português Marcelo Corti entrevista o urbanista catalão Jordi Borja, que fala sobre as recentes revoltas na periferia de Paris e seus condicionantes históricos e urbanísticos
english Marcelo Corti interviews planner Catalan Jordi Borja, who talks about the recent riots in the suburbs of Parisian suburbs and their historical conditions
español Marcelo Corti entrevista al urbanista catalán Jordi Borja, que habla sobre las recientes revueltas en la periferia de París y sus condicionantes históricos y urbanísticos
O círculo vicioso da marginalização. Jordi Borja e a violência no subúrbio de Paris Marcelo Corti
O Centro de Estudos para a Gestão de Políticas Públicas Urbanas (CEPPUR) realizou sua apresentação oficial em Buenos Aires no dia 15 de novembro de 2005, com uma conferência do urbanista catalão Jordi Borja. Ao terminar a conferência, dialogamos com Borja sobre os acontecimentos na periferia de Paris, que nesse momento alcançavam sua maior repercussão na mídia.
Banlieue em Paris
Marcelo Corti: A exclusão marginal ética e a violência na periferia parisiense, e em geral nas grandes cidades européias, são problemas que ocorrem "na cidade" ou, num certo ponto, são questões próprias da cidade? Como se articulam as dimensões social, política e territorial destes conflitos?
Jordi Borja: Num conflito como o que ocorre hoje em Paris intervêm muitas causas, mas o tema que eu enfatizaria mais é que já faz anos se avariou o elevador social. A gente que vive nestes bairros é, em grande parte, de origem imigrante, mas ao dizer "origem" estamos dizendo que se trata de filhos, e incluso netos, de imigrantes. A imigração tão importante dos anos ´50, ´60 e ´70 foi um dos fatores, ainda que não o único, que moveu à construção destes grandes conjuntos de habitações, os HLM – Habitation à Loyer Moderé (1), etc. Foi uma imigração que se integrou bem rapidamente na sociedade francesa através de uma mobilidade social ascendente vinculada ao trabalho. Boa parte desta população era de origem magrebe, africana, também de cidades do sul da Europa, Espanha, Itália, Portugal; uma parte era religiosa, outra não: muitos dos que chegaram sendo religiosos deixaram de ser. Em todo caso, este nunca foi um problema, nunca foi um elemento de identidade significativo. Muita gente de procedência africana ou árabe deixou de ser religiosa, e ainda que fossem, todos enviaram seus filhos à escola laica, a escola republicana francesa. O que efetivamente funcionou foi a integração através do trabalho, por isso nestes grandes conjuntos se mesclaram pessoas de distintas migrações com franceses de raiz.
O que é que ocorreu? Um processo social e urbano. O processo urbano, que é o mais evidente, é o que se chamou o círculo vicioso da marginalização. Estes bairros, de arquitetura pobre e de urbanismo ainda mais pobre, com pouca qualidade cidadã, periféricos, nem sempre bem comunicados, com pouco equipamento, nas margens da cidade, foram progressivamente abandonados pelas pessoas que melhoravam sua posição. E em troca, os que vieram para eles são precisamente as pessoas que não melhoravam sua posição, as que estavam na escala social mais baixa. Este fenômeno urbano foi acentuando o que era no principio um processo social, em que as pessoas que ficavam na parte baixa da escala (ou que diretamente descendiam) eram em grande parte imigrante. Isto era assim porque na prática funciona uma discriminação de fato, não jurídica, sobre aquelas pessoas que, ainda sendo franceses de nacionalidade, são de origem árabe, africana, latino-americana (em muito menor medida), turco, etc. Estas pessoas são as que na segunda ou terceira geração viram freada sua ascensão social, e ficaram ali. Não todos os de origem imigrante ficaram ali, mas os que ficaram ou os que chegaram nos tempos mais recentes são em grande parte de origem imigrante, ou franceses muito pobres, o que aumenta o grau de violência potencial, porque é gente que disputa os postos de trabalho de pior qualificação. Nestes bairros violentos, a porcentagem de desocupação pode ser facilmente de 50%. Mas existe algo pior que isto: a falta de perspectiva. Nos bairros marginais o problema não é unicamente uma questão de déficit urbano ou de desemprego: é que não se vê saída. Até os anos 80, nestes bairros o acesso ao trabalho era possível e a educação era uma garantia de progresso social. Então, se criam situações de estopim, e quando existe um estopim, uma chama o acende, isso foi o que passou. Existe uma dimensão estritamente urbana, que poderíamos resumi-la em três pontos: localização periférica, pobreza do espaço público e arquitetura dura, sem qualidade. Mas acredito que pesa mais o aspecto social, que está ligado à descriminação, ao desemprego, e à falta de perspectiva de mobilidade.
