português Segundo os entrevistadores Lays Lucena Benjamin e Fernando Diniz Moreira, os arquitetos Vinicius Andrade e Marcelo Morettin tem se destacado por fazer uma arquitetura singular e conectada ao lugar, mesmo que adotem pré-fabricados e princípios da montagem.
como citar
Lays Lucena Benjamin.
“A arte da montagem: técnica e lugar em Andrade Morettin”.
Vitruvius entrevista, ed. 19.073. 2018.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/19.073/6849
Ao se nutrirem das principais conquistas da nossa arquitetura moderna, alguns arquitetos contemporâneos brasileiros têm evitado formalismos ou sentimentos nostálgicos, procurando no passado exemplos de uma relação mais harmoniosa do edifício com o lugar, de adequação climática e de coerência construtiva. É notável na nova geração um maior pragmatismo, buscando espaços que atendam ao caráter do programa, aos limites e potencialidades do terreno, às disponibilidades e carências do lugar e da região e os custos. Há uma maior ênfase nos aspectos tectônicos, com maior experimentação e variedade construtiva e tecnológica, uso de soluções inovadoras e justaposição de materiais, buscando demonstrar a intenção da construção sem esconder os passos fragmentados dos processos construtivos. A arquitetura obtida por um processo de montagem pode ser, por vezes, vista como algo limitador; mas também pode abrir uma série de possibilidades expressivas.
Nesse sentido, o escritório Andrade Morettin tem se destacado por enfrentar um desafio central da arquitetura contemporânea, que é o de tentar fazer uma arquitetura singular e conectada ao lugar quando seus elementos são, cada vez mais, provenientes de outros lugares e em grande parte pré-fabricados. A arquitetura está gradativamente se tornando um processo montagem e articulação de peças e partes disponíveis no mercado. O detalhe passa a ser entendido como um elemento crucial no processo projetual, sobretudo em projetos desta escala, que exigem a articulação de diferentes materiais, rapidez, diminuição de custos e flexibilidade.
Andrade e Morettin acreditam que na construção como um meio de expressão e ela deve ser, e demonstrar ser, honesta, clara e bem resolvida. O cuidado com as junções e articulações de materiais, a forma como os materiais são tratados, o nível de detalhamento por meio da clara exposição de partes e arremates, a honestidade construtiva, a mescla de materiais tradicionais e pré-fabricados e a evidenciação do processo construtivo são uma marca da atuação do escritório. Estes temas são discutidos na recente entrevista com Vinicius Andrade apresentada a seguir.
Lays Lucena Benjamin e Fernando Diniz Moreira: Um dos grandes desafios da prática arquitetônica contemporânea consiste em criar edifícios originais e adequados com o lugar quando grande parte dos materiais já existem antes mesmo de se pensar o projeto. Este desafio está muito presente na obra de vocês, que preferem materiais industrializados e pré-fabricados, mas sempre buscam uma arquitetura expressiva e em conexão com o lugar. Como este diálogo acontece no momento do projeto?
