português Entrevista realizada a partir da Pesquisa "A Educação do Arquiteto para o Século 21 – O Ensino do Projeto de Arquitetura e Urbanismo no final do Curso", em desenvolvimento no Propar UFRGS, com verba de custeio Capes.
english Interview based on the survey "Architect's Education for the 21st Century – Teaching the Architecture and Urbanism Project at the end of the Course", under development in Propar UFRGS, with funding from Capes.
español Entrevista basada en la investigación "La educación del arquitecto para el siglo XXI – Enseñanza del Proyecto de Arquitectura y Urbanismo al final el Curso", en desarrollo en el Propar UFRGS, con fondos de Capes.
como citar
Sérgio M. Marques.
“Pierre Fernandez, l'Ecole Nationale Supérieure d'Architecture à Toulouse”.
Vitruvius entrevista, ed. 21.084. 2020.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.084/7911
Pierre Fernandez 1, Diretor da Ensa, 2019
Ainda que as primeiras entrevistas desta série tenham envolvido personagens representativos de segmentos e culturas distintas, sendo as duas primeiras da cena norte-americana – Peter Eisenman, norte-americano, arquiteto de influência internacional, professor de Yale, na Costa Leste, e Hernán Diaz Alonso, argentino, arquiteto em Los Angeles e Diretor da SCI Arc na Costa Oeste – e a última do contexto europeu – Rodo Tisnado, peruano, professor visitante de diversas escolas de arquitetura francesas e peruanas e sócio-fundador do Architecturestudio em Paris –, esta próxima entrevista tem um significado especial: Pierre Fernandez, francês, arquiteto de Beaumarchés e diretor da Ecole Nationale Supérieure d´Architecture – Ensa, à Toulouse, no Sudoeste da França, referência internacional na pesquisa sobre Arquitetura e meio ambiente e a transição ecológica, é um amigo próximo de muitos anos. Portanto, mais que inevitável, é imprescindível uma introdução repleta de histórias pessoais.
Conheci Pierre no final dos anos 1980. Recém havia ingressado como professor auxiliar na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – FA UFRGS, em uma época de crise do Movimento Moderno e dos debates pós-modernistas, dos quais havia me refugiado em uma pesquisa de mestrado no Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Propar UFRGS na linha de Teoria, História e Crítica da Arquitetura, para entender o fenômeno e também por algum interesse nas tentativas de estabelecer relações entre a prática do projeto e a arquitetura bioclimática, como era chamada a abordagem arquitetônica do meio ambiente na época. Por consequência, na graduação da FA UFRGS, fui escalado para tentar fazer a ponte entre estes campos, indo trabalhar no outrora ateliê de Composição na Arquitetura 1 com os colegas professores Edson Mahfuz, referência nas discussões sobre o Movimento Moderno, e Carlos M. M. Maia, um veterano da prática profissional, e concomitantemente na disciplina teórico-prática de Habitabilidade das Construções, capitaneada pela profa. Lúcia E. Mascaró, referência brasileira da área (1). A professora Lúcia havia recém entabulado convênio de pesquisa com a França, coordenando, pelo lado brasileiro, o primeiro acordo do Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Capes com o Comitê Francês de Avaliação da Cooperação Universitária com o Brasil – Cofecub, que visava o fomento de pesquisas e intercâmbio entre os dois países.
A França, desde os anos 1970, já despontava com certo pioneirismo como referência no campo da pesquisa sobre economia de energia através do uso passivo de recursos nas soluções arquitetônicas, normas reguladoras com estímulo à otimização de parâmetros ambientais na construção civil e no desenvolvimento de softwares para simulações de desempenho climático dos projetos de arquitetura. Neste acordo, a primeira missão prevista consistia na vinda do professor Pierre Fernandez, coordenador pelo lado francês, a Porto Alegre para aulas no Propar UFRGS, quando surpreendeu a todos, saindo praticamente direto do aeroporto para um jogo do Inter contra o Flamengo, no Beira Rio. Na segunda vinda de Pierre a Porto Alegre, acompanhado da esposa, a carioca Elaine Fernandez, com o episódio do Beira Rio, tomei coragem de convidá-los a se hospedarem no Edifício FAM (2), onde eu ainda residia. Mais uma boa surpresa, pois aceitaram a oferta de imediato e bom grado. Desta vez foram direto do aeroporto para um assado de dia dos pais no Edifício FAM, que Pierre até hoje comenta como monumental, e desde ali se estabeleceu uma amizade ininterrupta de mais de trinta anos, com Pierre, Elaine e familiares de todos os lados.
De lá para cá Pierre retornou muitas vezes a Porto Alegre: em diversas oportunidades para ministrar disciplinas no Propar, orientar pós-graduandos e dar sequência às pesquisas conjuntas; posteriormente, para algumas conferências e aulas na Pós-Graduação da Faculdade de Arquitetura do Centro Universitário Ritter dos Reis – FAU UniRitter. Além disso, também auxiliou a estabelecer contatos entre o meio da arquitetura no sul do Brasil com tecnologias da construção civil na França, como a intermediação entre a indústria de pré-fabricados em concreto Premold, de Porto Alegre, com empresas francesas congêneres. Pierre ainda realizou visitas informais, em diversas oportunidades em que passava pelo Brasil a trabalho ou a passeio, sempre com conversas animadas sobre futebol, música brasileira, política e os amigos pelo lado do Brasil e da França, além de Arquitetura.
Claudio Araújo, Sérgio M. Marques e Michel Gerber, nos estúdios de Televisão da Rede Brasil Sul de notícias para entrevista ao vivo com Pierre Fernandez e Michel Gerber, Porto Alegre, 2001
Por outro lado, em 1991, fui a Toulouse fazer um estágio de pesquisa, com bolsa Capes, dentro do mesmo convênio. Em quase um ano de estadia, trabalhei com a equipe do então Laboratoire d´Architecture Bioclimatique da Ensa, na época constituído pelos arquitetos Pierre Fernandez, Michel Gerber (3), com quem acabei colaborando no projeto de um concurso para Montpellier (4), Jean-Pierre Cordier, o biólogo Alain Châtelet e o físico Jean Soum. Na temporada em Toulouse, além da pesquisa sobre a aplicação de softwares ainda em desenvolvimento para simulações do desempenho climático de projetos e construções, como o Casamo-Clim e o Oasis, e também em softwares pioneiros de modelagem 3D como o Exception (5), ainda outras experiências pessoais foram igualmente importantes: primeiro ir a Beaumarchés, uma bastides (6) de menos de mil habitantes no centro do Gerse, na região de Occitânia, à oeste de Toulouse, e conhecer o pai do Pierre, Monsieur Fernandez, um construtor da região que vivia em uma casa pertencente à família há mais de quinhentos anos. Assim como Pierre criou especial afetividade com meu pai, Moacyr Moojen Marques, igualmente eu com o dele após uma noite de conversação política, em um entrevero de francês com português, bebendo Armagnac até o amanhecer.
