português Nessa entrevista, feita em Stuttgart, Milos Dimcic descreve o tipo de trabalho que faz e fala sobre as dificuldades de ser contratado por arquitetos para desenvolver projeto algorítmico e participar nas fases iniciais do processo.
english In this interview, set in Stuttgart, Milos Dimcic describes his work area and talks about the difficuties of being hired by architects to develop algorithm projects and participate in the initial steps of the architectural process.
como citar
Gabriela Celani.
“Aprendendo com os erros dos outros”.
Vitruvius entrevista, ed. 16.064. 2015.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.064/5824
Milos Dimcic em um café em Stuttgart, durante a entrevista
Milos Dimcic graduou-se na Faculdade de Arquitetura, Belgrado, em 2006. Continuou seus estudos em Stuttgart, Alemanha, onde terminou seu doutorado em 2011, sob a orientação do Prof. Dr.-Ing. Jan Knipper. Durante os estudos, ele também trabalhou no escritório Knipper Helbig, em Stuttgart. Dimcic possui mais de oito anos de experiência na integração entre arquitetura, engenharia de estruturas e programação. Desde 2007 tem desenvolvido métodos de automação utilizados em alguns dos projetos mais famosos do mundo. Em 2009 programou a maior fachada do mundo gerada parametricamente. Em 2011 fundou a empresa Programming Architecture e vem desenvolvendo diferentes tipos de software (incluindo plug-ins gratuitos) para os mais diversos projetos de todo o mundo. Alguns dos projetos em que Dimcic contribui a partir de 2007 foram: Aeroporto Bao'an - Shenzhen, China (M.Fuksas), EXPO Axis - Shanghai, China (SBA Architects), Institute of Peace, Washington DC, EUA (Moshe Safdie), KAPSARC Research Center, Riyadh, Arábia Saudita (Zaha Hadid), Crystal Hall, Baku, Azerbaijão (GMP), e muitos outros.
Em julho de 2015 Dimcic veio para o Brasil como palestrante convidado na conferência CAAD Futures, realizada no MASP. Nessa entrevista, feita em Stuttgart em 21 de agosto de 2015, ele descreve o tipo de trabalho que faz e fala sobre as dificuldades de ser contratado por arquitetos para desenvolver projeto algorítmico e participar nas fases iniciais do processo. Há algumas referências a outros consultores alemães de projeto algorítmico e de fabricação digital cujas entrevistas foram também publicados neste site, como Arnold Walz, da designtoproduction, e Peter Mehrtens, da designtofabrication (1).
Entrevista com Peter Mehrtenh publicada em CELANI, Gabriela; BARBOSA NETO, Wilson; MOARA SANTOS FRANCO, Juarez. An interview with architect Peter Mehrtens. From Design to Fabrication.Entrevista, São Paulo, year 16, n. 063.02, Vitruvius, jul. 2015 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.063/5541/en_US>
CocconPavilion
Gabriela Celani: Que tipo de trabalhos vocês fazem no Programming for Architecture, pode-se comparar ao trabalho de outros consultores, como designtoproduction, designtofabrication, OnetoOne ou Imagine Computation?
Milos Dimcic: Eu não sei exatamente o que eles fazem, mas em termos gerais o que nós fazemos deveria ser semelhante. Nós temos o mesmo tipo de escritório. O que eu acho que é diferente entre eu e a maioria dos outros é que eles colaboram principalmente com arquitetos, enquanto que eu colaboro com engenheiros estruturais e com empresas construtoras, como a Seele (www.seele.com). Alguns deles colaboram com construtoras, mas eu colaboro com engenheiros estruturais, porque no meu doutorado eu desenvolvi esse nicho de análise estática. Eu posso rodar algoritmos que rapidamente geram as estruturas. Com esses algoritmos eu posso fazer a otimização estática. Eu não acho que nenhum deles pode fazer isso, e esta é a razão pela qual eu tenho recebido muitos trabalhos de engenheiros estruturais.
GC: E quanto ao projeto das estruturas? A designtoproduction, por exemplo, não projeta os edifícios. Eles recebem o projeto dos arquitetos e eles fazem o modelo paramétrico ou desenvolvem o detalhamento algoritmicamente. Qual a relação entre o seu trabalho e o trabalho do arquiteto em termos do projeto?
