português Regiane Pupo entrevista o arquiteto português José Pinto Duarte, responsável pela implantação de disciplinas relacionadas à utilização do computador e de um laboratório de pesquisa das novas tecnologias em arquitetura no IST, Lisboa
english Regiane Pupo interviews the Portuguese architect José Pinto Duarte, responsible for the implementation of work related to computer use and a research laboratory of new technologies in architecture at IST, Lisbon
español Regiane Pupo entrevista al arquitecto portugués José Pinto Duarte, responsable de la implantación de disciplinas relacionadas a la utilización del ordenador y de un centro de investigación de nuevas tecnologías en arquitectura en el IST, Lisboa
Com inicio em 1998, o Instituto Superior Técnico de Lisboa (IST), em Portugal, criou um curso de arquitetura, com duração de cinco anos, organizado em cinco áreas: ciências básicas, sistemas de suporte ao projeto, história e teoria, tecnologia da construção e desenho arquitetônico.
Depois de estabelecido, o curso contou com a inserção na grade curricular de duas disciplinas relacionadas à utilização do computador: a) programação; e b) CAD. Com a popularização cada vez mais crescente das novas tecnologias a serem utilizadas nos cursos de arquitetura de todo o mundo, algumas experiências iniciais mostravam que a inserção das ferramentas CAD era mais coerente nos estágios finais dos cursos, transformando-a unicamente numa ferramenta de desenho.
Apesar disso, no caso do curso de arquitetura do IST, essas disciplinas foram alocadas nos primeiros anos do curso, visto que o objetivo principal era o de oferecer aos alunos a oportunidade de utilizar o computador como ferramenta de concepção, ao invés de mero instrumento de representação.
Nesta entrevista, o professor José Pinto Duarte, responsável pela implantação destas disciplinas e de um laboratório de pesquisa das novas tecnologias em arquitetura, conta sua experiência e mostra alguns resultados do impacto destas tecnologias no ensino de arquitetura. Seu pioneirismo motivou a inclusão desse curso entre os 20 cursos internacionais no avanço das novas tecnologias, na exposição Spot on Schools, realizada em 2005 em Florença.
Modelação e visualização. Central Tejo, Lisboa. Aluno Eduardo Costa, 2001/2002 Foto Regiane Pupo
Trabalho realizado por cortadora laser Foto Regiane Pupo
Regiane Pupo: Quando se fala em tecnologia computacional para a arquitetura, o que devemos considerar?
José Pinto Duarte: Apesar de tudo, prefiro usar a terminologia “novas tecnologias”, em vez de tecnologia computacional, por dois motivos: primeiro, porque as características que tornam estas tecnologias novas e interessantes vão muito além do recurso ao computador e, segundo, para retirar o computador do centro das atenções. Centrar a atenção no computador dificulta a discussão sobre o papel destas tecnologias em arquitetura e urbanismo e, por conseqüência atrapalha a sua inserção no ensino e na prática. O que é importante é o que as tecnologias permitem fazer, não o fato de usarem o computador. Estas tecnologias são muito variadas e o seu número e as capacidades que oferecem têm crescido muito. No entanto, num primeiro plano podemos distinguir três grandes grupos. O primeiro diz respeito a software de modelação geométrica, que vai desde o tradicional CAD até o software paramétrico que apareceu mais recentemente. O segundo grupo engloba software de simulação e análise do comportamento dos edifícios sob diversos pontos de vista (funcional, estrutural, ambiental, etc.). O terceiro grupo inclui a produção assistida por computador, quer de modelos físicos (dita prototipagem rápida), quer dos próprios edifícios. Estes três grupos formam o que se costuma designar por CAD/CAE/CAM. Depois, num outro plano, temos ainda uma série de ferramentas que não se enquadram nestes grupos como a realidade virtual e a colaboração remota.
RP: Em sua opinião, qual a importância da utilização dessas novas tecnologias para a arquitetura hoje?
JPD: Estas tecnologias são o espelho da nossa época, logo é natural que tenham um impacto na disciplina. Este impacto acontece de duas formas. A arquitetura tem por objetivo construir espaços para albergar a atividade humana. Se esta é transformada pelo desenvolvimento tecnológico, então este fato tem que ser levado em conta na concepção desses espaços. Se as relações humanas e a estrutura da sociedade e das organizações mudam, também as estruturas espacial e funcional dos edifícios e da cidade podem mudar, o que não pode ser ignorado. Depois, não é possível exercer a disciplina de um modo defasado do resto da sociedade. Se em tantas outras atividades se está usando novas tecnologias, como é possível ignorar o seu uso em arquitetura? Finalmente, estas tecnologias podem, de fato, contribuir para uma melhor qualidade da arquitetura produzida e dos serviços prestados pelos arquitetos.
