português Carlos Pardo dissolve a polarização entre o novo objeto arquitetônico e o insatisfatório cenário existente. Destaca a importância da interação entre políticas públicas renovadas, projetos arquitetônicos cuidadosos e intervenções urbanas integradoras.
english Carlos Pardo dissolves the polarization between the new architectural object and the unsatisfactory existing scenario. Highlighting the importance of the interaction among renewed public policies, architectural design and inclusive urban interventions.
español Carlos Pardo disuelve la polarización entre el nuevo objeto arquitectónico y el escenario insatisfactorio existente. Destaca la importancia de la interacción entre políticas públicas renovadas, diseño arquitectónico y intervenciones urbanas inclusivas.
como citar
Mariana Wilderom.
“Conversa com Carlos Pardo”.
Vitruvius entrevista, ed. 14.056. 2013.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/14.056/4894
Colegio Santo Domingo Savio
Estive em Medellín em setembro de 2012 para conhecer a cidade e assistir ao XV Congreso Ibero-americano de Urbanismo.
Contava que estas experiências pudessem contribuir para a pesquisa que desenvolvo em meu mestrado, na qual investigo como a arquitetura educacional paulista contemporânea vem se apresentando como uma intervenção urbana, enfrentando as principais problemáticas da cidade de São Paulo, a partir da experiência dos Centros Educacionais Unificados. A ideia era analisar essa vocação da arquitetura educacional paulista a partir de sua própria história, mas também lançar mão de outros exemplos similares da atualidade, para ampliar as perspectivas de análise, o que justificava o interesse pelo caso de Medellín.
Em minha passagem pela cidade, solicitei uma conversa com Carlos Pardo, arquiteto responsável pelo projeto do Colégio Antônio Derka, símbolo da arquitetura educacional transformadora da periferia informal e urbana de Medellín.
Sua fala supera a simples contextualização dos processos que levaram ao projeto do colégio, tornando-se a porta de entrada para compreender a realidade mais abrangente das transformações na cidade. Com isso, esta entrevista visa contribuir para superar a estigmatização do tema, marcado pelas estilizadas fotos que contrapõem a linguagem contemporânea e a plasticidade dos novos edifícios de Medellin enfrentando o emaranhado tecido da cidade informal (como é o caso do Parque Biblioteca España).
Ainda sobre as contribuições da entrevista a seguir, é válido destacar a importância do diálogo e da troca de experiências para o enriquecimento da prática analítica. É ter a oportunidade de olhar nossa própria realidade através de outros olhos e referencias.
A narrativa de Carlos dissolve a polarização entre o novo e transformador objeto arquitetônico e o insatisfatório cenário existente. Destaca a importância da arquitetura educacional, mas reforça a compreensão de que a transformação desejada depende de uma ampliação do poder de ação no contexto social e urbano do território e isso só se daria através da interação de três fatores: políticas públicas renovadas, projeto arquitetônicos cuidadosos e intervenções urbanas integradoras.
A conversa se inicia com o propósito de discutir temas como a arquitetura do lugar a partir de sua experiência à frente do escritório Obranegra Arquitectos, no projeto do Colégio Antonio Derka. Vale destacar que o Colégio se situa na ladeira norte oriental de Medellin, no Bairro de Santo Domingo Sávio, que chegou a ser uma das regiões mais pobres e violentas da cidade. Este projeto foi alvo de grande reconhecimento na mídia especializada, sendo premiado na VII Bienal Iberoamericana realizada em Medellin, em 2010.
A entrevista se deu em duas partes. Uma primeira constituída de uma conversa informal em que apresento as questões trabalhadas em minha pesquisa. Para a discussão, sugere-se uma ênfase maior, baseada nas problemáticas em comum entre os CEUs e o Colégio Antonio Derka: arquitetura educacional como intervenção urbana. Neste breve primeiro momento apresento algumas fotos aéreas dos CEUs, explicando resumidamente que se tratava de um projeto da prefeitura de São Paulo, que em apenas quatro anos de mandato construiu 21 escolas se propondo a integrar, em um mesmo lote, equipamentos escolares aos de cultura e esportes em regiões de expressiva ocupação irregular que apresentavam uma carência, não só desses equipamentos, mas de investimentos que proporcionassem qualidade de vida urbana aos seus habitantes.