MD: O problema é que eu sou jovem e não sou alemão. Eu não tenho nenhum contato aqui. Pessoas como Arnold Walz (4) têm atuado no mercado há muito tempo e eles têm muitos contatos, amizades, etc. Então, se eu ofereço algum serviço para um arquiteto, mas ele não me conhece, não somos amigos, não temos nenhuma conexão, ele jamais me daria o trabalho, por uma simples razão: na fase de projeto você não está limitado ou amarrado a nada. Não tem prazos, não tem precisão sobre o que você quer fazer. Quando eu trabalho com empresas como a Seele, não há espaço para experimentação. Eles me dizem exatamente o que eles querem que eu gere; eles me dão as regras e eu devolvo a eles elementos precisos, com parafusos e porcas, etc. No entanto, na fase de projeto ainda há espaço para criar. Então, um arquiteto pode vir me perguntar: o que você pode fazer? E eu direi eu posso fazer isso, e aquilo, e aquilo outro. Então ele vê isso e se ele não quiser me pagar ele simplifica o problema de um modo que um estagiário que sabe Grasshopper consegue fazer, pois na fase de projeto é possível fazer de uma maneira simplificada. E eu sinto que é por isso que eu não recebo projetos de arquitetura, e eu sinto que é por isso que outros pegam este tipo de trabalho, por conta dos bons contatos, então os arquitetos pedem que eles façam. Talvez eles pudessem fazer com um estagiário, mas eles se conhecem por vinte anos, então eles dizem “eu vou deixar você fazer pra mim”.
GC: Isto nos traz a um tópico muito interessante na arquitetura, que é a necessidade de incorporar o desempenho estrutural logo nas fases iniciais do projeto, o que geralmente não ocorre pois os arquitetos não têm esse conhecimento e eles não querem pagar alguém que tenha. Então, o que seria ideal em termos da relação entre o design estrutural e o projeto conceitual?
MD: Isto é exatamente o grande problema, e eu disse um milhão de vezes na minha vida: arquitetos querem economizar dinheiro no começo, por isso eles não contratam alguém que programa. Se você começa a trabalhar no projeto logo no início e você desenvolve algum algoritmo durante o processo, então quando a fase conceitual terminar, você tem tudo parametrizado, você já tem seu algoritmo, então daí em diante você pode automatizar o processo inteiro. Mas o problema é que os arquitetos não estão preocupados com o que acontece depois. Geralmente eles tentam economizar dinheiro na parte que compete a eles no processo. Então, somente se você trabalhar para uma empresa que faz tudo, do projeto conceitual até a construção, eles conseguem entender o valor da automação. Mas os arquitetos não têm interesse nisto, no entanto eu tenho mostrado a eles (as vantagens de ter um programador desde o início). Em um orçamento para um projeto não há verba para a programação. Há o projeto arquitetônico, há a análise estrutural, há a construção, mas não a programação. E então pessoas como nós precisam ser contratadas e um dos envolvidos tem que nos pagar, aí eles brigam entre si sobre quem irá pagar. Eu recentemente tive um projeto com esse problema. Os arquitetos disseram que eles iriam entregar uma estrutura de cobertura com forma livre para os engenheiros estruturais, então eles poderiam analisar. Mas a estrutura era muito complexa, então deveria ser programada. E a questão era quem iria pagar por isso: os arquitetos ou os engenheiros. No final os engenheiros estruturais foram os que me pagaram pela automação, mas eu não acho justo. Os arquitetos deveriam entregar uma estrutura resolvida, mas isso nunca acontece.
Quando eu estava no Brasil, depois de conversar com a Caroline Bos (sócia do UN Studio que também foi palestrante no CAAD Futures), eu percebi que existem grandes escritórios de arquitetura que fazem o projeto, e há essas grandes empresas de construção como a Seele que constroem esses projetos. Entre eles não há competição ou sobreposição de tarefas. Então eles querem me contratar, pelo meu tipo de consultoria que eles não sabem fazer. O objetivo dos grandes escritórios de arquitetura ou das grandes construtoras é fazer o que eu faço dentro dos escritórios, então eles não precisam terceirizar. Assim, eu só posso pegar projetos se eu fizer algo que ninguém dentro dos escritórios deles consegue. É a única maneira que eu consigo trabalhar. A Seele está em 15 países e tem mil funcionários, e somente quando ninguém consegue fazer algo é que eles vêm a mim. E muitas vezes eles me pedem para dizer o que eu faria, então eles dizem que é muito simples e que eles podem fazer sozinhos. Eles somente me contratam se é algo extremamente complexo, o que nem eu sei exatamente se eu posso fazer, mas eu geralmente digo que posso. Então eu me estresso até achar um jeito, e isso é bom pra mim, pois eu aprendo e evoluo. É muito estressante, mas é a única maneira que você consegue trabalho. Então o que fazemos é muito instável no mercado hoje em dia.
GC: Você poderia me contar sobre os projetos no qual você está trabalhando agora?
