português Entrevista realizada a partir da Pesquisa “A Educação do Arquiteto para o Século 21 – O Ensino do Projeto de Arquitetura e Urbanismo no final do Curso”, em desenvolvimento no Propar, da UFRGS, com verba de custeio Capes.
english Interview based on the survey "Architect's Education for the 21st Century – Teaching the Architecture and Urbanism Project at the end of the Course", under development in the Propar, at the UFRGS, with funding from Capes.
español Entrevista basada en la investigación "La educación del arquitecto para el siglo XXI - Enseñanza del Proyecto de Arquitectura y Urbanismo al final el Curso", en desarrollo en el Propar, en la UFRGS, con fondos de Capes.
como citar
Sérgio M. Marques.
“Rodo Tisnado e o Architecturestudio”.
Vitruvius entrevista, ed. 21.083. 2020.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7828
L´Université de la Citadelle, Dunkerque, França, 1990-1998
As duas primeiras entrevistas desta série envolveram personagens da cena norte-americana, ambos agentes representativos do contexto cultural da arquitetura contemporânea, Peter Eisenman, norte-americano, professor de Yale na costa leste dos Estados Unidos, arquiteto de relevância internacional, e Hernán Diaz Alonso, argentino, arquiteto em Los Angeles, na costa oeste dos Estados Unidos e Diretor da SCI Arc, escola de arquitetura de relevância internacional. O próximo par de entrevistas repete a receita, com nomes do contexto cultural da arquitetura contemporânea europeia. Rodo Tisnado, peruano, professor visitante de diversas escolas de arquitetura francesas e peruanas e sócio-fundador do Architecturestudio em Paris, coletivo de relevância internacional, e Pierre Fernandez, francês, arquiteto de Beau Marché e diretor da Ecole Nationale Supérieure d´Architecture – ENSA à Toulouse, no sudoeste da França, referência internacional na pesquisa da Arquitetura e meio ambiente e da transição ecológica.
Parlement Européen, Strasbourg, França, 1998
Assim, binômios representativos do ofício e da academia, da América do Norte, Europa e América do Sul, irão se sucedendo nesta sequência de entrevistas que concorrem para desvendar o futuro da profissão e da educação do arquiteto no século 21.
Motivado pela revisão do Movimento Moderno em solo brasileiro nos anos 1980 e em marcha para entender e pesquisar as novas tendências da arquitetura no final do milênio, fui à França em 1991 estudar as novas abordagens da arquitetura e o meio ambiente, tema emergente diante da crise da Arquitetura Moderna daqueles tempos. A partir de Toulouse, do então Laboratoire d´Architecture Bioclimatique da Ecole d´Architecture à Toulouse, sob orientação do Prof. Dr. Pierre Fernandez, coordenador do acordo Capes/Cofecub, aproveitei a estadia e audaciosamente me candidatei a entrevistas com importantes arquitetos franceses para discutir as crises de fim de século. O Architecturestudio, escritório de avant-garde na cena francesa, repercutia internacionalmente com o projeto para o Institut du Monde Arabe, feito em parceria com Ateliers Jean Nouvel. A tentativa de visitar o escritório e entrevistar algum dos fundadores, no entanto, esbarrou em problemas de agenda, mas a viagem a Paris foi compensada com um encontro com Christian Portzamparc, da Cité de la Musique, e Paul Chemetov, do Ministère des Finances, em seu extraordinário escritório que envolvia a Maison Plainex de Le Corbusier (1).
Em 2018, nova crise, nova pesquisa e nova ida à França. Novo encontro com Paul Chemetov no mesmo escritório, mas sem a Maison Plainex, e finalmente visita e entrevista no Architecturestudio, no escritório da Rue Lacuée, no 12° Arrondissement, a noroeste de Paris, próximo a Opera Bastille, em um quarteirão triangular. Um bairro "post-haussmaniano", segundo Tisnado, com pequenas indústrias. Em miolo de quarteirão, transformado em estufa para cultivo de plantas medicinais, após a I Guerra e reciclado para quatro escritórios de jovens arquitetos, nos anos 1980, Architecturestudio, a partir dos anos 2000 se expandiu por edificações lindeiras e subsolos que chegam até o Jardin du Port et du arsenal frente ao Canal St Martin. Esperamos Rodo Tisnado em um átrio adornado por frondoso Caucho Amazonico que se enrosca ao redor de um ficus europeo e por um módulo da fachada do Institut du Monde Arabe. Rodo chegou elétrico, em roupas esportivas, e com toda a pinta de um workaholic nos explicou que a entrevista foi possível pois eram seus dias de férias. Fiquei preocupado em estar perturbando, mas dado o bom humor e a irreverência de Rodo, restou a sensação de que a entrevista foi uma distração. Circulamos por aquele escritório gigantesco e labiríntico, coalhado de colaboradores de todas nacionalidades como uma torre de babel. Todos ocupadíssimos, mas com um semblante sorridente a cada apresentação. Depois salas e mais salas com maquetes, protótipos e arquivos e, finalmente, vencido o labirinto com uma sucessão de compartimentos impressionante, estacionamos em uma sala em nível inferior, por onde, através de uma janela elevada, se vislumbravam as canelas de transeuntes no Boulevard de La Bastille. A conversa fluiu fácil.
