português A experiência do coletivo Natura Futura nos convida a refletir sobre a importância de gerar modelos mais próximos das necessidades dos habitantes, com base em uma pratica consciente e ambientalmente responsável.
english The experience of Natura Futura invites to reflect on the importance of generating models closer to the needs of the people, based on a conscious and environmentally responsible practice.
español La experiencia de Natura Futura nos llama a la reflexión sobre la importancia de generar modelos más cercanos a las necesidades de los habitantes, sobre la base de una práctica consciente y ambientalmente responsable.
como citar
Oscar Eduardo Preciado Velasquez.
“Coletivo Natura Futura”.
Vitruvius entrevista, ed. 21.084. 2020.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.084/7932
Coletivo Natura Futura, Equador, agosto de 2018
Natura Futura é um coletivo de arquitetura equatoriano iniciado em 2014, liderado por José Fernando Gómez, arquiteto e fundador do estúdio, com vasta experiência em trabalho participativo com comunidades vulneráveis em cidades como Babahoyo, na província de Entreríos, e Huaquillas, na província de El Oro, localizado na costa equatoriana. Em seu trabalho, consideram vital trabalhar com uma arquitetura de natureza contextual: interpretar o local como um requisito implícito de fazer as coisas, sem esquecer o contexto humano desses projetos, entender a parte emocional de seus habitantes, suas tradições, seus costumes.
O projeto Chacras é um dispositivo de moradia de emergência realizado após o terremoto de 2016, para abrigar um grupo familiar. No projeto, se avaliam os fatores estéticos do objeto, a adaptação e reconfiguração dos materiais obtidos através de métodos participativos para sua coleta, bem como a construção coletiva do espaço, no qual, além de responder ao habitat da população vulnerável, são consideradas questões como a subsistência e a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, transformando o espaço habitacional em uma “plataforma produtiva” que promove o futuro apoio de seus habitantes.
A experiência da Natura Futura nos convida a refletir sobre o modelo de produção arquitetônica que estamos emulando e, sobretudo, nos chama a refletir sobre a importância de gerar modelos mais próximos das necessidades dos habitantes, com base em uma prática consciente e ambientalmente responsável.
Oscar Eduardo Preciado Velasquez em visita ao projeto La Comuna, Huaquillas, Equador, janeiro 2019
Projeto La Comuna, Huaquillas, Equador, janeiro 2019
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Quando começou a Futura Natura?
José Gómez: Bem, a Natura Futura começa há cinco anos. A ideia sempre foi trabalhar em pequenas cidades, cidades satélites das metrópoles, porque acreditamos que é aqui que estão as necessidades e é onde o arquiteto deve ser um intermediário, por isso sempre estive aqui em Babahoyo e depois de voltar de estudar um mestrado no México, percebo que as oportunidades estão onde são realmente necessárias. Aqui, nunca houve tal fato que uma arquitetura seja feita e exibida na China, por exemplo.
Não há referências arquitetônicas fortes nestas cidades satélites, o que faz as pessoas não terem uma referência clara do que é arquitetura boa ou ruim; portanto, quando você começa a ver a cidade como um laboratório diz que aqui está a oportunidade de emprego.
OEPV: E vocês são de Babahoyo?
JG: Originalmente somos daqui, e sempre aqui em Babahoyo pessoas ou meninos que estudam arquitetura, os arquitetos, que são muitos, vão trabalhar em Guaiaquil.
OEPV: Para as grandes cidades, ou para Quito.
JG: Para as grandes cidades, um dos nossos desafios antes de procurar arquitetura é mostrar que aqui podemos encontrar trabalho.
OEPV: Entendi. Como começa o trabalho participativo feito por vocês?
