português Nesta entrevista, Renato Viégas fala sobre sua formação, o início da carreira e seus dilemas, a opção pelo trabalho no Estado e as possibilidades de realizar grandes obras de infra-estrutura em São Paulo
O arquiteto Renato Pires de Carvalho Viégas (1943) com apenas 4 anos de formado foi trabalhar na área de transporte público, onde se destacou como Coordenador da Equipe de Projetos de Arquitetura, Gerente de Operações e Gerente de Projetos da Companhia do Metrô; Gerente de Projetos e Gerente de Planejamento na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – CPTM; Diretor de Planejamento do Metrô; sendo atualmente Coordenador de Planejamento e Gestão da Secretaria dos Transportes Metropolitanos de São Paulo – STM.
Nesta entrevista, Renato Viégas fala sobre sua formação, o início da carreira e seus dilemas, a opção pelo trabalho no Estado, as possibilidades de realizar grandes obras de infra-estrutura em São Paulo e a sua concepção do que deve ser o papel do arquiteto na cidade.
Esta entrevista faz parte do exercício Entrevista com arquitetos, realizado para a disciplina História da Técnica e da Arquitetura III da Escola da Cidade. O objetivo do exercício é investigar as mudanças ocorridas na formação e atuação dos arquitetos desde os anos 1950, a partir de entrevistas com profissionais que trabalham com arquitetura e urbanismo em grandes, médias ou pequenas empresas, públicas ou privadas, com design gráfico, design de objetos, história, crítica, fotografia, cenografia ou outras atividades correlatas que revelem as possibilidades e a diversidade da profissão no país.
Renato Viégas
Terminal Intermodal do Tietê. Arquitetos Renato Viégas e Roberto Mac Fadden
Clarissa Turim Jerez: Como e porque você decidiu ser arquiteto? A sua família, sua infância e adolescência, influenciaram na escolha? E a construção de Brasília?
Renato Viégas: Foi uma decisão tomada entre os 12 e os 14 anos. Eu gostava de desenhar, tinha curiosidade pelas artes plásticas, principalmente pintura. Na casa vizinha à nossa, morava a Renée Lefévre, pintora, que tinha laços com a família e me dava aulas. Dentre as artes plásticas a que tinha caráter de profissão era a arquitetura, vem daí minha opção. Por outro lado, meu pai era também jornalista, interessado em política (foi fundador do Partido Socialista) e nas questões culturais. Era maranhense, com grande ligação com a terra natal. Era um leitor ávido e escrevia sobre teatro e cinema. A construção de Brasília recolocou o foco no papel, muito afirmativo, de nossa arquitetura moderna: Capanema, Lucio Costa, Niemeyer, JK, Manuel Bandeira e o nosso Barroco, figuravam nas conversas de casa. Meu pai gostou de minha escolha profissional.
CTJ: Como foi a sua formação como arquiteto no Mackenzie? Como a faculdade se estruturava?
RV: Eu não fui um aluno muito aplicado. Freqüentava pouco as aulas. As turmas eram muito grandes, com cerca de 100 alunos. Eram divididas em grupos menores para certas aulas práticas e outros maiores para as teóricas. As disciplinas eram ministradas como conhecimentos isolados, não havia nem tentativa de evidenciar qualquer interdisciplinaridade. Um número enorme de cadeiras, ministradas com o máximo de desinteresse. Mas eu freqüentava a biblioteca da FAU, que ficava na Rua Maranhão, ao lado do Mackenzie e bem cedo comecei a trabalhar para alguns, então jovens, arquitetos, como o Décio Tozzi e o Ruy Ohtake.
O Ruy tinha um escritório na Barão de Itapetininga, junto com outros arquitetos. O grupo pegou uma série de escolas para o FECE (Fundo Estadual de Construções Escolares) – lembro-me de haver desenvolvido também as do Helio Penteado e do Julio Katinsky, além das do Rui. Esse escritório havia sido do (Carlos) Millan e lá vi os desenhos originais, em vegetal, de um projetista lendário – creio que se chamava Lamadrid. Eram maravilhosos. Trabalhei também como estagiário, a partir do 4° ano, com os arquitetos Rubens Carneiro Viana e Ricardo Sievers. A Sociedade chamava-se PROURBA e ficava no último andar do prédio do IAB. Eles me admitiram para desenvolver o Plano Diretor de Valinhos. Eu teria que me responsabilizar sozinho por ele e administrar a verba que reservavam para isso. Eu contava com o trabalho do excelente projetista, que era sócio deles – chamava-se Dito (Expedito Póroa).
