português Gabriela Celani entrevista Tobias Wallisser, um dos sócios do LAVA - Laboratory for Visionary Architecture - de Berlim, que utiliza meios digitais, princípios estruturais encontrados na natureza e as últimas tecnologias de fabricação digital.
Situado em uma antiga fábrica de cerveja a Norte de Alexander Platz que hoje funciona como complexo de escritórios da indústria criativa, o LAVA de Berlim faz parte de uma rede de três escritórios de arquitetura fundados em 2007. Os outros dois estão instalados em Stuttgart e em Sydney, na Austrália. Os sócios Tobias Wallisser, Alexander Rieck e Chris Bosse utilizam meios digitais, princípios estruturais encontrados na natureza e as últimas tecnologias de fabricação digital para criar "um futuro mais inteligente, mais amigável e mais responsável social e ambientalmente". LAVA é o acrônimo de Laboratory for Visionary Architecture, um nome que denota a orientação experimentalista desses jovens arquitetos. Tobias Wallisser falou de sua formação, de sua relação com a academia, sobre os projetos do escritório e sobre como vê o futuro da arquitetura.
Arnhem Masterplan
Gabriela Celani: Tobias, por favor, me fale sobre a sua formação. Você estudou arquitetura na TU Berlim, depois você fez mestrado na Universidade de Stuttgart, e então outro mestrado na Universidade Columbia. Qual parte da sua formação foi mais importante para o tipo de trabalho que você faz aqui e para seu entusiasmo com as novas tecnologias?
Tobias Wallisser: Deixe-me começar pelo início. Nos primeiros anos na TU Berlim tínhamos disciplinas de projeto integradas. Nós trabalhamos em equipes de quatro pessoas por quase dois anos. Eu aprendi a trabalhar com um mesmo grupo do planejamento urbano até o detalhamento, e também aprendi como tomar decisões do tipo como desenhar uma casa em um curto período de tempo, chegando pela manhã e entregando o projeto algumas horas depois. Esse é um tipo de formação que lhe permite trabalhar de uma maneira bastante flexível, focando em algo mais profundo, mas também aprendendo como produzir rapidamente e, além disso, aprendendo a entender as conexões e como cada decisão está relacionada com as outras. Projetar é tomar decisões e a coisa mais importante é ter um método de como estruturar a sua decisão. Nessa época eu projetava manualmente. Quando eu me formei eu ainda usava AutoCAD 11 ou 12, mas não para geometrias muito complexas, para gerar um modelo simples que eu poderia imprimir em perspectiva e usar como base para traçar um desenho a mão. Eu me formei em 1995. Quando me mudei para Columbia eu decidi não fazer nada a mão novamente. Eu fiz duas disciplinas de projeto paperless (1)com Jesse Reiser, e então foi quando eu tive essa ideia de usar o computador, não para fazer algo mais rápido mas como algo para pensar sobre a arquitetura de certo modo. A coisa pela qual eu estava mais interessado era a percepção do espaço, para desenvolver algo que era muito mais complexo do eu jamais havia imaginado de outros modos.
GC: Você aprendeu a programar nessa época?
TW: Quando criança meu primeiro computador foi um Commodore 64 e eu comecei programando nele, escrevendo códigos simples em Assembler, então eu entendi como era programar. Mas o trabalho que eu fiz na Columbia foi mais sobre usar Maya e Alias, e animações e modelos baseados no tempo, e não muito programar. Isso era 96/97. Aí eu mudei para o UNStudio, onde eu trabalhei por 10 anos. Eu comecei trabalhando em um grande projeto do terminal intermodal em Arnhem. Um projeto que nós só vamos terminar a construção este ano, depois de 17, 18 anos, é realmente um longo processo. Esse foi um projeto que eu comecei [a mão] no UNStudio e depois modelei com Maya e Alias Wavefront. É tudo free form, tudo Nurbs, é um projeto bastante fluído. Nós logo percebemos que seria muito complicado passar para outro software, então nós definimos como fazer a tradução [destes programas] para AutoCAD, pois todos no escritório usavam Auto CAD para produzir os desenhos. Foi por DXF, que consome muito tempo. Então no concurso para o museu Mercedes ficou claro que nós precisávamos de algo com o qual nós pudéssemos fazer a comunicação interna mais rapidamente. O museu Mercedes foi o primeiro projeto de muitos em que eu tinha de copiar/mover/rotacionar [repetidas vezes a mesma coisa], então tinha que procurar um sistema que tinha um módulo central, que não parecesse ser modular, mas que tivesse uma lógica subjacente clara que organizasse as diferentes partes. Quando nós vencemos o concurso percebemos que essa lógica precisava ser programada. Se você tem uma lógica é fácil de programar e testar um monte de maneiras diferentes de fazer. Por isso nós entramos em contato com Arnold Walz (2), que começou a fazer essa programação. Eu expliquei a ele como o projeto tinha sido desenvolvido. É primariamente sobre a hierarquia de decisões, o que é algo que influencia muito a sua programação. Se você mudar a sua hierarquia de decisões tudo será diferente.