JG: Olha, acreditamos totalmente que o arquiteto tem várias fontes ou vários espaços de trabalho, uma delas é incluir a comunidade para atender às necessidades quase reais das pessoas e ver como você pode ser um intermediário com seu conhecimento, como você pode contribuir com o seu conhecimento e sem esquecer que também existem aqueles projetos privados, o que as pessoas pedem. Ou seja – “Arquiteto, quero uma casa” –, que você sabe que o impacto será para uma família, mas o impacto do outro é muito maior; portanto, se você fizer o estudo de um escritório com uma visão equilibrada, pode ser muito produtivo. Você decide se deseja ficar rico apenas aqui (com as elites), perfeito, é a sua visão. Mas sempre quisemos ser muito equilibrados.
OEPV: Falaremos sobre isso mais tarde. Mas, basicamente, eu sempre concordei muito com a questão de que um arquiteto tem essa função, pode trabalhar de uma maneira muito liberal, e é assim que geralmente é feito. Por exemplo, trabalhei em Guaiaquil por um longo tempo e é como a visão desde os centros do capital, enquanto existem muitos outros conhecimentos e saberes ancestrais que também valorizam nosso trabalho (e não são considerados). Você já me falou um pouco sobre as diretrizes que regem seus projetos, tomei algumas notas: impacto positivo, estratégias diferentes através do design sustentável com materiais naturais e locais, materiais de baixo impacto e uso de mão-de-obra local.
JG: Sim, totalmente.
Moradores locais diante do projeto La Comuna, Huaquillas, Equador, janeiro 2019
Foto Oscar Eduardo Preciado Velasquez
Oscar Eduardo Preciado Velasquez em visita ao projeto Chacras, Arenillas, Equador, janeiro 2019
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: há mais alguma coisa que você possa nos contar?
José Gómez: Queremos trabalhar uma arquitetura muito mais contextual; quando falo em contextual, é entender o clima como um tipo de requisito quase implícito em fazer as coisas. Aqui chove muito no litoral. Não procuro categorizar a arquitetura - "ah se, essa é a arquitetura da costa..." -, não faço isso. Procuro uma arquitetura que responda às necessidades do contexto e falo também do contexto humano. É muito importante, porque se respondermos assim, não teremos apenas um objeto formal, mas o contexto humano e como eles moram, quais são suas tradições, como viveram desde a infância, compreender um pouco da parte emocional dos habitantes, a parte da neurose.
OEPV: Ou seja, tentar fazer como uma desconstrução, para chamá-lo de alguma forma, dessa maneira de viver e levar isso...
JG: Isso não é tão fácil, porque eu diria que só pessoas que realmente conhecem ou moraram igual podem se entender. Como alguém que sempre nasceu em um berço de ouro e que cresceu com o carro mais luxuoso do mundo, vai conseguir entender como uma pessoa pode viver sem ganhar nem um centavo? um reciclador, por exemplo.
Como poderia essa pessoa entender isso? Talvez, seja mais complicado ele ir procurar o social, você me entende? Ou seja, às vezes a arquitetura precisa ser congruente com quem a desenha. No momento, estamos trabalhando em um projeto que envolve mais ou menos algo como reciclagem, como essas pessoas param de trabalhar apenas na reciclagem empiricamente e já lhes damos essa questão de produtividade para gerar dinheiro, para que a parte do contexto humano faça parte.
Moradora de Huaquillas, Equador, janeiro 2019
Projeto La Comuna, Huaquillas, Equador, janeiro 2019
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Bem, aqui no Equador eu encontrei essas diferenças bem marcadas ... existe o reciclador e o bilionário, e você consegue isso ainda mais fazendo arquitetura, e às vezes temos desencontros porque alguns temos essa veia social, mas há muitas pessoas que não. No Brasil, nas reuniões em que estive, há dois trabalhos seus que sempre são discutidos. Tem, Casa para alguém como eu e o Projeto Chacras em Arenillas. Algum comentário em geral?