Em função inclusive da carência de recursos, desenvolvi um método participativo com a criação da Comissão Local de Planejamento, composta por funcionários da prefeitura e pessoas representativas da vida municipal.
Ia para Valinhos toda 2ª, repassava o que havia sido realizado na semana e me reunia com a Comissão à noite.
Fiquei amigo do Ricardo e do Dito e acabei me envolvendo em outros projetos do escritório, entre eles o Cetenco Plaza, na Avenida Paulista.
CTJ: Havia troca entre os alunos da FAUUSP e do Mackenzie: Isso foi importante na sua formação?
RV: Certamente com os da FAU, e também com os da USP da Maria Antonia e de outras faculdades do próprio Mackenzie. Era muito presente a preocupação com a arquitetura como fenômeno cultural, vis-a-vis a outras áreas de conhecimento. Era comum a constituição de escritórios de estudantes. Acabava por reunir amigos da própria escola. Os escritórios eram muito próximos uns dos outros. Viravam pontos de encontro.
CTJ: Quais foram os professores que mais te marcaram?
RV: Entre os de projeto, os arquitetos Telésforo Cristofani e Salvador Candia. Este, que vivia as 24 horas do dia para a arquitetura, chorou durante a aula, ao falar sobre Le Corbusier, no dia de sua morte.
Tive dois bons professores de desenho como expressão (a cadeira era assim chamada), o Ubirajara Ribeiro e o Wesley Duke Lee. Para apreender os conhecimentos do Bira precisava se aproximar dele, ir em suas exposições de pintura, bater papo em grupo menor. O Wesley já dava aulas particulares para o Aieto Manetti, que veio a ser meu sócio, o Carlos Fajardo e o José Resende, todos da minha turma. Ele reduziu o grupo aos que tinham interesse pelo tema, dispensou os restantes e não atribuía notas. Da observação dos desenhos de cada aluno extraia referencias, recomendava consultas, abria caminhos para você desenvolver sua expressão. Com seu incentivo organizamos um festival de filmes sobre grandes artistas – documentários magníficos, do acervo da Cinemateca de São Paulo, raramente exibidos para qualquer outro público.
Terminal Intermodal do Tietê, implantação. Arquitetos Renato Viégas e Roberto Mac Fadden
Clarissa Turim Jerez: Como foi sua inserção no mercado de trabalho?
Renato Viégas: Complicada. Ia dizer que foi assim para a minha geração. Creio que todas têm suas encrencas. E também não é a mesma coisa para todos.
Entrei na escola sonhando com o trabalho de profissional liberal, com escritório próprio.
Nem bem terminei o 1° ano e veio o golpe de 64. Nos primeiros meses houve muito exibicionismo de truculência, até mesmo dentro da universidade – depois arrefeceu.
O golpe assumiu sua fase mais tenebrosa a partir de 68, poucos meses após minha formatura.
Em contrapartida houve uma gradação ascendente na importância da participação política, que chega à resistência armada, como opção, eclipsando a prática da arquitetura.Ao me formar montei escritório com mais dois remanescentes do ateliê estudantil – o Roberto Mac Fadden e o Aieto Manetti. A nós juntou-se o Waldemar Hermann, um pouco mais velho, que havia sido do grupo do Sergio Ferro e do Rodrigo Lefévre. Não chegamos a formalizar a sociedade. O escritório mantinha um certo espírito amador. Emprestávamos o espaço a uma equipe de estudantes, em fim de curso, para desenvolver o projeto que iria representar o Mackenzie na Bienal de Arquitetura. O orientador era o Rodrigo Lefévre. Participávamos, também, das discussões.
