissional.
PE: Ah, você não tem mestrado em arquitetura?
LCMM: Não. Nós temos mestrado em arquitetura, mas é mais acadêmico. Nós não temos undergraduate e graduate, temos apenas o curso de cinco anos.
SMM: Na graduação, urbanismo, arquitetura e paisagismo, é tudo um mesmo programa.
PE: Então, somos iguais... Cinco anos e você obtém uma licença profissional... Mas você não pode ensinar neste país sem um mestrado. E vocês quando terminam seus cinco anos, se quiserem ensinar?
LCMM: Dois anos de mestrado.
PE: Onde? No Brasil?
Mônica L. Bohrer: No Brasil. Sim.
PE: Ah... OK.
LCMM: E depois o doutorado (PhD).
PE: Entendo.
SMM: Este foi meu mestrado (mostrando o livro que está sobre a mesa), sobre a Revisão da Arquitetura Moderna no sul do Brasil. Depois fiz meu doutorado com Comas e Helio Piñón, sobre a Arquitetura Moderna Brasileira no Sul.
PE: Oh. Helio. É meu amigo de Barcelona. Ele é um cara brilhante. Então, quando você terminou seu doutorado?
SMM: Em 2008, com uma pesquisa sobre a geração do meu pai.
PE: Então ele (Lucas) estava com você em Barcelona?
LCMM: Sim. Eu fui lá algumas vezes... Quando eu era bem jovem.
PE: Eu tenho que dizer, eu tenho uma ex-esposa e quatro filhos. Não há arquitetos... Não há estudantes de arquitetura. Nenhum. Não é permitido!
(risos)
PE: Melhor ser um banqueiro, advogado, você sabe ...
MLB: Para ganhar dinheiro, sim.
PE: Isso, melhor. Arquitetos não ganham dinheiro algum...
SMM: Não...
(Risos)
PE: Então você (Lucas), meu único conselho, você não me pediu, mas eu vou lhe dar: O mundo em geral, globalmente, está muito bem conectado. É muito difícil permanecer brasileiro. É muito difícil pensar em sua vida futura apenas em português, certo? Meu conselho, e eu já disse isso a todos os meus filhos: precisam obter um diploma de mestrado. Porque no futuro todos os matutos vão ter o graduate, certo? Em vinte anos vai ser inútil, está bem? Estou dizendo que você deve obter um mestrado. E você deve obter um mestrado fora do Brasil. Que seja nos EUA, Suíça, Grã-Bretanha, um desses lugares.
Eu estou falando sério. Eu não me importo se você quer ensinar ou ser arquiteto, estou te dizendo e digo isso a todos os meus filhos. O bacharelado agora é para qualquer um e você precisa fazer um mestrado apenas para se manobrar no novo mundo. Isso vai acontecer e acho que é algo novo. Mas acho que é importante para você, não porque você quer ensinar ou ser arquiteto.
LCMM: Certo. É só para entender o básico…
PE: O básico! Digamos que você queira vir para Nova York para trabalhar... Seria muito difícil agora encontrar um emprego em um escritório, um bom escritório, que o contratasse apenas com o diploma de cinco anos. Eles querem um mestrado. E isso é importante se você quer trabalhar em Nova York ou na Alemanha, Inglaterra etc. Número dois: também para obter um visto, porque os vistos não são mais tão fáceis. Não apenas para brasileiros, mas para norte-americanos também. Meus alunos têm dificuldade em obter vistos na Alemanha ou na Grã-Bretanha para trabalhar, mesmo com mestrado. Costumava ser muito mais fácil. Eu tenho grandes amigos como Rafa Moneo e tivemos dificuldades em obter um visto para que um aluno meu pudesse trabalhar, mesmo com um mestre como ele. Então a situação é cada vez mais difícil. O que eu apenas insisto é: termine os cinco anos e vá, o mais rápido possível, para qualquer lugar. Seja na Inglaterra, Alemanha, Suíça, para qualquer país onde você pode estudar, fazer um mestrado.
LCMM: Certo.
PE: Esse é o meu único conselho.
LCMM: Ok. Obrigado.
(risos)
SMM: É bom para mim também, porque ele é muito caro...
PE: Filhos são sempre muito caros.
(risos)
PE: Então, é isso. E não importa onde. Acho que Nova York é um lugar para vir, acho que Londres é um lugar para ir, acho que Zurique na Suíça, Milão, Berlim, vários lugares. A esposa do meu colega é portuguesa, e ela está fazendo doutorado, na Columbia. Ela é de Portugal e passou por um período muito difícil, porque para obter um visto, ela tinha que ter PhD. Ela trabalhou por cinco anos antes de ingressar no PhD. Ela trabalhava no meu escritório, mas naqueles dias, quinze anos atrás, era fácil conseguir um visto, agora não é nada fácil. O problema não é apenas por causa de Donald Trump, é porque o mundo em geral está assim. E se gaba disto...
