português O arquiteto c Abílio Guerra conta nesta entrevista sua trajetória e como se tornou editor do Portal Vitruvius, atualmente o principal veículo virtual de divulgação arquitetônica do Brasil
Participação da revista Óculum na Exposição Zeitgenössische Architektur in Brasilien / Brazil: Recent Architecture, promovida pelo Deutsches Architektur Museum, curadoria de Hugo Segawa, Frankfurt am Main, Alemanha, outubro 1994. Editoria das revistas de Abílio Guerra
Entrevista com o arquiteto Abilio Guerra Revista Arqtextos / UFRGS
A presente entrevista foi realizada via e-mail com o Arquiteto Abílio Guerra, editor do Portal Vitruvius, atualmente o principal veículo virtual de divulgação arquitetônica do país. As respostas, recebidas em março de 2004, permitem conhecer melhor aspectos de sua carreira, idéias e opiniões desse personagem que tem hoje expressão nacional e internacional pelo relevante trabalho que vem realizando no setor.
Capa de CD. Projeto de Acervo Digital Rino Levi, FAU PUC-Campinas / Fapesp, 1997/1999. Coordenação de Abilio Guerra
Arqtextos: Fale um pouco a respeito de sua formação. Por que escolheu a carreira de arquiteto? Onde e quando cursou arquitetura?
Abílio Guerra: Como é o caso de quase todos os arquitetos, desde criança fui um aluno muito interessado em matemática e desenho, tanto geométrico como artístico. Nas inevitáveis divisões dos trabalhos em equipe, sempre me cabia a elaboração de desenhos, maquetes, objetos tridimensionais, etc. Foi assim no grupo escolar e no ginásio, que fiz em Araraquara, interior de São Paulo. Depois fui para um colégio técnico – a ETEP, em São José dos Campos – para fazer o curso de mecânica e pude aprender desenho técnico com muita competência. Paralelo a isso, desde adolescente, eu sempre adorei literatura, história e ciências em geral.
Essa diversidade no gosto e nas habilidades me colocou diante de um impasse na hora de escolher um curso universitário. Minha dúvida era entre arquitetura e história. Acabei fazendo os dois cursos, o primeiro na FAU PUC-Campinas (1978-82) e o segundo no IFCH Unicamp (1980-90). Quando entrei, o curso de arquitetura ainda era recente – a primeira turma só se formou no final de 1978 – e com todos aqueles problemas normais em escolas em processo de formação. Mas havia um conjunto de professores de primeira linha: Sophia da Silva Telles, José Resende, Carlos Martins, Rodrigo Lefrève, Carlos Roberto Monteiro de Andrade, Antonio Carlos Sant’Anna, Edgar Dente, Sylvio Sawaya, Raphael Perrone, Vladimir Bartalini, Áurea Pereira da Silva e muitos outros.
Sala Especial Masterplan Céramique Maastricht e outros projetos, arquiteto Jo Coenen, 3ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, Pavilhão da Bienal no Ibirapuera, 1997. Tema da revista Óculum 10/11. Edição da revista e organização da exposição de Abílio Guerra. Foto Nelson Kon
Arqtextos: O início de sua atividade editorial, ao que parece, foi na revista Óculum. Como começa seu interesse pela produção editorial de arquitetura? Fale um pouco a respeito da revista. Como surgiu? Quem foram os fundadores? Quanto tempo durou? Como funcionava? Qual a filosofia editorial?
Abílio Guerra: Realmente o início da minha carreira editorial foi na revista Óculum. O grupo inicial da revista era grande e formado basicamente por alunos da FAU PUC-Campinas e arquitetos recém-formados na mesma escola. Eu fazia parte do segundo time. As primeiras reuniões aconteceram em 1984, eu creio, convocadas por alguns alunos do grêmio da escola. Como é natural nesse tipo de iniciativa, com o passar das reuniões e a constatação das imensas dificuldades colocadas pela empreitada, o grupo foi diminuindo até se estabilizar nos sete membros do Conselho Editorial: Abílio Guerra, Álvaro Cunha, Francisco Spadoni, Luiz Fernando de Almeida, Paulo Roberto Gaia Dizioli, Renato Anelli e Tácito Carvalho. A lembrança que tenho das primeiras reuniões é muito esgarçada, mas me recordo que a pauta era sempre grande e diversificada: nome da publicação, política editorial, estatuto jurídico, recursos financeiros, matérias a publicar, etc. Era tudo muito confuso pois nenhum de nós tinha qualquer experiência em publicações.
