português Entrevista com o arquiteto alemão Peter Mehrtens, chefe da equipe de concepção computacional da Bemo Systems e sócio de uma firma de consultoria chamada Design to Fabrication.
como citar
Gabriela Celani.
“Entrevista com o arquiteto Peter Mehrtens”.
Vitruvius entrevista, ed. 16.063. 2015.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.063/5541
O arquiteto Peter Mehrtens durante workshop na Unicamp
As novas tecnologias de fabricação digital estão disponíveis para os escritórios de arquitetura de três maneiras diferentes (1): montando seu próprio grupo de especialistas dentro da empresa, estabelecendo parcerias com equipes externas vinculadas às indústrias de fabricação digital ou recorrendo a consultores independentes, que são mais flexíveis mas ainda muito raros no mercado. O arquiteto alemão Peter Mehrtens representa simultaneamente o segundo e o terceiro casos: é chefe da equipe de concepção computacional da Bemo Systems e sócio de uma firma de consultoria chamada Design to Fabrication.
Na Bemo Systems, empresa alemã especializada em sistemas de fachada, Mehrtens atualmente está desenvolvendo soluções para edifícios projetados por alguns dos arquitetos mais influentes do mundo: "Wei Wu Ying Center For The Arts”, Kaohsiung, Taiwan (Mecanoo), “Zagreb International Airport”, Croatia (Neidhardt architects / Institut IGH), “Baku Convention Center”, Azerbaijan (Coop Himmelblau), “Salzburg Schallmoos Main Station”, Áustria (Kadawittfeldarchitektur) e “Mriya Sanatorium”, Jalta, Crimea (Foster and Partners).
Peter Mehrtens veio ao Brasil em março de 2015 para participar de encontros e discussões promovidas pelo projeto “Arquitetura Contemporânea e Automação: prática e reflexão”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e organizados pelo Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção (LAPAC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em entrevista aos pesquisadores do LAPAC, ele falou sobre fabricação digital, sobre as diferenças entre abordagens e tecnologias usadas pela Bemo na Alemanha e no Brasil, e revelou suas opiniões sobre o ensino de projeto generativo e fabricação digital.
nota
1 CELANI, Gabriela. LENZ, Daniel. Novas tecnologias na construção de edifícios: estabelecendo a ponte entre o processo criativo e a produção por controle numérico. Artigo aceito para publicação no Cadernos PROARQ em abril de 2015.
Mriya Sanatorium, Criméia. Tabanlıoğlu Architects / Foster and Partners
Wilson Barbosa Neto: Nas coberturas com formas complexas que você nos mostrou, quais são os processos digitais empregados para o desenvolvimento das estruturas metálicas?
Peter Mehrtens: Quando diversos fornecedores para a construção de um mesmo edifício empregam alguma abordagem digital, isto geralmente assegura que os componentes de cada um serão fabricados com um nível de precisão dimensional muito alto, mas isso nem sempre assegura que a montagem no canteiro terá a mesma qualidade. No projeto da Áustria, por exemplo, a estrutura da estação de trem foi realizada com corte a plasma. Outra estrutura, em Taiwan, dependeu de muito trabalho manual; especialmente nas subestruturas, não ocorre tanta participação da fabricação digital quanto seria possível. Acredito as coisas vão caminhar para este lado no futuro, mas em geral isto depende da realidade do local onde a fabricação da estrutura ocorre.
WBN: Você usa técnicas de fabricação digital para criar modelos em escala reduzida no desenvolvimento dos seus projetos?
PM: Às vezes fazemos mock-ups para esclarecer detalhes, geralmente em escala 1:1. Quando se trata de uma subestrutura, em geral ela é construída a mão. Então nestes casos, poderia responder que não. Por outro lado, quando criamos painéis para uma maquete eles são fabricados digitalmente e neste caso posso responder que sim. Contudo, se nós estamos falando sobre etapas na produção, o que tenho visto são impressoras 3D na fase de concepção em pequena escala, mas isto é apenas para layouts. De fato, nós recentemente adotamos impressoras 3D para estudo quando estamos desenvolvendo novas peças, componentes de subestruturas ou mesmo parte de substruturas, antes de iniciar a fresa em alumínio. Então, ao fim do processo, temos algo produzido a partir de ferramentas personalizadas, em termos de fabricação metálica. Então sim, nós empregamos tecnologia de prototipagem digital para pesquisa e desenvolvimento de produtos dentro da empresa.
