Giovanni Pirelli.
“Zé Celso, a irreverência a serviço da teatro e da cidade”.
Vitruvius entrevista, ed. 21.083. 2020.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7890
Zé Celso, Marília Gallmeister, Marcelo Dalourzi, Cafira Zoé,
Giovanni Pirelli, Casé Angatu e Zé Celso
Impedido de dar prosseguimento às atividades presenciais devido a pandemia de Covid-19, o projeto Marieta lançou em abril de 2020 o “Transa Marieta”, programa de entrevistas com personalidades da arte e da cultura contemporânea, com o propósito de discutir uma trajetória de vida e uma percepção específica do mundo atual. Desde então, o coletivo paulista e diversos convidados conversaram com o escritor Milton Hatoum (1), o músico Arrigo Barnabé (2), a arquiteta Erminia Maricato (3), o gestor cultural Danilo Santos de Miranda (4) e o líder indígena Ailton Krenak (5), todos com expressiva audiência.
Nesse mês de setembro, com a pandemia continuando a matar contingentes expressivos da população brasileira, Casé Angatu, Cafira Zoé, Marcelo Dalourzi, Marilia Gallmeister e Giovanni Pirelli entrevistaram em ambiente virtual o teatrólogo José Celso Martinez Corrêa. O evento contou com a entusiasmada participação prévia dos convidados, que aceitaram o desafio de articular blocos temáticos e perguntas desafiadoras. Contou também com a providencial colaboração da Temporal Editora, em especial de Juliana Bitelli, que viabilizou o evento ao estabelecer o contato inicial.
O sexto episódio da série ocorreu no dia 22 de setembro de 2020, a partir das 18h30, com aproximadamente duas horas e vinte minutos de duração, e transmissão ao vivo via Facebook, na página do projeto Marieta (6). Com grande repercussão e participação do público, teve mais de 2.800 visualizações, 146 comentários, 128 curtidas e 37 compartilhamentos. Agora, na íntegra, a entrevista está disponibilizada na plataforma Youtube e pode ser acessada no módulo 2 dessa edição da entrevista.
O teatrólogo José Celso Martinez Corrêa, o “Zé Celso”, é líder do Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona, companhia teatral que ocupa o Teatro Oficina, que teve três projetos arquitetônicos desenhados por importantes personalidades da arquitetura moderna brasileira. O projeto original (1961-1966) foi assinado por Joaquim Guedes, que deu forma ao teatro sanduíche, com arena central e plateia de ambos os lados – solução depois utilizada por Lina Bo Bardi no teatro do Sesc Pompeia. O segundo projeto (1967-1974) foi dos arquitetos Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, que ambientaram um teatro brechtiano, com arquitetura brutalista que valorizava a infraestrutura e o despojamento, e que tomava partido das ruínas que restaram do incêndio ocorrido no período militar – a versão oficial foi um acidente provocado por uma desastrada faxineira, mas até hoje há a suspeita de um sinistro criminoso provocado por grupos de extrema-direita. Por fim, o terceiro projeto (1993-atual), assinado pelos arquitetos Lina Bo Bardi e Jorge Edson Elito, que tem como elementos marcantes a grande vidraça para os terrenos lindeiros ainda vazios e a o teto que se abre para o céu. O Teatro Oficina atual dá suporte para o Teatro Rua imaginado por Zé Celso, mas também é entendido pela trupe como “Terreiro eletrônico” ou “Teatro Pé na Estrada” (7).
A lista de obras encenadas pelas variadas composições do grupo teatral ao longo das décadas é algo impressionante. São montagens que marcaram época e que ficaram na memória dos que presenciaram: Galileu Galilei, O Homem e o Cavalo, Mistérios Gozozos, As Bacantes, Cacilda!, Boca de Ouro, Esperando Godot, Os Sertões – A Terra, Os Sertões – O Homem 1, Os Sertões – O Homem 2, Os Sertões – A Luta 1, Os Sertões – A Luta 2, O Rei da Vela e tantas outras. Trata-se de uma trajetória consagrada, cheia de reconhecimento – prêmios, distinções e publicações.