MD: Eu estou trabalhando no prédio da Bloomberg em Londres atualmente, do Foster, e a Seele está fazendo a construção. Eu estou fazendo a programação de uma balaustrada e será por 2 a 3 meses. E o sistema de fachada paramétrico Schüco ainda está acontecendo, pois nós estamos fazendo algumas análises estáticas adicionais. Agora eu estou incorporando algumas peças de silicone e estou calculando as forças sobre elas. E isso tem sido feito por quase um ano. Eu também estou trabalhando em um pavilhão com Göran Pohl do PohlArchitects. É um projeto que foi desenvolvido na universidade de Saarbrücken e está sendo produzido pela Fiber-Tech (5). Parece um projeto que o Pohl fez anteriormente, o Cocoon.
GC: E você trabalha por conta própria?
MD: Neste trabalho que estou fazendo em Londres eu não sabia que seria tão intenso. Eu não tinha experiência trabalhando para uma companhia tão grande e então eu calculei errado a quantidade de trabalho. Agora a minha irmã está me ajudando, mas ela mora na Sérvia. Eu gostaria que ela viesse para a Alemanha, mas eu ainda não posso pagar a ela o suficiente para vir. Alguém me disse que como eu trabalho em uma área tão instável eu deveria calcular quando eu preciso e então multiplicar por cinco. Mas o que eu estou fazendo agora é calcular quanto eu preciso e dividir por dois, pois é muito difícil conseguir (trabalho).
GC: E a sua irmã também é uma programadora?
MD: Ela é uma arquiteta e eu estou a ensinando a programar, mas no momento ela está ajudando com coisas que não estão relacionadas a desenvolver código.
Peça desmontada
BOWOOSS, Summer pavilion
GC: Em um artigo que eu publiquei recentemente no Brasil (Novas tecnologias na construção de edifícios: estabelecendo a ponte entre o processo criativo e a produção por controle numérico) eu falei sobre a conexão entre os escritórios de arquitetura e a fabricação digital e a programação, e eu sugeri que existem três maneiras de fazer isso: com um grupo interno, por exemplo o Specialist Modeling Group do escritório Foster and Partners, o qual é apenas acessível para grandes escritórios (Caroline Bos também disse que eles estão criando um grupo dentro do UNStudio); algumas vezes a empresa de fabricação tem sua própria equipe de especialistas, como a Bemo Systems, que tem Peter Mehrtens trabalhando na comunicação com os arquitetos; e finalmente por meio de consultores independentes como você, pessoas que estão no meio do processo. Qual desses modelos você acha que funciona melhor? E você, apesar de todas as dificuldades que já me explicou, gostaria de entrar em um grande escritório de arquitetura e ser integrante de um time como o Specialist Modeling Group do Foster?
MD: Esta é uma questão complexa. Pessoalmente eu jamais faria isso, pois eu tenho vivenciado como é trabalhar para alguém, ou em grandes escritórios, e isso para mim é muito improdutivo. Isto porque você tem trabalho quando os projetos grandes entram, mas depois você não tem, então precisa fazer outras coisas no escritório; você não pode simplesmente ir para casa, então é muito improdutivo trabalhar em uma máquina como esta, esta é a razão pela qual eu decidi que eu nunca mais irei trabalhar para alguém novamente, então tenho minha própria empresa. O problema é que meu trabalho, como eu descrevi antes, é muito instável. Tem forças de todos os lados te pressionando. Você só pode fazer isso por um longo período se você tiver muito bons contatos e amizades. Em um mercado livre você não pode fazer isso. Eles tentam tirar você do jogo. Eles tentam fazer dentro do escritório as coisas que você faz. Eles tentam formar grupos dentro dos escritórios, mas eles não têm pessoas com o mesmo conhecimento que eu, que podem programar dez horas por dia. Mas por eu ter desenvolvido trabalhos para muitos escritórios eu aprendi muito e adquiri muito mais experiência. Por outro lado, os arquitetos ainda não acham que precisam dessa experiência, eles acham que podem resolver apenas com o Grasshopper. Essa é a razão pela qual eu direcionei meu trabalho para os engenheiros estruturais, pois eles têm problemas que são extremamente complexos e não é possível simplificar. Daqui a três meses eles vêm com algo concreto... com este tipo de coisas que as pessoas não querem experimentar, então eles decidem me contratar.
GC: Como um arquiteto, você sente falta da atividade de projeto?