Gabriela Celani: Você poderia descrever o tipo de trabalho que você e sua esposa desenvolvem na firma DesignToFabrication?
PM: DesignToFabrication cria plugins CAD personalizados para indústrias de fabricação, arquitetura, engenharia, construção e desenho industrial. O desafio é criar soluções feitas sob medida para processos de fabricação específicos, que usualmente não são de domínio público. A maior parte do trabalho concentra-se em componentes personalizados que se somam às ferramentas nativas do Grasshopper / Rhino, e são destinados à geração de modelos geométricos paramétricos em sistemas de fachada para edifícios.
GC: Qual é o perfil típico de seus clientes, por que e como eles procuram por você?
PM: Grande parte dos contatos que tenho deriva, de alguma maneira, de minha atividade docente. A maioria dos serviços terceirizados, relacionados a projetos em desenho industrial ou indústria automotiva, são contratados sob termos de confidencialidade, de forma que nosso trabalho é geralmente mantido sob sigilo. Nós não mantemos website e temos, por parte dos nossos clientes, a confiança de que seus dados são estritamente confidenciais.
A palestra de Peter Mehrtens na Unicamp sobre Application of Digital forming Processes in Contemporary Architecture reuniu uma centena de expectadores
Wilson Barbosa Neto: Como a Bemo recrutou você?
Peter Mehrtens: A contratação foi uma decorrência de minha atividade docente. Eu estava lecionando CAD paramétrico, Grasshopper, modelagem em Rhinoceros e técnicas de scripting em tempo parcial e alguns de meus alunos eram técnicos e arquitetos trabalhando para a Bemo. Eles me recomendaram e a empresa entrou em contato comigo. Eu fiquei impressionado com a unidade de novas tecnologias da Bemo. Eles haviam desenvolvido, junto com um fabricante, uma nova máquina inteiramente nova, para a qual ainda não existiam algoritmos para gerar os dados que a fizessem trabalhar. Sequer havia, naquele momento, experiência anterior para construir as fachadas de edificações com formas livres. Então foi uma feliz coincidência que eu tivesse algo a oferecer e que eles tivessem desafios interessantes para resolver.
WBN: Porque a Bemo montou uma equipe de projeto? Qual o significado de incorporar arquitetos na planta de uma fábrica?
PM: A principal razão é a complexidade da fachada de edificações com formas livres, que não só exige certo conhecimento de projeto generativo como também de detalhes construtivos. Em certos casos, os arquitetos que desenvolveram o projeto conceitual não têm necessidade de manter profissionais tão especializados em seus escritórios. A Bemo já tem uma equipe de projeto pronta, apta a resolver questões que vão de detalhamento a aspectos estruturais e, agora, este serviço está abarcando o auxílio para edificações de formas livres e projeto generativo.
WBN: Então, de certa forma, vocês estão fazendo a ponte entre fabricantes e arquitetos?
PM: Exatamente! Existe uma lacuna de conhecimento a ser vencida entre o fabricante e o escritório de projeto. E, obviamente, existem muitas maneiras diferentes de fazê-lo: você pode procurar ajuda fora do escritório ou montar sua própria equipe de especialistas. Esta decisão se baseia não apenas na viabilidade econômica de manter mais funcionários como também em criar uma equipe bem entrosada que se sente parte de algo maior. É por isto que nem sempre vale a pena terceirizar.
WBN: Quantas pessoas trabalham na sua equipe de projeto? São arquitetos ou possuem outro tipo de formação? Há estudantes trabalhando como estagiários?