Eu não sei a reciprocidade entre Portugal e o Brasil, se você pode se formar e ir trabalhar em Portugal...
LCMM: No Brasil também é muito difícil validar diplomas internacionais, mestrado ou doutorado. Curiosamente a recíproca é mais fácil.
PE: Sim, mas você consegue trabalhar permanentemente naquele país?
SMM: Acho que não.
PE: Que tal construir no Brasil agora? É fácil?
SMM: Agora também estamos em crise.
PE: Financeira? Econômica?
SMM: Sim. E política.
PE: Como é possível que um país tão rico em minerais e recursos etc. Por que vocês estão sempre em crise?
LCMM: Bem, você respondeu a essa pergunta: populismo, esse é o problema.
PE: Eu não achava que havia corrupção no Brasil.
(risos)
PE: Não, estou falando sério. No México eu sei, também na Argentina? Chile?
LCMM: É complicado. Mas acho que talvez a Argentina e o Chile estejam melhor agora.
PE: Mas é fácil mudar?
LCMM: Sim. Talvez...
PE: A Colômbia está com problemas. A Venezuela está com problemas.
LCMM: O nível de instabilidade que o Brasil está neste momento é impressionante ...
PE: Incrível! É um país enorme e rico. Como isso é possível? Sério, eu tenho esta dúvida...
LCMM: Na verdade, é uma pergunta muito difícil de responder, quero dizer, há um nível de incompetência enorme nos últimos anos...
PE: Qual porcentagem da população que vai para a universidade? Cinquenta por cento?
MLB: Quinze... talvez dez por cento.
PE: Estamos falando de universidades públicas, não sobre as universidades católicas ou privadas.
LCMM: Então menos. As universidades públicas estão entre as melhores no Brasil, mas elas são muito restritas. É tão difícil entrar que predomina a elite...
MLB: E a educação básica pública é muito ruim.
PE: Por que isso?
MLB: Talvez seja uma forma de favorecer o populismo...
PE: Mas este é um país muito antiquado... Então vocês acham que o Brasil não é um país de primeiro mundo? Deveria ser!
LCMM: Tem potencial para ser, sim. Mas não é. Por ser extremamente malconduzido, e com corrupção em larga escala...
PE: Quando estive em São Paulo, dez anos atrás, eu não pude andar nas ruas. Tive que ser conduzido em carro, porque eles estavam com medo de andar nas ruas...
SMM: O Brasil também é uma democracia muito jovem...
PE: Sim. Mas é uma democracia rica...
LCMM: É uma democracia rica, sim. Mas é que saímos de uma ditadura...
PE: Eu sabia disso. Mas antes da ditadura havia uma democracia, não?
LCMM: Sim. Sim. Mas veio de uma monarquia independente de quase cem anos. A república só começou no final do século 19.
PE: Certo. Eu não sabia disso, mas ainda assim, em mais de cem anos de república, quero dizer, nossa república só começou cem anos antes. A República alemã foi o mesmo. Quero dizer, são repúblicas relativamente velhas.
LCMM: Sim, mas o fenômeno era que nos anos quarenta, o medo do comunismo era tão grande...
PE: Você está certo. Bem, eles tinham o mesmo em Portugal e Espanha, com o medo do comunismo.
LCMM: Sim, mas eles não eram uma colônia (risos). Eles foram impérios enormes diante das colônias.
PE: Então havia uma forte ameaça comunista nos anos quarenta?
LCMM: Não, não havia... Não havia nenhuma ameaça real, mas havia o medo disso...
PE: Entendo. Porque era forte no México. O México tinha um forte comunista...
Peter Eisenman e Lucas Marques durante o bate-papo
Mônica Bohrer e projetos de Peter Eisenman em andamento;
Sérgio M. Marques: E para exercer o ofício, fazer projetos, ter um escritório, o que você acha que é importante hoje em dia?
Peter Eisenman: Bem, antes de tudo, eu sou uma pessoa excêntrica no contexto do mercado, quero dizer que sou uma pessoa muito específica. Não somos grandes escritórios profissionais como Skidmore, Owings e Merrill, KPF ou IM Pei. Eles ainda são gigantes, você sabe, têm milhares de colaboradores. Eles fazem muitos trabalhos grandes, prática global, no Oriente Médio e Extremo Oriente. Essas pessoas têm escritórios enormes em Pequim e filiais em vários outros locais. Então eu só posso falar sobre o tipo de prática que eu tenho e que está realmente na margem...
SMM: Entendo... E em relação às questões estéticas?