MD: Eu sinto falta sim, eu amo projetar. Se eu pudesse escolher eu sempre trabalharia com arquitetos, mas eles não querem trabalhar comigo como consultor, apenas se eu for um empregado nos seus escritórios, mas isso, na minha experiência, apenas funciona com contatos e amigos, como eu disse. Pois até mesmo eu, se eu tivesse um escritório de arquitetura, eu não iria terceirizar. Eu sempre iria simplificar e fazer eu mesmo.
GC: Quando você faz a otimização estrutural você também entra no detalhamento? Isto também é projetar, mas em um nível diferente.
MD: Eu ainda não cheguei a este nível, no qual as pessoas confiam a mim uma parte do projeto. Eu recebo um problema matemático geralmente, com um conjunto de regras que eu tenho que resolver: como gerar algo automaticamente ou como otimizar algo. Então eu raramente projeto algo, pois geralmente eu trabalho para empresas que desenvolvem apenas componentes construtivos. Quando eu começo meu trabalho a fase de projeto já terminou. Eles sabem exatamente o que eles querem fazer e eles apenas querem automatizar o processo.
GC: E quanto ao processo de fabricação? Você também prepara arquivos para isto?
MD: Sim, também faço. Para a empresa Seele, que produz, mas também terceiriza a produção. Eles estão em muitos países, eles estão na Alemanha, Áustria, Reino Unido, Abu Dhabi, Dubai, aproximadamente 50 lugares. Na Alemanha eles são os mais famosos para estruturas metálicas e vidro. Por exemplo, eles fizeram o cubo da loja da Apple em Nova Iorque, e as escadas de vidro. Agora eu estou trabalhando no prédio da Bloomberg em Londres, gerando uma geometria muito complexa da balaustrada de vidro. Ficará fixo no concreto, e há milhares de elementos de aço que são singulares. Eu tive que programar um conjunto de ferramentas para gerá-los, e no final eu estou praticamente entregando os arquivos para as máquinas CNC e as plantas com as dimensões, que são, em teoria, desnecessárias, mas eles precisam para checar. Eu gostaria de focar mais nisso; é algo que eles não podem fazer por si próprios. Na minha experiência ninguém irá me pedir para fazer algo a não ser que eles não possam fazer sozinhos. A vida me ensinou que eu preciso fazer algo que ninguém mais consegue fazer. Eu gostaria de ser como essas pessoas que conseguem um trabalho mesmo que outra pessoa possa fazer igual. Mas infelizmente o motivo é por causa da minha posição, pois eu sou estrangeiro, eu não tenho contatos. Por isso estou focado nesta coisa extremamente complexa e precisa, que é a fabricação com CNC de elementos complexos e sua otimização. Um monte de pessoas está trabalhando com projeto paramétrico com Grasshopper, mas isto é outro nível.. é suficiente para o processo de projeto. O meu nível (de programação) é apenas necessário para coisas mais complicadas. Os arquitetos dirão: “esses não precisam ser elementos únicos; vamos fazer apenas 5 únicos e copiá-los”. Eles podem sempre simplificar e eu não serei necessário.
GC: A Seele tem especialistas em CNC trabalhando para eles?
MD: Grandes empresas têm especialistas, mas eles me procuram quando os seus especialistas não possuem o conhecimento necessário para resolver o problema do projeto. Eles contratam especialistas cada vez melhores e eu sempre tenho que ser melhor e melhor que eles. Mas às vezes os especialistas deles cometem erros, e infelizmente eu consigo muitos trabalhos quando isso acontece. Eu preferia participar desde o começo do projeto para não haver esses erros. Isso seria muito mais eficiente. Eu trabalhei em um projeto que tinha elementos de forma livre na fachada; havia polígonos de diferentes formas, muitos deles eram únicos. Eles produziram cada arquivo separadamente no CATIA de cada elemento com todas as barras de aço e detalhes. Eles enviaram para a empresa que supostamente produziria os elementos, mas todos os elementos estavam inseridos no ponto de origem em vez de efetivamente no local do modelo 3D, e eles não tinham certeza se fecharia com a geometria do edifício. Isto poderia ter sido evitado com uma simples conexão no começo, mas não foi feito, eu tive que fazer de trás pra frente. Eu desenvolvi um algoritmo de inteligência artificial que importava os arquivos CATIA, reconhecia a geometria e colocava de volta no local do modelo 3D. Uma vez que eu fiz automaticamente para todos os elementos nós encontramos muitos erros. Havia alguns erros no processo, então eu na verdade economizei dinheiro para eles, mas muito mais dinheiro poderia ter sido economizado se eu tivesse trabalhado para eles por duas horas num estágio inicial do projeto, em vez de um mês corrigindo tudo. E o projeto em que estou trabalhando agora em Londres tem algumas similaridades nas balaustradas. No entanto, elas não possuem forma livre. Elas são geradas por uma curva descrita matematicamente. Em teoria, os elementos deveriam ser similares, mas a construtora já havia instalado alguns suportes de aço que não podiam ser removidos, e tinham uma posição aleatória estranha, então eu precisei programar a forma da balaustrada para encaixar nesses elementos de aço. Mas se tivessem me chamado do começo isso encaixaria perfeitamente e não haveria trabalho extra. Então muito trabalho que eu faço vem do erro de outras pessoas, eu gostaria de não ter que fazer isso, mas eles teriam que me contratar desde o começo.