A entrada do Architecturestudio pela Rue Lacuée
nota
1 O material destas pesquisas foi incorporado na pesquisa de mestrado intitulada "Arquitetura contemporânea no Rio Grande do Sul: mudanças de paradigmas nos anos 1980" realizada no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Propar da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – FA/UFRGS apresentada em 1999, com orientação do Professor Arq. Dr. Elvan Silva e publicada pela editora Ritter dos Reis. Ver MARQUES, Sérgio Moacir. A revisão do movimento moderno? Arquitetura no Rio Grande do Sul dos anos 80. Porto Alegre, Editora Ritter dos Reis, 2002.
Centre Culturel Onasis, Atenas, Grécia, 2011
Sérgio Moacir Marques: Obrigado por nos receber, Rodo. Gostaria de fazer algumas perguntas, dentro do contexto do projeto de pesquisa que enviei anteriormente. Posso gravar?
Rodo Tisnado: Sim, claro, esta entrevista tu és livre para gravar, traduzir, interpretar etc.
SMM: Obrigado. Mas é uma pesquisa acadêmica, portanto antes de publicar a entrevista, sempre envio a transcrição para tua avaliação antes.
RT: Ótimo. O único que gosto de corrigir, nestes casos, são as imprecisões. Por exemplo, se dizes que nosso escritório tem mil pessoas e na verdade tem cento e cinquenta... Em troca o que tu escreves é tua responsabilidade!
SMM: (risos) Sim, claro. Mas esta revisão é importante.
RT: Bem, no e-mail tu falaste sobre tua atuação como professor e arquiteto no Brasil e que estás fazendo um estudo sobre as universidades latino-americanas...
SMM: Sim, comentei que sou filho de um arquiteto das primeiras gerações do Movimento Moderno no sul do Brasil...
RT: És filho do inventor da Arquitetura Moderna no Brasil?
SMM: (risos) Do Brasil não, mas um dos do sul do Brasil, sim...
RT: Dá no mesmo. Do Brasil veio toda a Arquitetura Moderna!
SMM: Bom... acho que soubemos interpretar bem...
RT- Claro, e além disto os outros países estavam em guerra. Estas colunas modernas colossais, só o Brasil produziu, estes balanços, rampas e escadas que param no ar...
SMM: É a irresponsabilidade brasileira? (risos)...
RT: Não, não, isto em outros países como Peru e Chile não se pode fazer. E também existem sismos! O terreno se move e tudo isto cai...
SMM: Sim, mas no Brasil se movem outras coisas... São mais subjetivas mas também se movem como terremotos...
RT: (Risos) É verdade.
SMM: Bem, mas minha tese de doutorado fala sobre esta arquitetura no sul do Brasil (mostrando o livro FAM).
RT: A geração do teu pai?
SMM: Sim, meu pai fez este edifício que está na capa e vive aí...
RT: Até agora?! Onde está isto?
SMM: Em Porto Alegre.
RT: São três andares? Um apartamento por andar?
SMM: Sim, com três famílias de arquitetos por andar.
RT: (Risos) É o mundo da arquitetura e dos arquitetos. Estes são automóveis de época (apontando para um Corcel I e um TC Karmann Ghia da foto do FAM)?
SMM: Sim. O projeto e a construção são da década de sessenta. Eu vivi alguns anos neste edifício.
RT: Claro, nos anos sessenta eu estava pensando em ser arquiteto também...
Théâtre National du Bahreïn, Manama, Barém, 2012
SMM: Eu nasci nos anos sessenta mas fiz o curso de arquitetura nos anos oitenta, os anos da crise do Movimento Moderno no Brasil e do Pós-Modernismo. Isto para mim foi muito forte.
RT: Ah, claro, nestas relações de modernidade... não sabias como manejar... Brigaste com teu pai?
SMM: (risos) Sim... Não... não foi um problema freudiano (risos). Eu resolvi estudar para entender o fenômeno. Realizei uma pesquisa de mestrado sobre este período. Inclusive aproveitei um curso sobre Arquitetura e Meio Ambiente, que fiz em Toulouse, aqui na França, no início dos anos noventa, e vim a Paris entrevistar arquitetos sobre o assunto. Com o Architecturestudio, daquela vez não consegui agenda... Consegui visitar Christian Portzamparc e Paul Chemetov.
