português Entrevista com a arquiteta paisagista Rosa Kliass, concedida a Antônio Agenor Barbosa, Rachel Paterman e Stella Rodriguez no dia 28 de outubro de 2013.
español Entrevista con la arquitecta y paisagista Rosa Klias, concedida a Antonio Agenor Barbosa, Rachel Paterman y Stella Rodríguez el 28 de octubre de 2013.
como citar
Antônio Agenor Barbosa.
“Entrevista com a arquiteta paisagista Rosa Kliass”.
Vitruvius entrevista, ed. 16.063. 2015.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.063/5585
Rosa Kliass no Parque da Juventude
Rosa Grena Kliass, renomada arquiteta paisagista brasileira, nascida na cidade de São Roque (SP) em 1932, e com décadas de atuação na área de arquitetura da paisagem, tornou-se há muito tempo uma referência nacional e internacional não apenas por seus importantes projetos mas também por sua atuação dedicada como uma fomentadora deste campo, tendo sido fundadora da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas – Abap.
Com 82 anos de idade e em plena atividade, Rosa Kliass trabalha num escritório adaptado dentro da sua residência no bairro Itaim Bibi em São Paulo e, quando necessário, estabelece parcerias com outros arquitetos e paisagistas para dar conta das demandas que recebe. Autora de importantes projetos como a reurbanização do Vale do Anhangabaú e o Parque da Juventude, em São Paulo, e o Parque do Abaeté em Salvador, Rosa Kliass nos concedeu esta entrevista, de quase três horas de duração, onde podemos conhecer um pouco mais a respeito de seu trabalho e da sua personalidade que já foi descrita por uma revista chilena como a de uma paisagista rebelde, em função de suas críticas sempre pertinentes sobres as demandas que recebe na área de arquitetura da paisagem.
Vale do Anhangabaú, São Paulo, projeto urbanístico de Jorge Wilheim, arquitetura paisagística de Rosa Kliass
Rosa Klias (sentada), uma das duas únicas mulheres da turma formada em 1955 pela FAU USP, FAU Maranhão, São Paulo
Antônio Agenor Barbosa, Rachel Paterman e Stella Rodriguez: Como a senhora se tornou paisagista?
Rosa Kliass: É uma pergunta que eu me faço muitas vezes. É muito curioso porque, para ser paisagista, primeiro eu tive que ser arquiteta; fiz uma faculdade de arquitetura na USP.
Quando entrei na faculdade de arquitetura, eu não sabia desenhar. O professor mandou fazer uma planta da cozinha da nossa casa, e eu não sabia como começar.
A minha introdução para o paisagismo foi, portanto, através do Professor Roberto Coelho Cardozo: um paisagismo que não era burlemarxiano, um paisagismo que era oriundo de Berkeley. Era uma outra linguagem, e foi aí que eu realmente vi que o meu destino estava traçado.
AAB / RP/ SR: A senhora sentiu aí que o paisagismo era a sua vocação?
RK: Claro. Mas não havia demanda para paisagismo naquela época. Ninguém ia me chamar para fazer um jardim. Mas eu era casada com um arquiteto também, um colega, e nós tínhamos escritório juntos e fazíamos projetos de arquitetura. Fazíamos, naquela época, muita decoração, reforma de casa, de apartamentos; fazíamos de tudo, e em tudo a gente inventava um pouco. Quando eu ia fazer a reforma de um apartamento com terraço, eu inventava um jardinzinho de terraço; e assim fui fazendo paisagismo sem encomenda, até que isso pegou.
AAB / RP/ SR: E porque que o paisagismo te chamou atenção?
RK: Por causa do Roberto Coelho Cardozo. Ele realmente conseguiu me mostrar que era isso que eu queria, que eu não sabia, a princípio, mas que era uma coisa que eu faria bem e com prazer. E é isso.
AAB / RP/ SR: A senhora tem algum arquiteto ou paisagista na família?
RK: Não. Eu sou a primeira.
AAB / RP/ SR: A senhora poderia falar um pouco mais sobre o professor Roberto Coelho Cardozo e outros professores que, de alguma forma, a introduziram no campo do paisagismo? Sobretudo a respeito das questões que se discutiam na época. Quais eram as propostas que eles traziam de Berkeley?
RK: O professor Roberto Coelho Cardozo, professor Cardozo, ingressou na FAU-USP em 53 ou 54. Ele trouxe a ideia do desenho do paisagismo que negava o paisagismo apenas como plantio. Claro que o Roberto Burle Marx também desenhava independente do plantio, mas ele tinha essa faculdade de desenhar os espaços, só que com um enfoque muito grande na vegetação. Tem uma frase que eu digo: Paisagismo brasileiro é devido a dois Robertos: Roberto Cardozo e Roberto Burle Marx.
AAB / RP/ SR: E outros professores?
RK: De paisagismo, não. Eu saí da faculdade de arquitetura, e depois a grande influência que eu fui buscar foi nos Estados Unidos. Eu tive uma bolsa de estudos, oferecida pelo governo americano, e fiquei três meses viajando pelo país. Esta viagem, organizada por urbanistas americanos que vieram para São Paulo, entre 1984 e 1985, me possibilitou conhecer os Estados Unidos de cidade em cidade, nas regiões em que havia algum interesse paisagístico.
Em cada cidade que eu fui, visitava os arquitetos paisagistas do lugar, as Escolas de Arquitetura Paisagística, os Departamentos de Recreação e as Áreas Verdes dessas cidades; e, além disso, visitava os projetos desenvolvidos.
Comecei por Washington, subi pela Costa Leste e depois desci pela Costa Oeste. Ao final, posso assegurar que eu conhecia mais do estado da arte da arquitetura paisagística americana do que muitos arquitetos americanos. Isso foi muito importante.
AAB / RP/ SR: A senhora poderia destacar quais foram as impressões nessas viagens que até hoje são aplicadas nos seus projetos?
RK: Conheci os maiores arquitetos paisagistas americanos daquela época, estive com eles, conheci as suas obras. Os que tiveram grande influência no meu trabalho foram Lawrence Halprin, Garrett Eckbo e Thomas Church.
AAB / RP/ SR: Garrett Eckbo foi professor do Roberto Cardozo?
RK: Isso mesmo. Mas o que foi impactante mesmo foi o encontro comIan McHarg, que era professor na Universidade da Pensilvânia, e acabava de editar o livro Design is Nature, considerado a Bíblia do Planejamento Paisagístico naquele momento. Ele já usava o computador como ferramenta para o Planejamento Paisagístico, o que era considerado uma grande novidade para a época.