O trecho transcrito a seguir, representa a segunda parte da conversa em que Carlos Pardo faz uma apresentação dos processos e questões que buscam explicar oporquê o colégio resultou no que é...
Acima, da esquerda para a direita: Nicolás Vélez , Carlos Pardo, Mauricio Zuloaga. Abaixo, da esquerda para a direita: Alejandro Ochoa, Felipe Campuzano, Carlos Holguín, Juan Camilo Llano
Colegio Santo Domingo Savio
Mariana Wilderom: Gostaria de compreender melhor o contexto em que o projeto foi desenvolvido. Tanto em relação ao momento que Medellin vivia, às políticas públicas por detrás da contratação e às suas próprias expectativas acerca do projeto.
Carlos Pardo: Precisamente, os tempos políticos que são iguais em todo mundo, exigem que tudo seja feito muito rápido e, em 4 anos, muitas vezes o prefeito não tem o tempo necessário de mostrar seu trabalho. Tem que fazê-lo muito rápido.
Em 2005 Sergio Fajardo era o prefeito da cidade. Então, ao cabo de um ano, tempo que gastou organizando o programa de seu governo, ele começou a sentir-se pressionado por mostrar projetos. Sergio Fajardo é um acadêmico, professor de matemática, que tem a arquitetura muito presente em sua vida pois seu irmão e pai são arquitetos.
Pois Sergio, ao sentir as primeiras pressões políticas, tomou uma decisão rápida com a EDU, que é a Empresa de Desarrollo Urbano, um instrumento administrativo muito importante como um escritório responsável por todos os projetos de infraestrutura.
Alejandro Echeverri foi o cérebro de tudo isso, foi quem articulou os processos, se dando conta que os projetos não poderiam ser realizados de maneira isolada, independentes. Ele estudou em Barcelona, e trouxe o conceito de projeto integral, para integrar as secretarias de educação, de cultura, fazendo um grande projeto de cidade, aonde vamos todos juntos.
Porque acredito que fazer o que vocês me mostraram, de implantar edifícios em toda a cidade, isolados, isso não é fazer cidade. Na medida em que não são conectados com o sistema de mobilidade, com recuperação de espaços públicos, com habitação, claro, pois o projeto não é o edifício, mas é toda a intervenção em um setor, é um projeto urbano.
Sergio Fajardo, como não tinha tempo, escolheu 10 empresas de arquitetura por mérito –analisaram currículo, prêmios, reconhecimentos em bienais – e a EDU então nos contratou. Eles nos reuniram e, a proposta foi que doássemos nossos honorários. Então formei uma equipe de 5 arquitetos sendo que eu doaria meus honorários e eles pagariam os outros quatro arquitetos. Então era uma doação dos honorários da cabeça principal. Isso é algo que se faz uma vez na vida. Nossos colegas não gostam muito porque não seria um bom exemplo, sendo que já não ganhamos muito. Mas se tratava também de se fazer algo para cidade. Era um momento importante em que o prefeito nos dizia: ajudem-me a transformar esta cidade.
E não se tratava de um político puro, era uma pessoa querendo fazer as coisas de outra maneira, transparente, não negociando nada. Ele era muito claro no que queria e a educação, para ele, era algo fundamental, era seu norte.
Então chegamos à conclusão de que não poderíamos deixar esta oportunidade passar. Aceitamos o convite – isso era final de 2005, em dezembro. No final de janeiro de 2006 fizemos uma reunião para mostrar os primeiros desenhos, a primeira ideia.
Croqui inicial do projeto, mostrado por Carlos Pardo durante a conversa
Colegio Santo Domingo Savio
Mariana Wilderom: Vocês fizeram o projeto em um mês?
