Abilio Guerra.
“Gilberto Gil, o homem que sabe ouvir”.
Vitruvius entrevista, ed. 21.084. 2020.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.084/7902
Abilio Guerra, Djamila Ribeiro, Keyna Eleison, Chico César, Gilberto Gil, Luiz Fernando de Almeida, Silvana Romano, Helena Guerra, Giovanni Pirelli e Caio Guerra
Quando ficou claro que a pandemia de Covid-19 nos obrigaria a muito mais do que uma simples quarentena, os membros do projeto Marieta desenvolveram uma ideia para se manter em atividade durante o inevitável período de distanciamento social. Em abril, o grupo deu vida ao novo projeto cultural, que ganhou o divertido nome de “Transa Marieta”. Nos dicionários se pode observar a polivalência do vocábulo, ambíguo em suas acepções:
Transa: substantivo feminino; 1. Entendimento, acordo, pacto; 2. Ligação, trama, conluio; 3. Relação amorosa; 4. Relação sexual; 5. Assunto ou questão pessoal; 6. Apreciar muito alguma coisa; 7. Sentir-se bem com; 8. Gostar: “ele não transa música clássica”; 9. Combinar ou entrar em concordância com; ajustar; 10. Fazer maquinações, planos ocultos, geralmente com intuito de prejudicar; 11. Fazer transações, negócios comerciais com; negociar. Etimologia (origem: De transação).
A intenção era convidar personalidades da arte e da cultura contemporânea, com o propósito de discutir uma trajetória de vida e uma percepção específica do mundo atual, em interação com profissionais de áreas diversas, com formações e experiências complementares. Um convite para “transar” ao vivo, misturando prazer e cultura. Não queríamos um programa jornalístico convencional, com perguntas protocolares ou polêmicas, mas um encontro de sensibilidades e inteligências. Uma atração especialmente pensada para a urgência do momento, onde todos vivem a incerteza do futuro imediato. Durante a concepção do evento, que deveria ser necessariamente online, ainda não havia a febre de “lives”, que logo tomaram conta da vida de todos nós.
O programa piloto foi com o escritor Milton Hatoum, que de forma generosa disse sim ao convite para um programa que não passava de esboço de uma ideia. Augusto Massi e Julia Bussius foram os primeiros convidados do coletivo Marieta, para uma animada e aprofundada conversa sobre literatura e política (1). Segundo Massi, a relação amistosa construída durante a conversa deixou o literato manauara tão à vontade ao ponto de revelar coisas inéditas. Desde então, por ideia própria e sugestões do público que foi aumentando, o coletivo paulista conversou com as seguintes personalidades: o músico e compositor Arrigo Barnabé (2), acompanhados por Luiz Gê, Paulo Sampaio, João Sampaio e Carla Camuratti; a arquiteta e militante social Erminia Maricato (3), mais as presenças de Celso Aparecido Sampaio, João Sette Whitaker e Lizete Maria Rubano; o gestor cultural Danilo Santos de Miranda (4), com apoio de Marta Bogéa na conversa; o líder indígena Ailton Krenak (5), cercado dos amigos Isa Grinspum Ferraz, Marco Altberg e Suely Rolnik; e o teatrólogo José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso (6), em prosa e verso com Cafira Zoé, Casé Angatu, Marcelo Dalourzi e Marília Gallmeister.
Nesse mês de outubro, a pandemia arrefecendo no pano de fundo da realidade brasileira, mas ainda causando o desconforto de centenas de mortes a cada dia, o coletivo Marieta, representados por Abilio Guerra e Giovanni Pirelli, recebeu pessoas de grande renome em suas áreas de atuação – o cantor e compositor Chico César, a escritora e filósofa Djamila Ribeiro, a curadora e atual diretora artística do MAM-Rio Keyna Eleison, e o arquiteto Luiz Fernando de Almeida, ex-presidente do Iphan – para conversar com o cantor, compositor e ex-Ministro da Cultura Gilberto Gil. A seleção cuidadosa dos convidados se revelou muito acertada: perguntas bem elaboradas, ao largo do convencional, e respostas sagazes e iluminadas, cortantes às vezes, motivo de fartas gargalhadas em outras tantas, em tom forte em ao menos um instante.