Quando eu voltei para o Brasil, me dei conta de que eu não estava suficientemente preparada para fazer trabalhos de Planejamento Paisagístico pois me faltavam alguns saberes, principalmente da área da geografia. Isto me levou a fazer cursos em Climatologia Urbana, Pedologia e Geomorfologia com os melhores professores daquela época, como Aziz Ab'Saber e Carlos Augusto Figueiredo Monteiro. E acabei fazendo muitos trabalhos junto com estes professores.
AAB / RP/ SR: A senhora poderia traçar um marco, uma diferença entre Roberto Cardozo e Roberto Burle Marx?
RK: Para mim, o Roberto Burle Marx foi o maior paisagista do mundo, na época dele. Não abdico de dizer isso, porque foi mesmo. Não há como comparar os dois trabalhos. O Roberto Coelho Cardozo também foi um bom designer, fez jardins muito bons, mas era de uma linha diferente, aquela linha de Berkeley. Já o Roberto Burle Marx, foi uma explosão espontânea.
AAB / RP/ SR: Qual era a situação do paisagismo na época em que a senhora se formou?
RK: O paisagismo no Brasil era Roberto Burle Marx no Rio de Janeiro. Ponto. Não havia encomendas para projetos de paisagismo, pelos órgãos públicos nem mesmo por entidades privadas ou mesmo pessoas físicas.
AAB / RP/ SR: E em São Paulo?
RK: Os jardineiros faziam os jardins e os arquitetos faziam as casas. E ponto. Não havia áreas verdes urbanas significativas. Era uma atribuição dos jardineiros, ou “jardinistas”, como eles queiram ser chamados.
AAB / RP/ SR: Antes da senhora se voltar para esta área percebia uma certa vocação, uma relação para este tipo de trabalho, mesmo que amadora?
RK: Não, nenhuma. Quando comecei a me interessar pela área comprei um livro publicado pelo Ministério da Agricultura que se chamava Hortas e Jardins que foi a minha iniciação para o uso da vegetação quando ainda estava me formando, nos anos 50.
E havia um grande viveirista que fornecia plantas, chamado Germano Zinger. Ele tinha uma chácara muito grande em Cotia, e lá eu passava horas com o jardineiro-chefe, perguntando o nome e como usar uma determinada vegetação; e assim fui aprendendo, às duras penas, como usá-las.
AAB / RP/ SR: Na sua infância morava em casa ou apartamento?
RK: Eu nunca tive um jardim na minha casa. Na verdade, o único jardim foi o da primeira casa em que morei até seis ou sete anos de idade. Havia um pátio, com um tanque, pois em São Roque não havia água encanada; era coberto por uma pérgola onde subia uma roseira de cor rosa.
AAB / RP/ SR: A senhora é nascida em São Roque?
RK: Sim, eu nasci em São Roque. São Roque fica a 60 km de São Paulo. Todas as cidades que ficam a essa distância de São Paulo foram conurbadas, certo? São Roque não se conurbou. É um fundo de vale cercado de montanhas, e ela se preservou.
Com onze anos tive que vir a São Paulo para cursar o ginásio; vinha de trem, na segunda feira e voltava a São Roque no sábado para passar o fim de semana.
Em 1950, quando eu já tinha 18 anos, meus pais mudaram para São Paulo.
Já com setenta anos, senti necessidade de voltar à cidade e reencontrar as pessoas.
A memória das pessoas que eu encontrei era muito intensa. A minha “teoria” é que a estrutura da cidade preservou a memória. Isso porque a estrutura não mudou, continua a mesma: as ruas permanecem as mesmas, mesmo sendo as casas reformadas ou substituídas por edifícios de apartamentos.
E outra coisa é a longevidade. É comum encontrar pessoas com cem anos de idade por lá. O “homem do cinema”, que era uma pessoa com quem eu tinha muito contato por lá, faleceu com cento e sete anos; a “mulher do teatro” quando fez cem anos, a cidade fez uma festa para homenageá-la.
AAB / RP/ SR: Rosa, como mudou a sua relação com o paisagismo através das plantas?
RK: A minha relação com a vegetação é a do arquiteto paisagista que usa as plantas dentro do contexto de seus projetos.
AAB / RP/ SR: A senhora continua indo a São Roque?
RK: Num certo momento senti necessidade de voltar para rever a cidade, os lugares e as pessoas. Para me guiar elegi dois parceiros.Um deles é o Zé do Nino, que é considerado o “homem da cidade”. Para se ter uma ideia, quando houve visita do governador à cidade, a reportagem do principal jornal local saiu assim: o governador foi recebido pelo Zé do Nino. Coisas de São Roque.
AAB / RP/ SR: Sobre a sua formação intelectual: quais livros e experiências foram importantes?
RK: O que foi muito importante para mim foi a poesia. Eu li muita poesia. Meu marido, e companheiro, também gostava muito de poesia e a gente lia muito poesia juntos. A poesia foi a coisa que mais me impactou. Drummond, Manoel Bandeira... Me alimentou muito.
AAB / RP/ SR: Eu fiquei sabendo que a senhora tem interesse por antropologia, também. Fale sobre isso.
RK: Através da questão do planejamento paisagístico eu via a importância da antropologia, não dá pra desligar as coisas. Para que a gente faz os parques? Não é só para ter áreas verdes. É para as pessoas usarem. Um autor francês, não sei se sociólogo ou antropólogo, que tem um livro sobre parques, afirma que o parque é uma área desenvolvida para as pessoas, ainda que tenha outros usos. Este livro destina um capítulo sobre o banco como um dos elementos mais importantes do parque. Porque, primeiro, você escolhe o banco, senta no banco, e dele você tem uma visão parcial – mas se for para outro banco, a visão é outra. Daí a importância da localização dos bancos no parque.
E isso é um alerta a alguns colegas arquitetos que pensam que a distribuição de bancos é um “brinquedinho” dentro de um parque. A distribuição dos bancos não é aleatória, tem que ter um significado. Cada banco tem a sua função de lugar especial. Quando fiz minha exposição na Bienal de Arquitetura, onde eu tive uma sala especial, em uma das paredes, coloquei em destaque as imagens dos lugares que eu visitei, sempre complementado de um banco.
Rosa Kliass e amigos de turma em visita a Congonhas do Campo durante o curso de graduação na FAU USP
Sesc, Centro Campestre, São Paulo, arquitetura paisagística de Rosa Kliass
Antônio Agenor Barbosa, Rachel Paterman e Stella Rodriguez: Partindo dessa ideia, como a senhora planeja a colocação de um banco?