Vinicius Andrade: Boa pergunta. Vou tentar construir um raciocínio para que seja possível formular uma resposta. Na prática essas coisas não acontecem de uma maneira concomitante. Nós podemos fazer uma associação com esses origamis mais complexos: você vai dobrando as folhas pelas beiradas, pelas linhas e tal, e tem um momento no meio do processo, que chamamos de colapso, onde fazemos uma dobra chave, todas aquelas dobrinhas encaixam e viram uma forma. É difícil falar de cada uma dessas dimensões isoladamente, mas vamos tentar. A adequação ao lugar é algo que para nós vem a priori. O processo de elaboração do projeto, entender o lugar e o programa, a necessidade, ou seja, a atividade que vai ser acolhida no projeto, isso vem em primeiro. O sistema construtivo, no nosso entender, deve se submeter a essa primeira interpretação. Por exemplo, chegamos em um lugar com um clima quente e úmido, mas que é na beira de um lago. Então vamos levantar o edifício do chão, vamos tomar uma série de medidas estratégicas de adequação ao lugar, vamos formatar um espaço de acordo com a necessidade programática. Precisamos de grandes salões, ou de salinhas pequenas? Isso para nós vem a priori. A partir daí você fala ok, é isso que a gente quer construir. Como vamos construir isso? Aí começamos a pensar nos possíveis sistemas construtivos. Isso era muito mais verdadeiro no princípio do escritório. Por isso eu falo que hoje esse processo não é tão linear assim, porque estávamos descobrindo possíveis repertórios construtivos. E eram repertórios que realmente nós não conhecíamos, não eram ensinados na época em que fazíamos faculdade. Naquela época, existia um único e hegemônico sistema construtivo a disposição: concreto. Assim, passamos a dedicar muito do nosso tempo à pesquisa. No processo do projeto, logo depois da primeira definição em relação ao lugar, passávamos à pesquisa dos materiais. Com o tempo isso foi se fundindo um pouco, porque esse escritório está fazendo vinte anos, e esta experiência nos permitiu criar atalhos. Sempre tem que olhar cada projeto como se fosse único, mas você não precisa sempre redescobrir a mesma coisa. Então para nós, hoje, as coisas são um pouco mais parecidas com um origami, como falei há pouco. Mas pensando no processo como lá no começo, eu acho que era assim nossa ideia.
Na questão do sistema construtivo, não sabíamos como fazer ainda, mas nós já sabíamos como não fazer. E esse foi o grande ponto em comum entre o Marcelo e eu. Nós somos sócios desde o princípio e não havia muitos pontos em comum, mas esse era um com certeza. Não queríamos fazer uma arquitetura bruta, pesada, uma construção artesanal que as pessoas trabalhassem penduradas, em cima de uma tábua, chapiscando massa em uma parede, para depois que a parede estivesse pronta, quebrar a parede. Isso era uma coisa que nos incomodava muito. Pensávamos, puxa fizemos uma universidade, estudamos, lemos, e é assim que nós vamos trabalhar? Acho que chegar aos componentes industrializados e pré-fabricados, foi uma consequência dessa inquietação, mais que uma busca por uma expressão plástica talvez.
LLB/FDM: Diante da imensa oferta e rápida mudança no mercado de materiais industrializados, como acontece o processo de estudo e escolhas desses materiais no escritório? A pesquisa surge a partir de uma necessidade específica ou os materiais são viabilizados primariamente e adaptados ao projeto?
VA: Se fossemos uma corporação grande e bem organizada, teríamos um time de pesquisa de campo e materiais, mas não é o nosso caso. Então a coisa acontece em dois fenômenos, mas não necessariamente de forma tão organizada. Somos muito ligados na forma como construímos, em materiais e componentes industrializados que sejam interessantes. Então muitos materiais acabamos conhecendo por acaso. Vemos em algum lugar, em uma obra, nos interessamos, pesquisamos, descobrimos, guardamos para o dia que precisar. Nos chegam anúncios, também, imagino que todos recebem, até minha mãe que não tem nada a ver com arquitetura, recebe anúncio de persiana, de telha. Como gostamos disso, prestamos mais atenção e estudamos estes materiais, inclusive as diferentes possibilidades de uso deles. Isto acontece de uma forma mais organizada, mas por vezes é inconstante. Se é um material muito interessante e a gente já está precisando, por exemplo, nossa, chegou, resolveu aquele problema, quer ver? Vamos atrás disso aqui e tal. E agora a forma mais eficaz mesmo é projeto a projeto. Isto acontece com materiais que usamos hoje, a maioria deles foi assim. Como a casa do P.A. lá na beira da represa, foi a primeira casa do escritório. Era um amigo de infância, por isso nos chamou, mas eles não tinham dinheiro nenhum, casal de fotógrafos e tal. Então nós descobrimos esse plástico, que estava sendo utilizado em coberturas de galpões, que era muito barato. A gente falou: “o material não é lá essas coisas, mas é muito barato, vamos tentar, se ficar ruim a gente joga fora e quando vocês tiverem dinheiro colocam vidro na casa”. E o material ficou até hoje. A casa tem vinte anos e é o mesmo policarbonato. Na época não fazíamos ideia, mas foi assim, foi experimentando uma solução para um projeto específico que o policarbonato terminou virando um material que usamos muito.
