português O arquiteto e urbanista Jorge Mario Jáuregui, um dos maiores especialistas no Brasil em projetar Habitação de Interesse Social (HIS), concede entrevista a Antônio Agenor Barbosa, Rachel Paterman e Alberto Goyena.
español Entrevista con el arquitecto y urbanista Jorge Mario Jáuregui, concedida a Antônio Agenor Barbosa, Rachel Paterman y Alberto Goyena el 29 de noviembre de 2013.
Nascido na Argentina e radicado no Rio de Janeiro há cerca de trinta anos, o arquiteto e urbanista Jorge Mario Jáuregui tem o seu nome associado, principalmente, a projetos de urbanização e de planejamento em comunidades onde todos os aspectos da informalidade são a tônica dos seus desenvolvimentos urbano-arquitetônicos e sociais.
Na entrevista, realizada no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, Jáuregui nos fez uma exposição detalhada sobre sua trajetória profissional na cidade, expondo os fundamentos teóricos e metodológicos com base nos quais vincula a atuação de arquiteto e urbanista a preocupações de ordem social e política. A esse respeito, destacam-se em sua fala referências constantes à Filosofia e à Psicanálise, a seu ver fundamentais à construção de uma perspectiva capaz de unir teoria e prática. A interlocução permanente com tais elaborações participa do modo como concebe e problematiza o fenômeno urbano, que compreende nos termos de uma trama complexa: segundo suas palavras, uma interseção de fluxos e fixos, que é preciso interpretar e ordenar.
Por sua vez, a favela é lida por Jáuregui do ponto de vista da ideia de caos – que, conforme ressalta, diz respeito a uma ordem complexa, não uma desordem, suscetível a planejamento a partir da escuta da demanda. Tais ideias são discutidas pelo arquiteto conforme ele descreve o desenvolvimento de alguns projetos, tais como os que realizou no Complexo do Alemão e em Manguinhos – descrição esta que coloca em relevo questões e desafios incontornáveis à intenção de abordar a tensa relação entre cidade “formal” e “informal” no Rio de Janeiro.
Vale conferir no texto os temas que são elaborados por Jáuregui em resposta a algumas provocações, relativas, dentre outros pontos, à sua intenção de humildade na interlocução com moradores das comunidades em que atua; à sua perspectiva sobre patrimônio arquitetônico; e, finalmente, à problemática, senão polêmica, distinção entre projeto arquitetônico e a construção em curso na favela – que, a seu ver, teria a ver menos com um trabalho de composição estética do que com a criatividade de uma população, a sua infinita atividade, capacidade de construção, de mobilização.
Por fim, é preciso considerar a crítica que o arquiteto direciona ao debate sobre a relação formal-informal na cidade, a seu ver pouco consolidado e desenvolvido.
Complexo do Alemão
Antônio Agenor Barbosa / Rachel Paterman / Alberto Goyena: Fale um pouco sobre a sua trajetória como arquiteto e urbanista.
Jorge Mario Jáuregui: Eu sou arquiteto e urbanista, trabalho com clientes de áreas pública e privada, com escritório particular desde que cheguei ao Rio. Eu sempre digo que na Argentina eu era um militante político-técnico, e de fato eu pertencia à JP (Juventude Peronista), e tinha uma prática política dominante e o técnico era secundário. Quando eu cheguei aqui, a coisa se inverteu, e passei a ser militante técnico-político, ou seja: a profissão passou para o primeiro plano e a política, segundo plano. Tentei uma experiência, quando cheguei, de participação no Partido dos Trabalhadores (PT), que estava em formação, com o núcleo de apoio da igreja, participei das reuniões na igreja católica do Rio Comprido, mas encontrei uma dificuldade forte, já que as reuniões eram somente intelectuais, de pessoas esclarecidas, enquanto na Argentina, eu estava acostumado a ter o povo do lado, junto das massas e, aqui, as massas estavam longe, e então entendi que não era o caminho que eu buscava.
De alguma maneira, me encaminhei entãopara atuações nas quais o sócio-espacial estava em primeiro plano. Desde que cheguei, como todo argentino, formei grupos de estudos, que incluiam arquitetos e pessoas de outras disciplinas, e fomos estudando várias coisas: a Baía de Guanabara, a área do Porto, o bairro de Botafogo...Fazíamos os estudos e depois exposições em centros culturais e no IAB. Então isso me deu um treinamento, e quando chegou o governo do Prefeito Cesar Maia que lançou o programa “Rio Cidade”, que propunha um debate sobre a questão urbana na cidade formal, nós já estávamos treinados para dar respostas. Participamos, ganhamos uma área, fizemos o projeto do bairro do Catete, e quando terminado foi lançado o programa “Favela Bairro”, do qual também participamos. Daí, iniciou-se um processo que ninguém sabia onde iria dar, só que gerou, para mim pelo menos, um campo de pensamento junto com a prática, sobre a relação do formal com o informal, que não existia até esse momento.
Ao mesmo tempo, nessa época eu frequentava cursos de filosofia com o Professor Claudio Ulpiano, e isso me deu uma boa base para juntar conceito com prática, com tentativa de aplicação do conceito. Isso tudo, então, foi crescendo e foi se abrindo, no campo da prática, que resultou em bastante riqueza.
A partir disso publiquei um livro sobre estas questões. É um livro de edição barata para poder ser acessível a estudantes. Desde a época do curso de filosofia, me lembro sempre que o Gilles Deleuze colocava que “a ciência constrói funções, a filosofia constrói conceitos e a arte constrói agregados sensíveis”, que ele não chegou a definir, mas que para nós funcionava como um estímulo para pensar esse "agregado sensível" como algo feito de razão e de emoção, da inteligência e da sensibilidade.
Uma realidade não pode ser apreendida sem estarmos no lugar, na nossa área de atuação não há uma apreensão fora do fato urbanístico-arquitetônico. O Claudio Ulpiano dizia que “as cidades são fluxos dos mais variados por onde passam música, cultura, pintura, arquitetura, informação: o movimento, o tempo.” Ele, coloca essa questão de como devemos pensar o cruzamento, a interseção de fluxos e fixos, que caracterizam um agrupamento urbano na cidade: a cidade se compõe de inserções sucessivas e o arquiteto que trabalha nela se movimenta entre conflitos, compromissos, contaminações, interferências e transformações.
Na América Latina a questão mais transcendente no urbano-social forte está na relação formal-informal; o informal varia de 30 a 50% nos dois países principais da América Latina: Brasil e México.E qual a função do poder público em tudo isso? No que se refere ao espaço urbano, o poder público deve ter por função principal criar as oportunidades para um projeto de configuração de um espaço público, que não resulte meramente num excedente das razões privadas. Há esse risco, por exemplo, nas intervenções no Rio de Janeiro, nesse momento, na área do Porto e na Barra da Tijuca.
