português Sergio Rodrigues, um dos maiores designers brasileiros, concedeu em 2003 entrevista a Marcelo Bezerra onde comenta sua atuação profissional, processo de projeto, a descoberta do design, inspiração, local e contexto.
english Interview of 2003 with the architect and designer Sergio Rodrigues for a master's research on his projects and projects components and ways to design. It also includes his opinions on design and architecture and the beginning of his career on the field.
español Entrevista realizada en 2003 con el arquitecto y diseñador Sergio Rodrigues para la investigación de la Maestría sobre su forma de proyectar, los componentes del proyecto, su inicio en la profesión y sus opiniones sobre el Diseño y la Arquitectura.
como citar
Marcelo Bezerra.
“Entrevista com o designer Sergio Rodrigues”.
Vitruvius entrevista, ed. 16.063. 2015.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.063/5661
Arquiteto Sergio Rodrigues
Sergio Rodrigues foi um dos grandes designers brasileiros e de uma personalidade única e singular. A entrevista aqui apresentada foi parte da pesquisa de dissertação de mestrado em design (1).
Na entrevista o arquiteto revela sua visão sobre aspectos importantes e fundamentais em atividades relacionadas a projeto como Arquitetura e Design. Sua afinidade com o mobiliário e sua visão da complementariedade entre as duas áreas que se tangenciam. Essa relação surge para o arquiteto ainda na faculdade pela curiosidade e a vocação que se revela pelas oportunidades e alternativas em sua formação.
A importância do detalhe, o cuidado e apuro na elaboração de peças, que estão em ambientes e complementam a arquitetura. O entendimento de que a arquitetura não se viabiliza sem a ambientação interna, sem inclusão e previsão dos móveis e respectivos dimensionamentos.
Em sua carreira, além da qualidade e criatividade, a busca por uma identidade brasileira para o mobiliário pelos materiais e, principalmente, pela combinação dos mesmos com o design rico em formas próprias. Essa identidade brasileira, ou brasilidade como o próprio arquiteto menciona, foi decisiva para um momento emblemático para sua carreira: a premiação da poltrona Mole em Milão.
O roteiro da entrevista partiu de aspectos que envolviam a pesquisa de mestrado como as formas de projetar, a representação, o papel do cliente (intercessor), o conjunto de prescrições e necessidades, a união das áreas de conhecimentos, o local e o contexto e, concluindo, os processos de produção – técnicas, tecnologias e materiais.
A entrevista foi agendada por sua filha e arquiteta Veronica Rodrigues. Fui recebido pelo arquiteto em seu escritório em Botafogo. Assistiu a entrevista sua neta, Natalia Rodrigues, a época estudante de arquitetura e estagiária em seu escritório.
Fachada Casa Escritório Sergio Rodrigues
nota
1 A dissertação de mestrado em design foi desenvolvida no Departamento de Artes e Design da PUC-Rio entre 2002 e 2004 com o título de Interações no ensino e na prática do design e da arquitetura e sob orientação do professor Jose Luís Mendes Ripper. O arquiteto Sergio Rodrigues foi o primeiro a ser entrevistado e, após a entrevista, contribuiu indicando e efetivando contatos junto a profissionais como Michel Arnoult, Maurício Azeredo, Carlos Motta e Pedro Useche.
Estudos do Arquiteto
Marcelo Bezerra: Qual tema de projeto que mais trabalha?
Sergio Rodrigues: O mobiliário. Sou um apaixonado pela madeira, gosto do mobiliário, tinha algum princípio nesse sentido. Não é o produto, não é a criação do produto do Design, por que eu me dedico ao mobiliário. Eu não sou formado em Design, não tenho esse título de designer, para mim é um pouco mais complicado. Eu prefiro ser um arquiteto que desenha móveis. Antigamente eu produzia também, agora só desenho.
Agora posso divagar um pouco, por não ser professor e ser velho, eu posso estar dizendo uma porção de coisas que podem não interessar, podem não ser percebidas. Mas eu tenho uma certa cisma com esse nome de Design por que eu acho que por ser derivada de uma palavra latina, por que é que nós não usamos como os espanhóis ou ibéricos, que chamam de “Diseño”. E vamos copiar dos estrangeiros e usamos a palavra “Design” e não usamos a palavra “Diseño” que teria mais relação conosco, por ser ibérica e derivada do latim. Agora nós poderíamos catar uma nossa, uma expressão um pouco mais perfeita, um pouco mais exata, usando palavras brasileiras.
MB: Como iniciou no desenho de mobiliário?