Gilberto Gil
O sétimo episódio da série ocorreu no dia 6 de outubro de 2020, a partir das 17h, com quase duas horas de duração, e transmissão ao vivo via Facebook, na página do projeto Marieta (7). Com grande repercussão e participação do público, teve mais de 5 mil visualizações, 593 comentários, 357 curtidas e 75 compartilhamentos. O comentário bem-humorado de Matheus Assumpção – “Está até difícil de carregar aqui no meu PC, de tanta gente pesada que está na live” –, feito no chat durante a transmissão, sintetiza o que ocorreu: a conexão eletrizante que aos poucos se estabeleceu na conversa contagiou o público. Agora, na íntegra, a entrevista está disponibilizada na plataforma Youtube e pode ser acessada no módulo 2 dessa edição da entrevista.
Quem quiser saber o que se pretendia realizar, pode matar a curiosidade acessando o módulo 3, que contém o roteiro da entrevista, com as perguntas previamente elaboradas pelos convidados, organizadas em dois blocos temáticos: “Cultura: transmissão e construção” e “O passado e o presente”. Como havia a previsão da presença de Gil apenas na primeira hora inicial, pensamos em um hipotético terceiro bloco, “O futuro”, e elaboramos algumas perguntas extras caso ele se decidisse permanecer por mais tempo, o que acabou acontecendo (8). Por fim, no quarto e último módulo desta publicação o leitor poderá consultar informações sobre os participantes do evento, a ficha técnica completa da entrevista, e link para episódios anteriores do Transa Marieta.
Este é o sétimo episódio do Transa Marieta. Como todos sabem, o 7 é um número mágico. Ele é ímpar. Número primo, ele se divide por si próprio ou resta apenas para um. Ele é pleno, ou é igual para todos. Um mistério que se revela na alegria contagiante do convidado Gilberto Gil. À primeira pergunta, de Keyna Eleison, sobre o Festac 77 ocorrido em Lagos, Nigéria, Gilberto Moreira – como preferiu se identificar durante a conversa – deu uma longa resposta, lembrando dos participantes, do evento em si, dos eventos paralelos, da primeira edição do festival ocorrido anteriormente em Dakar, Senegal (9), dos desdobramentos que tiveram em sua carreira e em sua vida. Djamila Ribeiro mereceu atenta resposta à sua indagação sobre como ele entendia os papeis do Estado e da sociedade civil no momento de crise atual (10), raciocínio que ele pôde complementar ao comentar a recordação de Luiz Fernando de Almeida, que narrou um fato peculiar que presenciou em uma das muitas viagens com Gil durante sua gestão como ministro da Cultura: o discurso cantado como “uma embolada, um coco, um rap pantaneiro”.
Chico Cesar, amigo e colega no virtuoso mister de músico profissional, mereceu seguidos e rasgados elogios do nosso entrevistado. Espirituoso e engajado, o artista paraibano colocou em pauta a cena cultural do final dos anos 1960 e início da década seguinte, onde artistas como Tony Tornado, Miriam Batucada, Maria Alcina, Ney Matogrosso, Edy Star, Luli e Lucina, e os tropicalistas em geral se postavam publicamente de forma transgressora na arte e no comportamento. Abilio Guerra, se aproveitando a permanência de Gil na segunda parte da entrevista, lembrou que nesse mesmo período ele havia participado de uma passeata contra a guitarra elétrica e, logo a seguir, de uma apresentação acompanhado dos Mutantes, com a presença da guitarra elétrica empunhada por Sérgio Baptista (11). As respostas de Gil são tão espirituosas em ambos os casos que vamos evitar spoilers nessa breve apresentação.