GC: E sobre fabricação digital? Quando você começou a trabalhar com isto e o que isto influencia no seu projeto?
TW: Também começou com o museu Mercedes. Nós começamos a perceber que se você tem uma estrutura não repetitiva ou não padronizada, então as pessoas veem como um grande problema e que isso aumentaria o custo enormemente. Então uma coisa a se explicar [ao cliente] é que não é uma forma totalmente livre como o projeto de Arnhem era no começo, mas que há uma lógica por trás, e que essa lógica tem a ver com a possibilidade de montagem ou construção de partes. Se você tem uma superfície torcida é bom sabe quais são as propriedades do material, quanto é possível curvar aquele material. Ou, nos caso do concreto, você tem que fazer as formas, e isso começou com o museu Mercedes quando nós fomos pesquisar em como criar formas para superfícies de dupla curvatura para elementos torcidos. Uma maneira de fazer seria com aço, o qual você pode usar diversas vezes, mas no final foi com um elemento de madeira e por que nós queríamos uma superfície bastante lisa usamos compensado de madeira; camadas bem finas de compensado, e nós testamos o quanto você pode torcer, aí nós tivemos que refazer as superfícies, para ser possível moldar com essa curvatura. O interessante sobre a fabricação digital é que você tem um retorno [rápido], porque o projeto está ficando cada vez mais rápido. Você usa os parâmetros que vêm de um protótipo 1:1, e você pode readaptá-los no seu projeto. Então não é mais um processo linear, no qual você apenas tem uma ideia e uma forma e você acha alguém que faz essa forma ser fabricável. Agora você pode ver como é possível fazer aquela forma, e talvez se você mudar essa forma um pouco você a possa fabricar mais facilmente, e então talvez você consiga controlar o orçamento.
Gabriela Celani: Você poderia falar sobre sua atividade de ensino na Academia de Artes em Stuttgart? O que vocês estão ensinando lá?
Tobias Wallisser: A Academia de Artes é um lugar muito especial. Geralmente na Alemanha você tem grandes universidades técnicas e você tem as universidades tecnológicas, que formalmente são ainda mais técnicas, mas há apenas duas escolas na Alemanha onde você pode estudar arquitetura como programa de bacharelado e mestrado, e isso é um modo muito artístico de olhar para essa questão. O que nós tentamos é deixar que as pessoas encontrem sua própria abordagem para a arquitetura. Então nós não apenas ensinamos aos alunos como fazer algo; nós queremos formar alunos interessados, e aí eles se tornarão motivados em aprender como fazer. Eu ensino no programa de mestrado. É um atelier sobre diferentes tipos de espaços, muito relacionado com o uso de diagramas, tentando abstrair ou visualizar as relações e conexões subjacentes em um projeto a criar algo que você não criaria baseado na sua vivência cultural ou na sua experiência. Trata-se de permitir às pessoas desenvolverem algo sem saber exatamente o que elas querem fazer. Eu também dou uma disciplina sobre projeto digital. A ideia é mostrar às pessoas o processo completo, como desenhar uma geometria complexa, como construir protótipos usando máquinas CNC, aprendendo o que funciona bem e o que não funciona, e as limitações da máquina CNC, e quando adaptar seu modelo digital de novo, e então desenvolver um projeto final. Então, o que nós estamos tentando fazer é mostrar aos alunos que há elementos interessantes em cada parte do processo, desde que você trabalhe em um ciclo. O processo não é linear; é um processo recursivo. Não importa mais se você começa de cima para baixo ou de baixo para cima. Quando você se move por todo o ciclo você tem que combinar ambas as abordagens. Você precisa ter uma ideia, mas então a ideia precisa se materializar em detalhes e cada detalhe precisa ser manufaturado. Vendo a manufatura, você tem algumas ideias sobre o partido, se era o conceito correto ou se você precisa adaptar a geometria ou mesmo o partido. É muito sobre ensinar um método. "Como trabalhar", ao invés de "o que fazer".