José Gómez: O projeto Chacras realmente é um projeto que muitas pessoas, mesmo na Europa, na Alemanha, escrevem e desejam. O fato de ter alguns paletes e saber apenas como arranjá-los e trabalhar com a comunidade. Esse projeto foi, há 2 anos, Oscar. Nós dissemos okey, vamos fazer uma casa para o terremoto. Mas o que acontece, se fizermos uma casa e deixamos assim? Temos que fazer uma casa que seja realmente produtiva. Nesse caso, as pessoas fizeram dele uma plataforma e os meninos se apropriaram dessa plataforma para vender almoços. Agora eles nao só moram aí, mas usam a casa com uma plataforma produtiva.
A partir daí sempre os projetos, não apenas são feitos para o que eles querem ser, mas para o que eles podem um dia ser. Nesse caso, por exemplo, eu quero fazer um projeto de uma casa, mas o que acontece se essa casa se tornar um Centro Cultural? Por exemplo, a Casa entre Blocos (se você vir o dia sábado eu posso te mostrar) é a casa de um jovem que tinha US $ 12.000 e pensou que ele faria apenas um quarto com esse dinheiro e no final acabou sendo uma casa inteira e essa casa agora (tem) um nível de produção cultural em que ele faz festividades, exposições de arte. Então o privado se torna público, e a casa deixa de ser apenas para você, mas você a compartilha para os outros.
Esse espaço fechado é permeado um pouco... eu mais ou menos li algumas coisas que falam quando esses projetos são concluídos, são feitos através de estratégias para promover a economia familiar, uma coisa que eu considero (como se diz no Brasil) ótima, onde através de hortas familiares, o dono da casa fica incluso e ele recebe um emprego que é finalmente a única saída desse estado que eu não gosto de chamar de pobreza, mas de precariedade.
JG: A dignificação.
OEPV: Esse processo de arquitetura participativa, no qual o Equador é referência na América Latina, sem dúvida, tem suas bases, de acordo com algumas coisas que eu pesquisei nas chamadas mingas, que é uma palavra kichwa para definir o trabalho coletivo em ajuda comunitária. O que seria, de acordo com o seu ponto de vista, essa maior contribuição, essa maior herança desses conhecimentos ancestrais para o seu processo?
JG: Então, deixa eu te falar, quase não há mingas na região da Costa. Isso é muito da região da Serra, dos meninos de lá. A coletividade lá está bem marcada. É tipo assim, todos os grupos de arquitetura de lá são muito amigos. Na região da Costa, temos cerca de 5 anos, 10 anos-luz disso. Aqui há muita individualidade e não é por nossa culpa, é por causa do sistema, da academia. Eles ensinam os meninos desde crianças a serem muito individualistas. O meu é meu e o seu é seu. Ali não, há uma referência de que na própria escola eles começam no sábado a fazer uma minga, já quando crescem, isso se torna parte da sua cultura. Então, aqui ficou muito mais difícil para mim, como arquiteto, gerar trabalho coletivo, trabalho participativo. Quem quer te ajudar para beneficiar os outros? Se eu o ajudo, é porque também quero me beneficiar, é muito complicado, para que eu possa fazer a comunidade participar de projetos que não são seus, tenho que dar algo em troca.
OEPV: Você teve que fazer isso?
JG: Muito, agora muito. Por exemplo... legal você pode ajudar, oh legal, sim massa, é uma oportunidade que você pode dar, vamos dar... mas ninguém aqui vai trabalhar para outro. Aqui essa individualidade é muito complicada.
OEPV: E digamos, isso é uma característica da Costa?
JG: Eu sempre digo a educação... Estamos em crise na parte educacional. Existe um modelo de educação que se repete há muitos anos, anos de anos. Que não podemos... não podemos sair desse vírus. Não sei por que, mas se você ler um pouco sobre a cultura japonesa, sobre a educação deles, como as crianças são desde pequenos, há uma independência, isso ainda não está aqui. Então, aqueles projetos (que te falei), podem ser o primeiro ponto de referência a partir da coletividade.
OEPV: talvez, tenha muito a ver com a formação do arquiteto, como tal, dessas novas gerações. Embora agora muitas universidades têm essa conexão com a comunidade, mas quando você sai fora da escola, percebe que se esquece um pouco.