L´Atelier E, Des Pedrigals, Michel Gerber, 1974
Outra experiência foi, depois de uma breve temporada hospedado no apartamento de Pierre e Elaine na Rue de Coutelliers, próximo a Le Pont Neuf e o rio Garonne, morar em uma casa de estudantes, no bairro Toulouse le Mirail, projeto do início dos anos 1960 do escritório Candilis-Josic-Woods, integrantes do Team 10 e adeptos do conceito Matt Building, que despertou meu interesse em pesquisas sobre o tema, que ainda seguem em marcha atualmente (7). Ainda, não menos importante, conhecer dois estudantes de arquitetura brasileiros que cursavam a graduação em Toulouse, que igualmente são amigos de primeira ordem até hoje: Guilherme Lassance (8), com quem fizemos, em um Ford Fiesta vermelho antigo, um roteiro Le Corbusier que incluiu Ronchamp e La Tourette, com visita no caminho às salinas de Arc-et-Senans de Le Deoux. Depois, Dóris Binz (9) que, com Guilherme, foi a Paris me acompanhar nas visitas aos escritórios de Paul Chemetov e Cristian Portzamparc para as entrevistas da pesquisa de mestrado, onde os Grands Travaux de Paris, promovidos por François Mitterrand, eram peça central. Dóris e Guilherme fizeram juntos seu trabalho final de graduação, em Toulouse, orientados pelo Pierre, com uma proposta de arquitetura vernacular na floresta Amazônica que teve grande repercussão na Ensa Toulouse.
Sérgio Marques, Pierre e Elaine Fernandez, Rue de Coutelliers, Toulouse, Dezembro, 1990
Nos anos 1990, ajudei Pierre e diversos pesquisadores brasileiros a criar e fundar a Rede de Arquitetura e Meio Ambiente da América Latina – Ramal, que objetivava promover trocas acadêmicas entre pesquisadores da área. Retornei a Toulouse muitas vezes. Sempre que viajei para o velho continente, a parada em Toulouse tornou-se obrigatória. Ainda em 2008 fui a Escola Tècnica Superior d'Arquitectura da Universitat Politècnica de Catalunya – Etsab UPC em Barcelona fazer doutorado sanduíche, e novamente a ponte com Toulouse foi frequente, assim como quando Pierre veio morar em Recife, trabalhando para a Embaixada da França no Brasil, e entrecruzamos com outros amigos de lá, como Fernando Diniz Moreira, Roberto Montezuma e o meio do Documentation and Conservation of building, sites and neighbourhoods of the Modern Movement – Docomomo, com quem algumas atividades conjuntas ainda estão em marcha.
Place du Capitole, Toulouse, maio de 1991
Por fim, mais um acontecimento mágico, porém seguido de um trágico: ainda na década de 1990, recebi, em Porto Alegre, uma carta (não havia e-mail na época) de Dóris Binz noticiando: "Adivinha com quem vou casar? Com um arquiteto chamado Pierre Fernandez de Toulouse". Foi uma grande surpresa e demorou enorme tempo para através de nova troca de correspondências esclarecer que o Pierre Fernandez da Dóris também era francês e cidadão de Toulouse, arquiteto e igualmente prestes a ter uma esposa brasileira, mas não era o mesmo Pierre com quem trabalhei na pesquisa e nem se conheciam pessoalmente! Com esta coincidência incrível e esta triangulação, da qual fui um dos vértices, ficamos todos muitos próximos, nos visitando reciprocamente durante anos. Passei a chamar o professor de "Pierre 1" e o marido da Dóris de "Pierre 2" (10).
Quando faleceu o pai do Pierre 1, o que me deixou muito triste na época, este se mudou para Beaumarchés para dar apoio à família e emprestou seu apartamento em Toulouse para Dóris e Pierre 2, que estavam reformando sua casa. Então a confusão chegou ao clímax: dois Pierres, franceses de Toulouse, arquitetos, casados com brasileiras, no mesmo endereço. Não dava para saber para quem eram as correspondências...
Fui à França em 2017 realizar as entrevistas da atual pesquisa, voltei a visitar Paul Chemetov e estabeleci contato com Richard Scoffier, por intermédio de Guilherme Lassance. Estas duas devem ser as entrevistas treze e quatorze, respectivamente, a serem publicadas. Combinamos de nos encontrar, todos os Pierres e esposas em Paris, para realizar as entrevistas e matar as saudades. Pierre Fernandez 1 finalmente não conseguiu ir. Pierre 2 foi com Dóris e nos acompanhou durante alguns dias de pesquisa, e em outro roteiro Le Corbusier que fizemos juntos em Paris. Foi meu último encontro com Pierre 2. Em março de 2020, ele faleceu tragicamente em um acidente de motocicleta. Voltei a ter apenas um amigo Pierre. Faço minha homenagem ao que se foi no final desta entrevista.
Com o desencontro em Paris e dada a proximidade pessoal, Pierre 1 e eu fizemos a entrevista on-line, entre Beaumarchés, Toulouse e Porto Alegre, sem dificuldades, retomando a questão do meio ambiente, que foi o disparador destes anos todos de sólidas amizades.
Pierre Fernandez 1 e Sérgio Marques, Maison a Beaumarchés, 1991
notas
1 Ver MASCARÓ, Lúcia. Energia na edificação – estratégia para minimizar seu consumo. São Paulo, Projeto, 1985. Este trabalho, antes de ser publicado, recebeu o primeiro prêmio nacional do II Prêmio Light de Energia na Edificação, em 1984. A publicação coloca os conceitos de forma predominantemente gráfica, visando um maior didatismo em relação ao meio acadêmico e profissional.
2 Edifício de habitação coletiva, projetado e construído por Carlos M. Fayet, Claudio L. G. Araújo e Moacyr Moojen Marques, nos anos 1960, para suas próprias famílias. Ver MARQUES, Sérgio Moacir. FAM. Porto Alegre, Associação dos Docentes da Faculdade de Arquitetura de Porto Alegre – ADFAUPA, 2016.
3 Arquiteto suíço, trabalhou com Mies van der Rohe nos anos 1960 e estudou urbanismo no Illinois Institute of Technology em Chicago. Nos anos 1970 se converteu em um dos pioneiros em Arquitetura Bioclimática na França. Seu escritório na região do Languedoc-Roussillon é considerado por muitos a primeira Casa Solar Passiva, construída sobre as ruínas de uma antiga fazenda. Foi professor na Ensa/Toulouse de 1974 a 2002 e colaborou na criação do Groupe de Recherche Environnement et Conception en Architecture et Urbanisme – Grecau, na escola. Faleceu em 2002 com a idade de oitenta e um anos. Foi a Porto Alegre em uma das missões do acordo Capes Cofecub, deu aulas no Propar e proferiu uma concorrida conferência, com Pierre Fernandez, na FAU UniRitter. Hospedou-se no FAM, no apartamento do Arquiteto Claudio L. G. Araújo e igualmente foi batizado com um churrasco descomunal, que o deixou com um tom azulado. Apesar da barreira do idioma, a linguagem universal compartilhada pela admiração a Mies fortaleceu grande afinidade entre Gerber e Araújo. Ver: Décès de Michel Gerber. Le Conseil Régional de l’Ordre rend hommage à l’architecte Michel Gerber qui vient de disparaître à l’âge de 81 ans. Ordre des Architectes, Paris <architectes.org/actualites/deces-de-michel-gerber>.