Por isso, para mim, abordar a questão urbana contemporânea na América Latina exige que seja colocado um foco nas relações entre os setores formais e informais, tratando de maneira simultânea o físico - que é o todo urbanístico infra-estrutural-ambiental, tudo o que pode ser quantificado e medido - e os aspectos sociais, tais como o econômico, cultural, ecológico e existencial.
Na verdade estamos tratando, segundo Deleuze e Guattari, de três ecologias: a ecologia mental primeiro, de descontaminação dos pré-conceitos para pensar; em segundo lugar a ecologia social, que é a questão do socius, do conjunto das relações sociais estabelecidas num determinado lugar antes da nossa intervenção e, por fim, a ecologia ambiental, que tem a ver com o manejo adequado da relação entre recursos humanos e recursos físicos. Agora apareceu até uma quarta ecologia, que se chama ecologia existencial, que basicamente implica o redirecionamento dos comportamentos individuais e coletivos.
E depois desses vinte anos trabalhando em áreas informais na cidade, para mim, organizar a favela implica - partindo da leitura da estrutura do lugar e da "escuta", em sentido psicanalítico, da demanda -enfrentar o caosaté convertê-lo em forma; e caos aqui significa uma ordem complexa, não uma desordem...
Historicamente podemos falar de quatro fases do urbanismo: a cidade clássica, definida pela continuidade das edificações, amarrada por ruas e praças: cidades como Ouro Preto, Parati, Salvador, Lisboa, Paris; a cidade industrial, com suas duas versões: em a utopia da ordem de Haussmann em Paris e a utopia da introdução da natureza em Londres; depois veio a cidade moderna, que explode o esquema clássico com edificações descontínuas que flutuam num espaço verde separado por vias de circulação...um espaço verde que não significa nada, com vias de circulação que são apenas condutos, como em Brasília. A tragédia de Brasília: cidade sem esquinas e semcalçadas, a cidade para o automóvel, assim como é também Chandigarh. E depois, a cidade metropolitana, na etapa que estamos agora: “metápolis”, que implica essa mudança de escala e de forma, numa ocupação do território induzida pela globalização, que estimula a expansão da nebulosa urbana.
AA/RP/AG: Esse é o conceito do François Ascher: “metápolis”, certo? Não é mais “metrópolis”?
JMJ: Sim é “metápolis” porque implica essa explosão de escala. Assim, então o socioespacial configura um campo determinado por essa interseção de diferentes disciplinas que implicam ou demandam compartilhar paradigmas no mínimo dois a dois.
Então o que me interessa? Da psicanálise, o método para a escuta da demanda, que é o método freudiano da associação livre; e a atenção flutuante da filosofia, os conceitos para pensar o complexo, o multiplamente articulado, por isso, o conceito de rizoma, de dobra, de espaço liso e espaço estriado, entre outros que a filosofia hoje nos oferece. Do urbanismo e da arquitetura, especificamente, a função de ler a estrutura do lugar, que só o arquiteto pode fazer, e que implica uma revisão das centralidades e a reconfiguração, mediante a introdução de novos centros, ou seja: o projeto sempre vai requalificar os centros existentes e introduzir novas centralidades para requalificar e resignificar o lugar.
Depois, todas as engenharias: de convenções, comunicações, de sistemas infra-estruturais, etc., os aspectos geo-bio-ambientais, com as interações homem-ambiente, delimitações de áreas de risco, as políticas sociais de integração e de geração de trabalho e renda. Eu penso isso tudo como uma ágora, digamos como uma ágora contemporânea, onde trabalho manual e trabalho intelectual coexistem, junto com lazer e cultura, então a ágora contemporânea seria interconectada por transporte eficiente, rápido e não poluente.
A gente pode ter este grande centro, esta grande urbe, esta grande “metápolis”, com muitos centros, não apenas um centro; e nestes muitos centros interconectados, o sujeito, o cidadão pode escolher em que ambiente, em qual atividade, ele quer participar a cada momento: na educação, na cultura, no trabalho , no esporte, no lazer...Por isso, para mim, há três elementos fundamentais que fazem laço social: primeiro, o trabalho, centros de geração de trabalho e renda como grandes ágoras; segundo, o esporte, que não por acaso estava no centro da cidade grega fazendo parte da atividade normal do cidadão. O esporte é outro socializador porque o menino da classe média e o menino da favela compartilham o mesmo espaço e produzem também um tipo de laço social; e depois, o lazer, a diversão, porque a festa, o baile, é outro fundamental integrador social.
Esses três elementos têm que estar sempre estruturados no projeto, em qualquer projeto, em qualquer escala, seja pequena, média, grande ou territorial. Para as três primeiras, trabalhamos com Desenho Urbano e, para a escala territorial, desenho urbano mais planejamento prospectivo, ou seja: formulando cenários para diferentes possíveis evoluções urbanas ao longo de vinte anos, por exemplo.
Depois tem todos os aspectos legais, como a situação fundiária, que é um drama na nossa situação jurídica derivada do direito romano, que é complexo e atravancado como a gente vê no plano nacional, com os problemas no Congresso para aprovações das leis; e depois os aspectos sociológicos a questão demográfica, a gestão de processo de participação comunitária, tudo que envolve, digamos, capacitação e empoderamento da população local para poder permitir a evolução social.
Núcleo Habitacional do Complexo do Alemão
Explicação de JMJ sobre imagens a respeito do seu projeto para Complexo do Alemão: Bom, aqui eu vou apresentar então um projeto para o Complexo do Alemão, que é esse magma mesmo, essa coisa bem pixelada...O que observei no Complexo do Alemão é que ali não existe nenhum espaço público, tudo que podia ser construído já foi construído, não há praticamente nenhuma árvore que você possa ver. Então toda a complexidade do sócio-espacial contemporâneo se encontra ali. Propus então um esquema de projeto onde não interessa tanto as medidas quanto as relações que as coisas mantêm entre si.
AA/RP/AG: Desculpe, não interessa tanto a medida...
JMJ: As medidas, as dimensões físicas.
AA/RP/AG: E sim as relações.
JMJ: Sim. As relações de proximidade que as coisas mantêm, por isso mais antropológico que outra coisa esse esquema.
Então, isso para mostrar, a partir dessa minha leitura da estrutura do lugar, que se reprograma, se reconfigura a divisão territorial das diferentes favelas do Complexo do Alemão para poder transformá-las em áreas de planejamento urbano. O sistema viário infra-estruturante tem uma grande importância porque é a coisa mais cara, mais pesada de um investimento.
No caso da escola de samba e do campo de futebol nós não mexemos, pois são sagrados, intocáveis... E depois, agregamos uma creche, uma pracinha, um coreto, o lugar da coleta de lixo, ou seja, equipamentos públicos que têm a ver com serviços, e que permitem introduzir elementos paisagísticos e arquitetônicos no lugar, que mostram a presença do público no privado, na escala de proximidade.