SR: Bem surgiu no início a vontade de desenhar, de criar mobiliários. Foi uma loja. Mas os primeiros trabalhos foram atendendo a amigos. Depois eu tive a ideia de criar uma loja e aí comecei a desenhar para atender ao público em geral, porém fui muito criticado na época por muitos colegas arquitetos, como eu iria ter uma loja com móveis que não tinham nada a ver com as tendências da época. Porque eu fazia mobiliário sem consultar os clientes ou pessoas entendidas ou ligadas diretamente ao mobiliário, etc. Aí eu achei que se fosse para responder isso eu diria: eu desenho aquilo que eu gosto. Eu sei que tem muitas pessoas que vão gostar daquilo que eu faço. Então eu desenho do meu modo, sem depender de tendências ou de coisas que estejam sendo feitas, modas, eu desenho aquilo que quero, que eu gosto. Por isso que consegui fazer uma poltrona do gênero da poltrona Mole, porque não estava dependendo, vamos dizer assim, de exigências de clientes.
MB: Você também projetava a partir de demandas?
SR: Não, surgiu porque a vontade de criar coisas, a vontade de criar, a secura de estar criando coisas, ia fazendo sem mesmo haver a necessidade, de haver um pedido especial de clientes ou de fábrica.
MB: Quais os tipos de clientes e como se aproximavam?
SR: Eu fiz muitos trabalhos atendendo a clientes, as pessoas me procuravam porque eu tinha uma boa formação de arquitetura de interiores, de planejamento de interiores, de ambientação. Eu tive um bom preparo, de maneira que comecei realmente fazendo o que chamavam na época o que se chama hoje de decoração. E, realmente, para atender a muitos pedidos de clientes e eu completava às vezes, porque eu comecei a Oca vendendo coisas da Forma, então completava com desenhos meus algumas coisas. Depois eu substitui o que recebia da Forma por desenhos meus e a Oca em dois anos só produzia móveis meus.
MB: E o material sempre madeira?
SR: Em princípio sempre a madeira, 99% madeira. Fiz umas experiências com estrutura na época de latão, porque era mais barato que aço inoxidável.
MB: O tema sendo arquitetura ou design dita a forma de projetar?
SR: Eu considero as duas coisas praticamente iguais, vamos colocar assim: arquitetura e design. São criações desenvolvidas. Claro que a arquitetura tem uma escala bastante maior e o produto – do Design – como complemento dessa arquitetura que é desenvolvido praticamente com a arquitetura.
MB: Qual das fases do projeto mais lhe atrai?
SR: Se eu quero ter o produto, todas as fases para mim são interessantes. Na hora que eu estou imaginando eu começo, o Lucio Costa tinha um nome para isso, o risco inicial, é interessante, faço uma porção. O risco inicial é muito interessante porque você vai criando. Cria e nos primeiros desenhos, desenvolve e vai aproximando daquilo que você está imaginando.
Depois você passa para a fase do desenho, primeiro os desenhos sem escala, com as perspectivas, depois uma espécie de projeto, anteprojeto, na escala de 1/10, depois conforme for, com o detalhamento, passo para a 1/5 e, por fim, para 1/1. Eu entrego todos os detalhes em escala 1/1. Para não haver problemas. Eu tive muitos aborrecimentos, inclusive, a primeira poltrona que desenhei, para caber num papel de 1.00 x 0.50 m, desenhei na escala 1/5, entreguei ao marceneiro para desenvolver o esqueleto e ele fez a peça em 1/5, de modo que ficou uma cadeira para criança. Eu fiquei decepcionado com aquele negócio e foi quando eu percebi que tem que se entregar todos os detalhes para o marceneiro, por melhor que seja, em tamanho natural, para não haver problemas.
Mobiliário do Arquiteto em exposição no Escritório
Mesa do Arquiteto
Marcelo Bezerra: Como elabora e trabalha o conjunto de prescrições/necessidades?
Sergio Rodrigues: O problema é que quando era um cliente, vamos chamar assim, de interiores, já vinha me procurar sabendo que eu já tinha um determinado estilo. Segundo o Michel Arnoult – que em uma reunião no IAB em São Paulo – disse que não havia um estilo brasileiro, mas sim um estilo Sergio Rodrigues. Eu chiei muito com essa história, porque não estava entendendo exatamente. Ele queria dizer isso não no sentido de me elogiar, mas sim dizer que eu tinha alguma coisa que era meu. Então as pessoas que me procuravam sabiam que eu fazia aquele negócio, embora tenha feito algumas experiências no estilo clássico, mas não era a minha praia. Então a pessoa que me procurava, já sabia e praticamente se entregava. Quando eu apresentava um projeto já estava mergulhado no que ela estaria desejando fazer ou traduzindo aquilo que ela estaria imaginando.
