português A entrevista tematiza o ensino de Projeto de Arquitetura na FAUP: o que considera-se possível de ser ensinado na disciplina, qual o papel da criatividade, como ocorre a relação entre alunos e professores e a recepção do estudante no meio profissional.
english The interview´s theme is the teaching of “Architecture Project” in FAUP: what is considered possible to be teached, what is the role of creativity, how is the relationship between teachers and students, and their reception in the professional environment.
español La entrevista tiene como tema el ensino de Proyecto de Arquitectura de FAUP: lo que se considera posible de ser enseñado, cual es el papel de la criatividad, como ocurre la relación entre los maestros y estudiantes, y su entrada en el medio profesional.
como citar
Júlia Coelho Kotchetkoff.
“Entrevista com Maria Madalena Pinto da Silva”.
Vitruvius entrevista, ed. 16.063. 2015.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.063/5540
Maria Madalena Pinto da Silva, docente da FAUP.
Formada por mestres como Álvaro Siza, Fernando Távora e Alexandre Alves Costa, com os quais continuou trocando experiências nos 25 de docência na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, a Prof.ª Dr.ª Maria Madalena Pinto da Silvamuito contribui para a discussão acerca do ensino de Projeto de Arquitetura. Instituição reconhecida internacionalmente como referência em formação de arquitetos, a FAUP não só está abrigada em um edifício de Álvaro Siza como carrega as premissas deste e de outros distintos arquitetos que participam de sua história, tais como, entre outros, Eduardo Souto de Moura, Nuno Portas, Alcino Soutinho e Sérgio Fernandez. A entrevista com a professora, cadeira da disciplina de “Projeto” na graduação e de “Projeto e Tese” no doutoramento, revela a ligação dos conceitos de arquitetura defendidos pelos mestres e o desenvolver da escola como um todo, vinculando a discussão com o ensino de “Projeto” em particular. Seu relato pode basear discussões que relacionem Portugal e Brasil no tópico em questão, demonstrando quais as diferenças dentro de sala de aula e no momento da transformação do aluno em profissional.
A entrevista foi uma contribuição para o desenvolvimento do trabalho de mestrado da entrevistadora, o qual circunda o tema do ensino de projeto de arquitetura, tratando especificamente do que é passível ou não ser ensinado, e como isso se efetua. A conversa fez parte também de um programa de intercâmbio realizado pela professora junto ao Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (IAU-USP), durante o qual ministrou aulas na graduação, na mesma disciplina em que atua no Porto, “Projeto” para o segundo ano, e na pós graduação. A entrevista divide-se incidindo primeiro na formação da arquiteta, tratando depois de sua atuação docente e por último explicitando suas convicções sobre a questão da entrada do aluno no mundo profissional.
Relação do edifício com o sítio - Trabalho de Rita Câncio para a disciplina de Projeto 2 na FAUP.
Júlia Kotchetkoff: Como você descreve sua formação em projeto de arquitetura? Poderia discorrer sobre como eram estruturadas as aulas, os exercícios, qual era o papel e atuação de seus professores?
Maria Madalena Pinto da Silva: Entrei na Escola Nacional Superior de Belas Artes em 1972, antes da Revolução de 25 de Abril de 1974. Imediatamente depois do 25 de Abril, foi uma altura muito marcada (e muito importante) pela intervenção da escola no exterior, nos movimentos de associação de moradores na luta por habitação digna e pelo direito à cidade.. Nos anos seguintes a prática de projeto voltou-se novamente para as questões académicas nunca se esquecendo, contudo, a experiência dessa abertura da Escola para o exterior. Porque arquitetura é um ato social. Fundamentalmente, o ensino de arquitetura não pode ser unicamente dirigido aos alunos, professores, escola, sobre as matérias, e as disciplinas: deve-se perceber que o arquiteto não vai resolver nada sozinho, mas faz parte de um sistema que pode ajudar e contribuir para uma cidade melhor, mais livre.