RP: Durante o processo de projeto, existe um momento mais adequado para o uso dessas tecnologias?
JPD: Existem tecnologias adequadas a diferentes fases do processo de projeto, desde os estágios iniciais, até os mais avançados, logo não existe um momento mais adequado para o uso destas ferramentas. Tudo depende do problema de projeto específico que o arquiteto tem de resolver e das ferramentas que tem ao seu alcance. Em alguns casos é vantajoso usar algumas destas ferramentas desde o início. Por exemplo, se o arquiteto está projetando um edifício complexo, cujo consumo energético pode ser elevado, é importante que consiga saber logo no início qual o desempenho da sua proposta a este nível, para que possa corrigi-la quando ainda não está demasiado comprometido com a solução. Pode evitar assim custos de projetos elevados associados a alterações do projeto, ou custos de manutenção do edifício significativos, caso opte por não corrigir a solução. Para que consiga efetuar a simulação cedo no processo de projeto, estudando, por exemplo, o impacto da volumetria, terá que recorrer ao uso de ferramentas digitais. Em outros casos, o uso do computador pode não ser necessário. O importante é perceber que os projetistas têm à sua disposição um leque alargado de ferramentas, umas analógicas e outras digitais e que as pode combinar criativamente no seu processo de projeto, tirando partido das suas características particulares.
RP: É possível utilizar os novos processos computacionais como maneira de pensar o projeto?
JPD: Sim. No início do aparecimento destas tecnologias, usava-se software de CAD para elaborar as telas finais. Neste caso, a nova tecnologia servia apenas para substituir a régua e o esquadro da prancheta de desenho. Hoje, já se acredita que tal como o desenho à mão é uma atividade indissociável do processo de raciocínio que conduz ao projeto – os arquitetos pensam desenhando e desenham pensando – um fenômeno semelhante pode acontecer com uso de outros processos de representação como os permitidos pelas ferramentas digitais. Estas ferramentas, sejam analógicas ou digitais, constituem uma forma do projetista estabelecer um diálogo com o seu próprio trabalho. Donald Schön explicou isto de forma muito clara no seu texto Educating The Reflective Practitioner. Agora, alguns meios digitais proporcionam processos mais complexos e ainda mal estudados. Por exemplo, é possível ao arquiteto trabalhar uma forma manipulando um modelo matemático ou escrevendo um programa de computador. Nestes casos, ainda não se sabe exatamente de que forma estas técnicas de representação afetam o raciocínio e o processo de projeto.
RP: De que forma a prototipagem rápida faz parte do processo de projeto?
JPD: Os arquitetos sempre elaboraram modelos físicos, ou seja, maquetes. Em alguns casos mesmo, estes foram os instrumentos de representação protagonistas em todo o processo. Considere-se, por exemplo, a Sagrada Família de Gaudí, em Barcelona. Sem maquetes não teria siso possível a Gaudí conceber esta obra notável. Ora, a prototipagem rápida pode desempenhar um papel semelhante e com vantagens em alguns casos. Partindo do modelo digital do edifício, a prototipagem permite produzir com alguma rapidez uma maquete da proposta e assim estudar a forma, a iluminação ou outros aspectos da proposta. Atualmente, alguns destes processos são ainda muito caros, porque as máquinas ou os materiais utilizados são dispendiosos, o que impossibilita o seu uso freqüente durante o processo de projeto. No entanto, os custos destas tecnologias tem tendência a descer, o que irá possibilitar um uso mais freqüente e mais alargado no futuro. Quando o automóvel surgiu era considerado um bem de luxo só acessível a uma escassa minoria, hoje o seu uso é universal. É bem possível que o mesmo aconteça com estas tecnologias.
Programa para gerar igrejas românicas
Processo de digitalização, modelagem e fresagem em madeira Fotos Regiane Pupo
Regiane Pupo: Como se deu a implantação de uma nova grade com disciplinas de informática no curso de arquitetura do IST?