PM: Há uma certa variedade nos profissionais da nossa equipe. Nós temos arquitetos, engenheiros civis, desenhistas e técnicos formados (desenhistas com formação complementar e enorme capacitação em detalhamento). Nós também temos estudantes que estão estudando tecnologia de fachadas na Universidade de Ciências Aplicadas. Eles trabalham e estudam: permanecem na empresa por três meses e então retornam à faculdade por outros três. Trata-se de um programa de formação técnica.
WBN: Em qual estágio do projeto você costuma entrar?
PM: Graças à modularidade dos componentes da bemo, eu sou apto a colaborar já no projeto conceitual, auxiliando na modelagem geométrica para a produção desde as primeiras fases da concepção. Contudo, nem todos os projetos chegam à minha equipe no mesmo estágio, isto varia muito de caso a caso. Há ocasiões em que somos chamados a participar quando as decisões já evoluíram em certo sentido e isto torna realmente difícil voltar atrás e mudar alguma coisa. Algumas vezes o projeto já estava na etapa de pré-contratação. E nós tivemos alguns projetos, penso eu, que foram mais frutíferos e a colaboração funcionou melhor porque começamos a trabalhar juntos o mais cedo possível. Por exemplo, é que temos feito para Foster and Partners. Também trabalhamos com Mecanoo já há alguns anos em um projeto em Taiwan, em uma estação ferroviária. Quanto mais cedo começamos, mais fácil é expressar e explicar todas as possíveis interdependências. As vezes isto implica em parametrizar projetos para escritórios de arquitetura que até então estavam trabalhando com representações convencionais de desenho.
Wei Wu Ying Center for The Arts, Taiwan. Escritório Mecanoo
Juarez Moara Santos Franco: As chapas no sistema de cobertura da Bemo possuem nervuras. Elas funcionam como enrijecedores para aumentar a resistência à flambagem? Qual o modelo numérico que vocês adotaram para estimar esta resistência? Os esforços internos nos painéis são calculados para a estrutura completa ou peça a peça?
Peter Mehrtens: O enrijecedor ou nervura é adicionado na primeira fase de fabricação da peça. Eles previnem a flambagem nos painéis quando estão sendo dobradas as abas que servirão de costura entre peças adjacentes. Quando há uma curva na vista superior de um painel isto significa que uma região da peça está sendo tracionada ou comprimida, o que acarreta tensões em toda a seção da peça. As nervuras paralelas às linhas de costura entre as peças (onde estas tensões estão sendo criadas) ajudam a acomodar estes esforços, e portanto desempenham um papel fundamental evitando a presença de tenções iniciais nos painéis. Nós usamos análises baseadas no Método dos Elementos Finitos durante a prototipagem digital no desenvolvimento de um projeto. No entanto, para qualquer painel nós já temos algoritmos pré-definidos e conhecemos os limites a favor da segurança. Então não é preciso rodar uma análise baseada em elementos finitos para cada seção para estimar resistência ou esforços, mas nós temos engenheiros de estruturas na equipe que fazem as verificações de segurança em questões globais. Quando você sabe as ações de vento sobre a fachada do edifício, então você tem as forças que precisam ser transmitidas para a estrutura, a densidade dos elementos de fixação necessários e a quantidade destes elementos que você deve transportar. Para estes casos, nós usamos algoritmos que usam, de alguma forma, tecnologia baseada no Método dos Elementos Finitos.
JMSF: Se for necessário substituir um único painel após a conclusão da obra, isto é simples? Como ele é produzido?
PM: Você removeria o painel danificado e o substituiria por outro com os mesmos encaixes. Há duas opções para isto: ou içar um segundo painel idêntico ao primeiro e refazer a costura original entre as peças adjacentes ou usar um painel mais largo e cobrir o anterior. No entanto, se a máquina já não está mais no canteiro, a peça só pode ser produzida onde a máquina estiver naquele momento e o painel deve ser despachado. Para produzir uma única peça, é altamente improvável que a máquina da Bemo vá ser transportada. Trata-se essencialmente de uma troca. Se for um painel longo, difícil de transportar, ele pode ser dividido em partes menores e soldado na obra, isto é uma decisão de caráter econômico. Mas isto quase nunca acontece. A cobertura metálica de emenda vertical é uma tecnologia construtiva de vida longa. Algumas vezes a pintura é danificada e então basta repintar o componente.