RK: A primeira coisa a se fazer é conhecer o espaço. Se não tiver um conhecimento amplo do objeto a ser trabalhado não se pode fazer um bom projeto. E é partir daí que vem o que eu chamo de inventário. Se, por exemplo tivermos uma área toda coberta de árvores, o espaço todo tem uma unidade. Porém é preciso procurar a diversidade dentro da unidade. A diferença vai ser dada pela diversidade das árvores, ou o relevo da área, ou um riozinho que corta...Ou seja, eu tenho que dominar, realmente, a natureza do lugar.
Daí, então, eu posso começar a pensar em como tratar o espaço. Óbvio que existem programas já previamente pensados, como no caso de um prefeito que deseja construir quadras esportivas. Eu vou ter que achar um lugar mais adequado para as quadras esportivas, que precisa de área mais plana. E para isto é fundamental ter a concepção do lugar e avaliar o programa. Eu posso até falar para o prefeito que não há como construir uma quadra esportiva naquele local. E eu tenho obrigação de dizer isto. Não vou dizer para desmatar uma área apenas para fazer uma quadra esportiva, e sim que procure um novo lugar.
AAB / RP/ SR: Quais foram seus primeiros trabalhos na área de paisagismo? Eles foram executados? Ainda existem, estão em bom estado de conservação?
RK: Tem de tudo (risos). Muitos não existem mais. Um dos casos mais tristes para mim foi o da Avenida Paulista, um desenho urbano que fiz na década de 70. Foi o primeiro projeto de uma via pública que foi feito em São Paulo. O estudo que eu fiz foi o desenho das calçadas. Adotei o material clássico, português e carioca. Usei o mosaico português. Usei uma linguagem de desenho da calçada, que é o caminho para as pessoas passarem. Neste caminho usei uma linguagem de comunicação com as pessoas. Era uma calçada larga e eu defini alguns espaços de parada, com bancos e quiosques com jornaleiros, entradas de garagem...As áreas de estar tinham grandes áreas com mosaicos brancos com desenhos dentro; o caminhamento era indicado com faixas marcando o sentido de circulação. Essas faixas eram interrompidas nas áreas brancas, continuavam com linhas transversais, como que dizendo: “para porque um carro pode passar por aí”.
Então todo o projeto tinha uma linguagem e o desenho tinha um sentido. Tudo isso foi arrancado e hoje a Avenida Paulista é de um concreto sem nenhum sentido. Essa é uma das maiores dores que eu tenho.
AAB / RP/ SR: Por quanto tempo o projeto teve vigência?
RK: Uns dez anos, entre os anos 70 e 80, mas teve interferência dos administradores. Quando a Marta Suplicy foi prefeita, colocou nas bocas do metrô uns elementos de concreto pré-fabricado, blocretes de três cores para a população eleger o piso que queria. Aí então eu fiz uma carta e entreguei ao Jorge Wilheim, secretário de planejamento, para ele entregar à Marta.
Nesta carta eu dizia que quem escolhe o material do piso é o arquiteto que desenha, que esta é uma função do arquiteto. E que a Avenida Paulista já tinha um desenho. Ela me respondeu de próprio punho, dizendo que tinha sido mal orientada, e que não faria mais a obra.
Consegui segurar um pouco mais. Mas com a mudança dos postes a intenção era mudar o piso. E, quando a Marta Suplicy tomou conhecimento, disse: “não se mexe na Avenida Paulista sem consultar a arquiteta Rosa Kliass”. Há prefeitos que sabem das coisas.
AAB / RP/ SR: Esse é um exemplo de um projeto seu que foi modificado. Tem algum outro que está ainda do jeito que foi idealizado?
RK: Tenho, mas são projetos particulares. Projetos públicos, não. Um dos projetos de que me lembro com muita alegria é o jardim de uma empresa que tinha uma área muito grande, cujo projeto de arquitetura foi feito pelo escritório do Maurício Kogan. Excelente profissional. Ele me chamou para fazer os jardins. Foi um projeto maravilhoso de integração de arquitetura e paisagismo.
Em outro projeto eu plantei vegetação com árvores nativas para criar um ambiente de mata.
Aqui em São Paulo existem áreas que são consideradas de vegetação significativa, relevante e que não se pode mexer. E essa área que eu havia plantado foi considerada como vegetação nativa, e portanto, não podia mais mexer.
AAB / RP/ SR: E era vegetação nativa ou não?
RK: Não era, mas foi considerada (risos).
Nos anos 70, eu fiz a primeira área de recreação do SESC, o Centro Campestre, que ficava na beira de uma represa. Como era uma área muito grande, chamamos um botânico; havia uma área de eucaliptos, e eu disse para ele: “vamos tirar e plantar árvores de espécies nativas”. Ele me disse: “não vamos cortar os eucaliptos, pois vão ajudar a fazer crescer a mata. Nós vamos plantar e, quando elas começarem a se desenvolver, nós cortamos os eucaliptos”. Foi a primeira vez que eu fiquei sabendo que o eucalipto podia ter alguma utilidade. E pouco tempo atrás verifiquei que essa área está classificada como de vegetação nativa, uma das que não se podia mexer.
AAB / RP/ SR: Qual projeto seu que a senhora considera ser um divisor de águas na sua carreira?
RK: Eu vejo o meu desenvolvimento muito contínuo. Não tive um momento excepcional, digamos assim. Eu fui criando o meu mercado. Por exemplo, esse projeto do SESC Campestre foi um projeto muito importante, de grande escala.
AAB / RP/ SR: Em que ano?
RK: Foi realizado nos anos 1970. Chamaram o Presidente da República – o Médici – para inaugurar. Foi um projeto muito importante pra mim. Foi feito em parceria com um escritório de arquitetura muito bom, o Botti Rubin, e nele eu realmente pude estabelecer um programa, que não me foi dado a priori.
AAB / RP/ SR: A senhora privilegia nos seus projetos o uso de plantas nativas?
RK: Não especialmente. Havia áreas que eu queria com vegetação nativa, mas no projeto, em si, não. Veja, a mangueira e o coqueiro não são brasileiros. Mas não é por isso que não vou usá-los. Há que haver um discernimento, senão fica uma coisa muito engessada.
AAB / RP/ SR: E atualmente, qual projeto a senhora está desenvolvendo?
RK: O conjunto de projetos mais interessantes que estou fazendo agora é em Macapá. Em Macapá, eu fiz o projeto da Fortaleza de São José, um bem tombado pelo patrimônio. O último forte que os portugueses construíram no Brasil. Foi considerado um bem tombado e foi feita uma recuperação, para um museu e me chamaram para fazer o paisagismo do entorno.