Mas em relação ao ensino de projeto, uma das coisas que caracterizava, e ainda hoje caracteriza a nossa escola, é uma relação muito grande com o lugar, com o sítio onde se vai projetar. Nunca tive nenhum projeto, enquanto aluna, que fosse para um lugar utópico, um lugar indeterminado, um sítio sem lugar. Era sempre em função de um lugar específico, um lugar que se podia visitar, percebendo quais eram as pré-existências, percebendo tudo o que envolvia, a sua história, as suas capacidades de transformação. Portanto, este fator constitui uma das primeiras questões.
Depois outras questões que são determinantes no ensino de projeto é a capacidade de se entender que o projeto não vive só de si, isto é, o ensino de projeto vive também, e em meu tempo isso era muito visível, das outras disciplinas. A construção era dada sobre o projeto, e história e teoria contribuíam para a sua concepção e execução, para o entendimento do próprio projecto. O desenho era também dado em cima do projeto.
Depois a nota era a mesma: a nota que se tinha em projeto era a nota que se tinha em todas as outras disciplinas. Hoje é um bocado diferente...
Portanto, enquanto aluna, considero que o que foi importante para mim não foi tanto a bagagem específica nesta ou naquela disciplina, mas a formação com que saí da Escola Superior de Belas Artes, aliás, e naquele aspecto, penso que hoje os alunos saem melhor preparados do que nós saímos. Mas o que ficou, de facto, foram as coisas fundamentais. Isto é, num período em que Portugal era um país muito promissor, que tinha um futuro muito aberto e grandioso, a escola estava inserida nesse processo. Depois, o ensino era muito gracioso, não era pesado, tudo era encantatório. No entanto, a homogeneidade que se supõe existir então não existia, mas os professores comungavam todos em uma paixão muito grande pela arquitetura, pela cidade, pelo ensino, quase todos pelo ensino. E portanto eu tive o privilégio de ter como professores algumas das pessoas que ainda hoje são os pilares fundamentais da nossa escola. Portanto, isso são ensinamentos que não são mensuráveis, não estão nesta ou naquela disciplina, é um espírito de escola, que não se pode limitar a dizer: na disciplina de tal, tive tal, não, é uma questão mais geral e mais essencial. Portanto, não vou remeter para o que era o ensino de desenho, ensino de projeto, ensino de construção, algumas disciplinas que nem sequer me recordo o nome. O que me ficou, e eu acho que ficou em todos nós, foi esta capacidade de sabermos olhar e conseguir ver e perceber; nos interrogarmos sempre; sermos curiosos, querermos saber. Fernando Távora foi fundamental em relação a esta abertura, para nós percebermos que as questões são complexas, mas ao mesmo tempo são simples. E temos é
que ser genuínos, procurar as coisas e interessar-nos, apaixonar-nos, e, ao mesmo tempo, não limitarmos a intuição em nós. Quer dizer, sermos capazes de refletir sobre as coisas, nunca deixar de ser quem somos mas ter cuidado com os outros, sendo que esta procura do que sou, do que faço, como faço, é fundamental.
Portanto, mais que estar a discorrer sobre como era o plano de estudos, o que fica é isto, é uma formação que contribuiu para a compreensão da arquitetura como contributo para o avanço de uma sociedade, em relação a um futuro melhor, mas também como disciplina autónoma e como ofício com as suas particularidades e circunstâncias.. E depois outra coisa fundamental que se vai aprendendo com os professores, enquanto alunos, mas depois vai se aprofundando como professor, é esta relação sempre intrínseca de arquitetura, cidade, e território.
Relação do edifício com o entorno, em maquete - Trabalho de Rita Câncio para a disciplina de Projeto 2 na FAUP.
Júlia Kotchetkoff: Enquanto docente e arquiteto, você acredita ser possível ensinar projeto? E o que pode ser ensinado?
