português O Caá Porá, estúdio com experiências consolidadas na Amazônia equatoriana, está diretamente envolvido em três áreas de atuação: pesquisa social, projeto arquitetônico e execução de projetos culturais e turísticos em diferentes escalas.
english Caá Porá, a studio with consolidated experiences in the Equadorian Amazon, is directly involved in three areas of activity: social research, architectural design and execution of cultural and tourism projects at different scales.
español Caá Porá, un estudio con experiencias consolidadas en la Amazonía ecuatoriana, participa directamente en tres áreas de actividad: investigación social, diseño arquitectónico y ejecución de proyectos culturales y turísticos a diferentes escalas.
como citar
Oscar Eduardo Preciado Velasquez.
“Processos de diversidade nas práticas projetuais”.
Vitruvius entrevista, ed. 21.082. 2020.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7784
Napo Cultural Center, maquete eletrônica, Comunidade Kichwa Añangu, Parque Yasuní, Província de Orellana, Equador, 2019. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Caá Porá é um estudo transdisciplinar de arquitetura equatoriana iniciado em 2013, liderado por Paula Izurieta, arquiteta equatoriana e Gabriel Moyer-Perez, arquiteto norte-americano morando no país há mais de dez anos. O trabalho de Caá Porá começa com os vínculos que Santiago del Hierro, um arquiteto equatoriano com reconhecida trajetória em pesquisa, teve com as comunidades originarias Kichwa Añangu, como parte de sua participação no Plano para a Zona de Influência do Corredor Manta Manaus – ZIMM-S, onde por recomendação desse arquiteto, iniciam sua prática com o projeto da Torre do Napo Wildlife Center, uma ampliação de um lodge comunitário, gerenciada pela mesma comunidade originaria, localizada dentro do Parque Nacional Yasuni, na Riviera do Rio Napo, Província de Orellana, no Equador (1).
O grupo Caa Porá está diretamente envolvido em três áreas de atuação: pesquisa social, projeto arquitetônico e execução de projetos culturais e turísticos em diferentes escalas (2) em várias regiões do Equador. Um desses projetos de pesquisa finalizou na execução de um espaço cultural denominado Palenque Cultural Tambillo, projeto realizado em conjunto com comunidades quilombolas equatorianas, com oficinas participativas, nas quais foram coletados dados sobre as origens dessas comunidades afro-equatorianas, sua diáspora da África, aspectos técnicos dos materiais e técnicas ancestrais de construção, bem como a semântica relacionada a esses tópicos.
A experiência dos jovens arquitetos de Caá Porá pode servir de inspiração e demonstração comprovada para as novas gerações de profissionais da importância de assumir uma posição que reconheça e aperfeiçoe as técnicas locais de construção de origem ancestral, que, no caso desse grupo, também se tornou um nicho de trabalho diário, com ganhos para a comunidade e para o grupo de arquitetos.
Torre de Napo Wildlife Center, Comunidade Kichwa Añangu, Parque Yasuní, Província de Orellana, Equador, 2015. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Estou gravando novamente no escritório de Caá Porá, em Quito, devido a um problema técnico. A gravação foi enviada para um servidor na nuvem e o link se extraviou, e a verdade é que eu queria aproveitar o trabalho deles de alguma forma para resenhá-lo em minha pesquisa e também mostrá-lo à equipe do grupo de estudos no Brasil. Vou ler algumas coisas... (como já falei) aqui está a Paula Izurieta, ela é arquiteta da Universidade Católica aqui em Quito, trabalha com Gabriel Moyer, eles são do grupo Caá Porá e também está a Nicole Andrade, arquiteta, também da Católica, que apoia eles aqui no escritório.