A máquina MONRO da BEMO, instalada em um container para poder ser transportada para qualquer local para produzir painéis de dupla curvatura diretamente no conteiro de obras
Gabriela Celani: Qual a diferença entre a Bemo na Alemanha e a Bemo do Brasil? Quais são seus principais campos de aplicação?
Peter Mehrtens: Bemo é uma aliança entre empresas. Bemo do Brasil é controlada por seus proprietários brasileiros, ao passo que Bemo Project Engineering e Bemo Systems também são propriedades diferentes, operadas a partir da Alemanha. Isto significa que nós fazemos produtos semelhantes, mas a Bemo do Brasil é uma companhia que fabrica e instala coberturas, enquanto Bemo Systems e Bemo Project Engineering são basicamente um escritório de engenharia em uma holding que também tem instalações para a produção. Isto significa que nós projetamos e fabricamos fachadas de edifícios como um kit de montagem, mas nós não temos equipes para vão ao canteiro para fazer a instalação. A maior diferença, contudo, provavelmente é a tecnologia. A Bemo alemã é uma unidade de produção de painéis de forma livre. Trata-se de uma tecnologia controlada digitalmente e que pode produzir painéis personalizados em massa em um ambiente industrial digital. A Bemo do Brasil colabora com a Bemo Project Engineering para projetar e executar formas complexas.
GC: Alguns dos trabalhos que você nos mostrou têm os atributos de uma arquitetura de alto nível. Eles empregam material industrial mas possuem um caráter extremamente sofisticado. Não se vê este tipo de obra no Brasil, talvez porque não haja maquinário para trabalhar com chapas em dupla curvatura ou porque simplesmente não haja demanda por aqui. As pessoas talvez tenham a idéia de que o resultado seja demasiadamente industrial. Uma exceção foi a arena das Dunas em Natal. Você poderia contar qual foi o papel das duas empresas nesse empreendimento?
A máquina MONRO da BEMO, instalada em um container para poder ser transportada para qualquer local para produzir painéis de dupla curvatura diretamente no conteiro de obras
PM: Nesse estádio da Copa do Mundo da FIFA no Brasil, a BEMO do Brasil fechou o contrato global para a montagem do sistema de fechamento sobre a estrutura reticulada espacial, que foi executada por uma outra empresa de construção metálica, contratada pelo empreiteiro geral da obra. O projeto inicial foi uma concepção de Populous. Embora o projeto conceitual já estivesse definido, a sua execução foi deixada a cargo do empreiteiro geral, que por sua vez passou a tarefa de criar as superfícies e os painéis para a Bemo. Nesse ponto, a Bemo Project Engineering na Alemanha assumiu a responsabilidade pela modelagem paramétrica e pelo projeto gerativo de distribuição dos painéis. A forma do estádio tinha regiões com uma dupla curvatura muito acentuada, o que significa que era preciso produzir painéis personalizados para cobrir essas superfícies. Por outro lado, havia regiões de simples curvatura e que poderiam ser cobertas com painéis convencionais. Para manter os custos sob controle nós tivemos que racionalizar a distribuição dos painéis de tal modo que apenas uma certa porcentagem do sistema de fechamento exigiu a tecnologia de fabricação de formas livres, que eram então fabricadas na Alemanha e despachadas para o canteiro no Brasil. A Bemo do Brasil produz seus painéis aqui e, para assegurar que os produtos executados na Alemanha e no Brasil tivessem exatamente o mesmo acabamento, bobinas com a matéria-prima e a pintura final foram enviadas do Brasil para a Alemanha com antecedência, para que nós produzíssemos os paineis especiais na Alemanha e enviássemos de volta. No final, todos os painéis tinham o mesmo acabamento. Uma alternativa teria sido transportar a maquinaria para o Brasil mas, devido a outros projetos simultaneamente em andamento e ao fato de que apenas uma pequena parte da cobertura efetivamente exigia painéis com forma livre, foi mais eficiente, neste caso, enviar os painéis em lugar da máquina. Mas ambas as estratégias são plausíveis.