GC: Há uma discussão sobre a arquitetura performativa atualmente. Você alguma vez teve que solucionar um problema multicritério, no qual além de lidar com a otimização estrutural, você teve que lidar com outro objetivo, como o desempenho térmico?
MD: Não, mas eu gostaria de fazer isto. É possível, mas jamais me pediram para fazer, pois não sou incluído em todo o processo. Somente quando as pessoas ficam travadas em um grande problema é que eles me procuram para resolver essa parte específica. Então eu faço um algoritmo, resolvo, e então eles continuam por conta própria. Eu gostaria de estar envolvido nos projetos desde o começo, então eu poderia mostrar a eles como o processo pode ser eficiente. Neste momento a única maneira seria trabalhando para alguma empresa, mas eu não quero fazer isto. Faz sentido para estas empresas terem sua equipe interna para economizar dinheiro, mas eu tenho muito mais experiência, eu comecei muito cedo, e trabalhei em diferentes problemas. Eu estou ficando melhor em resolver problemas que não podem ser resolvidos. Eles me dão os problemas mais difíceis e quando eu soluciono eu adquiro essa experiência. Eles estão me fazendo ficar cada vez melhor.
GC: Mas você sempre tem sido capaz de resolver?
MD: Sim, sempre! Eu frequentemente passo algumas noites sem dormir pensando “isto não dá pra resolver”, ou “isto é geometricamente impossível”. No final eu sempre dou um jeito, mas é sempre muito estressante. Eu gostaria de fazer meu trabalho de maneira mais estável, mas a maneira de fazer isso seria entrando na área. Ou eu vou para a produção, eu contato algumas empresas pequenas que tenham máquinas CNC e então eu entro em concorrência com empresas grandes, e digo: ok, você é uma empresa de mil empregados, o seu valor é de um milhão de Euros para produzir um elemento, mas eu ofereço por cem mil Euros. Eu acredito que nós com conhecimento em programação podemos fazer o que as grandes empresas estão fazendo sem esse conhecimento. Talvez também na fase de projeto. Eu poderia me associar com algum escritório de arquitetura bem pequeno com apenas cinco funcionários e dizer: olhem, nós vamos entrar nessa concorrência, mas nós vamos desenvolver esse algoritmo que irá desenhar algo que ninguém mais pode fazer. Então nós apenas temos que pensar o que podemos fazer com isso.
GC: E sobre concursos de arquitetura? Você participou de algum?
MD: Eu tenho essa obsessão em não perder meu tempo. Eu tenho quase uma fobia de perder tempo, e essa é a razão pela qual eu praticamente não me permito entrar em concursos. Para que eu participasse somente seria com alguma grande ideia, ou com algum arquiteto me procurando, me inspirando e me dizendo vamos tentar isso com alguma programação, mas isso nunca aconteceu. Talvez porque eu não tenho muito contato com arquitetos, e é difícil competir com grandes empresas. Eles não competem, eles arriscam. Eles fazem um jogo de probabilidade. Eles entram em vinte concursos por mês, eles colocam estudantes para fazer o trabalho, e eles acabam ganhando alguns. Se eu estou sozinho não posso bancar isso, mas é como as grandes empresas crescem.
BOWOOSS, Summer pavilion
GC: Eu gostaria de perguntar algo relacionado com educação. Você não recebeu seu diploma na Alemanha, mas completou o doutorado na Universidade de Stuttgart, e você tem ensinado também em Stuttgart e em Graz. Qual a sua opinião sobre o ensino de arquitetura na Alemanha? É ainda tradicional, ou os alunos já estão sendo preparados para as situações que você descreveu, com a automação de todo o processo?
MD: Eu não acredito que seja tradicional. Muitos estudantes veem o que está acontecendo e eles tentam fazer por si próprios, com Grasshopper e programas como esse, até mesmo no primeiro e segundo anos de estudos. Até agora o que eu vi é que a faculdade responde a isto. Eles oferecem os cursos que os alunos querem, e há institutos trabalhando nisto.
GC: E a fabricação digital? As máquinas estão disponíveis?