RT: Nestes anos nós havíamos acabado de fazer o Instituto do Mundo Árabe. Estávamos a mil nesta época.
SMM: Por isto procurei vocês. Mas agora tenho um filho que também é estudante de arquitetura. E estamos diante de outra crise...
RT: Cada vez que estás em crise vens à França (risos)! Tu também és arquiteta (pergunta para Mônica)?
Mônica Bohrer: Sim!
RT: Cada geração é uma crise! Tu vais fazer estudos do que agora? Sobre crises (risos)?
SMM: (Risos) Não... sobre a educação do arquiteto para o futuro...
RT: Ah, OK!... Mas o que tu denominas como crise na atualidade? Porque hoje não há uma crise importante de arquitetura, e sim uma crise econômica. Estive em Brasília nos anos sessenta como estudante, e faz dois anos, fui ao Brasil novamente. E também estive em São Paulo e no Rio de Janeiro. Brasília está perfeita e ainda se pode caminhar, é uma cidade encantadora. Mas São Paulo e Rio estão tão perigosas... Fomos com a equipe do escritório. Éramos um grupo de vinte e quatro pessoas e fomos assaltados vinte vezes! Por pequenas e grandes coisas.
SMM: Em Brasília, no plano piloto, é seguro. Podes estar em qualquer lugar, com alguma atenção. Mas no Rio e em São Paulo creio que o problema talvez tenha sido o fato de estarem todos juntos. Aí viram um alvo.
RT: Sim, um rebanho... Mas também, sob o ponto de vista econômico, além da insegurança, me pareceu que havia pouca construção... O que tu chamas de crise da arquitetura atual no Brasil?
Caucho Amazonico com ficus europeu no átrio do Architecturestudio
Campus Universitaire de Jussieu, Paris, França, 2015
Sérgio Moacir Marques: A ideia de crise que estou investigando está mais em relação ao futuro da profissão. E em saber como será a formação do arquiteto. Sou professor e tive sempre atividade de escritório concomitante. O ponto de interrogação que tenho é de como será a educação do arquiteto do futuro diante das rápidas mudanças na cena contemporânea e do exercício do ofício. O Architecturestudio (https://architecturestudio.fr/) é um escritório da França de atuação expressiva no contexto internacional. Vocês estão no front da cena global. Portanto percebem a natureza do mundo da arquitetura e suas demandas.
Rodo Tisnado: Ah, o que será da arquitetura no futuro, as competências... Inicialmente, creio que há dois fenômenos a considerar: Primeiro, na França, há o que se chama de feminização da arquitetura. Quando eu era estudante, oitenta por cento dos alunos eram homens. Hoje, noventa por cento são mulheres. Isto começou a mudar também nos escritórios nos últimos quinze, vinte anos. Ou seja, se a formação dos arquitetos se feminiza, todo o resto irá se feminizar. Isto significa que homens "ambiciosos" estão achando arquitetura menos interessante e estão indo a outros campos ou preferindo vender os edifícios, promovê-los em vez de construí-los. Isto repercute, pois o ensino de arquitetura na França depende do Estado. As escolas são públicas e gratuitas. Há pouquíssimas escolas privadas. Suponho que no Brasil seja diferente não? No Peru há três universidades nacionais e cinquenta privadas.
SMM: Sim, em proporção, é como no Brasil.
RT: Então não estamos falando de negócios no meio da educação, do "negócio de ensinar" e sim do "problema de ensinar". O problema de ensinar arquitetura aqui é um problema de Estado. Com este abandono do próprio poder da arquitetura, o Estado cada vez mais capitalista logicamente está encantado, pois gasta menos. E agora está atacando os arquitetos federais. Com o novo presidente, o novo sistema e o mundo liberal, a França, que era um dos poucos países do mundo com leis de proteção da arquitetura e dos arquitetos, está mudando. Aqui, por força de lei, todos os edifícios públicos ainda são projetos escolhidos por concursos realizados entre arquitetos colegiados nacionais e/ou internacionais. E o Estado protegia esta condição. Agora estão tratando de mudar isto. No mundo privado são os clientes que dizem sim e que determinam as decisões, portanto a qualidade da arquitetura na França e em parte da Europa advém predominantemente das obras públicas eleitas em concursos públicos. Então como o liberalismo e o capital estão ganhando mais espaço, os jovens ambiciosos, normalmente homens, não estão mais querendo projetar edifícios, mas vender ou promover. E as construtoras começam a ter um poder gigantesco. Que chega até o Brasil, como a Casa da Música no Rio etc. Isto estão fazendo no mundo inteiro. Este é o mundo das grandes obras. E há que explicar isto aos estudantes, pois o BIN e todos estes elementos são uma conexão mais direta com o poder mundial. Não necessariamente com a qualidade da arquitetura, mas com a economia da arquitetura. Além disto, são sistemas mais complexos de trabalhar e também de ensinar que fazem os arquitetos subsidiarem os clientes, pois estes não vão pagar mais pelo esforço de sistemas mais complexos. As taxas seguem as mesmas. Então ou você entra neste sistema ou faz coisas mais simples. Então esta crise do futuro da arquitetura é de classe econômica.