Banlieue em Paris
notas
1 Os organismos que administram os HLM (Habitation à Loyer Moderé) gestionam em torno de 35% do parque residencial construído na França. Uma pagina WEB do governo francês informa sobre sua situação: <https://bailpdf.com/articles/ministere-du-logement>.
Banlieue em Paris
Marcelo Corti: A situação francesa é diferente à de outras sociedades européias, inclusive a resposta dos governantes?
Jordi Borja: Não, isto ocorre em toda Europa, em todo o continente ocorreram explosões urbanas. Ocorreram na Alemanha, na Inglaterra, na Bélgica; ocorreram incidentes inclusive no Estados Unidos. Quanto às respostas: a explicação clássica sobre a Revolução Francesa é que havia, por um lado, umas condições estruturais. O sistema de organização da propriedade, de caráter feudal, não se podia manter; havia uma conjuntura desfavorável porque as colheitas de trigo tinham sido más, e ocorreram uns quantos fatos que fizeram explodir a situação, como a exclusão do terceiro estado na Assembléia Nacional. Sobrepuseram-se a causalidade estrutural, a casualidade conjuntural, e finalmente a causalidade ligada a acontecimentos muito particulares e momentâneos. No caso da periferia parisiense houve um senhor que se encontrou com muito petróleo esparramado e começou a acender fósforos, que foi o Ministro do Interior Sarkozy. Quando o ministro disse que toda esta gente dos bairros é racaille, infame; isso indignou a todo mundo: o ministro do interior teve um papel importante nesta violência, porque foi o que alimentou o fogo.
MC: A situação que descreve no subúrbio francês soa muito parecida à das periferias urbanas latino-americanas: várias gerações de imigrantes que não puderam sair dos bairros pobres (com todas as diferenças existentes entre favelas, cortiços e vilarejos em relação aos HML franceses...), ruptura do Estado de Bem-estar, perda da esperança, essa abominável sensação de que não existe saída.
JB: Existe um fenômeno geral que afeta a todas as sociedades, desenvolvidas ou não tão desenvolvidas, mas que é comum a Argentina, Espanha, França, etc. É que, diferente do que ocorria há 30 ou 40 anos, agora os filhos dos setores médios e baixos (inclusive, às vezes, dos setores altos) não têm a segurança de viver melhor que seus pais, inclusive têm a certeza de que no melhor dos casos viverão mais ou menos igual. Isso é geral. Mas têm circunstancias inovadoras, como por exemplo que nunca a sociedade tinha sido mais ostentosa em relação ao consumo...
Banlieue em Paris
Barricadas estudantis de Maio de 68 em Paris
MC: Em algumas posições, nem sempre conservadoras, se relacionam os reclamos dos imigrantes com as posições intolerantes do fundamentalismo muçulmano.
JB: A intolerância não é nova, sempre houve intolerância. A Espanha árabe era muito mais tolerante que a Espanha dos Reis Católicos. O fundamentalismo religioso no mundo árabe é relativamente recente, e se dá especialmente em alguns países aliados do Estados Unidos, como na Arábia Saudita. Em respeito à discriminação da mulher, é algo que no Ocidente (e muito especialmente na Espanha) só começou a se superar em tempos muito recentes.
Os manifestantes que queimam carros cometem um delito, mas, que ocorre, por exemplo, com os ricos que não pagam impostos? No início da revolução industrial e do movimento obreiro, os trabalhadores se expressavam queimando ou destruindo as máquinas dos lugares onde trabalhavam. Isto não seria inteligente, mas expressava uma rebelião, uma necessidade de fazer visíveis seus problemas, que depois se canalizaram por instrumentos mais inteligentes. Acredito que atualmente muito disto se repete nas revoltas de base territorial onde os novos excluídos expressam sua visibilidade e isso, em principio, não é condenável.
MC: É quase obrigatório fazer uma referência ao Maio francês em comparação com os distúrbios do subúrbio, mas também é quase óbvia a diferença entre as classes sociais e as reclamações de cada caso.