MD: Não no começo, mas um pouco mais tarde estão disponíveis para eles. As escolas têm máquinas CNC e de corte a laser. E agora impressoras 3D... nós temos um braço robótico (na universidade de Stuttgart), e a TU Graz comprou três braços robóticos, não tão grandes como em Stuttgart, no entanto.
GC: Você acha que isto aconteceu nas melhores universidades técnicas ou está se espalhando na maioria das escolas de arquitetura?
MD: Eu não sei se está se espalhando, mas eu acho que está bastante comum. Eu tenho estado mais em Stuttgart e Graz, que são consideradas escolas de excelência (para isto). Mas eu também ensino na Saarbrücken com o escritório Pohl Architects com o qual eu tenho cooperado, e você está certa, eles não estão familiarizados. Mas sempre de uns 20 estudantes há alguns interessados em Grasshopper e programação.
GC: Mas isto não está inserido no currículo, certo?
MD: Não, geralmente não. Mas eu sou muito cético sobre como deveria ser implementado. Eu entendo programação não como uma ferramenta para experimentação, mas como uma ferramenta para automatizar e fazer trabalhos sérios. Mas o que eu tenho visto, é apenas experimentação. Eles usam Processing, Grasshopper, para explorar de um modo não muito útil. O produto dessa exploração é geralmente apenas algumas fotos bonitas.
GC: Você acha que é por que os professores ainda estão aprendendo sobre isto? Eles ainda não têm certeza do que pode ser feito com isto...
MD: Essa é uma das razões principais. Esses institutos (ou laboratórios) estão abrindo em todo o mundo, como o Instituto para Projeto Computacional da Universidade de Stuttgart. Eu sinto que os líderes desses institutos são pessoas que vêm mais da teoria do que da prática. Eu não posso dizer se isso é melhor ou não. Do meu ponto de vista isso não é bom. Eles mesmos não sabem como programar em alto nível. Eles pegam alunos de doutorado que sabem algo e eles tentam produzir algo de alguma maneira. Mas sem a compreensão do que é possível, geralmente os produtos não são satisfatórios. Aqui em Stuttgart talvez seja um pouco melhor, pois eles estão construindo esses pavilhões... você pode realmente ver alguma aplicações. Mas minha inclinação é que tudo aconteceu por conta (do professor Jan Knipper’s do Instituto BuildingStructuresandStructural Design – ITKE, no qual eu estudei, eles trouxeram a aplicabilidade, eles fazem a análise estática e pensam na produção. Na maioria dos casos você não tem esse tipo de parceria. Se você buscar no Google a expressão projeto paramétrico e olha as imagens, não há objetos construídos. Há apenas infinitas imagens de objetos paramétricos e algumas formas orgânicas da ZahaHadid, o que não é realmente projeto paramétrico. Eu estou familiarizado com muitos desses edifícios e apesar de haver muitas explorações feitas no Grasshopeer, no final eles descobrem os limites desses programas e fazem manualmente, pois eles não têm tempo (para implementar). Projeto paramétrico verdadeiro é muito raro. Do que as pessoas consideram ser projeto paramétrico no mundo, 95% não é realmente.
GC: E o que você acha do papel da análise estrutural na formação de arquitetos?
MD: Os estudantes aqui não sabem o suficiente. Mas eu não sei o quanto é suficiente. Tudo tem se tornado tão complexo que você não consegue cobrir tudo. Tem uma piada famosa sobre arquitetos e engenheiros. Os arquitetos tendem a saber menos e menos sobre mais e mais, até que eles não sabem nada sobre tudo, enquanto os engenheiros tendem a saber mais e mais sobre menos e menos, até que eles sabem tudo sobre nada. Na educação de arquitetos algo tem que ser decidido, se você quer continuar nesse caminho ou não. O campo está se tornando muito vasto. O projeto estrutural está se tornando tão complexo, o projeto paramétrico está se tornando tão complexo, a programação é tão complexa... você quer realmente cobrir tudo isso? Então você irá se tornar alguém que sabe muito pouco sobre muitas coisas. E se você sair da Universidade assim não pense que você está preparado para fazer tudo. Eu penso que você deve escolher uma direção bem cedo, algo como após um ano de estudo. Você tem que escolher. Eu quero continuar com programação, eu quero aprofundar em design estrutural, etc. E então você passa outros quatro anos em um treinamento específico. Em projeto paramétrico, se você teve apenas um semestre experimentando com Processing ou Grasshopper, esqueça, isso não é nada. Para mim isso é jardim de infância, apenas experimentar com modelos, é só isso. Se você quer programar com seriedade, então faça isso por quatro anos. Aprenda uma linguagem, aprenda C++, aprenda C# e então faça algo aplicável, faça alguma automatização, faça a automatização do desenho arquitetônico. Mas se eu faço isso por apenas um semestre, criando esferas infinitas, experimentando com swarming em Processing, é uma experimentação, como num jardim de infância, mas aí você vai trabalhar e precisa projetar um edifício e é muito complicado. Em alguns estúdios e escritórios eles podem bancar isso. Eu tenho um amigo que trabalha para a ZahaHadid e eles podem gastar em experimentar bastante. Eles têm seis meses de pesquisa quando eles fazem programação e scripting abstratos, e teoricamente no final eles obtêm um projeto. Mas não tenho certeza... é apenas um processo de experimentação e eu não vejo a aplicabilidade, é muito nebuloso. Eu sou mais como um engenheiro.