Em princípio, agradecer vocês por me permitir estar aqui. Acho que seu trabalho deve, de alguma forma, ser mais divulgado porque representa várias coisas, ele está enquadrado dentro de um conceito que é arquitetura da comunidade, (segundo alguns autores) existe arquitetura para a comunidade, da comunidade e com a comunidade, acho que a sua é mais da comunidade e se entende como um processo pelo qual a comunidade chama vocês para fazer a arquitetura deles. Então já por aí, o seu trabalho envolve várias coisas. Acho que envolve uma reinterpretação das técnicas vernaculares da população, a arquitetura tradicional dos povos indígenas do Equador. Há uma coisa interessante e é que são práticas que podem ser chamadas de desmodernizantes, porque saem fora desse ideal da arquitetura moderna, em direção a esse trabalho do arquiteto da modernidade e, reinterpretação, porque de alguma forma vocês se inserem na dinâmica diária dessa população. Lembro que, na entrevista que foi feita inicialmente, o Gabriel comentou comigo que vocês faziam um mapeamento coletivo das atividades diárias dessas pessoas.
Paula Izurieta: A ideia é como que sempre percebemos que eles nunca concebem graficamente sua comunidade. Isto é, onde estão as casas, a casa comunal, o campo de futebol, a pista de decolagem, então para nós é muito interessante que, quando nós estamos reunidos pela primeira vez, é também a primeira vez que eles desenham a sua comunidade. Que eles compreendem gráfica e espacialmente e até em escala o Rio, onde fica a estrada, onde estão os embriões, onde estão os ceibos. Essa relação entre a natureza em que vivem e sua comunidade é muito importante, porque os nossos marcos urbanos não são os mesmos que eles têm na selva, por exemplo. Para eles, é muito importante os ceibos, por exemplo, então eles sempre dizem: aqui neste momento temos cinco ceibos em tantos hectares. De certa forma, eles vão entendendo sua escala de acordo com esses pontos, desses marcos importantes, que talvez para nós não são assim, mas para eles sim, então é muito importante esse momento deles fazerem essa expressão gráfica, na qual pela primeira vez desenham sua comunidade e expressam graficamente onde ela está e a espacialidade. Para nós é muito importante porque também assim entendemos o que é para eles o mais importante. Eles também fazem pequenos desenhos, quando significam uma coisa, quando eles fazem grandes desenhos, significam outra. Por exemplo, eles sempre desenham o ceibo muito grande, porque é um marco para eles, então ali vamos analisando os desenhos para entendê-los.
Torre de Napo Wildlife Center, Comunidade Kichwa Añangu, Parque Yasuní, Província de Orellana, Equador, 2015. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
OEPV: Eu acho isso muito interessante. Esse trabalho que vocês fazem, independentemente de haver lucro ou não, mas o trabalho que vocês fazem primeiro para ajudar às comunidades a se reconhecerem, para ajudar às comunidades a reinterpretar seu espaço, a se entenderem espacialmente, acho que tudo isso tem que ser estudado em profundidade, muitas coisas estão acontecendo lá. Continuando um pouco, há uma troca de posições e de hierarquias, ou seja, o arquiteto como técnico, não mais se posiciona em um nível superior. Esse ideal do arquiteto técnico dirigente está intimamente ligado ao perfil criado pelo Movimento Moderno. Penso que o seu trabalho está posicionado ao lado dessa comunidade, acompanhando essa comunidade, mas nunca desde uma posição hierárquica.
PI: Claro, é que o importante para nós não é dizer o que eles devem fazer, mas escutar a sua história, e nós vamos analisando quais são as figuras importantes dessa história, com isso já podemos ir desenvolvendo junto com eles os espaços que eles precisam e a forma, fazendo uma pesquisa de como eles construíram antigamente e os materiais que usam atualmente, as histórias que eles têm com os materiais. Eles dizem: então, esse tipo de madeira, por exemplo o peine de mono serve para isto..., aquela outra, serve para isso, tal coisa é possível. Existem madeiras que são usadas para o interior e para o exterior. Eles têm esse conhecimento porque é muito importante saber como se comportam os materiais dependendo da sua localização. A madeira não se comporta da mesma forma na selva e nas montanhas. Também, por exemplo, a madeira amazônica é boa para ser usada lá. Na hora de trazê-la para as montanhas e construir com madeira amazônica se comporta de maneira diferente. Ouvindo eles, podemos saber bastantes coisas e analisar bastantes coisas para poder definir os parâmetros que a comunidade precisa. Sim, não é nada hierárquico, é mais uma coisa de escutar e analisar. Também com o nosso conhecimento eles também fazem isso, nos escutam e analisam os nossos conhecimentos, portanto, é um compartilhamento de conhecimento para alcançar um único objetivo que é a espacialidade.
