português Eunice Helena Sguizzardi Abascal entrevista o arquiteto e urbanista Roque González Escamilla, autor do Master Plan para o Business District de Santa Fé, México
english Eunice Helena Sguizzardi Abascal interviews the architect and urban planner Roque González Escamilla, author of the Master Plan for the Business District of Santa Fe, Mexico
español Eunice Helena Sguizzardi Abascal entrevista al arquitecto y urbanista Roque González Escamilla, autor del Master Plan para el Business District de Santa Fe, México
Santa Fé, Cidade do México, com uma arquitetura predominantemente corporativa
Santa Fé Business District: a reestruturação do espaço urbano na cidade do México e a metrópole multinodal Eunice Helena Sguizzardi Abascal
Na atual fase de globalização da economia, a estrutura urbana das cidades, entre estas as latino-americanas, passam por processos de reestruturação territorial como a fragmentação das áreas ou distritos para abrigar o setor terciário e terciário avançado.
O conceito tradicional de centralidade assume outra definição, relativa a presença de vários nos de atividade produtiva. A dinâmica econômica introduzida com a globalização revela processos duais, de concentração nodal de atividades terciárias e dispersão de outros setores, configurando uma realidade metropolitana e regional para o desenvolvimento. Novas formas de centralização no território de funções centrais de direção e de controle de operações fazem emergir fragmentações, periferias e reconcentração de ações diretivas e administrativas de alto nível.
O Distrito de Santa Fé, localizado no extremo oeste da Cidade do México, constitui uma destas áreas, fruto de um Projeto Urbano especifico, que vem articulando a participação da iniciativa privada e a gestão publica da valorização da terra urbana e a obtenção de recursos ou mais-valias, aplicadas no desenvolvimento e na recuperação do Centro Histórico e de outras regiões carentes.
A entrevista realizada com o Arquiteto Urbanista Roque Escamilla, autor do Master Plan e ator diretamente envolvido na implementação do projeto esclarece o processo, assim como enuncia algumas criticas cujo interesse e o de elucidar problemas na conduta de concretização de idéias e propostas fruto da atuação profissional dos arquitetos.
Santa Fé, Cidade do México, com suas referências arquitetônicas internacionais
Ausência de estacionamentos públicos em Santa Fé, Cidade do México
Eunice Abascal: Poderia falar a respeito da concepção do projeto Santa Fé e o seu significado para a Cidade?
Roque Escamilla: Fui aluno de Felix Candela e o professor sempre me disse que o planejamento deve se basear num princípio, em uma relação de escala (...) eu ouvia o mestre e o inquiria se a Arquitetura deveria ser compreendida como uma estrutura que está submetida a esforços, e ele me dizia “Roque, não, quando alguma coisa muda de tamanho se deve mudar de estruturas” e este é, para mim, um princípio fundamental do Urbanismo. Quando se muda de escala se deve também mudar de estrutura.
Isto se aplica ao entendimento das grandes cidades latino-americanas, como a Cidade do México, que de uma pequena cidade se converteu em uma Metrópole com 10 milhões de habitantes.
EA: Quais conseqüências este princípio acarretou para o planejamento de Santa Fé?
RE: Seguindo esse principio, é preciso mudar de uma estrutura monocêntrica a uma outra, policêntrica. A cidade contemporânea admite várias centralidades, e o que ocorre em função disso é uma dispersão dos geradores de trânsito, pois é preciso ir em busca de áreas mais adaptadas a estas novas centralidades, assim gerando mais trânsito.
Por outro lado, esta dispersão não significa necessariamente menor eficiência, mas obriga-se o trabalhador a depender do automóvel e do transporte publico, a deslocar-se muito mais. Problemas de congestionamentos são acrescentados às cidades com o atual processo de dispersão da urbanização.
Então foi preciso resolver estes problemas aplicando o princípio de “desconcentração concentrada”, que é o princípio de Santa Fé.
Espaços abertos estruturam o sistema viário: amplos espaços sem apropriação humana. Santa Fé, Cidade do México
Extensa área em processo de ocupação em Santa Fé, Cidade do México
Eunice Abascal: Como foi o procedimento adotado para a gestão e implementação do projeto, e que participação teve o poder publico?