Carlos Pardo: Sim! Bem, a partir da construção do metrocable, a administração de Fajardo se dá conta de seu potencial, de como poderia recuperar um bairro que durante os anos 80 e 90 foi o bairro mais violento da cidade [o metrocable ficou pronto em 2003]. O lugar, antes, era uma favela impossível de se chegar, era preciso ir com alguém conhecido do bairro junto contigo, do contrário não era possível ir.
Então, a partir do metrocable se abre uma janela, uma possibilidade de sair e entrar facilmente e também despertou a consciência de seus habitantes, que se sentiram mais integrados à cidade, que por fim estavam superando a sensação de viver na periferia.
Então tudo começou a mudar um pouco, do ponto de vista social. E é aí que a administração de Fajardo chega com uma série de projetos. Um deles foi uma ponte que liga dois bairros: Andalucia e Francia, que eram dois bairros inimigos, literalmente, pois atiravam uns nos outros. Essa ponte é um símbolo de união.
Então fizeram intervenções de todo tipo: recuperação de espaços públicos de toda esta via que vai subindo com metrocable, conectaram bairros que eram antes inimigos e não podiam nem se ver.
Relocalizaram habitações que estavam em áreas de risco, em quebradas que caíam e construíram novos edifícios. Mas tudo no mesmo bairro e isso tem um sentido social muito importante. Porque em muitas cidades retiram pessoas de um lugar colocando-as do outro lado da cidade. Isso acaba com as raízes de uma família, com seus amigos. Então neste caso, eles removeram as pessoas para 30, 50 metros de distância de seus lugares originais.
Então metrocable já chegava aí. Hoje esta linha conta com uma extensão que vai até o parque Arví.
Quando começamos a construir a escola, a Biblioteca España estava quase construída, mas seus projetos começaram quase na mesma época.
O terreno fica a uns 500 metros da estação de metrocable, mas não se pode vê-lo da estação. Já existiam dois colégios antigos que também eram um pouco inimigos. Isso era um problema social da comunidade. E o projeto deste colégio também visava contribuir para recuperar o tecido social.Pois por conta da violência todos desconfiavam de todos[mostrando o terreno original na tela].
Então existiam estes dois colégios e um pequeno lote no meio, vazio, mas com uma topografia muito acentuada. Havia dois caminhos que conectavam este bairro. A via principal estava em cima, se entrava pelo lote por cima e a parte de baixo era acessada por esses dois pequenos caminhos. Então nos pareceu muito importante manter estas conexões. Este foi um ponto de partida. Nos demos conta também, quando visitamos o lote, da condição de mirante que este terreno tinha. Era preciso tirar proveito disso.
Daí que pensamos essa arquitetura do lugar. O lugar começa a lhe dar pistas, a lhe dizer o que deveria ser aproveitado, os caminhos. E daí que é preciso que o projeto arquitetônico pertença unicamente a este lugar. Eu considero que a arquitetura que fizemos, pertence a este lugar, não se pode ser feita em outro. Fizemos um passeio pelo bairro buscando elementos arquitetônicos urbanos, entendendo um pouco como vive essa gente, como eles constroem no bairro, por que construir assim?
A topografia tão forte obriga-os a fazerem escadas para subir, a ter ruas escalonadas, que permitem também que as casas se relacionem muito: com suas portas abertas, ouve-se a música tocando na casa. Além disso a família constrói um piso e quando os filhos se casam, constroem outro andar acima e é assim que vão aparecendo as escadas, isso é muito latino americano.
Foi por isso que fizemos essa pesquisa dos elementos que são próprios do lugar, isso tem um significado. Queríamos que o projeto estivesse cheio de elementos locais para que as pessoas se apropriassem dele. Seguramente, resultaria num edifício moderno, melhor elaborado...
Mas nos interessava muito que o edifício pertencesse à comunidade, que rapidamente se apropriassem dele. Não era justo chegar com um edifício e fazer isso [faz gesto de “pouso de um objeto”]... que as pessoas iam dizer “isso não nos pertence, isso não é nosso, não o entendemos, não consigo entrar, como se usa isso?”
