português Bernardo Secchi, professor de Urbanismo da escola de arquitetura de Veneza, importante urbanista italiano e autor de diversos livros sobre o assunto, fala de sua atuação teórica e prática
english Bernardo Secchi, Professor of Urban Planning School of Architecture of Venice, a major Italian urban planner and author of several books on the subject, speaks of his performance in theory and practice
español Bernardo Secchi, profesor de urbanismo de la escuela de arquitectura de Venecia, importante urbanista italiano y autor de diversos libros sobre el asunto, habla de su actuación teórica y práctica
Plano Diretor da cidade de Prato, Itália. Coordenação de Bernardo Sacchi [fonte: Université de Lausanne]
Entrevista com Bernardo Secchi Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante
Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante: Alguns teóricos afirmam que é possível falar de uma verdadeira e nova tendência do urbanismo italiano nos anos oitenta, definida por Giuseppe Campos Venuti dos "planos da terceira geração". O senhor pode brevemente delinear quais são as conotações desta "terceira geração"?
Bernardo Secchi: Talvez seja preciso fazer algumas distinções e algumas premissas. A frase "planos da terceira geração" foi proposta por Campos e que com estes termos, pretendia dizer que muitas cidades italianas preparavam-se para estudar e redigir pela terceira vez depois do conflito mundial o plano urbanístico. Se o centro temático do primeiro plano (isto é do plano da primeira geração) era a reconstrução e o do segundo a grande expansão da cidade devido aos movimentos migratórios que tinham invadido o país, o centro temático do terceiro plano e, portanto, da terceira geração era o da qualidade do espaço habitável e do espaço urbano. Em um certo sentido construía-se neste modo uma "narrativa" de progressiva conquista do welfare individual e coletivo no qual, mais uma vez, o urbanista se revestia do papel do herói.
A mim, o termo geração não agradou muito, mesmo porque constrói uma idéia linear da história. Mas estas são talvez distinções pouco importantes. O que distingue a minha posição daquela de Campos é que nos planos que construí a partir dos anos 80 (mas podem-se seguir o rastro das raízes também nos meus planos precedentes) o projeto urbanístico vem explicitamente entendido como projeto de "arquitetura da cidade". A citação de Tafuri em seu livro demonstra que ele havia compreendido o sentido de meu movimento. Por outro lado foi nas longas discussões com Tafuri, nos estudos sobre renovatio urbis venætiarum que ele conduziu no início dos anos 80 em conjunto com Foscari, que amadureceu para mim, de um lado, a recusa de um urbanismo que conceitualize a cidade como "zonas homogêneas" e, do outro, a proposta de um urbanismo que confie muito mais a uma complexa estratégia de renovatio urbis, de projetos pontuais que dê sentido e papel novo em partes inteiras da cidade, do que a uma inteira estrutura urbana. Um movimento que alcança a completa maturidade com o plano de Jesi (1987) e de Siena (1990) e com os sucessivos planos que construí junto com Paola Viganò (Ascoli Piceno, Prato, Pesaro e Brescia).
Mostra New Territories, organização de Paola Viganò [fonte: revista Architettura]
Il Racconto Urbanistico, Bernardo Sacchi [fonte: Torno, Einaudi, 1984]
Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante: No capítulo "transformações estruturais e novas experiências de plano" Tafuri insere o seu livro "Il Racconto Urbanistico" (1984) como sinal de uma maturidade dos anos 80 na Itália e insiste que o mesmo assumiu uma importância histórica que deve ser ressaltada. Cito: "O texto de Secchi é tudo menos moralista; pelo contrário, a sua narração é fria e analítica. Ele reconhece todavia que o êxito da planificação urbanística - nunca chamada a justificar-se a si própria com os próprios resultados - incidiu sobre a <estruturação do sistema político, principalmente no nível local, e assim serviu para fornecer identidade a atores e agente sociais>. Não oferece soluções, e nisto está um dos seus valores. Ele constitui antes a expressão de exigências ouvidas por mais partes: <tomar tempo>, deslocar sobre novos eixos a reflexão, redesenhar o mapa dos problemas, aceitar as novas hipóteses experimentalmente, julgando-as pelo seu nível de realismo, além disso, e não pelas narrações que eles fazem de si mesmos. E é com tal espírito que é necessário considerar duas experiências de <nova planificação urbanística>, concretizadas nos projetos preliminares por Florença e Bologna". Segundo o Senhor quais foram os resultados produzidos e os novos eixos de pesquisa desencadeados a partir desta nova forma de planificação do território, que exatamente com seu livro foram dados os primeiros passos?