GC: Você traz muitas experiências do seu escritório em Berlim para os ateliers de projeto que você leciona em Stuttgart?
TW: Como um arquiteto praticante você pode aplicar o conhecimento que você desenvolve no escritório; esse trabalho entre análise e síntese você pode realmente aplicar nos cursos e nossa prática também é beneficiada por essa abordagem mais teórica que fazemos no atelier de projeto. Por exemplo, nós sempre olhamos para as possibilidades de manufatura no uso de certas máquinas. Por exemplo, é espantoso ver como as pessoas usando impressoras 3D acham que você não precisa se preocupar com a geometria, você apenas aperta um botão e você consegue construir qualquer geometria 3D. Mas isso é parcialmente verdade. Há limitações na fabricação de modelos impressos em 3D. O que eu acho que poderia ser mais interessante informar é que o modelo será construído em camadas, então nós usamos esse processo como algo que se torna como a sua impressão digital. O processo de manufatura é visível no produto final, como característica ou como qualidade do produtor final, em vez de tentar imprimir algo que pareça totalmente liso como uma superfície. Nós estamos olhando para a capacidade da impressão 3D de ser usada também como qualidade estética. Nós chamamos [esses exercícios] de 3D digitais. Você pode manufaturar a mesma geometria, mas se você imprimir em um ângulo diferente as coisas podem sair um pouco diferentes, e em vez de ser algo que simplesmente aconteceu você na realidade projetou dessa maneira. É uma decisão que você toma. Você deve estar ciente disto e ser capaz de levar isso em consideração quando projeta um objeto. Se você precisar dividir um objeto em partes menores você tem que pensar sobre as junções e então transformá-las em uma qualidade do objeto em vez de somente algo necessário.
GC: Qual sua opinião sobre a educação dos arquitetos na Alemanha? Quais novas tecnologias estão efetivamente sendo incorporadas no treinamento profissional?
TW: Claro, é importante que você aprenda a usar uma variedade de ferramentas, como inserir a informação no computador e como retirar a informação dele. Mas as pessoas acabam aprendendo de alguma maneira. No meu ponto de vista o que é mais problemático na educação é que nós ainda estamos ensinando as pessoas com uma visão do século 19 sobre o arquiteto criativo. O cara que tem uma ideia, e criação é algo pessoal, você faz o projeto e você tem outras pessoas que ajudam a executar. Isso é uma ideia muito antiquada do trabalho do arquiteto. Hoje [a profissão está muito mais ligada ao] processo colaborativo, onde cada um contribui com diferentes habilidades e conhecimentos. Na prática é muito mais sobre a colaboração entre arquitetos e engenheiros. Você precisa aprender uma linguagem para se comunicar com um engenheiro. Essa linguagem é a programação, e isso é fantástico, mas não funciona para todo mundo. Mas geralmente uma pessoa sabe programação e outra sabe sobre algo diferente e eles precisam se comunicar sobre o projeto. Então eu penso que a coisa mais importante é ensinar a comunicação dentro de uma equipe de arquitetos ou arquitetos e engenheiros. Comunicação é a parte mais valiosa e isso é algo para o qual não estamos dando a atenção necessária. Nós ensinamos habilidades e destrezas, mas nós também precisamos aprender como ensinar a tomar decisões. Nós também precisamos ensinar cultura, cultura arquitetônica. Não apenas história da arquitetura, mas a história da manufatura, a história do projeto, entendendo que tecnologia é importante, é o que torna possível fazer algo diferente. Mas eu gostaria de citar Cedric Price: “se a tecnologia é a resposta, então qual é a pergunta?”. No fim nós sempre perguntamos a nós mesmos por que estamos fazendo isso, porque é algo para as pessoas. Nós não deveríamos projetar um edifício porque nós podemos apertar um botão em uma fantástica ferramenta nova a qual permite a você desenhar um edifício que se pareça como isto ou aquilo. Isto é bom para o ambiente acadêmico, é um ponto inicial, mas não deveria ser seu objetivo na vida construir essa coisa maluca duplamente retorcida, apenas para deixar uma marca como o cara que fez a forma da última moda. Mas podemos juntar essas habilidades para fazer algo que tenha sentido? Isso é algo em que eu sempre penso, mas nós nunca temos tempo suficiente para chegar a esse ponto. Nós estamos ocupados tentando ensinar o básico e nós nunca falamos sobre o que você faz quando você adquire os conhecimentos básicos.