Faltou perguntar uma curiosidade antiga. Na exposição GIL70 ocorrida em 2012-2013 no Itaú Cultural (12), em um dos totens interativos, Gil explicava como nasceu Super-Homem, a canção (13) a partir de uma conversa com Caetano Veloso, que havia adorado o filme Superman (14). O caso em si foi comentado pelo cantor em algumas situações, mas o que nos interessava saber é como a convencional história do herói que salva a donzela se transformou em magnífica letra sobre a igualdade de gêneros. Mas, se faltou uma explicação mais detalhada sobre seu processo criativo, e se faltou a ilustre presença de Caetano na conversa, em compensação ocorreu uma inusitada situação: Gilberto Gil ouvindo com atenção os comentários dos convidados e mediadores. A modéstia genuína, atributo dos seres iluminados, é um ensinamento para se guardar na memória e no coração.
[texto de Abilio Guerra]
Gilberto Gil
notas
1 O primeiro episódio do “Transa Marieta”, com Milton Hatoum, ocorreu no dia 20 de abril de 2020, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; MASSI, Augusto; BUSSIUS, Julia. Milton Hatoum: literatura em tempos de cólera política e pandemia de coronavírus. Transa Marieta – episódio 1. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.02, Vitruvius, abr. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7713>.
2 O segundo episódio do “Transa Marieta”, com Arrigo Barnabé, ocorreu no dia 12 de maio de 2020, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; ROMANO SANTOS, Silvana. As mil faces do artista Arrigo Barnabé. Transa Marieta – episódio 2. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.04, Vitruvius, maio 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7740>.
3 O terceiro episódio do “Transa Marieta”, com Erminia Maricato, ocorreu no dia 26 de maio de 2020, segunda-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; SAMPAIO, Celso Aparecido; WHITAKER, João Sette; RUBANO, Lizete Maria. Erminia Maricato, arquiteta, professora, gestora pública e ativista social. Transa Marieta – episódio 3. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.05, Vitruvius, maio 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7757>.
4 O quarto episódio do “Transa Marieta”, com Danilo Santos de Miranda, ocorreu no dia 22 de junho de 2020, segunda-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; BOGÉA, Marta; PIRELLI, Giovanni. Danilo Miranda, um intelectual a serviço do Brasil. Transa Marieta – episódio 4. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.07, Vitruvius, jun. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7792>.
5 O quinto episódio do “Transa Marieta”, com Ailton Krenak, ocorreu no dia 21 de julho de 2020, terça-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; FERRAZ, Isa Grinspum; ALTBERG, Marco; ROLNIK, Suely. Ailton Krenak, o intérprete dos intérpretes do Brasil. Transa Marieta – episódio 5. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 083.01, Vitruvius, jul. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7825>.
6 O sexto episódio do “Transa Marieta”, com José Celso Martinez Corrêa, ocorreu no dia 22 de setembro de 2020, terça-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: PIRELLI, Giovanni; ZOÉ, Cafira; ANGATU, Casé; DALOURZI, Marcelo; GALLMEISTER, Marília. Zé Celso, a irreverência a serviço da teatro e da cidade. Transa Marieta – episódio 6. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 083.04, Vitruvius, set. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7890>.
7 Transa Marieta #7 – Gilberto Gil em conversa com Chico César, Djamila Ribeiro, Keyna Eleison e Luiz Fernando de Almeida, com mediação de Abilio Guerra e Giovanni Pirelli, 06 out. 2020 <www.facebook.com/watch/live/?v=338370723917662>.
8 A programação do episódio era a seguinte: 17h-18h15: Entrevista com Gilberto Gil, ao vivo, com perguntas de Chico César, Djamila Ribeiro, Keyna Eleison e Luiz Fernando de Almeida; 18h15: Despedida do Gil; 18h15–19h: Conversa livre entre os entrevistadores.
9 O primeiro World Black and African Festival of Arts and Culture – Festac (Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana) ocorreu em Dakar, Senegal, em 1966. Foi uma conferência de caráter intelectual, que propunha a libertação dos negros via poesia, literatura e filosofia. O segundo festival – o Festac 77 – ocorreu entre janeiro e fevereiro de 1977, em Lagos, Nigéria, com a participação de milhares de artistas negros de 55 países do mundo inteiro.