As histórias que eu teria para contar dessa época são quase todas muito educativas, mas me restrinjo a duas, que ilustram o grau de despreparo, mas também de entusiasmo, que contaminava a todos nós. Um pequeno grupo se deslocou até São Paulo, para solicitar um patrocínio da Metal Leve. Para nossa surpresa, fomos recebidos pessoalmente pelo Sr. José Mindlin, na sala de onde capitaneava a empresa, uma das mais importantes do ramo metalúrgico naquele momento. Homem de uma cultura impressionante, um dos maiores apoiadores da cultura brasileira, Mindlin nos tratou como “gente grande”, nos prometeu algum dinheiro e nos colocou em contato com outra empresa, a Villares, que acabou também patrocinando o número. Recordo muito envergonhado que, ao mostrarmos entusiasmados o boneco da revista, o Sr. José nos perguntou sobre a pauta dos próximos números, recebendo de nós um silêncio constrangido. E ele emendou uma outra pergunta, que reverbera até hoje em minha mente: “Como os senhores pretendem que a iniciativa dê certo se nem sabem o que vão fazer a seguir?”
A segunda história é ainda mais patética. A revista foi inteiramente produzida na raça, com um monte de improvisos. O trabalho de past-up naquela época era muito artesanal, mas o nosso era ainda mais: não tínhamos nada padronizado e cada página era feita sobre uma base de papel cartão, que recebia marcações com grafite azul (cor que não é registrada no fotolito), que serviam de guias para a colagem das colunas de texto recortadas e tarjas negras que serviriam como “janelas” para fotografias e desenhos. Quando tivemos certeza que o número 1 da revista Óculum era inevitável, marcamos o lançamento da revista para o Museu de Arte Moderna de Campinas, em agosto de 1985. Como não tínhamos nenhuma experiência e tudo estava dando certo, não achamos nenhum problema em contratar os serviços de uma gráfica que jamais tinha impresso algo mais sofisticado do que notas fiscais, cartões de visita e convites de casamento... Na manhã do dia de lançamento nenhuma revista estava pronta! Todo o grupo invadiu a gráfica e aprendemos rapidamente a imprimir, montar, grampear e refilar. Com quase uma hora de atraso, com os garçons já servindo o vinho, chegamos os sete carregando nos braços os primeiros exemplares da revista. Conforme as revistas foram mudando de mãos, a tinta fresca da capa aonde o preto era predominante foi sujando as roupas dos convidados. Mais constrangimento, agora mais ruidoso, pois as gargalhadas foram inevitáveis.
Lembro desse período com grande emoção, pois foi determinante na minha vida. Antes de ser convocado para as reuniões, não me recordo de um especial interesse pela área editorial, hoje uma das principais atividades profissionais que exerço. Com toda a inexperiência, aquele grupo de jovens acabou produzindo uma revista muito desequilibrada, mas que trazia em suas páginas Éolo Maia, Sylvio de Podestá, Willi Bolle, Nicolau Sevcenko, Marco do Valle, que se tornaram pessoas importantes em várias áreas da cultura brasileira. Alguns dos participantes da Óculum original são até hoje grandes amigos e com eles desenvolvo trabalhos profissionais e acadêmicos. Como já havia previsto José Mindlin, a revista não tinha grande futuro, mas foi formadora de um grupo de pessoas. Tentamos ainda lançar o número dois, mas não conseguimos.
O número dois só apareceria alguns anos depois, em 1992, quanto eu assumi, em companhia de Silvana Romano, a editoria da revista, já na condição de professor da FAU PUC-Campinas, que se tornou co-editora da revista. Até 1997 publicamos mais sete volumes, alguns com numeração dupla (2, 3, 4, 5/6, 7/8, 9 e 10/11). Como se tratava de um projeto pessoal, a trajetória da revista ao longo dos anos espelha minha própria trajetória intelectual, com as preferências, predileções, proximidades intelectuais e amizades de cada momento. Quase sempre contei com a colaboração mais próxima de um ou mais colegas que, invariavelmente, eram creditados como editores assistentes quando o número ficava pronto – é o caso de Anne Marie Sumner, Denio Benfatti, Francisco Spadoni, Luis Espallargas, Marcos Tognon, Maurício Masson, Paul Meurs, Paulo Dizioli e Renato Anelli.
