português Em sua passagem pelo Brasil, Paul Oliver dá uma entrevista às arquitetas Ana Cristina Villaça e Rosana Soares Bertocco Parisi, na qual fala sobre arquitetura vernacular e o uso de seus materiais
como citar
Rosana S. B. Parisi.
“Paul Oliver”.
Vitruvius entrevista, ed. 09.035.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/09.035/3285
Casa de terra nos arredores de Maceió Foto Rosana Parisi
Arquitetura vernacular, arquitetura de terra e suas potencialidades sob o criterioso olhar do arquiteto inglês Paul Oliver
A entrevista que ora apresentamos foi realizada em novembro de 2006 durante o I TerraBrasil - I Seminário Brasileiro de Arquitetura e Construção com Terra e IV ATP – IV Seminário de Arquitectura de Terra em Portugal, pela primeira vez realizado fora deste país, na cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil.
Em uma grata coincidência, foi neste evento que o arquiteto inglês Paul Oliver (1927) iniciou sua primeira visita ao Brasil, realizando um antigo sonho.
Oliver atua como pesquisador no Oxford Institute for Sustainable Development e é membro da Oxford Brookes University, da University of Exeter, e do Royal Anthropological Institute, além de ser membro do Comitê Científico de RehabiMed.
Este arquiteto é considerado um dos maiores especialistas em Arquitetura Vernacular do mundo, tendo editado em 1997 pela Cambridge University Press a “Vernacular Architecture of the World”. Esta obra é composta de três volumes e um total de 2500 páginas que agregam contribuições de pesquisadores sobre Arquitetura Vernacular de 80 países do mundo. Anos mais tarde, em 2005, editou o “Atlas Mundial de Arquitetura Vernacular”. Infelizmente suas publicações não estão disponíveis em português.
Há mais de 30 anos, Oliver se desloca e se aventura em distantes locais do planeta para resgatar e contextualizar elementos e referências históricas que são produtos de uma genuína expressão da arquitetura popular dos diversos povos, sejam africanos, asiáticos, europeus ou sul-americanos.
Paul Oliver foi também professor do Architectural Association de Londres por doze anos, além de Chefe do Departamento de Arquitetura da Oxford Polytechnic e Diretor de Arte e Design do Darlington College of Arts.
Com seus 81 anos e muita disposição, Paul Oliver viajou ao Brasil e teve realizado o sonho de poder fotografar e conhecer as favelas do Rio de Janeiro, após o encerramento do evento em Ouro Preto.
Ele foi referenciado na obra de Günter Weimer, “Arquitetura Popular Brasileira”, publicada pela Martins Fontes em 2005, logo quando este autor começa o seu primeiro capítulo denominado: “Como mora o povo brasileiro”. No trecho mencionado por Weimer, Paul Oliver afirma que “a história se libertou em grande parte desse espartilho (referindo-se àquela história que os livros escolares contavam, que incluíam, entre outros, reis, rainhas, imperadores e batalhas...) e já se interessa muito mais pela natureza mutante e pela evolução da sociedade como um todo”.
As atividades de Paul não se restringem ao campo das Artes e Arquitetura. Oliver é também uma referência na pesquisa histórica sobre o Blues e suas raízes.
Esperamos que o breve contato estabelecido durante o TerraBrasil 2006 possa despertar o interesse pelos temas da Arquitetura Vernacular e da Arquitetura de Terra, tão caros nesse mundo permeado por notícias de crises e de esgotamento de recursos.
O Professor Paul comenta que soluções satisfatórias para suprir a demanda mundial de habitações serão possíveis através do estudo, do apoio e da manutenção adequada do repertório mundial de arquitetura vernacular. Para ele, a arquitetura vernacular constitui uma fonte inesgotável de exemplos e referências que se caracterizam por sua simplicidade, além de agregar elementos naturais, econômicos e sustentáveis para as moradias.
Ana Villaça, Paul Oliver e Rosana Parisi no Auditório da Escola de Farmácia da UFOP, durante o TerraBrasil 2006
Casa das produtoras de artesanato e adobes do Bichinho, Distrito de Valeriano Veloso, nas proximidades de Tiradentes Foto Rosana Parisi
Rosana Soares Bertocco Parisi e Ana Cristina Villaça: Primeiramente, gostaríamos de saber sobre a sua carreira profissional, e por quanto tempo o senhor vem pesquisando a arquitetura vernacular. Quais são os motivos que o levaram a essa pesquisa?