Bom, no Complexo do Alemão, a intervenção tinha a ver com transporte, com o meio-ambiente, com a habitação, com a educação, com o esporte, com o desenvolvimento socioeconômico (geração de trabalho e renda), com saúde. Nem tudo isso foi feito, e o projeto propunha a criação desse centro cívico do qual só foi feita a escola, a creche – por sinal, horrível, uma coisa espantosa, que foi um projeto da prefeitura –, e um centrinho comercial do lado. A creche enfeou o lugar, porque foi um projeto feito sem nenhum cuidado, apenas como constructo, sem nenhuma elaboração; e hoje, o que tem, que foi construído do projeto que eu fiz, é apenas a escola.
Tudo isso para mostrar a intensidade, a riqueza, a potência que tem o lugar, a favela. O espaço da favela é muito rico sociologicamente, economicamente e culturalmente... O Complexo do Alemão.. E, do lado, a casa da Explicadora...
AA/RP/AG:Casa da Explicadora?
JMJ: É uma das primeiras casas do Complexo do Alemão. A “explicadora” dava aula de reforço escolar para escola primária e, com o dinheiro ganho nesse espaço, ela concluiu sua casa. Então eu usei essa referência para o projeto. A Casa da Explicadora tem a mesa, a cadeira e eu coloquei a pia fora do banheiro para poder servir para cabeleireiro, trabalhos que tenham a ver com o uso de água...outras funções possíveis.
AA/RP/AG: É como se fosse uma parte comercial antes de chegar na parte íntima da casa?
JMJ: Sim, claramente; um lugar de trabalho na frente, e depois tem a casa dela integrada, com uma escada, dois quartos em cima, etc... Foi nesse quarto que o então Presidente Lula falou quando chegou para inaugurar a obra em 2010. Ele subiu aí com um monte de gente, e tinha o protótipo para mostrar para o pessoal como ia ser a casa; ele falou sobre os dois quartos e a importância da varanda, pois o trabalhador muitas vezes chega com a cabeça cheia de problemas do trabalho, cansado, tem problema com a patroa, sai na varanda, fuma um cigarro, volta e resolve o problema.
AA/RP/AG: O Lula falou isso?
JMJ: É. Então essa função terapêutica da varanda sugerida pelo Lula me inspirou a fazer todos os projetos com varanda. Então todos os projetos aqui eram duplex, cada um com a sua varandinha. Outro elemento importantíssimo foi o tijolo ecológico utilizado para as paredes.
AA/RP/AG: O que é um tijolo ecológico?
JMJ: Tijolo ecológico é um tijolo feito sem queima de madeira, com material de barro, compactado e que, digamos, não produz contaminação do ambiente.
AA/RP/AG: Quantas unidades?
JMJ: Eram 350 unidades habitacionais, incluindo um centro de geração de trabalho e renda, com um equipamento para apoio das atividades esportivas; um campo de futebol, uma quadra polivalente, espaços para o lazer das crianças, dos jovens e da terceira idade, e estacionamento. Tudo isso configurando uma nova porta de entrada para o Complexo do Alemão. Porta entre aspas, no sentido da cidade antiga, tradicional. E, para mim, veio a oportunidade de reintroduzir a vegetação no lugar: em todas as escalas, pequena, média e grande ou mesmo territorial; a cidade tem que ser reequilibrada, como falava Lúcio Costa; reequilibrar a relação entre massa verde e massa construída que tem que ser totalmente revista e reformulada porque, sobretudo na favela, são absolutamente carentes de vegetação...
AA/RP/AG: Áridos?
JMJ: Aridíssimos, portanto feios no sentido ambiental. Ou seja, as árvores embelezam os lugares e regulam ambientalmente a temperatura, então isso aí é uma preocupação que deveria ser a primeira do poder público. Por que não se faz? Bom, não se faz porque as árvores crescem lentamente, então os políticos não podem inaugurar árvores plantadas; e, por outro lado, também porque não temos uma cultura de proteção e de cuidado por parte da população. Além disso, temos o domínio e a opressão do automóvel, onde verificamos um vandalismo do automobilista em relação ao espaço do pedestre e da vegetação.
Outro ponto importante é que o teleférico ali construído recolocou o Complexo do Alemão no mapa da cidade. Ninguém sabia onde ficava, ninguém nunca ia pensar em ir ao Complexo do Alemão porque ele estava associado àquilo de mais tenebroso no imaginário da cidade quando iniciamos o projeto. Hoje, quando você chega ao Aeroporto Internacional, que é uma porta de entrada da cidade, a primeira coisa que vemos são as estações do teleférico, a igreja da Penha e o Cristo Redentor. Isso me fez pensar em uma música italianaque diz que a linha vertical se eleva na direção do espírito, enquanto que a linha horizontal se estende sobre a ação humana. Portanto, o espiritual e as relações humanas formam sempre aquelas duas tensões que são configuradoras da cidade. A linha vertical das igrejas, da cidade tradicional, histórica, e a linha horizontal das construções comuns, habitacionais. E essas são duas forças que compõem a cidade e a gente tem que projetar com elas, com a vertical e a horizontal. Se uma delas falta, digamos que é provável que a cidade seja meio chata, meio sem graça.
Oteleférico do Alemão tem 3.5 km, onde cada estação possui uma função diferente de acordo com o contexto. Umas têm biblioteca, outras têm salas de gravação, outras têm salas de lazer, de modo que a estação não seja só um elemento funcional, mas que possa gerar em torno dela outros espaços, para exposições, eventos, manifestações culturais da comunidade, enfim, para várias coisas.
A gente está fazendo agora um trabalho em volta de cem casas ao redor da Estação do Adeus e da Estação de Palmeiras para melhorar a qualidade de cada unidade habitacional existente e ajudando a configurar uma atividade comercial formalizada. É possível fazer, eventualmente, uma horta comunitária e introduzir melhorias tais como a impermeabilização do teto, da parede, conexões sanitárias para banheiros e cozinhas e, enfim, tudo que faça a melhoria da condição de vida do habitante, da sua casa e do espaço imediatamente externo, ou seja, a rua, a escadaria, a viela.
AA/RP/AG: Isso é obra do PAC ou Minha Casa, Minha Vida...?
JMJ: Não, isso que estamos fazendo agora é um fundo sócio-ambiental da Caixa Econômica Federal; não tem a ver com o PAC. São obras do Ministério da Cidade com verba do Governo Federal.
Desenhamos uma cortina vegetal nos croquis das estações do teleférico, que sempre, no início, foram pensadas como estações verdes, mas depois não foram executadas.
AA/RP/AG: O que é essa cortina vegetal?
JMJ: É uma fachada verde, pendurada de cima até embaixo; tem algumas na Lagoa, em Botafogo... Normalmente, da parte da garagem desce uma espécie de ”cabeleira”, e quando venta, isso se mexe e adquire um caráter lúdico, e é muito mais vistoso do que simplesmente uma parede de alvenaria.