Parametric System Schüco
GC: Nós estamos fazendo uma pesquisa sobre o retorno do ornamento na arquitetura. Em sua opinião isso está realmente acontecendo? Você fez alguma programação que envolveu ornamento, trabalhando com superfícies e gerando ornamentos automaticamente?
MD: Eu acho que o ornamento deveria retornar. Isso significa mais trabalho para nós, porque o ornamento é algo que você pode programar e parametrizar. Eu fiz um plug in para gerar ornamentos. Se chama Eve Ornament. Mas esse plug in não está no meu site para download, pois esse não é gratuito.
GC: O que ele faz?
MD: Minha esposa é uma arquiteta e ela trabalha para uma grande empresa que constrói edifícios em Meca para clientes muçulmanos. Eles têm um departamento de ornamento com 30 pessoas e um casal de amigos trabalha neste departamento. Eles tentaram fazer parametricamente, mas eles não têm as habilidades, então eu fui lá e mostrei a eles o que pode ser feito. Por isso eu fiz esse plug in, para mostrar a eles. Ele permite desenhar o que você quiser dentro de um quadrado, e ele podem popular uma superfície com isso. Você também pode extrudar em 3D... Eu fiz alguns sliders para mostrar a eles o que eu posso fazer, e depois disso você pode exportar para uma máquina CNC. E eu disse a eles que eu fiz em 2D, mas você pode ter padrões muito mais complexos, etc. E você sabe o que aconteceu depois da apresentação? Eles têm algumas pessoas no escritório que sabem trabalhar com Grasshopper, então eles os chamaram para uma reunião depois que eu saí, eles disseram a eles para tentar fazer o que eu havia acabado de mostrar. Depois de um ano eles não fizeram nada realmente útil, mas eles não se importam, pois é um escritório gigante, eles têm 200 pessoas trabalhando lá, eles têm projetos de qualquer forma... Teoricamente eu poderia ir para o rei da Arábia Saudita e dizer: olhe eu posso fazer esses ornamentos parametricamente, mas como eu chego até o rei da Arábia Saudita? E ele se importa se ele está pagando um milhão ou cem milhões para a mesma coisa? No mundo prático é muito irreal. Eu posso fazer melhor que eles, mas eles não se importam. Eles vão tentar fazer internamente no escritório, e eu já enfrentei isso muitas vezes: sim, você é mais eficiente, sim, você pode fazer um monte de coisas, mas eles ainda (preferem tentar fazer por si próprios).
GC: Isto é uma aplicação bem específica para ornamento na arquitetura Islâmica. E sobre arquitetura contemporânea em geral? Qual a sua opinião sobre isso? Você tem incorporado no projeto estrutural?
MD: Ainda não, mas eu gostaria, pois eu acredito no projeto inspirado pela natureza, e eu gostaria de saber se a arquitetura de 2100 terá formas orgânicas, como na ficção científica, com Voronois, e isso incluiria ornamento, pois a natureza é cheia de ornamentos. Mas eu não tive contato com ninguém que quisesse isso. Eu gostaria realmente de fazer um algoritmo nessa área, pois eu acho interessante. Ornamentação não é necessária, e isso me incomoda um pouco, pois eu gosto de fazer coisas que são eficientes, necessárias, é o meu lado engenheiro, mas mesmo sendo desnecessário seria legal (trabalhar nisso).
GC: Há outro tópico que tem sido objeto na nossa pesquisa, que é o detalhamento, ou mais especificamente o detalhe digital. A revista AD recentemente publicou uma edição especial sobre futuro do Detalhe e a revista Detail também tem uma edição especial sobre detalhes digitais e analógiccos. Você acha que surge uma nova teoria do detalhe com esta nova forma de projetar com programação e fabricação digital?