OEPV: Uma simbiose feita entre a prática que se aprende na academia...
PI: Claro.
OEPV: E seus conhecimentos. Há outra coisa que eu tinha aqui, há outras perguntas. Como, aquele sujeito que sempre foi subalterno, um grupo indígena que historicamente foi assim, agora adquire, digamos... existe uma inversão de posições. Como aquele arquiteto que sempre foi o sujeito de poder, agora trabalha para essa comunidade. Acho super interessante também como vocês apreenderam todas as dinâmicas dessa comunidade. Você já está me dizendo, o assunto dos materiais próprios do local. Analisando algumas das coisas que vocês têm no seu site, vi, por exemplo, o que trabalharam (bem, você me contou sobre isso) em Esmeraldas com um projeto que eram os Palenques (Quilombos) Culturais.
Antologia e cronologia da Marimba na costa do Pacífico do Equador, comunidade afro-equatoriana, Província de Esmeraldas, Equador, 2015. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Paula Izurieta: Sim. A coisa mais importante sobre esse relacionamento é entender quais são os líderes, porque você não pode falar com cem pessoas, você precisa analisar quem é o líder ou quais são os líderes e ser capaz de se comunicar com eles e fazê-los confiar, uma vez que que você tem confiança do líder, você tem confiança do resto da comunidade.
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Como vocês obtiveram essa confiança?
PI: Com humildade, acho que é a coisa mais importante. Quero dizer, chegar lá confiante porque, também, quando alguém se mostra com medo perde a confiança, é preciso chegar confiante, dizer... “eu venho aqui por essas e outras razões”, mas também ser humilde e sair fora do pedestal do arquiteto que sabe tudo, que na realidade não é assim. Então, o que você aprende na faculdade não é nada comparado à realidade; portanto, seja humilde e escute. Para mim, a parte mais importante deste trabalho é analisar e escutar, para ver como eles se comportam, porque às vezes há coisas que não te dizem e você só se dá conta analisando o comportamento deles e aí você vai perguntando... porque eles aí vão te contando tudo, e as vezes, nem sabem o que te contar. Eu me fiz entender?
OEPV: Então o seu trabalho, segundo entendo, primeiramente tem uma forte base de pesquisa, né?
PI: Sim. Antes de ir para o território, analisamos completamente o local, que tipo de (local), se for um parque nacional, quais são as restrições, que tipo de vegetação é, que fauna e flora possui, se possui rios, se não possui, como chegar lá, que tipo de comunidade é, que tipo de cultura é, investigamos um pouco a cultura, conversamos com as pessoas, por exemplo, com algum pesquisador ou com um sociólogo, sobre a cultura e, depois disso, vamos ali.
OEPV: Primeiro, existe essa base...
PI: Isso é muito importante, porque, por exemplo, nesses palenques culturais, conhecimos primeiramente à líder da Fundação Oshun, Rosa Mosquera.
OEPV: Isso é em Esmeraldas, certo? Na cidade de San Lorenzo.
PI: Em San Lorenzo. Então Rosa nos explicou primeiro qual era riqueza toda da cultura afro-equatoriana. Tudo o que significava a marimba, a música, a dança, a cultura em geral. Então pudemos ver com ela se comporta, primeiro estar com ela aqui em Quito e com as outras pessoas que ela lidera e depois irmos com ela às viagens e pudermos liderar esse projeto que é o Palenque Cultural Tambillo que fica na Ilha de Tambillo. Conseguimos nos encontrar com a presidenta de Tambillo, que era a Marena Solista e ainda ela é, e com ela pudemos entrar na comunidade. Porque isso também é importante, que não seja apenas uma coisa comunitária, mas também dos líderes do governo. Porque se você não tiver esse passo, não terá abertura. Pelo menos eu não digo no nível econômico, mas de aceitação.
OEPV: Acredito que vocês tiveram que aprender dos materiais que essas comunidades afro-equatorianas usam para construir, vejo que ali está a força de seu trabalho em geral.