Maria Madalena Pinto da Silva: Possível é, porque ensina-se. Os alunos, quando entram, entram com uma determinada formação, uma capacidade de fazer, e quando saem essa capacidade é melhor. Portanto alguma coisa ficou, alguma coisa foi apreendida, ou aprendida, ou ensinada. Outro dia (Aula Magna de Paulo Mendes da Rocha, com o tema “Arquitetura, Cidade, Natureza”, realizada em São Carlos por meio da IAU-USP), Paulo Mendes da Rocha dizia que arquitetura não se ensina, aprende-se. Não sei se é verdade, quer dizer, quando se aprende é porque alguém ensinou, agora como é que se ensina? O que acho que isto quer dizer é que não há uma metodologia rigorosa de ensino de arquitetura, não há uma sebenta (apostila), um tratado em que se diga “ensina-se arquitetura assim”.
Eu dou aulas há 25 anos, e para além de atualmente também dar aulas em doutoramento e pós graduação, dei sempre “Projeto” do segundo ano. E mesmo quando sou regente da disciplina, que os regentes de projeto da nossa faculdade normalmente não têm turma, dou aulas e tenho turma. Porque o que mais me encanta é mesmo a relação entre professor e aluno, e a maneira com que se vê o projeto nascer e ser desenvolvido, portanto, quando se diz que o projeto “não se ensina, aprende-se”, o que eu acho que se está a tentar dizer, é que não há uma forma de ensinar projeto. Grassi tem uma frase que eu cito muitas vezes aos alunos, onde diz que o mais importante não é ensinar os alunos a fazer belos projetos, é pô-los a pensar. E uma das coisas mais importantes, não é só pra quem ensina projeto, é pra quem ensina qualquer coisa, é pôr as outras pessoas a pensarem, questionarem, se interrogarem. Em projeto, não há, eu penso, receitas, portanto não há formas ortodoxas, rigorosas, unidirecionais de fazer. Mas há um modo, dentro de um processo maiêutico, que é de extrair do aluno aquilo que ele realmente pode ser, no qual ele começa a perceber o que é que pode genuinamente fazer. Vou me recorrer doutra frase (de Gaudí), que um dos meus orientadores do doutoramento, Carlos Martí Aris, recorria-se muitas vezes, que diz que a ciência aprende-se com princípios, e a arte, entre as quais a arquitetura, com exemplos. Eu acho fundamental dar exemplos aos alunos porque eles conseguem fazer analogias, ter afinidades com o que estão a fazer, sendo que a história da arquitetura são os exemplos da arquitetura. Portanto, busca-se sempre informar os alunos, mas não de uma maneira desinteressada ou acumulativa: sempre em função daquilo que é questionado, dos problemas que têm. Tenta-se exemplificar sempre, porque é mais fácil perceber-se as coisas, e é mais fácil perceber inclusive o próprio projeto, quando se começa a relacionar com outros afins ou análogos.
Relação do edifício com o entorno, em desenho - Trabalho de Rita Câncio para a disciplina de Projeto 2 na FAUP.
O professor de Projeto deve fornecer informações que ajudem o aluno a superar os problemas sucessivos que vão sendo colocados. Problemas muito precisos e específicos que despois de identificados e avaliados serão resolvidos através da aplicação crítica e selectiva de uma solução escolhida entre as várias possíveis. Esta capacidade de eleição ou escolha é fundamental na aprendizagem, traduz uma forma de conhecimento crítico que importa sedimentar. O mais importante é que o aluno descubra a sua própria maneira de começar a ver a arquitetura e, ao mesmo tempo, a perceber como é que a formas se criam, porque arquitetura cria formas, faz espaço. Para isso é importante também pedir aos alunos para investigarem, começarem a ver com que arquitetos ou com que obras da arquitetura, é que se identificam e porquê. Porque esta procura de identificação, de verificação, também ajuda a perceber o ato de
projetar, contribuindo para a sua evolução. Portanto, o ensinar projeto passa por ter um entendimento do que é a arquitetura. E a arquitetura primeiro é um ato social, mas a arquitectura cria formas, produz espaço. Fernando Távora dizia que o arquiteto era fazedor de espaço e criador de felicidade. Netse sentido, o arquiteto, como sempre foi dito na nossa escola, não é um especialista. Não é um especialista mas é-lhe exigido a capacidade de perceber que o importante é uma interdisciplinaridade que una várias áreas, várias pessoas, várias matérias, contribuindo ele próprio com o seu próprio saber.