Roque Escamilla: Nesta área localizada no extremo oeste em que já havia alguns desenvolvimentos relativos à habitação, surgiu Santa Fé. Tratou-se de uma estratégia de desenvolvimento premeditada pelo Governo da Cidade do México que teve início em 1986, quando assumiu o Governo do Município José Carlos Sanz, que me convidou a trabalhar no projeto e fui então nomeado Diretor de Habitação e segui trabalhando com esta área por dois anos.
Decidiu-se então criar um órgão através do qual se pudesse planejar bem mais do que habitação, e para tal se criou uma Empresa Pública para descentralizar as ações de planejamento, a Empresa de Serviços Metropolitanos (SERVIMET). A esta empresa cabia conceber e materializar Planos de Desenvolvimento. Para tanto, os recursos públicos se revelaram insuficientes e era preciso um comportamento pró-ativo para captar esses recursos.
EA: Como foram obtidos os recursos necessários para realizar as infraestruturas e dar andamento a implementação do projeto?
A Empresa foi criada praticamente sem pressupostos financeiros. Estes recursos foram então sendo criados, com a negociação dos terrenos. Os pressupostos financeiros obtidos foram então destinados a estratégia de exploração das áreas de estacionamento nas vias públicas da Cidade (com a instalação de parquímetros na área central), gerando estes recursos próprios que tornaram auto-financiáveis as ações da SERVIMET.
EA: Que outras formas de financiamento foram adotadas?
A construção e habilitação de estacionamentos foram processos significativos, mas um outro pode ser mencionado, a criação de projetos específicos de financiamento, induzindo a participação do investimento privado. Promover e estimular o investimento privado, canalizando os recursos obtidos com a valorização da terra urbana para os objetivos que a Cidade detinha, e a conformação de novos centros urbanos como Santa Fé eram alguns desses projetos específicos.
Com base nisto, entrou-se em processo de negociação com os proprietários de terrenos e imóveis na área, zona de extração de areia, material que por muitos anos se utilizou para construir a Cidade.
Tratava-se uma antiga área de minas, de extração de areia e pedra. Esta extração ocorria a céu aberto, fato que levou a encontrar a zona muito deteriorada. Havia também um depósito de dejetos sólidos, também a céu aberto, um lugar para atirar o lixo. Isto era Santa Fé, uma área muito degradada e com usos muito abaixo do potencial.
Junto ao depósito de lixo, havia assentamentos irregulares, gente que se dedicava à manipulação do lixo.
Império do automóvel e ausência de escala pedestre, Santa Fé, Cidade do México
Modernização arquitetônica e espaço público à espera de definição. Santa Fé, Cidade do México
Eunice Abascal: Havia um Plano Estratégico vinculado diretamente ao Projeto Santa Fé?
Roque Escamilla: Apesar destas condições bastante deterioradas em que se encontrava a área, após análise considerou-se a localização da área estratégica, por estar próxima à Rodovia México-Toluca. Havia elementos para considerar a área adequada à criação de um novo centro de cidade.
O projeto coincidia também com a intenção estratégica do Governo da Cidade de construir uma ligação atualizada com o município de Toluca, pois a antiga rodovia se mostrava grande assassina, com muitos acidentes e mortes.
Assim, foi-me incumbido pensar também em uma maneira de obter recursos para modernizar essa Rodovia. A estratégia era criar essa infra-estrutura e o novo centro. E, com base nisso, entrei em negociação com os proprietários, dizendo-lhes que a despeito de terem propriedades, as minas já haviam praticamente se esgotado. Disse-lhes que aquele “buraco” não servia mais para nada, e praticamente a grande maioria dos proprietários consentiu em nos vender. Apesar das complicações, resolvemos não recorrer à desapropriação, mas à negociação.
Então, segundo o critério de não desapropriar, decidimos negociar. Não tínhamos dinheiro e compramos à prazo, prevendo que com as entradas obtidas com os recursos provenientes da instalação dos estacionamentos, poderíamos pagar.
A área era atravessada por uma antiga Estrada, chamada de Caminho de Santa Fé, em que circulava um bonde e quando não serviu mais a esse destino, a Estrada foi utilizada para se chegar até as minas. Esse caminho foi conservado em seu nível original, e as minas eram escavadas do outro lado, a cinqüenta ou sessenta metros de profundidade.