10 Como ministro, Gilberto Gil tinha sob sua guarda diversos órgãos e empresas estatais, como a Embrafilme, a Funarte, a Fundação Nacional Pró-Memória, a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Fundação Joaquim Nabuco, a Fundação Biblioteca Nacional e o Iphan.
12 Em 17 de julho de 1967, liderados por Elis Regina e com as presenças de Jair Rodrigues, Zé Keti, Geraldo Vandré, Edu Lobo, MPB-4 e Gilberto Gil, ocorreu em São Paulo a Marcha contra a Guitarra Elétrica, uma defesa da música brasileira contra a invasão da música internacional. Três meses depois, em outubro de 1967, durante o III Festival da TV Record, Gilberto Gil se apresentou acompanhado dos Mutantes, munidos de instrumentos elétricos.
12 GIL70, curadoria de André Vallias, colaboração de Frederico Coelho. Itaú Cultural, São Paulo, de 12 de dezembro de 2012 a 17 de fevereiro de 2013. Exposição comemorativa dos 70 anos de vida do músico Gilberto Gil.
13 Super-Homem – A Canção (1979): Um dia / Vivi a ilusão de que ser homem bastaria / Que o mundo masculino tudo me daria / Do que eu quisesse ter // Que nada / Minha porção mulher, que até então se resguardara / É a porção melhor que trago em mim agora / É que me faz viver // Quem dera / Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera / Ser o verão o apogeu da primavera / E só por ela ser // Quem sabe / O Superhomem venha nos restituir a glória / Mudando como um deus o curso da história / Por causa da mulher.
14 Superman: The Movie, direção de Richard Donner, roteiro de Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman e Robert Benton, história de Mario Puzo, Estados Unidos, 1978. Com Christopher Reeve, Marlon Brando, Gene Hackman, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Valerie Perrine, Maria Schell, Terence Stamp, Phyllis Thaxter e Susannah York.
Gilberto Gil na segunda edição do Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana – Festac, Lagos, Nigéria, 1977
Bloco 01. Cultura: transmissão e construção
Keyna Eleison: Gostaria de trazer à cena o Festac 77. Sou de uma família que celebrou este evento como parte da formação de gosto e linguagem e a sua presença lá é fundamental para esta percepção. Quero abrir uma conversa sobre isso. Me contar mais como foi estar lá. Que apesar de muito festejada, a Festac 77 acontece onze anos depois da primeira (que aconteceu em Dakar em 66) e em uma Lagos capital de uma nação com que vivia uma ditadura. Como foi?
Djamila Ribeiro: Considerando suas experiências como artista e como ministro, como acha que a sociedade civil e os movimentos sociais podem ajudar a preservar a cultura do país em um momento tão difícil?
Chico Cesar: Gil, do fim dos anos 1960 pro começo dos 1970 temos muitos artistas transgressores do ponto de vista de sua arte mas também comportamental, trazendo a negritude e a questão da sexualidade. Tony Tornado, Miriam Batucada, Maria Alcina, Ney Matogrosso, os tropicalistas em geral, Edy Star, Luli e Lucina. Isso já era o encontro de lugar de fala e talento dando norte à música brasileira?
Luiz Fernando de Almeida: Na minha bolha de rede social – acho que na nossa – tem tido uma presença frequente daquele seu famoso vídeo na ONU com Kofi Annan. Sempre que eu o revejo, uma das reflexões que me chegam é o papel e lugar do Brasil no mundo. Você sempre foi otimista com esse papel e nunca te perguntei se a origem desse otimismo com relação ao Brasil que também se estende na sua trajetória com o universo da língua portuguesa, tem uma relação com Agostinho da Silva. Aliás, pouca gente sabe de sua relação com ele e eu quero te pedir pra falar sobre isso.
Segunda edição do Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana – Festac, Lagos, Nigéria, 1977
Bloco 02. O passado e o presente
Djamila Ribeiro: Gil, de que maneira você acha que os brasileiros devem se engajar da luta antirracista?