PI: Não apenas tivemos que investigar a parte afro-equatoriana, mas tivemos também que investigar a parte africana, porque percebemos que na hora de trabalhar na Amazônia, os Kichwas já tinham sua história, eles sabem de onde vêm. Por outro lado, os afro-equatorianos ou afro em geral na América não sabem de onde vêm. Eles vieram para cá há muitos anos, mas não sabem qual é a sua cultura.
OEPV: De onde eles vêm, qual é a origem...
PI: É por isso que, em algumas partes essa pesquisa está um pouco mais desenvolvida, como no Brasil, como em Cuba, na parte religiosa, mas aqui não tanto. No Brasil com o santerismo e todas essas coisas. Portanto, se existe esse vínculo entre os iorubás e a religião católica, é uma transformação da…
OEPV: Comunidades quilombolas são chamadas lá no Brasil.
PI: Aqui não muito, eles têm algumas coisas na sua cabeça, mas não sabem de onde vêm; portanto, para este projeto, fizemos uma pequena pesquisa sobre a cultura na África, mais ou menos porque se supõe que os afro-equatorianos devem vir da cultura iorubá. Depois, também pesquisamos sua arquitetura, roupas, cores, também vimos esse tema. Não folclórica, mas de atmosferas, como um lugar místico. Reconstruir a idéia dos palenques, que era um lugar de refúgio para os escravos onde eles se escondiam, então aquele espaço seria esse tipo de abrigo, um refúgio para eles, para que eles pudessem expressar sua cultura.
OEPV: O que eu queria comentar também, como uma reflexão que tal vez possa deixá-la para o final, é como essa prática de alguma forma convida ou, eu tenho essa ideia, que pode servir para convidar as novas gerações de arquitetos a se aventurar para esses novos nichos. Quero dizer, existe todo um campo de atuação que talvez não tenha sido considerado pela prática profissional por causa do exercício que se aprende na universidade e, talvez, por aí as começam a surgirem as respostas. Quando fizemos a entrevista há um ano, saíram algumas reflexões interessantes sobre o conceito de Bem Viver, aplicado aqui, o Sumak Kawsay. Mas até que ponto foi aplicado de forma hierárquica e institucionalizada? Sempre vindo desde o Estado, não desde a comunidade. Existem alguns sociólogos, há uma boliviana (Silvia Cusicanqui) que chama isso de ... se tornar um fetiche, então agora tudo o que fazemos, até a mineração é para o Bem Viver, então há uma contradição na aplicação desses conceitos. Além do assunto, vou fazer as perguntas que tenho escritas aqui.
Antologia e cronologia da Marimba na costa do Pacífico do Equador, Província de Esmeraldas, Equador, 2015. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Torre de Napo Wildlife Center, Comunidade Kichwa Añangu, Parque Yasuní, Província de Orellana, Equador, 2015. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Quando o Caá Porá começou? (risos)
Era para ter começado por aí... (risos)
PaulaIzurieta: Sim, então, o Caá Porá começou oficialmente em 2014, mas desde 2012-2013 estamos trabalhando. A Torre do Napo Wildlife Center foi construída em 2013 e concluída em 2015. Mas começamos com a comunidade Añangu e continuamos trabalhando até agora. Estamos fazendo o segundo hotel com eles, temos a entrega final já na semana que vem.
OEPV: Entendo que o Gabriel foi quem primeiro teve essa abordagem com eles.
PI: Trabalhamos com Santiago del Hierro, um arquiteto que sabia muito sobre a Amazônia equatoriana e a Amazônia regional. Para mim, é uma das pessoas que mais tem pesquisado sobre isso, e ele teve o primeiro contato graças a Dania Quirola, que trabalhava naquela época no Senplades, e nos convidaram a ir à comunidade quando estávamos com Santiago, então ele nos levou. Santiago foi oferecido para fazer a Torre do Napo Wildlife Centere, para ele, era algo muito... achou algo muito utópico e ele disse a Gabriel. Quero dizer, ele repassou para [...] e o Gabriel acreditou. E foi feito, até saiu no SuperBowl.