Outra importante atuação de Zé Celso e da sua companhia teatral é a militância histórica pela manutenção do espaço físico situado no bairro da Bela Vista, em um setor popularmente conhecido como Bexiga. Sem a propriedade do imóvel, mas com uma relevante contribuição artístico-cultural, o teatrólogo conseguiu ao longo dos anos mobilizar grupos de pressão e chamar a atenção na academia e nas agências do patrimônio histórico (8). Com isso foi possível a chancela no campo intelectual, que se desdobrou no tombamento do Oficina nas três instâncias governamentais: primeiro pelo Condephaat estadual, em 1983 (9); a seguir, pelo Conpresp municipal, em 2002 (10); por fim, mais recentemente, pelo Iphan federal, em 2014 (11). Devido o assédio constante do Grupo Silvio Santos, que tem um plano de desenvolvimento imobiliário envolvendo a construção de diversos edifícios nos terrenos lindeiros ao teatro, o grupo teatral se mobilizou em torno da ideia da criação do Parque Municipal do Bixiga, que se tornou projeto de lei em 2017, que dentre outras providências, propõe a renaturalização do rio Bixiga, atualmente enterrado, que passa no terreno ao lado do teatro.
A conversa disponível no bloco 2 dessa publicação contempla esses e outros assuntos, uma conversa muito animada, descontraída e desbocada, como é típico de Zé Celso e dos que o cercam. No bloco 3 será possível conhecer as perguntas elaboradas anteriormente, que formam o roteiro previsto para a entrevista. Assim, quem se interessar, poderá comparar o que se pretendia e o que se realizou. Como a arte transcende a vida, o espetáculo da entrevista real só poderia suplantar a entrevista textual sugerida. Mas, o melhor, é verificar!
[texto de Abilio Guerra]
Teatro Oficina e terrenos em litígio, Bela Vista, São Paulo
notas
1 O primeiro episódio do “Transa Marieta”, com Milton Hatoum, ocorreu no dia 20 de abril de 2020, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; MASSI, Augusto; BUSSIUS, Julia. Milton Hatoum: literatura em tempos de cólera política e pandemia de coronavírus. Transa Marieta – episódio 1. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.02, Vitruvius, abr. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7713>.
2 O segundo episódio do “Transa Marieta”, com Arrigo Barnabé, ocorreu no dia 12 de maio de 2020, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; ROMANO SANTOS, Silvana. As mil faces do artista Arrigo Barnabé. Transa Marieta – episódio 2. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.04, Vitruvius, maio 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7740>.
3 O terceiro episódio do “Transa Marieta”, com Erminia Maricato, ocorreu no dia 26 de maio de 2020, segunda-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; SAMPAIO, Celso Aparecido; WHITAKER, João Sette; RUBANO, Lizete Maria. Erminia Maricato, arquiteta, professora, gestora pública e ativista social. Transa Marieta – episódio 3. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.05, Vitruvius, maio 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7757>.
4 O quarto episódio do “Transa Marieta”, com Danilo Santos de Miranda, ocorreu no dia 22 de junho de 2020, segunda-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; BOGÉA, Marta; PIRELLI, Giovanni. Danilo Miranda, um intelectual a serviço do Brasil. Transa Marieta – episódio 4. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.07, Vitruvius, jun. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7792>.
5 O quinto episódio do “Transa Marieta”, com Ailton Krenak, ocorreu no dia 21 de julho de 2020, terça-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; FERRAZ, Isa Grinspum; ALTBERG, Marco; ROLNIK, Suely. Ailton Krenak, o intérprete dos intérpretes do Brasil. Transa Marieta – episódio 5. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 083.01, Vitruvius, jul. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7825>.
7 Sobre a trajetória do Teatro Oficina, tanto teatral como arquitetônico, ver: MATZENBACHER, Spengler Carila. Arquitetura teat(r)al urbanística: transformação do espaço cênico – Teat(r)o Oficina (1958-2010). Orientador Guilherme Wisnik. Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU USP, 2018.