Bureaux Pergamin, Zurique, Suíça, 2019
SMM: Sim... Como vocês se organizam frente a isto?
RT: O Architecturestudio é uma espécie de coletivo, onde a cada cinco anos temos um novo sócio. Dos três primeiros sócios, que arrancamos no ano de 1975, restaram dois, já que um, quando o escritório começou a crescer, não se encontrou à vontade... Gostava do trabalho artesanal e de cercar-se de pessoas simpáticas e amigas. Mas quando começou a interessar a qualidade técnica dos outros e não tanto a qualidade humana, ele se afastou. Então, restamos dois com um novo sócio a cada cinco anos. Passados quarenta anos somos dez sócios. Geralmente são arquitetos que formamos aqui, mas que trazem novas ideias. Os demais, às vezes se incomodam por não terem sido eleitos para novos sócios e se vão. Ou mesmo se sentem seguros para seguirem seu próprio caminho. Assim temos um mecanismo de renovação e crescimento.
SMM: Isto se faz mediante uma discussão ou uma votação entre os sócios?
RT: Isto é orgânico. Os colaboradores chegam por seus próprios meios. Aqui se falam vinte línguas diferentes e há colaboradores de diversas nacionalidades. A única condição para ingressar é apresentar-se e mostrar a qualidade de seu trabalho. Com três sócios recomendando, o arquiteto ingressa no escritório. Depois pouco a pouco, ele mostrando suas qualidades e se destacando em relação aos demais, ele vai encontrando seu lugar como sócio. Outros assumem posições de chefia ou de colaboradores importantes, mas não de sócios. Sócios são os que representam cada geração, equivalente mais ou menos a cada cinco anos de estudos. E podem ser de qualquer nacionalidade. Isto nos permite estar em um mundo real e atual.
SMM: Há algum brasileiro como sócio?
RT: Não. Temos poucos brasileiros aqui. Houve uma época que havia mais. Os brasileiros parecem ter uma nacionalidade muito forte. Ficam um tempo, aprendem, entendem como funcionam as coisas e "zuuup", vão embora.
SMM: Voltam à praia (risos)?
RT: (risos) Claro. Se entende. O Brasil é um paraíso, uma paisagem maravilhosa. E além disto, o Brasil é um condensado do mundo...
SMM: É verdade, tem muita pluralidade, sincretismos, contrastes...
RT: Isto. Lá estão todas as mesclas humanas possíveis. E isto dá muita força e muita beleza. Mas um mundo complexo, grande, às vezes é difícil de entender. Às vezes é mais fácil de ir do Rio a Paris que a Manaus, por exemplo.
Protótipo da Fachada do Institut du Monde Arabe no átrio do Architecturestudio (Mônica Bohrer à direita)
YALA – Cartaz de divulgação, Veneza, 2018
Sérgio Moacir Marques: É verdade. Em algumas temporadas, desde Porto Alegre é mais barato ir a Barcelona que a Manaus... Bem, Rodo, outra pergunta: eu atuei como professor muitos anos no final do curso de arquitetura. Aqui na França se chama de Diplome. No Brasil, faz muitos anos que, na maioria das escolas, este trabalho é um projeto em que os estudantes escolhem o seu tema, seu orientador e fazem um recorte da cena contemporânea para desenvolver seu trabalho.
Rodo Tisnado: Começam com o mundo e terminam com o projeto.
SMM: Sim (risos). Qual tua opinião sobre esta sistemática? E qual tua visão em relação ao futuro deste processo?