E foi um projeto muito interessante. Apesar das restrições pelo fato de ser um bem tombado, foi possível fazer um parque de recreação infantil. Um dia, em São Luís do Maranhão, a beira da piscina, no hotel encontrei uma família que era de Macapá. Eu contei que eu havia feito o projeto do Parque do Forte. Eles chamaram os filhos, dizendo: “venham conhecer quem fez o lugar bonito!”. Tem algum nome melhor para descrever um projeto da gente? É conhecido como “lugar bonito”.
AAB / RP/ SR: A senhora poderia falar a respeito do seu método de trabalho? Desde o aceite de um projeto até a sua execução. Por exemplo, o Parque da Lagoa do Abaeté, em Salvador.
RK: Você pegou um projeto que é muito controvertido. Mas vamos lá.
Quando fui chamada para fazer, a área era uma terra arrasada. Havia muita coisa construída e foi preciso derrubar tudo. O que tinha de mais notável na área do Abaeté era a lagoa. Porque o parque era no entorno da lagoa, cantada e pintada por todos os artistas da Bahia. Como Dorival Caymmi que cantava: “O Abaeté é uma lagoa escura arrodeada de areia branca...”. E tinha as lavadeiras do Abaeté, que ficavam na beira da lagoa, lavando suas roupas com as crianças brincando ali. Também era ali que havia os ritos de candomblé.
Quem me contratou para o projeto chegou a ser ministro de governo. Eles me deram total liberdade para o projeto, inclusive disseram que iriam alugar uma casa para as lavadeiras. Eu disse: “O quê? Vocês vão tirar as lavadeiras do Abaeté? De jeito nenhum. Nós vamos é fazer uma casa aqui para elas”. E aí fizeram a casa das lavadeiras, que fica no melhor ponto do parque, com vista para a lagoa. E ao lado fiz um playground, para as crianças brincarem.
E foi curioso; doze anos depois, por conta de eu ter sido contemplada com uma sala na Bienal, e de estar em processo de elaboração do meu livro, eu revisitei alguns projetos. Foi comigo o rapaz que fazia as entrevistas para um vídeo, e lá estavam as lavadeiras: lavando roupa. Pra você ter uma ideia, não tinha um papel no chão. Não tinha uma trinca nos tanques, doze anos depois! Ele perguntou para uma das lavadeiras que estava lá – uma mulher linda – há quanto tempo ela lavava roupa lá, e ela respondeu, com um certo olhar de desdém: “minha avó lavava roupa aqui, minha mãe lavava roupa aqui.”
E no lugar onde havia os ritos de candomblé estava acontecendo um batismo evangélico, naquele momento. Ou seja, era mesmo um lugar para coisas sagradas. E foi preservado para isto.
AAB / RP/ SR: Por que era um projeto controvertido?
RK: Porque a encomenda foi uma e eu fiz outra coisa. Aqui cabe outra historinha. Quando fui dar aulas na universidade do Chile, fui chamada para dar uma entrevista no jornal O Mercúrio. Eu, acostumada, aqui no Brasil, a ver que os jornalistas não sabem nada de sua trajetória e fazem perguntas inadequadas, cheguei para a entrevista e percebi que a jornalista era ultra preparada, pois já havia lido o meu livro, e sabia de todos os meus projetos. Só fez perguntas pertinentes e discutia sobre os projetos com muito conhecimento. Havia projetos polêmicos mesmo, como o caso de um projeto que envolvia uma área de várzea que queriam aterrar para fazer o jardim, e eu disse que não faria isso. Faria um rio ali, drenamos tudo; fizemos o rio que teve direito a uma ponte.
Duas semanas depois chegou a revista e a matéria, em quatro páginas, lindamente ilustrada. O título do artigo: “La paisagista rebelde” (risos). Ela pegou bem o espírito da coisa. Eu sempre questiono a demanda. Tem que questionar a demanda.
Parque da Lagoa do Abaeté, Salvador, arquitetura paisagística de Rosa Kliass
Parque da Juventude, São Paulo, arquitetura paisagística de Rosa Kliass
Antônio Agenor Barbosa, Rachel Paterman e Stella Rodriguez: E quanto ao Parque da Juventude em São Paulo, que é um projeto bem conhecido: como a senhora encara a elaboração desse projeto, como o executou?
RK: É um projeto conhecido pelos arquitetos que leram o livro. Aqui em São Paulo, só conhece o Parque da Juventude, as pessoas da Zona Norte. Ele é muito pouco conhecido, mas ele é um dos meus projetos que eu considero dos mais bem sucedidos.
O Parque da Juventude era uma área de uma antiga prisão, que era a Prisão do Carandiru, onde houve aquela revolta. Eles fecharam a prisão. Mas era todo um setor presidiário; tinha a penitenciária do Estado, o presídio feminino e o Carandiru também. Era um grande complexo, que em certo momento o Governo resolveu eliminar e realizou um concurso nacional. Nesse concurso, o escritório Aflalo e Gasperini se inscreveu. E o Gasperini me chamou, e disse que seria um grande projeto de arquitetura, pois era para transformar o presídio, a penitenciária do Estado, em alguma coisa. Era para tirar tudo. É um projeto de arquitetura, mas também um projeto de paisagismo muito grande.
Então eu participei juntamente com ele e ganhamos o primeiro lugar. Mas, como acontece no Brasil, nós ganhamos, mas não levamos. O Governo desistiu de fazer aquilo naquela hora e ficou parado.
Quando o governo Alckmin resolveu retomar essa questão, ele manteve a penitenciária do Estado e o presídio feminino. Mas na área do Carandiru era para ser feito um parque, então quem foi chamado, obviamente, foi o Gasperini, e ele me convidou. Para mim, o Gasperini é um “gentleman”, um homem de uma rara elegância, enfim; ele me chamou novamente e disse: “Rosa, antes era muita arquitetura e um parque; agora é um parque e alguma arquitetura. Então, eu quero que saiba que o crédito do parque é seu.”
AAB / RP/ SR: E a questão do programa? Que aspectos da sua rebeldia apareceram aí?