4 Ville de Montpellier: Groupe Scolaire Val de Croze – Concour. Realisation: Ceccotti Entreprise Generale. Equipe Anne Marie Adenis, Michel Gerber, M. M. Tjoyas. Colaboração Sérgio M. Marques e Anna Paula M. Canez. Projeto desenvolvido na cidade de Perpignan, no sul da França, onde foram aplicados diversos conceitos desenvolvidos na pesquisa. Igualmente oportunizou a criação de laços de amizade com a arquiteta Anne Marie Adenis, que igualmente ocasionou muitas visitas posteriores a Perpignan. Ver <ufrgs.br/arqconcursosrs/acervo/1991-2/ville-de-montpellier-franca-participacao/>.
5 Boa parte do trabalho de pesquisa consistiu em comparar as medições in loco de iluminação natural e variação térmicaem uma escola projetada e construída por Michel Gerber, na cidade de Collioure, na costa do Mediterrâneo, próxima a fronteira com a Espanha, com simulações realizadas nos softwares Casamo-Clim e Oasis, analisando resultados. O software Exception era um antecedente promissor do SketchUp, que rodava na plataforma do System Seven, nos primeiros computadores Macintosh. Ver MARQUES, Sérgio Moacir. Conhecimento, estudo e adaptação às práticas empregadas na pesquisa da Arquitetura Bioclimática na França. Relatório de pesquisa, 1991.
6 Cidades novas, construídas na França, na Idade Média, para consolidar território aos respectivos feudos. A região do Gerse é igualmente emblemática do que os franceses chamam de la France Profonde, onde predomina uma gastronomia de raiz como cogumelos, trufas, fois gras,le magret, além dos tradicionais queijos e vinhos du pays e o Cassoulet, uma espécie de feijoada branca da região de Toulouse.
7 Escrevi artigo relacionando esta abordagem em alguns projetos de Cláudio L. G. Araújo. Ver MARQUES, Sérgio Moacir. Memphis: uma análise tipológica necessária. Porto Alegre, Arqtexto (UFRGS), v. zero, 2000, p. 104-115. Posteriormente o tema esteve presente na orientação de mestrado sobre a mesma obra no PPGAU UniRitter Mackenzie. Ver QUADROS, Luthiane. Indústrias Memphis – Outro caminho para a cerâmica armada na arquitetura moderna do Rio Grande do Sul – 1970/1980. Dissertação de mestrado. Porto Alegre, Centro Universitário Ritter dos Reis, 2015. E atualmente, mais uma vez, na orientação de doutorado intitulada Rastreando Mat-Building: estudo histórico-crítico de sua evolução, de Cristina Gondim, em andamento, no Propar UFRGS.
8 Guilherme se graduou em arquitetura naEscola Nacional Superior de Arquitetura de Toulouse (1992), fez Mestradoem Ambiances Architecturales et Urbaines – DEA na Escola Nacional Superior de Arquitetura de Nantes (1994) e Doutorado em Ciências da Arquitetura na Universidade de Nantes (1998). De 1998 a 2002, foi professor e membro do Conselho Científico e Pedagógico – CPR da Escola Nacional Superior de Arquitetura de Toulouse. Atualmente é Professor titular e vice-diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro – FAU UFRJ e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo – Prourb UFRJ. Atua também como professor visitante da Escola Nacional Superior de Arquitetura de Paris Val-de-Seine – Ensapvs em Paris, e como membro do Conselho Científico do Laboratoire Infrastructure, Architecture, Territoire – Liat da Escola Nacional Superior de Arquitetura de Paris-Malaquais. Colabora nesta pesquisa auxiliando na realização de conexões com o meio acadêmico francês e está contribuindo na realização da entrevista com o professor e arquiteto parisiense Richard Scoffier, que será publicada posteriormente.
9 Dóris Binz, filha do Comandante Binz da Varig, que pilotou o primeiro voo comercial desta companhia entre Brasil e França, se graduou em arquitetura naEscola Nacional Superior de Arquitetura de Toulouse (1992). Fez mestrado (Diplôme d’Études Approfondies en géographie en aménagement) sobre a adequação da Arquitetura Moderna em clima subtropical úmido – Brasil, com estudo de caso sobre o Palácio da Justiça em Porto Alegre (Faculté de Toulouse le Mirail, 1998) e Architecture, Environnement et Développement Durable (C.I.F.C.A. – Direction de l’Architecture et du Patrimoine, 2007). Trabalhou como colaboradora em diversos escritórios de arquitetura de Toulouse e região do Midi-Pyrénées. Atualmente é arquiteta concursada da prefeitura de Toulouse como Responsável Técnica pelos Edifícios Escolares (Mairie de Toulouse – Direction de l’Éducation, 2016).
10 Pierre Fernandez 2 nasceu no mesmo ano que eu (1962), se graduou em arquitetura naEscola Nacional Superior de Arquitetura de Toulouse (1987), colaborou no escritório Hamiltton & Associates em Londres (1988-1991), na Agence Vigneu & Zilio Architectes – Toulouse (1991-1993) e Cardete & Huet Architectes – Toulouse (1993-1999). Fundou a Société d’exercice libéral à responsabilité limité – Selarl Pierre Fernandez em Toulouse (2007-2020).
Ensa Toulouse, Candilis-Josic-Woods, 1968, ateliê de projeto, 2019
Sérgio M. Marques – Alô, Pierre. Como de praxe, te pergunto "qual é a tua"?
Pierre Fernandez – Daí, "tchê". Pois é... Por aqui muitas preocupações neste período estranho que estamos enfrentando... Estamos nos preparando para retomar as aulas presenciais. Nunca imaginei que nestas alturas da minha vida, estaria contando máscaras para poder distribuir aos alunos...
SMM – Por aqui a cena também é surealista... Por isto trabalhar nestas entrevistas tem sido, para mim, a chance de pensar um pouco mais nas questões estruturais e não padecer tanto com a conjuntura...
PF – É o melhor agora. Mas nem sempre a vida permite... O consolo é que neste cenário avassalador o tema do meio ambiente e das relações da arquitetura com a saúde humana inexoravelmente chegará mais próximo da atenção que merece.
SMM – Esta é uma das razões pelas quais resolvi formalizar e publicar, na forma de entrevista, conversas amigáveis que travamos já há quase trinta anos! Podemos começar?
PF – Vamos lá, ex-campeão.