8 Os diversos pontos de vista presentes no debate de tombamento do Oficina e do destino dos terrenos lindeiros podem ser acompanhados nos artigos publicados pelo portal Vitruvius: MACHADO, Rogerio Marcondes. Teatro oficina: patrimônio e teatro. Os processos de tombamento junto ao Condephaat e ao Iphan. Arquitextos, São Paulo, ano 16, n. 188.00, Vitruvius, jan. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.188/5905>; GALLMEISTER, Marília; MATZENBACHER, Carila. O talento cultural do Bixiga & o Anhangabaú da Feliz Cidade. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.05, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5617>; SANTOS, Cecília Rodrigues dos. Teatro Oficina. Defender nosso patrimônio histórico e artístico é alfabetização. Arquitextos, São Paulo, ano 14, n. 160.01, Vitruvius, set. 2013 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.160/4876>; LANNA, Ana. Patrimônio cultural, direitos e vontades. Minha Cidade, São Paulo, ano 14, n. 158.03, Vitruvius, set. 2013 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.158/4868>; CORREA, José Celso Martinez. Ana Lanna Feliciana. Teatro Oficina em risco. Minha Cidade, São Paulo, n. 14.158.01, Vitruvius, set. 2013 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.158/4858>; VERGUEIRO, Frederico. (Re)existência de Lina Bo Bardi. Em defesa do Anhangabaú da FeliZcidade. Minha Cidade, São Paulo, n. 14.158.02, Vitruvius, set. 2013 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.158/4862>; CONDEPHAAT, Conselho do. Teatro Oficina. Manifestação dos conselheiros do Condephaat em apoio à presidente. Drops, São Paulo, ano 14, n. 072.08, Vitruvius, set. 2013 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/14.072/4890>.
9 CONDEPHAAT. Processo n. 22.368/82. Tombamento do Teatro Oficina. Resolução de Tombamento: Resolução 6 de 10/02/1983. Livro do Tombo Histórico: inscrição n. 226, p. 62, 19/01/1987. Publicação do Diário Oficial: Gabinete do Secretário da Cultura João Carlos Gandra da Silva Martins, Resolução 6, de 10/02/1983 – O Secretário Extraordinário da Cultura, nos termos do artigo 1o do Decreto-lei 149, de 15 de agosto de 1969, e do Decreto 13.426 de 16 de março de 1979, e considerando não ter o Condephaat se pronunciado sobre a contestação oferecida pelo proprietário do bem tombado, tendo feito na Sessão de 8/2/83, resolve. Diário Oficial do Estado de São Paulo, Seção I, São Paulo, 11 fev. 1983, p. 36.
10 CONPRESP. Resolução n. 22/2002. Tombamento do bairro da Bela Vista. São Paulo, Prefeitura Municipal de São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura, Departamento de Patrimônio Histórico, Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade, 10 dez. 2002
11 IPHAN. Processo n. 1515-T-04. Tombamento do Teatro Oficina. Livro do Tombo Histórico: Tombamento homologado em 09/2014. Livro do Tombo Belas Artes: Tombamento homologado em 09/2014. Brasília, Governo Federal, Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, set. 2014.
Abaixo, segue o roteiro da entrevista elaborado pelos entrevistadores, que foi parcialmente seguido durante a realização da conversa.
Teatro Oficina, Bela Vista, São Paulo
Bloco 1: Juventude e formação
Giovanni Pirelli:Por alguma razão cósmica, ao redor do Marieta circulam sempre muitas pessoas de Araraquara (a Morada do Sol). Abilio, meu sogro, é de Araraquara (e nunca deixa de me lembrar que Macunaíma foi escrito em sua cidade). Lucas nosso primeiro estagiário e hoje tuttofare do Marieta também é de lá, assim como várias outras pessoas daqui. Além disso, penso também em outras figuras que, como você, de Araraquara saíram para o mundo, como Ruth Cardoso e Ignacio Loyola Brandão. Abilio, quando conta das suas lembranças da infância passada em Araraquara sempre traz a imagem da ferrovia, que corta em dois a cidade: de um lado a classe trabalhadora, do outro os patrões. O que ficou em você hoje desse período de formação no interior de São Paulo?
Casé Angatu:Às vezes algumas pessoas me contam que “ouviram falar” da existência em suas famílias de uma avó, avô, tia, tio “pegas/pegos à lanço” ou “à dentes de cachorro”. Também me contam que estas/estes familiares “eram parecidos comigo (Casé) porque tinham cara de Índio... só que eram calados ou bravos”. Você (Zé Celso) lembra destas narrativas ou tem alguma memória na infância/adolescência destas histórias da presença indígena na família. Quero dizer: guarda lembrança de algum familiar que possuía está “cara de Índio”? Como você sente esta possível indianidade t-eté (corpo) anga (alma) em você?