Se você chega com uma arquitetura importada, holandesa, finlandesa ou japonesa, não vão entender o que está se passando. Então fizemos esse passeio em que olhamos o que nos interessava e nesse bairro, para eles, a cidade sempre está lá, eles a tem como pano de fundo. Então aparecem esses espaços que marcam a paisagem urbana. As pessoas usam os espaços residuais para jogar.
Claro, em uma topografia tão forte vimos que seria impossível que as crianças conseguissem brincar nas ruas, esperando que os carros passem, Não há praças, nem parques e se existem, são muito pequenos. Então havia uma carência de espaços públicos pela topografia e pela falta de vontade política. Pois eles podiam fazer, mas nunca fazem. Fazer um parque, fazer um espaço vazio não dá votos. O que dá voto é fazer um edifício grande, de 5 pisos, que se veja de longe. Fazer espaços públicos não dá votos. Mas este prefeito sim, pensava nisso. Não lhe importavam votos. O que ele queria era ser real e entender o que as pessoas necessitavam.
Existem outros elementos chaves desses bairros em ladeira que são os terraços. Era o que falávamos agora há pouco, da arquitetura que se vai fazendo de maneira progressiva, por adição: o primeiro piso, depois se montam o segundo piso. São terraços importantes onde se secam as roupas, onde as crianças brincam com seus triciclos. Eles usam esses espaços, não é só a cobertura da casa. Então nos interessava aproveitar isso: o terraço como mirante.
Então, sobre esses dois colégios que já existiam. São dois edifícios velhos e me chamava muito a atenção: a imagem do colégio era tudo, menos um colégio. Era uma prisão, com grades, que escondiam os alunos como se fossem delinquentes. E então começamos a pensar como faríamos tudo ao contrário, porque afinal de contas, não queríamos repetir isso.
A primeira ideia, naquela reunião do mês seguinte ao primeiro encontro, como eu os contava. Então apareceu isso, depois de pensar muito.
Era a essência do que seria o projeto já estava aí: havia uma intenção muito clara em gerar a cobertura, que obrigatoriamente teríamos que entrar pela parte alta do terreno. Como nos demos conta da carência dos espaços públicos, incorporamos isso ao programa. Porque o programa arquitetônico nos pedia um colégio científico com salas de aula, salas de computadores, mas nunca te pedem isso. Isso [aponta para o grande terraço jardim em uma imagem do projeto] nunca vão lhe pedir: e aí está um espaço público de quatro mil metros quadrados. Tínhamos números muito claros. Mas este foi um aporte nosso ao programa: a cobertura vai se tornar uma praça para que se possa utilizar as pessoas do bairro e os estudantes. Como um espaço intermediário entre o bairro e a escola.
MW: E como foi trabalhada a relação do programa escolar com o lugar, com o existente?
CP: Então isso apareceu, desde a primeira ideia. Também aparecia a ideia de levantá-lo um pouco do piso, deixando o terreno livre embaixo, onde poderiam ser desenvolvidas outras atividades. Em algum momento até pensamos em colocar abaixo uma piscina, mas depois nos demos conta de que o sistema de manutenção era muito caro. Num colégio público, aos seis meses já não teriam colocado cloro, nem cuidando e acabariam por fechá-la. Mas depois este espaço inferior se converteu num lugar muito interessante.
Como eu falava, este é um edifício que se integra de maneira radical ao lugar, não só do ponto de vista topográfico. Porque dá uma sensação de prolongação desta montanha. Parece uma nova geografia. É modificar a geografia com a arquitetura. Esta praça também servia para conectar, através de uma escada, o colégio existente. O outro edifício não, porque era muito abaixo [refere-se a outra escola da região].