RK: Havia uma área muito grande, destinada para quadras esportivas, já que o parque foi feito pela Secretaria do Esporte e da Juventude. Tem algo curioso que eu gostaria de contar: o secretário era o Lars Grael, o velejador olímpico. Ele foi comigo até lá para discutirmos o programa. Olhei o programa, que tinha quadras esportivas; futebol de salão, vôlei, basquete e ... uma quadra de tênis! Eu nunca vou esquecer o olhar deste homem para mim, quando ele me disse: “a senhora está querendo dizer que não se deve fazer uma quadra de tênis aqui?”. Eu respondi que não sabia, mas que não era muito usual em parques, mas não tinha nada contra. Então ele disse: “quem é que pode dizer que não vai sair um campeão de tênis dessa quadra?”. Então eu “baixei a crista”. Foi feita a quadra de tênis, ela é usadíssima. Uma quadra de tênis não é feita usualmente porque a manutenção é muito cara. As raquetes são caras, os instrutores também. Lá, as raquetes são doadas para os usuários e os instrutores são gratuitos. Então a quadra de tênis é usada o tempo inteiro! Isso foi uma grande lição que aprendi.
Continuando, quando eu fui fazer as quadras esportivas, todas aquelas quinze quadras enfileiradas, uma atrás da outra, me questionei: eu vou repetir aqui quinze mini–prisões? Já estão saindo de uma prisão eu vou fazer aqui quinze prisões? Eu não vou colocar grades de jeito nenhum. Então um colega me disse: “Você não vai colocar alambrado?” E eu perguntei se ele já havia ido em campo de várzea e se tinha alambrado lá.
Ele insistiu que tinha que ter uma proteção para a bola e para as pessoas que passavam, e me ofereceu, inclusive, um desenho maravilhoso de umas cercas, com um grafismo, por exemplo. Motivos de desenhos muito bonitos.
Um professor americano, especializado em projetos com participação da comunidade, veio dar algumas aulas na FAU/USP e me pediram para levá-lo até lá, porque ele queria escolher um lugar para algumas aulas de campo. Então eu o levei para ver o parque e, quando chegou na área das quadras, ele disse: ”mas você não colocou alambrado?”. Eu disse que não e ele continuou dizendo: “mas você consultou os usuários para saber se podia colocar alambrado ou não?” e eu respondi que não havia consultado; e ele continuou: “mas você não ficou com medo que não desse certo?”. Eu respondi que se não desse certo eu colocaria o alambrado.
Naquele momento estava passando um guarda; eu o chamei e perguntei se o pessoal reclamava de não ter alambrado nas quadras. Ele olhou para as quadras e foi o primeiro momento que ele se deu conta de que não havia alambrado, e respondeu assim: “quando a bola voa, a gente pega e joga de volta”.
AAB / RP/ SR: Então essa questão de colocar ou não o alambrado, na verdade, foi uma decisão que tem uma ligação simbólica com a origem do lugar. A senhora amarra a sua decisão a isso também? Dentro do parque há algum memorial se referindo ao Carandiru?
RK: Eu acho que existe, mas é dentro de algum prédio mesmo. No parque, eu disse que não queria que houvesse a lembrança da prisão. A única coisa que foi mantida, mas com uma destinação lúdica, foi o Passeio do Vigia, que hoje é um espaço onde as pessoas fazem caminhada.
AAB / RP/ SR: Comente sobre o projeto da Estação das Docas em Belém do Pará.
RK: O capítulo de Belém é muito importante para mim, passei seis anos trabalhando nesta cidade com o Paulo Chaves Fernandes, secretário de cultura do Estado do Pará na época. Ele decidiu mexer na cidade de Belém, e para isso elaborou um programa enorme: primeiro a Estação das Docas, depois a Feliz Lusitânia, que abrange o Forte do Presépio; o antigo hospital que foi transformado em um museu; a antiga Catedral que foi transformada em Museu de Arte Sacra, em que fiz os pátios internos... Depois fiz o pátio do Museu da Geologia, um pátio de um antigo convento, que depois foi transformado em prisão.
Houve uma pausa e depois de seis anos ele me chamou novamente. Era uma área à beira do rio e ele queria “abrir as janelas” para o rio, porque Belém foi construída toda de costas para o rio. A maior das “janelas” era uma área que abrigava o arsenal da marinha. Era uma várzea; eles mandaram aterrar tudo, construíram um muro de arrimo e aquele espaço se tornou um matagal sem uso nenhum. Quando cheguei lá, vi que nesta várzea havia uma vegetação chamada aninga, uma vegetação típica de beira-rio do Norte e Nordeste, que nenhuma cidade tinha preservado.
Esse era o último reduto das aningas e você não pode aterrar. Paulo Chaves queria aterrar e construir um restaurante neste lugar, mas eu não deixei. Então eu falei que deveríamos retirar toda a terra que havia ali, trazer a várzea de volta e criar o Parque das Águas. O rio não entra no parque, mas parece que entra. Nós criamos um desenho que fizesse essa alusão. Hoje nós temos então esse aningal maravilhoso e esse parque que considero um dos melhores trabalhos que já fiz.
AAB / RP/ SR: A senhora já fez projetos no Rio de Janeiro?
RK: Não. Porque aí existem muitos arquitetos paisagistas bons e também nunca recebi nenhum convite para trabalhar e realizar trabalhos no Rio de Janeiro.
AAB / RP/ SR: Quais as diferenças mais relevantes do seu método de trabalho atual para o momento em que a senhora iniciou sua carreira?
RK: Houve uma evolução contínua, não há como dizer qual foi a diferença. Até porque as encomendas são outras agora. O projeto de Macapá é algo totalmente atual, mudaram as demandas, porque felizmente o panorama urbano brasileiro também mudou.
AAB / RP/ SR: A senhora acha que nos dias de hoje há maior atenção para o espaço público?
RK: Sim. Essa questão da preservação, da vegetação nativa, enfim, essa preocupação naturalística tomou conta inclusive da legislação. Existe uma legislação que obriga a certas coisas, e a partir daí nascem os projetos.
AAB / RP/ SR: Quando se pode dizer que um projeto paisagístico está pronto?
RK: Quando você visita o Jardim do Lenotre em Paris, como você vai saber quando ele ficou pronto? Ele teve vários momentos, não sei quando ele esteve pronto, ele teve vários momentos. A não ser quando é um projeto “tabula rasa”: você cria tudo e se você plantar árvores e elas ainda estiverem pequenas, o jardim ainda não está pronto.
AAB / RP/ SR: A senhora já se deparou com momentos em que planejou um projeto com determinados usos e os usuários não seguiram o que foi planejado?
RK: Eu não tenho essa experiência para o lado negativo, mas sim para o positivo. Por exemplo: eu fiz o Parque de Esculturas em Salvador. O parque foi feito para colocar esculturas, eu propus que se fizessem o que denominei de “âncoras”. Então, foram encomendadas esculturas em alguns lugares para servirem de “âncoras”.