Nessa época o escritório desenvolveu o Plano Diretor para Valinhos, agora completo, contando então com consultoria do Engenheiro Celson Ferrari – professor de urbanismo. O trabalho havia sido repassado pela PROURBA. Chegamos também a ter duas pequenas casas construídas. Para pagar as contas, dava aulas. No IADE, de projeto e desenho, e na FAAP no curso de Comunicação. O IADE era uma escola de 2° grau que pretendia transformar-se em técnica. Os cursos da FAAP não tinham uma estruturação muito clara. Os alunos do 3° ano (o penúltimo), já segmentado em várias especialidades (jornalismo, cinema, rádio e TV, etc.), reuniam-se todos só para a minha aula. A cadeira tinha a estranha e imprecisa denominação de Comunicação Visual e Oral. Então inventei desenvolver, em grupos, um trabalho sobre a linguagem da cidade tendo como fulcro o livro do Henri Lefebvre – O Direito à Cidade. No começo de 71, nasceu meu 1° filho. Precisava dar uma guinada na vida. Decidimos fechar o escritório, deixei de dar aula no IADE e fui procurar emprego. O Metrô estava formando seus quadros técnicos e era uma boa alternativa. Abria a possibilidade de trabalhar, em equipe multidisciplinar, na modernização e expansão da infra-estrutura do país. Procurei o recrutamento, passei por dois dias de psicotécnicos e fui admitido. Em meu currículo constava a atuação como professor de Comunicação da FAAP. A vaga era para desenvolver projetos de Comunicação Visual. Na verdade nada tinha a ver com o curso que eu dava na FAAP.
Desenvolvi, assim, no início de minha carreira no Metrô, o projeto de Comunicação Visual para a Linha 1 – Norte / Sul. Havia um projeto básico de autoria do Ludovico Martino e do João Carlos Cauduro e um contrato com uma empresa com sede em Chicago, que havia elaborado o projeto para o Metrô de Milão, recém inaugurado. Com isso fiz minha primeira viagem internacional e passei 10 dias nos Estados Unidos. Participei da elaboração final do projeto. Nossa indústria encontrou uma série de dificuldades técnicas na produção de algumas peças, o que me levou a redesenhar várias delas: os marcos das estações, as luminárias de plataforma, as bilheterias e outras.
Fui convidado a trabalhar nessa empresa de Chicago, a Unimark. Recebi uma boa proposta, mas acabei recusando.
Residência Jardim das Bandeiras. Arquiteto Renato Viégas
ERPLAN Marília, elevação Oeste
Clarissa Turim Jerez: E como foi a seqüência do seu trabalho no Metrô?
Renato Viégas: Quando cheguei no Metrô, em agosto de 1972, o Departamento de Arquitetura cuidava, basicamente, da análise dos projetos elaborados pelas empresas de consultoria. Logo após começaram a surgir necessidades novas, como os Terminais de Integração, e outros pequenos projetos – programas não previstos pela HMD (Hochtief, Montreal e Deconsult), consórcio que concebeu o metrô de São Paulo.
Comecei a estudá-los e fui autorizado a convidar alguns colegas para ingressar no departamento, agora com essa mudança de perfil. Veio o Roberto Mac Fadden, que havia sido meu sócio, e a Meire Selli, outra colega de Mackenzie.
Começamos então a pensar na linha Paulista e também na Leste-Oeste. Esta com poucos recursos, ainda sem topografia. O José Paulo de Bem, que já estava no Metrô, também começou a pensar nas estações para essa linha.
O ritmo do trabalho de repente arrefeceu. Coincidentemente, em 1975, um amigo de ginásio, o escritor O. C. Louzada Filho, me convidou para trabalhar em sua empresa. Pretendia construir e vender, com recursos próprios. Além de responsável técnico eu iria montar uma área de projeto – voltada para a elaboração de outros que não os da construtora. Foi quando participei do concurso para sede do ERPLAN (Escritórios Regional de Planejamento) de Marilia. Foi um concurso bastante concorrido. Previam-se sedes em mais algumas outras cidades. Não havia um há muito tempo. Os premiados ficaram expostos na FAU. Fiquei em 2° lugar. Projetei e construí uma série de residências. O projeto mais interessante foi um conjunto habitacional em alvenaria auto portante. Uma mesa moldada em loco, deixando o térreo livre, com mais 3 andares. Foi realizada uma pesquisa de mercado pela FGV. Seria destinado a operários da região – era próximo à Av. Nossa Senhora do Sabará. No terreno ficava o depósito da empresa. Já havia dado entrada na prefeitura quando a empresa decidiu mudar de rumo. Estávamos em 77. Fui procurar emprego na Promon. O pessoal do Metrô soube e me convidou para voltar.