OEPV: Sim, na questão turística dos Estados Unidos.
PI: Naquela época, eu estava pesquisando a comunidade, estávamos trabalhando sobre o impacto que teria o Eixo Multimodal Manta-Manaus na Rivera do rio Napo. Era um projeto gigante e eu estava encarregada de todas as comunidades. Uma das comunidades que pesquisei foi a Añangu.
OEPV: Desde a Universidade Católica foi isso?
PI: Desde a Católica. Então nós dois fizemos um vínculo à par, eu com a Añangu. Gabriel estava liderando a investigação completamente e eu fazia parte de uma equipe. Então, a partir daí, começamos a trabalhar em 2012 ou 2013. Acho que 2013. Eu realmente tenho um problema com os anos, mas acho que é 2013.
OEPV: O trabalho seu com as comunidades aqui no Equador começa com a comunidade Añangu?
PI: Sim.
Consultoria Territorial do Plano ZIMM-S (Zona de Influência Manta Manaos-Sucumbíos), Província de Sucumbíos, Equador, 2017. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Consultoria Territorial do Plano ZIMM-S (Zona de Influência Manta Manaos-Sucumbíos), Província de Sucumbíos, Equador, 2017. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Com essa aproximação que Santiago faz com vocês. Como é a dinâmica de trabalho? Você já mencionou um pouco para mim, mas, por exemplo, vocês integram essa comunidade ao processo de design? Eu entendo que existe todo um trabalho participativo...
PaulaIzurieta: Claro! Há trabalho participativo, as oficinas são realizadas dependendo se for apenas para mulheres, somente para homens ou mistas, dependendo do que esteja-se precisando, por exemplo. Se for uma escola, trabalhamos mais com as crianças. Nesta Zona Cultural Turística, trabalhamos mais com as pessoas que trabalharão lá. Não existe receita, inclusive, eu acho que, dependendo do projeto a ser desenvolvido, se faz uma estratégia. Nunca existe uma lista de verificação -a, b, c, d, e, f e já, acabou. Pelo contrário, cada projeto tem sua própria dinâmica. Nunca pode ser o mesmo. Primeiro, você precisa entender a comunidade e ver como ela se comporta para ver como essa dinâmica pode ser desenvolvida. Existem nexos muito abertos de comunidades, são muitas.
OEPV: Você já me mencionou um pouco, mas o que você considera, além dos materiais usados pelas comunidades, as suas dinâmicas, mas, em geral, o que vocês precisaram de aprender além? E, acima de tudo, a maior aprendizagem das técnicas vernaculares? Qual seria a sua reflexão?
PI: Acho que foi a nossa vez de aprender a sermos mais do que um arquiteto. Isto é, sermos economistas, sociólogos, antropólogos e até advogados. Você tem que pesquisar tantas coisas para aprender as condições de cada projeto que precisamos saber sobre turismo, temos que entrar nas legislações de turismo, temos que saber sobre marketing. Por exemplo, neste projeto das comunidades, você precisa saber que não é apenas um objeto, estamos fazendo uma empresa. É assim que a empresa é administrada. O que vai precisar ter, quais são os requisitos, quanto dinheiro eles precisaram no bolso pelos próximos cinco anos para que isso ocorra. Não é apenas arquitetura, a arquitetura é uma das pequenas coisas. Obviamente, o objeto é o que você vê, mas tivemos que aprender muitas mais coisas.
OEPV: Eu compreendo que a comunidade Añangu que gerencia estes hotéis, está na Província do Tena, certo?
PI: Não, fica na comunidade Añangu na província de Orellana.
Consultoria Territorial do Plano ZIMM-S (Zona de Influência Manta Manaos-Sucumbíos), Província de Sucumbíos, Equador, 2017. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Oficina Social Latino-Americana Panamá, Comunidade de Quebrada Ancha # 2, Parque Nacional Chagres, Panamá, 2016. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez (conferencistas e tutores) / Caá Porá
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Qual seria sua reflexão sobre a aplicação do conceito de Sumak Kawsay? É aplicado de alguma forma em seus trabalhos?