GC: Você está fazendo pesquisas na Escola de Artes?
TW: Nós somos uma pequena escola com um orçamento limitado, então nós não podemos montar um grande espaço de fabricação. Nós temos máquinas pequenas e nós pesquisamos no básico. Um exemplo é [aquele que eu descrevi anteriormente sobre a impressora 3D]. Outra coisa que nós fizemos com uma simples CNC de três eixos, foi alterar o código do caminho de fresagem da máquina para que você não precise um monte de polígonos para ter uma superfície bastante complexa. Nós projetamos uma superfície simples e então nós alteramos o código para em vez de ter a máquina fresando suavemente, ela avança [rapidamente] sobre o material, e o resultado é baseado puramente no processo [de fabricação] e não na geometria. O que nós projetamos é na realidade o movimento da fresa e seu rastro se materializa no objeto. Então nós olhamos para isto, como um arquiteto, onde você pode interferir no processo de manufatura. É o oposto de dizer que primeiramente nós produzimos uma geometria complexa e que então nós achamos uma máquina melhor para produzir aquela complexidade. É mais sobre como usar uma simples máquina, mas aumentado a complexidade do resultado ao utilizá-la de modo diferente. É como “hackear”. Quando eu trabalhei no meu Commodore 64 a memória do computador era tão pequena que eu constantemente tinha que ser criativo sobre como armazenar dados. Nós olhávamos mais para o processo e em como reutilizar as coisas e como minimizar o trabalho. Eu acredito que isso é apropriado para uma escola onde nós não temos recursos para comprar o equipamento mais moderno. Mas nós também colaboramos com outras pessoas. Nós temos um workshop de robótica com a TU Graz, no qual nós cortamos isopor, procurando usar o robô para minimizar o desperdício.
Entrada do centro de indústrias criativas on o LAVA Berlin está instalado
Gabriela Celani: Você poderia falar sobre sua experiência no UNStudio e como isso contribuiu para o seu trabalho visionário em arquitetura no LAVA, e o uso de novas tecnologias na arquitetura?
Tobias Wallisser: Quando eu me formei na Columbia eu queria combinar duas coisas. Uma era a experiencia que eu adquiri no projeto paperless com as ferramentas digitais e também o trabalho prático que eu adquiri quando eu trabalhei como estagiário por dois anos depois de me formar na Alemanha. O UNStudio era o lugar em que eu podia combinar ambos. Havia muitos trabalhos acontecendo na Holanda naquela época, no final dos anos 90 e começo dos anos 2000. Quando eu comecei era uma época fantástica, quando o UNStudio se tornou um escritório renomado internacionalmente, com mais estrangeiros formados na AA ou na Columbia. Nós trabalhávamos em concursos internacionais e nós fomos introduzindo ferramentas digitais. E era uma época maravilhosa quando nós podíamos desenvolver ideias livremente, os grandes detalhes, suavidade, a organização do espaço e organização da matéria no espaço. Nós combinamos a abordagem acadêmica com o conhecimento e a possibilidade e o otimismo de implementar ideias do computador para o canteiro de obras.
GC: A experiência no UNStudio ainda influencia a maneira como você ensina?