Bernardo Secchi: O que propus com os planos que citei foi inicialmente muito criticado na Itália e como costumeiramente ocorre, por muitos colegas que procuraram em seguida imitá-lo sem tê-lo talvez realmente compreendido. Em um certo sentido posso talvez dizer que o urbanismo italiano e europeu mudou também na seqüência destes trabalhos que, contudo, colhiam algo que há tempos estava no ar. Satisfação e pessimismo se mesclam na minha reflexão sobre a história recente do urbanismo europeu e italiano em particular.
A mim parece não ter sido compreendido a característica de fundo das minhas propostas, o "tomar tempo", o deslocar sobre novos eixos a reflexão, o redesenhar o mapa dos problemas aceitando as novas hipóteses experimentalmente, julgando-as pelo seu nível de realismo e não pelas narrações que eles fazem de si mesmas. Muito freqüentemente as minhas propostas foram banalizadas e vulgarizadas assumindo-as como um modo diverso de indicar funções e limites de edificabilidade ou de indicar oportunidades profissionais para outros arquitetos.
Ou foram interpretadas, sobretudo na Itália, como um manifesto da "morte do plano", enquanto seguiam a direção contrária, isto é, na direção de afirmar a necessidade de uma reflexão que, atravessando as escalas, se fizesse ao mesmo tempo o geral e, comprehensive e especificamente, o local. Sempre pensei que subdividir o urbanismo da arquitetura confiando a cada uma algumas escalas de intervenção, fosse profundamente errado. O que me fascina é a contínua passagem de uma escala à outra nas duas direções; raciocinar sobre desenho de um pequeno degrau em um espaço público e sobre a ordem de posse de um território inteiro; manter unidas estas coisas como estão unidas na nossa experiência cotidiana.
Prima Lezione di Urbanistica, Bernardo Sacchi [fonte: Bari, Laterza, 2000]
Cartaz da mostra Territori della nuova modernità, curadoria de Paola Viganò
Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante: O senhor enfatiza em uma recente entrevista que a partir dos anos 80, o urbanismo italiano teve novamente contato com o mundo real, o que se move com as práticas sociais e com os modos nos quais elas se desenvolvem, descobrindo novos indivíduos e sua insuspeitada articulação. Podemos adiantar algumas hipóteses em termos de construção de uma política para a cidade e o território?
Bernardo Secchi: Um dos movimentos de pesquisa que, a partir dos primeiros anos 80 eu propus, foi a de voltar a caminhar nos territórios que estávamos projetando, fazendo levantamentos e escutando as pessoas que ali habitavam ou freqüentavam. A partir daqueles anos e através destas movimentações, o urbanismo italiano e europeu retomou contato, como dizia Husserl, com as "coisas mesmas", abandonando a fácil retórica de decênios precedentes. Despida de uma ideologia de baixo nível, o urbanismo tornou-se novamente prática do projeto antes que "missão" ou "militância".
O Laboratório Prato Prg, no início dos anos 90, foi uma grande experiência neste sentido: de nosso envolvimento na vida e na consistência material da cidade e de envolvimento da cidade na construção de uma nova imagem para o seu futuro. Bem distantes das formas de organização da "participação" popular mais em voga, construímos em Prato um lugar de discussão e de trabalho. Conferências, exposições, seminários e workshops, excursões e visitas, campanhas fotográficas... sempre convidando os cidadãos ou as partes que o desejassem a unir-se a nós, envolvendo artistas, músicos, escritores, e naturalmente arquitetos prateses ou não.