MB: É melhor com o conjunto de prescrições/necessidades mais ou menos definido?
SR: Bem, eu entendo essa pergunta como a “carta branca”. Ou o cliente te entrega um projeto, um programa sem maiores exigências, mas já me conhecendo e eu conhecendo o cliente. Eu praticamente faço, me coloco na pele dele e faço e desenvolvo a história. Mas para mim, e eu escrevi dois artigos na revista Senhor a respeito dessa história da “carta branca”. Principalmente para parentes e para colegas arquitetos. Eu fiz estudos para Sergio Bernardes – estudo de interiores para a casa dele –, para colegas de São Paulo, fiz para diversos arquitetos – Ícaro de Castro Mello, então, principalmente para o Marcos Vasconcellos, que trabalhou um tempo comigo. Ele dizia que tinha feito a parte de arquitetura e que a parte de interiores que eu resolvesse. E eu dizia que eu não vou fazer porque você tem, como arquiteto, no caso, uma maneira de pensar e gosta disso, determinadas idiossincrasias que você não conseguiu transmitir. De maneira que você analisando o meu trabalho vai se sentir frustrado com determinada coisa, mas como sou eu a fazer, você vai admitir. Eu poderia falhar e não estaria satisfeito de ter feito um trabalho incompleto, não percebendo certos detalhes que você, por timidez ou por respeito, não declarou. Então eu decidi que não aceito fazer nem para parente, porque parente vai sempre achar alguma coisa, santo de casa não faz milagre, então sempre vai achar algumas coisas, algum defeito, então “carta branca” para mim é sempre um problema muito complicado. Na realidade carta branca eu tenho quando eu crio alguma coisa para mim mesmo.
Outras vezes, em contato com fábricas, o que eu fiz diversas vezes, percebi que eu não gosto, não me adapto, nunca me adaptei em fazer desenhos para indústrias que pedem ou estabelecem um determinado programa. A indústria poderia pedir um conjunto de mobiliário de sala, de quarto, sem maiores exigências, aí eu desenvolvia bem, agora na hora que eles começassem a dizer não, porque está se usando isso, fazendo aquilo, eu caía fora porque eu quero fazer aquilo realmente que eu me sinto à vontade. Sou um pouco rebelde nesse sentido. Eu quero fazer aquilo que eu ache que deva ser feito. Aí é uma dessas coisas que quando me chamam de designer tem que botar alguns parêntesis.
MB: Como o cliente interfere no projeto?
SR: Interfere eventualmente... ele não interfere, ele pode sugerir alguma alteração no projeto e se eu achar que tenha nexo, realmente for alguma coisa que tenha sido esquecida ou que não tenha sido completada pelo programa, aí eu cedo e corrijo. Mas na maioria das vezes eles deixam que, em princípio, eu resolva. Mas não interferem, pelo menos que eu me lembre.
MB: Existe o cliente ideal?
SR: Existe o cliente ideal, atualmente eu estou com um cliente assim. É uma casa e tem uma parte de mobiliário. Eu tive diversos clientes em geral. Essas casas que estão apresentadas aqui (casas expostas na sala de recepção do estúdio do arquiteto), coisas antigas já de 10, 20 anos, são clientes que vem me procurar e entregam, não como “carta branca”. Eles sabem o que querem e passam que precisam de uma casa com isso e aquilo. Eu desenvolvo sem problemas. A parte de mobiliário, de ambientação interna, é feita também sem problema. E que tenham o suficiente para fazer. Eu não quero dizer que seriam móveis, que eu estaria preferindo coisas absolutamente absurdas ou caras. Aí eu percebo as possibilidades da pessoa e desenvolvo dentro daquele esquema. Não saio dos limites financeiros da pessoa.
Estudo Casa do Arquiteto
Desenhos Poltrona Mole
Marcelo Bezerra: Você adota alguma metodologia? Como varia de acordo com cada situação?
Sergio Rodrigues: Eu diria do meu trabalho, não sei se todos fazem isso. Eu vejo, por exemplo, nesses títulos, nessas dicas, de decoradoras, que ficam presas a tendências, o que está se usando. Então ela tem já de saída alguns freios. Para mim não tem esse negócio, eu posso gostar de uma tendência, eu posso gostar e utilizar. Então vou utilizar não por ser tendência, mas sim porque me agrada.
