português Equipe de alunos do segundo semestre da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie entrevista o arquiteto Marcos Cartum, tendo como tema central a Praça das Artes.
como citar
Ayslane Pires de Almeida.
“Praça das Artes, uma passagem urbana na quadra”.
Vitruvius entrevista, ed. 24.094. 2023.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/24.094/8821
Arquiteto Marcos Cartum
Nascido em 1960, o paulistano Marcos Cartum teve seu primeiro impacto em relação à harmonia da cidade de São Paulo com a presença ostensiva do Minhocão, que via pela janela do apartamento onde residia quando criança. O Elevado João Goulart, nomeado antigamente como Elevado Costa e Silva, rasgou a região central da cidade, cortando em duas uma enorme área do centro de São Paulo. Em declaração ao jornal Folha de S.Paulo em 2010, atribui a essa presença a escolha da profissão: “Suspeito que, ali, tomei a decisão de virar arquiteto”, assim, comprovando sua sensibilidade com a urbanização de São Paulo.
Cartum – formado arquiteto em 1985, na FAU USP –, projetou diversos espaços públicos, como a Praça das Artes em 2012 (em parceria com o escritório Brasil Arquitetura), localizada no centro da cidade junto ao Vale do Anhangabaú, a Praça Memorial 17 de julho, nas proximidades do aeroporto de Congonhas, homenagem aos mortos no trágico acidente aéreo em 2007, e o Monumento ao Migrante Nordestino, em 2010, no Largo da Concórdia.
Participou também do Plano Diretor do Parque do Ibirapuera e do desenvolvimento de ações de requalificação do parque, incluindo a obra do auditório projetado por Oscar Niemeyer e o restauro do Planetário e da Escola de Astrofísica, além de ter cooperado no projeto de instalação do Museu Afro Bras, de autoria do escritório Brasil Arquitetura.
Estudantes de arquitetura Jannina Lima de Andrade Lins, Ayslane Pires de Almeida, Tainara Miranda de Oliveira, Bruno Rodrigues Alves de Pinho e Vinicius Eliel Almeida Ramos na Praça das Artes, São Paulo
Praça das Artes, acesso avenida São João, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
Alunos FAU Mackenzie: Por que você escolheu fazer a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo?
Marcos Cartum: Desde criança eu gostava de desenhar e, na escola, era o aluno que se distinguia por isso. Assim, as pessoas que me conheciam diziam sempre que eu seria arquiteto, o que acabou virando uma espécie de destino natural. Além disso, sempre tive interesses variados e no momento de escolher a faculdade, a de Arquitetura me pareceu a que possibilitaria o campo mais amplo de possibilidades por reunir humanidades, exatas e principalmente criação.
AFM: É verdade que seu primeiro choque estético foi aos 9 anos quando viu o Minhocão? Se sim, o que passou pela sua mente?
MC: Penso que um verdadeiro choque estético se dá de forma positiva, quando somos impactados por uma obra de arte que nos marca profundamente, como experiência transformadora. No caso do Minhocão foi o contrário. Na infância eu morava em um prédio da rua Amaral Gurgel e, de repente, um monstro destruiu a paisagem em frente a janela do meu quarto. Foi um trauma, e pode ser que tenha contribuído para, muitos anos depois, eu ter escolhido uma profissão e uma carreira capazes de fazer o contrário: melhorar a cidade.
Praça das Artes, acesso Vale do Anhangabaú, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
Foto Equipe FAU Mackenzie
AFM: Como é para um arquiteto trabalhar na Secretaria de Cultura? O que você faz nesse setor?
MC: Hoje em dia sou diretor do Museu da Cidade de São Paulo, mas ao longo dos muitos anos na Prefeitura de São Paulo trabalhei como arquiteto em diversas Secretarias Municipais: com urbanização de favelas e projetos de conjuntos habitacionais na Habitação, coordenando a elaboração do Plano Diretor do Parque Ibirapuera no Verde e Meio Ambiente e, na Cultura, no Patrimônio Histórico e na coordenação de um Núcleo de Projetos. Trabalhar com espaços públicos sempre foi um interesse muito grande, e conciliar isso com a função cultural dos equipamentos me permitiu atuar como arquiteto e urbanista na área com a qual mais me identifico, a cultura.
Praça das Artes, acesso Rua Conselheiro Crispiniano, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
Praça das Artes, acesso Rua Conselheiro Crispiniano, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
Foto Equipe FAU Mackenzie
Alunos FAU Mackenzie: Quais foram os principais desafios enfrentados durante o processo de criação do projeto da Praça das Artes?
Marcos Cartum: Em primeiro lugar foi o da escolha do local e o de convencer os Secretários e o Prefeito de que o projeto não deveria ser apenas o de um edifício para abrigar os anexos do Teatro Municipal, mas também ser um indutor de requalificação urbanística da quadra e de seu entorno, contribuindo para a reversão da decadência da área central da cidade. Outro desafio foi o de vencer as resistências da burocracia para viabilizar um projeto de grande magnitude e que atravessou várias gestões, e, até mesmo, enfrentar a visão um tanto conservadora dos técnicos do patrimônio histórico.
AFM: O projeto da Praça das Artes tem algumas semelhanças visuais com o Sesc Pompeia, você se inspirou nele para projetar a praça? Qual foi a inspiração por trás do design das fachadas dos edifícios?