Como eu não tinha como pagar os terrenos, então propus pagar-lhes com areia, e trocamos terra por terra. Contratou-se então (pelo Governo) a nivelação do Caminho e propus pagar com areia extraída da estrada. E realmente Santa Fé praticamente não teve custo. A terra por ali não tinha nenhum valor, pois era um depósito de lixo. Já com a terra adquirida, nos aproximamos dos empreendedores, justificando a construção de um prolongamento do Paseo de la Reforma.
E assim negociamos, em troca de areia, os terrenos e demos início às infra-estruturas.
Um padrão arquitetônico: edifício recoberto por pele de vidro ou similar cuja base define um térreo introspectivo. Santa Fé, Cidade do México
Grupos de edifícios relativamente isolados pontuam a paisagem de Santa Fé, Cidade do México
Eunice Abascal: Algum projeto foi considerado emblemático para Santa Fé?
Roque Escamilla: Certo dia, ligou-me o Secretário de Desenvolvimento Urbano da Nação, solicitando a pedido do Presidente que se encontrasse uma localização para a Universidade Ibero-Americana. Seus edifícios haviam sofrido um colapso com o terremoto, e o Campus se localizava provisoriamente ao Sul da Cidade. Depois de várias análises, concluímos que o lugar mais adequado era Tacubaya, e o Governo nos solicitou 20 há em Santa Fé. Concordamos, com a condição de que o Governo Federal construísse parte da infra-estrutura, a ligação com esse terreno de 20 há que íamos dar-lhes de presente. A Universidade então seria usada como uma âncora do projeto Santa Fé, era importante ter um projeto-insígnia, a juventude usando a área, para dar-lhe outra vitalidade. Estrategicamente, localizei-a perto do antigo depósito de lixo, porque seria um elemento-chave para obrigar a realocar aquele depósito.
A pressão política seria feita pela própria Universidade. Com isto concluímos a primeira etapa da vialidade, fizemos um Master Plan e iniciamos as necessárias adaptações legais e administrativas assim como o processo de negociação com as Corporações para dar início ao Projeto. Iniciamos as negociações com a Televisa, que estava buscando substituir suas antigas instalações próximas a Chapultepec. Então, os convidamos a integrar o projeto Santa Fé. A princípio disseram que lá era tudo muito feio e longe, perto de depósito de lixo, mas conforme foram vendo o desenrolar do projeto decidiram aceitar, pois se sensibilizaram com o processo de indução de investimentos em que apostávamos.
EA: O Sr. diria que o projeto símbolo deflagrador do desenvolvimento de Santa Fé foi a Universidade Ibero-americana?
RE: A Universidade foi um fator deflagrador fundamental, mas não podemos falar só de um fator, já que temos vários. Entre estes esta a localização estratégica inegável, depois a presença de população ao redor, a Ibero sem duvida, em conjunto permitiram este investimento em espiral (circulo virtuoso).
A articulação que veio com a construção do túnel que posicionou como projeto de alto ingresso e que possibilitou a ligação com outro lado da estrada já que esta e uma barreira.
Outra falha atual cuja solução havia sido planejada originalmente diz respeito aos estacionamentos públicos.
EA: Que mix de atividades foi previsto?
RE: Várias sedes de empresas decidiram vir para Santa Fé, nacionais e estrangeiras, confirmando um uso destinado ao setor terciário. Entretanto buscamos sempre um uso misto, com desenvolvimentos residenciais, para mesclar habitação e serviços. Outro aspecto foi o de darmos muita importância as vialidades, pois se tratava de criar uma nova centralidade, não só a simples continuação do Paseo de la Reforma, apesar de ele ser um dos atrativos do projeto. A intenção era criar uma nova centralidade na zona do poente da cidade com sua área de influencia. Para isto, projetamos vialidades no sentido norte-sul, paralelas entre si, e por esse motivo construí também os dois túneis, com parte do dinheiro da primeira etapa a fim de poder expandir o projeto a Sul. Infelizmente, não foi possível aplicar os planos totalmente devido às mudanças de administrações seguintes que não concluíram essas vialidades. Previmos comercio, moradia e administração, ou seja, escritórios. Considero plausível também o lazer e claro temos hospitais e clinicas ou seja saúde e grandes hotéis, elemento importante para um novo centro; a Universidade Ibero-americana , as instituições educacionais, centros tecnológicos que gravitam em torno da área que são muito importantes para a manutenção e vitalidade de Santa Fé, que não atinge o máximo por falta de uma rede de vialidades para pedestres.