Conjunto Habitacional, elevação. Arquiteto Renato Viégas
Terminal Rodoviário do Tietê. Arquitetos Renato Viégas e Roberto Mac Fadden
Clarissa Turim Jerez: Quais os motivos que levaram a Companhia do Metrô a adotar o concreto armado na linha Norte-Sul e um sistema misto na Leste-Oeste? Quais os projetos de metrô e ferrovias que serviram de inspiração para o desenvolvimento destes projetos?
Renato Viégas: A Norte-Sul teve um arquiteto responsável a dar o tom de conjunto. Foi o Marcelo Fragelli. Com ele trabalhou uma equipe. Cada arquiteto deve ter assumido o projeto de uma ou mais estações. Conforme depreendi, ele procurou unificar a linguagem acentuando a condição de obra subterrânea, cavernas modernas, estruturadas pelo concreto. Quando retornei ao Metrô, em 77, um dos primeiros projetos que elaborei foi para a Rodoviária Tietê, juntamente com o Roberto Mac Fadden, ao lado da estação metroviária, de autoria do Fragelli. O projeto se desenvolve em torno de um eixo que dá continuidade às rampas de acesso à estação – o projeto se explica em um corte. O inicio do projeto da Leste-Oeste coincidiu com esse período em que eu estava fora do Metrô. Mesmo fora acompanhei os trabalhos. Meus amigos ainda estavam lá. Ao contrário da Norte-Sul, a Leste-Oeste foi totalmente concebida e desenvolvida pela equipe interna da Companhia do Metrô. O Mac Fadden, que respondia pela arquitetura no grupo responsável pela concepção, pensou na utilização de um sistema pré-moldado, em concreto, utilizando a própria via na distribuição das peças, a partir de uma área de produção centralizada. A decisão de dividir a obra em lotes tornou difícil conciliar os métodos de diferentes empreiteiras com essa produção centralizada. O que acabou ocorrendo foi uma adaptação do projeto básico no desenvolvimento do executivo. Durante essa fase surgiram, no mercado nacional, as estruturas espaciais. Versões caboclas da Mero, alemã, de custo mais baixo. Acabou por transformar-se numa imposição, para as coberturas, tendo como justificativa menor custo e prazo. Retornei, em 77, a tempo de coordenar a equipe de arquitetura, enquanto ainda eram desenvolvidos alguns novos projetos. Não só para adequar o uso das estruturas metálicas, como também em função da necessidade de reimplantar algumas estações em novas posições.
Foi então que concebi o projeto da estação Itaquera, desenvolvido juntamente com a Meire. O projeto anterior havia apresentado problemas no traçado e interferência com grandes dutos da Petrobrás. Era composto por dois blocos: uma estação para a ferrovia e outra para o Metrô, ambas à meia encosta, unidas por uma passarela.
O projeto implantado desloca o conjunto, então unificado, para o fundo do vale. Eleva mezanino e plataforma, criando uma praça, circundada pelo terminal de ônibus – o que permite acesso direto e coberto às estações.
CTJ: Quais os maiores desafios nas estações da linha verde, principalmente no sub-trecho da Avenida Paulista?
RV: Projetar o trecho da Paulista foi uma experiência muito interessante. O projeto nasceu do empenho de um pequeno grupo, que mesmo trabalhando à revelia da direção acabou por envolvê-la e chegou à proposta que foi depois implantada.
Eu, Roberto Mac Fadden e Eduardo Hotz, que havia indicado para me substituir quando deixei o Metrô em 75, juntamente com o Afonso Vergueiro Lobo, um engenheiro com muito conhecimento dos métodos construtivos, formamos o núcleo básico do grupo. Com o apoio do Peru (Urbano Fonseca), um desenhista que fazia o papel de factótum e do eng° João Carlos Coelho Rocha, que procurava garantir condições de trabalho. Para dar conta das demais disciplinas juntavam-se outros técnicos, conforme a necessidade. Acabamos por desenvolver três alternativas com métodos construtivos diferentes.