Luiz Fernando de Almeida: Numa das viagens a trabalho que fizemos até Corumbá no Mato Grosso do Sul houve um momento que nos encontramos com mestres tocadores de viola de cocho. Logo depois, na hora do discurso (creio que estávamos numa cerimônia que marcou o início da execução do Museu do Pantanal), você usou a viola e fez um discurso cantado, uma embolada, um coco, um rap pantaneiro onde o refrão, a repetição, o recado era: “o Brasil não pode ser só uma plantação de soja”. Também era uma metáfora. Como você vê a resistência dos Brasis? A nossa diversidade cultural, tão forte e tão determinante da nossa ideia de Brasil, vai se transformar numa plantação de soja?
Keyna Eleison: Tempo em curva. Como a tangente entre o passado e o futuro vem para você? Nossa inteligência afro-diaspórica nos ensina que o tempo e o espaço não estão separados e muito menos a linearidade é o sentido (em frente ou para trás). O futuro pode influenciar o passado?
Chico Cesar: Gil, em novembro de 1985, ou seja, há quase 35 anos, você comemorou 20 anos de carreira com o projeto Gil 20 Anos Luz com shows em São Paulo reunindo nomes da música brasileira que iam de Luiz Gonzaga a Titãs. Do baião ao rock. E também com debates e projeção de filmes. Wally Salomão, que fez a supervisão geral do projeto, em texto escrito na ocasião, define sua trajetória até ali como “amargor e sobretudo doçura”. Em 55 anos de carreira, Gil, o que prevalece: a doçura ainda? O travo do amargor?
Projeto Marieta (pergunta alternativa): Na exposição GIL70 no Itaú Cultural, você conta o processo criativo de “Super-Homem, a canção”, a partir de uma conversa com Caetano Veloso, que adorou o filme Superman. É intrigante a história convencional do herói que salva a donzela transformada em magnífica letra sobre a igualdade de gêneros. No episódico tornado ideia universal reside alguma pista do seu processo criativo?
Ao lado de músicos e artistas, Gilberto Gil participa da Marcha Contra a Guitarra Elétrica, São Paulo, 17 de julho de 1967
Bloco 03. O futuro (se houver tempo)
Luiz Fernando de Almeida: Recentemente me procurou uma pessoa dizendo que estava organizando o seu arquivo e me pediu informações sobre nossas ações no campo do patrimônio cultural brasileiro no seu período como Ministro da Cultura. Eu fiquei bem contente por saber disso: você foi, é e será uma referência de nossos tempos. O seu arquivo tem uma dimensão de interesse público. A pergunta é: qual a sua intenção? O que você pretende fazer com esse material tão rico?
Djamila Ribeiro: Gil, ao longo da sua brilhante trajetória de vida artística, política, enfim... há algo que você gostaria de ter feito e por algum motivo não conseguiu fazer?
Projeto Marieta: No dia 17 de julho de 1967, liderados por Elis Regina e com as presenças de Jair Rodrigues, Zé Keti, Geraldo Vandré, Edu Lobo, MPB-4 e Gilberto Gil, ocorreu em São Paulo a Marcha contra a Guitarra Elétrica, uma defesa da música brasileira contra a invasão da música internacional. Três meses depois, em outubro de 1967, durante o III Festival da TV Record, você se apresentou ao lado dos Mutantes, com Sérgio Baptista com guitarra em punho. A música popular brasileira deglutia antropofagicamente os instrumentos eletrificados dos gringos. Nascia a Tropicália. O que aconteceu com Gilberto Gil nesse período? O que estava em jogo?
Gilberto Gil e Os Mutantes no Festival de Música da TV Record, São Paulo, 1967
Gilberto Gil
Gilberto Gil
O artista inicia sua carreira no acordeom, ainda nos anos 1950. Inspirado por Luiz Gonzaga, pelo som do rádio, pelas procissões na porta de casa. No interior do Nordeste a sonoridade que explorava era a do sertão, até que surge João Gilberto, a bossa nova, e também Dorival Caymmi, com suas canções praieiras e o mundo litorâneo, tão diferente do mundo do sertão.