PE: É disso que se trata minha prática, de questões estéticas! Quando eu ensinava nos anos sessenta e setenta, tínhamos autoridade, havia Le Corbusier, havia Mies Van der Rohe, havia Venturi, Rossi e Stirling. Sempre havia uma referência que os alunos procuravam. E você podia colocar o livro de Le Corbusier em cima da mesa, podia colocar o livro de Aldo Rossi, ou Manfredo Tafuri. Agora não temos estética no mundo acadêmico. Nenhuma norma, nenhuma autoridade. Não há ninguém que tenha peso. Você não pode ensinar, quero dizer, eu não posso ensinar a Zaha Hadid... Essas coisas são loucas, certo?
(risos)
PE: Totalmente maluco, certo? E você não pode ensinar Bjarke Ingels... A propósito, você deveria ver o prédio dele no lado oeste, é interessante ver. E Frampton vai te dizer as mesmas coisas, quero dizer, nós somos muito próximos e da mesma idade. Creio que atualmente não há autoridade na arquitetura. Acho que há outros interesses nos alunos. Eles querem algo que os prepare para conseguir um emprego. Precisam conhecer BIM, precisam conhecer o Revit, precisam saber dos softwares, precisam saber como escrever algoritmos, coisas técnicas, informações em tecnologias. Então, estamos nessa situação, tipo, qualquer universidade é a mesma coisa, os estudantes querem saber como vão conseguir um emprego. E para conseguir um emprego, precisam ter um grau técnico avançado. Necessitam conhecer sustentabilidade, precisam obter certificados LEED, precisam de todos os tipos de coisas que não me interessam como arquiteto...
Na verdade, não interessam a muitas pessoas como arquiteto. Como Bernard Tschumi ou Rem Koolhaas. Há certos arquitetos assim em todo o mundo, mas, eles são muito diferentes. Você não poderia escrever este livro hoje ("A Revisão do Movimento Moderno? Arquitetura no Rio Grande do Sul dos anos 1980" de Sérgio, que estava sobre a mesa), porque, antes de tudo, ninguém iria lê-lo. Ninguém está lendo livros. Número dois: ninguém publicaria em inglês o que estou falando (bate na mesa). Porque o clima mudou. Nós elegemos um tolo. Somos um dos países mais poderosos do mundo e temos um idiota para presidente. E claramente deve haver mais idiotas do que pensávamos...
(Risos)
PE: E agora eu vivo assim, o que posso lhe dizer? Linguagem, linguagem... eu não posso falar sobre o mercado e o contexto de escritório, e eu não acho que Ken Frampton também será capaz de lhe falar. Talvez o pessoal da RPI (Rensselaer Polytechnic Institute) saiba mais. O que posso dizer? O reitor é um cara muito bom na RPI e talvez ele saiba mais. Nós atualmente estamos fazendo isso (apontando para um projeto preso na parede). É um edifício que estamos fazendo em Istambul. Trinta e cinco mil metros quadrados. É um grande museu arqueológico.
SMM: Foi um concurso?
PE: Sim, foi um concurso. Que vencemos. Esse é um modelo de trabalho decente. Este vai ser construído. À esquerda estamos vendo outro projeto em Istambul e um projeto em Milão, Itália. Temos um projeto na Cidade do México. Então, eu não quero muito trabalho... Eu tinha um escritório grande, com trinta, quarenta pessoas, mas eu não quero mais isso. Com seis ou sete pessoas agora é suficiente, porque eu não faço projetos executivos. Temos arquitetos associados que fazem o projeto executivo e os cálculos. Você não precisa estar em Istambul para controlar o que eles estão fazendo lá. Eles têm um escritório com cem pessoas e podem produzir mil e seiscentas folhas de desenhos de obra, quero dizer, eu não estou interessado em fazer isso. Revisamos este material, mas é isso basicamente. Existem vários escritórios que não fazem mais desenhos de construção, eles apenas fazem o que é chamado de desenvolvimento de design e entregam para outros escritórios fazerem o projeto executivo. Porque é muito caro, muito tempo etc.
Projetos de Peter Eisenman em andamento
Peter Eisenman e Sérgio Marques durante a entrevista;
Peter Eisenman: Quanto tempo vocês ficam em Nova York?
Sérgio M. Marques: Até segunda-feira. Amanhã visitaremos Kenneth Frampton e Mary McLeod na Columbia.
Lucas Canez M. Marques: Ontem nós entrevistamos Guido Zuliani na The Cooper Union.
PE: Ele trabalha comigo!
SMM: Nós conversamos sobre isso.
PE: Você o entrevistou em espanhol ou em inglês?
SMM: Em inglês.
PE: Ok. Porque a esposa dele é a portuguesa que trabalhou comigo. E depois vocês estão indo para onde?
SMM: Na Rensselaer em Troy.
PE: Por que razão?