Esse caminho que vimos originalmente, que as pessoas usavam, a partir dele, fizemos uma rua escalonada que conectava os níveis do edifício e nossa ideia é que a conectássemos com o caminho existente. Mas não nos deixaram: “não há dinheiro, fazemos depois”... Mas sabíamos que não fariam, discutimos muito, mas chegou a um ponto que não podíamos mais fazer nada. Faltavam só 20 metros, era pertinho, mas não conseguimos. A escola foi cercada na parte interior, infelizmente. Mas ao menos é um fechamento com uma malha muito aberta, muito transparente e em qualquer momento podem tirar. Espero que a tirem. Acaba sendo uma referência no bairro, mas sem querer ser um ícone ou nada. É tranquilo, horizontal.
Esse espaço acima [aponta para o volume que é o único elemento sobre a praça mirante] é a aula múltipla. Era um espaço que já constava no programa. Queriam que fosse um espaço para os estudantes mas que servisse também à comunidade. Mas que quando a comunidade o utilizasse, não afetasse o funcionamento do colégio. Os elementos de madeira são estratégias mais arquitetônicas, que ajudavam também a unificar o edifício, deixando-o menos fracionado. O edifício está localizado no sentido norte sul. Então o nascente e o poente geram uma insolação muito forte, então usamos como elementos de filtro de luz.
As salas também estão recuadas, gerando uma varanda entre as salas e a fachada e também há este espaço intermediário. A planta é muito simples, mas sempre tenta conectar muito os ambientes ao exterior. Porque vimos isso no bairro. Para eles é fundamental sempre ter esta conexão com as montanhas ou com a cidade. São pessoas muito ligadas ao exterior, vivem nas ruas.
Então é isso, a aula múltipla – que não terminaram. O projeto previa uma série de painéis, mas nunca há dinheiro. A praça mirante com a cidade ao fundo. A biblioteca neste projeto é muito pequena porque há a Biblioteca España muito perto.
Isso é diferente do que você me mostrou [refere-se aos CEUs]: ao terem tratado de concentrar todos os equipamentos da comunidade em um só lugar, fazendo com que o resto do bairro perca vitalidade, sendo só residencial. Então a gente nunca vai se encontrar, se ver nas ruas. Esta situação: a biblioteca aqui, o colégio, o metrocable, fazem com que a gente se dê conta, se conheça. Para mim, concentrar os edifícios me parece que não é a solução. Não constrói cidade, sociedade. A mim, me parece, que a estratégia de concentrar todos os edifícios estimula que se formem guetos, funcionando como ilhas independentes. O que se propunha este projeto era conectar o bairro e a comunidade.
MW: Sim, de maneira que esta conexão não se perdesse com o fechamento de um gradil ou portão. Algo que poderia ser feito por um diretor com uma concepção um pouco diferente, severa. Ele poderia fechar alguns acessos ou controlar os horários pondo a perder esta ideia maior de conexão. Isso me parece ser uma fragilidade da proposta de um Centro Educacional Unificado.
CP: Sim, aliás este foi um pedido pessoal de Sergio Fajardo: “eu espero que este colégio sirva para derrubar os muros”. Porque de fato, os colégios existentes eram cárceres. Estavam fechados por muros, nem se quer por gradis. Porque não se pode ver nada através de muros de três metros de altura, então eram verdadeiras prisões sem qualquer relação entre o mundo interior e exterior. Ele queria eliminar as barreiras físicas e mentais. Há uma mensagem bonita nisso, porque romper a barreira mental significa dizer que a escola pertence à comunidade e não é um edifício isolado, concebido como uma prisão.
Nós fomos muito radicais, quando ouvimos isso, entendemos que o conceito era uma escola aberta. Para nós não deveria haver gradis, mas os colocaram depois. Segundo o prefeito, a ideia era que fossem parques educativos. Que as pessoas pudessem usar e que as crianças não tivessem que jogar na rua.
Mas isso acabou acontecendo de um jeito um pouco diferente e acho que isso ocorre em toda a América latina. Diretor do colégio é quem tem a chave da escola. Pois chega no fim de semana, quando há um feriado, o diretor fecha o colégio e viaja, deixando trancada a quadra de futebol, que era a opção de lazer para as crianças. Só resta a elas brincar na rua.