JG: Sim, totalmente porque eles já fazem isso por compromisso e não por convicção.
Moradores de Huaquillas, Equador
Projeto Chacras, Arenillas, Equador, janeiro 2019
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Como esse trabalho da Natura Futura está enquadrado nesse contexto desse capitalismo avançado?
José Gómez: É super complexo. No sentido em que sempre queremos dar às crianças ou à sociedade, às pessoas uma imagem na qual a arquitetura não precisa ser apenas participativa ou social, porque não queremos ser categorizados. O social deve estar implícito em tudo o que fazemos. Portanto, nesse mundo global, isso sempre deve estar presente em nosso modo de vida. Por exemplo, não é o mesmo fazer uma casa para alguém que me diga: quero uma casa de US $ 1.000.000, mas como entramos nesse caminho, estilo de vida ou modo de fazer arquitetura? Ok, ele está nos pedindo uma casa de um milhão de dólares, podemos fazer para você uma casa de meio milhão de dólares e trabalhamos com meio milhão, sabendo que será a casa dos seus sonhos da mesma forma. Trabalhamos com o mesmo orçamento, mesmo trabalho com tecnologia, automação e tudo. A diferença está na otimização de recursos.
OEPV: Então eu te consulto, essa abordagem elitista da profissão ainda é necessária?
JG: o que acontece é que, é possível se sentir de elite com uma casa de US$ 10.000 se for bem feita, ou seja, estamos totalmente ... temos categorizado tudo, acreditamos que quanto mais caro tornamos a construção, mais poder existe. Está errado (essa ideia). Olha, parece mentira, do Projeto Chacras um alemão escreveu: “isso aqui custaria muito caro, porque a madeira é cara para se obter, se for de pinho pior! muito caro! e aqui, Eita! um homem pobre vive com isso e lá isso é muito caro”. é apenas uma questão de como você o veja, isso é perceptivo, é pura percepção.
OEPV: Qual o maior desafio para essas novas gerações de arquitetos? Qual seria?
JG: Eu acho que a síntese. Para mim, o futuro das coisas, o futuro da arquitetura é a síntese. Já estamos cansados, eu diria ... sempre digo aos meninos, devemos parar de dar muitas ideias e fazer mais, na universidade, estamos dando muitas ideias e a partir daí nada é concretizado, precisamos chegar à síntese, a um modelo de vida muito mais simples, muito mais eloquente com o seu ambiente, não tão carregado de coisas desnecessárias. É por isso que temos que aprender muito com a cultura oriental. Agora, há 6 meses ou 7 meses, eu estive no Japão e foi realmente uma escola para mim, me ensinou muitas coisas impressionantes. Eu voltei e quase joguei meia casa fora. Sinto que sim, estamos vivendo muito sobrecarregados em toda esta parte ocidental. Então, acho que o desafio é que os meninos vejam que a arquitetura precisa considerar maneiras de viver muito mais adequadas a um contexto e a uma cultura propriamente formal.
Projeto Chacras, Arenillas, Equador, janeiro 2019
Projeto La Comuna, Huaquillas, Equador, janeiro 2019
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Agora, voltando ao tema do trabalho... Qual o papel que as instituições públicas e privadas desempenham em seus processos, em seu trabalho?
José Gómez: Olha, nós trabalhamos com política porque gostamos muito de fazer ativação ou barulho político desde o privado. Na verdade, o político sempre vê o controle do projeto como um benefício monetário. Por exemplo: eu quero ver esse projeto agora para ver quanto se ganha..., então sempre tentamos trabalhar com política, mas sabemos que existe um impacto maior, isso sempre nos condiciona e acreditamos que na arquitetura não pode haver como condição inicial o dinheiro. Você só precisa estabelecer condicionantes a partir do habitat do morador, então nós dissemos que não. Vamos nos afastar da política por enquanto e fazer uma política desde o privado, gerar cidade, geramos maneiras diferentes para que as cosas possam ser feitas. Só assim, pode ser habitar.