Paul Oliver: Eu venho pesquisando “virtualmente” por toda a minha vida. Durante a 2ª Guerra, meu pai, que era arquiteto e trabalhava em casa, foi convocado para um “escritório de guerra”. Ele tinha que projetar novos edifícios, especialmente em lugares que foram bombardeados. Ele desenvolveu tecnologias de pré-fabricação para edifícios como solução rápida para os estragos causados pelos bombardeios. Como eu era um jovem estudante de artes, eu o ajudava com os desenhos dos locais afetados e com a extensão do dano. Então, eu me envolvi com as questões habitacionais desde cedo. Apesar de a minha carreira ter sido variada, comecei como artista e depois, como historiador de artes, até me tornar guia/palestrante público (public lecturer) na National Gallery e também na Tate Gallery em Londres por alguns anos, antes de ser admitido, em 1960, na Architectural Association para ministrar um curso de História. Mais tarde, fui Diretor da A.A. Graduate School. Mas sempre tive este interesse ligado à criatividade, cultura popular, artes, música e construções de diferentes culturas. Assim, viajei bastante para proferir palestras, lecionar e realizar pesquisas sobre estes temas em muitos países.
RSB/ACV: Fale-nos sobre a relação entre sua pesquisa e a arquitetura vernacular.
PO: Antes de tudo devo dizer que o objetivo de minha pesquisa é mais cultural que estrutural. Tenho interesse em povos indígenas e sua diversidade cultural. Ao estudar seus edifícios, tenho que entender os sistemas estruturais, mas como existem muitos projetos e muitas culturas, tento compreender a complexidade da cultura em relação com a produção estética, o que é fundamental para mim. Compreender somente os edifícios, mas não as suas motivações, os valores que as pessoas têm ao criá-los, não é, em minha opinião, compreendê-los realmente em sua totalidade.
Muro de adobe em Tiradentes com cerca de 250 anos de idade Foto Rosana Parisi
Rosana Soares Bertocco Parisi e Ana Cristina Villaça: O senhor poderia nos dizer quais são as possibilidades para a Arquitetura com Terra como arquitetura sustentável? Como a arquitetura com terra resgata a identidade construtiva tradicional em muitos países e ao mesmo tempo reduz os impactos que a construção convencional tem causado por todo o mundo?
Paul Oliver: A terra é o material de construção mais largamente e naturalmente distribuído pelo mundo. Mas existem muitos tipos de solo e numerosas técnicas para usá-los, as quais sempre foram usadas espontaneamente, sem normas, durantes os séculos passados. Com a expansão da população mundial, o método tradicional de utilizar o tipo de terra prevalecente em cada região poderia e deveria ser resgatado. Esta prática poderia habilitar muitas culturas a construir de maneira econômica e encontrar o futuro potencial de suas respectivas identidades. Potencialmente, isto poderia reduzir o uso, culturalmente inapropriado, do concreto e do aço em todos os continentes.
RSB/ACV: Fale-nos sobre o papel do arquiteto em nossa sociedade e na difusão destas técnicas de construção com terra.
PO: Eu não acredito que arquitetos profissionais estejam interessados nas técnicas vernaculares ou em sua difusão. O que significa que se formos falar sobre o aspecto da difusão, é muito interessante, porque existem diferentes tipos de difusão, o que, em todo caso, é a transferência de tradições de uma cultura para outras culturas. Onde as tradições são criadas e o que elas são é tão importante quanto a difusão que não ocorre necessariamente. Para entender isto, há que se desenvolver, de certo modo, uma visão antropológica. O problema é que antropólogos, geralmente não se interessam por arquitetura, e eles usualmente evitam discuti-la. Então, sou sempre referenciado como um “antropólogo arquitetônico”, porque penso nas relações de uma arquitetura tradicional para a cultura que a cria, que é, fundamentalmente, importante. Mas não consigo passar esta mensagem para a maioria dos antropólogos. Ou, de fato, para muitos arquitetos, apesar de acreditar que eles possam trabalhar juntos para trazer a efetiva disseminação dos métodos construtivos que sejam apropriados para prevalecer as fontes e condições. E, mais que isto, para a natureza das culturas envolvidas.
RSB/ACV: Pela sua experiência, quais os possíveis caminhos para os arquitetos que projetam e constroem com terra?
PO: Ainda existem oportunidades para estes arquitetos, no uso da terra, madeira, e outros materiais, mas eles precisam estudar estas possibilidades com mais profundidade. Vejam, a construção com terra é o foco desta conferência, mas de fato, eu estava indo proferir uma palestra sobre construção com madeira, em uma conferência no México nestes mesmos dias em que estou aqui. Então, eu preferi estar aqui...