Quando fui fazer o parque, conversei com o Diretor do Museu e perguntei quais seriam as esculturas, e ele falou: faça o projeto e depois eu compro as esculturas. Em Salvador havia dois grandes escultores, Mário Cravo e Caribé. Então eu disse: “Caribé, você vai abrir e fechar o Parque”. Disse para o Caribé que a visão que se teria do portão seria a do céu e do mar. Falei para ele que naquele gradil ele poderia usar aquelas figuras de Candomblé em preto e branco, por exemplo. Então ele falou: “vou colocar os peixes no céu e os pássaros no mar”. E aí ele fez aquele gradil maravilhoso; infelizmente ele não o viu executado.
Para o Mário Cravo eu falei que não haveria iluminação no parque, apenas uma fonte luminosa num local a ser escolhido. Neste local seria feito um pilarete com três metros de altura que iria abrigar uma escultura dele e uma luminária que forneceria ao parque uma “luz de luar”. E ele fez exatamente o que havia falado e ficou muito bonito. Havia também uma escultura já feita pelo Mário Cravo, um Antônio Conselheiro em madeira. O Mário queria que essa escultura fosse levada para algum lugar coberto para protegê-lo da chuva. Então nós usamos um daqueles arcos da Avenida e colocamos o Antônio Conselheiro no último daqueles arcos.
Ele era lindíssimo, de madeira policromada, com a roupa em azul. Trouxe para perto dele uma jardineira com vegetação do cerrado. O Antônio Conselheiro tem uma frase famosa: um dia o sertão vai virar mar. Então eu falei que ele iria ficar olhando o mar; para ver isso realizado, eu fiz uma sacada com um banco, que ao mesmo tempo em que se estava sentado se via o Antônio Conselheiro e em pé se via o mar.
Certo dia fui rever o parque; comecei a descer pelos patamares e lá no fim eu vejo um casal. Esse casal estava de pé, depois eles sentaram no banco e ficaram um grande tempo olhando o Antônio Conselheiro. Depois se levantaram, viraram para a balaustrada e ficaram olhando o mar um grande tempo, e aí eu continuei descendo e cheguei até lá encantada: eles tinham feito a performance que eu tinha imaginado! Quando eu cheguei, a moça me perguntou se eu queria algo, e eu respondi que eles já haviam me dado o que eu queria.
AAB / RP/ SR: Qual espécie vegetal que sempre está presente em seus projetos e alguma que a senhora não costuma especificar. Por quê?
RK: Não, não há.
AAB / RP/ SR: Qual projeto que a senhora mais admira no Rio de Janeiro?
RK: O Parque do Flamengo! Este foi o primeiro parque nesta escala urbana em âmbito mundial! É algo fantástico!
AAB / RP/ SR: E no Brasil? Qual projeto a senhora admira mais, que não seja de sua autoria?
RK: Tem um projeto muito bonito em Búzios, de autoria de Fernando Chacel. Um parque na várzea, é algo muito bonito. Quando nós fomos ao Rio de Janeiro ele nos levou para ver esse projeto. Era um loteamento de, suponho, aproximadamente trezentos lotes e o cliente tinha encomendado o projeto do parque. O proprietário queria edificar tudo e o Chacel disse que ele não poderia fazer isso. Por fim, o proprietário acabou ficando com cem lotes e o Fernando Chacel realizou o projeto. Quando fomos visitar a área, o Chacel levou o cliente para nos contar a história do parque, e ele nos falou: “eu ganhei muito mais com os cem lotes, do que teria ganho com os trezentos”.
Estação das Docas, Belém do Pará, arquitetura paisagística de Rosa Kliass
Roberto Burle Marx, paisagista
Antônio Agenor Barbosa, Rachel Paterman e Stella Rodriguez: Como foi essa sua relação com Fernando Chacel?
RK: Foi uma das coisas mais lindas. Eu tenho uma saudade muito grande do Chacel. Ele morou no mesmo prédio que eu moro. Ele era casado com a Vera Severo e moravam aqui neste prédio.
Quando nós chegamos aqui, o projeto era do Ruy Ohtake e ele tinha feito o jardim. O projeto era um espelho d’água, com umas rodelas, que você tinha que pular de uma para outra para entrar no prédio. Sendo que até foi feita uma outra entrada, porque era impossível aquela.
Houve uma coisa muito interessante; um certo momento convidamos Garrett Eckbo, arquiteto americano, para visitar São Paulo. E no dia em que ele chegou nós o convidamos para um jantar em minha casa. Vieram o superintendente da região metropolitana e o Jorge Wilheim. O Eckbo foi trazido direto para o jantar. E quando ele chegou no apartamento, ele me perguntou: “o jardim do prédio é seu?” E eu respondi: “não, pode ficar tranquilo que não é.” Depois disso, eu e o Chacel propusemos ao condomínio uma reforma deste jardim.
AAB / RP/ SR: Em que bairro é este jardim?
RK: No Itaim Bibi. Chacel foi meu vizinho, meu amigo, meu companheiro, uma pessoa de quem eu tenho muitas saudades.
AAB / RP/ SR: Com quais profissionais a senhora já trabalhou? Não só arquitetos, paisagistas, mas também botânicos, biólogos, agrônomos, geógrafos, dentre outros.
RK: Fernando Chacel, que já havia falado, e alguns arquitetos paisagistas como a Miranda Magnoli, de quem fui sócia no início da minha carreira. Mas eu quero citar os geógrafos, estes tiveram uma importância muito grande em minha vida. Principalmente Carlos Augusto Figueiredo Monteiro e Aziz Ab’saber, que também tive a felicidade de fazer trabalhos com ele. O botânico Harry Blossfeld, que foi quem me apoiou nos primeiros passos.
AAB / RP/ SR: Quais são as atribuições de um arquiteto paisagista, hoje, no Brasil? Essas atribuições estão em sintonia com o que ocorre nos outros países ou não?
RK: Essa é uma questão que está sendo alvo de trabalho no CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Existem apenas as atribuições referentes aos arquitetos. Nós não temos as atribuições referentes à profissão de arquiteto paisagista no Brasil. A história das instituições é diferente da história dos nossos tempos. Os arquitetos levaram cinquenta anos para sair do CREA, para criar o CAU. Agora, nós temos outro embate que é a criação da profissão, porque em âmbito mundial a profissão existe e há também uma Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas, a IFLA. É uma profissão específica, mas aqui no Brasil nós não temos.
AAB / RP/ SR: Que horas que a senhora começa a trabalhar? Onde trabalha? E como é seu dia-a-dia de trabalho?