Com muito pouco recurso fizemos um volume, tamanho A3, na base do xerox, com muitas imagens, ante projetos completos, custos, prazos e todas as informações importantes. As cópias também só podiam ser em xerox. Não havia computador. Creio que restou um original na biblioteca do Metrô. Tenho uma cópia reduzida. Gosto desses projetos. São muito compactos, econômicos em todos os sentidos – resultado de uma relação muito próxima entre todos os conhecimentos envolvidos.
Desenvolvi com a Promon a Estação Consolação. Infelizmente, o projeto do acesso na esquina da Avenida Consolação foi modificado. Gostava de sua interface com o meio urbano. A estação também foi modificada, enquanto eu estava fora do metrô. Foi uma solicitação da empreiteira. Devo dizer que fui consultado pelo arquiteto João Batista Martinez Correa, da Promon. Muito elegantemente, solicitou autorização para fazer uma modificação na estrutura, sem afetar o restante. Gostava mais de meu projeto. Esse grupo original não desenvolveu o detalhamento. Importante é que o projeto levou a uma obra, por método não destrutivo, sem interferência com a vida urbana. Inovou no método de construção dos acessos – ponto de ataque ao restante da obra. Utilizou a enfilagem, que permite obras muito rasas.
Estação Itaquera. Arquitetos Renato Viégas e Meire Selli
Estação Itaquera. Arquitetos Renato Viégas e Meire Selli
Clarissa Turim Jerez: Como se deu a integração dos transportes da CPTM com o metrô?
Renato Viégas: Trabalhar pela integração e expansão da malha sobre trilhos creio que é hoje uma das tarefas mais importantes para a vida da metrópole – é, atualmente, o que mais me motiva e traz satisfação. O PITU 2020 (Plano Integrado de Transportes Urbanos para o ano de 2020) ao tratar de todos os aspectos relacionados à estruturação dos transportes metropolitanos, destacou a importância da rede metroferroviária ao destinar mais de 70% dos recursos previstos para o sistema sobre trilhos. É o mais econômico no uso do espaço urbano e não compete no viário, já tão congestionado. Vários estudos anteriores apontavam para a necessidade de recuperar a ferrovia de subúrbio e integra-lá ao Metrô. A malha da CPTM está muito bem assentada em relação à Região Metropolitana – percorre todas as áreas mais densamente habitadas. Afinal, a cidade cresceu com a ferrovia. As empresas operadoras (Metrô e CPTM) iniciaram o desenvolvimento de seus planos, tomando o PITU como norte, no final de 99. Nessa época fui convidado a ingressar na CPTM, como Gerente de Planejamento, para elaborar o Projeto Funcional de modernização de sua malha. Estabeleceu-se como objetivo elevar todos os seus 250 km de linha ao padrão de serviço prestado pelo Metrô. Com o intervalo fixado em 3 minutos foi possível dimensionar todos os demais sistemas, incluindo as estações. O Projeto Funcional apresentou, então, uma relação custo / benefício altamente favorável à sua implantação. Como expansão pensou-se em uma nova linha para servir o vetor noroeste. Alcança a única região não atendida pelo Sistema Sobre Trilhos, mesmo tendo Guarulhos como o segundo município do Estado em população. Trata-se do Expresso Aeroporto / Trem de Guarulhos, empreendimento cuja sinergia na implantação conjunta dos dois serviços vai dar a São Paulo também uma ligação ferroviária de alta qualidade, entre o centro e seu principal aeroporto. O Projeto Funcional desenvolveu, também, estudos sobre a viabilidade de serviços expressos. O primeiro a ser implantado foi o Expresso Leste. Consistiu basicamente na incorporação pela CPTM de 3 estações, a leste de Itaquera – construídas originariamente como extensão da Linha 3 do Metrô. Foram, então, criados dois serviços: Um parador, operado pelo Metrô, e um outro muito mais rápido, expresso, operado pela CPTM. O sucesso foi enorme, confirmando a grande demanda reprimida da ferrovia. Com base nessa experiência o Projeto Funcional prevê, como prioritária, a implantação do Expresso ABC, ligando esta região diretamente ao Centro.