A segunda fase da Óculum pode ser dividida em dois momentos. O primeiro é dedicado à crítica e história da arquitetura brasileira e internacional, contou a presença de articulistas importantes, como é o caso dos brasileiros Agnaldo Farias, Carlos Eduardo Comas, Jussara Derenji, Maria Beatriz de Camargo Aranha, Nabil Bonduki, Silvana Barbosa Rubino, Sophia Silva Telles, Vladimir Bartalini, dentre outros. Os convidados estrangeiros eram também muito expressivos, constando os nomes de Adrián Gorelik, Fernando Álvarez Prozorovich, Françoise Fromonot, Gérard Monnier, Giancarlo de Carlo, Guido Zucconi, Jean-Pierre Le Dantec, Josep Quetglas, Massimo Carmassi, Michel Vernes, Moshe Safdie, Nuno Portas, Pancho Liernur e Peter Eisenman. O segundo momento, que corresponde aos dois últimos volumes publicados, é mais voltado para a discussão dos pressupostos do urbanismo contemporâneo, e acabou resultando na vinda ao Brasil do arquiteto francês Christian de Portzamparc e do arquiteto holandês Jo Coenen.
A: Além de editor, tem ou teve alguma outra atividade ligada à arquitetura (didática, projetual, etc.)? Tem livros ou projetos publicados? Tem outras atividades?
AG: Sou professor da FAU PUC-Campinas desde 1987, aonde sou titular das disciplinas Fundamentos Estéticos da Arquitetura e do Urbanismo e Trabalho Final de Graduação. Sou sócio da Romano Guerra Editora, que tem um catálogo de quatro livros publicados: Rino Levi – arquitetura e cidade (Renato Anelli, Abilio Guerra e Nelson Kon, 2001), Paulo Mendes da Rocha (Helio Piñón, 2002), Metrópole (Abilio Guerra, 2003) e Grupo Arquitetura Nova (Ana Paula Koury, 2003). Tenho idealizado e organizado, sempre associado a Silvana Romano, alguns eventos envolvendo convidados internacionais, como as Salas Especiais “Jo Coenen / Maastricht” e “Alberto Varas / Natural-Artificial” nas 3ª e 4ª Bienais de Arquitetura de São Paulo da Fundação Bienal (1997 e 1999/2000), o “Workshop Rios Urbanos”, promovido pelo Consulado da Holanda (2003), e o “Fórum de Debates” da 5ª Bienal de Arquitetura de São Paulo (2003).
Sala Especial Artificial/Natural, Baudizzone, Lestard e Varas, 4ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, Pavilhão da Bienal no Ibirapuera, 1999/2000. Organização da exposição de Abilio Guerra Foto Nelson Kon
Arqtextos: Hoje o Sr. é nacionalmente conhecido como editor do Portal Vitruvius, principal veículo virtual de divulgação arquitetônica do Brasil. Como surgiu a idéia do portal? Como funciona? Quem faz parte da equipe? Qual o esquema de trabalho? Como é feita a seleção do material enviado? Qual o número médio de leitores? Qual a aceitação? Como o portal se mantém?
Abílio Guerra: Certamente o Portal Vitruvius nasceu da revista Óculum, mas não de forma direta. Conforme os números da Óculum foram surgindo, o número de colaboradores foi se ampliando, em especial os de outros países – brasileiros radicados no exterior ou mesmo estrangeiros. Leitor assíduo de jornais desde a infância, eu sempre achei que o momento áureo da imprensa brasileira foi o período aonde o jornal Folha de S. Paulo contava com quase uma dezena de correspondentes no exterior. Lembro-me até hoje de Pedro del Picchia em Madri, Gerardo de Mello Mourão em Pequim, Clóvis Rossi em Buenos Aires, Paulo Francis em Nova York... O que considerava mais fascinante era o fato deles estarem lá, com os pés fincados onde as coisas estavam acontecendo! Não se tratava de uma reportagem pretensamente imparcial, mas de uma visão assumidamente subjetiva e opinativa. Um juízo de valor expresso com toda a responsabilidade que tal atitude acarreta.
Fui então colecionando colaboradores mundo afora que, dentro de suas possibilidades e interesses, mantinham um diálogo subterrâneo comigo, me deixando informado sobre as questões mais candentes e sobre os temas emergentes. Algumas dessas pessoas tornaram-se minhas amigas e são até hoje colaboradores de diversas atividades que realizado, caso de Paul Meurs, Vittorio Corinaldi, Olívia Fernandes de Oliveira, Pedro Moreira, Eduardo Aquino e Ramón Gutiérrez. Essa experiência formidável foi, na prática, uma série de vacinas que recebi, me imunizando aos poucos do gosto pela novidade espetaculosa, da arquitetura da moda, do discurso vazio e pretensioso. Também me abriu a cabeça para as diferenças de pensamentos, ideologias e encaminhamentos estéticos, expressão formidável de nossa época. Entendo que tais circunstâncias foram fundamentais para me preparar intelectualmente para o que viria a fazer à frente de Vitruvius: compromisso com a profissão, visão democrática do fenômeno cultural, aposta na colaboração e no trabalho coletivo.