Bem, o teleférico foi uma contribuição importante para a mobilidade da população. Tudo aquilo que se falava, que estava errado, que era só para os turistas, você vai lá e verifica que quem usa predominantemente é a população da favela, que cada vez utiliza mais à medida que vai se entrosando, que vai se apropriando do equipamento. E, sobretudo, a função importantíssima que teve de amenizar o estigma do topo do morro, porque era no topo do morro que estavam os traficantes, mesmo depois da chegada da polícia. Então, ao colocarmos o sistemade visualização de 3,5km de todo o percurso, fica fácil de controlar o que acontece embaixo. Portanto, o próprio morador controla e vê se, por exemplo, em um ponto tem grande acúmulo de lixo ou em outro ponto tem alguma coisa estranha acontecendo. Assim, o teleférico se converteu num equipamento de grande prestígio, num elemento de grande mobilidade e de ampliação de autoestima da população local. É a única comunidade que tem um sistema desses massivo de circulação no país.
AA/RP/AG: Ligado ao trem, né?
JMJ: Sim, que coloca a possibilidade de qualquer morador saltar de sua casa, pegar o trem e chegar no centro da cidade. Por outro lado, o teleférico não é uma recomendação para qualquer favela. Tem que se ver a densidade, a pertinência; tem que se fazer estudos de viabilidade no local para ver se justifica ou não, se vai ter uma necessidade, real ou não.
Teleférico do Complexo do Alemão
Estação Manguinhos
AA/RP/AG: O Complexo de Manguinhos se liga ao do Alemão?
JMJ: Não, eles estão separados pela Linha Amarela. Mas o mesmo trem que tem a parada em Manguinhos tem a parada em Bonsucesso e se liga ao teleférico do Alemão. Então isso mostra a complexidade da encruzilhada entre os elementos geográficos, os rios contaminados que atravessam as favelas, como o Canal do Cunha, o Rio Jacaré, ambos completamente poluídos. Isso num entorno que possui refinaria de petróleo, equipamentos super sofisticados de pesquisa médica de ponta, bairros populares, área de depósito de galpões que apoiam o porto do Rio, o Cemitério do Caju, tem uma infinidade de usos diferentes.
AA/RP/AG: O CADEG fica próximo também, certo?
JMJ: Sim, o CADEG é um equipamento de prestígio assim como a Feira de São Cristóvão. E o conjunto habitacional do Pedregulho também fica ali perto. Tudo constitui o esquema de leitura da estrutura do lugar, como a radiografia é para um médico. Tem-se o corpo físico radiografado, verifica-se o problema e os potenciais e, a partir daí, você pode formular o que se chama de Esquema Urbano.
Fizemos um projeto para Manguinhos que tinha então como principal intervenção um eixo de pedestres entre o centro cívico e a estação de trem; a pessoa da comunidade vem, atravessa por dentro do terreno da Fiocruz para pegar o ônibus na Avenida Brasil. Então tem conexões tanto de trem, quanto de ônibus, relações entre o centro cívico e a própria favela.
Pensamos também em propor algo como uma sala de estar urbana, um espaço público com bancos, verde, quiosques. Infelizmente os quiosques construídos não foram os que eu projetei, colocaram outros, horríveis, e não fizeram também todos os demais quiosques previstos para apoio de programas de geração de trabalho e renda, prestadores de serviço de mão-de-obra, (conserto de relógios, sapatos, equipamentos, máquinas, tudo o que a classe média precisa) além de serviços sociais, serviços de utilidade doméstica, etc.
AA/RP/AG: No caso estes quiosques sugerem uma alternativa a uma lógica de consumo desenfreado onde você compra e joga fora. Poder consertar, poder reciclar um produto...
JMJ: Sim, pode reciclar, e não é só isso: é o que a favela sabe fazer, trabalhar manualmente em quase tudo que você precisa, tudo que a classe média precisa...
AA/RP/AG: E que não faz, como os americanos por exemplo.
JMJ: Claro que não faz. Na favela o cara conserta tudo, resolve tudo, recicla tudo. E a vantagem é que você vai lá e sabe que vai ter junto toda uma série de oferta de serviços. Tem a costureira, etc. Todo mundo que está disperso na cidade; em geral você tem que ir para um lado e para o outro, mas aqui a proposta seria estar tudo isso junto. Isso que é uma coisa importante e nunca foi implementada em grande escala. E por que isso? Porque é difícil implementar, implica você ajudar a constituir cooperativas e formas de trabalho associativo que superem o individual, porque é fácil dar para cada um trocadinho e depois o Estado vai embora. Porém, quando tem que gerir isso como se fosse um centro comercial, aí a coisa é diferente, precisa de contador, gerente, precisa de mais gente que o volume da soma dos indivíduos. Então isso o Estado, em nenhuma esfera, não quer encarar.
Creio que um ponto central é que a população ganhou um lugar que mudou sua vida porque os meninos podem passar o tempo na biblioteca que projetamos, por exemplo, ao invés de estarem nas ruas. É um ambiente onde são muito bem tratados pelos funcionários da biblioteca, como a mesma qualidade de uma biblioteca da cidade formal.
AA/RP/AG: O projeto do paisagismo é de quem?
JMJ: Nosso. Foi uma luta conservar as árvores existentes porque a construtora queria cortar para movimentar melhor os caminhões, mas conseguimos mantê-las.
Quando vou a um terreno, pois considero a visitação ao lugar um aspecto fundamental, a primeira coisa que vejo é se tem árvores. Se houver, tento estruturar o meu projeto usando-as, porque as árvores demoram muito para atingir volume; é uma presença que enobrece sempre os lugares, seja de forma isolada ou agrupadas, e a gente precisa, realmente, reintroduzir o verde nas nossas cidades que estão bem carentes disso. Para mim, todas as ruas deveriam ser assim, arborizadas, túneis verdes, como são algumas ruas de Copacabana ou de Ipanema.
AA/RP/AG: Rua Santa Clara, por exemplo, Rua Redentor ...
JMJ: Sim, elas têm um guarda-sol permanente e isso regula claramente a temperatura.
AA/RP/AG: Sobre essa questão das árvores: você decide esquematizar seu projeto respeitando-as e o que acontece depois?
JMJ: A primeira questão é que quando você analisa o levantamento topográfico, todas as árvores têm o mesmo tamanho, uma merrequinha, uma cabeça de alfinete, e isso não diz nada, porque algumas são imensas e outras são pequenininhas.
Então começa pelo registro, quando o projetista, no caso o arquiteto, vai fazer o projeto, ele recebe, antes de tudo, uma topografia. Esta não diz sobre o significado, não mostra o porte das árvores. Então, uma das primeiras coisas que a gente tem que se preocupar é em diferenciá-las. E o melhor caminho é ir ao local, ir ao lugar e verificar.
AA/RP/AG: Ou seja, nenhum processo de georreferenciamento te dá essa noção do porte e da relação entre a árvore e o espaço. Só indo lá?