RK: O meu primeiro escritório era em casa. Minha casa conviveu com o escritório durante muito tempo. Em certo momento, eu resolvi ter um escritório fora de casa. Então eu aluguei dois apartamentos em um andar, que era localizado na Av. Brigadeiro Luís Antônio, próximo daAlameda Santos; eu tinha a chave da porta debaixo, então subia uma escada e o andar de cima era todo do escritório.
Eram dois apartamentos, e a minha intenção é que futuramente eu iria fazer uma reforma. Mas eu nunca tive dinheiro para arrumar o escritório, então era tudo meio improvisado, como por exemplo, a cozinha era o arquivo. Então assim eu convivi durante muito tempo com este escritório. E nesse meio tempo nós compramos este apartamento do Ruy Ohtake, aqui no Itaim Bibi, e fizemos uma reforma total deste apartamento.
Acho até mesmo que ele nunca soube que eu fiz, e de repente eu pensei: eu posso trabalhar em casa. O meu filho já havia saído de casa e só morava comigo a minha filha. Então adaptei o apartamento para fazer o escritório em casa. A sala de estar e jantar, é na verdade a sala de reuniões do escritório. Então eu trabalho em casa desde essa época, há muitos anos, o que eu chamo de “home office”.
AAB / RP/ SR: Quantas pessoas trabalham com a senhora?
RK: Neste momento, nenhuma. Hoje eu trabalho com parcerias. Eu tenho três escritórios de arquitetura paisagística que têm toda uma história comigo e que são meus parceiros. Quando é encomendado um projeto, eu delego para o escritório que tem mais semelhanças com ele. Por exemplo, com o Luciano Fiaschi ou então vou fazer uma parceria com a Ciça, que tem um escritório de arquitetura paisagística com o marido. Luciano Fiaschi é um excelente arquiteto paisagista que tem uma história com projetos residenciais. Comigo, além de projetos residenciais, ele tem colaborado em outras escalas, com muito sucesso.
A Ciça, Maria Cecília Barbieri Gorski, é casada com o Michel, que é meu sobrinho. Eles têm uma firma chamada Barbieri Gorski. Os dois são arquitetos e se conheceram na faculdade e foram meus alunos quando eu dei aulas no Mackenzie. E a Ciça, assim que saiu da faculdade, veio trabalhar comigo.
O terceiro parceiro é José Luiz Brenna que tem uma empresa chamada “Soma”. Ele trabalhou sete anos comigo. Quando saiu, abriu seu escritório, bem-sucedido, já ganhou até prêmio internacional. O último projeto em que ele trabalhou comigo foi o Parque da Juventude e ele foi um grande colaborador.
Além dos projetos elaborados com esses parceiros também faço consultorias.
AAB / RP/ SR: A senhora foi uma das fundadoras da ABAP. Por que a senhora resolveu participar desta associação? Quais são as atribuições da ABAP hoje?
RK: Na verdade eu criei essa associação. Um dia eu recebi do Manfredo Gruenwald, editor da revista Acrópole, uns livros: eram os anais de um congresso da Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas (IFLA). Até então eu não sabia da existência desse órgão internacional.
Isto ocorreu na década de 70 e me tornei membro individual. Esta categoria era possível em países que não fossem filiados à IFLA e havia o compromisso de criar a associação nacional e filiá-la à IFLA.
E então quando eu me associei e fiquei sabendo que neste mesmo ano, 1975, ia haver um encontro no Texas (EUA) e eu fui para lá. Chegando lá, eu encontrei pela primeira vez os membros da Federação Internacional. Conheci o Presidente que era um alemão, que morava em Portugal e também o Secretário Geral que era português. Este português pegou no meu pé: “Por que no Brasil não há uma Associação de Arquitetos Paisagistas?”. Então eu disse que não havia arquitetos paisagistas. E ele falou: “como você pode falar isso com o Burle Marx lá?” Então eu falei: “nem o Burle Marx é arquiteto paisagista”.
Eu prometi a ele que, chegando no Brasil, iria tentar montar uma associação, esta não iria ser de arquitetos paisagistas, mas de arquitetos que faziam paisagismo. E eu vim com essa missão. Quando cheguei aqui chamei as pessoas que eu sabia que faziam paisagismo.
Então foram: Francisco Riopardense de Macedo, professor de paisagismo em uma escola de arquitetura no Rio Grande do Sul, que tinha escrito um pequeno postulado sobre paisagismo. Chamei também uma moça do Pará, que também fazia projetos paisagísticos, algumas pessoas da Bahia, enfim, vieram todos e no mesmo dia foi criada a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP), com dezoito membros.
AAB / RP/ SR: Fernando Chacel estava entre eles?
RK: Não me lembro bem. Mas então foi criada a associação e no ano seguinte, em 1978, eu montei o Congresso Internacional da IFLA em Salvador, com essa precariedade de associação nós fizemos esse Congresso Internacional.
AAB / RP/ SR: E quais as atribuições da ABAP hoje em dia? A senhora acompanha a ABAP ainda?
RK:Acompanho sim. Eu não participo mais da diretoria. Felizmente, consegui estruturar a ABAP, fortalecê-la. Hoje existem a ABAP central e as ABAP’s estaduais, denominadas de núcleos regionais. A presidente da ABAP, hoje, é uma paranaense, chamada Letícia Hardt. O núcleo de Curitiba é muito importante, muito forte. A ABAP é membro da IFLA e do CAU também.
AAB / RP/ SR: Como a senhora situa o seu trabalho, a sua concepção de paisagismo em relação a profissionais como Burle Marx, Haruyoshi Ono, Fernando Chacel, Benedito Abbud e outros?
RK:São todos meus colegas e eu tenho muito respeito por todos eles. Vamos começar pelo Haruyoshi Ono. Haru, supostamente, seria o herdeiro de Burle Marx. Mas eu digo que o continuador da obra de Burle Marx, na verdade, foi Fernando Chacel, pelo conteúdo programático da obra do Roberto Burle Marx.
Roberto Burle Marx foi atrás da vegetação nativa, trouxe vegetação não-nativa; teve uma base muito forte da vegetação e o Chacel também. O desenho do Roberto é um desenho pictórico, ele era um pintor. Ele pintou quadros nos jardins, ele não pode ser imitado, ele não pode ser seguido. É como se você estivesse copiando um quadro dele. Pode-se adaptar certos critérios, infelizmente eu acho que o Haru faz isso, ele tentou dar continuidade ao trabalho de Roberto, o que eu acho um equívoco.
AAB / RP/ SR: Quais paisagistas lhe servem de referência quando a senhora precisa se inspirar para algum trabalho?
RK:Eu acho que já absorvi todas essas influências e o meu trabalho, hoje, tem uma força própria. Eu não me inspiro em nenhum paisagista.