Uma adversidade também acabou sendo determinante para a ampliação de minha experiência editorial. A cada novo número da Óculum conseguíamos melhorias significativas na parte gráfica, mas com o conseqüente e indesejável aumento dos custos de produção, que tornavam cada vez mais difícil a viabilização do seguinte. A periodicidade nunca era respeitada, o que criava alguns vazios na comunicação com o público. Foi quando recebi uma sugestão de um dos correspondentes no exterior – Marcos Tognon, naquela ocasião em Pisa – para utilizar o corpo de colaboradores para produzir um informativo mais ágil. Eu adorei a dica e passei imediatamente para a conceituação. Como dirigia na ocasião o Centro de Documentação da escola, conhecia diversos informativos de várias partes do mundo. O que formatei não se parecia com nenhum deles, mas tinha qualidades pontuais que identificava em vários deles. Nascia assim o Boletim Óculum! Apostei em pequenos artigos de tamanhos fixos de uma ou duas colunas que eram assinados pelos correspondentes ou colaboradores eventuais. Ciente do enorme benefício dos contatos de bastidores, publicava o endereço eletrônico junto ao nome do articulista. A primeira página era sempre dedicada às atividades da FAU PUC-Campinas, na época muito atuante. O Boletim Óculum, com uma tiragem superior a 2000 exemplares, circulava por todo o Brasil e tornou-se um sucesso imediato e surpreendente, com o surgimento de um sem número de contatos que geraram amizades, eventos e trabalhos durante os anos de existência do informativo, de 1996 a 2000.
Eu já tinha conhecimentos sólidos da produção editorial por meios digitais, afinal a revista Óculum era integralmente produzida assim. Com o Boletim Óculum comecei a me dar conta dos benefícios formidáveis da comunicação via rede mundial: agilidade, rapidez e baixíssimo custo. Experimentalmente, criei uma versão web do Boletim Óculum, com a ajuda de um aluno, o hoje arquiteto Daniel Carnelossi. Foi o último passo necessário para a minha formação como editor potencial de um Portal de Arquitetura: o conhecimento técnico do universo virtual www. O passo seguinte foi o mais doloroso, pois ele precisava ser dado sem o apoio institucional da PUC-Campinas. Durante os longos meses de amadurecimento da idéia concebida por mim e Silvana Romano, não houve um único momento onde não estivesse presente a dúvida sobre nossa capacidade de levar a cabo o projeto.
O Portal Vitruvius foi concebido como se fosse uma constelação de editorias, as mais importantes com caráter próprio, cada uma delas com tipo específico de aporte sobre os temas de nosso interesse. O nome do portal, de uma obviedade atroz, foi tão difícil de nos ocorrer que acabou atrasando a entrada da página no ar. A primeira editoria foi a revista Arquitextos, dedicada a artigos mais conceituais e acadêmicos, que aparecia solitária durante os meses iniciais e é até hoje nosso carro-chefe. Depois vieram Minha Cidade, Entre/Vista, Institucional, Resenhas on-line, Drops e as diversas seções informativas – Noticiário, Eventos, Concursos, etc. O surgimento da revista Arquitetura.Crítica, sob a responsabilidade de Ana Luiza Nobre e Haifa Sabbag, abriu as portas para editorias independentes, possibilidade que está congelada até o surgimento de uma situação financeira melhor. Vitruvius funciona até hoje sem publicidade, apoio ou patrocínio, sendo seu funcionamento bancado pela livraria virtual, única fonte de recursos. A equipe de produção de Vitruvius é superenxuta – eu, Silvana Romano e Cláudia Reis –, cabendo a mim a responsabilidade de seleção do material que vai ao ar. O Portal conta com até 5000 visitantes por dia, dispersos em mais de 70 países. Temos presença significativa em alguns países latinos, como é o caso da Espanha, Portugal e Argentina. O retorno que temos do nosso trabalho é o melhor possível, com milhares de manifestações da importância de nosso veículo para o meio arquitetônico brasileiro, o que torna ainda maior nossa responsabilidade.