RT: Isto é artesanal... Assim é no mundo inteiro. Era assim no Peru, quando eu estudava, antes de vir à França fazer um doutorado. Era uma mescla deste sistema tradicional com os novos aportes da Bauhaus. Havia apenas uma escola de arquitetura e se formavam vinte arquitetos por ano, para uma população de vinte milhões de habitantes. Um arquiteto para cada milhão de habitantes. Agora são trinta milhões de habitantes e quase trinta milhões de arquitetos (risos). Ou seja, não há mais nenhum tipo de apoio personalizado. Na França, neste processo, foi muito importante a revolução estudantil de 1968. Este episódio mudou tudo. Antes, na Escola de Belas Artes, havia um pastor com suas ovelhas, sem nenhuma interação com outras áreas do conhecimento. Em 1968 se romperam todas as barreiras, os "patrões" desapareceram, surgiu a universidade, mudou a lei, as mulheres podiam cursar etc. Uma mudança cultural importante. Esta forma de fazer o projeto, artesanal, vem da tradição acadêmica. Na minha opinião, a arquitetura tem que vir da competência. Portanto o TFG não deveria vir da cabeça de cada um, e sim vir de um concurso, preparado pela escola e por representantes da sociedade, que todos deveriam desenvolver. E logo se qualificaria com um júri, como um concurso, para que tenham competência, senão é como se a arquitetura fosse para si próprios... Se os arquitetos vão fazer a casa para o tio ou para a tia, vão desperdiçando o esforço que o Estado fez para formá-los. Na universidade pública é o Estado que forma os arquitetos e de maneira gratuita. Portanto a universidade deve fazer uma seleção dos melhores arquitetos para contribuir em temas relevantes para a sociedade. Este seria o primeiro grande concurso que os arquitetos fariam. Controlados por equipes de várias áreas do conhecimento e dispositivos para evitar que haja fraudes e que se abra espaço para a indústria de produção de trabalhos acadêmicos.
SMM: Como foi sua experiência docente?
RT: Fui professor muito jovem no Peru e acho que não era bom professor. Era imaturo, me dedicava mais aos melhores alunos e acho que isto não se deve fazer, então abandonei. Aqui na França, quando já estava com o Architecturestudio estruturado, o Ministério me contratou para um plano de redução de escolas de arquitetura em Paris. Havia doze escolas de arquitetura públicas e havia a ideia de suprimir as quatro piores, elevando a qualidade de preparo dos estudantes destas e incorporando-os nas demais. Para mim foi a oportunidade de me dedicar aos alunos com maiores dificuldades. Era um regime mais democrático, mas com necessidade de disciplina. Havia uma incidência maior de alunos usando questões pessoais para conseguir vantagens com o professor. Portanto há que se ter cuidado, para que os estudos sejam fortes e sérios. Por isto digo que em uma Escola de Arquitetura há dois fundamentos: Há a Arquitetura e há a Escola. Escola é a ordem, a presença, a dedicação e a responsabilidade que temos com o Estado. Estudar arquitetura é apaixonante, o indivíduo entra no mundo das artes, do cinema, da cultura, da criação... Isto é verdade, mas também é mentira, porque se não tiver o impulso disciplinar da Escola, ou seja, as técnicas, a organização, a regularidade, as leituras, os editais de entregas, o cronograma, não haverá Arquitetura. A síndrome "professor, não posso projetar porque meu pai está doente" tem que ser cortada na raiz. "É muito bonita a preocupação com teu pai, serás um ótimo filho, mas um péssimo arquiteto." Esta é a parte da escola que é necessário solidificar.
YALA – Coquetel de abertura com Rodo Tisnado, Veneza, 2018
Para a Arquitetura, creio que é necessário preparar os estudantes para usar as mãos e os olhos, o que cada vez é mais difícil. Os estudantes parecem jogadores de futebol em uma barreira de falta. Colocam as mãos para baixo e fecham os olhos (risos). Isto creio que não se pode abandonar. O arquiteto deve aprender a desenhar, a ler, a observar, a perceber, a ver. É uma questão neural.
Sempre que visito uma escola de arquitetura, vou à biblioteca, pois creio que ali se vê o funcionamento, a cultura da escola. Na FAU/USP, por exemplo, se nota que a biblioteca é o eixo, é o polo da escola. Nos Estados Unidos é diferente. A biblioteca é sempre algo centralizado, gigantesco e enorme, mas longe e difícil de acessar...
SMM: Estou de acordo. Creio que assim como no âmbito do desenho, no do estudo, o impacto do mundo digital tem sido importante. As escolas privadas estão comprando acesso a publicações digitais, que são mais baratas, e contingenciando os professores a condicionarem as bibliografias de suas disciplinas a este material. E não o contrário. Isto não pode ser...
RT: Não pode ser! É o que digo. O estudante, quando vai à biblioteca, encontra-se com outros estudantes para interagir e aprender a se concentrar, a focar. É um espaço de aprender. Se as bibliotecas se transformarem apenas em um código de acesso para o estudante pesquisar pela internet, este processo está morto. É como jogar futebol da tua casa...