José Pinto Duarte: A idéia de criar um conjunto de disciplinas na área da informática na Licenciatura em Arquitetura do IST surgiu em parte porque cursos existentes em outras escolas já possuíam disciplinas nesta área. A Faculdade de Arquitetura (FA) da Universidade Técnica de Lisboa (UTL), a mesma universidade a que pertence o IST, foi pioneira nesta área, criando o Centro de Informática (CIFA) logo em 1987 e introduzindo disciplinas nesta área no ano seguinte no currículo de arquitetura e urbanismo. A iniciativa partiu de um grupo de professores da escola que percebeu a existência de centros destes em outros cursos europeus e da importância que a formação nesta área poderia vir a ter para a empregabilidade dos alunos. Naturalmente, estas disciplinas foram introduzidas nos anos mais avançados. Depois, outras escolas criaram e introduziram centros e disciplinas semelhantes, sempre nos anos mais avançados. Assim, quando o curso do IST surgiu, pensou-se logo em incluir formação na área de informática. A novidade foi a inclusão destas cadeiras nos anos iniciais de formação. Uma das razões desta decisão deveu-se ao fato de em outras licenciaturas do IST existirem já disciplinas de informática nos anos iniciais e de a escola ter a filosofia de exigir alguma semelhança entre os primeiros anos das diferentes licenciaturas. A outra razão esteve relacionada com a própria filosofia que presidiu à criação da licenciatura em Arquitectura no IST. O objetivo foi criar uma licenciatura mais direcionada para as tecnologias em contraste às licenciaturas já existentes no país que provinham de uma tradição mais próxima das Belas-Artes e estavam, por isso, mais orientadas para as artes. Por este motivo, a licenciatura do IST incluiu no seu currículo várias disciplinas não só de novas tecnologias, mas de tecnologias em geral.
RP: Quais eram as novas disciplinas e como funcionavam?
JPD: Na área das novas tecnologias existiam três disciplinas básicas semestrais: Desenho Assistido por Computador I (DAC I), ensinada no 1º semestre do 1º ano, DAC II do 1º semestre do 2º ano e Sistemas de Informação Geográfica, do 1º semestre do 3º ano. DAC I e II eram lecionadas por mim. DAC I abordava a modelação geométrica e a visualização de edifícios. Era pedido aos alunos que escolhessem uma obra de renome e desenvolvessem o seu modelo digital com a finalidade de analisar e descrever as suas qualidades arquitetônicas. Os alunos aprendiam as técnicas digitais básicas (modelação 2D e 3D, foto-realismo, processamento de imagem e edição de páginas WEB) não como um objetivo em si mas motivados pela aprendizagem da arquitetura. DAC II abordava a programação e a fabricação de formas arquitetônicas. Os alunos tinham que selecionar uma classe (tipo) de formas com significado arquitetônico e desenvolver um programa de computador que codificasse as regras subjacentes ao tipo e fosse capaz de gerar novos exemplos do mesmo. Tinham depois de recorrer a técnicas de prototipagem para criar um modelo físico que materializasse o output do programa.
Existia depois uma cadeira anual avançada intitulada “Projeto Assistido por Computador” (PAC) oferecida no 5º ano e também sob minha responsabilidade. Esta cadeira era uma cadeira de projeto que integrava os conhecimentos adquiridos nas duas cadeiras anteriores ao mesmo tempo que expunha os alunos a novas ferramentas, tais como, modelação geométrica avançada, prototipagem rápida, colaboração remota e realidade virtual. Pretendia explorar o uso de técnicas avançadas na abordagem de problemas complexos e no desenvolvimento de soluções inovadoras em colaboração com a indústria. Tinha o formato de uma cadeira de colaboração à distância, aberta a formandos de arquitetura e engenharia não só do IST, mas de outras universidades. O tema de estudo variava de ano para ano, bem como as universidades ou indústrias colaboradoras. Por exemplo, num ano o problema dado aos alunos foi projetar um centro cultural de base tecnológica que incorporasse superfícies com dupla curvatura para ser construído com elementos cerâmicos. Nesse ano trabalhou-se com o Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos e com o Centro de Tecnologia da Cerâmica e do Vidro (CTCV), em Coimbra, Portugal. Os alunos foram solicitados a projetar o edifício e a conceber o sistema construtivo. Tiveram que refletir sobre a forma como as novas tecnologias afetavam os diversos tipos de arte e os edifícios projetados para os albergar e resolver os problemas de representação, estrutura e produção implicados no projeto e construção de formas livres.