Nesse processo de recuperação da ferrovia foi muito importante a construção da linha C – aquela que margeia o Rio Pinheiros. Foi a primeira Linha a exemplificar o que pode vir a ser a ferrovia modernizada. Estava respondendo pela Gerencia de Projeto da CPTM, em 94, cedido pelo Metrô. Encontrei lá um projeto pronto, sem as qualidades necessárias para estabelecer um novo padrão. Desenvolvemos então uma nova concepção. Os equipamentos de acesso e salas operacionais deveriam ficar concentrados aquém do viário marginal ao rio. Isso permitiu reduzir o mezanino de distribuição, além da passarela sobre o viário, a uma área mínima, abrigada por uma grande cobertura, sem a necessidade de vedos de proteção – uma construção leve, diáfana, sem obstáculos à vista para o rio. Em 2006, quando ocupava o cargo de Diretor de Planejamento do Metrô, foi editada sua Rede Essencial – proposta que veio a fazer parte do PITU 2025. Sintetiza o que vem sendo pensado sobre a integração dos sistema sobre trilhos.
À ferrovia, que tem velocidade comercial maior que o Metrô, cabe atender as viagens mais longas, cuja maioria tem destino direto ao centro – sem seccionar o percurso destes usuários, o que seria irracional e penoso. Ao Metrô caberia o papel distributivo e complementar, às viagens com destino à área mais central, do ponto de vista metropolitano. Seria sua função garantir maior acessibilidade, à toda população, a essa área, mais congestionada, que contempla taxas elevadas de viagens, emprego e habitação. Estão aí, também concentrados, os locais singulares de lazer, cultura, comércio e serviços. O conjunto terá seu desempenho ampliado se acompanhado de políticas voltadas para o adensamento dessas áreas mais centrais, com mais habitação, evitando o espraiamento, já excessivo, irracional, perdulário e insustentável da mancha urbana.
Estação da linha C da CPTM
Residências Indaiatuba. Arquitetos Renato Viégas, Fernando Viégas e Cristiane Muniz
Clarissa Turim Jerez: Além da Companhia de Metrô você trabalha em algum escritório ou outra companhia atualmente?
Renato Viégas: Não. Desde que assumi o cargo de diretor não tive mais tempo, não me pareceu muito adequado. A disponibilidade não é só de tempo. Os problemas de gestão e os institucionais absorvem muita energia, a maioria das vezes gasta desnecessariamente.
CTJ: Você acha que o fato de os seus dois filhos terem optado pela arquitetura e a mais nova ter se ligado, ainda que indiretamente, à profissão revelam a centralidade da arquitetura na sua vida? Como foi trabalhar com eles?
RV: Nunca fiz proselitismo. Quando o Fernando se decidiu fiquei apreensivo, prevendo certas angústias pelas quais iria passar. Pensando melhor, vi que essas haviam se originado de minhas vicissitudes em relação à profissão e não conhecia os problemas das outras alternativas. Trabalhar com eles foi sempre prazeroso. Nunca foi uma relação muito profissional, continuada. Era natural que enquanto o casal (Fernando Viégas e Cristiane Muniz) era estudante, estagiasse em meu escritório. Isso ocorreu entre 93 e 94, período que fiquei afastado do metrô, cedido a outras empresas. Havia constituído a Polis Arquitetura e Engenharia com um primo – o engenheiro Franklin Viégas. Foi ainda na Polis que fizemos as casas de Indaiatuba, a do Franklin e o hotel de Búzios. Já com eles sócios do UNA Arquitetos, desenvolvemos alguns estudos para o Metrô do Rio e a Escola de Poá – que valeu prêmio do IAB. Com a Mariana, realizamos, entre outros, o projeto de uma estação padrão para a linha A da CPTM. Também projetamos uma casa em Atibaia – que foi construída. A Mariana desenvolveu um TGI muito bom, sobre o trecho ferroviário entre Luz e Barra Funda. Na apresentação, o Antonio Carlos Barossi, orientador da Mariana, me fez comentá-lo – foi emocionante. A Bebete, minha filha mais nova, formou-se em cinema na FAAP mas logo cedo direcionou sua carreira para a fotografia. Fez vários cursos complementares. Entre eles fotografia de arquitetura, com o Nelson Kon, no SENAC. Ela então começou a trabalhar com o UNA, com a Mariana, e com outros arquitetos, inclusive o Paulo Mendes da Rocha. É hoje professora do SENAC na cadeira de fotografia de arquitetura.