Pessoalmente tinha muitas respostas a dar a Manfredo Tafuri; o projeto preliminar do plano de Prato foi apresentado ao público no dia da morte de Manfredo e a ele, com grande emoção para mim, foi dedicado. Sobretudo com ele eu gostaria de tê-lo discutido. Pessoalmente tinha muitas respostas a dar a Manfredo Tafuri; Prato foi a revelação da diferença: entre as pessoas, as situações, os artefatos, suas histórias. Mas foi também a revelação do fato que, como dizia A. Miller, quando julgamos caótica uma situação é porque não entendemos as regras da ordem. Prato foi a descoberta e a proposição de novas possíveis regras, diferentes daquelas dominantes na "cidade moderna": regras de aproximação e de definição de uma "justa distância". Depois de Prato a aproximação “paratattica” e o fragmentar-se do espaço urbano, pelo menos para nós, não são mais considerados demônios: fazem parte de nossa cultura e de nossa sociedade; podem tornar-se importantes ocasiões projetuais - só que se reflita a fundo sobre a "justa distância" entre as coisas, as atividades e as pessoas; só que se reflita, com as palavras de Roland Barthes, no comment vivre ensemble.
Tre piani, Bernardo Sacchi [fonte: Milão, Franco Angeli, 1994]
Plano Diretor da cidade de Prato, Itália. Coordenação de Bernardo Sacchi [fonte: Université de Lausanne]
Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante: No laboratório Prato PRG (1996), territórios da nova modernidade - província de Lecce (2001) e em alguns outros trabalhos de planificação urbana e territorial onde o Senhor é consultor científico é evidenciado que imaginar e pensar a cidade e o território como compostos de diferentes "sistemas" leva também a um conceito de integração, que em larga medida nasce exatamente da crítica ao zoneamento como tradicionalmente entendido. "Pensar a cidade por sistemas quer dizer imaginar cada parte como habitada por funções diferentes, conforme composições mutáveis no tempo; imaginar assim a transformabilidade". Em seus planos o Senhor propõe portanto que sejam reconhecidas as características ambientais específicas das diferentes partes do território, que seja restabelecida a continuidade do sistema ambiental, que os espaços internos da cidade e os externos, sejam coligados entre si e que isto aconteça principalmente construindo uma série de elementos de conexão? Esta aproximação constitui uma nova forma de conceber o projeto da cidade contemporânea?
Bernardo Secchi: Cada um de nós está imerso em sistemas de relações que se constroem em diferentes planos: eu me ocupo com a minha escola em Veneza, pensando e propondo aos meus alunos reflexões que concernem às cidades e territórios situados freqüentemente em outros países e pensando em meus colegas, em livros em projetos que se situam em longo espaço de tempo. A imagem do network que é constantemente proposto não é fértil, nem correto. É antes a interação entre os diferentes planos que conta como quando observo alguma coisa sobre um fundo escuro ou muito luminoso e sou induzido a poder colher dele ou não, alguns aspectos. A mesma coisa, se me perdoar a brevidade da resposta, vem com o projeto da cidade; cada movimentação nossa assume significado diferente conforme os diferentes planos espaciais e temporais nos quais vem colocar-se. Estamos acostumados a colher estes aspectos no teatro quando atores e ações são colocados entre ou sobre o fundo de diferentes véus que na hora certa se movem mudando, freqüentemente de modo radical, a cena. Uma imagem que propus no "Racconto urbanistico" e a que no meu modo de ver ilustra bem a posição do projeto urbanístico e de arquitetura dentro da cidade e do fluir de sua história. Os elementos de conexão que através de meus projetos procuro construir, entre as diferentes partes da cidade e do território, entre o interior e o exterior, entre o antigo e o recente, não devem ser pensados e reduzidos a percursos de pedestres e de veículos ou a corredores ecológicos. Estes constituem o nível mais elementar da conexão. Mais complexo é construir conexões de sentido. O que fascina no livro de Tafuri e Foscari "L’armonia e i conflitti" que, como eu disse, está na origem de minhas propostas a partir dos anos 80, é seguir os diferentes planos nos quais se instaura o debate sobre a cidade de Veneza na época do Doge Gritti: dos planos mais abstratos, aparentemente separados da ação concreta urbanística e arquitetônica, nos quais assume identidade a cultura de uma época, aos mais detalhados de definição das competências e das relações de poder. Construir o projeto de uma cidade quer dizer procurar movimentar todos estes níveis de reflexão. Para isto é preciso voltar em primeiro lugar a propor com generosidade imagens compreensivas da cidade e do território, de suas identidades e de suas possibilidades; é preciso trabalhar enfim, com extremo cuidado sobre os dispositivos espaciais através dos quais as conexões entre os diferentes planos, entre os diferentes véus, assumem consistência material, tornam-se assim arquitetura da cidade e é preciso submeter-se continuamente à verificação e à falsificação.