Capa do livro Rino Levi – arquitetura e cidade, de Renato Anelli, Abilio Guerra e Nelson Kon. São Paulo, Romano Guerra Editora, 2001
Arqtextos: Qual sua opinião sobre o mercado editorial brasileiro de arquitetura?
Abílio Guerra: Até uma década atrás, a produção de livros de arquitetura no Brasil era muito pequena, com a atuação de dois segmentos muito distintos: um, que primava por uma situação de semi-profissionalismo de pessoas muito bem intencionadas, que mantinham uma relação orgânica com a produção de arquitetura, mas sem conhecimento aprofundado de vários aspectos do metier; outro, habitado por editoras profissionais, que tomavam a arquitetura como um campo menor, no qual faziam investidas tímidas e pouco arriscadas. O resultado disso era uma produção quantitativamente pouco expressiva e qualitativamente muito desigual. No que diz respeito às traduções, temos lacunas graves até hoje, com livros fundamentais como Espaço, tempo e arquitetura, de Sigfried Giedion, inéditos até hoje.
A situação mudou de forma substancial com a entrada no mercado da editora Cosac & Naify. A editora introduziu procedimentos inéditos na área editorial de arte e cultura no Brasil, tomando o livro como um produto sintético, ao mesmo tempo cultural e industrial. A altíssima qualidade dos livros da editora criaram um novo nível de exigência e obrigou as outras editoras a se posicionarem diante da nova situação. No que me diz respeito, eu acredito que a qualidade que nossa editora conseguiu nos livros produzidos até o momento, em especial o livro sobre Rino Levi, é tributário de vários livros feitos com muita competência – o Oswaldo A. Bratke da Pró-Editores, o Jorge Machado Moreira do Centro de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, para citar alguns –, mas seguramente foram os livros da Cosac & Naify, em especial o belíssimo Paulo Mendes da Rocha e toda a coleção Espaços da arte brasileira, as nossas principais balizas.
Contudo, o mercado pressupõe o comprador de livros de arquitetura, um comprador quase sempre arquiteto e ainda tímido diante da oferta crescente de publicações. Realmente aqui se encontra o gargalo, a fonte das dificuldades atuais do setor, pois a demanda reprimida leva a tiragens pequenas e estas a preços altos. Como enfrentar a situação é um problema que nos aflige.
A: Hoje, a produção de material teórico sobre arquitetura brasileira parece ser até maior que a produção prática de boa qualidade. Parece ser um momento de indefinição e crise, semelhante ao que foi vivido pela Europa pelo final dos anos 70 e início dos 80. O que pensa sobre isso? Estaria havendo uma substituição da atividade prática pela teórica como forma de compensação?
AG: Não há como negar que o atual momento vivido pela categoria – enorme dificuldade de colocação no mercado tanto como empregado como profissional liberal, baixos salários e rendimentos, status social da profissão em baixa, etc. – tem levado a muitos jovens arquitetos a optarem pela carreira acadêmica. Temos então uma situação desconfortável, com uma legião de arquitetos sem experiência prática abarrotando os bancos escolares dos cursos de pós, prorrogando os anos de estudo, postergando a entrada no mercado de trabalho. O que, na maior parte das vezes, só poderá acontecer na condição de professores. Tal realidade tem como subproduto ao menos duas conseqüências maléficas: dificulta muito a identificação dos professores realmente vocacionados e rebaixa o valor do trabalho do docente com uma super-oferta de pessoas oficialmente qualificadas, mas que na realidade só podem dar aulas. Não entendo, portanto, a situação como uma forma de compensação (o que implicaria em algum controle da vontade individual), mas como uma imposição estrutural oriunda da atual inserção de nossa área de atividade nos contextos cultural e econômico do Brasil atual.
Mas eu gostaria de deixar claro que, na minha opinião, é muito difícil imaginar que uma produção teórica de boa qualidade possa ter uma relevância social efetiva sem uma produção prática igualmente qualificada. A arquitetura é um ramo de atividade muito complexo, com raízes fincadas na cultura, na arte, na economia financeira e anímica da coletividade. A produção arquitetônica e urbanística de boa qualidade é tributária de uma cadeia que envolve escolas, professores, teóricos, pesquisas, publicações, indústria, especialistas diversos, clientes, etc. A produção teórica que não tem vasos comunicantes, mesmo que tênues, com a produção, que não visa de alguma forma o estabelecimento do bom habitat para os homens, gira em falso como aquelas máquinas non sense de Marcel Duchámp. Ou seja, se quantitativamente temos uma produção livresca mais expressiva do que a edificada – estou considerando que em sua pergunta há uma afirmação nesse sentido e que ela é verdadeira –, podemos estar diante de uma situação alarmante.