JMJ: Isso, só indo lá. São contadas as situações em que esse material é confiável, você sempre tem que ir até o local e verificar. Então a primeira questão é essa, a diferenciação, que só se observa estando lá, no local.
A segunda questão é que, normalmente, o cliente, seja público ou privado, quer construir o máximo de metros quadrados possível no terreno, ou seja, não está nem aí para as árvores. Eles querem construir o máximo, até o limite, isso quer dizer que, se tem uma árvore, ela não deve ser considerada.
O terceiro ponto é que há uma cultura, mesmo dentro das comunidades, de que a árvore é prejudicial, que arranca o reboco da fachada, ou levanta o calçamento da calçada, esse tipo de coisa. Mas isso não é verdade, com um pouco de cuidado você pode ter uma superfície verde na fachada, ou uma árvore na calçada. Na minha casa, por exemplo, eu tenho isso, árvores que eu mesmo plantei.
No Complexo do Alemão, plantamos uma trepadeira na Casa da Explicadora, que já mencionei. Não é necessário fazer isso com todas as casas da favela, mas você pode tomar alguns pontos significativos e mostrar, numa rua, o que pode acontecer, o que pode mudar para melhor.
AA/RP/AG: Essa questão da falta de sensibilidade com a árvore é um ponto que liga a favela e o asfalto, concorda? Existe tanto na cidade informal quanto na cidade formal, é uma questão do Brasil, da burguesia urbana brasileira.
JMJ: Sim, totalmente. Há um descuido. Nos últimos anos houve matérias, publicações sobre pessoas que defendem as árvores, mas geralmente são muito pontuais e sobre árvores específicas, que vão ser cortadas por algum motivo, como teve o caso da Figueira da Rua Faro, no Jardim Botânico. Mas são movimentos esporádicos, em geral não há essa preocupação.
Biblioteca Parque Manguinhos
Complexo do Alemão
AA/RP/AG: Nós queríamos agora abordar uma questão mais de natureza conceitual sobre o seu trabalho de intervenção nas favelas e remontar a fases anteriores desta política. Por exemplo, é sabido que nos anos 60 ou 70, a grande política da ditadura era de remoção das favelas.Tira-se a Favela do Pinto lá na Lagoa, no Leblon (esses são os exemplos mais recorrentes) e levam para outro lugar. No seu trabalho, as suas intervenções dizem o contrário dessas politicas, ou seja: “vamos tentar manter essas pessoas no lugar”.
Porque a gente olha para uma favela e às vezes a percebe na perspectiva da falta, ou seja: o que as pessoas precisam, o que temos que colocar...e isso também produz essa diferença, a sensação de falta. Então eu lhe pergunto também como foi a sua experiência de conversa, como você negocia os projetos, como você consegue conversar para que os moradores fiquem no local e também participem?
JMJ: Bem, a participação é uma questão para um militante que a queira assumir.
Depois que vim morar aqui e tive contato com os psicanalistas, aprendi que a demanda não é para ser respondida, é para ser interpretada, o que é bem diferente. Então tem um processo, não se pode desenhar diretamente o que se pede, tem que processar isso que é pedido o tempo necessário para você poder responder.
Então hoje, como que eu trabalho com a demanda das favelas? Primeira questão, o governo diz que vai intervir em tais favelas, então eu já me organizo, telefono para a associação de moradores, vou ao lugar e estabeleço o diálogo. Essa é a primeira transferência estabelecida entre o inconsciente do arquiteto e o inconsciente coletivo da comunidade.
“Uma cidade nos chega pelos olhos e pelos pés”, palavras de Walter Benjamim: você vai conhecendo o lugar e vai construindo uma confiabilidade. A confiabilidade se constrói ao longo do processo, não é em apenas uma reunião. Então, eu fico um mês, dois meses, até três meses frequentando o lugar para conseguir entender sua estrutura; aí sou capaz de desenhar um primeiro esquema do lugar. Nesse momento, em que consegui construir esse esquema, é que já construí também uma relação de diálogo com a comunidade que vai fazer com que tudo que eu faça obedeça ao que eles queriam. E mais, por quê? Porque a função de um projeto, para mim, não é responder ao que se pede, mas sim mostrar o que se tinha direito a desejar; e que não se sabia antes do diálogo com o arquiteto. Há uma função didática do projeto: mostrar ao outro aquilo a que se pode aspirar, mas que ele não sabia que tinha direito a isso.
AA/RP/AG: Aí você está sendo político também?
JMJ: Claro, exatamente.
A função do projeto é essa, de articular a demanda e asforças, de potencializar.
A escuta permite que as coisas aflorem, e você vai juntando fragmentos: pede um projeto que a comunidade já teve, ou fez, Pergunta as intenções que eles têm para determinado lugar ou para o todo...É sempre um trabalho de levantamento de informações, de juntar fragmentos, você vai montando um quebra-cabeças e vai ter que ordená-lo para elaborar um projeto de estruturação urbana.
A demanda e a participação da população hoje pra mim têm quatro momentos fundamentais: o primeiro é este, de ir ao lugar, caminhar, iniciar o diálogo, enão tem nada a ver com recursos ou com o cliente em particular. O segundo momento é quando a gente é contratado pelo poder público, então já teve formalmente tempo de elaborar o cronograma para produzir o projeto. Nesse momento, quando sou contratado, volto ao lugar, com o qual construí minha relação, e contrato, por minha parte, alguns consultores que vão ser os meus informantes para detalhar o projeto, porque eu não sei tudo que está lá, tudo que não se vê, eupreciso das informações das pessoas que moram no lugar.
O terceiro momento é quando, depois da licitação do projeto, se inicia a construção, aí a construtora tem obrigação de contratar 40% da mão de obra local. Essa já é uma participação diferente, com carteira assinada, etc. No Complexo do Alemão, por exemplo, foram duas mil pessoas contratadas, mil homens e mil mulheres, nas obras do PAC; foi uma coisa grande, poderosa, que gerou todo um movimento dentro da comunidade: capacitação, cooperativas... A contratação dura o período da obra, nesse caso, foram dois anos. O quarto momento é quando a obra termina, e a Prefeitura instala no local o POUSO (Posto de Orientação Urbanístico e Social) que é o lugar que vai regular os conflitos pós-obras. Conta com arquiteto, engenheiro e uma assistente social, todos funcionários da Prefeitura, que estão ali com o intuito de mediar conflitos.
AA/RP/AG: Esses conflitos que existem após as obras, a Prefeitura retorna a você?
JMJ: Não. Nessa fase o contrato comigo já terminou, e eles só processam isso dentro da própria Prefeitura. Eu já não tenho mais direito a dizer nada.