Plano Diretor da cidade de Prato, Itália. Coordenação de Bernardo Sacchi [fonte: Université de Lausanne]
Un progetto per l'urbanistica, Bernardo Secchi [fonte: Torino, Einaudi, 1989]
Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante: No "Diary of a planner" (2002) o Senhor enfatizou, citando Pierre Bourdieu, que a construção do projeto e das políticas da cidade tornou-se em anos recentes um campo aberto, onde diferentes indivíduos com diferentes competências e experiências, com diferentes histórias e background culturais, interesses e poderes, ligações e relações com o resto da sociedade são legitimados a expressar as próprias interpretações e as próprias propostas. Por outro lado, hoje se fala também do declínio ou morte do urbanismo, ou mesmo do seu fim. O que o Senhor pensa destas afirmações e qual é o verdadeiro papel do urbanista nos dias de hoje?
Bernardo Secchi: Amo muito o teatro e amo muito a música; não pode surpreender portanto que freqüentemente eu me refira a imagens teatrais ou musicais.
O canteiro de obras da cidade me aparece como um local onde indivíduos com diferentes papéis, poderes e competências, que falam línguas específicas e entre eles alguns se encontram em um difícil diálogo; um local onde se formam assonâncias ou dissonâncias, ligações e pausas. Cada um neste diálogo traz a sua própria história, as próprias experiências e o próprio imaginário. A idéia modernista de poder reconstruir esta tumultuada conversa com um único critério de racionalidade é hoje impraticável, assim como seria a idéia de podê-lo reconduzir à observância de uma única autoridade real ou papal. Os planos construídos sobre esta idéia e sobre as retóricas que a sustentavam precisamente devem ser considerados planos do passado. Na ingenuidade deles desenvolveram contudo um papel importante e seria tolo e inculto não reconhecer quanto devemos á eles.
Tudo isso não decreta a morte do urbanismo, assim como a passagem do renascimento ao maneirismo, ao barroco e ao neoclássico não decretou a morte da arquitetura ou de outras formas artísticas. Os necrófilos prontos a declarar a cada dia a morte de alguma coisa, talvez tenham apenas matado a curiosidade do novo.
O que aconteceu foi simplesmente que, dentro de uma nova e mais ampla constelação de indivíduos, o urbanismo orientou sobre novos eixos a própria reflexão, redesenhou o mapa dos problemas, aceitando experimentalmente novas hipóteses.
Mas também este movimento não deve ser enfatizado mais do que o devido. O canteiro da cidade sempre foi um lugar onde se depositam objetos, técnicas, afirmações e imagens dotadas de diferente inércia e quem praticar hoje o urbanismo italiano, mas também a de diferentes países ocidentais, sabe que as ligações com os modos de fazer passados, os quais se consolidaram dentro de instituições, leis e imaginários, são muito mais fortes do que normalmente são considerados. Inovar não é destruir, fazer "tabula rasa", deve significar alguma coisa que se acrescente, modificando-a, àquilo que pré-existe.
Cemitério Hoog Kortrijk, arquitetos Bernardo Secchi e Paola Viganó [fonte: revista Archis]
Plano Diretor da cidade de Prato, Itália. Coordenação de Bernardo Sacchi. Análise morfológica das quadras [fonte: Université de Lausanne]
Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante: "O urbanismo não pode resolver problemas maiores do que o ser, mas nem por isto deve tornar-se conivente com tendências sustentadas por retóricas privadas de fundamentação e que se declara de não dividir". O Senhor assim nos convidou a refletir sobre alguns aspectos e méritos do período passado para dar-lhes uma nova interpretação dentro das novas condições. Quais são as novas condições dentro dos quais se possa assim falar de renovatio urbis?