RP: Qual a diferença prática em se inserir disciplinas de informática aplicada no inicio do curso de arquitetura ao invés de disponibilizá-las no final do curso?
JPD: Se os alunos aprenderem cedo no seu processo de formação a lidar com as ferramentas disponibilizadas pelas novas tecnologias, o seu uso torna-se natural e espontâneo, facilitando a sua utilização no processo de raciocínio e concepção durante o projeto. É menos natural que a tecnologia se coloque no seu caminho e dificulte a sua tarefa que é conceber edifícios e não manipular software ou hardware. Penso que uma aprendizagem cedo lhes permite utilizar esta tecnologia da mesma forma que utilizam o lápis ou o pincel: para representar e pensar. Também acredito que um conhecimento mais aprofundado da tecnologia lhes permita conhecer as suas vantagens e desvantagens e identificar mais facilmente qual o tipo de ferramenta apropriado para resolver determinado problema.
Modelagem e usinagem de modelo
Protótipo realizado com processo aditivo FDM Foto Regiane Pupo
Regiane Pupo: Qual foi a receptividade dos alunos quanto à sua aplicação juntamente ao ensino de projeto?
José Pinto Duarte: Foi excelente. Provavelmente reflexo desta época, em que a televisão e os jogos de vídeo fazem parte do quotidiano dos jovens, os alunos sempre demonstraram interesse e inclinação para as cadeiras da área das novas tecnologias. Faziam sempre mais do que lhes era pedido e transportavam rapidamente a tecnologia para o quotidiano das cadeiras de projeto para satisfação de alguns professores de projeto e insatisfação de outros, naturalmente. Quando chegavam à cadeira de PAC, não só estavam totalmente motivados para explorar o uso das ferramentas no processo de projeto, como já as dominavam e possuíam uma maturidade de projeto que lhes possibilitava tirar máximo partido delas. Por exemplo, num dos anos, o problema dado aos alunos da disciplina PAC foi a personalização da habitação em série, uma questão a que tenho dedicado grande parte da minha investigação e cuja resposta é possível de forma satisfatória com o recurso das novas tecnologias. Nesse ano, os alunos desenvolveram os seus projetos escrevendo programas de computadores que geravam soluções habitacionais. Isto só foi possível porque programar para eles já era de certa forma natural e porque já possuíam bons conhecimentos de arquitetura.
RP: Os resultados dos trabalhos dos alunos são satisfatórios?
JPD: Os resultados dos alunos têm sido positivos. Isto pode ser avaliado de várias formas. Por exemplo, alguns alunos obtiveram patentes do trabalho desenvolvido nestas cadeiras, algumas das quais deram origem a produtos para a construção que atingiram a fase de comercialização. Outros foram finalistas em concursos nacionais dirigidos a estudantes de arquitetura. Outros ainda obtiveram prêmios com trabalhos desenvolvidos a partir dos conhecimentos e das técnicas aprendidas nestas cadeiras. Lembro-me, por exemplo do FEIDAD Award (Far Eastern International Digital Architectural Design Award), obtido por um aluno de doutorado, ou do prêmio para o melhor paper científico obtido numa conferência internacional por uma aluna de mestrado, ambos freqüentaram e usaram DAC II como base para o desenvolvimento dos seus trabalhos. Mas o aspecto mais positivo é a facilidade com que os alunos que freqüentaram estas cadeiras conseguem obter colocação em bons ateliers, mesmo internacionais.
RP: Dentre os possíveis usos da informática aplicada à arquitetura – representação, geração de formas, algoritmos, inteligência artificial – quais deles são os utilizados em suas disciplinas?
JPD: Em DAC I são sobretudo usadas tecnologias de representação. Em DAC II usam-se algoritmos, sistemas generativos e prototipagem rápida e são dadas algumas noções de inteligência artificial, embora muito rudimentares. Na disciplina PAC faz-se uso de todas estas tecnologias e ainda de colaboração remota e realidade virtual.
RP: Qual o resultado prático do uso de linguagens de programação dentro de ferramentas “prontas”?