Marília Gallmeister: Qual foi o seu primeiro encontro com o teatro?
Marcelo Dalourzi: Zé, em todas as camadas sociais, sejam elas dominadas por pretos ou por brancos, a juventude preta sempre encontra dificuldades pra se inserir. Um lugar que possibilitou a entrada destes artistas pretos, foi a Universidade Antropófaga que é um projeto do Teatro Oficina.Pra você, qual é a importância da Universidade Antropófaga e se existe o desejo para a chamada de uma nova edição?
Teatro Oficina, Bela Vista, São Paulo
Bloco 2: Ativismo e reexistência
Casé Angatu:Wetiko é a forma como alguns indígenas de tradição algonquiana nos EUA e Canadá descrevem em suas cosmologias as pessoas que se tornam canibais vorazes, insanos, devoradores de tudo e todos seres viventes. O historiador norte-americano de ancestralidade indígena Jack D. Forbes assinala que existe “a crença” entre aquelas “Comunidades Indígenas de que os conquistadores europeus [incluindo Colombo] estavam cronicamente infectados por wetiko. ‘Tragicamente, a história mundial nos últimos 2 mil anos é, em grande medida, a história da epidemia da doença do wetiko’” (FORBES, Jack D. Colombo e Outros Canibais. Lisboa: Antigona, 1998). O canibalismo-wetiko referido por Forbes não tem nenhuma relação com a Antropofagia ritualística Tupinambá que tratava-se de individual e coletivamente incorporar o outro (“posso ser o que você é, sem deixar de ser quem eu sou!” – União das Nações Indígenas – UNIND – Brasília, abril de 1981) que na minha compreensão é uma das maiores heranças do meu Povo à todos os Povos que formam o que se chama de sociedade brasileira. O wetiko seria o consumo da vida de outra pessoa e da natureza de forma acumulativa e egofrênica. Voc? (Zé Celso) não acha que poderíamos pensar o capitalismo em suas expressões como a especulação imobiliária, leis de mercado, exploração do trabalho, da natureza (as florestas que queimam), consumismo, imperialismo e formas repressivas de estado/moral/religiosidade/policia/cadeias/manicômios como uma grande epidemia chamada de wetiko? Isto é como, o capitalismo como um canibalismo egofrênico e insano devorador insaciável de t-eté (corpos), anga (alma) e da natureza? Ao mesmo tempo não poderíamos pensar a antropofagia como Resistência e (Re)Existência??
Marília Gallmeister: Você teve o corpo torturado durante a ditadura militar. Em uma entrevista, você diz que da tortura e dos seus algozes você não cultivou ressentimento. Você sempre fala que não podemos responder com o mesmo padrão de violência ao patriarcado, à violência colonial, com brutalidade, com falta de imaginação, porque é um terreno estéril. E de fato, durante décadas de massacre à cultura, o Teatro Oficina respondeu com muita alegria guerreira e imaginação: com o desbunde, na época da ditadura e sagrando o inimigo, na relação com o antagonista Silvio Santos, por exemplo. Neste sentido, que direção você dá, para contracenar com esta macro política atual que radicaliza no ódio e na destruição da vida?
Marcelo Dalourzi: Sobre o terreno ao lado do Teatro Oficina, quais os próximos passos na luta pelo parque do Bixiga?
Giovanni Pirelli: Fazendo a pesquisa para a nossa Transa, descobri que no começo da década de 1970 você trouxe para o Brasil, para um intercâmbio cultural, Judith Malina e Julian Beck, o casal que fundou o Living Theatre em New York. Passaram uma longa temporada aqui no Brasil e foram presos em Ouro Preto pela ditadura, supostamente por serem maconheiros. Judith e Julian, além de maconheiros, eram ativistas, militantes do movimento da libertação sexual, e foram uma referência importantíssima na formação de muitos artistas, pensadores, militantes da época. Inclusive, influenciaram profundamente meu avô Giovanni e minha avó Marinella, que também levaram eles para a Italia por algumas temporadas. Gostaria que você lembrasse um pouco sobre esse período e como a visão deles influenciou seu trabalho e a sua militância.