Bernardo Secchi: A primeira importante questão é a de quem sustenta a morte do urbanismo normalmente afirma também, pelo menos implicitamente, a necessidade de confiar no "mercado". O pensamento único e as retóricas modernas do mercado propõem porém, uma imagem privada de fundamento; uma imagem que nenhum teórico liberal teria considerado própria; esquece-se em particular de dizer que nos mercados concretos e tipicamente nos mercados com os quais o urbanismo se confronta, o poder não é distribuído de modo igual e uniforme. Adequar-se ao mercado aceitando esta iníqua e falsa idéia, quer dizer fazer-se conivente com os poderes que o dominam. O urbanista não pode renunciar em refletir sobre o interesse geral e coletivo porque a cidade, em seu conjunto, é bem público no sentido de bem-estar, conforme os primeiros economistas. Ao longo de todo o século 20, arquitetos e urbanistas, em uma pesquisa paciente, tentaram dar dimensões concretas, físicas, a uma idéia do interesse geral e coletivo, freqüentemente antecipando o que foi depois afirmado por outros estudiosos.
As sociedades ocidentais contemporâneas têm muitas vezes a tendência de esquecer o quanto as formas concretas do atual bem-estar devem a elas.
Uma política de 'renovatio urbis' não nega este passado, mas o reelabora procurando reescrever o sentido dos lugares que, na prática banalizante da modernidade, havia se perdido. Uma política de "renovatio urbis" redesenha a geografia funcional e simbólica da cidade e do território levando-a a ficar mais próxima do mapa mental da sociedade contemporânea, não ao mapa de valores monetários pretendido por diversos grupos de poder. Uma política de "rennovatio urbis" desloca diversamente do passado os valores posicionais e assim opõe resistência ao mercado, não o segue totalmente. Acrescenta ao palimpsesto urbano um novo "layer" que lhe permite uma nova interpretação.
Plano Diretor da cidade de Prato, Itália. Coordenação de Bernardo Sacchi. Análise morfológica das quadras [fonte: Université de Lausanne]
Vista aérea da cidade industrial de Prato [fonte: Université de Lausanne]
Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante: O Senhor, usando as palavras de André Corboz, fala da cidade como palimpsesto e afirma que "neste imenso arquivo de sinais possamos colher um vasto conjunto de intenções, de projetos e ações concretas de pessoas simples, de grupos restritos ou de inteiras sociedades.." Por outro lado temos conhecimento da importância dos trabalhos pacientes que se desenvolveram em Veneza, em termos de novas relações entre a arquitetura, a cidade e a história: a obra de Saverio Muratori e a sua "história operante", Aymonino, Aldo Rossi. Com a mostra New Territories o Senhor nos mostra um outro instrumento de amostragem: a pesquisa feita por indícios, através de "carotaggi" no território. O Senhor pode falar da relação entre pesquisa e projeto na história do urbanismo italiano?
Bernardo Secchi: Uma das características proeminentes do melhor urbanismo e arquitetura italiana, até tempos recentes, foi o seu contínuo confrontar-se com questões teóricas de grande relevância e densidade.
As pessoas que você cita, às quais deveriam unir-se outras, construíram uma indissolúvel ligação entre pesquisa e projeto. Neste sentido foram mestres, que construíram um "campo" de reflexão, ao modo de Bordieu, dentro do qual o melhor urbanismo e a melhor arquitetura italiana têm constantemente trabalhado e continuarão a trabalhar.
Os fenômenos que invadiram a sociedade e a cidade européia nos últimos decênios ampliaram enormemente este campo. A cidade hoje tornou-se termo metafórico; com ela aludimos à uma situação à qual não corresponde um único estado de coisas.
Desde que começamos, no início dos anos 80 a percorrer o território italiano e europeu fazendo levantamentos e escutando as pessoas que o habitam, começamos a colher o fazer-se sob nossos olhos de uma nova relação entre cidadãos, entre indivíduos dotados de direitos de cidadania e território; o fazer-se de uma nova ecologia, onde ao termo ecologia se deve dar o significado etimológico e antigo. Nestes novos relacionamentos exprime-se confusamente uma idéia, freqüentemente ingênua, de liberdade, de igualdade e de fraternidade, palavras que na cultura européia moderna tiveram e continuam a ter um papel absolutamente central. New Territories é uma exploração nesta nova ecologia, um conjunto de ensaios e de tentativas de conceito das diferentes situações às quais dá lugar aos problemas que ela sustenta.