Nós não queríamos grades, queríamos que as crianças pudessem desfrutar do colégio por 24 horas todos os dias da semana. Claro que temos que ser sensatos quanto à esse tema, porque há o problema da segurança. É um bairro muito pobre em que se pode roubar cadeiras, portas.
MW: Para a arquitetura escolar paulista isso é muito importante, ter que criar edifícios resistentes à roubo, depredação e ausência de manutenção
CP: Sim, mas não é preciso ser tão radical. A princípio, é possível realizar campanhas educativas com as pessoas e, a medida que a população vai se apropriando do edifício, eles mesmos vão cuidar.
MW: Sobre os números da escola: quantidade de alunos, faixa etária...
CP: Até onde sei são quase 3.200 alunos em três turnos (manhã, tarde e noite) utilizando os três edifícios, da faixa etária dos 2 anos até os 18. Sendo que os mais novinhos não assistem aulas no edifício novo. Acredito que as salas de aula abertas e estes espaços avarandados convidam para uma nova concepção de aula.
Colegio Santo Domingo Savio
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Mariana Wilderom: Vimos ao longo dos caminhos percorridos pelo metrocable a presença expressiva de guarda corpos, escadas, que parecem indicar uma intervenção, uma requalificação dos passeios... é isso?
Carlos Pardo: Sim, como te disse, fizeram não só edifícios educativos e sim, requalificaram, criaram espaços públicos. Alguns projetos são feitos por concurso e outros são feitos pela EDU, que tem mais agilidade e conta com uma equipe grande de arquitetos...
MW: Parece que em São Paulo ainda não conseguimos atingir este tipo de integração nas intervenções, parece que fazemos escolas, habitação, saneamento, mas não conseguimos juntar isso a outros programas.
CP: Sim, eu creio que é importante perceber que este edifício é um grão de areia dentro de um grande projeto, dentro de um PUI (Projeto Urbano Integral). Alejandro Echeverri foi o cérebro dos PUI, que é este grande projeto, é a mãe de tudo isso. Os PUI conseguiram articular habitação com educação, espaço público, saúde, tudo isso... e fez com que todas as secretarias fossem juntas trabalhar. Eu não sei como conseguiram...pois foi muito difícil. Mas conseguiram e os PUI foram capazes de fazer isso e a vontade política de Sérgio Fajardo. Agora se tornou uma fórmula. Todos os prefeitos querem fazer isso, todos vêm à Medellín ver como se deu isso. Por sorte, depois de seu mandato assumiu um prefeito do mesmo partido que continuou com os parques bibliotecas, espaços públicos... e com isso conseguimos oito anos. O prefeito que governa agora não é do mesmo partido mas está trabalhando na mesma linha e eles são muito amigos. Então já estamos contando com 12 anos seguidos aplicando o mesmo programa, isso não é fácil e é importantíssimo.
MW: Echeverri é arquiteto urbanista?
CP: É arquiteto urbanista formado em Barcelona e foi peça fundamental. Nós arquitetos o ajudamos, mas foi ele que conseguiu visualizar o macro.
MW: Às vezes me preocupa um pouco que a arquitetura paulista seja muito autorreferente. Como é aqui? As escolas de arquitetura formam linhas de arquitetos diferentes?
CP: Aqui chamamos de “olhar para o próprio umbigo”. Bom, aqui acho que não. Creio que aqui haja muita camaradagem. Em Bogotá eu creio que isso aconteça mais, a Universidad de los Andes tem uma linha mais marcada... Mas aqui em Medellín são os mesmos professores em diferentes universidades. Aqui temos a Bolivariana (privada) e a Universidad Nacional (pública).
[Encerrando a nossa conversa, Carlos cita uma frase de Peter Zumthor]. Essa é uma frase que me encanta... e para falar de arquitetura do lugar, temos que falar de Zumthor, Siza, Alvar Aalto, Salmona...