Influenciado, Gil deixa de lado o acordeom e empunha o violão, e em seguida a guitarra elétrica, que abrigam as harmonias particulares da sua obra até hoje. Suas canções desde cedo retratavam seu país, e sua musicalidade tomou formas rítmicas e melódicas muito pessoais. Seu primeiro LP, Louvação, lançado em 1967, concentrava sua forma particular de musicar elementos regionais, como nas conhecidas canções Louvação, Procissão, Roda e Viramundo.
Em 1963, ao conhecer o Caetano Veloso na Universidade da Bahia, Gil inicia com o novo amigo uma parceria e um movimento que contempla e internacionaliza a música, o cinema, as artes plásticas, o teatro e toda a arte brasileira. A chamada Tropicália, ou movimento tropicalista, envolve artistas talentosos e plurais como Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat, José Capinam, Torquato Neto, Rogério Duarte, Nara Leão entre outros. Esse movimento gera descontentamento da ditadura vigente, que o considera nocivo à sociedade com seus gestos e criações libertárias, e acaba por exilar os parceiros.
O exílio em Londres contribui para a influência ainda maior dos Beatles, Jimmi Hendrix e todo o mundo pop que despontava na época na obra de Gil, que grava inclusive um disco em Londres, com canções em português e inglês.
Ao retornar ao Brasil, Gil dá continuidade a uma rica produção fonográfica, que dura até os dias de hoje. São ao todo quase sessenta discos e em torno de quatro milhões de cópias vendidas, tendo sido premiado com nove Grammys. Entre LPs, CDs e DVDs, como Expresso 2222, Refazenda, Viramundo, Refavela, Realce, UmBandaUm, Dia Dorim, Raça Humana, Unplugged MTV, Quanta, Eu Tu Eles, Kaya N`Gandaya, Banda Dois, Fé na Festa, Concertode Cordas e Máquinas de Ritmo com Orquestra, entre tantos outros, Gil criou uma vasta e abrangente obra musical e audiovisual. Um de seus mais recentes trabalhos, Gilbertos Samba, é uma reinterpretação de canções gravadas por João Gilberto e uma homenagem do “discípulo para o mestre”.
Em 2015 e 2016 celebrou com Caetano Veloso os cinquenta anos de carreira em um show histórico – Dois Amigos, Um Século de Música – registrado em CD e DVD. Em 2017 a Trinca de Ases foi lançada à mesa: Gil, Nando Reis e Gal Costa percorreram os palcos das principais cidades do Brasil e da Europa. Registrado também em CD e DVD.
Em 2018, lançou o álbum Ok Ok Ok que traz a família, a doença que experimentou e o questionamento do posicionamento que a sociedade lhe exige. O álbum foi vencedor do Grammy Latino em novembro de 2019 na categoria Melhor Álbum de Música Brasileira.
Cada novo projeto de Gil tem suas formas consolidadas em diversas turnês pelo mundo. Todo disco vira show e muito show vira disco. Sempre disposto a realizar turnês nacionais e internacionais para cada novo projeto, Gil é presença confirmada anualmente nos maiores festivais e teatros da Europa. Realizou diversas turnês pelas Américas, Ásia, África e Oceania. Gil tem um público cativo em seus shows no exterior, desde suas primeiras apresentações internacionais em 1971, a partir da sua marcante participação no festival de Montreux, em 1978.
Em 2002, após sua nomeação como Ministro da Cultura, Gil passa a circular também pelo universo sociopolítico, ambiental e cultural internacional. No âmbito do MinC, em particular, desenha e implementa novas políticas que vão desde a criação dos Pontos de Cultura até a presença marcante do Brasil em fóruns, seminários e conferências mundo afora, trabalhando temas que vão desde novas tecnologias, direito autoral, cultura e desenvolvimento, diversidade cultural e o lugar dos países do sul do planeta no mundo globalizado.