SMM: É uma crise... Isto está dentro do mundo do EAD. No Brasil está entrando forte. Há cursos com até 40% do conteúdo à distância...
RT: Isto é impossível. Se não há interação, se não há relação do estudante com o concreto, com a vivência e aprendizagem no espaço, se não se vê e não se toca, não há Arquitetura. A base de tudo é que arquitetura se vê. E arquitetura tem que ser construída, tem que ser feita, não é virtual. Isto é o mais extraordinário da vida de um arquiteto. Esta sensação de entrar na obra construída é fundamental. Esta é uma razão pela qual vim à França. No Peru eu de certa forma "estudava à distância". Tínhamos que estudar muitas coisas que não tínhamos lá, arquitetura europeia, gótico, renascimento. Eu com a cabeça cheia de coisas e nunca tinha visto nada... Ao passo que quando vais conhecer obras, podes mirar, desenhar, experimentar. Te dás conta da diferença de imaginar e de fazer.
Por outro lado, estudávamos coisas alheias ao nosso contexto. Me lembro de perguntarem qual a diferença entre o Românico Inglês e o Francês. E respondíamos sem ter visto nada; e sem saber de quarenta mil anos de peregrinação histórica do Homem na América do Sul. É verdade que estamos conversando e nos entendemos porque eu sou da "Espanha" e tu és de "Portugal", senão eu falaria Quíchua e tu Guarani. Em uma conferência no Peru perguntei quantos falavam Quíchua. Alguns levantaram a mão. Nem todos, pois muitos têm vergonha... Depois perguntei quantos falavam inglês. Quase todos levantaram a mão. Então perguntei: Estão aprendendo chinês (risos)? Depois me perguntaram como eu havia conseguido ter um grande escritório na França. Respondi: "porque abandonei minha zona de conforto no Peru e fui à Europa fazer um esforço enorme, aprender outros idiomas, enfrentar muitas dificuldades e adquirir competência". Muitas coisas a gente só se dá conta quando está longe.
Agora, no Peru, há algumas escolas de arquitetura em que cem por cento dos estudantes fazem viagem de estudos...
SMM: Como nós no Rio Grande do Sul, que herdamos certa tradição das viagens da "rifa" do Uruguai.
RT: Ah, sim. No Uruguai constroem uma casa, rifam e viajam com a venda, não é? Bom, além disto o Uruguai é um país pequeno, superculto, organizado e democrático.
SMM: Nós temos uma conexão forte com o Uruguai em Porto Alegre. Esta é uma certa distinção que temos no sul do Brasil. Pelo lado da arquitetura, como falo no meu livro, não é exatamente o que acontece em São Paulo e no Rio, por questões climáticas e culturais.
YALA – Exposição, Veneza, 2018
RT: O gaúcho, não é?
SMM: Sim. E o churrasco. Este é o que temos de melhor (risos).
RT: (risos) Bem, acho que todas estas coisas passam pelo futuro de como ensinar. Creio que também deverá existir uma seleção mais rigorosa. É diferente cem arquitetos por ano, como tínhamos no Peru, do que vinte mil como temos hoje. Na Itália, arquitetura é um fenômeno cultural. Em Veneza há vinte mil estudantes de arquitetura. Em uma cidade que não construiu nenhum metro quadrado no último século (risos).
SMM: Fazem restauração.
RT: E teoria. É o âmbito puramente cultural, exposições, bienais... E estudam as diferenças microscópicas das colunas do Brunelleschi... É outro mundo. Por outro lado, na Noruega, um país de sete milhões de habitantes, há um esforço muito grande para perpetuar a cultura, a língua, senão desaparece, como o Guarani.
O Peru me preparou muito bem para eu ser arquiteto, mas eu quis ir além, e com meus próprios meios vim para cá e aprendi muitas outras coisas. Portanto, sem pretensão, me sinto em dívida com o investimento que o país fez em mim e sempre tento retribuir. Sempre que posso volto, vou às escolas, dou aulas e conferências.
Lá temos esta História pré-colombiana, que muitos estão tentando conectar com a cena contemporânea, o que é difícil. O Brasil é diferente. Não há este peso arqueológico. Por isto o Brasil inventou a Arquitetura Moderna.
SMM: Pode ser. No Brasil já estava o jardim. Faltava fazer a Cidade.
RT: Exatamente. Quando se chega ao Rio, é espantoso se dar conta que aquela topografia já estava ali. E como eu disse no início, entre os anos 1930 e 1950, na Europa se construiu pouco pela guerra. Se fazia muita arquitetura de papel, os ingleses do Archigram e outros especuladores conceituais, mas é no Brasil que o Movimento Moderno encontrou uma vontade de Estado. Vocês conhecem o Peru?