MB: E o seu processo de projeto, o primeiro risco? A velocidade é sempre a mesma?
SR: Não, havendo uma sintonia com o cliente o negócio é realmente bastante rápido. Mesmo com problemas um pouco complexos, o negócio é rápido. De maneira que é essa a forma que eu sempre trabalho. Primeiro uma conversa, recebo o esquema, o programa, visita-se o local, no caso da arquitetura, as condições todas, vamos desenvolvendo o estudo preliminar, anteprojeto, projeto, desenvolvimento, detalhamento, isso daí é comum. Muitas vezes a gente encontra determinados clientes que querem uma coisa e depois mudam de ideia e não admitem que tenham mudado. Aí nos acusam de ter interferido no projeto deles. Nós temos alguns trabalhos em que o cliente muda de ideia, um casal, a mulher tem uma ideia e não fala com o marido e transmite para nós. Nós desenvolvemos, aí quando o marido chega acha ruim, discorda. Esse problema de quando no lugar de um cliente são dois clientes que discordam, para a mesma coisa, aí é um problema. Por isso mesmo que eu estou me desligando dessa parte de interiores, deixando tudo isso com a Veronica, que enfrenta essa situação perfeitamente bem, tem essa parte diplomática, conseguindo contornar esses assuntos, eu já não tenho mais saco para isso.
MB: Como você trabalha a criatividade? Principalmente na primeira fase do projeto, para as ideias surgirem.
SR: Claro que, a ideia, eu já percebi isso, inclusive voltando a um certo tempo atrás, no caso da poltrona Mole, que foi um dos poucos casos em que eu já desenhei a poltrona praticamente na escala de 1/1 e aquilo que foi desenhado é aquilo que foi feito. E é o que é até hoje. Mas quando a gente pensa, como foi fácil o desenho da poltrona Mole, eu cheguei a conclusão que já tinha isso na cabeça há muito tempo e quando chegou aquela oportunidade, sem eu perceber, inconscientemente, alguma ligação daquilo com o que anteriormente estava gravado na cabeça foi desenvolvido. Em princípio são essas coisas. Agora eu recebi também uma informação quando eu estava na Forma, eu passei um ano como o primeiro brasileiro a fazer a parte de ambientação de interiores. E tinha um designer italiano (Nota de Rodapé: Giò Ponti) que era realmente um camarada excepcional, era muito bom, ficamos grandes amigos, fomos sócios, inclusive. Ele me vendo sentado em frente a prancheta, tentando rabiscar alguma coisa, perguntou: “O que você está fazendo?”. Então eu respondi que estava procurando fazer alguma coisa, mas que não tinha certeza do que seria. Ele então me falou que não adiantava eu ficar em frente a prancheta: “Quando você vai para a prancheta já vai com a coisa praticamente resolvida.” Eu achei aquilo brincadeira, mas depois percebi que era exatamente aquilo. Tanto assim que quando não aparece a solução de imediato, eu não fico rabiscando, aí é um rabisco mesmo. Risco é depois que você tem a ideia para a produção. Quando você não tem eu acho que é rabisco mesmo. Então eu não fico mais rabiscando. Quando eu fico rabiscando, fico perdendo tempo, estou enchendo linguiça.
MB: Existe algum profissional que seja uma referência?
SR: Influência você sempre tem, querendo ou não querendo, influência você sempre tem, não há dúvida nenhuma. E eu não admitia isso logo que saí da faculdade. Porque eu lia o que saia em livros e revistas estrangeiras, sempre tive um acesso muito grande a essas coisas todas, e quando eu começava a projetar, se por acaso encontrasse algumas coisas parecidas em alguma daquelas revistas, eu suspendia. Por que eu não queria jamais receber a pecha de estar copiando ou me inspirando em alguma coisa. Depois eu percebi que certos desenhos meus, depois terem sido feitos, e eu não ter encontrado, não ter me baseado em alguma coisa já executada, por brasileiro, estrangeiro, eu percebi que tinha influência. Aí atrás mesmo (Nota de Rodapé: na sala em que fizemos a entrevista) tem uma cadeira, a Oscar, ela teve uma influência, e vi depois de muito tempo, de designers dinamarqueses.
Eu tive uma paixão muito grande pelos móveis nórdicos. Porque os nórdicos utilizam a madeira maravilhosamente bem. Os italianos utilizavam em determinado período muito a madeira e depois começaram a usar outros materiais, materiais sintéticos e fizeram pesquisa em todo o universo de materiais.