A principal forma de chegar em um material é buscando o desempenho dele. Precisávamos de algo transparente, translúcido que não custasse tanto como o vidro, mas que pudesse ser fixado numa estrutura de madeira que não é completamente rígida, e aí acabamos encontrando o policarbonato. O uso da telha metálica como fechamento externo foi a mesma coisa. Antes dessa casa, nós projetamos outra que era uma palafita e nos perguntamos como fecharíamos a escada. Assim, chegamos na telha metálica. Quer dizer, nunca inventamos nada. Só usamos de uma forma diferente algo que já existia e resolvemos nosso problema. A medida que íamos usando fomos incorporando ao nosso léxico, fomos criando o nosso repertório. Por isso eu falo, hoje em dia, é mais automático, se eu vejo um problema eu já sei mais ou menos o que eu vou usar. A experiência, não apenas faz com que o tempo seja mais curto, mas acaba invertendo a ordem das coisas, sem você perceber. Antes quando eu olhava um lugar, um programa, eu tinha uma abordagem, um método mais rigoroso, mais acadêmico, hoje quando eu olho e começo a entender o lugar, sem querer, já aparece o material na minha cabeça. Aparece por causa da experiência. Então tem o lado bom, o lado ruim talvez, atropelar o processo, é inevitável também.
LLB/FDM: Percebemos que na obra de vocês houve um estudo arquitetônico, iniciado na Casa P.A., que resultou em uma série de projetos no qual vocês partem de um mesmo repertório. Como ocorre o processo de adaptação dessas ’soluções férteis' em cada novo caso?
VA: Eu acho que esse repertório que nós formulamos é como uma despensa. Você vai enchendo a despensa com os ingredientes que você gosta, mas você não vai usar todos cada vez que você for fazer um prato, certo? Depende um pouco do prato que você quer fazer, e é isso, com o tempo você vai aprendendo o que combina bem, não é? É assim na culinária. Você sabe o que combina com o quê, que reação dá, combinar uma coisa com a outra. Então acho que a gente criou talvez mais que um repertório, criamos um sistema. Acho que é um sistema porque ele admite a entrada de novos ingredientes, e isso está acontecendo, acontece permanentemente, porque, como você falou, a nossa indústria da construção civil é muito nova, então a cada ano surgem coisas, não param de acontecer coisas novas. Por isso eu acho que está mais para um sistema do que para um repertório. Porque os ingredientes da despensa estão sempre mudando, ou aumentando, o que permanece é esse exercício de combinar esses componentes que não nasceram para trabalhar juntos, e fazê-los trabalharem juntos, acho que essa sua pergunta toca nesse ponto. Acho que o desafio é pensar principalmente como combinar esses sistemas construtivos que não nasceram para trabalharem juntos. Então na prática o desafio está nas articulações, nos encontros. Porque os componentes vêm prontos, resolvidos, homologados, bonitos e acabados.
E qual é o único desafio construtivo que resta? Como você faz uma coisa encontrar com a outra, de um jeito que eles trabalhem bem juntos. Essa é a mão de obra do arquiteto na vida diária de projeto. Você tem o lado da concepção e tal, depois tem o lado que é arregaçar as mangas, é essa parte, o desafio de como agenciar esses ingredientes todos, um contra o outro. Temos uma equipe aqui que já está super acostumada, temos pouca rotatividade, tem um pessoal aqui que está há seis, sete, dez anos. Então, temos uma habilidade própria aqui para lhe dar com esses parafusos todos.
Lays Lucena Benjamin e Fernando Diniz Moreira: Todos nós arquitetos sofremos influências de arquitetos que nos precederam. Onde estariam as principais referências de arquiteturas com pré-fabricados do Andrade Morettin?