SMM – Vou fazer que não escutei esta... Pierre, você já foi coordenador do Groupe de Recherche Environnement Conception – Greco, laboratório de Arquitetura e meio ambiente, referência no contexto internacional, deste campo. Atualmente é Diretor da Ensa Toulouse, depois de já ter exercido esta função em outra oportunidade. Diante destas experiências e das mudanças significativas no campo da tecnologia, meio ambiente, globalização, cultura etc., que se sucedem velozmente na cena contemporânea, qual tua visão sobre o futuro da profissão de arquiteto e urbanista e sua formação correspondente, dentro de uma perspectiva global?
PF – Inicialmente gostaria de esclarecer um ponto de vista sobre o lugar dos arquitetos na estrutura social. Embora às vezes tenhamos a sensação (muitas vezes a ilusão) de que nossos planos podem determinar a maneira das pessoas viverem, devemos ter certa modéstia em reconhecer que somos mais um dos produtos do contexto em que vivemos. Portanto, seria razoável estar satisfeito em devolver a melhor contribuição possível para a evolução deste mesmo contexto. Por outro lado, quando me fazem a clássica pergunta se o arquiteto é artista ou técnico, costumo usar a clássica resposta de que estes dois ingredientes são parte integrante da nossa profissão, mas que, além disto, devemos sobretudo sermos capazes de construir um quadro de vida favorável ao nosso ambiente e ao nosso tempo. É clara a importância de nos esforçarmos para antecipar desenvolvimentos e mudanças, particularmente em nossas ações de treinamento e transmissão de conhecimento; no entanto, a arquitetura é o reflexo de uma época e de seus desafios sociais. Portanto acredito que hoje a arquitetura tem que enfrentar as questões da transição social e ecológica, sem, no entanto, abandonar o passado, equilibrando os valores do patrimônio e os do desenvolvimento sustentável. Como tal, devemos também valorizar a produção do Movimento Moderno, agora um legado completo da herança do século 20, respeitando seus conceitos e dispositivos. Na Ensa em Toulouse, por exemplo, o atual projeto de renovação e extensão da escola tem como um dos objetivos articular o já patrimônio histórico moderno constituído pelo projeto do escritório Candilis-Josic-Woods, com as exigências ambientais atuais. O arquiteto é antes de tudo um ator fundamental do ambiente, da vida e de suas evoluções. Portanto, de novo: é urgente abordar as questões relacionadas à transição ecológica.
Ensa Toulouse, Candilis-Josic-Woods, 1968, área de uso comum, 2019
SMM – Então, em tua opinião, o Movimento Moderno tem um papel central neste processo?
No início do século 20, já em um contexto de convulsões técnicas, sociais e culturais ligadas à revolução industrial e ao êxodo do campo para as cidades, o Movimento Moderno afastou-se dos sistemas de construção tradicionais e muitos arquitetos também subestimaram o vínculo entre arquitetura e seu contexto, como mostram os esboços de Le Corbusier reproduzidos no livro Sites et sitologie (1). Movidos pela ideia de progresso, a maioria dos designers desenvolveu um estilo internacional excessivamente padronizado em suas formas e materiais, muitas vezes minimamente desconectado de seu lugar. Em muitos casos é possível lamentar a falta de consideração pelo local, pelo clima e pelos recursos locais, em uma abordagem oposta ao que algumas arquiteturas vernaculares e suas evoluções obtiveram. Mas mesmo que hoje soframos as consequências sociais e ecológicas de algumas destas escolhas, não podemos culpar os arquitetos por terem respondido aos problemas de uma sociedade com os meios e os conhecimentos de seu tempo. Em uma obra de referência, esta foi a observação de Dominique Gauzin-Müller (2), a qual compartilho, principalmente quando ela acrescenta que o arquiteto finlandês Alvar Aalto foi um dos poucos a alertar sobre os perigos da padronização. Sua Villa Mairea, de 1939, combina elegantemente as influências do vernáculo e do Movimento Moderno (patrimônio e modernidade). Pode ser considerada, sob este ponto de vista, como uma das primeiras casas ecológicas.
PF – Mais tarde, no final dos anos 1960, a humanidade percebeu que vivia em um mundo fechado, le vaisseau spatialTerre (a nave espacial Terra), de recursos limitados. Após os gritos de alerta de alguns raros visionários, a revelação do desastre de Minamata no Japão (envenenamento fatal devido à concentração marinha de mercúrio, em 1956) e os primeiros derramamentos de óleo tornaram concretos os riscos que a revolução industrial poderia representar para nossa saúde e o que passamos a chamar de meio ambiente. A primeira conferência internacional sobre o meio ambiente em Estocolmo, em 1972, parece ser um símbolo dessa conscientização. Um ano depois, o primeiro choque do petróleo, por sua vez, ilustrou outro problema muitas vezes esquecido, apesar das advertências resumidas no primeiro relatório do "Clube de Roma" (3): o esgotamento dos recursos era de fato uma realidade, ainda que, neste caso, era um problema de fornecimento vinculado a considerações geopolíticas. Por meio desses dois aspectos, o dos recursos finitos e o dos riscos associados à demografia descontrolada, especialmente nos países mais pobres, é a gestão global do planeta e de seus ecossistemas que o homem deve estabelecer. Apesar dos altos e baixos das vontades políticas e, acima de tudo, das variáveis consideráveis entre os países, a Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas – ONU, em seu relatório intitulado Nosso Futuro Comum, conhecido como Relatório Bruntland de 1988 (4), propôs que as nações adotassem oficialmente o conceito de Desenvolvimento Sustentável, cuja definição mais comum é a seguinte: o Desenvolvimento Sustentável é o desenvolvimento social, econômico e político que atende às necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender ao seu próprio desenvolvimento. Esta noção revela a necessidade, bastante nova na sua afirmação internacional oficial, de uma dupla solidariedade: solidariedade entre todos os povos do planeta e solidariedade entre as gerações. Cada ator em cada setor da vida econômica é, portanto, confrontado com a responsabilidade que lhe cabe na gestão global dos recursos e do meio ambiente. O arquiteto, portanto, deve ocupar um lugar central neste processo.
SMM – Na França, atualmente quem coordena a gestão destes aspectos e relações?
PF – Na França, é muito importante a ação de dois níveis institucionais, que atuam de forma direta sobre estas relações: primeiro a Agence de l´Environnement et la Maitrise de l´Energie – A.D.E.M.E (5), que é uma agência federal vinculada ao Ministère de la Transition Écologique et Solidaire (6), que incentiva, aconselha e financia iniciativas científicas e profissionais a respeito de energia e do meio ambiente, tanto na área da edificação quanto da indústria. Outro é a Ecole National Supérieur d´Architecture – Eco – ENSAEco, que é a rede de Escolas Nacionais Superiores de Arquitetura, que trabalham sobre a melhor integração das considerações ambientais no ensino do projeto de arquitetura.