“A presença de determinados edifícios têm pra mim, algo de secreto. Parecem simplesmente estar aí. Não se depara nenhuma atenção especial à eles. No entanto, sem eles, é praticamente impossível imaginar o lugar onde estão. Estes edifícios parecem estar fortemente enraizados no chão. E dão a sensação de ser uma parte natural de seu entorno” (1).
O edifício parece então uma extensão da geografia, não é um edifício que chega e aterrissa. Claro que se deve entender um pouco como vive esta gente, porque constroem assim, o que lhes interessa. Vocês vão se dar conta da vitalidade que têm da rua.
nota
1 A frase original e parte do seu contexto é reproduzido a seguir: “To me, the presence of certain buildings has something secret about it. They seem simply to be there.We do not pay any special attention to them. And yet it is virtually impossible to imagine the place where they stand without them. Those buildings appear to be anchored firmly in the ground. They make the impression of being a self-evident part of their surroundings and they seem to be saying: “I am as you see me and I belong here”. ZUMTHOR, Peter. Thinking architecture. Basel/Boston/Berlim, Birkhauser, 1999, p. 17-18.
Colegio Santo Domingo Savio
Carlos Pardo (1964) é um dos sócios fundadores do Obranegra Arquitectos, que junto com Mauricio Zuloaga Latorre (1963), mantém o escritório de arquitetura em Medellín, Colombia desde 1990. Em o arquiteto Nicolás Vélez Jaramillo (1969) passa a integrar a equipe.Todos formados pela Universidad Pontificia Bolivariana de Medellín.
Em seus projetos existe um interesse permanente em desenvolver uma arquitetura contemporânea sensível com o contexto e com o meio ambiente, mobilizando os sentidos e a razão.
Vários de seus projetos tem obtido reconhecimento em Bienais Nacionais e Internacionais, sendo publicados em revistas especializadas como: Mark (Holanda), Architectural Review (Inglaterra), Arquitectura Viva (España) Summa (Argentina), Trama (Ecuador) Escala (Colombia), entre outras.
Também têm participado de exposições coletivas: Arquitectura en Colombia y el sentido del lugar em várias cidades Europeias, Moscou, Shangai, Pequim, Peru 2005, Narrativa Visual De dos ciudades na RIBA, Londres 2010, Gwangju Biennale na Coreia 2011, Medellin Urbanismo Social em Paris 2011, Arquitectura Colombiana: transformación social a través de la arquitectura en Medellín em Londres 2011.
Em 2008 obtiveram menção na categoria Projeto Arquitetônico na XXI Bienal Colombiana de Arquitectura com o edifício Guayacán de Aviñón torre 2.
Em 2010 ganharam o Premio Nacional de Arquitectura com o Colegio em Santo Domingo Savio, depois de terem recebido o Primeiro Premio da categoria Projeto Arquitetônico na XXII Bienal Colombiana de Arquitectura. Na VII Bienal Iberoamericana de Arquitectura, este projeto foi selecionado como um dos 35 melhores projetos iberoamericanos.
En 2011 obtiveram o Prêmio Lápiz de Acero na categoria Desenho Arquitetônico com o Colegio em Santo Domingo Savio.
Mariana Wilderom
Mariana Wilderom é arquiteta e urbanista formada pela FAUUSP. Atualmente cursa o mestrado pela mesma instituição, dentro da área de História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo. É orientada pela Prof. Dra. Mônica Junqueira de Camargo, integrando também seus grupos de pesquisa (“Núcleo de Referência da Cultura Arquitetônica Paulista” e “Arquitetura e Cidade Moderna e Contemporânea Brasileira”).
Entrevista
A entrevista foi realizada em 14 de setembro de 2012 no escritório de Obranegra Arquitectos.
dados sobre o projeto
projeto Colegio Santo Domingo Sávio Carrera 28, n. 107-295 Barrio Santo Domingo Sávio, Medellín, Colombia