AA/RP/AG: Tem um exemplo importante, do arquiteto Demetri Anastasakis, que fez o projeto daVila do João. Esse projeto recebe algumas críticas de não ter conversado muito com a população local, pois as casas possuem telhados de duas águas enquanto que as pessoas precisam de laje, por exemplo. Tem algum tipo de interpretação do seu projeto que foi outra do que aquela pretendida? Ou seja: as pessoas se apropriaram do mobiliário urbano, do material, das casas, de formas outras à que foi planejada?
JMJ: Sempre o cliente se apropria de forma diferente à que foi planejada, em qualquer tipo de projeto, até em um projeto formal; fazem apropriações, intervenções, às vezes deformações também.Na arquitetura popular também, mas nos lugares onde a Associação de Moradores é muito atuante, muito lúcida, politizada, a coisa flui melhor. Os equipamentos, os edifícios, até mesmo os condomínios, são mais conservados.
Um problema gravíssimo que há é que, na legislação atual, não existem os condomínios populares. Na Rocinha, em Manguinhos, em todos esses lugares, o governo entrega as unidades de apartamentos e sai de cena, como se dissesse aos moradores: “agora é com vocês”. Dessa forma, as pessoas que vão morar aí, vêm de diferentes lugares que não tinham relações de vizinhança entre si e, de repente, passam a ter um vizinho que antes não conheciam. Assim como na cidade formal, você compra um apartamento e não sabe quem é seu vizinho. Pode ser uma boa vizinhança ou uma péssima vizinhança. A diferença é que na classe média existe a figura do condomínio, então aí existem os responsáveis por zelar pelos serviços comuns, como lixo, água, iluminação de áreas comuns, etc.
Na favela, as escadas, por exemplo, nunca têm iluminação porque não existe o condomínio popular; então quem é que vai tomar conta, quem é que vai trocar a lâmpada quando ela queima? Isso de nãotratar de Condomínios Populares, é um falta grave da lei.
Sei que em São Paulo, agora, a prefeitura terceirizou o serviço de condomínio, então a firma contratada é que faz essa manutenção. É interessante, eu acho esse um bom caminho, porque alguém tem obrigação de manter e não tem todo aquele problema de estar escolhendo permanentemente a figura do síndico, e não tem aquelas brigas tradicionais dos condomínios entre o síndico e os moradores.
É interessante, porque é uma coisa muito simples, trocar uma lâmpada, mas o passo é gigantesco definir , quem vai fazer isso é uma questão que vai muito além do preço dessa lâmpada.
AA/RP/AG: Você tem escrito, ou você já escreveu sobre essa sua relação com seus informantes?
JMJ: Não, nunca escrevi.
AA/RP/AG: Seria uma certa história de vida dos seus projetos, pois o que você nos falou até agora é muito interessante, antes de você ser contratado você já está lá em campo, no lugar. Portanto, seria muito instigante ver esses textos seus, da sua chegada ao lugar, quem são seus informantes, quem te recebeu...enfim, conhecer os bastidores dos seus projetos. Seria interessante saber como os relatos de vida foram colhidos, como as narrações foram montadas.
JMJ: Eu nunca escrevi sobre isso, mas concordo que é um tema interessante.
Favela da Rocinha
AA/RP/AG: Como que você pensa ou define, a questão do patrimônio na favela, nas áreas informais? Não quero entrar na discussão se é patrimônio material, imaterial, enfim...Como que o conceito de memória entra em jogo? Como é que essas categorias de preservação, destruição, continuidade, transmissão de bens de uma geração pra outra, a história do lugar, como que isso se solidifica na favela? E mais especificamente, por exemplo, como foi no Vidigal? Em Manguinhos?
JMJ: Como eu falei antes, patrimônio para mim não é só o edificado, mas também o plantado.
Então, vamos tomar como exemplo Manguinhos. O Centro Cívico de Manguinhos estava constituído pelos edifícios dos Galpões, que são bastante agradáveis nas suas proporções, na sua materialidade; e pelo edifício do Comando, que era, claramente, com sua parte horizontal e a torre vertical, uma forma arquitetônica estruturadora, que estava gravada na memória da população do lugar.Esse edifício foi para mim, o foco principal. O edifícioadministrativo do DESUPE tinha algum valor, que não era tanto arquitetônico ou ambiental, mas o que eu chamo de valor contextual, e também tinha um valor de arquitetura pública. Você não poderia caracterizá-lo como uma obra de arte, mas é uma obra com intencionalidade estética em sua configuração.
Quando chegamos ao lugar, a primeira coisa que apareceu, como valor, foi esse edifício. Para mim o ideal era tocar o mínimo, somente o indispensável para se colocar a nova função solicitada ali dentro, que era a escola, e utilizar os galpões também, buscando preservar as proporções e o material do teto e das paredes.
Três coisas eram importantes lá: o edifício do Comando, os galpões e as árvores. As árvores constituem uma massa vegetal, que era patrimônio do lugar, ou seja, a sombra, a ventilação e o visual dessas árvores era algo que deveria ser considerado como elemento do projeto; devia-se apenas configurar as bordas da praça central.
AA/RP/AG: Mas isso é uma interpretação sua?
JMJ: Sim, o cliente não falava nada. Então o patrimônio para mim aí, nesse caso, era isso.
O Rio de Janeiro é uma cidade em que a paisagem é um valor em si mesmo, por isso foi escolhido como Patrimônio Paisagístico da Humanidade, e o Rio sempre dá possibilidades de diferentes perspectivas. À medida em que nos deslocamos pelo território, surgem infinitas possibilidades de vista, normalmente inesperadas, que têm que ser consideradas no projeto.
Por isso, para mim, bairros como Botafogo, que era um bairro de qualidade, agora está absolutamente destruído pela especulação imobiliária que coloca “constructos”, não são nem arquitetura, nem urbanismo, apenas um empilhamento de materiais feitos pelas construtoras, que vão derrubando tudo, as casas e as árvores que tinham no local.Destruição e arrasamento do território pela especulação imobiliária. Não só em Botafogo, mas também no Leblon, em Ipanema em todos os lugares.
No caso da Rocinha, como já falei, tinha uma árvore maravilhosa,grande, era uma árvore significativa, e para mim, ela ficaria no centro da praça que projetei, mas no processo de construção eles a cortaram.
No Complexo do Alemão, não tinha vegetação, mas ela foi introduzida pelo nosso projeto, entre as edificações, como jardins comunitários, e depois os moradores colocaram vasos de plantas nas varandas. Uma das funções das varandas também é essa, permitir que se tenha uma vegetação como transição interior/exterior.
O que tem também no Alemão de muito importante é o parque projetado lá em cima, que espero que algum dia seja feito.
AA/RP/AG: É um parque ambiental?
JMJ: Sim, é um parque ambiental de escala metropolitana, que serve para a Zona Norte também, não só para o Alemão.
AA/RP/AG: Como você vê a formação de arquitetos em relação à projetos voltados para a favela? Você vê um vazio nessa área?
JMJ: De fato não existia matéria na faculdade voltado para a urbanização na favela. Nem em arquitetura, nem em urbanismo.