RSB/ACV: Sorte a nossa!
PO: ...Mas existem possibilidades de diálogo em qualquer estágio, e é por isso que estou aqui nesta conferência, para falar sobre a terra como material de construção. Na conferência a que vou em dezembro (IASTE 2006), em Bangkok, Thailândia, o tema será sobre as chamadas “hiper traditions”, ou seja, tradições que se tornaram exageradas ou fora de controle, qualquer coisa que se tenha tornado “extremo”, não necessariamente focado em um aspecto particular. A conferência será sobre muitas tradições extremas, o que difere de uma cultura para outra.
RSB/ACV: “Hiper materiais”?
PO: “Hiper tradições”: é o termo que eles usam para a conferência, mas não é um conceito estabelecido. Soa mais como uma tentativa de resumir o fato de que algumas tradições estão sendo extrapoladas. E neste ponto pode-se falar em “hiper-materiais”, se, por exemplo, tudo o que existe em uma edificação for feito de chapa de metal corrugado. A terra também pode ser tornar um hiper-material, se seu uso ou aplicação for desnecessário ou inapropriadamente aplicado. Se os arquitetos se informarem melhor sobre este e outros materiais, e técnicas nas quais as culturas estão envolvidas, frequentemente por séculos, eles podem usá-las com grandes vantagens. Aí, então, poderão festejar o resgate dos métodos vernaculares e sua aplicação no século atual.
Paul Oliver em Universidade em Portugal, maio 2007 Foto Mariana Correa
Rosana Soares Bertocco Parisi e Ana Cristina Villaça: O que o senhor pensa sobre a pesquisa acadêmica e sobre o papel da Universidade na sociedade? Recomenda algum encaminhamento para os países em desenvolvimento?
Paul Oliver: Penso que existem muitos caminhos a serem percorridos, pois em alguns países em desenvolvimento não existem universidades, e por isso não conseguem identificar seus problemas, e se o fazem, é de maneira muito incipiente. Outros países podem desistir, ou nunca realmente se engajar nestas questões. Existe muito campo para as especializações, mas isto custa dinheiro e necessita de preparo e treinamento adequados. Fico irritado com o fato de muitas nações não estarem enfrentando estas questões e nem as prósperas nações ocidentais confrontarem estes problemas. Mas existem muitos problemas na transferência das idéias ocidentais para outras sociedades. Algumas delas cresceram com a urbanização, mas nem todas elas – já que muitas querem recuperar sua identidade coletiva e sua cultura, porque a assimilação dos modos e valores ocidentais pode conduzir a grandes populações desorientadas, sem uma identidade própria...
Mas vocês sabem que isso nunca é incluído nas discussões governamentais, políticos nunca se referem a este aspecto, o tema nunca aparece no rádio ou televisão – Estou irritado com isto.
RSB/ACV: O senhor acha que o problema está fora de controle ou ainda pode ser reparado?
PO: Eu penso que o primeiro passo é confrontar os problemas. Vocês sabem, os governos devem considerá-los de maneira adequada…
RSB/ACV: Se dar conta do que está acontecendo?
PO: Exatamente. E considerar qual ação é a correta. No meu ponto de vista está ficando muito tarde... De fato, está na hora de se tornar ativamente engajado. De alguma forma, o que eu receio é que em muitos casos tentamos evitar e impusemos um tipo de “habitação em massa” pensando em culturas em todo o mundo. Então, me desespero com a perda de tempo, energia e recursos, e ultimamente, de vidas.
Paul Oliver em Universidade em Portugal, maio 2007 Foto Mariana Correa
Os Arquitetos Paul Oliver (Inglaterra) e Gernot Minke (Alemanha), dois grandes pesquisadores de Arquitetura Vernacular e Arquitetura de Terra, Tiradentes MG, nov. 2006 Foto Renata Pereira
Rosana Soares Bertocco Parisi e Ana Cristina Villaça: Diga-nos seus interesses no Brasil e suas impressões sobre Ouro Preto. Sabemos que o senhor deseja visitar o Rio de Janeiro e conhecer uma favela, quais as suas expectativas? Existe algum outro lugar que o senhor se interesse em conhecer, além do Rio de Janeiro?