Vinicius Andrade: Desde o nosso primeiro projeto, ainda antes de abrir o Andrade Morettin, buscamos um sistema construtivo que nos permitisse evitar o sistema tradicional de construção civil. Sem dúvida, foi essa a semente do nosso caminho. Como te falei, não sabíamos no começo como fazer, mas sabíamos o que não queríamos. Porque a gente tinha trabalhado em outros escritórios, eu tinha acompanhado obras, eu odiava aquilo. Eu pensava assim, não sei porque eu fiz arquitetura, eu detesto obra. Eu me sentia perdido, o que estava fazendo ali? O Morettin também tinha essa aflição, fruto de outras experiências provavelmente. Quando tivemos a chance de fazer o nosso primeiro projeto, começamos a pesquisar. O Morettin é filho de professor, ele tinha um lado acadêmico muito forte, pesquisava muito, e eu era indisciplinado mesmo, eu não ia muito à aula, ficava na biblioteca. Nos conhecemos na biblioteca da faculdade, éramos talvez os dois que mais a frequentavam, e ali pesquisamos revistas e livros nacionais e internacionais. E perguntávamos e se fizermos assim ou dessa forma? Então foi assim, uma busca que foi mais uma fuga do que uma utopia. Não queríamos fazer isso daqui, então como faríamos? O sistema pré-fabricado permitia isso. Obviamente as principais referências de nossa arquitetura erudita no país nos encantam até hoje, mas também os galpões industriais que vemos na beira das estradas. Se você olhar tem vários projetos nossos, que lembram esses galpões que vocês vêm nas estradas do interior de São Paulo por exemplo. A telha de policarbonato, por exemplo, não veio de uma referência internacional, mas de um galpão aqui no interior de São Paulo. Eu vi na estrada e falei: Gente que negócio é esse? Parei o carro olhei, e não tinha ouvido sobre isto ainda, e fomos atrás, fomos telefonando, achando e descobrimos que tinha uma fábrica aqui perto de São Paulo, em Osasco. Pegamos um taxi e fomos lá. Então realmente tínhamos um interesse e pesquisamos sobre isso. Hoje é muito mais fácil, hoje tudo tem catalogo, tem internet, isso facilita muito as coisas, o fornecedor detém informações sobre as propriedades dos materiais, resistência, etc. Para você pode parecer óbvio, mas vejamos o exemplo do policarbonato, eu sempre me lembro disso, foi o primeiro material assim que a gente trabalhou. O representante não tinha as informações técnicas, ele não sabia a resistência mecânica. Ele nos disse que não poderia usar na vertical, que dilatava muito, e que iria rasgar.
Mas a gente acabou arriscando, pois era barato e para fechar uma casa muito barata, arriscamos e fizemos tudo à revelia do que ele falou e deu certo. Então esta opção envolveu um certo risco, até mesmo uma certa irresponsabilidade para sair do lugar comum. No caso, foi consentida, pois os clientes eram muito meus amigos, e não tinham dinheiro nenhum. Falei que nós iríamos arriscar uma coisa e que não sabíamos o que iria dar, e eles toparam. Mas hoje em dia, é muito mais fácil, se você abrir um catalogo de policarbonato, você sabe a velocidade do vento e quanto ele suporta. Evoluímos muito nesse sentido. Acho que cada vez mais a arquitetura das gerações novas vai enveredar por esse caminho, ele é um caminho mais confortável, ele tem um desempenho melhor, agora não é mais uma irresponsabilidade, ao contrário, é uma arquitetura muito mais controlada, em todo o processo. O catálogo diz o que vai acontecer, tem catalogo, por exemplo, que diz que o vermelho, fornecido por eles mesmos, não é recomendado para áreas externas. Existe um nível de controle, que não é comum em outras arquiteturas.
LLB/FDM: Analisando obras como as casas P.A e a O.Z, a simplicidade parece ser uma referência no processo de vocês, vista desde a solução da planta até a escolha de materiais. Isso está relacionado com a necessidade de racionalização da arquitetura que vocês defendem?