CTJ: O que eu estou querendo dizer é que talvez o fato de você ser um apaixonado pela arquitetura de alguma maneira induziu essa paixão em seus filhos?
RV: Em casa se falava, se fala, muito de arquitetura. Tudo que eles fizeram eu acompanhei de perto. Eles começaram a ter compreensão sobre o que seja trabalhar quando eu estava no Metrô – no meu retorno, em 77. A arquitetura sempre se fez presente em casa, para além do trabalho. Os livros e revistas de arquitetura e artes plásticas, em geral, são objetos muito bonitos. Por outro lado não percebiam aquela ruptura, muito nítida para outros profissionais, entre lazer e trabalho. Às vezes iam me buscar no metrô, o ambiente era muito bom, de muita camaradagem. O Roberto Mac Fadden foi meu vizinho, e tinha filhos da mesma idade. Outros colegas arquitetos nos visitavam.
CTJ: Você deu aula em outras faculdades além da FAAP no IAD? Como é essa experiência de professor? Isso te ajudou na produção arquitetônica?
RV: Eu nunca dei aula de arquitetura. Dei palestras sobre projeto e planejamento, o que é diferente. É um conhecimento condensado de sua própria experiência. Procuro sempre respeitar qualquer interlocutor, deixar claro as intenções dos projetos. Não sei se daria conta de passar e acolher tantas preocupações o tempo todo. No IAD, dava aula de desenho e composição e também design que chamava-se Desenho do Objeto. Fazia um esforço enorme para interessar o grupo. Inventava trabalhos. Achava que tinha descoberto algo que podia interessá-los e a resposta era muito pequena. Ainda assim foi gratificante ver alguns talentos desabrocharem. Creio que não passaram de três ou quatro. Na memória, com clareza, ficou apenas uma que foi ser artista plástica. Acho que só poderia dar aula com muita dedicação – o que era incompatível com o caminho que trilhei.
CTJ: Quais arquitetos você admira atualmente?
RV: O Paulo Mendes da Rocha conseguiu com seus trabalhos mais recentes tornar muito evidente a consistência de todo seu percurso. Apresenta sempre soluções muito específicas para os programas, entendidas como algo que o arquiteto não deve receber como coisa dada. Trabalha com e para além dos programas. A técnica construtiva e a escolha dos materiais também caminham juntas, sem exibicionismos, nessa conformação do lugar para habitat do homem. Nesses aspectos os exemplos mais fortes são, digamos, as reformas da Pinacoteca e do Edifício da FIESP – expressões da dinâmica vida das cidades. Creio que considerações semelhantes poderiam se aplicar a Álvaro Siza. As respostas são diferentes. No Siza, vejo uma procura pela máxima carga expressiva com o mínimo de elementos – o que no dizer do Rubem Braga é o luxo dos grandes artistas.
Residência Franklin Viégas. Arquitetos Renato Viégas, Fernando Viégas e Cristiane Muniz
Residência Atibaia. Arquitetos Renato Viégas e Mariana Viégas
Clarissa Turim Jerez: Qual o impacto que a ditadura militar teve para a arquitetura e para (no sentido mais amplo) a cultura no país?
Renato Viégas: Perguntinha danada, que abrange temas tão diversos.
Antes de 64 havia um esforço de compreender e afirmar um país possível. Após o golpe o foco volta-se, pouco a pouco, para a resistência à opressão. Após 68 chega-se, nas mais diversas áreas, à confrontação limite: entre o fazer e a resistência armada.
O mundo também experimentou várias crises durante o período que durou o golpe. Modificou-se muito. Finda a ditadura não dava mais para repensar o país, retomando-o como ele havia sido no início da década de 60. Acho difícil, hoje, isolar o período e identificar os impactos da ditadura. Seria necessário imaginar o país que poderia ter sido e não foi – isso parece sina. Inegável é a perda de tantas vidas e o atraso, de no mínimo 20 anos, no aperfeiçoamento da democracia e das relações institucionais. Vive-se, hoje, um momento de grande perplexidade decorrente da nova face da economia mundial.
CTJ: Quais as transformações que a categoria sofreu nos dias de hoje?
RV: Acho que a transformação mais presente no quotidiano, não só entre nós mas para todas as categorias, está nas relações de trabalho. Quase não há mais emprego.