AAB / RP/ SR: Como a senhora vê o paisagismo atualmente no Brasil?
RK:Eu vejo como muito promissor. Eu acho que é uma profissão que tem realmente que tomar fôlego e se organizar.
AAB / RP/ SR: A senhora tem algum projeto que já foi tombado pelos órgãos de preservação?
RK:Eu não tenho ainda nenhum tombado. Ainda não virei história.
AAB / RP/ SR: Recentemente, no Rio de Janeiro, o Parque do Flamengo, tombado pelo Iphan, foi declarado pela Unesco patrimônio da humanidade, na categoria de Paisagem Cultural. Como a senhora entende esta categoria “Paisagem Cultural” e como, na sua opinião, se tomba um projeto paisagístico?
RK: Existe uma matéria tão importante relacionada com esta questão de tombamento. É uma questão muito complexa para eu dizer quando um jardim ou um parque deve ser tombado. É muito complexo, eu não saberia te dizer.
Em relação à “Paisagem Cultural”, eu não entendo muito esta denominação. Todas as paisagens são culturais. No caso do Parque do Flamengo, pode-se entender que é um projeto de uma relevância muito grande, provavelmente um dos maiores parques urbanos existentes. Quando ele foi criado ele era o maior parque urbano que se tinha, e com a “grife” de Roberto Burle Marx.
AAB / RP/ SR: A senhora já teve experiência como docente, em cursos livres ou mesmo em cursos regulares em universidades? Quais foram essas experiências?
RK: Duas vezes eu fui professora regular em escolas de arquitetura, nas duas vezes foi para criar a “cadeira” de Arquitetura Paisagística.
A primeira foi na Mackenzie, foi quando a Ciça e o Michel Gorski foram meus alunos. Eu fui chamada para criar a “cadeira” de Arquitetura Paisagística e assim seguiram dois anos, depois eu saí.
E a outra vez foi em Curitiba. Quando foi criada a Faculdade de Arquitetura da PUC de Curitiba, um grande amigo me chamou. Ele era o diretor da faculdade, o curso estava chegando ao quarto ano e não tinha a “cadeira” de paisagismo. Então ele queria que eu desse aulas de paisagismo. Eu assumi o encargo de ir quinzenalmente para lá. O aeroporto era muito ruim, nunca tinha teto para o pouso dos aviões. Era um sacrifício.
Mas eu criei a “cadeira” e depois quem foi professor desta “cadeira” de paisagismo foi a Letícia Hardt, que hoje é presidente da ABAP, e o Orlando Busarello que, hoje, é o diretor do Núcleo Paisagístico Paranaense da ABAP. Ambos foram meus alunos e são profissionais excelentes, formados na PUC de Curitiba.
AAB / RP/ SR: Por que a senhora classifica o seu trabalho como “Arquitetura Paisagística”?
RK: Não existe essa profissão no Brasil, mas eu faço o que deveria ser feito por um Arquiteto Paisagista. Pois eu considero que sou uma Arquiteta Paisagista apesar de não ter o diploma. Eu tenho diploma de Arquitetura.
AAB / RP/ SR: Existe uma paisagem brasileira?
RK: Não, existem “paisagens brasileiras”. Pode-se citar vários grupos de paisagens. A paisagem do árido, da floresta amazônica, paisagem do cerrado, o pantanal... Por exemplo, a paisagem do pantanal “invade” outros países, como a paisagem do Rio Grande Sul que passa para o Uruguai. As paisagens não têm limites políticos.
AAB / RP/ SR: A senhora pode falar mais um pouco sobre essa questão da paisagem não poder ser limitada? Até que ponto se delimita um espaço? Como a senhora pensa essa questão?
RK: Eu nunca tive encomendas deste gênero. Mas eu já fiz um trabalho regional, onde existiam os limites políticos, mas as paisagens não se limitam. Uma paisagem poderia estar em três municípios; um município poderia ter cinco paisagens diferentes.
AAB / RP/ SR: A senhora acha que esta questão, sobre a existência de uma “paisagem brasileira”, é importante para os arquitetos paisagistas atualmente ou não?
RK: Eu acho que é uma questão muito importante sim. Se for buscar o Burle Marx, ele já tinha essa preocupação com a paisagem brasileira.
AAB / RP/ SR: Qual a idade da senhora hoje?
RK: 81 anos. Nasci em 15 de Outubro de 1932.
AAB / RP/ SR: E se formou em que ano?
RK: Eu me formei em 1955 na FAU/USP.
AAB / RP/ SR: Rosa, agradecemos muito a sua generosidade em nos conceder essa entrevista.
RK: Foi um prazer, também gostei muito.
Sesc, Centro Campestre, São Paulo, arquitetura paisagística de Rosa Kliass
Projeto Feliz Luzitânia, Belém, arquitetura paisagística de Rosa Kliass
Rosa Grena Kliass
Nascida em 1932, é uma das mais importantes arquitetas paisagistas em atividade no Brasil. Entre suas principais obras estão a Reurbanização do Vale do Anhangabaú e o Parque da Juventude, em São Paulo; o Parque do Abaeté e o Parque de Esculturas do MAM-Bahia, em Salvador; o Parque Mangal das Garças e o Projeto Feliz Luzitânia, em Belém; e o Parque do Forte – Complexo Fortaleza de São José, em Macapá.
Antônio Agenor Barbosa
Arquiteto e Urbanista, Professor do Departamento de História e Teoria da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (FAU – UFJF) e pesquisador associado do Laboratório de Antropologia da Arquitetura e Espaços (LAARES), vinculado ao Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.
Rachel Paterman
Mestre e Doutoranda em Antropologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA) do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ. Pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Arquitetura e Espaços (LAARES).
Stella Rodriguez
Antropóloga formada na Universidade Nacional da Colômbia, Mestre e Doutora em Geografia pela UFRJ e, desde 2012, atua como docente e pesquisadora de pós doutorado junto ao Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ. Pesquisadora do Laboratório de Antropologia da Arquitetura e Espaços (LAARES).
Entrevista
A entrevista com a arquiteta paisagista Rosa Kliass foi realizada pelo Skype no dia 28 de outubro de 2013 e gravada em áudio e vídeo.
Agradecimento
Os entrevistadores fazem um especial agradecimento à Arquiteta e Urbanista, formada pela FAU-UFJF, Carla Bernardes de Rezende e à estudante de arquitetura e urbanismo da FAU – UFJF Giulia Drumond, que de maneira muito criteriosa e dedicada fizeram a transcrição das quase três horas desta entrevista.
Parque do Forte – Complexo Fortaleza de São José, em Macapá