TW: Sim, claro, no trabalho com diagramas e na abstração. Descontextualizar e então recontextualizar certas informações. Tentando trabalhar com as principais conexões entre as duas coisas, o que Ben e Caroline chamam de forças invisíveis, que tem influenciado meu método de ensino. E com as ferramentas digitais [de análise] você pode tentar visualizar as forças invisíveis, mesmo se isso apenas lhe dá uma ideia de como algo pode ser feito em vez de ser apenas um pensamento. Algumas ideias vão além da sua imaginação. Nós podemos produzir diagramas para instigar a sua imaginação, ver outros caminhos no qual certas coisas podem ser descritas. Então nós chegamos a um problema que é solucionável em termos tecnológicos.
GC: A respeito do trabalho que vocês fazem aqui no LAVA em Berlim. Por que o estúdio está dividido em três escritórios separados (Stuttgart, Berlim e Sydney)?
TW: O escritório começou em Stuttgart, pois Alexander estava morando lá e eu morava em Amsterdam. Mas por questões familiares eu mudei para Berlim. Há muito trabalho em Berlim e há a liberdade de se fazer certas coisas. E meu exprego como professor em Stuttgart era inicialmente apenas por 6 anos. Berlim é como um eixo internacional, no qual existem muitas empresas novas e muitas pessoas criativas. A ideia era ter um escritório em Stuttgart, que é o Silicon Valley alemão, onde você tem muitas empresas de alta tecnologia e empresas pequenas de manufatura produzindo máquinas inteligentes e trabalhando com essas ferramentas, combinando isso com Berlim, que tem uma cultura internacional. E como eu ensino em Stuttgart eu posso estar em ambos os escritórios toda semana. Com o escritório em Sydney nós precisamos usar comunicação digital.
GC: Você desenvolve projeto junto com os outros escritórios?
TW: No começo nós tínhamos os grandes projetos em Abu Dhabi no qual nós trabalhamos juntos. Pequenos projetos nós fazemos localmente, mas os grandes fazemos juntos. Nós precisamos ter um certo tamanho para cada escritório se sustentar. Algumas vezes um projeto menor é melhor, pois você conhece melhor todas as pessoas no escritório e tem envolvimento mais direto no que está acontecendo. No momento nós temos quatro projetos em Berlim, mas nós também estamos fazendo projetos internacionais aqui. Por exemplo, nós participamos em alguns projetos na China com o escritório de Sydney como um consórcio internacional. Nós ainda estamos testando diferentes abordagens. A ideia é fazer os projetos grandes juntos tirando vantagem das diferentes capacidades e experiências que Chris, Alexander e eu temos. Nós estamos frequentemente envolvidos em discussões sobre esses grandes projetos. Nos reunimos por Skype todas as sextas-feiras, e montamos algumas páginas de cada projeto no servidor, assim cada um sabe o que precisa ser feito para cada projeto e nós discutimos cada um deles.
Masdar Plaza
Gabriela Celani: Muitos autores têm falado sobre complexidade e o retorno do ornamento como algo relacionado com tecnologias generativas e fabricação. Você está incorporando esse novo tipo de ornamento na sua arquitetura?