Interrompida a vialidade Sul, não foi cumprida articulação de tecidos habitacionais de média e baixa renda. Se as vialidades tivessem sido concluídas, seria possível interligar habitações de média e baixa rendas às novas áreas de trabalho.
O fechamento à esquerda delimita uma vasta área em sua maior parte desocupada e em construção. Santa Fé, Cidade do México
Cortina de edifícios ao fundo amparada por uma paisagem desoladora. Santa Fé, Cidade do México
Eunice Abascal: Quem são os principais investidores localizados em Santa Fé?
Roque Escamilla: Corporações que queriam se localizar na Cidade do México e optaram por Santa Fé; então decidiram adquirir a terra. O plano foi convidar investidores privados e vender os terrenos, mas o governo que sucedeu o nosso não entendeu o projeto original e não lhe deram continuidade.
EA: Como se deu a negociação entre os investidores e a cidade?
RE: No próximo governo, o de Camacho [Camacho Solis], o Diretor da SERVIMET foi Raul Henrique, que e muito inteligente e entendeu o projeto e deu a este um grande impulso. As negociações foram muito simples, com este processo a terra foi adquirindo um valor muito alto e permitiu vendas a um preço muito atrativo e investir parte do recurso obtido com a venda na infra-estrutura. Criou-se um circulo virtuoso de investimento e desenvolvimento, pois a escala de valores tem sido extraordinária e se cumpriu um dos objetivos principais do projeto, a saber, que fosse um projeto rentável para a cidade.
EA: A maior parte dos investidores e estrangeira?
RE: Não sei se a maior parte e de estrangeiros, mas uma boa parte o e, devido ao fato de que a empresa estrangeira prefere alugar a comprar. Na maior parte das vezes, são investidores locais com grandes capitais que constroem para alugar. Mas a maior parte dos usuários e estrangeira. Isto e oportuno por que Santa Fé coincide com a globalização da economia, de que o empreendimento se aproveitou. Como você sabe, as companhias trans-nacionais em termos de arquitetura não aceitam escritórios que não sejam classe A, o que permitiu a Santa Fé um avanço em relação a outras regiões que já estão se reciclando. Este intervalo de tempo e os acontecimentos relacionados à globalização permitiram um grande avanço e transformação da área.
Os objetivos para a área foram atingidos, a saber, conformar um novo centro da cidade e não gerar nenhum custo, muito pelo contrario, ela gerou recursos para financiar muitas obras publicas em outras partes da cidade.
EA: Quem fica com as gordas mais-valias geradas em Santa Fé?
RE: Pode-se salientar dois destinos. As gordas mais-valias de Santa Fé vão para a Empresa Serviços Metropolitanos (SERVIMET) de que a cidade do México e proprietária e esta empresa subsidia projetos na cidade. E uma empresa privada proprietária da terra e apta a vende-la, e estes recursos são transferidos para o Governo da Cidade do México. Este e um caminho e o outro e o imposto predial que aqui e muito alto (Santa Fé); são recursos permanentes que deveriam ser destinados para a melhoria de serviços e infra-estruturas da área, mas devido a subsidios cruzados tanto os altos ingressos da venda dos terrenos como os impostos prediais são transferidos para outras áreas.
EA: O Sr. tem conhecimento se as mais-valias de Santa Fé foram aplicadas em áreas carentes ou em moradias populares?
RE: Em números exatos não sei, mas em termos gerais sim, à medida que as mais-valias eram geradas eram transferidas pela SERVIMET ao Governo da Cidade que detinha projetos de casas populares e outros projetos sociais, em que foram aplicados de maneira correta e justa dos recursos.
Área hoje edificada sobre o antigo depósito de lixo: construções de altura limitada. Santa Fé, Cidade do México
Terrenos aonde se retiram pedra e areia, cuja venda gera recursos para Santa Fé
Eunice Abascal: Pode-se dizer que Santa Fé e o espelho da economia globalizada, de grandes investimentos aportados em edifícios expressivos e em espaços genéricos que não estão feitos para o homem local? E esta a escala da globalização?