VA: Tem tudo a ver. Existe um desejo, que nós arquitetos não conseguimos controlar, de racionalização. Isto é muito claro em nossa formação de escola paulista, de minimização de esforço, de gastos de material, de espaço, enfim, uma vontade de racionalização, do não desperdício. No começo, éramos tentados a fazer uma arquitetura mais exuberante, que poderia nos promover mais, mas por alguma razão, que eu não sei explicar, nos contivemos e buscamos a simplicidade. Acho que essa simplicidade é mais uma contenção do que uma falta de interesse por fazer coisas malucas. Por muito tempo, a máxima do meio foi essa coisa de quanto mais trabalhado melhor, quanto mais caro melhor, quanto mais “cabelo” em cima do prédio. Mas acho que o tempo nos favoreceu, nos deu sorte, porque a preocupação com a sustentabilidade, racionalidade, voltou a pauta com muita força. No começo da nossa carreira isso não estava na pauta. Então, meu pai mesmo, cineasta, falava “mas e essa arquitetura quadradinha, sem graça...”, ele provavelmente acha que eu não tenho muita habilidade pra desenhar e tal... Entretanto, essa racionalização sistemática que aprendemos tem um lado bom, pois acabamos criando uma forma de projetar consciente, sem exageros, mesmo agora que nosso escritório está em uma idade que tem clientes mais ricos. Mesmo para esses clientes, às vezes, nós mesmo ficamos puxando o freio de mão, falando coisas do tipo “isso não é necessário”.
LLB/FDM: E vocês conseguem continuar com a arquitetura que vocês defendem nesses casos?
VA: O cliente quando vem para o escritório já sabe o que está procurando, exatamente, ninguém vem aqui com ideias rebuscadas, por exemplo. No fundo é isso. Nós somos assim, temos esse lado meio espartano, mas a gente tem conseguido sim, porque isso que eu falo, tem o lado bom e o lado ruim das coisas: essa coisa da “consciência global” criou uma modinha do verde, do ecológico, mas essa modinha ajuda a gente. Eu falo para o cara assim “fica essa extravagância, gastando muito, não é sustentável” aí o cara fala “é mesmo, não é sustentável. Então não vamos”.
LLB/FDM: Acabou havendo um processo de mudança também do que o paulistano considera como uma boa arquitetura nos últimos anos
VA: Ajudou muito. Tivemos sorte e os projetos foram meio que “caindo no nosso colo. Em 2007, São Paulo, pela primeira vez na história desde que ela era uma vila, parou de crescer. Então será que a cidade está madura? Talvez. Ela tem um crescimento vegetativo, mas muito pequeno, porque o migratório acabou. A partir de 2017, São Paulo começou a ter mais emigração, nós temos um percentual populacional nordestino muito importante. E alguns estão retornando para o Nordeste. Com isso, a tendência é uma estagnação, a expansão urbana da era da industrialização já não existe. Por outro lado, a cidade já está aí. Então esses projetos residenciais para a elite são inexpressivos no contexto da cidade como um todo, são marginais. São Paulo tem que encontrar seus caminhos agora. Não acho que a arquitetura residencial unifamiliar vai resolver São Paulo. A cidade precisa encontrar agora um caminho para ser uma cidade mais justa, mais bonita, mais agradável, sem contar com novas edificações porque não é isso que vai mudar São Paulo. Ou seja, não acho que nossa arquitetura tenha o poder de resolver o problema da cidade, mesmo que tenha caído no gosto do paulistano mais erudito.
Residência C.J., São Paulo SP, 2011-2013. Escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados
Lays Lucena Benjamin e Fernando Diniz Moreira: O componente industrial porta critérios determinantes: performance, aparência e preço. Certamente o escritório se ocupa de garantir os dois primeiros, mas há também uma preocupação com o valor final dos projetos de acordo com as especificações?