Maquete de produto final - Trabalho de Rita Câncio para a disciplina de Projeto 2 na FAUP.
Júlia Kotchetkoff: Considera que o modo de projetar durante a vida profissional, e a atuação como arquiteto em geral, é reflexo, continuidade da formação na universidade ou há uma ruptura?
Maria Madalena Pinto da Silva: Durante o ensino de projeto, durante os seus seis anos normais de curso, os alunos vão percebendo o que é a realidade. Precisamente essa relação muito peculiar, mas ao mesmo tempo muito rigorosa com o sítio, com as condicionantes, com os regulamentos, eles vão construindo uma aprendizagem que, apesar ser um faz-de-conta fazendo arquitetura, há determinadas questões que nós não deixamos de fazer. Portanto, nós tentamos seguir algumas regras, alguns regulamentos, algumas questões que eles vão ter na prática do dia-a-dia quando chegarem lá fora. Portanto, em relação àquilo que é possível ou não é possível fazer, eles já são mais ou menos ensinados. Não vão achar que tudo é possível. Depois, em relação àquilo que sabem, e àquilo que têm que mostrar que sabem, para fazer e para construir, normalmente não têm problemas. Aliás antes pelo contrário, nós temos um feedback que nossos alunos se adaptam muito bem, porque têm uma capacidade muito grande de trabalho. Portanto, não sinto que os alunos, quando chegam lá fora como profissionais, que tenham problemas. Antes por contrário, e em diversas áreas, porque cada vez vemos mais que o aluno que se forma em arquitetura é capaz de diversificar, o seu campo profissional não é só fazer arquitetura. Há quem vá para o ensino, para câmaras, os que não fazem arquitetura, mas fazem gestão, ou há quem se dedique ao planejamento, há quem se dedique ao cinema, no teatro ou ao design, quer dizer, há áreas de outras artes que naturalmente podem abarcar, anexar no seu seio um arquiteto. Cada vez vemos mais capacidade, precisamente por não sermos especialistas. E precisamente por quem escolhe arquitetura já ter esta vontade de ambular pelas artes e auto referenciar-se em cada uma delas, ou numa especificamente. E portanto a notícia que vamos tendo costuma ser sempre do sucesso, mesmo internacionalmente.
Aliás, a dificuldade atual não será tanto a competência dos nossos alunos depois de saírem da faculdade, mas a dificuldade de encontrarem trabalho no nosso país. O que cria a obrigação de deixar o seu país, não como escolha, mas como única possibilidade de trabalho e sem saberem quando ou em que condições poderão regressar para fazerem o que amam fazer e para o qual estão preparados.
Atelier de Projeto da FAUP, com os trabalhos dos alunos.
Maria Madalena Ferreira Pinto da Silva
Arquiteta e docente da Faculdade da Universidade do Porto (FAUP) desde 1990, foi diplomada pela ESBAP em 1979 e doutorada pela FAUP em 2009 com a tese “Forma e Circunstância: a praça na cidade portuguesa contemporânea”. Também é investigadora do CEAU-FAUP. Esteve no IAU-USP de Agosto a Novembro de 2014, em intercâmbio acadêmico financiado pela CAPES, onde lecionou na graduação e pós-graduação.
Júlia Coelho Kotchetkoff
Graduada no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP (IAU-USP) é pesquisadora de Mestrado no mesmo instituto, bolsista CNPq desde Abril de 2014. Trabalha com o tema do ensino de Projeto de Arquitetura, sob a orientação do Prof. Dr. Joubert José Lancha e desde dezembro de 2014 sob a co-orientação da Prof.ª Dr.ª Maria Madalena Pinto da Silva.
Entrevista
A entrevista – publicada originalmente na revista Pós, da FAU-USP, volume 22, n. 37, jun. 2015 – foi realizada no dia 02 de Setembro de 2014, na oportunidade de intercâmbio docente da entrevistada no Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP-São Carlos. O foco foi fomentar a contribuição da docente neste programa, assim como contribuir para a pesquisa de mestrado em curso da entrevistada.