2 GAUZIN-MÜLLER, Dominique. L'architecture écologique du Voralberg. Paris, Editions du Moniteur, 2009.
3 Club de Rome, Grupo de Reflexão fundado em 1968.
4 Rapport Brundland: "Notre avenir à tous", ONU, 1987.
5 Agência de gestão Ambiental e Energética.
6 Ministério da Transição Ecológica e Solidária. Ver <https://www.ecologie.gouv.fr/>.
Ensa Toulouse – Trabalho Final de Graduação, Centre d’interprétation, l’île du Ramier, Franck Martinez e Jean-François Marti (estudantes que fizeram intercâmbio na FAU/UFRJ em 2017), Orientador Florent Roucoules, 2018
Sérgio M. Marques – Em relação ao ensino do projeto de arquitetura, a partir da tua larga trajetória acadêmica e profissional no contexto da arquitetura e do meio ambiente, em muitos aspectos e momentos de forma pioneira, tanto no contexto europeu quanto sul-americano, qual tua visão sobre a evolução destes conhecimentos no campo da arquitetura e do projeto? Como este processo impacta especificamente a Educação do Arquiteto para o futuro e suas especificidades, como o projeto de Arquitetura e Urbanismo?
Pierre Fernandez – No campo da Arquitetura, no segmento residencial e terciário, o projetista deverá continuar a oferecer abrigo e conforto ao usuário, mas também deverá garantir que o impacto da edificação no meio ambiente seja minimizado. Seguindo o movimento dos autoconstrutores americanos dos anos sessenta que, na esteira dos movimentos hippie e dos ambientalistas, lançaram as bases para uma reflexão nessa direção, o surgimento da "Arquitetura Solar” e depois “Bioclimática” permitiu tanto a teorização quanto a concretização dessa reflexão sobre a produção arquitetônica e o ambiente construído. Assim, em relação ao bioclimático, voltamos ao seu significado original: o termo bioclimático refere-se a uma parte da ecologia que estuda mais particularmente as relações entre os seres vivos e o clima. Já estávamos definindo a Arquitetura Bioclimática em nosso laboratório de pesquisa na década de 1980. Esta expressão visa principalmente melhorar o conforto que um espaço construído pode induzir de forma natural, ou seja, minimizando a utilização de energias não renováveis, os impactos indesejáveis no ambiente natural e os custos de investimento e operação. O interesse do bioclimático vai, portanto, na direção da destreza de viver ou de utilizar um espaço com sensibilidade e economia, que o torna um elemento fundamental da arte do arquiteto. A evolução do nome do nosso laboratório mostra como esta questão tem gradualmente assumido o domínio da arquitetura: primeiro Laboratório de Arquitetura Bioclimática – LAB, depois passou a ser Grupo de Investigação Ambiental e Arquitetura e Urbanismo – Grecau quando fui coordenador, e as pesquisas agora estão sendo desenvolvidas no âmbito do Laboratório de Pesquisa em Arquitetura – LRA.
Ensa Toulouse – Trabalho Final de Graduação, Centre d’interprétation, l’île du Ramier, Franck Martinez e Jean-François Marti (estudantes que fizeram intercâmbio na FAU/UFRJ em 2017), Orientador Charles Favereau, 2018
PF – Todos os níveis da arquitetura, desde o quarto habitável até a cidade, devem concorrer para a evolução da sensibilidade a partir da interdependência dessas diferentes escalas de intervenção. Por exemplo, alcançar as condições de conforto em um edifício e o uso de energias renováveis requer levar em consideração o seu ambiente e também modificá-lo em troca. Portanto, depende do ambiente e está necessariamente integrado a ele. Nesse contexto mais amplo, os aspectos energéticos especificamente ligados à Arquitetura Bioclimática permanecem sendo fundamentais. Em termos de gestão de recursos, estudos em todo o mundo mostram que o consumo de energia no setor residencial e terciário é, dependendo do país, em torno de 30 a 40% do consumo total. Sabendo que esse consumo depende fortemente de combustíveis fósseis, que são recursos não renováveis, entendemos a necessidade de reduzir o consumo ao máximo. Cenários otimistas preveem o esgotamento dos recursos de petróleo e gás no final do século 21. No que diz respeito à poluição, às emissões de CO², gases com efeito estufa, cujo aumento da taxa atmosférica gera riscos significativos para a temperatura média, nos países da Comunidade Europeia são estimadas em 22% para o setor da construção, o que está longe de ser desprezível. Por outro lado, conhecemos as incertezas associadas aos gases de substituição CFC, usados em sistemas de ar condicionado, principalmente em países tropicais, e provavelmente em parte responsáveis pelo buraco na camada de ozônio. Portanto devem ser produzidos e usados apenas temporariamente, HCFCs em particular. Poderíamos citar muitos outros fatores, mas sem entrar nos dados quantitativos é fácil perceber que a construção de edifícios com baixo perfil energético deve permitir economizar energia, que se torna preciosa, e reduzir as emissões de poluentes, o que na verdade vai na direção do desenvolvimento sustentável. Vemos, portanto, que a integração das preocupações ambientais, tanto ao nível do projeto arquitetônico como do projeto urbano, deve necessariamente influenciar fortemente os hábitos dos profissionais do projeto arquitetônico agora e no futuro.
PF – Esta consciência gerou, nas últimas décadas, um grande número de pesquisas no campo da arquitetura, das ciências da engenharia, bem como no campo das ciências humanas e sociais. Este trabalho centra-se na quantificação dos fenômenos físicos envolvidos, mas também na percepção e participação dos ocupantes, bem como nos sistemas de atores, de forma a incrementar o processo do projeto. Se a arquitetura remonta aos fundamentos das civilizações, o meio ambiente é um conceito recente, do início dos anos sessenta, que se baseia de forma significativa, mas não exclusiva, em uma disciplina científica: ecologia – oikos: habitat, logos: discurso, definido por Haeckel em 1866 como o estudo da relação entre os seres vivos e seu ambiente. O ambiente é uma noção complexa que todos se apropriam de forma mais ou menos intuitiva, mas que no seu uso mais comum sempre se refere ao homem, e podemos, entre outras definições, considerá-lo, de acordo com o Grupo Interministerial de Avaliação Ambiental, como "todos os fatores que podem afetar cada um de nós nas suas relações com a comunidade humana e os ambientes naturais coletivos”, conceito que tem a vantagem de ser simples e abranger todos os significados geralmente aceitos. Neste contexto, o desenho de edifícios, a arquitetura e o projeto urbano, considerados como “a arte de construir”, não podem ignorar a questão ambiental. Com efeito, o arquiteto, na sua atividade, deve gerir três grandes áreas que emergem do ambiente tal como definido acima: espaço, recursos e condições de vida.
Ensa Toulouse – Trabalho Final de Graduação, métabolisme urbain, l’île du Ramier, Franck Martinez, Jean-François Marti e Baptiste Grillet (estudantes que fizeram intercâmbio na FAU/UFRJ em 2017), Orientador Florent Roucoules, 2018
SMM – A partir deste ponto de vista, este entendimento coincide com o que alguns modernos diziam: a arquitetura se é boa, é boa em todos os sentidos (inclusive ambiental), portanto dispensa adjetivos.