Vinicius Andrade: Sim, essa é uma característica que também acompanha a gente desde o primeiro projeto, vou te explicar por que. Hoje, no exercício do projeto, nós já controlamos os custos, nós mesmos, não é o orçamento, mas um controle de valores, por quê? Como nosso histórico é de apresentar uma alternativa ao tradicional, toda vez que apresentamos um projeto, qual é a primeira pergunta que o cliente faz? “não é muito mais caro fazer desse jeito?” Então, em todos os nossos projetos, não que isso tenha nascido de forma voluntária, mas aprendemos que se não apresentássemos uma comparação de custos entre o tradicional e o que estamos propondo, não conseguiríamos emplacar o projeto. Então a necessidade levou a trabalhar sempre sabendo dos preços de tudo que estamos propondo. Claro que não orçamos, não seríamos loucos de fazer isso porque, se os orçamentistas já erram 20%, imagina a gente? Conseguimos dizer “olha, o telhado tradicional custa mais ou menos R$ 350 por m2 só que o nosso custa R$ 285. Às vezes é mais caro só que o custo da mão de obra é menor” Então sempre buscamos chegar numa equivalência, vamos dosando, fazemos um projeto ousado aqui se acharmos que isso é do interesse do cliente, mas sempre falamos “olha isso aqui é 25% mais caro que o tradicional” e se a gente acha que o cara não vai topar baixamos a bola. Mas hoje existe o componente industrial para você fazer com o mesmo preço do que o convencional ou até mais barato que ele. Tem para tudo, hoje em dia não sei como seria, mas a gente acostumou a trabalhar com isso, toda vez que a gente apresenta um projeto tem sempre aquelas perguntas, “mas não vai ficar quente?...” A gente se especializou em explicar esses sistemas construtivos e esses materiais industrializados. A mesma coisa com o orçamento, tem sido ainda uma necessidade. A gente brinca que é a síndrome dos três porquinhos: o porquinho bom, bacana, é o que faz de tijolo, os outros, que fazem de palha e de madeira, são irresponsáveis. Então o lobo mau sopra e a casa desmancha toda. A gente fala para os nossos clientes “olha, fica tranquilo que se o lobo mal soprar sua casa não vai voar, ok? Ela é uma casa para valer apesar de não ser de tijolo.” Virou um modus operandi, fazer comparações técnicas de performance, de desempenho e de preço também. Acho que é difícil para o arquiteto hoje trabalhar sem ter uma noção desses parâmetros.
LLB/FDM: É acho que vocês não puderam só confiar no especialista de catálogo, vocês também tiveram que virar especialistas para poder defender a sua arquitetura.
VA: Ah sim, a gente acaba sendo, às vezes acabamos entendendo mais que os representantes, pesquisamos, entramos no site da fábrica e das representantes. Já tivemos o trabalho de fazer isso muitas vezes, descobrimos coisas que são primordiais e que o representante não sabia, fazemos um grande esforço de pesquisa.
Residência C.J., São Paulo SP, 2011-2013. Escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados
LLB/FDM: Vocês parecem ser um escritório pioneiro em conseguir aplicar materiais industriais na arquitetura residencial brasileira, tema ainda pouco explorado no cenário nacional. Quais fatores vocês julgam limitar o uso mais generalizado dessa abordagem?
VA: São muitos fatores, poderia elencar alguns, mas sem necessariamente saber qual é a ordem de importância desses fatores, mas acho que existe uma resistência do consumidor, que seria a síndrome dos três porquinhos, que existe no imaginário coletivo: uma cultura da casa de tijolo, minha casa minha vida, para sempre, vou ficar lá até morrer e tal. Então existe uma resistência por conta disso, uma dificuldade por conta das faculdades que eu conheço, que priorizam muito o sistema construtivo mais tradicional, que lançou a arquitetura brasileira moderna internacionalmente. Isto acabou fazendo com que o Brasil se sentisse muito vitorioso, uma boa parte do nosso moderno se agarrou a isso, e seguem na cartilha eternamente tentando fazer isso porque é a arquitetura brasileira. Acho que esse é um dos grandes obstáculos, são poucos arquitetos que conseguem se livrar disso. Não sei como é na sua faculdade, mas aqui em São Paulo, conheço escolas nas quais existe quase um doutrinamento, assim como fomos doutrinados em nossa época. A maioria dos alunos embarcam, quase como uma causa missionária. Acho que essa é uma grande dificuldade, são poucos alunos como você que saem da caixinha e veem que pode ser diferente. Às vezes eu penso e acho incrível que já passou tanto tempo de uma arquitetura tão inadequada, equivocada para o nosso clima, para a nossa cultura. Nós vamos ficar incensando a cultura dos europeus até quando? Apesar de um discurso nacionalista, quando reproduzimos aqui essa construção moderna, corbusiana, na verdade estamos reiterando uma arquitetura europeia.
