português Participante do Digital DArq, evento ocorrido na Universidade de Coimbra, Gabrieal Celani, professora da Unicamp, realizou rápida entrevista com Jorge Figueira, diretor da escola de arquitetura anfitriã, sobre o evento e o uso de tecnologia no ensino.
como citar
Gabriela Celani.
“Entrevista com o professor Jorge Figueira”.
Vitruvius entrevista, ed. 16.062. 2015.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/16.062/5515
01. O Prof. Jorge Figueira, organizador do evento Digital DArq, e Gabriela Celani ao fundo
O Departamento de Arquitectura (DArq) da Universidade de Coimbra foi criado no final dos anos 1980, e teve desde então uma orientação bastante ligada à teoria e à história, o que pode parecer, à primeira vista, não condizente com a promoção de um evento de ponta como o Digital DArq (1), que ocorreu de 27 a 30 de abril de 2015 na Universidade de Coimbra, uma das mais antigas e tradicionais do mundo.
O professor Jorge Figueira, diretor da escola e um dos organizadores do evento, concedeu uma entrevista, para explicar os motivos de sua realização.
nota
1 Ver artigo sobre o evento: CELANI, Gabriela. Digital Darq. Um encontro entre a teoria e a tecnologia. Drops, São Paulo, ano 15, n. 092.02, Vitruvius, maio 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.092/5514>.
Trabalho exposto na mostra de projetos desenvolvidos pelos alunos
Gabriela Celani: Professor Figueira, desde quando existe o interesse da escola de arquitetura de Coimbra pelas tecnologias digitais, e que aspectos em particular dessas tecnologias lhes interessam? Quais os professores que mais têm se dedicado a este tema e quais as parcerias que têm sido feitas nesta direção?
Jorge Figueira: Esse interesse tornou-se mais forte a partir do momento em que adquirimos uma velocidade de cruzeiro, digamos assim. Um momento em que já há um programa de doutoramento, em que o corpo docente se estabiliza, e que portanto podemos partir para áreas mais experimentais, áreas que não são tão óbvias em nossa tradição. O prof. Mario Kruger, que acabamos de ouvir falar, é um dos fundadores, inclusive em termos internacionais, desta área mais ligada à matemática que à área digital propriamente dita, mas ele é um dos fundadores da escola e desde o início transporta essa discussão para aqui. No início até de forma um pouco difícil, porque era muito contestado. Depois houve uma aproximação importante com o José Pinto Duarte, que foi nosso convidado durante algum tempo, depois entrou o José Pedro Sousa, que também foi nosso professor durante algum tempo, enfim, esses foram os pioneiros, em nosso departamento, desse tipo de discussão. Nós depois convidamos o Mauro Costa e além dele algumas figuras de monitores e jovens assistentes também têm sido importantes para criarmos uma massa crítica nessa área, para que haja um grupo envolvido nesta discussão, que é sempre uma discussão pacífica, de qualquer modo.
A nossa tradição oficinal, manuelista, do desenho, é muito forte e obviamente há uma certa tensão com a assunção desta nova cultura em seus modos mais extremados. Mas eu acredito que nós temos condições aqui, não para resolver esse problema, mas para colocar na mesa, para mostrar, para debater e para criar caminhos à volta disso. Porque primeiro, os alunos nos perguntam, e depois porque não podemos enfiar a cabeça na areia, inclusive por essas coisas que falastes [referindo-se à minha palestra sobre a “computerização” das profissões em geral prevista para os próximos anos, inclusive das tarefas do arquiteto] , aliás muito objetivas, não são coisas fantasiosas, são coisas com as quais temos de nos confrontar dentro da arquitetura. O arquiteto precisa se confrontar com a sociedade, com a realidade, com o que está a acontecer, embora eu também ache que há uma parte dos arquitetos que tendem para o autista. É uma maneira de não querer saber o que se passa. Mas ao mesmo tempo há uma possibilidade de querer saber de tudo e é isso que estamos aqui a fazer.
GC: E quais têm sido as ações da escola no sentido de promover a introdução das tecnologias digitais no ensino e pesquisa?
JF: Em primeiro lugar a presença dos professores citados, em seguida a criação de disciplinas que são relativamente recentes nessas áreas. Agora no novo plano de estudos que desenvolvi essas disciplinas vão ser oferecidas, algumas ligada ao estudo do desenho canônico, o desenho propriamente dito, que é dada por artistas. Estou a promover o encontro das disciplinas de desenho ensinadas por artistas e essas de cultura e projeto digital. E este evento do qual participastes de forma central tem um significado específico. É uma espécie de uma integração importante, e é por isso que eu fiz questão de estar na organização. Não é apenas um encontro de um grupo de professores, isto é realmente a direção desta escola que assume a organização deste evento.
GC: A participação do diretor da escola mostra um interesse institucional pelo tema, não?
JF: Sim, mostra uma vontade, em termos estratégicos.
A entrada da antiga capela. O edifício em que a escola está instalada já foi um convento
Gabriela Celani: Como surgiu a ideia do evento Digital DArq, qual o público alvo, quais os objetivos e quais os resultados esperados?
Jorge Figueira: Eu convoquei o Mauro Costa e a Isa Clara Neves, doutoranda da FAUL nesta área, e comecei a trabalhar com eles já há um ano mais ou menos. A ideia era que justamente os estudantes que me perguntam por este tipo de coisa estivessem todos aqui. Isso é um pouco utópico nesta época do ano, mas temos o site, as filmagens das conferências e pensamos em uma eventual publicação. Mas isto significa que o assunto passou de ser uma discussão entre alguns professores para ser uma discussão do Departamento de Arquitetura.
GC: Uma discussão institucional?
JF: Sim, uma discussão institucional. Essa é uma discussão estratégica. Não é a única, mas é uma das fundamentais. E nós também quisemos, nesta situação de competição entre as universidades, dizer que nós estamos interessados nisto, e que voltaremos a fazer eventos deste tipo. Esta é uma ideia para continuar e para aprofundar.
O prof. Jorge Figueira apresenta o número especial em inglês da revista Joelho
Jorge Figueira
Arquiteto pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, 1992. Doutor em arquitetura, especialidade Teoria e História, pela Universidade de Coimbra, 2009. Professor do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e no Programa de Doutoramento em Arquitectura da FAUP. Coordenador editorial do serviço de edições do Departamento de Arquitectura da FCTUC, Universidade de Coimbra. É autor e responsável pelos seguintes livros: Escola do Porto: um mapa crítico, Coimbra, eIdIarq, DAFCTUC, 2002; SMS:SOS. a nova visualidade de Coimbra", Coimbra 2003/Edições ASA, 2003, (Concepção e coordenação); Agora que está tudo a mudar – arquitectura em Portugal, Caleidoscópio, 2005; A noite em arquitectura", Relógio d´Água, 2007; Álvaro Siza. Modern Redux, Hatje Cantz, 2008 (editor).
Gabriela Celani
Arquiteta e professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp.
Entrevista
Entrevista presencial realizada durante o evento Digital Darq, ocorrido de 27 a 30 de abril de 2015 na Universidade de Coimbra.