AA/RP/AG: Na sua formação você não viu isso?
JMJ: Não.
AA/RP/AG: Existe esse tipo de matéria aqui no Brasil?
JMJ: Em algumas universidades sim. Porque a partir de um determinado momento, na década de 1990, começa a haver um interesse, principalmente fora da academia, e depois se introduz toda essa questão do informal, toda essa arquitetura orgânica que responde à demanda intuitivamente, e que resulta, finalmente, em um tecido integrado. A cidade clássica tem essa continuidade do edificado; Ouro Preto, por exemplo, a fachada é contínua, não há vazios, na favela também, há uma continuidade das edificações. Pensa na Rocinha, no Vidigal, no Alemão...a construção da comunidade vai configurando um tecido contínuo, isso é o ponto de contato entre o formal e o informal, e acho que foi isso que começou a ser olhado lá fora, a partir de um certo momento, quando se esgota a pirotecnia e o exibicionismo formal da desconstrução que se tornou absolutamente aleatória...
Isto gerou uma exacerbação do conflito que a desconstrução tinha promovido, e como na favela tudo é conflito, o conflito reaparece no argumento projetual de outra maneira: aparece pelo lado da essencialidade das coisas, de alguma redução ao mínimo necessário, mas esse mínimo necessário com liberdade, porque a favela é uma coisa que resulta em uma infinita complexidade e em um infinita riqueza.
Quando a gente olha a fachada da Rocinha, vindo pelo bairro de São Conrado, você vê um imenso paredão que desperta interesse, durante o dia, quando você vê as diferentes configurações de cheios e vazios, volumes, cores e construções, e desperta interesse durante a noite, quando parece uma enorme árvore de Natal no morro, ou um céu estrelado. Então são duas paisagens, duas realidades da favela, a favela de dia e a favela de noite.
Mas voltando à questão do interesse pelo informal, do interesse pelo sociológico, urbanístico e mesmo de organização do objeto arquitetônico, não estou falando que a favela seja arquitetura, porque arquitetura, como diz Lacan: “o que diferencia o edifício daarquitetura é a potência lógica que ordena além do que o edifício suporta de possível utilização”. Isso significa que todo edifício funciona, mas nem todo edifício é arquitetura, portanto arquitetura não tem nada a ver com a função; tem a ver com a potência lógica que a ordena. Essa “potência lógica que ordena” é o ato da criação do pintor, do arquiteto, do escultor, do diretor de cinema... há um impulso estético que é o que organiza a matéria, os materiais, no caso da arquitetura.
Na favela não é um impulso estético que organiza os materiais, é apenas a pura e crua demanda e a necessidade. Então por isso eu não digo que o que resulta da favela é arquitetura, eu digo que é construção, é diferente da arquitetura; a arquitetura implica já a intencionalidade estética, já configurar de uma determinada maneira, mas, mesmo no feito, no que é resultado da própria construção, seja na favela, seja na cidade medieval ou na cidade grega, com suas casas brancas nos morros, essas casas que não foram projetadas porarquitetos, não tinham um projeto arquitetônico, mas havia uma cultura que compartilhava valores e formas de construir tais como a relação dos cheios e vazios, o trabalho das molduras e da cor das portas e das janelas, o acabamento dos tetos, tudo isso redundava num corpo coletivo compartilhado que, finalmente, resultava numa unidade do construído.
Na Espanha, por exemplo, as casas nas cidades de Granada, de Sevilla, onde os bairros históricos populares são uma coisa agradável, agradabilíssima, e não são construídos por arquitetos; era a sabedoria popular que se sedimentava ao longo do tempo e que resultava num entorno com valor estético também. Na favela eu diria que não é o valor estético oque interessa; quando eu olho a fachada da favela da Rocinha não é o valor estético que estou olhando, é o valor de conjunto, a infinita ação do ser humano que configurou e construiu o morro inteiro... o que isso me transmite é outro tipo de emoção, não é a emoção estética; é a emoção diante da criatividade de uma população, a sua infinita atividade, capacidade de construção, de mobilização. Porque, ao mesmo tempo que olhamos para lá, sabemos que estão construindo enquanto estamos olhando, tudo isso está em permanente evolução, em permanente movimento. Então tudo isso está associado à ideia de favela, à massa construída, como a do Alemão, como a da Rocinha..É isso que me interessa na favela.
Antigo depósito de suprimentos do exército (DSUP), onde atualmente se encontra a Biblioteca Parque Manguinhos Biblioteca Parque Manguinhos.
Croquis da Rambla de Manguinhos
AA/RP/AG: Quem são seus interlocutores? Quando você está nesse processo, com quem você conversa, com quem você dialoga, não necessariamente arquitetos, quem são as pessoas com quem você discute essas questões?
JMJ: Dialogo muito com um sociólogo, amigo há muitos anos, o Pedro Cunca Bocayuva. Sempre falamos sobre mobilização produtiva do território, esse é um conceito que está sempre produzindo efeito em mim.
Tenho diálogo com psicanalistas também; minha mulher é psicanalista, e o tema sempre está em pauta.
AA/RP/AG: A relação com a psicanálise não tem nada a ver com o fato de você ser Argentino, certo (risos)?
JMJ: Não (risos), não tem relação, é só uma coincidência.
AA/RP/AG: Se você puder destrinchar quais as interlocuções que você tem com eles...
JMJ: Eu sempre estou lendo filosofia, antropologia. Na antropologia, dois livros que me interessam muito são de Manuel Delgado. Um que se chama El animal publico,e outro que se chama Sociedades Movedizas. É um cara muito interessante, um anarco-antropólogo, o conheci na Venezuela há muito tempo atrás; o visitei em Barcelona, e seus livros me interessam muito. Seus livros têm conceitos sobre a mobilidade urbana, espaço público, as definições de cidade, urbanidade...Também gosto de Michel de Certeau, a Invenção do Cotidiano, consulto bastante esse livro.
AA/RP/AG: E com arquitetos? Com quem você conversa? Você é ligado às instituições mais corporativas? Você tem um diálogo com seus pares aqui no Brasil que de alguma forma estão intervindo na favela também, e em que medida você pode confrontar a sua atuação com a de outros colegas protagonistas dessa geração? Como você confronta a sua entrada, seu pensamento, a sua produção com a desses outros arquitetos que também investiram sua energia nesse tipo de projeto?
JMJ: Conheço todos eles, mas nunca houve um diálogo, nunca houve um debate, uma interlocução e continua sem haver. Nem o IAB foi capaz de organizar isso, e eu participei muito tempo do IAB e foi realmente difícil, mas nunca conseguimos. Publica-se pouco também; podia não haver o debate, mas através das publicações podia haver alguma coisa, mas há pouco. As únicas publicações específicas que houve foram de caráter mais político institucional , e não técnico, digamos assim. Portanto, a meu ver, este ainda é um debate em déficit.