PaulaIzurieta: O Sumak Kawsay virou um clichê, o que penso é que nós tentamos fazer trabalhos ou projetos que atendam à comunidade, que não sejam apenas elefantes brancos, mas que servem. Que possuam uma estética, mas também que sejam funcionais e também que sejam ecologicamente amigáveis ao meio ambiente, amigáveis à cultura e, portanto, acho que tudo tem que ser um complemento. Eu não sei se chamá-lo de Sumak Kawsay. Pode ser? Mas eu penso que são projetos circulares, eles precisam se deparar com muitas arestas para servir. Tentamos não gerar uma perda, porque não adianta fazer um trabalho de um milhão de dólares que a comunidade tenha que tomar um empréstimo e depois não funcione.
OEPV: Que seja sustentável nessa parte.
PI: Isso aí. Tem que ser sustentável em todos os sentidos.
OEPV: O interessante é que sai da mesma comunidade. Essas demandas. Quero dizer, como arquiteto, não é que a gente vai lhes dizer como fazer as coisas.
Oficina Social Latino-Americana Panamá, Comunidade de Quebrada Ancha # 2, Parque Nacional Chagres, Panamá, 2016. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez (conferencistas e tutores) / Caá Porá
Consultoria Territorial do Plano ZIMM-S (Zona de Influência Manta Manaos-Sucumbíos), Província de Sucumbíos, Equador, 2017. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Finalmente, qual conselho você daria para essas novas gerações de arquitetos?
PaulaIzurieta: Que eles conheçam seu país. Essa seria a primeira coisa que eu diria para eles, que conheçam seu país e vejam quais são as necessidades, que não fiquem só nas grandes cidades, mas que saiam e vejam que há trabalho em muitos lados. Que existe trabalho, mas que eles precisam sair da sua zona de conforto. E para que eles possam realmente fazer projetos interessantes, e projetos que os satisfaçam -que existem sim- só precisam de procurar. Mas eu acho que conhecendo o nosso próprio país, a gente percebe quais são as necessidades.
OEPV: Eu acho que a sua prática demonstra de alguma forma que você pode fazer uma arquitetura comprometida com o local, com os valores do próprio território e que, além disso, você também pode gerar um bom lucro, não sei se é chamado de lucro mas...
PI: Temos que viver, nosso trabalho não é gratuito, cobramos o que temos que cobrar, é claro que agora somos pagos melhor, a princípio não muito, mas pouco a pouco você vai fazendo um nome e as pessoas te procuram. Pode ser uma casa, um hotel, um prédio, mas você sempre precisa procurar por aquel ... projeto sustentável.
OEPV: Quero parabenizá-los pelo seu trabalho novamente, pedir desculpas pela informalidade de ter perdido a primeira gravação, mas agradecer de novo por me permitir estar aqui.
PI: E que pena que o Gabriel não esteve. Acabou de sair um projetinho em uma comunidade que é através do PNUD, então eles chamaram para ele assinar os contratos nesta hora.
OEPV: Seu trabalho é muito bonito, realmente. É algo fora do comum, é preciso estudá-lo bem, em profundidade, contrastá-lo com alguns outros textos que estou lendo, mas é algo que... não sei se chamá-lo utópico, mas é fascinante. Tomara que todos tiveram um pouco dessa consciência ao fazer a prática. Aqui existem grupos que também trabalham com comunidades (até entrevistei alguns deles) mas vejo que o seu trabalho é uma coisa continuada ao longo do tempo, já como um campo de ação definido e é por isso que é bonito. E isso mostra como você disse que se pode fazer arquitetura, se pode aprender e também se pode ganhar com ela de todas as maneiras. Obrigado pelo tempo.
Ama Ecolodge Misahualli, maquete eletrônica, Província de Napo, Equador, 2017. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Nicole, eu queria te perguntar, após de ter falado com a Paula, qual tem sido sua experiência depois de deixar a universidade, que a gente talvez sai com muitas coisas para aprender, mas qual tem sido o seu maior ganho aqui com o Caa Porá?