Geno(v)a. Developing and rebooting a waterfront city. Giovanna Carnevali, Giacomo Delbene, Veronique Patteeuw (Eds.), NAi Publishers. Livro sobre o Plano Diretor para Gênova, dos arq. Rem Koolhaas, Manuel de Solà-Morales, Marcel Smetsand e Bernardo Secchi
Mostra New Territories, organização de Paola Viganò [fonte: revista Architettura]
Adalberto Retto Júnior e Christian Traficante: Gostaria de terminar a entrevista perguntando sobre o conteúdo da Mostra New Territories.
Bernardo Secchi:New Territories é uma mostra organizada por Paola Viganò dois anos atrás em Veneza que sucessivamente circulou em algumas sedes universitárias na Itália e na Europa enriquecendo-se à medida que as nossas pesquisas prosseguiam. Está em fase de publicação, sempre aos cuidados de Paola Viganò, um livro-catálogo que lhe explica o embasamento teórico e de pesquisa de campo.
New Territories é uma mostra feita para quem estuda, e onde se pode ir para estudar. Grande parte da mostra é confiada a instrumentos informáticos: uma dezena de equipamentos digitais projeta sobre paredes diversos materiais de pesquisa, em particular os resultados de uma pesquisa que investigou territórios europeus diversamente localizados e com dimensão de 50km X 50km.
Mapas, esquemas conceituais, fotografias, textos. Em uma dezena de computadores colocados sobre mesas, o visitante pode percorrer todos os materiais de cada pesquisa: conduzida no sul da Itália, como no Algarve, na Suíça, em FLandres, no Vêneto, em Pescara, nas ilhas Baleares, na Randstad holandesa...
Estes territórios não são somente mostrados, mas submetidos à uma série de análises que iluminam aspectos conceitualmente relevantes permitindo construir alguns cenários: estreme Europe, risk Europe, slow territories, Europe playground, future fossil. Todo cenário nos convida a refletir sobre "o que sucederia se...". Algumas das tendências que podem concretamente ser observadas nos novos territórios urbanos tornaria dominante.
Sobre as mesmas mesas as relações de pesquisa permitem ao visitante aprofundar métodos, hipóteses e resultados de pesquisa. Visitar a mostra requer que o visitante saiba "tomar tempo"; a mostra não procura o espetáculo, mesmo sendo bastante bela; procura alguém que tenha curiosidade e queira prosseguir uma pesquisa que pretende estar aberta a ulteriores contribuições. De fato a mostra tem já alimentado novos programas de pesquisa junto a diversos doutorados europeus.
Mostra New Territories, organização de Paola Viganò
Caricatura de Bernardo Secchi [fonte: Diary of a planner, Bernardo Secchi]
Bernardo Secchi
Bernardo Secchi é formado no Politécnico de Milão com o professor Giovanni Muzio, do qual foi assistente desde 1960. No mesmo período desenvolveu atividades de pesquisa, como diretor do Instituto Lombardo de Estudos Econômicos e Sociais (Ilses).
Desde 1966 é professor e livre docente de Economia do território, inicialmente junto à Faculdade de Economia de Ancona e, sucessivamente, junto ao curso de graduação em Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza.
Colaborou com o professor Giuseppe Samonà no estudo e formulação do Plano da Província de Trento e com Paolo Ceccarelli, no plano para o Valle d'Aosta.
Desde 1974 é professor titular de Urbanismo: junto à Faculdade de Arquitetura de Milão (até 1984), onde foi Diretor de 1976 a 1982 e desde 1984 junto ao Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, no curso de graduação em arquitetura. Desde 1986 ensina também junto à Ecole d'Architecture de Genebra, Universidade de Leuven, Politécnico Federal de Zurique, o Institut d'Urbanisme de Paris e a Ecole d'Architecture de Bretagne (Rennes).