Mas eu não creio que estejamos vivendo uma crise de talentos. Conheço diversos jovens arquitetos muito bons, que estão fazendo coisas interessantes em escalas modestas, com orçamentos muito restritivos. Creio que o problema está no elo de transmissão entre arquiteto-sociedade, que permite ao empreendedor prescindir de concepções arquitetônicas e urbanísticas mais adequadas do ponto de vista sócio-cultural. Creio que aqui há algo a ser feito e entendo que o papel das associações da classe é fundamental. Um grande desafio, que precisa de gente culturalmente preparada.
A: Como vê a verdadeira enxurrada de material sobre arquitetura brasileira que tem sido publicado recentemente?
AG: A mudança da ordem de grandeza do número de publicações com o tema arquitetura que chegam às livrarias é fruto, eu creio, do crescimento geométrico das escolas de arquitetura nas últimas três décadas. De uma situação estável de pouco mais de uma dezena até os anos 70, chegamos à impressionante cifra atual de quase duas centenas! No vácuo, quase duas dezenas de cursos de pós-graduação se estabeleceram em vários Estados, preparando os professores necessários para os novos cursos. O desaparelhamento intelectual e material na maior parte destes cursos para um enfrentamento consistente dos problemas contemporâneos, teve como resultado um desequilíbrio no foco das pesquisas, engordando a lista dos trabalhos de história e de crítica. Estes trabalhos – infelizmente, em sua maioria, inconsistentes nos aspectos metodológicos – voltam-se quase que exclusivamente para o universo acadêmico, o que explica uma crescente demanda para encontros diversos (Simpósios, Congressos, Seminários, etc.) e a mencionada “enxurrada” de títulos publicados. Creio que parte do sucesso do Portal Vitruvius pode ser tributada a esse fenômeno. Suponho que estamos aprendendo a fazer tudo isso – pesquisa, encontros, publicações –, mas é certo que o incremento quantitativo vai resultar na melhoria qualitativa, o que já está acontecendo visivelmente.
Capa do catálogo Metrópole – Fórum de Debates da 5ª BIA. Romano Guerra Editora / Fundação Bienal de São Paulo / IAB / CCBB, São Paulo, novembro de 2003. Coordenação do Fórum e editoria do catálogo de Abilio Guerra
Arqtextos: Comente a trajetória das principais revistas de arquitetura brasileira mais recentes – Módulo, Projeto, AU – e seu papel no panorama arquitetônico brasileiro.
Abílio Guerra: Vou fugir, sem qualquer ranço de vergonha, dessa pergunta. Não por uma pretensa “ética” que me impediria de falar de colegas. Na verdade não me sinto muito habilitado para falar dessas publicações, pois não as acompanho com a merecida atenção. Mas não me furto a fazer alguns comentários genéricos que são muito mais um sentimento do que propriamente uma constatação. O que eu ouço sistematicamente de colegas é que as revistas brasileiras estão publicando obras muito ruins, o que para uns seria o sintoma de uma produção média ruim, e para outros prova da falta de critério dos editores.
Mas eu vejo a situação de um outro ponto de vista. Considero que parte substancial da arquitetura produzida hoje no mundo é de baixa qualidade, portanto é praticamente impossível não se publicar coisas ruins. Mas também entendo que em praticamente todos os períodos da história da arquitetura tivemos a presença constante da arquitetura de baixa qualidade, pois fazer bem feito é algo absurdamente mais difícil do que fazer mal feito. Contudo, o que sempre aconteceu, ao menos desde o Renascimento, é que o tacão de medida do que deve ser feito é o mesmo que vai depois medir o que foi realizado. As codificações cifradas em Tratados garantiam que o circuito da produção ficasse totalmente sobre controle. Com o advento do modernismo, os códices foram abolidos, mas os novos modos de fazer tinham como juízes os adeptos da causa – Pevsner, Benevolo, Zevi e demais. Arquitetura era coisa de arquiteto, feita e avaliada pela corporação. O que não era considerado bom, sequer era considerado, estava “fora”. Quando olhamos para esses períodos pela triagem das publicações, temos então aquela sensação agradável de uma produção média de excepcional qualidade, quando na verdade tudo aquilo é fruto de uma seleção do começo ao fim.