SMM: Nós temos um amigo que ensina lá. Ficamos lá por dois dias e depois vamos a Boston. Então, Harvard e MIT.
LCMM: E nós viemos de Toronto onde fizemos a mesma coisa, fomos para a Universidade de Toronto e Ryerson.
PE: Em Ryerson eles têm um bom programa. Temos alunos intercambistas, tanto da Ryerson quanto de Toronto. E Toronto é uma grande cidade. Eu realmente gosto muito. É uma grande cidade moderna. RPI, Troy, eu nunca estive lá na verdade. Bem, o Estado de Nova York é muito pobre, quero dizer, a cidade de Nova York tem toda a riqueza e o resto do Estado tanto faz. É como no Brasil...
LCMM: Sim, viemos aqui de trem, então vimos o interior...
PE: Vocês vieram de trem? Nós matamos nosso sistema ferroviário... foi uma escolha terrível. Muito perigosa. Terrível... Então, quem vocês vão ver em Harvard?
SMM: Um contato de Robert Levit da Universidade de Toronto. Mas Harvard foi difícil...
PE: Então, vocês não estão sentindo falta de Yale?
LCMM: Estamos sentindo falta de Yale sim.
(risos)
PE: É uma pena que vocês não possam parar em New Haven. É um lugar muito bom, uma universidade legal. Mas o MIT é muito bom também. Quero dizer, se você está vendo Cooper Union, Columbia, RPI, MIT, Harvard, isso é bom. Mas você perdeu Princeton... que era muito importante, e Yale. Yale e Harvard são concorrentes...
De qualquer forma, deixe-me pegar uma caneta e eu assinarei seu livro.
SMM: Eu tenho!
PE: Você tem uma caneta? OK. As duas canetas.
SMM: As duas (risos)?
PE: As duas. Por que não? (assina o livro com duas canetas simultaneamente).
SMM: É uma honra.
PE: Lá vai você.
SMM: Muito obrigado.
PE: De nada.
SMM: Obrigado pelo seu tempo, Peter, é um ponto de partida extraordinário para a pesquisa.
(fim do registro).
Peter Eisenman, Mônica Bohrer e Lucas Marques
Peter Eisenman
Bacharel em arquitetura pela Cornell University, mestre pela Columbia University, mestre e doutor pela Universidade de Cambridge. Doutor honorário pela Universidade de Illinois, pelo Pratt Institute e pela Syracuse University. Doutor honorário pela Università La Sapienza em Roma. Professor em Yale e diretor da Eisenman Architects.
Sérgio M. Marques
Arquiteto e urbanista pela FAU UniRitter, mestre e doutor pelo Propar UFRGS. Professor do Propar UFRGS, Secretário executivo do Docomomo RS e diretor da MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Coordenador da pesquisa e da entrevista.
Mônica L. Bohrer
Arquiteta e urbanista pela FAU PUC RS, mestre e doutoranda pelo Propar UFRGS. Diretora do BML8 Estúdio criativo e colaboradora da MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Colaboradora da pesquisa e da entrevista.
Lucas C. M. Marques
Arquiteto e urbanista pela FAU UniRitter, colaborador do Mapa Arquitetos e da MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Bolsista de iniciação científica FAU UniRitter, da pesquisa, na época da entrevista.
Entrevista
A entrevista foi realizada no dia 25 de janeiro de 2017 no Escritório Eisenman Architects, 41 W 25th St. New York, com a participação do arquiteto Peter Eisenman, e os entrevistadores Sérgio M. Marques, Mônica Bohrer e Lucas C. M. Marques. A entrevista foi realizada a partir da Pesquisa "A Educação do Arquiteto para o Século 21 – O Ensino do Projeto de Arquitetura e Urbanismo no final do Curso", em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Propar, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, com verba de custeio Capes. A série de entrevistas da pesquisa será publicada pelo portal Vitruvius e as já disponíveis são as seguintes:
Entrevista 01: MARQUES, Sérgio M.; BOHRER, Mônica L.; MARQUES, Lucas Canez M. Peter Eisenman in loco. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.01, Vitruvius, abr. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7694>.
Entrevista 02: MARQUES, Sérgio M.; BOHRER, Mônica L.; MARQUES, Lucas Canez M.. Entrevista com Hernán Díaz Alonso. O ensino no Southern California Institute of Architecture – SCI-Arc. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.03, Vitruvius, abr. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7718>.
Entrevista 04: MARQUES, Sérgio M.. Pierre Fernandez, l´Ecole Nationale Supérieure d´Architecture à Toulouse. Arquitetura, Meio Ambiente, a França e o Brasil. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 084.02, Vitruvius, out. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.084/7911>.
Produção
degravação e tradução da entrevista Vicente Barreiros, Bolsista de iniciação científica FAU UniRitter na época da entrevista.