Redigiu numerosos planos reguladores e planos territoriais: Jesi (1984-1987), Siena (1986-1990), Centro Histórico de Ascoli Pisceno (1989-1993), Bergamo (1994), Prato (1996), Brescia (1998), Pesaro (1998), Civitanova Marche (1999), La Spezia e o Val di Magra (1989-1993) e para a Província de Pescara (1994-1997).
Participou como consultor do plano territorial para a Província de Lecce (1999); projetou os bairros de edificações públicas compreendidos no Plano para a Construção Econômica e popular de Vicenza, foi encarregado pelo estudo da recuperação da área industrial Sécheron em Genebra (1989), e pelo plano particularizado da área IP em La Spezia.
Com Paola Viganò fundou em 1990 um Studio, vencendo em 1990 o concurso para o projeto de Hoog Kortriik (Bélgica); desenvolveu o plano da cidade de Kortriik (1991) e os projetos da Grande Place, do novo Cemitério e da Place du Théatre (1990). Venceu o concurso Ecopolis para o projeto de uma cidade nova na Ucrânia (grupo dirigido por Vittorio Gregotti, 1993).
Em colaboração, venceu o concurso "Roma cidade do Tevere" (1993); o concurso para o projeto da zona aeroportuária (Rectangle d'or) de Genebra (1996).
Ainda com Paola Viganò ganhou o concurso para o projeto dos espaços públicos de Mechelen (2000), para o projeto de Hoge Rielen (2001, Bélgica) do parque Spoomoond (Anversa, 2002) para a Ville-Port e Petit Maroc em Saint Nazaire (França, 2003) e para a zona de Courrouze (Rennes, França, 2003).
É "urbaniste conseil" (desde 1996) do Estabelecimento público Euro mediterranée para a projeção da parte central e portuária de Marselha. É consultor (desde 1996) da Autoridade portuária de Genova para o projeto do plano regulador do porto.
Faz parte do grupo fundador do Arquivo de Estudos Urbanos e Regionais; de 1982 a 1996 colabora com a revista Casabella e de 1984 a 1990 dirigiu a revista Urbanistica.
Organizou numerosos concursos de projeto entre os quais "Projeto Bicocca", Milão; "Edifícios do Mundo", Salerno e fez parte de numerosos júris para concursos de arquitetura e urbanismo (Milão, Bicocca; Anversa, Staad aan de Stroom; Bologna: Estação Central; Como: área Ticosa; Roma: Borghetto Flamínio; Genebra: Palais des Nations; Lyon: Grand prix des formation; Paris: Grand Prix d' urbanisme e de L'Art Urbaine, Nice: Nouvelle Marie).
Entre suas principais publicações:
Prima lezione di urbanistica, Laterza, Bari 2000
Tre piani, Franco Angeli, Milan, 1994
Un progetto per l'urbanistica, Einaudi, Torino 1989
Il racconto urbanistico, Einaudi, Torino 1984
Squilibri territoriali e sviluppo economico, Marsilio, Venezia 1974
Analisi economica dei problemi territoriali, Giuffrè, Milano 1965
Analisi delle strutture territoriali, Angeli, Milano 1965
Adalberto da Silva Retto Júnior
Professor de História Urbana/ Projeto Urbano no Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da FAAC – Unesp Bauru, e coordenador do grupo de pesquisa SITU.
Christian Traficante
Engenheiro Ambiental formado na Università degli Studi di Trento, pós-graduando da Unesp – Campus de Botucatu e Membro Colaborador do Grupo Situ.
Entrevista
A entrevista faz parte de uma série organizada pelo Grupo de Pesquisa em Sistemas Integrados Territoriais e Urbanos (SITU), que é responsável pela organização do Workshop “Conhecimento histórico–ambiental integrado na Planificação Territorial e Urbana”, com a participação do urbanista italiano Bernardo Secchi, e contribuições dos convidados especiais, os Professores Doutores Aziz Ab’ Saber – (IEB USP), Jürgen Richard Langenbuch (Unesp- Rio Claro), José Cláudio Gomes (Unesp/FAU USP), Sylvio Barros Sawaya (FAU USP) e Witold Zmitrowicz (POLI USP). A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em maio de 2004.
Tradução
A versão em português é de Ilda Rugai Delicato. Revisão de Adalberto Retto Júnior e Norma Constantino.