Suas múltiplas atividades vêm sendo reconhecidas por várias nações, que já o nomearam, entre outros, de Artista da Paz pela Unesco em 1999, Embaixador da FAO, além de condecorações e prêmios diversos, como Légion d’Honneur da França, Sweden’s Polar Music Prize, entre outros.
Um Embaixador musical único, movido pela convicção cultural.
“Eu soube que a música era minha linguagem, mesmo. Que a música ia me levar a conhecer o mundo, ia me levar a outras terras. Por que eu achava que tinha a música da terra e a música do céu”. Gilberto Gil
Chico César
Chico César
Nascido em Catolé do Rocha PB, em 1964, Chico César é compositor, cantor, jornalista e escritor. Chico explicita a irreverência, a criatividade e a poética, características de sua obra ao longo de sua trajetória. Autor de sucessos consagrados pelo público, como "Mama África" e "À Primeira Vista", o paraibano tem nove álbuns lançados. Já recebeu diversos prêmios como Revelação do Prêmio Sharp (1995) e Melhor Compositor pela APCA (1996), Grammy de Melhor Performance Vocal Pop Masculina (2001) e Prêmio da Música Brasileira – categoria Melhor Álbum POP/ Rock/ Reggae/ Hip Hop/ Funk (2018). A obra de Chico César condensa o infinito cordão umbilical que o une às suas raízes.
Djamila Ribeiro
Djamila Ribeiro
Natural de Santos, nascida em 1980, Djamila Ribeiro é mestre em filosofia política pela Unifesp e colunista do jornal Folha de S.Paulo, foi secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo. Coordena a coleção Feminismos Plurais, da editora Pólen, e é autora dos livros O que é lugar de fala (2017) e Quem tem medo do feminismo negro? (2018).
Keyna Eleison
Keyna Eleison
Curadora, escritora, pesquisadora, herdeira Griot e xamãnica, narradora, cantora e cronista ancestral, Keyna Eleison é mestre em História da Arte e especialista em História da Arte e da Arquitetura; bacharel em Filosofia. Membra da Comissão da Herança Africana para laureamento da região do Cais do Valongo como Patrimônio Mundial (Unesco). Curadora da 10aBienal internacional de Arte SIART, na Bolívia. Atualmente cronista da revista Contemporary & Latin America, e Professora do Programa Gratuito de Ensino da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro e Diretora Artística do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em dupla com Pablo Lafuente.
Luiz Fernando de Almeida
Luiz Fernando de Almeida
Mineiro de Santa Rita de Sapucaí, nascido em 1962, Luiz Fernando de Almeida é arquiteto; ex-coordenador do Programa Monumenta, ex-presidente do Iphan; ex-diretor do Museu de Arte do Rio de Janeiro e atual diretor do Instituto Pedra, onde coordena o projeto de recuperação da Vila Itororó em São Paulo. Fundador da revista Óculum em 1985, com Abilio Guerra e outros membros.
Abilio Guerra
Abilio Guerra
Nascido em São Paulo em 1959, Abilio Guerra é arquiteto, mestre e doutor em História, professor da FAU Mackenzie. Membro fundador do Marieta, é editor da Romano Guerra Editora e do Portal Vitruvius ao lado de Silvana Romano. É autor dos livros Rino Levi – arquitetura e cidade (com Renato Anelli e Nelson Kon, 2001), O primitivismo em Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Raul Bopp (2010), Arquitetura brasileira: viver na floresta (2011) e Arquitetura e natureza (2017).
Giovanni Pirelli
Giovanni Pirelli
Nascido emMilão, em 1989, é gestor cultural e curador, sócio-diretor da empresa de consultoria cultural Cactus, diretor executivo e coordenador de atividades do centro cultural Marieta. Italiano, frequentou cursos de Literatura Contemporânea da Universitá degli Studi di Milano e, entre 2012 e 2013, fundou e coordenou o Cubo, incubadora de artistas e projetos culturais, localizada no centro de Milão. Desde 2009 é conservador e promotor do acervo da obra da artista italiana Marinella Pirelli, sua avó. Especialista em gestão cultural pelo Sesc-SP (2020).