JPD: Quando comecei a lecionar no IST, os alunos tinham uma cadeira de programação em “C”, comum a todos os outros cursos, de que não gostavam, penso que por não serem utilizados exemplos relacionados com a arquitetura e, deste modo, não perceberem a utilidade de programação em arquitetura. A esta cadeira seguia-se uma de modelação geométrica. A primeira coisa que fizemos foi inverter a ordem destas cadeiras. Assim, os alunos começavam por aprender modelação e só depois programação. Na cadeira de programação usávamos o Autolisp, uma linguagem de programação que corre dentro do Autocad. Desta forma, os alunos podiam usar o Autolisp para controlar o Autocad, pois os exemplos e problemas que lhes podiam ser dados para resolver estavam mais próximos da arquitetura. Podiam, assim, melhor perceber as vantagens do uso de uma linguagem de programação a partir de uma ferramenta “pronta”. Basicamente, estas vantagens são as de poderem produzir o seu próprio software, adaptando-se a um problema de projeto particular que tenham em mãos, isto é, podem fugir das limitações das ferramentas existentes no mercado. Por exemplo, tive alunos que escreveram programas para gerar objetos “transportados” de projeto para projeto com pequenas variações de forma, como escadas. Outros alunos desenvolveram programas para gerar formas que não podiam ser geradas diretamente em Autocad ou que davam tanto trabalho para serem geradas que se depois quisessem introduzir alterações teriam que começar do início com considerável perda de tempo, o que os desmotivava a fazer uma exploração mais aprofundada da forma. Abordagens deste tipo têm sido utilizadas na prática profissional com considerável sucesso, por exemplo, no projeto da sede do Swiss Re em Londres por Norman Foster. Hoje já existe software paramétrico que permite ultrapassar algumas destas desvantagens, mas as limitações ainda são grandes.
A um nível mais sofisticado, é possível escrever programas que geram edifícios com base em critérios dados no início. Lembro-me da questão da personalização da habitação em série que me referi atrás. Um atelier pode desenvolver um programa capaz de gerar automaticamente soluções personalizadas, ampliando a sua capacidade de resposta e possibilitando angariar mais clientes. Pode também ceder a utilização do seu software num processo semelhante ao franchising. Ou seja, o desenvolvimento de tais programas permite-lhes operar segundo novos modelos de negócios. Esta possibilidade existe não só para a habitação, mas para muitas outras classes de objetos.
Maquetes realizadas com processo aditivo FDM Foto Regiane Pupo
Sala do ISTAR Foto Regiane Pupo
Regiane Pupo: Quais os equipamentos de ponta que os ISTAR Labs oferecem aos alunos?
José Pinto Duarte: Os ISTAR Labs, que vem do inglês “IST Architecture Research Laboratories”, possuem neste momento dois laboratórios: o Laboratório de Arquitetura Computacional, o seu núcleo inicial, e o Laboratório de Arquitetura Bioclimática. O Laboratório de Arquitetura Computacional que é o que me diz respeito tem quatro módulos: modelação geométrica avançada, prototipagem rápida, colaboração remota e realidade virtual.
RP: E quanto a equipamentos específicos?
JPD: O módulo de modelação geométrica avançada possui várias versões de Autocad para arquitetura e engenharia, o Revit, o Rhino e estamos agora tentando adquirir o Catia, além de vários softwares para processamento de imagem e animação (Photoshop, Director, etc.). Possui ainda as habituais digitalizadores de papel e slides e uma pequena digitalizadora 3D, bem como uma sala dedicada com cerca de 24 computadores onde estão instalados os softwares. O módulo de prototipagem rápida possui máquinas para produção de modelos físicos por processos de corte (laser e laminas), aditivos (FDM) e subtrativos (fresadora). O módulo de colaboração remota possui um sistema de videoconferência que funciona por linha RDIS ou Internet e que permite a troca de som, vídeo e dados em tempo real. Possui ainda diversas câmeras especializadas para a captura de diversos tipos de imagens, importantes em processos de projeto de colaboração à distância. O módulo de realidade virtual ainda é muito simples, possuindo um sistema de desktop que usa o software EON Reality.
RP: O laboratório já está em pleno funcionamento?
JPD: Antes da existência do laboratório usávamos outros laboratórios e equipamentos existentes no IST, dispersos um pouco por todos o campus, para podermos funcionar com as cadeiras descritas, uma vez que a licenciatura em arquitetura era nova. O laboratório foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) através de um concurso realizado em 2003, cujo resultado foi conhecido em 2004. Começou a ser instalado em Janeiro de 2005, com a chegada das primeiras máquinas de prototipagem, e a partir daí foi sendo instalado o restante do equipamento. À medida que este foi chegando, foi sendo utilizado no âmbito das cadeiras descritas. Neste momento, estamos terminando a instalação de todo o equipamento para inaugurar o laboratório como um todo neste semestre.