Eu tive uma surpresa muito grande, quando estive em Copenhague, entrando em uma das mais importantes lojas da cidade, vi a poltrona Mole no fundo da loja. Eu disse “esse pessoal está copiando a poltrona Mole”. Aí chegando perto vi que era a poltrona Mole, que já era feita na Itália, que passou a ser feita lá, que lá tinha outro nome. Era importada na Dinamarca para venda também. E nessa casa (loja) só modelos nórdicos. A poltrona Mole era a única exceção, única peça que estava lá praticamente como se fosse um modelo nórdico ou que tivesse características agradáveis a eles. Aí eu comecei a ver que realmente tinha alguma coisa, embora a poltrona Mole não tivesse nada ver com aquilo, mas eles estavam respeitando. Inclusive na revista Mobilia, que é uma revista dinamarquesa, colocaram a poltrona Mole, logo depois que ela foi premiada, dizendo que “agora a tendência italiana está sendo fazer a estrutura de madeira com esses almofadões todos assim”, aí aparece o desenho da poltrona Mole com embaixo dizendo a fotografia do “designer” italiano Sergio Rodrigues. Pelo fato de ela ter sido premiada lá, o pessoal já pensava que ela era italiana. E quando eu chegava para dizer que a poltrona era minha o pessoal falava que era um arquiteto mexicano, porque eu tinha “z”. Então o pessoal imaginava que eu fosse de outro lugar: brasileiro não, brasileiro não sabe fazer esse negócio.
MB: E a área acadêmica?
SR: Eu não dou aula não. Eu não tenho tino de professor. Não tenho uma sistemática que um professor tem que ter, uma maneira de tratar, uma maneira de apresentar ao aluno. O que eu faço, o que eu já tenho feito, em diversas ocasiões, são bate-papos, palestras, sobre o meu trabalho e defendo, mostro meus problemas, porque eu não consegui fazer bem esse negócio aqui, porque isso aqui falhou, quais os problemas que eu tive. É uma coisa que poucos professores dizem ou porque não tem uma experiência maior, então contam os problemas teoricamente, não “isso aqui não se faz”. Eu já, diferentemente, conto que fiz assim e fiz errado. Então é uma maneira de conversar quase no mesmo nível dos alunos. Para aula eu teria que ter um currículo, teria que ter uma sequência, uma ordem, explicar isso primeiro, depois aquilo. Eu prefiro contar os meus problemas e os alunos vão anotando.
Desenhos Cadeira Oscar
Estudos do Arquiteto para Interior
Marcelo Bezerra: Quais os motivos pelos quais você escolheu sua profissão?
Sergio Rodrigues: Eu chamaria isso vocação. Desde pequeno eu sou ligado a essa parte de madeira e trabalho em madeira. Eu tinha um tio avô que era alucinado por trabalhos em madeira, ele não era designer. Era uma pessoa que não precisava disso para viver, mas por hobby tinha uma pequena oficina com dois carpinteiros, dois mestres portugueses que trabalhavam maravilhosamente. Ele entregava rabiscos feitos em papel almaço [...] para os portugueses que interpretavam aquilo e produziam. Isso me impressionou muito, como que uma pessoa entrega um papel com um desenho e o oficial pega aquilo e desenvolve? Aquilo foi me chamando a atenção. Eu passei a fazer desenhos para os meus próprios brinquedos. Então quando eu fazia um avião, alguma coisa que parecia um avião. Depois eu percebi que desenhando eu chegava ao que os americanos chamam de “shape”, o que eu queira. Que o carrinho fosse assim, então eu comecei a fazer rusticamente e a seguir aquela coisa.
Quando eu entrei para a faculdade de arquitetura, eu não sabia o que era design, mas continuava gostando de mobiliário. Meu tio avô fazia coisas engraçadas, fazia cadeiras, a cadeira era ruim de se sentar, porém era muito bem acabada, então eu via a parte técnica de execução, e comecei a ter contato com todos esses instrumentos, não tinha nada elétrico, era tudo manual. Via o produto pronto. O produto às vezes era bom, às vezes era ruim, porque que era bom, porque que era ruim.