Teatro Oficina, Bela Vista, São Paulo. Arquitetos Lina Bo Bardi e Edson Jorge Elito, 1993
Bloco 3: O Teatro Oficina
Marília Gallmeister: A trajetória do Teatro Oficina sempre foi muito marcada por uma atuação que esculpe o espaço de criação, e de projeto em projeto, o Oficina foi se abrindo cada vez mais em direção ao coro, à cidade, à multidão. O Parque do Rio Bixiga é onde desemboca estas décadas todas de uma criação teatral com perspectiva urbana. A biografia desta luta revela um fio condutor que radicaliza o teatro como um rito coral, a céu aberto. No mais alto astral da sua imaginação e do seu desejo, que lugar você imagina que o teatro deve ocupar na cidade?
Casé Angatu: O Teatro Oficina é sem dúvida um patrimônio cultural, arquitetônico, artístico. Porém, quando entrei a primeira vez no Oficina guiado por Marília Gallmeister estava com outros Parentes daqui do Território Tupinambá de Olivença (Ilhéus/BA), entre eles o Ancião Candinho. Quando estávamos na parte externa do Teatro, silenciosamente Candinho agachou ao pé da escada dos fundos que dá aceso à parte interna do Teatro, viu uma planta e disse: “é uma macela galega”. A “macela” é curativa, aromática e tem todo um universo mítico no entorno dela. Seu Candinho depois comentou que “aquele lugar” (o Teatro e seu entorno com árvores frutíferas e com “macela galega”) era a natureza resistindo em meio ao concreto. Aliás, eu e meus Parentes comentamos que, além da “macela galega”, a árvore dentro do Teatro, a fluidez úmida do rio que lá corre, as pessoas que moravam debaixo do viaduto no Baixo Libertas (Baixos do Viaduto Jaceguai) parecia uma Taba (Aldeia) – pelo menos foi esta a sensação que tivemos. Assim, sabendo das histórias que ocorreram/ocorrem no entorno do teatro naquela região ribeirinha do Bixiga, saber das expressões e lutas que aconteceram/acontecem no Oficina... tudo isto não lhe faz acreditar que o Oficina, bem como o Bexiga, deveriam além de tombados como patrimônios serem declarados como Territórios Populares Culturais Sociais?
Giovanni Pirelli: Ao longo da sua história, o Teatro Oficina passou por três reformas importantes, que transformaram radicalmente sua estrutura e, de alguma forma, sua alma. 1o Oficina, projeto de Joaquim Guedes: teatro sanduíche (1961-1966) – arena central, com plateia de ambos os lados (Lina usou isso depois no teatro do Sesc Pompeia). 2o Oficina, projeto de Flávio Império e Rodrigo Lefèvre: teatro brechtiano (1967-1974) – valorização da ruínas pós-incêndio criminoso do período militar por paramilitares (a versão oficial, foi um acidente provocado por uma faxineira), arquitetura brutalista valorizando a infraestrutura e o despojamento. 3o Oficina, projeto de Lina Bo Bardi e Jorge Edson Elito: Terreiro eletrônico – Teatro Rua – Teatro Pé na Estrada (1993-atual). Como você enxerga a relação entre a evolução do seu teatro e transformações em sua arquitetura?
Marcelo Dalourzi: Nestes anos de Teatro Oficina, o que acha que ainda não vivenciou e que você gostaria de experimentar?
Teatro Oficina, Bela Vista, São Paulo
Bloco 4: Horizontes futuros
Casé Angatu: Tenho ouvido alguns dizerem que “sairemos pessoas melhores após a pandemia”. Tenho dito que: “depende porque já saímos de várias catástrofes (peste negra, guerras, terremotos etc) e nem por isto muitos não saíram melhores... tanto assim que foi eleito Bolsonaro”. Muitos Povos Originários pensam (eu sinto assim) que é no presente que lembramos do passado e construímos o por vir. Assim, gostaria de saber se você (Zé Celso) acredita na construção coletiva e decolonial de uma nova sociedade onde caibam vários mundos, sem as desigualdades sociais, respeitando as diferenças como uma obra coletiva...uma grande arte? Outra vez conversando com Ailton Krenak falamos que isto não é por vir “um outro mundo possível” já existe em muitos de nós, coletivos, lugares e Povos Originários já somos. Você não acha que é por isto que muitos nos odeiam... porque já somos um outro mundo possível?