OEPV: Qual a estrutura legal que conduz seus projetos? existem regulamentos lá fora? ou é simplesmente...
JG: Eu acho que, pessoalmente, quando você pensa em um projeto, sempre tem que ter as regras claras do município e tudo mais, para não ser um pouco irruptor nisso. Mas regras, para você, dentro de uma visão arquitetônica, não deveriam existir. Porque isso limita, limita demais.
OEPV: Para concluir... conselhos gerais para... digamos... as novas gerações de arquitetos que desejam se iniciar nesse trabalho arquitetônico participativo, que de acordo com muitos estudos essa visão do arquiteto, como eu disse, liberal que trabalha... (isoladamente) já está em desuso... isso praticamente, está prestes a morrer, mas aqui ainda está muito presente (no Equador).
JG: Aqui está muito forte. O único conselho que posso dar é que nunca se esqueçam de que existem projetos de autogestão que podem gerar mais trabalho. Às vezes, os meninos saem para procurar trabalho, procuram escritórios de arquitetura, quando talvez com US$ 1... (é por isso que os arquitetos têm essa capacidade de resolver problemas)... Imagina o que eu posso fazer com US$ 1, que pode resolver um problema diário... e se eu colocar aqueles US$ 10, aqueles US$ 100 eu os coloco e faço o projeto. Esses são projetos de autogestão. (Um projeto autogerido). Portanto, com esses projetos, podemos começar a procurar novas abordagens e experiências, talvez com o uso diário e continuar escalando. Os meninos querem sair e devorar o mundo. Esse é um dos problemas, mas não é problema deles. O problema é da academia.
OEPV: Da formação...
JG: Um problema da formação e eu acredito que o uso da tecnologia é muito importante para alcançar mais pessoas, de maneira eficaz, eficiente e produtiva. Não sendo o comerciante da arquitetura. Ser o arquiteto que compartilha visões que podem ajudar a ter referências. Olha por exemplo, você veio aqui, é porque realmente usamos a tecnologia para compartilhar uma visão.
OEPV: de promoção e divulgação.
JG: Não é que nós espalhamos isso tudo para ter mais trabalho, talvez compartilhemos um processo participativo, como você diz, que não ganhamos muito dinheiro, não ficamos ricos com isso, mas enfatizamos sim na universidade, de que talvez também pode se pensar assim. Nem todos os arquitetos precisam necessariamente ser assim, mas se houvesse um equilíbrio, teríamos uma sociedade totalmente diferente.
OEPV: então tudo se rege de acordo com você nesse equilíbrio...
JG: Nesse equilíbrio. Temos o dever como arquitetos, mas você também tem o dever como arquiteto de ter dinheiro e ganhar dinheiro, ter teu bom carro e ter uma boa casa, porque se não faríamos da profissão... você iria apenas de bike para ajudar e não, nós não acreditamos no arquiteto que vive dez anos ajudando as pessoas ...
OEPV: E faz aqueles votos de ...
JG: Caridade ... e eles andam de bike por dez anos porque precisam ser congruentes... não ... acreditamos que o arquiteto também pode ser muito empreendedor, ter negócios alternativos, com esse negócio alternativo e gerar nível empresarial, trabalhar com capital e se você pegar esta parte do capital e poder alcançar mais pessoas com isso... Às vezes as pessoas não entendem isso, ... Ah, sim, o homem tem dinheiro, mas não ajuda socialmente ... Melhor, obrigado Deus por ter uma oportunidade maior de ajudar aqui, porque se você não tem mais dinheiro, como pode ajudar aos outros se nem mesmo tem para sua passagem? Não é congruente. Então eu sempre disse que o arquiteto também deve ter capacidade de negociar, gerenciar um projeto, gerenciar uma empresa e, se Deus quiser daqui a 10 anos, ele administra uma super multinacional, desde que tenha uma ótima visão de fazer as coisas, casas sociais para muitas pessoas, em uma empresa tantas coisas que podem ser feitas. Seja bem-vindo isso. Por exemplo, no começo, eu comecei com um negócio de sucos, o que um negócio de sucos tem a ver com isso tudo? Eu precisava encontrar uma fonte de renda... um empreendimento e precisava do capital... e aprender como as pessoas são gerenciadas, como o fluxo de caixa é gerenciado, dinheiro dos negócios ... ou seja, você não deve ter medo de ganhar dinheiro ... eu sempre digo pessoal, também temos que ter um desenvolvimento empresarial. Não acredito em um professor de finanças que chega de bike.