Roque Escamilla: Eu creio que uma coisa não vai contra a outra. Sim o investidor global privilegia os grandes espaços, este privilegio revela uma capacidade de investimento superior àquela da escala geral e pode combiná-la a outra escala, dos serviços locais, de investimentos locais, que e mais rica, já que dotada de outros serviços. E isto e uma meta que este projeto pode alcançar. Um aspecto muito interessante nos últimos anos que também coincide com políticas econômicas, que a maioria das construções hoje em Santa Fé e de moradias de alto padrão e isto dará vitalidade ao conjunto, já que será necessária a melhoria da rede viária de pedestres e da qualidade do espaço publico.
EA: Como a população pode interferir no projeto?
RE: Como já dissemos, o imposto predial e muito elevado, e a área e uma zona geradora de transferências para a cidade. A Associação de Moradores de Santa Fé reclama que esses recursos não são investidos na infra-estrutura que a área necessita e que a comunidade paga. De fato a infra-estrutura realizada não corresponde ao volume dos recursos gerados. Esta pressão e boa por que obriga o governo a redesenhar a infra-estrutura para esta nova densidade, não prevista no projeto original.
A ação cidadã e o elemento de continuidade representado pelas pressões populares nas descontinuidades políticas, para um projeto de grande envergadura e duração como e o de Santa Fé, sujeito a interrupções, são os elementos que podem solucionar as carências da área.
EA: O que se esta fazendo para a melhoria da qualidade do meio ambiente?
Há um estudo para o reflorestamento de algumas áreas. Há um elemento favorável, o de que Santa Fé se encontra numa cota captadora de águas pluviais e esta prevista a construção de duas represas para suprir a região e evitar que se tire a água da parte baixa da cidade, e um estudo do impacto ambiental destas áreas e de seu reflorestamento.
Aridez emoldura a pungente arquitetura da globalização. Santa Fé, Cidade do México
Vitalidade do extremo leste do Centro Histórico da Cidade do México
Eunice Abascal: Como esta a situação hoje de execução e conclusão do Projeto Santa Fé?
Roque Escamilla: Seguimos trabalhando nesse Projeto, agora na condição de consultores. Creio que hoje está cada vez mais difícil concluí-lo, pois não se finalizou a vialidade que liga Santa Fé ao Estado do México, em direção ao interior. No entanto, este projeto está vivo e seguimos trabalhando nele, na continuação dessas vias, o que fortalece o distrito como centro regional e centro dual, permitindo alívio do sistema viário norte-sul da Cidade do México.
Conseguiu-se que administração anterior concluísse a construção de duas pontes a oeste, o que era o mais caro, porque propusemos um projeto autofinanciável que não custou nada à cidade.
EA: A que o Sr. atribui a não conclusão do projeto?
RE: Este e o preço da democracia; as mudanças administrativas e descontinuidade política, mas os planos originais devem estar arquivados em algum lugar.
EA: Como essas pontes foram financiadas?
RE: No caso das pontes a cidade era proprietária de um terreno do outro lado do barranco, adquirido para a construção de um presídio; quando começou essa construção a comunidade em volta se opôs e a interrompeu. O terreno ficou vago por muitos anos. Propus a troca do terreno pela construção das pontes, executadas por administrações posteriores e por outros agentes. Estas pontes levam a Toluca que e densamente povoada, mas no transcurso ate la e possível encontrar propriedades em que por alguma razão afortunada hoje em dia se manteve área verde, numa região extremamente árida. Esta zona deve ser preservada, e atualmente tem a vantagem de estar desocupada. Tenho uma proposta há anos, que se conclua as pontes como no projeto original interligando-as com o circuito interior, sem custo para a cidade em troca de recursos obtidos pela concessão do uso do solo desta área.
Hoje, já como consultor privado estou trabalhando nisso com os proprietários e já consegui o consenso deles para financiar esta troca do uso do solo com as vias de
comunicação que passam por Toluca. Com isto conseguiremos uma alternativa de ligação que se faz urgente para Santa Fé, sobretudo se vai articular sua área de influencia.