GC: E os painéis foram despachados em containers, certo? Qual o maior comprimento desses componentes?
PM: Sim. Eles tinham até 11.5m, de modo que eles puderam ser enviados em um container de 12m de comprimento.
Peter Mehrtens durante o workshop "Introduction to Parametric Modelling and Scripting of Building Envelopes for Digital Fabrication" na Unicamp
Gabriela Celani: Você acredita que este campo em que você atua é um nicho de mercado para uma nova geração de profissionais?
Peter Mehrtens: Não, eu credito que isto seja um nicho agora, não para a próxima geração. De fato, eu gostaria de encorajar todos vocês a olharem este campo de trabalho (projeto generativo, scripting e todo outro tipo de modelagem) não apenas como uma ligação com o projeto para fabricação como também para Engenharia de Estruturas (neste sentido, há um plug in chamado Karamba para Grasshopper) ou Desenho Industrial e, obviamente, o próprio projeto arquitetônico. Desse modo, acredito que isto seja um nicho agora, mas é algo que eu os encorajaria a prestar atenção agora, para estar no topo do mercado amanhã. Isto é o que você precisa para o futuro.
Wilson Barbosa Neto: É impossivel negar que aspectos práticos da profissão são muito importantes, mas você acredita que as Universidades no seu país preparam os estudantes de maneira adequada para trabalhar com parametrização e fabricação digital ou os estudantes ainda precisam fazer cursos fora dessas instituições e ganhar experiência fora da Universidade?
PM: Hoje em dia, estudantes egressos da Universidade podem ter alguma experiencia com projeto generativo, mas é claro que para desenvolver detalhamento e soluções para sistemas de fachada você precisa ganhar experiência trabalhando. Contudo, acredito que isto seja assim para todos os ramos de projeto e construção. As pessoas que trabalham em equipes de projeto precisam de algum tipo de treinamento complementar, de um modo ou de outro, como projeto paramétrico, cálculo estrutural, fachadas ventiladas, técnicas de detalhamento para coberturas ou experiência de canteiro. Também é preciso manter o foco para entender que cada parte do que você projeta, cada suporte, cada peça da subestrutura, precisa ser posteriormente associada a outras no canteiro, e mesmo que essas partes sejam pré-fabricadas é importante ter em mente os aspectos práticos das coisas que devem ser feitas à mão no canteiro. Se você vai trabalhar para uma companhia de projeto ou um empreiteiro especializado, é comum que você precise de formação complementar quando termina o curso universitário, o que é bom, porque eu acredito que é importante nunca parar de aprender ao longo da sua carreira. O aperfeiçoamento profissional contínuo começa exatamente após o final na graduação e, se tudo correr bem, não acaba nunca.
WBN: Como você se sente vindo ao Brasil e disseminando este mundo sobre abordagens digitais para projeto e fabricação aplicada à arquitetura para estudantes da Unicamp e para a nossa comunidade de arquitetos?
PM: Os participantes do workshop demonstraram muito entusiasmo com a fabricação digital, assim como estudantes e convidados que vieram para a palestra. O desafio para os arquitetos colocarem isto em prática é quebrar as barreiras dos métodos de projeto convencional e superar a postura do tipo “nós já fizemos assim antes, então vamos fazer de novo e depois queremos repetir”. É ótimo ver que os estudantes estão engajados em assimilar estas novas tecnologias e que eles têm contato com estas ferramentas aqui na Unicamp, que dá acesso a estes tópicos que vêm surgindo, entre eles o projeto generativo e a fabricação digital.