MC: A referência do trabalho de Lina Bo Bardi e do brutalismo é muito forte em minha geração. A linguagem, com a qual me identifico bastante, do trabalho dos meus colegas Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, com quem divido a autoria do projeto, também influenciou. Na verdade, antes da questão estética e do concreto aparente, os dois projetos se assemelham devido a alguns aspectos comuns de concepção urbanística. Ambos aproveitam edifícios antigos e reorganizam a quadra em que estão inseridos com edifícios interligados, dando primazia ao espaço livre de circulação e convívio (é um orgulho que o conjunto com cerca de trinta mil metros quadrados de área construída tenha nome de praça).
Praça das Artes, abertura em sala de ensaio, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
As fachadas, com o jogo de pequenas aberturas, traduzem as funções dos ambientes destinados a ensaios e ensino de música e dança – espaços que requerem grande isolamento acústico e, portanto, bastante fechados, quase como se fossem estúdios de gravação. Conceitualmente, teve também um papel importante na concepção o diálogo em contraponto entre a radical abertura do térreo e os blocos monolíticos, assim como o contraste entre o novo e o que foi preservado.
AFM: Qual sua opinião e participação na escolha das cores dos edifícios dentro da praça?
MC: Tudo foi definido em conjunto com os colegas, as cores marcam a diferença entre os blocos que têm funções distintas. Procuramos “esquentar” o concreto coma pigmentação: o amarelo nos blocos que abrigam os artistas e alunos – o que resultou em um cinza com tonalidade “craft” – e o vermelho na torre central, onde estão os ambientes administrativos, a circulação vertical, a infraestrutura e que faz a articulação com os blocos.
AFM: Quais foram os materiais e técnicas utilizados na construção?
MC: Destaca-se o concreto aparente com a estrutura nas laterais, garantido o térreo livre, sem pilares.
Praça das Artes, rampas de articulação entre blocos, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
Praça das Artes, escadaria para transitar e sentar, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
Alunos FAU Mackenzie: Qual a importância e a utilidade, além da passagem, você atribui para a abertura que o espaço cria no quarteirão, em relação à área ao redor?
Marcos Cartum: O espaço livre que atravessa o miolo da quadra permite vida urbana, o convívio dos usuários da Praça das Artes, principalmente os alunos de música e dança. Também tem sido muito usado para apresentações. A principal função não é a de passagem, mas a de acolher encontros das pessoas, possibilitando o que uma praça oferece. Só que aqui temos uma praça com características muito especiais, que se articula com a grande esplanada do Vale do Anhangabaú.
Praça das Artes, ensaio de dança, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
AFM: Qual sua visão sobre a integração e senso de pertencimento que a obra cria em relação ao contexto no qual ela está inserida, tanto esteticamente quanto do uso dela? Como o projeto se conecta com a comunidade e a cultura local?
MC: A Praça das Artes se tornou uma referência de espaço público de qualidade, ajudando a revalorizar o centro. Foi reconhecida, com os vários prêmios que ganhou, como a mais importante obra de requalificação urbana em São Paulo desde os anos 1980.
AFM: Qual é a importância da Praça das Artes para a cidade de São Paulo?
MC: Mostrar que São Paulo pode transformar o caos em algo novo e surpreendente.
Praça das Artes, sala de exposição, São Paulo. Arquitetos Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Marcos Cartum
Praça das Artes, maquete em escala 1:500 para a disciplina THAU 1. Estudantes Ayslane Pires de Almeida, Bruno Rodrigues Alves de Pinho, Jannina Lima de Andrade Lins, Tainara Miranda de Oliveira e Vinicius Eliel Almeida Ramos
Marcos Cartum
Formado pela USP como Arquiteto e Urbanista, além de ser designer gráfico e ilustrador e especializado em Museologia. É atual diretor do Museu da Cidade, órgão da Secretaria da Cultura da Prefeitura de São Paulo. Foi membro da Comissão da Lei Municipal de Incentivo à Cultura – CAPC, da Comissão de Proteção da Paisagem Urbana – CPPU, do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – Conpresp, do Conselho Municipal de Meio Ambiente – Cades, do Conselho Municipal de Política Urbana – CMPU e do Conselho Deliberativo da Fundação Theatro Municipal. Foi vice-presidente do Conselho Administrativo da Associação Cultural “A Casa – Museu de Artes e Artefatos Brasileiros” na gestão do Museu da Casa Brasileira e diretor do “Instituto Equipe – Cultura e Cidadania”. Foi professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – IAU USP São Carlos, e das Faculdades de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Campinas e da Universidade Braz Cubas.
Equipe de entrevistadores
Ayslane Pires de Almeida, Bruno Rodrigues Alves de Pinho, Jannina Lima de Andrade Lins, Tainara Miranda de Oliveira e Vinicius Eliel Almeida Ramos são alunos do segundo semestre da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie – FAU Mackenzie.
Entrevista
A entrevista com Marcos Cartum foi realizada por e-mail durante o mês de maio de 2023 e é parte do trabalho desenvolvido para a disciplina Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo – THAU 1, ministrada no segundo semestre do curso de Arquitetura e Urbanismo da FAU Mackenzie pelos professores Abilio Guerra, Felipe Contier e Maria Isabel Imbronito. O trabalho da equipe versava sobre a Praça das Artes, projeto desenvolvido pelo escritório Brasil Arquitetura lideradas pelos arquitetos Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, e pelo arquiteto Marcos Cartum, da Prefeitura Municipal de São Paulo.
Praça das Artes, maquete em escala 1:200 para a disciplina THAU 1. Estudantes Ayslane Pires de Almeida, Bruno Rodrigues Alves de Pinho, Jannina Lima de Andrade Lins, Tainara Miranda de Oliveira e Vinicius Eliel Almeida Ramos
Diálogos sobre a arquitetura neocolonial e a sua atuação junto ao tema à luz da publicação Arquitectura Neocolonial: América Latina, Caribe, Estados Unidos