MD: Sim, e isso é outra área no qual eu ainda não tive a oportunidade de fazer nada, mas na qual eu gostaria muito, muito de mergulhar. Quando você faz arquitetura de formas livres os detalhes se tornam complexos, e é isso que eu quero fazer; algo que seja complicado. Isto é outra razão pelo qual eu não trabalho na fase de projeto, pois eles fazem coisas de um jeito muito conceitual e simples. Mas assim que você tem a sua forma você precisa produzir os elementos de fechamento e saber como conectá-los com parafusos e tudo isso... Por exemplo, a fachada paramétrica da Schüco que eu mostrei na minha palestra (no CAAD Futures). Eu estou fazendo a análise estática de diferentes elementos, pois eles têm todos diferentes geometrias. Esses elementos podem ser triangulares ou quadrangulares, e tem diferentes tipos. Eles podem ser como uma pirâmide, mas o ponto mais alto pode variar. Você pode fazer uma fachada em que cada elemento seja diferente, mas quando eles são montados juntos eles formam um padrão (emergente). E eu disse a eles que me deixassem fazer os detalhes automaticamente, mas eles disseram não, nós faremos com nossos funcionários.
GC: Eles farão um por um?
MD: Não, eles estão fazendo automaticamente, mas com seus funcionários. Então isso resolve o problema. Eles apenas me chamam para coisas que eles não conseguem fazer sozinhos. Eu gostaria de ter contatos então eles diriam vamos fazer isso tudo juntos.
GC: Outra edição da revista AD foi sobre tolerância zero na arquitetura. Qual sua opinião? Nós ainda precisamos de tolerância com a fabricação digital?
MD: Nós ainda trabalhamos com tolerância, mas a diferença é que nossa tolerância agora é de 0.5 milímetro. Tolerância zero é apenas na teoria, pois as máquinas de produção não são tão precisas, e você monta na obra, e tem dilatação, etc. Mas eu gosto da precisão. Você está perguntando as perguntas certas: ornamento, detalhes, tolerância, isso é o que nós fazemos.
Dimcic durante palestra no congresso CAAD Futures em Julho de 2015, no MASP
GC: E a última pergunta, qual a sua impressão sobre São Paulo e a arquitetura brasileira?
MD: Eu gostei muito! Parece européia, mas também um pouco Americana, algo entre as duas. O que eu mais gostei de São Paulo é que é possível descrever todas as experiências que eu tive em uma única palavra: diversidade. Diversidade de comida, diversidade de pessoas, diversidade de arquitetura...Eu realmente gostei. Foi como uma colagem de diferentes cores, diferentes tipos... Vocês tem um edifício que está quase caindo, e um edifício tecnológico do lado, eu realmente gostei desse tipo de atmosfera. É um grande contraste com a Alemanha, onde tudo é regulado, tudo é bonito e perfeito.
GC: Parece mais com a Sérvia?
MD: Sim, é muito acolhedor. Eu gostei. E eu gostaria de agradecer a você, Gabi, por tudo, toda a organização durante a conferência em São Paulo, foi muito bem organizada.
GC: Obrigada, Milos, por esta entrevista.
Dimcic durante palestra no congresso CAAD Futures em Julho de 2015, no MASP
Milos Dimcic
Graduou-se na Faculdade de Arquitetura de Belgrado, em 2006. Continuou seus estudos em Stuttgart, Alemanha, onde terminou seu doutorado em 2011, sob a orientação do Prof. Dr.-Ing. Jan Knipper. Trabalhou no escritório Knipper Helbig, em Stuttgart. Desde 2007 tem desenvolvido métodos de automação utilizados em alguns dos projetos mais famosos do mundo.
Gabriela Celani
Arquiteta e urbanista (1989) e mestre (2007) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), e doutora (2002) em Architecture: Design & Computation pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É atualmente Professora Associada da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Campinas (Unicamp), Brasil. É fundadora do LAPAC, Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção da Unicamp. Seu trabalho se concentra no design generativo, prototipagem rápida, fabricação digital, digitlização 3D e automação do processo de projeto arquitetônico. É vice-presidente de relações institucionais da SIGRADI, a Sociedade Ibero-americana de Gráfica Digital, e pertence aos comitês científicos de várias conferências de CAAD, como ECAADE, CAADRIA e DCC, e de periódicos como IJAC, Automation in Construction, AIEDAM e Design Studies.
Entrevista
Esta entrevista foi realizada presencialmente em Stuttgart, em 21 de agosto de 2015. Gabriela Celani viajou à Alemanha por meio do programa Connect, patrocinado pela Fundação Alexander Von Humboldt. A tradução para o português foi feita por Maycon Sedrez.