Uma nova realidade se montou após a Segunda Guerra Mundial. Aconteceu à arquitetura algo similar ao cinema – transformou-se em business. O cinema, que nasceu como entretenimento, ganhou aura de grande arte nos anos 20 do século passado. Com a consolidação de Hollywood, transformou-se em um ramo da indústria, com sua produção sendo concebida como mercadoria, que seria jogada no mercado com a finalidade de se obter o maior lucro possível. O que não implica que Hollywood não tenha excepcionais artistas – atores, diretores, roteiristas, escritores, maquiadores, etc. –, mas não há dúvida que a avaliação artística da produção cinematográfica ficou maculada pela introdução de aspectos extra-estéticos, que são essenciais a sua própria existência. Na arquitetura atual, em toda parte do mundo, temos uma realidade muito parecida: como mercadoria a serviço da reprodução do capital, já não se submete mais aos constructos intelectuais produzidos dentro da corporação.
Como as revistas estão no final da linha de produção, ficou muito mais difícil ser editor de arquitetura. Os editores das revistas Acrópole, Módulo, Habitat e outras mais antigas, publicavam o que era feito por um grupo relativamente pequeno de profissionais, que monopolizavam as encomendas e projetavam segundo modos acordados por eles mesmos. Com a nova realidade, o editor já não tem mais a segurança da situação anterior. Ele tem que escolher o que publicar. Eu diria que ele tem que fazer algo ainda mais difícil: ele tem que escolher não exatamente o que publicar, mas como olhar para o que vai publicar. Dentro desse circuito temos excepcionais arquitetos, como Norman Foster e Renzo Piano, que fazem um sem número de concessões, mas que conseguem garantir uma qualidade respeitável para a maior parte de suas obras. Cabe ao editor de arquitetura – ao menos no meu modo de entender seu papel na sociedade atual – escolher o ponto de vista correto para olhar a obra desses arquitetos. Foi o que tentei fazer com Christian de Portzamparc, ganhador do Prêmio Pritzker e membro do jet set internacional, recortando e elegendo sua obra de uma forma inusual.
Palestra de Peter Cook no Fórum de Debates da 5ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, Pavilhão da Bienal no Ibirapuera, 2003. Coordenação do Fórum de Abilio Guerra Foto Juan Guerra
Arqtextos: O que acha da atual produção da arquitetura brasileira? Como a compararia com a dos anos 30 a 70, auge das chamadas “escolas paulista e carioca”? O que pensa da divulgação desse material mais recente em revistas especializadas?
Abílio Guerra: Tenho publicado nos últimos tempos diversos resultados de concursos Brasil afora. O que me tem chamado atenção é o elevado número de arquitetos muito jovens que tem se destacado nestes concursos. São jovens de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e das principais capitais, mas também gente de cidades grandes do interior ou de capitais de Estados mais periféricos, o que demonstra o vigor da novíssima geração. Certamente eles terão que passar pela provação de esperar as oportunidades de construir, oportunidades muito escassas no momento atual. A jovem geração de arquitetos, que anda por volta dos 30 a 40 e poucos anos de idade, tem uma safra excelente, em especial na cidade de São Paulo. Ângelo Bucci, Álvaro Puntoni, MMBB, Una, Piratininga, Andrade & Morettin, Projeto Paulista, Mario Biselli, Renato e Lilian Dal Pian, Marcelo Barbosa, Jupira Corbucci e outros excelentes arquitetos, deram prosseguimento, com variações e perspectivas próprias, aos pressupostos fincados pela chamada “Escola Paulista”, ou então se mostraram refratários a ela, buscando caminhos alternativos e renovadores. Evidentemente, por estar em São Paulo, conheço muito melhor as coisas que se fazem por aqui, mas ressalto essa minha percepção de que a arquitetura de boa qualidade da novíssima geração é mais diversificada geograficamente, o que seria – caso eu tenha alguma razão – muito bom para todos nós.
Quando se fala em produção atual, teríamos que considerar também as obras da “velha guarda” atuante, arquitetos como Paulo Mendes da Rocha, Lelé, Eduardo de Almeida, Oscar Niemeyer, José Walter Toscano, Severiano Porto, Pedro Paulo de Mello Saraiva e outros. Também seria obrigatória a presença das gerações intermediárias, constando nomes como Hector Vigliecca, Edson Elito e Marcos Acayaba. Somada, a produção de todas as gerações atuantes conforma um painel de muito bom nível que, evidentemente, só poderia alcançar um parâmetro de possível comparação com momentos áureos de nossa arquitetura se fossem dadas a eles as mesmas possibilidades. Contudo, vale a pena ressaltar que sobre o passado existe uma carga aurática que torna muito difícil se falar com propriedade, sendo praticamente impossível se falar, sem se criar frisson, sobre problemas evidentes em alguns encaminhamentos destas arquiteturas consagradas, que nem de longe são apenas magníficas como muitos supõem.