OEPV: Claro, acaba sendo incongruente.
JG: Então vamos lá, se você quiser ajudar mais pessoas, primeiro você precisa de se ajudar.
OEPV: Bem, isso já é muito oriental (budismo)...
JG: muito oriental, mas muito real.
OEPV: você precisa se ajudar primeiro para ajudar os outros.
JG: Se você não tem capacidade, como faz?
Projeto La Comuna, Huaquillas, Equador, janeiro de 2019
Oscar Eduardo Preciado Velásquez: Esse trabalho comunitário, como começa? você vai diretamente, aparece diante de um líder comunitário? Ou eles procuram por você?
José Gómez: Trabalhamos sempre com comunidades organizadas, nunca trabalhamos com nada informal.
OEPV: Mas a comunidade procura por vocês?
JG: Sim, por exemplo, agora para aquele centro de operações, uma fundação que ajuda as pessoas nas ruas nos procura, elas não têm nada a ver com arquitetura, design ou construção, mas possuem muito poder de gerenciamento. Eles sabem como obter material, sabem como obter recursos; do político do vereador, eles se movimentam. Então eles dizem: “aqui nós temos esse dinheiro, isto é o que tem para fazer isso”.
OEPV: Mas você foi se apresentado para as comunidades organizadas.
JG: Sim, e além disso, trabalhamos, por exemplo, com outros grupos que são de gestão cultural, gestores que não têm apenas a ver com arquitetura. Por exemplo, com o Projeto Chacras, trabalhamos com um coletivo cultural, então imagina que eles trabalham na gestão e nós trabalhamos no projeto e construção e aí a gente se complementa. Em Huerto Manías, fizemos um jardim de inverno comunitário em Nayón (Pichincha), também com uma comunidade que trabalha com hortas com pessoas com capacidades diferentes. - Sr. José, queremos fazer um jardim de inverno para as hortas, legal, é uma oportunidade para demonstrarmos nossa capacidade e demonstrar nossa maneira de ajudar. Nós doamos o projeto e vamos ajudar a construir, a única coisa que pedimos é que nos paguem as despesas da viagem e eles disseram: - José, sim, nós lhe daremos a comidinha, vamos preparar aqui entre todos nós, lhe daremos um quarto e tudo, então convidamos, por exemplo o Asnel, que está estudando arquitetura, outra prima que está aqui... Então, sabe o quê? (a gente diz) vamos lá construir três dias. Existe um arejamento, existe um caminho ... Não é uma obrigação, mas é um estilo de vida e é assim que trabalhamos. Então eles conhecem o trabalho de outras comunidades, outras coisas, outras fundações e assim, vamos gerando (ao redor)... Para nós é como um alívio, como um frescor para o nosso trabalho diário, deste trabalho particular que fazemos, que nos dá dinheiro.
Porque se vivêssemos apenas disso, eu juro que agora estaríamos chateados e reclamando de todos, da vida mesma.
OEPV: talvez, esse trabalho altruísta que você está fazendo, talvez você não conseguisse fazê-lo da melhor maneira...