Paul Oliver: Bem, eu estou interessado em conhecer diferentes tipos de arquitetura, nas maneiras peculiares de se morar. Então, interesso-me por subúrbios e periferias, como interesso-me por assentamentos urbanos. Então penso que Ouro Preto é surpreendente, porque é curiosamente suburbana e os subúrbios se enquadram tão confortavelmente na paisagem! Além de ter outras características curiosas: você desce por qualquer caminho e há sempre outra igreja à vista. Se estivéssemos na Inglaterra, haveria somente uma igreja para cada cidade. Vocês sabem... isto é uma outra experiência. Eu penso que a cidade de Ouro Preto é muito bonita, o que eu gosto muito, é certamente uma surpresa. Quanto a outros lugares no Brasil, a escala é tão grande, que eu não saberia dizer.... Bem, eu gostaria muito de ir à região amazônica - eu tenho que fazer isso algum dia! Tenho um casal de amigos que fazem pesquisa em lingüística com culturas no extremo oeste das terras amazônicas. Como o meu trabalho é com arquitetura, eu não poderia ajudá-los, mas ainda vou até lá um dia... Agora, no âmbito dos “assentamentos informais” (“squatter settlements)”, estou interessado na maneira como esses assentamentos se desenvolvem e com que intenções os migrantes e primeiros habitantes o faziam. Sob qualquer ponto de vista que se olhe para eles hoje, podem ser muito pobres, e viver em condições muito ruins. Mas existem enquanto assentamento, até mesmo se não estivessem implantados de uma forma desordenada, como as primeiras construções irregulares que foram construídas por migrantes. Pode ter sido errado agir desta forma, mas as famílias desses assentamentos vêm tentando ter uma vida mais estável e segura. Eles deveriam ter casas melhores... Agora, penso que essa é uma responsabilidade nacional.
Já estive em alguns destes assentamentos, no Vale Mathare no Quênia, por exemplo. Lá designers estiveram trabalhando em “core housing”, que é baseado no desenho de uma célula que inclui instalações sanitárias básicas, construídas em intervalos distantes e as pessoas são estimuladas a ampliá-las conforme queiram. O governo poderia ter provido as casas, mas preferiram prover os serviços de infra-estrutura básicos e estimular os migrantes das áreas rurais a construir conforme suas vontades. Tais assentamentos podem ser comparados aos “bustees” de Calcutá, na Índia, que são construídos com restos de materiais. Estes estão onde as pessoas se fixaram e se assentaram. O sistema aceito que tenham seus prédios, não importa o quão precário estes possam ser. Algumas vezes são providos de serviços e de materiais melhores.
Assim, a tais grupos é dado o direito do uso da terra que tomaram e estes tornam-se “bustees consolidados”. Mas , vocês sabem, existem diferentes maneiras de os governos enfrentarem os problemas destes sistemas de assentamentos, e eu penso que é muito importante que isto seja compreendido. As culturas podem ser muito diferentes nos assentamentos, mas ainda penso que este problema tem que ser confrontado. Algumas pessoas referem-se aos “squatter settlements” frequentemente, enquanto outras referem-se como assentamentos informais ou não-formais. Visitando-os, pretendo identificar quais são as similaridades, ou diferenças, e como são tolerados ou ignorados, e se eles estão melhorando. E, se estão, por quê? Vejam: Existe uma tradição muito interessante na Turquia chamada ”gecekondus”, que significa (”built overnight”), “construído durante a noite”. Estes assentamentos situam-se perto de Ankara ou Istambul e alcançam números recordes de ocupantes. Porém, trazem uma tradição brilhante para as cidades, e muitos deles mantêm suas conexões com suas aldeias originais. Então, são diferentes novamente e têm sido bem aceitos. Na Turquia, existe um sistema interessante chamado “trade-off”, que significa, por exemplo, que o governo pode prover iluminação pública, se o grupo interessado providenciar, por exemplo, o parque para as crianças como contrapartida. Os políticos envolvidos e as populações podem receber benefícios pela troca. É um outro sistema. Há tanto a ser aprendido com tais experiências...
O arquiteto inglês Paul Oliver em casa de adobe de Tiradentes MG, nov. 2006 Foto Rosana Parisi
Rosana Soares Bertocco Parisi e Ana Cristina Villaça: Finalmente, conte-nos sobre sua outra paixão, o “Blues” e sua pesquisa musical. Existe alguma forte correlação entre a pesquisa arquitetônica e a musical?