PF – Sim, em minha opinião esta abordagem não deve mais ser uma abordagem especializada, mas deve influenciar a prática de todos os arquitetos e designers. Trata-se de uma abordagem cívica do futuro de uma profissão que, creio, será ameaçada e marginalizada se não souber acompanhar o curso da História. Para fazer evoluir as práticas profissionais é também fundamental que as práticas pedagógicas evoluam nos cursos de formação de arquitetos. É isso que nos esforçamos para fazer na Ensa de Toulouse, que tenho o privilégio de dirigir atualmente. Quando me formei nesta escola, na década de 1970, certas aulas já haviam sido fortemente impactadas pelo choque do petróleo de 1973 e falava-se muito sobre arquitetura solar, cuja palavra-chave era “energia”. Na década de 1980, quando comecei a lecionar lá, acompanhamos uma evolução da problemática em direção a uma abordagem bioclimática, preocupada com o conforto do usuário e o impacto ambiental das edificações, então de forma mais geral, com o desenvolvimento urbano sustentável. Hoje, a fim de melhorar o desempenho energético e reduzir o impacto do carbono, "abordagem E + C-", colocamos em marcha fundamentos de ensino com "base biológica" (características geográficas e culturais do lugar, materiais e recursos locais etc.) inspirados em arquitetura vernácula e voltados para uma linguagem contemporânea.
SMM – Qual arquiteto, na França, em tua opinião, produz arquitetura consistente, com parâmetros ambientais equilibrados, na atualidade?
PF – O nome do arquiteto e também professor titular que tem uma produção que considero referência na França é Philippe Madec (1). Ele atualmente é um dos concorrentes para o projeto de revitalização e ampliação da Ensa Toulouse, no concurso que está em marcha.
Ensa Toulouse – Trabalho Final de Graduação, métabolisme urbain, l’île du Ramier, Franck Martinez, Jean-François Marti e Baptiste Grillet (estudantes que fizeram intercâmbio na FAU/UFRJ em 2017), Orientador Florent Roucoules, 2018
notas
1 Nascido na Bretanha (França) em 1954, Architect d.p.l.g. desde 1979, pioneiro no desenvolvimento sustentável do planejamento urbano e da arquitetura, Philippe Madec já morou em Paris e Bruxelas. Formado em arquitetura no Grand Palais em Paris (estúdio de Ciriani/Maroti) de 1972 a 1979, fundou seu estúdio em Paris em 1989. Conduziu pesquisas sobre pedagogia e teoria arquitetônica e escreveu sobre Etienne Louis Boullee seu primeiro livro. É arquiteto do Conselho de Estado desde 1995, professor de Arquitetura desde 1996, membro titular da Academia de Arquitetura desde 2007, Chevalier da Légion d'honneur (em matéria de ecologia) desde 2008, Diretor do Escritório do Corpo de Arquitetos do Conselho de Estado 2010, Membro Titular Seção Europeia do "Clube de Roma" desde 2010, Prêmio global de arquitetura sustentável de 2012, especialista da ONU, em 2016, para a preparação da cúpula do Habitat II em Quito, professor convidado (Columbia University, ENSPaysage de Versailles, University of Montreal, Harvard University, Paris-Tolbiac, Grenoble, Rouen, Lyon). Desde 2010 é professor da Ensa Rennes, onde ensina "A invenção do território sustentável" e, desde 2005, convidado da Universidade Técnica de Viena (Dept BIOS, FHJourda). Diretor de Investigação sobre os desenhos arquitetônicos para a École des Pont et Chaussées no século 18, pesquisa a relação teoria / pedagogia na arquitetura com qualidade ambiental, ventilação natural etc. Ver <https://www.atelierphilippemadec.com/p-madec.html>.
Conferências "Do projeto bioclimático ao desenvolvimento sustentável" e "Diretrizes meio-ambientais no projeto de arquitetura e urbanismo", com Michel Gerber e Pierre Fernandez. Núcleo de Projetos, FAU UniRitter, 12 e 13 de novembro de 2001
Sérgio M. Marques – Você traz um interesse especial nesta pesquisa, tanto pela vivência nas questões de arquitetura e meio ambiente, que falamos antes, quanto nas relações com o contexto brasileiro. Casou com uma brasileira, tem um filho brasileiro, morou no Rio de Janeiro e Recife, coordenou diversos programas de fomento à pesquisa e ao ensino nestas cidades e também em Porto Alegre, além de ter sido adido cultural da Embaixada da França no Nordeste. Qual sua visão em relação ao futuro da educação do arquiteto no Brasil?
PF – Ao longo dos anos, a visão por vezes redutora da Arquitetura Solar evoluiu para uma arquitetura mais cuidadosa, que não se limita à integração ao local ou à grande paisagem, mas também se alimenta dos recursos e da cultura local. No caminho traçado por Alvar Aalto ou mesmo Frank Lloyd Wright, experiências como as de Voralberg na Europa ou realizações valorizadas à escala global nas exposições Terra Award e Fibra Award (1), que fazem evoluir a cooperação norte-sul para a cooperação bilateral, mostram que a abordagem ambiental não é incompatível com a produção de uma arquitetura sensível e de qualidades formais, mas, pelo contrário, uma fonte de matéria prima projetual criativa. Vale referir ainda que os concursos de arquitetura realizados nos últimos anos na França não tiveram a qualidade arquitetônica dos projetos prejudicada, apesar das crescentes restrições em termos de observância da qualidade ambiental que se generalizaram. Pelo contrário, considero que os requisitos contidos no caderno de encargos elaborado para a programação de projetos com parâmetros para a utilização de recursos locais, desempenho energético, impacto de carbono etc. melhoraram a qualidade da produção arquitetônica, inclusive formalmente. Este nível de exigência, em particular sobre a valorização dos recursos locais, tende inevitavelmente a aumentar após o aparecimento da crise de saúde ligada à Covid-19, que nos atinge profundamente.
Dóris Binz, Sérgio Marques e Guilherme Lassance, L´Agence Paul Chemetov, Paris, 1991
PF – Na América do Sul, onde o recurso natural é mais rico do que em qualquer outro lugar do mundo, essa tendência deve se desenvolver no futuro, desde que os poderes políticos integrem a ideia de que o desenvolvimento econômico deve conter o enfoque ambiental e a justiça social como fatores de desenvolvimento urbano e rural sustentável para a sociedade de amanhã. No que diz respeito à qualidade ambiental, arquiteturas exemplares já viram a luz do dia há muito tempo com as produções de Simon Velez na Colômbia, ou mesmo de Zanine Caldas, Severiano Mario Porto ou Helio Olga no Brasil. Muitos outros trilharam esse caminho, mas, como foi o caso da Europa nos anos 1980, de forma ainda muito isolada. Também o foram as experiências realizadas em habitação de interesse social, principalmente em Minas Gerais. No entanto, espero que seja apenas uma questão de tempo e que a abordagem ambiental seja generalizada na arquitetura, tanto no Brasil como em outros países latino-americanos, para acompanhar o mundo contemporâneo. Do contrário, é a credibilidade dos arquitetos que está em jogo, e talvez até o futuro da profissão. Se ela não souber acompanhar os tempos ficará despojada do desenho do ambiente em que vive e com isto se desconectará de seu tempo.