JG: Está certo, agora você estaria reclamando sobre o capitalismo, que nos mantém assim, e você até morreria reclamando sobre a sua vida toda. Eu escuto como alguns reclamam... eu realmente juro a você que sempre digo desde pequeno ... estou nem aí para o socialismo e o capitalismo em tudo ... Não, não, não, a única coisa que tenho presente é que eu preciso fazer. Eu tenho uma postura e minha postura é fazer. Eu tiro do capital o melhor, do capitalismo ou do socialismo o melhor ou do populismo o melhor ... de tudo o melhor, porque meu dever é cumprir. Não é que ... -José precisas ter uma postura clara ... se você é socialista, tem que ser socialista, isso é você, eu não trabalho desse jeito.
As pessoas não gostam de se sujar as mãos aqui e uma das coisas da universidade é que elas não estão nos ensinando a pensar, estão nos ensinando a obedecer, mas não a pensar. Então, como você vê, sempre temos que obedecer a um regime, sempre temos que ter uma linha de trabalho, então, minha postura pode ser essa, a postura (de um pouco) dessa liberdade de pensamento, liberdade de dizer que tal coisa pode funcionar para mim, isso pode funcionar para mim... Talvez outro diga -não... José, você precisa isto, aquilo... você pode dizer, todo mundo tem uma posição, mas isso não significa que funcionou para mim. Tudo o que posso dizer é que estou calmo, estou muito feliz, realmente essa tranquilidade me ajuda a fazer mais coisas.
Oscar Eduardo Preciado Velásquez em Huaquillas, Equador, janeiro de 2019
Jose Gomez
Arquiteto equatoriano, natural da província de Los Ríos. Fundador do escritório de arquitetura independente Natura Futura em 2014. Seus projetos incluem reinterpretações criativas à limitação de recursos e tempo, o que leva a uma arquitetura experimental. Alguns de seus projetos mais reconhecidos são: Casa Infinita, Don Shawarma, A Casa dos Mil e Um Contos, Restaurante Rico Pollo, O Portal Invisível. Ele foi premiado com o primeiro lugar na XX Bienal Pan-Americana de Quito, na categoria Design Nacional, com o projeto El Tallercito e na categoria Habitat Mundial, com o Projeto Chacras, em conjunto com o coletivo Cronopios, além do Prêmio do Trabalho do Ano pela Plataforma Arquitetura pelo Projeto La Comuna em abril de 2019.
Oscar Eduardo Preciado Velasquez
Oscar Eduardo Preciado Velásquez, arquiteto venezuelano formado em abril de 2012. Mestrando do PPGAU UFES com uma bolsa do PAEC – OEA (Programa de Alianças para Educação e Capacitação) desde 2018 com pesquisa focada em formas alternativas de projeto, participação social, arquitetura comunitária e habitação de interesse social. Participação em vários editais de arquitetura coletiva na Venezuela.
Entrevista
Entrevista realizada no terminal terrestre da cidade de Babahoyo, província de Los Ríos, Equador, América do Sul, na quinta-feira, 9 de agosto de 2018, às 11h. Esta entrevista faz parte do trabalho de dissertação "O arquiteto e a experiência de trabalho com comunidades no Equador: uma abordagem sobre metodologias" que venho realizando no PPGAU UFES desde 2018. Como parte da pesquisa, foram selecionados grupos de arquitetura com experiências de trabalho junto com comunidades de vulnerabilidade social no Equador. Em uma primeira etapa, foi entrevistada a equipe Natura Futura, coletivo de arquitetura equatoriano nascido em 2014 e com experiências consolidadas na costa sul do Equador.
Agradecimentos
Agradeço a todas as pessoas que possibilitaram esta pesquisa, em particular a agência Capes pela concessão da bolsa para financiar a experiência no Brasil, à orientação da professora Clara Luiza Miranda do PPGAU UFES, aos arquitetos José Gómez de NaturaFutura e o arquiteto Christian Bravo pelo acompanhamento durante a viagem a Huaquillas e por serem líderes de processos de diversidade em suas práticas de projeto e a todos os outros atores envolvidos no desenvolvimento desta pesquisa.