Entrevista
A entrevista com Gilberto Gil ocorreu no dia 6 de outubro de 2020, terça-feira, das 17h00 às 18h15. O encontro ocorreu virtualmente, via Zoom, e foi transmitido ao vivo no Facebook, na página do projeto Marieta (www.facebook.com/projetomarieta), com as participações dos entrevistadores Chico César, Djamila Ribeiro, Keyna Eleison e Luiz Fernando de Almeida, com mediação de Abilio Guerra e Giovanni Pirelli e participação do público, que encaminhou antecipadamente perguntas por escrito, material que serviu de base e referência para as perguntas.
Caio Guerra, Helena Guerra, Silvana Romano, Abilio Guerra e Giovanni Pirelli, fundadores do Coletivo Marieta
Agradecimentos
O projeto Marieta agradece Brenno Tardelli, Fábio Cypriano, Giacomo Pirazzoli, Maria Gil, Maristela Garcia e Paula Sacchetta, que ajudaram a fazer as pontes com os convidados para a entrevista.
Episódios do Transa Marieta
Todas as transas são gravadas e publicadas posteriormente em parceria com o portal Vitruvius. As anteriores foram as seguintes:
#5 – Ailton Krenak (com Abilio Guerra, Isa Grinspum, Marco Altberg e Suely Rolnik)
#6 – Zé Celso Martinez Corrêa (com Giovanni Pirelli, Cafira Zoé, Casé Angatu, Marcelo Dalourzi e Marília Gallmeister)
Projeto Marieta
O projeto Marieta é um centro cultural comunitário colaborativo, fundado em 2015 com a proposta de ser um espaço de pesquisa, difusão e produção de arte e cultura contemporânea. A diretoria e conselho curatorial é da responsabilidade do coletivo formado por Abilio Guerra, Caio Guerra, Giovanni Pirelli, Helena Guerra, Silvana Romano Santos. Atualmente conta com as participações de Lucas Minari (tuttofare), Magaly Corgosinho e Neliane Simioni (assessoria de imprensa); Marcella Arruda e Marina Frúgoli (pesquisadoras residentes); Ana Júlia Travia, Julia Rantigueri, Julia Zylbersztajn, Pedro Santiago e Paula Monroy (colaboradores internos); André Scarpa, Bianca Leite, Felipe Rodrigues, Marina Dias Teixeira e Pablo Figueroa (colaboradores externos); Lírios Spacca (design gráfico). O grupo conta com a adesão fundamental de Claudia Romano, Emiliana Romano Santos, Norma Romano Santos (apoio moral) e de Garibaldi Maria Pirelli Guerra, Martino Pirelli Guerra, Piero Pirelli Guerra, Tom Guerra, Francesca Tosi, Francesco Pirelli (apoio emocional). Nos tempos atuais de pandemia, o espaço está se mantendo aberto e atuante (virtualmente) graças ao apoio de amigos do Marieta, via apoio cultural no website benfeitoria.com/marieta.
ficha técnica
programa Transa Marieta – episódio 7
entrevistado Gilberto Passos Gil Moreira (Gilberto Gil)
mediadores Abilio Guerra e Giovanni Pirelli
entrevistadores Chico César, Djamila Ribeiro, Keyna Eleison e Luiz Fernando de Almeida
organizadores Abilio Guerra, Giovanni Pirelli, Helena Guerra, Caio Guerra e Silvana Romano Santos
pesquisa Helena Guerra, Giovanni Pirelli e Abilio Guerra
edição Helena Guerra
produção Coletivo Marieta / Abilio Guerra, Caio Guerra, Helena Guerra, Giovanni Pirelli e Silvana Romano Santos Gege Edições / Maria Gil e Fafá Giordano
data 06 de outubro de 2020, 17h
divulgação transmissão ao vivo via Facebook publicação posterior no portal Vitruvius