Entrei na arquitetura sonhando com escritório próprio e trabalho de ateliê. Acabei por ingressar numa estatal que permitia desenvolver um bom trabalho em equipe – equipe multidisciplinar. As estatais eram apoiadas ainda por grandes projetistas que ofereciam, também, bons empregos. Na geração de meus filhos isso acabou. Tendo trabalho já está muito bom. Vejo que abre, por outro lado, um campo interessante e diverso de parcerias e associações. Algo que não sei bem como vai caminhar. O trabalho de arquitetura ainda é muito pouco valorizado.
CTJ: Na sua opinião, qual o papel do arquiteto na sociedade contemporânea?
RV: Papel ligado à construção das cidades à organização de seus espaços. As grandes metrópoles vão deter um percentual enorme da população – prevê-se que cerca de 70% vai viver em grandes cidades.
CTJ: Qual a possível contribuição dos arquitetos para o equacionamento dos problemas das cidades brasileiras?
RV: Equacionar os problemas das cidades é tarefa para toda a sociedade. Nossa formação, nosso saber vai no caminho de participar das sínteses – planos e projetos. Tomar os estudos de diversas áreas de conhecimento e lançar mão dos desenvolvimentos das técnicas construtivas para dar forma a uma nova realidade urbana.
CTJ: Como você encara os problemas atuais do ensino de arquitetura e o fato de haver tantas faculdades, nem todas preocupadas com a qualidade da formação de seus estudantes?
RV: Não os conheço em profundidade. Seria um chute falar em ensino. Dessas grandes levas que se formam creio que há poucos trabalhando com arquitetura e de outro lado tanto a fazer. Como já disse é uma profissão muito desvalorizada, ainda não se impôs como um saber específico.
CTJ: Qual a sua posição diante da questão tecnológica no tocante ao trabalho dos arquitetos?
RV: Não dá para pensar em construir algo sem procurar saber como fazê-lo. Para chegar ao objeto arquitetônico, como já disse, é preciso lançar mão de diversos conhecimentos. Trata-se do domínio de uma linguagem, de um saber específico, que aponta para uma síntese. Henri Lefebvre usou uma máxima muito boa para marcar posição sobre a questão: Toda tecnologia investida no cotidiano.
Residência Atibaia. Arquitetos Renato Viégas e Mariana Viégas
Renato Pires de Carvalho Viégas
Nascido em 1943, arquiteto, trabalhou por 27 anos na Companhia do Metrô onde exerceu os cargos de Coordenador da Equipe de Projetos de Arquitetura, Gerente de Operação, Gerente de Projetos e Diretor de Planejamento. É autor do projeto da Rodoviária do Tietê, da estação Itaquera e das estações da linha Paulista. Foi Gerente de Projetos de Transporte na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – CPTM, onde ocupou também o de Gerente de Projeto Civil quando respondeu pela concepção da linha C. Atualmente é diretor de Planejamento e Gestão da Secretaria dos Transportes Metropolitanos de São Paulo – STM.
Clarissa Turim Jerez
Aluna de arquitetura da Escola da Cidade da turma 2004.Trabalho na compilação de imagens da tese de doutorado Artigas a liberdade na inversão do olhar; modernidade e arquitetura brasileira (FAUUSP, 2005) de Dalva Elias Thomas.
Escola em Poá. Arquiteto Renato Viégas e UNA Arquitetos
Joana Mello
Professora da Escola da Cidade, autora de Ricardo Severo: da arqueologia portuguesa à arquitetura brasileira (São Paulo: Annablume, 2007) e Ricardo Severo da Lusitânia ao Piratininga (Porto: Dafne, 2007).
Entrevista
A presente entrevista aconteceu em uma sessão, ocorrida no dia 27 de novembro de 2006, em São Paulo. Ela faz parte do exercício Entrevista com arquitetos realizado pela Professora Joana Mello desde 2006 na disciplina História, Teoria e Crítica da Arquitetura e Urbanismo V e VI, dedicada ao Brasil. A primeira revisão da entrevista foi feita pela aluna da Escola da Cidade, Mina Hugert, e a segunda foi feita pelo próprio entrevistado, em julho de 2008. Disponibilizada no ar em julho de 2008 pelo Portal Vitruvius.
Escola em Poá. Arquiteto Renato Viégas e UNA Arquitetos