RP: Quais as novas perspectivas para o pleno aproveitamento do ISTAR no curso de arquitetura do IST?
JPD: A minha esperança é que uma vez completamente instalado e inaugurado o laboratório seja usado não só pelas disciplinas que referi, mas por todas as cadeiras da licenciatura em arquitetura do IST, sobretudo as cadeiras de projeto. Gostaria também de ver o laboratório usado por outras licenciaturas como a de Engenharia Civil, possibilitando sinergias entre estas duas áreas de formação.
Mas penso que o mais importante é o seu uso no âmbito de teses de mestrado e doutorado. Neste momento a FA e o IST estão elaborando programas de doutorado que podem vir a fundir-se e que incluem diversas disciplinas na área das novas tecnologias. Estes cursos ou curso conjunto podem tirar grande partido do laboratório já que este pode possibilitar o desenvolvimento de pesquisas em temas de vanguarda. Pessoalmente, penso que qualquer trabalho de pesquisa e, nomeadamente, um mestrado ou um doutorado, deve atingir três objetivos: satisfação intelectual dos autores, aprofundamento da capacidade de resposta profissional dos mesmos e contribuição para o desenvolvimento econômico da sociedade. Seria ótimo se o ISTAR pudesse contribuir para o alcance destes objetivos.
Por outro lado, fez parte do acordo de financiamento do laboratório pela FCT, este estar ao dispor da comunidade, o que permite efetuar a prestação de serviços. Isto irá certamente ajudar a gestão financeira e a manutenção do laboratório, problema sempre delicado em instalações deste tipo, mas representa também um enorme potencial de desenvolvimento de projetos de investigação em colaboração com o tecido produtivo.
Equipamentos do ISTAR Foto Regiane Pupo
José Pinto Duarte Foto Regiane Pupo
José Pinto Duarte
Arquiteto pela FAUTL em 1987, S.M.Arch.S (1993) e Ph.D. (2001) pela MIT, professor associado na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL). Foi Professor Auxiliar no Instituto Superior Técnico e Research Associate no Massachusetts Institute of Technology (MIT) onde trabalhou no projeto Changing Places (casa do futuro, antiga House_>n,). A sua atividade de pesquisa centra-se no desenvolvimento de técnicas de projeto e produção assistidas por computador que permitam a personalização da produção em série, em particular de habitação, e na aplicação das novas tecnologias à arquitectura e ao urbanismo em geral. Sobre este tema é autor de vários artigos em conferências e revistas internacionais. É também autor do livro “Tipo e Módulo” (LNEC, 1995) e co-editor dos livros The Lisbon Charrette (com J. Bento e W.J. Mitchell, IST Press 1999) e Collaborative Design and Learning (com J. Bento, M. Heitor e W. J. Mitchell, Praeger 2004). Foi orador convidado nas universidades de Myiagi (Japão), Harvard e Carnegie-Mellon (EUA) e na firma Ove Arup (Reino Unido). Artigos sobre o seu trabalho foram publicados nas revistas A+U (Japão); Popular Science (EUA) e New Scientist (Reino Unido).
Regiane Pupo
Arquiteta formada pela PUCCAMP em 1986, com mestrado em Engenharia de Produção pela UFSC em 2002 e aluna de doutorado da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo da UNICAMP desde 2005. Atualmente faz um estágio no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, como bolsista da FAPESP. É professora dos cursos de Design Industrial e Arquitetura da Universidade do Vale do Itajaí, UNIVALI, em Santa Catarina.
Entrevista
Entrevista realizada no ISTAR, no Instituto Superior Técnico de Lisboa, Portugal, em 07 de setembro de 2007. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em dezembro de 2007.
Bibliografia
SCHÖN, Donald. Educating the Reflective Practitioner. San Francisco, Josey-Bass Publishers, 1987.
DUARTE, José P. Towards the Mass Customization of Housing: the grammar os Siza´s houses at Malagueira. In Environment and Planning B: Planning and Design, volume 32 (3), p. 347-380, 2005.
DUARTE, José P. Personalização da Habitação em Série: uma grmática discursiva para as casas da Malagueira do Siza. Fundação Caloustre Gulbenkian, Lisboa, 2007.
Trabalho realizado por fresadora Foto Regiane Pupo