Nicole Andrade: Sim, precisamente, o que mais gostei é a exploração de outros sistemas construtivos, de outra tipologia de construção, porque não é o mesmo construir na Serra que na Amazônia, em nenhum sentido, principalmente em materiais. Nem sempre estamos aqui procurando um sistema tradicional que seja como o concreto, mas cabe a nós ver como seria tal união, como isso é construído, funcionará? Portanto, é diferente do tradicional, pode-se dizer. Então isso tem sido algo novo que eu gostei muito e que aprendi. Como disse a Paula, você acha que, quando sai da universidade, tem um conhecimento amplo e nem sempre é assim, porque você aprende na prática, porque a universidade apenas fornece algumas diretrizes, mas não tudo o que você precisa para se desenvolver completamente na vida profissional.
OEPV: O que você acha que agregou valor ao seu aprendizado aqui até o momento?
NA: Eu acho que agora o que estamos trabalhando é um projeto em Añangu, é outro hotel, então estamos explorando um pouco como lidar com a topografia existente com o objeto. Não tivemos problemas, mas inconvenientes em termos da topografia real; portanto, vimos como ficaria o projeto até resolver bem a topografia. Outra coisa são os materiais e condições do local. Por exemplo, rapidamente, eles nos disseram que os pássaros ali voam muito, então devemos ver no design uma maneira pela qual os pássaros não colidam com o projeto. Esse é uma grande sala de refeições dentro do hotel, que é o maior espaço. Então tivemos que ver como projetar a fachada para que pudesse ser algo impressionante e que não pudesse afetar os pássaros para que colidissem. Então, esse tipo de coisas são diferentes e são muito específicas para o local, e que devem se levar em consideração ao projetar.
Napo Cultural Center, maquete eletrônica, Comunidade Kichwa Añangu, Parque Yasuní, Província de Orellana, Equador, 2019. Arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez / Caá Porá
Paula Izurieta
Arquiteta equatoriana, natural de Quito. Cofundadora do escritório de arquitetura Caá Porá junto com Gabriel Moyer-Pérez em 2013. Alguns dos seus projetos mais reconhecidos são a Torre do Napo Wildlife Center, o Centro Jambatu de Conservação de Anfibios e os Palenques Culturais. A sua prática envolve um estudo exaustivo dos valores culturais do local, a troca de informação com as comunidades usando estratégias participativas de projeto, e a incorporação de estudos sociologicos e antropologicos de cada local a ser atendido.
Nicole Andrade
Arquiteta graduada pela Pontificia Universidad Católica del Equador.
Oscar Eduardo Preciado Velasquez
Arquiteto venezuelano formado em abril de 2012. Mestrando do PPGAU UFES com bolsa do Programa de Alianças para Educação e Capacitação desde 2018, com pesquisa focada em formas alternativas de projeto, participação social, arquitetura comunitária e habitação de interesse social. Participação em vários editais de arquitetura coletiva na Venezuela.
Entrevista
A Entrevista realizada no escritório de Caá Porá em Quito, o dia 12 de dezembro de 2019, com a participação das arquiteta Paula Izurieta e Nicole Andrade e do entevistador Oscar Eduardo Preciado Velasquez. A entrevista faz parte do trabalho de dissertação de mestrado O arquiteto e a experiência de trabalho com comunidades no Equador: uma abordagem sobre metodologias, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Espírito Santo – PPGAU UFES desde 2018. Como parte da pesquisa, foram selecionados grupos de arquitetura com experiências de trabalho junto com comunidades de vulnerabilidade social no Equador. A experiência dos jovens arquitetos de Caá Porá serve de inspiração para as novas gerações profissionais sobre a importância de assumir uma posição que reconheça e melhore as técnicas de construção local de origem ancestral com ganhos para a comunidade e para o grupo de arquitetos.
Agradecimentos
O autor agradece a todas as pessoas que possibilitaram a pesquisa, em particular a agência Capes pela concessão da bolsa para financiar a experiência no Brasil, à orientação da professora Clara Luiza Miranda do PPGAU UFES, aos arquitetos Paula Izurieta e Gabriel Moyer-Pérez de Caá Porá por serem líderes de processos de diversidade em suas práticas de projeto e a todos os outros atores envolvidos no desenvolvimento desta pesquisa.