SMM/Mônica Bohrer: – Não, nunca fomos. Está nos planos.
RT: Ah, tem que conhecer. Machu Picchu é uma visita obrigatória. Hoje estou em dúvida se aprendo quíchua ou chinês (risos)!
SMM: (risos) Nós vamos lá. Quero visitar as escolas e tentar entrevistar alguns que tenho contato, como Sandra Barclay e Jean Pìerre Crousse...
RT: Sim! Sandra e Jean Pierre são os que estão fazendo a melhor arquitetura peruana. E fazem conferências fantásticas. Trouxemos eles para uma conferência aqui e teve grande impacto. Fazem uma arquitetura extraordinária.
SMM: Eu conheci Sandra em Porto Alegre, quando Marta Peixoto, coordenadora da minha escola, a convidou para uma conferência. Jean Pierre conheci em São Paulo, na casa de um amigo comum, o Fernando Viegas, em uma Bienal Ibero-Americana que participei do júri.
RT: Agora estão convidados para a Bienal de Veneza...
SMM: ...e classificados para o Prêmio Mies, que saiu ontem o resultado.
RT: Ah, sim!? Eu conheci o pai de Jean Pierre e a ele quando era pequeno. Agora é um arquiteto fantástico e simpaticíssimo. Mas o melhor é quando fazem os dois juntos uma conferência, se complementam. Então se vê bem como trabalham. Quando há um casal de arquitetos, sempre é complicado... Nunca se sabe quando é um ou outro. Ou as mulheres desaparecem. Nas conferências isto se revela melhor.
SMM: Curioso. O evento que participou Sandra em Porto Alegre tinha uma conotação um tanto feminista. Eram quatro mulheres, organizado pela Marta, orientadora da Mônica, e se chamava 4 x 4, como estes carros com tração nas quatro rodas...
RT: (Risos) Claro! É complicado. No Architecturestudio, nunca aceitamos um casal. Um casal sempre é suspeito. Não se sabe quem trabalha (risos). Podem se transformar em um casal depois, mas não antes (risos).
SMM: (risos)
RT: Para as novas gerações, nós aqui do Architecturestudio organizamos concursos continentais para jovens arquitetos no mundo inteiro. Já fizemos para a os chineses, para os árabes, África negra. Então fazemos um catálogo e uma exposição e levamos os premiados a Veneza e à Europa. Esta última edição foi para latino-americanos, de até quarenta anos de idade. Com projetos construídos ou não. Tivemos um resultado extraordinário com mais de duzentos projetos. Houve muita participação do Peru e da Colômbia. O concurso era em espanhol e acho que isto restringiu um pouco a participação brasileira (foi selecionado um projeto de Sauermartins de Porto Alegre) (1).
Então, concluindo, o Architecturestudio tem três objetivos principais: 1. Fazer a melhor arquitetura possível; 2. Publicar o máximo possível para compartilhar e conectar e 3. Ajudar os jovens arquitetos do mundo inteiro a fazer boa arquitetura.
SMM: Que bom isto. Muito obrigado, Rodo, por nos receber e reservar tempo para nós. Este livro sobre Arquitetura Moderna Brasileira no Sul é para ti.
RT: Ah, obrigado! Faça uma dedicatória, por favor.
SMM: Para Rodo ou para Architecturestudio?
RT: Para Rodo!! Senão vai parar na biblioteca do escritório, ainda que todos saibam que Architecturestudio é Rodo (Risos)!
Rodo Tisnado mostrando o acervo de maquetes do Architecturestudio
Rodolfo Tisnado Arquiteto pela Universidade Nacional de Engenharia de Lima (1964), viajou à França com uma bolsa do governo francês para cursar doutorado na Université de Sorbonne. Fundou em Paris, em 1976, conjuntamente com Martin Robain e Jean-François Galmiche, o escritório Architecturestudio – AS. Considerado um dos mais importantes escritórios de arquitetura da Europa, conta com mais de uma centena de profissionais que manejam uma filosofia projetual e conceitual complexa, baseada no trabalho de equipe multidisciplinar. Entre suas principais obras se destacam o Parlement Européen em Strasbourg, o Institut du Monde Arabe e a Eglise Notre-Dame de l'Arche d'Allianceem Paris. Atualmente, o Architecturestudio possui escritórios na França, Suíça e China e se encarrega de projetos de escala mundial.
Espaços de trabalho no edifício-estufa revitalizado
Sérgio M. Marques
Arquiteto e urbanista pela FAU UniRitter, mestre e doutor pelo Propar UFRGS. Professor do Propar UFRGS, Secretário-executivo do Docomomo RS e diretor do MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Coordenador da pesquisa e da entrevista.