Quando eu cheguei ao terceiro ano da faculdade eu já estava muito interessado na parte de interiores. Porque eu via aqueles projetos todos que eram estudados, do mundo inteiro, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque produzia livros sobre arquitetura brasileira e eu vi que interiores não tinha nada a ver com aquilo, com aquela beleza, aqueles espaços, não estavam devidamente equipados no mesmo nível da arquitetura. Eu achava isso errado, completamente, e então meti a cara nesse sentido. Procurei encontrar bibliografia sobre isso e não encontrei nada. Tive uma chance de encontrar um camarada que estava chegando dos Estados Unidos e estava dando um curso chamado “Decoração do Lar” e eu fui lá ver o que era. Esse nome, para a gente, era uma coisa meio duvidosa. Encontrei um camarada que tinha dado diversos cursos em uma universidade americana e tinha um cabedal maravilhoso sobre interiores. Então eu o procurei e me interessei por aquele negócio. Ele me achou tão interessado que começou a me dar uma atenção assim um pouco maior e eu acabei como assistente dele. Mas, ao mesmo tempo, no terceiro ano da faculdade estava entrando um novo professor, que era o David Azambuja, e ele se interessou porque eu me interessava pelo assunto, talvez dois ou três se interessassem por aquela matéria – Composição Decorativa – e que anteriormente, antes dele entrar, o pessoal fazia faixas gregas, fazia coisas que não tinham nada a ver ou, talvez, fosse só composição decorativa, mas não era interior, não era coisa nenhuma. E o interior interessaria mais a arquitetura.
Mais tarde eu perguntei ao Lucio (Lucio Costa): “Professor, eu acho que a arquitetura sem o complemento interno, sem o acabamento interno, sem a ambientação interna, sem o mobiliário adequado, a arquitetura não é arquitetura”. Ele achou “é isso mesmo”, uma casa vazia é um arcabouço, não é arquitetura, eu digo arquitetura completa, porque é mostrar aquilo funcionando, funcionando seria com mesas, cadeiras. Quando eu falo isso em faculdades o pessoal pergunta: “E uma estação de estrada de ferro, como é que tem?”, aí eu digo que não se não tiver os bancos para o pessoal sentar, os guichês, o equipamento interno, não funciona. Tem que ter o equipamento para funcionar.
Aí, voltando, quando chegou no terceiro ano, o Azambuja me chamou para ser o monitor na época. E eu tinha certeza que se eu não sabia tanto quanto ele, estava muito próximo do que ele estava ensinando. Porque eu estava pesquisando, estava bem por dentro daquela história. Ele estava com um negócio mais completo porque tinha slides, aos milhares, e eu conversava e dizia as experiências que eu estava tendo com o professor vindo dos Estados Unidos com ideias novíssimas e uma bibliografia muito importante, dizendo o porquê disso e daquilo.
MB: Qual era o conteúdo desta pesquisa, o que estava sendo feito na época?
SR: Em princípio, os materiais novos e os estilos. Era muito importante, a mesma coisa que você tem na faculdade de arquitetura, você tem o que no meu tempo era arquitetura analítica, você analisava procedimentos antigos, clássicos, para poder perceber como era o passado, aquilo foi feito de um jeito por causa disso.
Então no caso de arquitetura de interiores, existia a mesma coisa, já ligada aos equipamentos de interiores da época. Então eu sabia muito mais o porquê colocar um mobiliário numa determinada posição. Realmente ele tinha uma linguagem americana – lareiras e outros –, mas eu percebia que o centro de interesse no caso do Brasil não era a lareira. Coisas que eram faladas assim pelo professor Azambuja. Então eu comecei a trabalhar, não só como monitor, mas como auxiliar em um trabalho de arquitetura que surgiu para ele em Curitiba, onde ele foi convidado pelo governador para fazer um centro cívico. E ele disse que “você querendo você vai comigo lá porque eu vou fazer o trabalho”. Eu fui, mas na realidade eu tomei um susto, ele me entregou uma parte do Centro Cívico – que eram o Palácio do Governo, as Secretarias de Estado, a Assembleia e a parte jurídica, que eram partes independentes – ele me passou a Secretaria de Estado. E eu pensei que fosse para desenvolver o que ele estivesse produzindo, mas não, era do zero. Foi uma surpresa muito agradável, fiquei grato a ele.
MB: A conexão entre a arquitetura e o design traz grande satisfação?
SR: Claro, estou muito satisfeito e depois, quando eu vi a parte de arquitetura de madeira, arquitetura que eu considero um pouco design, tipo de arquitetura industrializada, porque é arquitetura e é indústria, você tem que estudar material adequadamente. Então eu consegui fazer isso muito bem, felizmente. Fiz umas quase 250 casas baseadas nisso. Todas as casas totalmente diferentes umas das outras, porque permitia por causa do sistema que usava, que eu chamo de SR2, e permitia essa possibilidade de fazer umas coisas personalizadas.