Marcelo Dalourzi: O que podemos esperar do Oficina pós pandemia e o que mudou pra vc nestes meses?
Marília Gallmeister: Num dado momento no Teatro Oficina, mais importante que a revolução, era a revolição – a lição de voltar a querer, porque de fato o teatro feito no Oficina e você, sempre foram bodes muito massacrados, mas que cantaram, que cantam, e muito através da Tragycomédiorgia – a linguagem que é fruto deste trabalho. Qual é a contribuição da Tragycomédiorgia para a luta dos corpos continuamente massacrados, para todas as vidas que estão em extinção agora, e para o teatro?
José Celso Martinez Corrêa
Nascido em Araraquara SP em 1937, Zé Celso é diretor, dramaturgo, atuador e um dos fundadores do Teatro Oficina. Encenou espetáculos considerados antológicos, tais como O Rei da Vela, Na Selva das Cidades, As Bacantes e Os Sertões. Ícone da tropicália, Zé Celso foi um dos líderes do movimento contracultural do Brasil, que foi prejudicado pelo golpe de 1964, que inclusive provocou a prisão e a tortura do diretor, que, depois de solto, vai para o exílio em Portugal e Moçambique. Na volta e para além dos anos que se seguiram, Zé Celso continua participando ativamente das insurreições e dos acontecimentos contemporâneos, inclusive através de uma luta de quase quarenta anos, entre Teatro Oficina e o Grupo Silvio Santos, em defesa de um projeto de urbanismo e atletismo afetivo pelas ruas do bairro do Bixiga, onde se localiza a sede da companhia dirigida pelo artista.
Cafira Zoé
Poeta transmídia, artista de teatro e das artes visuais. Opera por composição, circuitos, fermentações, confluências e encruzilhadas. Trabalha com os movimentos vitais da palavra, do corpo e da imagem. É cientista das ciências da imaginação, das plantas, do que inventa e das águas que correm dentro e fora dos corpos. Atua na Companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona desde 2015, no Núcleo de Estudos da Subjetividade da PUC-SP, desde 2018, e no Arquivo Mangue, movimento de criação artística e feiticeira, no cruzamento entre teatro, poesia e artes visuais.
Casé Angatu
Indígena morador da Aldeia Gwarïnï Taba Atã no Território Indígena Tupinambá de Olivença (Ilhéus/BA). Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela FAU USP. Professor na Universidade Estadual de Santa Cruz – UESC (Ilhéus/BA) e docente externo no Programa de Pós-graduação em Ensino e Relações Étnico-Raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia – Campus Jorge Amado PPGER/UFSB-CJA (Itabuna-BA). É ex-coordenador do PIBID-História-UESC junto a Escola Estadual Indígena Tupinambá de Olivença e Organizador do Seminário Índio Caboclo Marcelino nas Aldeias Tupinambá. Autor de "Nem Tudo Era Italiano – São Paulo e pobreza" (1890-1915) & e coautor de “Índios no Brasil: Vida, Cultura e Morte”.
Giovanni Pirelli
Gestor cultural e curador, sócio-diretor da empresa de consultoria cultural Cactus e diretor executivo do espaço cultural Marieta. Italiano, frequentou cursos de Literatura Contemporânea da Universitá degli Studi di Milano e, entre 2012 e 2013, fundou e coordenou o Cubo, incubadora de artistas e projetos culturais, localizada no centro de Milão. Desde 2009 é conservador e promotor do acervo da obra da artista italiana Marinella Pirelli, sua avó. Especialista em gestão cultural pelo Sesc-SP (2020), desde 2015 coordena as atividades do centro cultural Marieta, em São Paulo.