Painel Final do Trabalho Final de Graduação. Da esquerda para a direita: Professores Julio R. Colares, Pierre Fernandez, Claudio Araújo. À direita, concluinte André Gomes. Núcleo de Projetos, FAU UniRitter, 2001
PF – Esta realidade deve ser levada em consideração não só pelos profissionais, mas também e sobretudo nos estabelecimentos de formação. Por ter participado pessoalmente deste processo educacional no Brasil como professor convidado da UFRJ e UFPE, como coordenador dos convênios Capes / Cofecub com a UFRJ, UFRGS, UFSC, UFJF, e por ter orientado várias teses de mestrado e doutorado, sei que esta tendência está em curso, mas que também deve ser generalizada nas faculdades de arquitetura. Na minha opinião, a principal armadilha que permanece é que no Brasil muitas vezes consideramos que as questões energéticas e ambientais são questões de engenharia (produção de sistemas), quando deveriam, antes de tudo, estar integradas ao conceito arquitetônico, localização, materialidade, morfologia e espacialidade. É por isso que essas questões estão presentes predominantemente na pós-graduação e, portanto, supostamente são questões de especialistas. Eu sei que esforços são feitos no treinamento de arquitetos para transmitir conhecimento no currículo da graduação, mas muitas vezes de uma forma muito isolada do aprendizado do projeto de arquitetura e urbanismo. Tive o privilégio de, nos anos oitenta, montar o curso e lecionar no primeiro Mestrado de Arquitetura e Conforto Ambiental da UFRJ e tenho a satisfação, hoje, de ver que os meus antigos alunos têm feito um trabalho notável de transmissão de conhecimento em muitas universidades brasileiras, e mais amplamente no mundo da arquitetura. Naquela época era uma abordagem específica, e é na comunidade de pesquisa que tínhamos que começar, mas se eu tiver que colaborar hoje, é no curso de graduação que eu faria com um workshop de projetos, porque esta abordagem agora deve investir na arquitetura como um todo.
Abertura do semestre e recepção aos ingressantes. Diretor Pierre Fernandez, ENSA Toulouse, 7 set. 2020
SMM – Uma última pergunta, bastante "bairrista". Você coordenou o acordo Capes Cofecub que facultou sua vinda em diversos momentos a Porto Alegre, onde atuou como professor da Pós-Graduação da FA UFRGS e como colaborador da FAU UniRitter. Também recebeu diversos professores, pesquisadores e estudantes brasileiros na França. Qual a visão que ficou em relação ao ensino de arquitetura, à arquitetura e urbanismo e ao meio cultural de Porto Alegre, em sua sensibilidade?
PF – Foi no âmbito dessas colaborações que tive a oportunidade de conhecer Porto Alegre para estreitar os laços com a UFRGS no âmbito do nosso primeiro convênio Capes Cofecub. No entanto, devo admitir hoje que escolhi a data da minha primeira conferência em uma segunda-feira, e não qualquer uma: aquela que me permitiu ir ao Beira-Rio na véspera para assistir ao jogo de volta (havia visto o de ida no Maracanã, no domingo anterior) do Inter x Flamengo. Ainda me lembro do resultado, mas não vou recordar aqui para não fazer mal a ninguém... Principalmente ao jovem arquiteto que conheci na ocasião, que se tornou meu amigo apesar deste resultado. Você foi de fato o primeiro candidato da UFRGS a realizar uma estadia de pesquisa em nosso laboratório em Toulouse, ação que colocou a primeira pedra de nossa cooperação e de uma longa amizade. Tive assim a oportunidade de regressar várias vezes a Porto Alegre, acolhido pela família Moojen, o que me deu o privilégio de conhecer duas entidades: Moacyr Moojen Marques, notável em geral e em cultura arquitetônica em particular, que me ensinou durante longas conversas a história da Arquitetura no Brasil, e o prédio que ele havia projetado com seus dois sócios para fazer suas residências em três níveis (Edifício FAM). Tive então a vivência, com as explicações do arquiteto, sobre o exemplo flagrante de uma arquitetura vinda direto do Movimento Moderno (estrutura de concreto, pilotis, áreas de transição) mas interpretada em um contexto regional (ventilação natural e proteções solares integradas à forma arquitetônica). Associadas ao concreto, essencial na época, peças de madeira móveis e sua regulação térmica (ventilação, proteção, inércia) foram determinadas pela arquitetura e não por sistemas técnicos de engenharia. De certa forma, uma arquitetura bioclimática moderna.
PF – Posteriormente, tive a oportunidade de descobrir outras conquistas desse tipo e de notar que certos arquitetos se apropriaram do Movimento Moderno, interpretando-o para contextualizá-lo, principalmente no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, mais do que em outros estados do Brasil. Além disso, o desenvolvimento urbano em Porto Alegre me pareceu ter certa preocupação com uma abordagem sustentável (revegetação, mobilidade, densidades etc.), mesmo que a capital não escape, como outras da América (e de muitas na Europa), do que David Mangin chama em suas obras de la ville franchis (2), cujo desenvolvimento não responde a planos diretores sustentáveis mas sim à implantação de espaços oriundos do mercado imobiliário, que gera uma expansão urbana incompatível com os desafios futuros do desenvolvimento sustentável. É claro que essa tendência depende muito das políticas urbanas, mas acho que o arquiteto também não escapará de participar destes debates coletivos para influenciar as tendências.
PF – Para isso deve ser ele próprio sensibilizado e competente na matéria, e é por isso que a formação das próximas gerações de arquitetos deve investir significativamente em uma abordagem ambiental do projeto arquitetônico e urbano desde a graduação, nos ateliês de projeto, tanto em Porto Alegre como em qualquer outro lugar.
SMM – Muito obrigado, Pierre. Agradeço muito mais uma rodada de nossa já longa troca. Vejo que tua dedicação à "causa" permanece afiada, mas com o gosto ou desgosto, dependendo do ponto de vista, de ver confirmadas tuas previsões de fadiga do meio ambiente frente ao descaso. Ainda temos trabalho pela frente.
PF – Eu é que agradeço a oportunidade. E ainda a satisfação de ver que mesmo depois de alguns jogos nas Copas do Mundo, a relação do Brasil com a França permanece em alto nível. E também com você, que desde aquele jogo no Beira Rio, quando fui a primeira vez a Porto Alegre e quase morri ao ser o único a levantar para comemorar no meio da torcida gaúcha o gol do Zico, permanece um amigo de primeira ordem.