Mas eu participo de muitos eventos fora do Brasil justamente porque ali é o lugar onde o meu pensamento é provocado. Num auditório, quando um tema é colocado para uma apresentação, ou palestra ou debate eu sou obrigado a pensar, a refletir, ou a organizar meu pensamento para debater, então por isso eu participo muito, viajo muito, é uma chama que mantém vivo o meu interesse o meu desejo, e a atualidade de meu pensamento, de minha prática.
AA/RP/AG: Então esse debate é uma lacuna?
JMJ: Sim.
AA/RP/AG: Mas é uma lacuna somente no Brasil?
JMJ: Sim, eu vejo que em outros lugares há publicações, eu vejo livros... Aqui ainda não há.
AA/RP/AG: Como é a sua relação com a universidade? Você tem uma formação bastante rica, posso dizer até autodidata, em filosofia, em psicanálise, enfim, uma série de conceitos...Mas você já foi convidado para ministrar algum curso regular, como professor visitante, alguma coisa aqui no Brasil? E como é sua relação com a universidade, com a formação do arquiteto?
JMJ: Aqui no Brasil eu tenho publicado bastante nas duas revistas de arquitetura: AU e Projeto e faço todos os anos Seminários-Workshops com Universidades estrangeiras, aqui no Rio. Fora, faço alguns seminários regulares na Universidade de Buenos Aires, e em Rosário, mas no Brasil apenas coisas mais pontuais, conferências sobre temas específicos.
AA/RP/AG: Por que você acha que você nunca foi convidado para isso aqui no Brasil?
JMJ: Acho que porque eu não queria mesmo (risos). Sinceramente, detesto o Fundão, onde está situada a FAU-UFRJ, lugar longe para ir, desagradável para estar, calorento, sem um bar decente para sentar e discutir; é um lugar inóspito, eu o identifico como um deserto, o Fundão é um deserto para mim. Então fisicamente é um lugar que não me atrai, por isso também que não tenho participado mais.
AA/RP/AG: Vi que você ganhou o prêmio Veronica Green em Harvard sobre Desenho Urbano, e li um artigo do Rodolfo Machado, que é professor lá, no qual ele falou da sua “intenção de humildade”, e que isso foi um pré-requisito, que fez com que você, nessa intenção de humildade do arquiteto, lograsse o êxito e fosse o único arquiteto do Hemisfério Sul que ganhou o prêmio.
Queria então colocar isso em duas dimensões: numa dimensão mais pessoal, em que medida esse prêmio mudou a sua carreira ou te trouxe alguma visibilidade a mais do que a que você já tem? E, no outro âmbito, se você concorda com essa questão levantada pelo Rodolfo Machado da “intenção de humildade” porque, me desculpe, eu não quero fazer uma provocação no final da entrevista, na hora do almoço (risos), mas às vezes não me parece tão humilde assim essa intenção. Afinal, tem uma proposta formal, tem uma decisão concreta sobre o lugar, quando você afirma coisas como: “eu escutei as demandas, as demandas foram ouvidas, mas olha, o que eu tenho pra oferecer é isso aqui”... É uma provocação, mesmo, Jáuregui (risos).
JMJ: Em relação à Intenção de humildade, eu suponho que ele quis dizer isso a respeito da minha aproximação ao tema, não buscando fazer um Pompidou na favela ou fazer um Guggenheim. Eu já falei antes que eu via o silo como um Pompidou já feito, em Manguinhos, mas tentando conectar cultura popular com cultura erudita; o que a gente traz da universidade com o que já está no lugar. Eu acho que esse esforço que eu faço e eu o associo muito com o a busca do Hélio Oiticica, que me interessa muito é, digamos, um caminho, no qual pode estar sempre burilando, construindo, como se junta o que tem no lugar com o que vem de fora. Não é por uma questão mimética, nem por um contraste violento, de como se faz em Medellín, na Colômbia. Acho que o que eu pretendo é encontrar uma forma de que o novo se possa absorver, como encontrar pontos no novo que remetam a algo conhecido. Não é totalmente a vontade expressiva única do arquiteto que se impõe sobre o existente. É nesse sentido que eu entenderia “atitude de humildade”. Uso matérias, técnicas construtivas, relações, proporções, uso disso para realizar essa ancoragem com o que já existe no local.
Em relação ao prêmio, foi maravilhoso no sentido de que foi inesperado. Realmente me deu uma visibilidade e uma transcendência forte. Mais do que aqui dentro do Brasil,no exterior houve uma valorização, um interesse pelo meu trabalho, um reconhecimento intelectual, também pela escrita, pelo texto que acompanha a forma e o projeto. Então acho que funcionou muito, devo muito ao prêmio, além de ter sido economicamente interessante. (Risos). Ganhei dinheiro, uma exposição e um livro em Harvard.
Biblioteca Parque Manguinhos
Jorge Mario Jáuregui
Arquiteto pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Nacional de Rosário, Argentina. Reside no Rio de Janeiro onde tem seu escritório de arquitetura. Indicado para o Premio Mies van der Rohe de Arquitetura Latino-americana, Fundação Mies van der Rohe, Barcelona, 1999. Grande Premio na IV Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, 1999. Recebeu o Prêmio Verônica Rudge Green in Urban Design, Harvard University, Graduate School of Design, GSD, 2000. Entre seus principais trabalhos executados estão a Reurbanização do Bairro do Catete (Programa Rio-Cidade) em uma área histórica da Cidade do Rio de Janeiro; a Urbanização de mas de 20 Favelas em diferentes locais da Cidade (Programa Favela-Bairro); o Mobiliário Urbano para a Zona Sul da Cidade do Rio; as residências do Ministro Marcilio Marques Moreira e do ator Caio Blat no Rio de Janeiro, os projetos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo Lula para o "Complexo do Alemão" e para o "Complexo de Manguinhos", e o Núcleo Habitacional da favela da Rocinha.
Antônio Agenor Barbosa
Arquiteto e Urbanista, Professor do Departamento de História e Teoria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (FAU – UFJF) e pesquisador associado do Laboratório de Antropologia da Arquitetura e Espaços (LAARES), vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.
Rachel Paterman
Mestre e Doutoranda em Antropologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ. Pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Arquitetura e Espaços (LAARES).
Alberto Goyena
Mestre e Doutor em Antropologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ. Pesquisador do Laboratório de Antropologia da Arquitetura e Espaços (LAARES).
Entrevista
A entrevista com o arquiteto Jorge Mario Jauregui foi realizada pessoalmente com ele no dia 29 de novembro de 2013, na sede do LAARES (IFCS-UFRJ), e gravada em áudio e vídeo. Os entrevistadores fazem um especial agradecimento a Ana Luiza Delgado e Ives Dotta, ambos estudantes de arquitetura e urbanismo da FAU UFJF, que de maneira muito criteriosa e dedicada fizeram a transcrição das quase três horas desta entrevista.