Tobias Wallisser: Se você escrever a história da Arquitetura do ponto de vista das ferramentas você pode dizer que ferramentas digitais lhe permitem integrar o ornamento na arquitetura. Depois do modernismo, quando tudo era baseado em regras simples, e essas regras eram por um lado genéricas e por outro universais, para muitas pessoas parece que as coisas eram ordenadas, estruturadas, fáceis de entender. Se você olhar para a natureza ela pode parecer um sistema completamente caótico, mas a beleza disto é que com ferramentas digitais nós podemos compreendê-lo. Por exemplo, para programar o projeto Barcelona Pavillion (projeto de Mies Van der Rohe) seriam necessárias muito mais etapas do que para programar uma árvore. A geometria de uma árvore como resultado pode parecer muito mais complexa, mas as regras que eu preciso para descrevê-la são muito menos complexas. E isso muda a maneira como você olha para a arquitetura. Complexidade geométrica não é necessariamente algo que precisa ser complicado para ser alcançado. A maneira como você trabalha pode ser bastante estruturada e muito simples, mas o resultado pode ser muito complexo. E então você não precisa separar entre um edifício de volumetria simples e um ornamento complexo que será aplicado em suas superfícies. Você não precisa mais separar a superfície e o volume, agora com as novas ferramentas nós podemos criar superfícies e volumes com uma aparência complexa. Eu acho que a coisa mais interessante é que muitas das teorias modernistas são baseadas em ideias da Renascença nas quais você tem a separação entre o cara que teve a ideia, o arquiteto, o construtor, o cara que executa. É por isso que você tem a separação entre o esqueleto e a pele, e entre a pele funcional e algo que dá ao edifício uma certa aparência, e aí você chama isso de ornamento, mas eu acho que agora você não precisa mais diferenciar essas coisas. Nem tudo tem que ser branco ou preto; com arquitetura digital tudo pode ser um tom de cinza de modo que você sempre pode mudar os parâmetros e criar um meio termo. Isto significa que você não precisa ter uma ideologia de que preto é melhor que branco ou branco é melhor que preto. Eu não acho que tudo que é paramétrico precisa ser curvo. Nós também trabalhamos parametricamente para criar caixas. Nós podemos superar a dialética entre formas livres (blob) e formas retas (caixa) e nos concentrar em como as coisas são feitas e no que nós queremos fazer. Se tudo é possível, o que nós queremos fazer? Nós podemos fazer escolhas, mas nós precisamos ter argumentos para essas escolhas, caso contrário nós voltaremos para a otimização racional; eu não estou interessado nisto. Nós devemos procurar a melhor solução possível considerando parâmetros e olhando para o que acontece se um ou outro parâmetro se torna predominante. Se você der diferentes valores para diferentes parâmetros você pode sempre ver alguma solução potencial, e isso é a coisa mais interessante. A escolha não precisa mais ser baseada em opções pessoais ou preconceitos ou em uma ideologia.
Masdar Plaza
GC: Alguns autores também escreveram sobre o novo detalhe arquitetônico, tendo em vista as máquinas de controle numérico. Como vocês incorporam isto na prática? Você estão fazendo por exemplo, um detalhamento programado computacionalmente, se as formas mudam pelo edifício, de maneira que não precisam desenhar manualmente cada detalhe?
TW: Nós estamos sempre interessados em usar as máquinas para aquilo no que as máquinas são boas. Máquinas são boas em repetição. E a coisa interessante é que a repetição para uma máquina não significa que você irá produzir o mesmo resultado, que você tem produção em massa. Você tem o mesmo processo, mas você termina com objetos diferentes. É claro que nós usamos isso para o desenho. Nós jamais desenhamos nada manualmente se algo está sendo alterado. Você monta uma regra e depois você monta sua estrutura para desenvolver um conjunto de desenhos. Na Alemanha a maneira como nós projetamos é primeiramente desenvolvendo nossos detalhes. Aí você entrega aos construtores e eles desenvolvem seus próprios detalhes. Seus desenhos jamais vão diretamente para a obra. Nós desenvolvemos princípios para explicar para alguém como algo pode ser potencialmente fabricado. Um detalhe não é algo fixo, é mais parecido com uma fotografia instantânea. Você sabe quais são os extremos e todo o resto fica entre eles. Por exemplo, em um telhado onde a inclinação muda gradualmente, a calha precisa corresponder a isso.
Empresa Sipchem, fachada de isopor
GC: Quais são as oportunidade para produzir arquitetura visionária, que é o objetivo do escritório LAVA?