MB: Você testa o objeto projetado uma vez em funcionamento?
SR: É claro que testo, mas da seguinte maneira: eu faço o desenho, faço o estudo preliminar e, em princípio, posso fazer, eu tenho inclusive documentação disso, faço de isopor uma cadeira que tenha determinado volume, para perceber o volume, para saber se a cadeira vai ser agradável para sentar, eu quero ver o aspecto geral. Então eu fiz em isopor, tem umas cadeiras que eu fiz assim, e depois tem o protótipo, e adapta-se no protótipo as diversas coisas. Talvez alguma coisa que no desenho eu tenha exagerado para obter uma certa forma, na realidade aquela forma não coincidiu com a parte confortável. Então faço pequenas adaptações.
Casa Sistema SR2
Cadeira Adolpho
Marcelo Bezerra: Essa questão de intuição, que você falou agora, ela é uma misto de transpiração e também de criatividade?
Sergio Rodrigues: Você tem a beleza que você está querendo, a cadeira tem que ser bonita porque senão não funciona. A cadeira não pode ser brincadeira, tem que ser cadeira mesmo, porque ela tem que ter determinadas características e ter alguma coisa a mais. Você poderia dizer, se for uma cadeira ideal, parou, não precisa fazer mais nada, não precisa desenhar mais nenhuma, vou fazer outra coisa, desenhar objeto para Marte. Mas a gente sempre procura alguma coisa melhor. E talvez fazendo assim, um detalhe que possa ter. A gente, por exemplo, está sentado em uma cadeira que ainda não foi completamente aprovada. Mas eu coloco aqui porque eu não tenho vergonha. Essa daqui, por exemplo, foi feita, também é um protótipo, mas que foi executada, foram mais de 300 cadeiras dessa, para a Manchete, no caso, das empresas Bloch. Eu fiz a cadeira, ainda estava testando, e fui viajar, quando cheguei, eles já tinham produzido um protótipo. Então essa cadeira daí tem uns problemas, e se eu fosse produzi-la novamente, ela tinha que ser menor, o assento tinha que ser menor, o encosto um pouco mais curvo e um pouco mais baixo para poder pegar adequadamente.
MB: Essa questão da inspiração vem de qualquer coisa? De algo visto?
SR: Eu sei o que você está dizendo. Às vezes a gente tem isso, eu digo, fico superexcitado quando vou a alguma exposição. Toda vez que eu faço uma viagem, quando volto penso em criar, eu digo que é impossível que a gente não possa ter alguma coisa nesse sentido, ou então fazer alguma coisa melhor, e aí fica procurando. E eu vendo outras coisas, às vezes vendo coisas ruins, eu digo porque que o pessoal não fez aqui uma coisa melhor.
MB: Em uma entrevista sua, na revista Arquitetura & Urbanismo, há um ano e meio, de novo vem aquela questão da adaptação ao nosso clima, as nossas características, a questão da brasilidade.
SR: Eu estou entendendo o que você está querendo dizer. Quando eu fiz a poltrona Mole eu nunca imaginei que fosse ganhar prêmio com ela. E essa coisa de brasilidade vem na própria premiação, no dia que levaram a poltrona para receber um prêmio internacional com 400 candidatos, trinta e tantos países, porque que a poltrona Mole ganhou: Aí eles disseram o seguinte, que foi a primeira e única peça que representava alguma coisa regional, que valorizava o regional. Porque as outras todas eram peças maravilhosas, mas nenhuma você podia identificar se era francesa, japonesa ou alemã. Eram boas, mas não tinham identidade. Na época estava começando a globalização, e eles começaram a dizer que tem valor é isso, valorizar a identidade local. Então eu comecei, dessa época em diante, a perceber, mas continuei imaginando, não porque era jacarandá, porque era palhinha, mas a poltrona Mole não tem nada disso. A poltrona era couro. Mas eles justificavam de que isso tinha alguma coisa de rede de índio, e essa grossura de madeira, era o lugar onde tinha muita madeira, para usar madeira daquela maneira, o pessoal todo estava procurando peças finas, e aquilo apresentado daquela maneira, só podia ser de um lugar dessa maneira, aí eles localizaram o Brasil. Daí passou a ser uma coisa muito interessante. Essa história de brasilidade, até então eu estava imaginando que só o brasileiro que produzisse aqui no Brasil alguma coisa nova, que poderia ser, eventualmente, chamado de brasileiro apresentasse alguns materiais típicos. Bem a gente ficaria daqui a 5 séculos tendo que usar o jacarandá, a palhinha, para ser alguma coisa brasileira.