Residência C.J., São Paulo SP, 2011-2013. Escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados
Lays Lucena Benjamin e Fernando Diniz Moreira: Vocês têm tido a oportunidade de estarem envolvidos com o ensino. Como a experiência prática de projeto e obra dialoga com a forma de ensino? Ela enriquece a forma de ensinar?
Vinicius Andrade: Por trás da sua pergunta está a discussão sobre o papel da academia. Se olharmos do ponto de vista intelectual, fazer história em cima de fatos recentes é muito difícil. Dependemos do distanciamento do tempo, o chamado distanciamento histórico, para analisar. Tem uma anedota que eu acho muito boa. Um professor de história diz que nos anos 1960 saiu uma matéria no jornal, uma capa no jornal com uma foto enorme do avião que caiu com 120 pessoas. Isso é notícia de jornal. Tinham várias matérias e uma chamadinha para um grupo de franceses que estava desenvolvendo estudos para criar contraceptivos para mulheres: isso era história. Então isso acontece com Arquitetura.
Óbvio, acho que existe um lado bom do professor ter contato com a prática. Sou um professor que tem esse contato, leciono em uma disciplina onde arquitetura, urbanismo e paisagismo estão integrados. Posso falar muita coisa para os alunos que eles se interessam, vão pesquisar, mas isso eu acho que isso na formação é marginal, acho que a formação é mais sólida quando você tem o conhecimento histórico. Eu acredito nisto. Não é possível fazer uma crítica consistente apenas com fatos atuais. E acho que o mundo acadêmico tem um papel importante porque ele preserva essa inteligência de não aceitar o imediato, então seria legal ter um professor que está na prática porque certamente ele sabe o que está falando quando dá uma aula de projeto. Mas é importante também os professores mostrarem para os alunos como se constrói ou não se constrói a cultura, o sabor, a sabedoria acumulada. Justamente sobre aquilo que a gente já consegue ter um distanciamento necessário. O ambiente acadêmico é o último reduto aonde esse tio de consciência pode ser preservado, acho legal que os alunos tenham acesso ao contemporâneo, mas, por outro lado, se o mundo acadêmico não for conservador nesse sentido, quem será? Nós vamos perder uma certa preciosidade, a de ter essa consciência, vamos ver daqui a vinte anos se esse papo que estou defendendo vai ter consistência ou não.
Vinicius de Andrade e Marcelo Morettin junto à equipe do escritório
Vinicius Hernandes de Andrade
Nascido em 02 de abril de 1968, São Paulo, Brasil. Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Brasil, em 1992.
Marcelo Morettin
Nascido em 19 de março de 1969, São Paulo, Brasil. Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, Brasil, em 1991.
Andrade Morettin Arquitetos
O escritório, fundado em 1997, surgiu da associação dos arquitetos Vinicius Andrade e Marcelo Morettin. Atuando na área de projetos de arquitetura e urbanismo, trabalha com projetos de diversas escalas e de naturezas bastante variadas, tanto para o setor público como para o setor privado. A conquista de algumas premiações importantes no panorama nacional e internacional conferiu ao escritório considerável estabilidade e garantiu o encargo de projetos de relevância na cidade.
Instituto Moreira Salles, São Paulo SP, 2017. Escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados
Lays Lucena Benjamin
Arquiteta e Urbanista, formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com Trabalho Final de Graduação – TFG sobre a obra residencial do escritório Andrade Morettin.
Fernando Diniz Moreira
Arquiteto (UFPE, 1989) e PhD em Arquitetura pela University of Pennsylvania, Professor Associado do Depto de Arquitetura e Urbanismo da UFPE. Foi o Coordenador-geral do Docomomo Brasil (2016-2017) e Conselheiro Federal nas duas primeiras gestões do CAU/BR (2012-2017).
Entrevista
A entrevista com o arquiteto Vinícius Andrade aconteceu em São Paulo no dia 05 de junho de 2017.
Instituto Moreira Salles, São Paulo SP, 2017. Escritório Andrade Morettin Arquitetos Associados