Marcelo Dalourzi
Ator e cantor, 36 anos, formado pela Escola Livre de Teatro. Iniciou carreira teatral em 2007, em “A paixão de Cristo”, e participou dos experimentos Brechtianos. Seus principais trabalhos são: “Um homem é um homem” (2011), “Auto da compadecida” (2009), Série “9MM São Paulo”, no canal da Fox, episódio “Açúcar ou adoçante” (2012). “Comédia de rabo preso” (2013). Ator e diretor do curta “A festa” (2014), “Peter em fúria” (2015). Em 2017 esteve em cartaz com o musical “É samba na veia, é Candeia no Teatro Oficina”, sob direção de Leonardo Karasek. Atualmente faz parte do Teatro Oficina, onde atuou nos espetáculos Bacantes e Roda Viva sob comando do renomado diretor Zé Celso. Está em cartaz na plataforma zoom com “O bailado do deus morto”, sob direção de Marcelo Drummond.
Marília Gallmeister
Artista, arquiteta, urbanista. Trabalha há 9 anos no Teatro Oficina onde participou da criação de peças como Macumba Antropófaga, a saga da atriz Cacilda Becker, o “Rei da Vela” e “Roda Viva”. Integra o coro que movimenta a luta pelo Parque do Bixiga, compondo núcleo de criação, ensaios de ocupação e defesas jurídicas. Integra o Terreyro Coreográfico, coletivo de atuação em espaços públicos. Trabalha na criação de projetos expográficos, sendo o último a exposição “Ser essa terra: São Paulo cidade indígena”, no Memorial da Resistência. Lecionou cursos na Escola da Cidade e no Instituto de Arquitetos do Brasil, em torno do assunto: arquitetura e urbanismo cênico, tema de publicações diversas.
Entrevista
A entrevista com Zé Celso ocorreu no dia 22 de setembro de 2020, terça-feira, das 18h30 às 21h. O encontro ocorreu virtualmente, via Zoom, e foi transmitido ao vivo no Facebook, na página do projeto Marieta (www.facebook.com/projetomarieta), com as participações dos entrevistadores Cafira Zoé, Casé Angatu, Marcelo Dalourzi e Marília Gallmeister, com mediação de Giovanni Pirelli e participação do público, que encaminhou antecipadamente perguntas por escrito, material que serviu de base e referência para as perguntas.
O projeto Marieta é um centro cultural comunitário colaborativo, fundado em 2015 com a proposta de ser um espaço de pesquisa, difusão e produção de arte e cultura contemporânea. A diretoria e conselho curatorial é da responsabilidade do coletivo formado por Abilio Guerra, Caio Guerra, Giovanni Pirelli, Helena Guerra, Silvana Romano Santos. Atualmente conta com as participações de Lucas Minari (tuttofare), Magaly Corgosinho e Neliane Simioni (assessoria de imprensa); Marcella Arruda e Marina Frúgoli (pesquisadoras residentes); Ana Júlia Travia, Julia Rantigueri, Julia Zylbersztajn, Pedro Santiago e Paula Monroy (colaboradores internos); André Scarpa, Bianca Leite, Felipe Rodrigues, Marina Dias Teixeira e Pablo Figueroa (colaboradores externos); Lírios Spacca (design gráfico). O grupo conta com a adesão fundamental de Claudia Romano, Emiliana Romano Santos, Norma Romano Santos (apoio moral) e de Garibaldi Maria Pirelli Guerra, Martino Pirelli Guerra, Piero Pirelli Guerra, Tom Guerra, Francesca Tosi, Francesco Pirelli (apoio emocional). Nos tempos atuais de pandemia, o espaço está se mantendo aberto e atuante (virtualmente) graças ao apoio de amigos do Marieta, via apoio cultural no website benfeitoria.com/marieta.
ficha técnica
programa Transa Marieta – episódio 6
entrevistado José Celso Martinez Corrêa (Zé Celso)
entrevistadores Cafira Zoé, Casé Angatu, Marcelo Dalourzi, Marília Gallmeister e Giovanni Pirelli
pesquisa Helena Guerra e Giovanni Pirelli
organização Abilio Guerra, Caio Guerra, Helena Guerra, Giovanni Pirelli e Silvana Romano Santos
edição Helena Guerra e Giovanni Pirelli
produção Abilio Guerra, Caio Guerra, Helena Guerra, Giovanni Pirelli e Silvana Romano Santos
data 22 de setembro de 2020, 18h30
divulgação transmissão ao vivo via Facebook publicação posterior no portal Vitruvius