Eu já vinha mergulhando em um estudo um pouco mais profundo. Você descobre que uma Lina Bardi, que veio em 1945 para cá. Ela se apaixonou de tal maneira pelo Brasil que ela produzia lá na Itália modelos italianos de primeiríssima linha, reconhecidos. Ela chegou no Brasil e começou a produzir coisas com o espírito brasileiro. O que seria esse espírito brasileiro? Era um espírito independente do modismo, da globalização.
Painel Desenhos Poltrona Mole
Estudos Interior
Marcelo Bezerra: Qual a diferença conceitual entre arquitetura e design (projeto de produto)?
Sergio Rodrigues: Eu diria o seguinte, que os dois tem a mesmas raízes, primeiro é arquitetura, arquitetura é a necessidade, vamos dizer em palavras simples, a necessidade de abrigar, não só de abrigar, não seria só o abrigo, mas o abrigo bonito, o abrigo belo, em princípio. E o design o produto, seria os complementos dessa arquitetura, necessários para que essa arquitetura pudesse ser utilizada. Então os dois têm as mesmas raízes. Os dois são criação, os desenvolvimentos são semelhantes, um seria, eu chamaria, de um tamanho um pouco maior. Os dois tem relação com o homem, sendo que o design tem muito mais diretamente com o homem, porque o homem está usando, está sentando, tendo um contato muito maior. O outro já é um espaço que poderia ser maior ou menor, mas não influi tanto quanto o design na realidade, essa verdadeira proporção é que vai criar a verdadeira arquitetura bela.
MB: Quais as características que diferenciam?
SR: Você tem, no caso da arquitetura [...] a construção do abrigo poderia ser um pouco desproporcional, que resolveria o problema dos espaços. Já uma cadeira não pode ser desproporcional, porque ela é relativa as proporções humanas diretamente. O camarada não pode sentar numa cadeira que não seja confortável, então tem que se estudar a parte de ergonomia, muito mais exata, muito mais perfeita, no desenho de produto. Agora a arquitetura, é claro que você tem além do abrigo, o material, a beleza, a proporção, a parte cultural, influenciando também, mas o foco é outro, o pensar no projeto é outro.
MB: O que você acha do arquiteto fazer desenho de produto? Você tem a oportunidade de atuar nas duas áreas.
SR: Eu acho isso aí uma coisa maravilhosa, a maioria das casas que eu tenho projetado, como eu digo, inclusive a alunos e a pessoas com quem eu converso, como estagiários, que você não pode fazer um projeto de arquitetura sem conhecer elementos básicos de ambientação, distribuição de mobiliário. Por que você quando faz uma arquitetura considera uma sala, um quarto, coloca os móveis, não o estilo, nem coisa nenhuma, mas sim o volume do móvel deve estar indicado, porque, se uma sala foi feita para determinada função, tem que ter os móveis principais colocados pelo menos em duas ou três possibilidades. Em um banheiro, quando você compra um apartamento, uma casa pronta, você compra com as peças sanitárias colocadas na posição. Porque que você coloca no projeto essas peças e o resto todo vai vazio? Porque você chegou numa conclusão, que aquelas peças naquela posição resolvem o problema do banheiro? Então porque que nos outros ambientes não dão?
Cadeira Lucio
Sergio Rodrigues
Nascido em 1927 e formado em 1952 na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil no Rio de Janeiro. Em 1954 ingressa na Forma em São Paulo. Em 1955 funda a loja Oca no Rio onde fica até 1968. Em 1961 recebe o 1º prêmio no Concorso Internazionale Del Mobile na Itália que o projeta internacionalmente. Em 1973 monta a Sérgio Rodrigues Arquitetura no Rio. Projetou mais de 1.200 móveis.
Marcelo de Mattos Bezerra
Arquiteto (1986) com experiência em projetos e obras. Mestre (2004) e Doutor (2013) em Design pela PUC-Rio. Ingressa na PUC-Rio em 1998 como professor no Curso de Engenharia Civil, em 2001 integra grupo que criou o Curso de Arquitetura & Urbanismo do qual é professor desde 2002 em disciplinas de projeto, representação e sustentabilidade, além de pesquisas e cursos no tema construção sustentável.
Entrevista
Entrevista com o arquiteto e designer Sergio Rodrigues, concedida a Marcelo Bezerra, na recepção de seu escritório em Botafogo (Rio de Janeiro), em setembro de 2003.