GC: Neste exato momento, existe um grande debate acerca da Arquitetura Contemporânea no Brasil, onde temos uma grande tradição em Arquitetura Moderna. Na minha opinião, a Arquitetura Contemporânea tem uma grande relação com estas novas tecnologias. Qual o seu ponto de vista a respeito da arquitetura de hoje e do uso de novas tecnologias?
PM: Eu acredito que a tecnologia está avançando na área de projeto arquitetônico, mas que isto não implica em um novo estilo de arquitetura. Ela está mudando o modo como trabalhamos e a velocidade com que desenvolvemos nossos projetos, mas se ela for bem usada, penso que não vai influenciar estilos. Você pode usar a mesma tecnologia para um projeto formalista ou para outro muito racional. A tecnologia não deveria ser encarada como estilo em si mesma, porque de fato ela é apenas uma ferramenta em um escritório.
GC: Nos primórdios da Arquitetura Moderna alguns críticos diziam que somente poderia ser considerado moderna a arquitetura que fazia uso de componentes industrializados. Caso contrário você estaria fazendo algo que se parece moderno e industrializado, mas de uma maneira completamente tradicional. Você pensa que um arquiteto contemporâneo que não utiliza nenhuma destas novas ferramentas, nem para geração geométrica nem para a fabricação do edifício, poderia ainda assim ser considerado “contemporâneo”?
PM: Provavelmente as ferramentas contemporâneas de projeto generativo e paramétrico estão fazendo um novo tipo de arquitetura, no sentido de “saber fazer” arquitetura, mas eu não acredito que isto se defina propriamente como um estilo, porque não afeta o resultado, aquilo que emerge das mãos do projetista. Quando bem sucedidas, acredito que as ferramentas generativas de projeto podem dar mais liberdade ao arquiteto, mas não afetar o resultado final em termos estilísticos. Se estas tecnologias criassem um novo estilo a partir de si mesmas isto seria tremendamente restritivo para os arquitetos, porque significaria que se você está usando aquela ferramenta, então seria levado a este ou aquele estilo, mas não é este o objetivo. O objetivo é remover as limitações e fazer possíveis coisas que não podiam ser feitas antes. Portanto, isto é uma questão de desempenho do escritório, de desempenho do trabalho.
GC: Nós sabemos que estas tecnologias poderiam ser usadas para criar projetos mais acessíveis para todos. Se você automatiza o processo de projeto, em princípio você pode reduzir os honorários do arquiteto. Contudo, o projeto paramétrico e a fabricação digital estão sendo usados, na maioria dos casos, para agregar valor aos edifícios, geralmente através de formas complicadas que seriam impossíveis de executar de outra maneira. O que você acha que está acontecendo?
PM: O projeto generativo está tornando viáveis projetos que seriam impraticáveis em uma abordagem manual, e isto também do ponto de vista econômico, porque estas iniciativas são produzidas em um intervalo de tempo aceitável. Eu não penso que isto reduza honorários, nem para o arquiteto nem para o fabricante. Isto poderia ser usado para facilitar o projeto e fabricação de formas novas que pensava-se que fossem impossíveis, simplesmente porque o esforço necessário para criá-las seria exorbitantemente caro. Acredito que, no futuro, projetos repetitivos não serão relevantes em termos de atribuição de honorários. Se você tem uma solução e a repete indefinidamente, ela não deveria ser taxada novamente. Mas quando você olha para projetos gerativos o resultado está sempre variando, o que significa que você pode cobrar seus honorários por cada nova versão. Contudo, faz sentido adaptar a metodologia pela qual os honorários são calculados, cobrando não por um projeto mas pelos algoritmos desenvolvidos para aquela solução. Deste modo, o escopo do trabalho não seria definido pela quantidade de alternativas que derivam do sistema generativo, mas pela complexidade destas soluções. É o caso, por exemplo, da quantidade de trabalho requerida para criar um algoritmo para um projeto específico. O uso repetitivo de alguma coisa que já existe vai ser cada vez mais barato, enquanto a criação de algo único para um projeto é algo que mantém seu valor, justamente, por ser algo único.