TW: Quando nós começamos com o LAVA, nós tínhamos um projeto muito louco. Era um resort de ski em Abu Dhabi, em um clima desértico. Isto é um desafio tecnológico, mas também um desafio geométrico. Era um edifício de 2.5km de comprimento anexado a uma montanha com uma rampa de 500m. Sem um projeto paramétrico não havia realmente como lidar com isto. Parece uma ideia maluca, mas ao mesmo tempo se você olhar para a história da arquitetura, nós tínhamos palmeiras em estufas em Londres há 150 anos; se pessoas em climas frios querem ter um clima quente por que as pessoas de climas quentes não podem querer um clima frio? Mas a ideia era usar energia solar para criar o resfriamento. Foi nosso ponto de partida. Depois nós vencemos o concurso de Masdar, para uma praça no centro de Masdar. Nós tivemos a ideia de criar uma área externa confortável no clima do deserto, para as pessoas se reunirem e ter festas de aniversário de crianças em um espaço público em vez de dentro de um shopping. Isso somente é possível com o uso de tecnologias, mas nós deveríamos fazer isto considerando a sustentabilidade. Nós fomos pagos para desenvolver ideias. Desenvolver visões é algo fantástico, mas você também precisa de alguém que financie isso. Às vezes nós fazemos pequenos projetos para desenvolver algumas ideias ou pesquisas. Nós construímos um edifício que tem uma fachada com um metro de espessura de isopor, com um sistema não repetitivo criado com uma máquina CNC. A razão é que o cliente produz isopor, então a fachada do edifício se torna uma aplicação para o material. Esse é o projeto Sipchem na Arábia Saudita. O que nós mais gostamos de pesquisar é como nós gostaríamos de morar. Na Arábia Saudita nós temos um projeto sobre como transformar a tipologia da casa de pátio em uma torre de escritórios de 20 andares, para criar possibilidades de comunicação entre diferentes andares. Em termos de geometria é praticamente um prédio em formato de caixa, mas em termos de comunicação entre escritórios é uma torre visionária, que combina não apenas uma abordagem sustentável, mas também a ideia de misturar a tecnologia e as tradições culturais da organização. O edifício é específico para o local e para a cultura, mas usa a tecnologia para o desempenho.
GC: Estou impressionada com o fato de vocês serem fiéis ao nome do escritório, Laboratory for Visionary Architecture. Parece que vocês sempre fizeram pesquisa, como em um laboratório de verdade, e tentam demonstrar teorias a partir dos projetos que vocês desenvolvem.
TW: É ótimo que você consiga enxergar isso em nosso trabalho, pois para nós é a coisa mais importante. Nós, enquanto arquitetos, estamos sempre pensando sobre de que maneira podemos contribuir para o mundo em que vivemos, pois nós temos o privilégio de poder mudar o espaço. Nós não somos capazes de resolver os problemas da sociedade, mas nós podemos visualizar um futuro em potencial. E um laboratório não é algo caótico. Ninguém em um laboratório conduz um experimento sem ter um objetivo, sem ter uma estrutura para alcançar resultados. A coisa mais importante em um laboratório é o método. Se você explicar para um cliente que você é um laboratório eles vão pensar que é experimental, e coisas experimentais são um risco, pois você nunca sabe se o experimento vai falhar ou não. As pessoas não gostam da sensação de que são um rato de laboratório. Então nós tentamos explicar que um laboratório é mais relacionado com a metodologia, e relacionado com primeiramente entender o que é realmente necessário, quais são os fatos, como eles podem ser combinados.
GC: Obrigada pela entrevista, Tobias.
Jebel Hafeet Glacier Hotel Ski Resort
Tobias Wallisser mostra um caderno de projeto desenvolvido para um arranha-céu na China
Gabriela Celani
Arquiteta e urbanista (1989) e mestre (2007) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), e doutora (2002) em Architecture: Design & Computation pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É atualmente Professora Associada da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Campinas (Unicamp), Brasil. É fundadora do LAPAC, Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção da Unicamp. Seu trabalho se concentra no design generativo, prototipagem rápida, fabricação digital, digitlização 3D e automação do processo de projeto arquitetônico. É vice-presidente de relações institucionais da SIGRADI, a Sociedade Ibero-americana de Gráfica Digital, e pertence aos comitês científicos de várias conferências de CAAD, como ECAADE, CAADRIA e DCC, e de periódicos como IJAC, Automation in Construction, AIEDAM e Design Studies.
Entrevista
Esta entrevista foi realizada presencialmente em Berlin, em 31 de agosto de 2015. Gabriela Celani viajou à Alemanha por meio do programa Connect, patrocinado pela Fundação Alexander Von Humboldt. A tradução para o português foi feita por Maycon Sedrez.