EA: Quais os problemas que Santa Fé enfrenta?
RE: Infelizmente Santa Fé não seguiu as diretrizes do Plano original. O novo plano mestre apresenta vários problemas, como a ausência de definição da circulação de pedestres que havia sido originalmente prevista em meu plano.
Dei muita importância à circulação de pedestres e de transportes públicos. No projeto original estava previsto o prolongamento da linha do metrô, ou um corredor exclusivo de ônibus interligando o metro, que esta perto e viável, mas infelizmente esta diretriz não deixou o papel.
O outro problema e a circulação de pedestres; eu mesmo vivo aqui e tenho que dar voltas generosas para andar a pe ou ir de carro já que não foram construídas as ligações de pedestres previstas para que afinal a área funcionasse como uma dinâmica de centro. Mas acredito que este problema vai ser resolvido devido a sua importância.
EA: Que futuro prevê para Santa Fé?
RE: O projeto atingiu grande parte de seus objetivos criando um novo centro de habitação, saúde, lazer etc., que precisa resolver com urgência principalmente os problemas de transporte publico, circulação de pedestres, espaços públicos, estacionamentos, e a conclusão da articulação viária para gerar um verdadeiro centro.
EA: Quais são seus projetos recentes?
RE: Um grande projeto na praia do Carmem em que se esta construindo a Gran Plaza da Ribera Maya, centros urbanos de 90 hectares, na região de Cancun.
E uma região que cresce em torno de 19% ao ano; propus ao governo do estado que adquirisse 2000 ha para desenvolver uma nova cidade e alojar os cidadãos e trabalhadores num centro urbano de 90 ha . Este projeto do centro foi negociado com investidores privados que pagam com terrenos urbanizados de que o governo cobra a mais-valia.
EA: Que caminhos o Sr. vislumbra para a arquitetura e o urbanismo na América Latina?
RE: Creio que existe uma enorme experiência acumulada na América Latina, que cada pais fez muitas coisas, cometeu muitos acertos e ao mesmo tempo muitos erros, o que significa muita experiência.
As soluções latino-americanas são particulares e tem suas próprias características.
Temos reforçado muita a nossa condição de colônia, o que tem suas vantagens já que você copia soluções já estabelecidas, mas você perde a experiência local. A América Latina deve analisar e criar suas próprias soluções.
À medida que importamos soluções deixamos de fazer as nossas e a América Latina tem valores importantes que devem fazer parte das soluções e estas devem ser transmitidos ao mundo.
Cidade do México, três tempos: culturas asteca signo de Tenochtitlán, hispânica e a vida contemporânea no espaço que mescla heranças
Roque González Escamilla
Roque González Escamilla
Arquiteto e urbanista, membro da “Comisión Nacional de Vivienda” do México. Membro do “Comitê Técnico de Evaluación de Proyectos Estratégicos”, gestão de 2006 a 2012, do “Consejo Asesor de Desarrollo Urbano y Vivienda – CADUVI”. Autor do Master Plan para o Business District de Santa Fé, México, DF.
Eunice Helena Sguizzardi Abascal
Eunice Helena Sguizzardi Abascal é Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela FAUUSP. Professora de História e Teoria da Arquitetura da FAU-Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Entrevista
A entrevista aconteceu na Cidade do México (Santa Fé), em 01 de maio de 2007. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em outubro de 2007.
Fotografias
Todas as fotos são da autora da entrevista, Eunice Helena Sguizzardi Abascal
Pesquisa
Esta entrevista é uma atividade parcial da pesquisa “Reconfiguracões espaciais: um estudo de cidades ibero-americanas em perspectiva comparada, São Paulo e Cidade do México”, em curso em 2007 na FAU Mackenzie, com o apoio do Fundo Mackpesquisa. O grupo de pesquisa e constituído pelos professores Eunice Helena Sguizzardi Abascal (líder), Gilda Collet Bruna, Ricardo Hernan Medrano, Luiz Benedito Castro Telles, Claudia Virginia Stinco, Rafael Manzo e Volia Regina Costa Kato. A entrevista foi concedida a organizadora, em viagem a Cidade do México financiada pelo Mackpesquisa, em maio de 2007.