Arena das Dunas, projetada pelo escritório Populous
Workshop
O workshop de Peter Mehrtens sobre a criação de componentes para Grasshopper em C#, em ambiente Visual Studio, teve a participação de oito pesquisadores da Unicamp e mais oito de universidades públicas de diversas partes do Brasil. Um componente em GH permite encapsular um procedimento utilizado para gerar geometria parametricamente. Ao convidarmos pessoas de outras regiões do país, esperamos contribuir com a criação de uma comunidade de futuros educadores que estarão preparados técnica e criticamente para revolucionar a formação dos arquitetos, encorajando a nova geração a criar suas próprias ferramentas, ao invés de serem apenas usuários ingênuos da tecnologia que lhes é vendida. Como afirmou o professor Paul Coates em seu último livro, precisamos fazer com que os arquitetos parem de ter uma atitude com relação ao computador do tipo “não entendo nada de programação mas eu sei do que eu gosto”, e comecem a se interessar por entender melhor essa ferramenta” (2).
Participaram do workshop: André L. Araujo Unicamp , Filipe Campos Unicamp, Victor Calixto, Juarez Franco, Pedro Giachini, Wilson Barbosa, Daniel Lenz e Gabriela Celani (Universidade de Campinas); Renata La Rocca e Elza Miyasaka (Universidade de São Paulo); Frederico Braida (Universidade Federal de Juiz de Fora); Waldo Costa e Elisa Brandelli (Universidade Federal de Rio Grande do Sul); Luisa Felix (Universidade Federal de Pelotas); Andres Passaro (Universidade Federal do Rio de Janeiro); Leo Somenzari (Universidade Federal de Paraná); André Campos UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso).
Gostaríamos de agradecer à Fapesp por ter patrocinado a vinda de Peter Mehrten ao Brasil e a todos os participantes do workshop por seu interesse e entusiasmo.
Gabriela Celani
Arquiteta e urbanista (1989) e mestre (2007) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP), e doutora (2002) em Architecture: Design & Computation pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É atualmente Professora Associada da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Campinas (Unicamp), Brasil. É fundadora do LAPAC, Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção da Unicamp. Seu trabalho se concentra no design generativo, prototipagem rápida, fabricação digital, digitlização 3D e automação do processo de projeto arquitetônico. É vice-presidente do SIGRADI, a Sociedade Ibero-americana de Gráfica Digital, e pertence aos comitês científicos de várias conferências de CAAD, como ECAADE, CAADRIA e DCC, e de periódicos como IJAC, Automation in Construction, AIEDAM e Design Studies.
Wilson Barbosa Neto
Wilson Barbosa Neto é Mestre em Arquitetura Tecnologia e Cidade pelo Programa de Pós-Graduação da FEC-Unicamp, sob orientação da Prof. Dra. Gabriela Celani, onde integrou o grupo de pesquisa LAPAC como bolsista CAPES; Arquiteto e Urbanista pela UNIVIX em Vitória - ES. Entre os anos de 2009 e 2010, trabalhou no escritório de arquitetura Harry Seidler e Associados em Sydney-Austrália. Sua pesquisa versa sobre o uso de tecnologias de Fabricação Digital no processo de concepção e de fabricação arquitetônica. Desde 2012 atua como docente na FAAL - Limeira - onde leciona disciplinas nas áreas de Linguagens Digitais e de Projeto, orientando TFG - Trabalhos Finais de Graduação.
Juarez Moara Santos Franco
Arquiteta e urbanista (2003) e mestre (2008) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal da Bahia, e doutor (2013) em Engenharia Civil pela COPPE, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é pós-doutorando e pesquisador visitante do programa de pós-graduação em Arquitetura, Tecnologia e Cidade da Unicamp. Desenvolve pesquisa em sistemas generativos, análise estrutural e otimização de estruturas metálicas.