Paul Oliver: Existem similaridades no sentido de que ambas são idiomas da cultura popular. Estou interessado em explorar a natureza e a significância em ambas, mas elas são muito diferentes e por isso a correlação se faz de forma muito distante. Quando realizo meus estudos e escrevo sobre música afro-americana isto requer uma pesquisa profunda, porque é um campo relativamente restrito e definido. Minha pesquisa é particularmente sobre a história e estudos sobre a música no seu período de formação. Esta tradição cultural avança no passado até o século XIX, então a pesquisa é difícil, mas é o que eu faço. Fui crítico de música uma vez e estava escrevendo sobre música de várias culturas no mundo. Porém, descobri que a música afro-americana, incluindo o blues, compreende questionamentos demais para que eu possa colaborar... Da mesma maneira, a arquitetura vernacular também levanta questionamentos, mas estes eu pesquiso em uma base transcultural. A pesquisa em arquitetura vernacular tem sido conduzida separadamente de várias tradições em numerosas regiões. Mas acreditei que fosse importante comparar e relacionar estas tradições em uma base transcultural, e é isto o que tenho feito. Desta forma, as duas pesquisas estão relacionadas de forma distante, e meus objetivos e métodos de pesquisa em cada uma são muito diferentes.
RSB/ACV: O senhor focou em sua pesquisa em Nova Orleans, ou algum outro lugar? O que o senhor pensa da reconstrução desta cidade após o desastre?
PO: Na história do jazz, Nova Orleans é fundamental, mas apresenta menos significância dentro do contexto do blues, assim, eu não foquei minha pesquisa nesta cidade. Eu desenvolvi projetos de pesquisa sobre os sucessos e as falhas das “casas pós-desastre”. A atuação da administração local em Nova Orleans depois das tempestades foi frustrante para minhas expectativas.
O blues é música afro-americana e foram os afro-americanos que mais sofreram com as conseqüências deste desastre... Deve haver alguma conexão, mas ainda não tive tempo, nem oportunidade para pesquisar suas implicações.
RSB/ACV: O senhor toca algum instrumento?
PO: Eu costumava tocar, mas decidi não continuar. Eu pensei que, se por um acaso, eu me tornasse bom tocando blues e começasse a ser chamado para trabalhos, como muitos músicos não-africanos, eu me sentiria como se estivesse tirando dinheiro daqueles que realmente merecem e precisam dele. Então senti que seria melhor que eu parasse de tocar. Eu tocava harmônica, violão e mandolim (que é parecido com um double-strung violino e tocado como um banjo).
RSB/ACV: Então o senhor toca três instrumentos?
PO: Sim, mas não muito bem…
RSB/ACV: Só por diversão?
PO: Mais para descobrir o que os músicos e cantores estavam fazendo, enquanto eu escrevia sobre eles...
RSB/ACV: Que interessante, Professor Paul Oliver! Muito obrigada por esta entrevista. Esperamos que esta seja a primeira de uma série de visitas ao Brasil. E que o senhor descubra os muitos ‘Brasis’ que existem nesse nosso país de dimensões continentais!
Ana Villaça e o Prof. Paul Oliver, revisando detalhes depois de um dia de visitas pelo Rio de Janeiro, nov. 2006
Paul Hereford Oliver
Natural de Nottingham, Inglaterra, nascido em 25 de maio de 1927. É Historiador, Antropólogo e Doutor em Arte. Professor Associado do Oxford Polytechnic. Foi também Diretor de Arte e design no Dartington College of Arts, além de ter sido professor por doze anos na Architectural Association Graduate School de Londres.
Ana Cristina Villaça
Arquiteta e Urbanista, Mestre em Urbanismo e Professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Membro do Proterra e da Rede TerraBrasil.
Rosana Soares Bertocco Parisi
Arquiteta e Urbanista, Mestre em Urbanismo, Professora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da PUCMinas, campus Poços de Caldas e Membro do Proterra e da Rede TerraBrasil.
Entrevista
Entrevista concedida às arquitetas Ana Cristina Villaça da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e Rosana Parisi da PUCMinas, campus de Poços de Caldas. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em agosto de 2008.
Produção bibliográfica de Paul Hereford Oliver
Arquitetura
OLIVER, Paul. Shelter and society. London, 1969.
OLIVER, Paul. Dunroamin: the suburban semi and its enemies. London, Barrie & Jenkins, 1981.
OLIVER, Paul. Dwellings: the house across the world. Oxford, Phaidon, 1987.
OLIVER, Paul. Vernacular architecture of the world. Cambridge, Cambridge University Press, 1997.
OLIVER, Paul. Atlas of vernacular architecture of the world. Hardcover, 2005.
OLIVER, Paul; Richard Hayward. Architecture: an invitation. Oxford, 1990.