A: Quais, na sua opinião, os principais nomes da arquitetura brasileira atual? Quais os projetos que considera mais relevantes?
AG: Já mencionei diversos nomes de arquitetos que considero relevantes ao responder as perguntas anteriores. Mais uma vez ressalto que não quero ter a pretensão de ser o juiz dessa questão, pois não me sinto habilitado a tanto. Mas gostaria de responder a pergunta com um comentário sobre uma distinção muito forte, que tem me chamado muito a atenção, que nos últimos anos tem se cristalizado entre a produção mais qualificada das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo.
Na primeira, temos um aporte do conhecimento urbanístico como nunca ocorreu em nosso país. As duas séries de projetos urbanos do Rio-Cidade e as dezenas de intervenções do Favela-Bairro conformaram um respeitável arsenal de conhecimentos e procedimentos na escala urbana que constituem parâmetro para todos os que se interessam pelo tema. Também é visível os vasos comunicantes entre as produções projetual e a acadêmica, com a sedimentação conceitual de conquistas práticas. Arquitetos como Jorge Jáuregui, Índio da Costa, Vicente del Rio, Pablo Benetti e diversos outros foram capazes de uma reflexão sistemática e uma atuação coerente, aonde puderam contemplar demandas complexas e diferenciadas das realidades locais. Questões como sociabilidade, identidade, espaço público, fundamentais para uma real qualificação do espaço cidadão, tiveram ali espaço para se manifestarem. Por outro lado, a arquitetura de edifícios não tem a mesma expressão e não se mostra à altura das manifestações de períodos anteriores.
Em São Paulo temos uma inversão da situação, com um urbanismo mambembe, entregue à especulação imobiliária ou aos seus representantes entronados no poder público – situação felizmente em processo de reversão nos anos mais recentes–, enquanto a arquitetura mostra-se, mesmo que em guetos, viva e vigorosa. O poder público em nível estadual teve uma destacada participação, principalmente nos âmbitos de recuperação de edifícios históricos – Pinacoteca do Estado, Sala de Concertos São Paulo na Estação Júlio Prestes, Estação da Luz, Edifício do DEOPS – e nas novas estações de sistemas de transportes de massa, com destaque para a estação Sumaré de Metrô, projeto de Wilson Brascetti. Nem de longe esta atuação consegue equilibrar a péssima produção promovida pela iniciativa privada, aonde projetos de bom padrão, como o Hospital Oswaldo Cruz, de Botti & Rubin, é uma prova melancólica de que se faz o ruim por opção.
A: Pretende dar seguimento aos projetos atuais? Quais seus planos para os próximos anos?
AG: Meus planos são muito ambiciosos: continuar a produzir livros, conceber e organizar eventos, manter e ampliar o Portal Vitruvius, continuar a entrar em sala de aula para conversar com meus alunos, e isso tudo por muitos anos.
Instalação “Cidade e seu duplo”, Abilio Guerra e Marco do Valle, Exposição Arte/Cidade – a cidade e seus fluxos, curadoria de Nelson Brissac Peixoto, São Paulo, novembro 1994
Abílio Guerra
Abílio Guerra, arquiteto, professor da FAU Mackenzie, atual editor do Portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora. Editor da revista Óculum durante toda sua existência. Idealizador das Salas Especiais “Jo Coenen / Maastricht” e “Alberto Varas / Natural-Artificial” nas 3ª e 4ª Bienais de Arquitetura de São Paulo – BIA – da Fundação Bienal. Mestre e doutor em História pelo IFCH-Unicamp, co-autor do livro Rino Levi – arquitetura e cidade e organizador das publicações Eduardo de Almeida e Metrópole, catálogo do Fórum de Debates da 5ª BIA.
Arqtextos
Revista do Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura (PROPAR) da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre.
Entrevista
A presente entrevista foi publicada na revista Arqtextos, ano V, nº 1. Porto Alegre, UFRGS, 2004, p. 6-17. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em março de 2006.
Data
O Portal Vitruvius disponibilizou essa entrevista no ar em março de 2006.