2 MANGIN, David. La Ville franchisée: Formes et structures de la ville contemporaine Paris, De la Villette, 2004.
Visita mais recente. Pierre Fernandez 1, Moacyr Moojen Marques e família, Mary Araújo, Suzy Fayet, Edificio FAM, Porto Alegre, 2017
Pierre Fernandez (Pierre 1)
Arquiteto – DPLG (Ecole Nationale Supérieure d’Architecture de Toulouse 1979), Mestre em Arquitetura e Conforto Ambiental (Ecole Nationale Supérieure d’Architecture de Toulouse, 1986), Doutor em Energia (Ecole Nationale Supérieure des Mines de Paris, 1996) e HDR (equivalente na França à livre-docência no Brasil) em urbanismo e desenvolvimento sustentável (Institut National Polytechnique de Toulouse, 2006). Professor titular da Universidade de Toulouse, pesquisador no LRA (Ensa) e GPAS (UFRJ), exerceu a função de diretor científico do Greco, laboratório de pesquisa estudando relações entre meio ambiente e concepção (2002-2006). Assumiu o cargo de diretor da Ecole Nationale Supérieure d´Architecture de Toulouse (2006-2010) e foi sócio-fundador da empresa francesa Addenda, especializada em projetos arquitetônicos de qualidade ambiental (1996-2010). Consultor internacional para assuntos de desenvolvimento urbano sustentável da prefeitura de Toulouse, da ONG Acad (1986-2010) e do Ministério das Relações Exteriores da França (2004-2008). Diretor-adjunto do Instituto Francês do Brasil, para chefiar o serviço de cooperação cultural e científica no Consulado Geral da França para o Nordeste (2010-2014). Diretor do escritório permanente da Universidade de Toulouse no Brasil, atuando também como professor visitante na Universidade Federal de Pernambuco (2014). Diretor da Escola Superior Nacional de Arquitetura de Toulouse em setembro de 2017 até o momento.
Sérgio M. Marques
Arquiteto e urbanista pela FAU UniRitter, mestre e doutor pelo Propar – UFRGS. Professor do Propar/UFRGS, Secretário-executivo do Docomomo RS e diretor do MooMAA – Moojen & Marques Arquitetos Associados. Coordenador da pesquisa e da entrevista.
Entrevista
A entrevista, na verdade, vem sendo realizada há quase trinta anos, mas culminou em trocas de mensagens e reuniões on-line, durante o período de pandemia, em agosto de 2020, entre Beaumarchés e Toulouse na França e Porto Alegre no Brasil, com a participação do Arq. Pierre Fernandez (entrevistado), e o entrevistador arquiteto Sérgio M. Marques.
Homenagem
Em nosso último encontro, em 2018, na saideira da estadia em Paris, Pierre Fernandez 2 quis que fôssemos todos ao Musée De l´Orangerie, no Jardin des Tuileries para ver as Nymphéas de Monet. A pintura, majestosa, é um jardim, dentro de outro jardim, e foi oferecida à França pelo pintor após a Primeira Guerra, como símbolo da paz. Sentamos lado a lado, silenciosamente, durante bom tempo, sorvendo do frescor que exala da tela, sem saber que aquela seria nossa despedida final. Ainda que a tristeza da perda de um amigo tão importante seja incurável, a visita ao Museu foi crucial, pois agora sei para onde Pierre 2 foi e posso visitá-lo sempre que vou a um jardim atrás de paz.
Pierre Fernandez 2 e Sergio Marques no Musée De l´Orangerie, ParisPierre Fernandez 2, Sérgio Marques e Dóris Binz, Rue Homère, Toulouse, 2013Pierre Fernandez 2, in memoriam
Série de entrevistas
As entrevistas estão sendo realizadas dentro do programa elaborado no Projeto de Pesquisa "A educação do arquiteto no século 21 – o ensino do projeto de arquitetura e urbanismo no final do curso: uma reflexão propositiva para os trabalhos finais de graduação", em andamento no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Propar da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – FA UFRGS de 20/02/2018 a 31/12/2021, com verba de custeio Capes oriunda de Prêmio Capes de Tese de 2013. A pesquisa integra o âmbito das atividades do Grupo de Pesquisa "O ensino e a pesquisa do projeto - a produção da arquitetura moderna e contemporânea" constituído pelos integrantes Dr. Francisco Spadoni (FAU USP), Dr. Rogério Castro Oliveira (FA UFRGS), Dr. Fernando Bahima (FA UFRGS), Luciana Inês Gomes Miron (FA UFRGS), Dr. Ângelo Bucci (FAU USP), Dr. Álvaro Puntoni (FAU USP), Escola da Cidade), Dra. Luciana Sabóia Fonseca Cruz (PPG FAU UnB), Dr. Wilson Flório (FAU Mackenzie), Me. Fernando Felippe Viegas (Escola da Cidade), Me. Cristiane Muniz (Escola da Cidade), Me. Cristina Gondim (Doutoranda – Propar UFRGS), Me. Thais Saboia Martins (Doutoranda Propar UFRGS, UTFPR), Me. Patricia Hecktheuer (Doutoranda – Propar UFRGS, UFA), Me. Caroline Beatriz Picolo (Doutoranda PROPAR UFRGS, EA UP), Me. Patrícia de Freitas Nerbas (Doutoranda/ Propar UFRGS – FAU/Unisinos), Me. Mônica Luce Bohrer (Doutoranda Propar UFRGS) e Arq. Lucas Canez Moojen Marques (Mapa Arq.), coordenado por Sérgio Moacir Marques (Propar FA UFRGS) e Francisco Spadoni (PPGAU FA USP) em regime de coliderança. O grupo está em transição para credenciamento na UFRGS junto ao CNPq.
As entrevistas estão sendo publicadas bimensalmente pela revista Entrevista do Portal Vitruvius:
Entrevista 02: MARQUES, Sérgio M.; BOHRER, Mônica L.; MARQUES, Lucas Canez M.. Entrevista com Hernán Díaz Alonso. O ensino no Southern California Institute of Architecture – SCI-Arc. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.03, Vitruvius, abr. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7718>.
Entrevista 04: MARQUES, Sérgio M.. Pierre Fernandez, l´Ecole Nationale Supérieure d´Architecture à Toulouse. Arquitetura, Meio Ambiente, a França e o Brasil. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 084.02, Vitruvius, out. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.084/7911>.
Produção
degravação e tradução da entrevista Sérgio M. Marques
edição da entrevista Sérgio M. Marques
revisão do português Mariana Donner
Bibliografia
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CHATELET, Alain. FERNANDEZ, Pierre. LAVIGNE, Pierre. Architecture climatique, une contribution au développement durable. Tome 2: concepts et dispositifs, Edisud, Aix en Provence, 1998.
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MARQUES, Sérgio. M. O Ensino do Projeto de Arquitetura e Urbanismo no Final do Curso: uma Reflexão Propositiva para os Trabalhos Finais de Graduação. Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (MACKENZIE. ONLINE), v. 16, p. s/n, 2016 <http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cpgau /article/view/2016.2%20Marques>.
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