Mônica L. Bohrer
Arquiteta e urbanista pela FAU PUCRS, mestre e doutoranda pelo Propar UFRGS. Diretora do BML8 Estúdio criativo e colaboradora do MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Colaboradora da pesquisa e da entrevista.
Da esquerda para a direita: Sérgio M. Marques e Rodo Tisnado na sala de entrevista
Entrevista
A entrevista foi realizada no dia 01 de agosto de 2018, na sede do Architecturestudio, nº 10, Rue Lacuée em Paris, França, com a participação do Arq. Rodo Tisnado (entrevistado), e os entrevistadores Arq. Sérgio M. Marques e Arq. Mônica Bohrer.
Série de entrevistas
As entrevistas estão sendo realizadas dentro do programa elaborado no Projeto de Pesquisa “A educação do arquiteto no século XXI – O ensino do projeto de arquitetura e urbanismo no final do curso: uma reflexão propositiva para os trabalhos finais de graduação”, em andamento no Programa de Pós Graduação em Arquitetura – Propar da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – FA UFRGS de 20 fev. 2018 a 31 dez. 2021, com verba de custeio Capes oriunda de Premio capes de Tese de 2013. A pesquisa integra o âmbito das atividades do Grupo de Pesquisa “O Ensino do Projeto e o Projeto da Arquitetura Moderna” constituído por Arq. Dr. Ângelo Bucci (FAU USP), Arq. Me. Fernando Felippe Viegas (Escola da Cidade), Arq. Dra. Luciana Inês Gomes Miron (Propur FA UFRGS), Arq. Dra. Luciana Sabóia Fonseca Cruz (PPG FAU UnB), Arq. Me. Patrícia de Freitas Nerbas (FAU Unisinos) e Arq. Lucas Canez Moojen Marques (MAPA Arq.), coordenado por Sergio Moacir Marques (Propar FA UFRGS). O Grupo está em transição para credenciamento na UFRGS junto ao CNPq. As entrevistas estão sendo publicadas bimensalmente pela revista Entrevista do Portal Vitruvius:
Entrevista 02: MARQUES, Sérgio M.; BOHRER, Mônica L.; MARQUES, Lucas Canez M.. Entrevista com Hernán Díaz Alonso. O ensino no Southern California Institute of Architecture – SCI-Arc. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.03, Vitruvius, abr. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7718>.
Entrevista 03: MARQUES, Sérgio M.; BOHRER, Mônica L.. Rodo Tisnado e o Architecturestudio. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 083.02, Vitruvius, jul. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7828>.
Entrevista 04: MARQUES, Sérgio M.. Pierre Fernandez, l´Ecole Nationale Supérieure d´Architecture à Toulouse. Arquitetura, Meio Ambiente, a França e o Brasil. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 084.02, Vitruvius, out. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.084/7911>.
Produção
degravação e tradução da entrevista Sérgio M. Marques
edição da entrevista Sérgio M. Marques
revisão do português Mariana Donner
Bibliografia
DAHL, Julian (org.). Architecture Studio. Selected and Current Works. Projets et Réalisations. Austrália, The Images Publishing Group, 2000.
MARQUES, Sergio M. A revisão do movimento moderno? Arquitetura no Rio Grande do Sul dos anos 80. Porto Alegre, Editora Ritter dos Reis, 2002.
MARQUES, Sergio M. A Revisão da Revisão: Ensino e Pesquisa Sobre O Projeto de Arquitetura No Sul do Brasil Para o Século XXI. In: Anais do V Enanparq – Arquitetura e Urbanismo no Brasil atual: crises, impasses e desafios, 2018, Salvador. Programação do Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, 13 a 19 de outubro. Salvador, FAUFBA, 2018. Salvador, Faculdade de Arquitetura. Universidade Federal da Bahia, 2018, v. I. p. 326-344.
MARQUES, Sergio M.; NERBAS, Patrícia Freitas. A construção do conhecimento no trabalho de conclusão dos cursos de arquitetura e urbanismo: o projeto de arquitetura como reflexão na ação. Insitu, v. 3, São Paulo, 2017, p. 63-82. <http://www.revistaseletronicas.fiamfaam.br/index.php/situs/article/view/632>.
MARQUES, Sergio M.; NERBAS, Patrícia Freitas. A construção do conhecimento no trabalho de conclusão dos cursos de arquitetura e urbanismo – o projeto de arquitetura como reflexão na ação. In: BALEM, Tiago. (Org.). Bloco 13 – O ensino e a prática de projeto. Novo Hamburgo, Feevale, 2017, p. 52-65 <www.feevale.br/Comum/midias/8268b967-0635-4e0e-907e-0cc910c16335/Bloco%2013.pdf>