JB: Claro que existem diferenças, em um caso se trata de uma mobilização com foco no bairro universitário, ao redor da Sorbonne, conduzidos por jovens da elite, e noutro, de violência na periferia pela exclusão social. Mas acredito que à margem destas diferenças, existe uma coincidência mais ampla: trata-se em ambos casos de jovens que protestam contra uma estrutura social e política atrofiada, que não sabe interpretar as demandas mais óbvias de uma sociedade. Nos episódios prévios ao maio de 68, as demandas dos estudantes foram muito mal compreendidas pelas autoridades. Numa assembléia onde participava o ministro da educação, Daniel Cohn-Bendit exigiu que pudesse haver intercâmbios e visitas entre os pavilhões de garotos e garotas nas residências universitárias, algo que era lógico, porque os jovens da época já tinham deixado para trás as repressões sexuais de tempos passados. E o ministro lhe respondeu, quase com a mesma soberbia e ignorância com que hoje Sarkozy fala da "escória" social, que se Cohn-Bendit tinha "calores", que se atirasse em uma piscina...
Daniel Cohn-Bendit em manifestação de Maio de 68 em Paris
Conjunto residencial HML no Cais de Rohan, em Lorient
MC: Voltando à pergunta inicial: existem respostas possíveis através das políticas urbanas?
JB: Durante a presidência de Lionel Jospin, por exemplo, se havia implementado um sistema de policiais de proximidade que tinha muitas virtudes. Possivelmente, se ainda existisse esse sistema, não haveria ocorrido o incidente de Clichy (onde os garotos saíram correndo por temor à policia convencional), porque se tratava de uma instituição que tinha dialogo freqüente com os jovens, era conhecida no bairro e gerava mais confiança.
Em uma ocasião, participei de um seminário sobre insegurança urbana numa cidade da periferia de Lyon. Era um sábado, e quando estávamos terminando propus ao prefeito que com os expositores saíssemos para tomar algo em algum bar para continuar o debate. Com cara de susto, me disse "mas é que aqui nada está aberto a esta hora" (eram 9 ou 10 da noite...). Perguntei-lhe que faziam os jovens a esta hora então, e me respondeu que os que tinham carro iam a Lyon, o resto ficava sem nada para fazer porque não tinha bom transporte público e, em muitos casos, não tinham carro ou não tinham idade para conseguir uma licença de dirigir. Não necessita ser um experto em biologia para saber que nessa idade, os jovens necessitam mover-se, gastar energias... Que poderiam fazer em uma cidade sem bares, sem clubes, sem nada que pudesse recebê-los à noite?
Por outro lado, na segregação e guetificação há muito egoísmo em relação ao patrimônio urbano. Muitas vezes, os coletivos vicinais se opõem a que se instale uma mesquita, mas não especialmente por uma questão de descriminação religiosa, mas porque se afeta o valor do solo e das propriedades: as mesquitas desvalorizam o solo urbano. Uma vez propus a autoridades da Prefeitura de Barcelona que construíssem uma mesquita em pleno centro da cidade para dar um exemplo no sentido contrario, mas me responderam que isso era impossível porque o solo era muito caro...
Conjunto residencial HML no Cais de Rohan, em Lorient. Projeto de remodelação de Roland Castro
[fonte: Projeto de Cooperação Paris Banlieue]
Jordi Borja
Nascido em Barcelona (1941), estudou Direito e Ciências Políticas, Sociologia, Geografia e Urbanismo. Foi professor do Instituto Francês de Urbanismo em Paris e pesquisador do Instituto de Estudios Sociales Avanzados – CSIC de Barcelona. Na carreira política, foi assessor do prefeito para assuntos de Descentralização e Participação (1983-1987), vice-presidente executivo da Área Metropolitana (1987-1991) e delegado de Relações Internacionais e Cooperação (1991-1995). Entre seus livro, destaque para Cities: New roles and forms of governing (1996), Barcelona: un modelo de transformación urbana, 1980-1995 (1996), Local y global (1997), Gestión y control de la urbanización (2000) e La ciudad conquistada (2003). Com Manuel Castells, publicou Local y global: la gestión de las ciudades en la era de la información (1999)
Originalmente publicada na revista digital Café de las Ciudades, ano 4, p. 38, dez. 2005. <www.cafedelasciudades.com.ar/politica_38_1.htm>. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em março de 2006.
Tradução
A versão em português foi realizada por Ivana Barossi Garcia.