português A entrevista com Otília Arantes parte do livro “Berlim e Barcelona” e fornece chaves de leituras para discutir o papel do urbanismo contemporâneo, dos novos atores, da crise da forma urbana e as grandes transformações a partir dos grandes eventos.
A entrevista com a professora filósofa Otília Beatriz Fiori Arantes (FFLCH USP), baseada no seu recente livro sobre Berlim e Barcelona, fornece chaves de leituras e instrumentos para se discutir o papel do urbanismo e dos novos atores, a crise da forma urbana e as grandes transformações nas cidades a partir dos grandes eventos.
Os temas abordados elucidam as modalidades de transformações em curso, a natureza dos processos e as novas formas do espaço físico.
Apesar desta entrevista com exclusividade para o Portal Vitruvius se deter ao seu livro mais recente que trata de Berlim e Barcelona (1), sua produção tem gravitado em torno de temas que dão suporte reflexivo para pensarmos o projeto da cidade contemporânea.
A estrutura da conversa foi elaborada visando se tornar subsídio didático para o curso internacional de extensão universitária denominado “A dimensão paisagística no projeto da cidade contemporânea: um itinerário de estudo nas cidades de Berlim, Barcelona e Atenas”.
nota
1 ARANTES, Otília Beatriz Fiori. Berlim e Barcelona. Duas imagens estratégicas. São Paulo, Annablume, 2012. Ver no guia de livros do portal Vitruvius: www.vitruvius.com.br/pesquisa/bookshelf/book/1365.
Hotel Arts (com escultura em forma de peixe de Frank Gehry) e Torre MAPFRE entre a Cidade Olímpica e o Porto Olímpico, 1992
Adalberto da Silva Retto Jr: Em seu último livro, sobre Berlim e Barcelona, ambas as cidades emergem como duas "imagens estratégicas" para a compreensão das transformações urbanas ocorridas nas últimas décadas do século 20. Nas capitais em consideração, como em outras, experimentou-se nos anos de 1980 novas modalidades de intervenção pública, com variadas formas de colaboração entre administradores e entes privados. Um confronto, entre as mesmas, evidencia peculiaridades no “governo das transformações”: a lógica do processo e os tipos de atores da transformação. A Sra. pode precisar alguns destes pontos comuns ou diferenças, nos casos específicos analisados no livro? Acrescento a pergunta: são “as ocasiões” (grandes eventos, apud Indovina, citado em vários momentos pela Sra.), que determinam as mudanças das e nas cidades? Ou as oportunidades de partes da cidade, que definem como e onde deve ser mudado? Como isto se deu nestas duas cidades?
Otilia Arantes: Na verdade, o que há de certo é que ambas as cidades saíram de décadas de opressão, quando as transformações que analisei ocorreram, e o objetivo destas, tanto numa como na outra, foi, em grande parte, restaurar a autoestima de seus habitantes, que lhes seria devolvida pela superfície refletora dos Grandes Projetos, mesmo que às custas de um redesenho sócio-econômico de efeitos bastante contraditórios. São tais contradições que tento trazer à tona no livro que você menciona, e que se devem sobretudo a uma lógica semelhante de empresariamento das cidades ou de adoção de uma estratégia que visava a transformação de ambas em cidades globais, em atrair grandes investimentos da iniciativa privada, em especial no sentido de transformar sua imagem numa “marca” competitiva em plano internacional, inclusive fazendo da cultura – grandes eventos ou equipamentos culturais, mas também a própria arquitetura a ser exibida – um fator essencial para ativar suas respectivas “máquinas de crescimento”, nas quais o turismo seria igualmente um dos motores importantes. Para tanto Barcelona adotava, já no período pré-olímpico, o Planejamento Estratégico (em 1989 – casualmente no mesmo ano da Queda do Muro); em Berlim, de seu lado, mesmo que não houvesse um tal Plano (ao menos no sentido estrito em que vinha sendo empregado pelos urbanistas), no entanto a fórmula adotada era muito semelhante: não faltava nenhum dos ingredientes do Planejamento Estratégico, ou daquele modo de “fazer cidade”. É claro que na escala gigantesca de uma capital com ambições bem mais do que européias: “megaprojetos emblemáticos; urbanismo acintosamente corporativo, nenhuma marca global ausente; gentrificações se alastrando por todo o canto; exibicionismo arquitetônico em grande estilo; parques museográficos; salas de espetáculos agrupadas em complexos multiservice de aparato – e muita, muita ‘animação cultural’ disponível para 24 horas de consumo” (como já havia escrito num ensaio anterior). Evidentemente as Grandes Obras são distintas no caso de uma Olimpíada ou de uma cidade reunificada após anos murada e semeada por vazios deixados pela Guerra, enquanto na primeira, as áreas degradadas se deviam em grande parte ao processo de desindustrialização e, consequentemente, desativação parcial da área portuária, lembrando que Barcelona é uma cidade marítima e a urbanização da orla não é evidentemente da mesma natureza de um Mitte deteriorado pela cisão que o inviabilizava. Em contrapartida, ambas convergiam na necessidade de preservar os assim chamados valores culturais e o patrimônio arquitetônico, e ao mesmo tempo, fazê-los conviver com o novo. Ou seja, com uma arquitetura que rompesse com padrões e gabaritos pré-fixados – no caso de Barcelona, ao menos no início, com menos “ousadia” e em grande parte com projetos de arquitetos catalães, já Berlim estreou com mais de 300 escritórios em ação, especialmente de estrangeiros, e com uma arquitetura “de ponta” – o primeiro e mais chamativo exemplo foi justamente Potsdamer Platz, que analiso. Ambas as cidades, no entanto, proclamando uma mistura arquitetônica e social que, no entanto, cedeu lugar aos interesses rentistas e onde a especulação imobiliária, desde o início, foi determinante em relação ao redesenho sócio-espacial, gerando igualmente, nas duas, processos de nítida gentrificação. Portanto, diferenças à parte, especialmente o fato único de uma cidade candidata à capital, depois de anos de isolamento, tanto em Barcelona, quanto em Berlim, as grandes empresas e os grandes negócios parece-me terem dominado a cena, sendo utilizadas também, de forma muito explícita, nas duas cidades, iscas culturais, do patrimônio preservado ou restaurado, como acabei de mencionar, aos novos equipamentos culturais.
Passo então ao seu segundo ponto: se as mudanças são consequência das ocasiões – ou seja, produzidas pelos grandes eventos – ou ao contrário, é o potencial de partes destas cidades que determinam as mudanças. Creio que ocorrem as duas coisas e, em muitos casos, são até interdependentes, ou seja: buscam-se pretextos (ocasiões), para se “desenvolver”, nas cidades-sedes, mudanças (nas suas configurações urbanas ou sociais) em pontos estratégicos – em geral áreas ou degradadas fisicamente ou extremamente pobres (características no mais das vezes coincidentes), e, portanto, propícias às famigeradas “requalificações”.
Potsdamer Platz, projeto urbano de Renzo Piano em construção, Berlim, anos 1990
Edifício infraestrutural, Rio de Janeiro, 1929. Arquiteto Le Corbusier
Adalberto da Silva Retto Jr:No início do século 20 temos uma intensa circulação de ideias, modelos e profissionais, do mesmo modo, a partir dos anos 1980, afirma-se outro fluxo de arquitetos e urbanistas que trabalharam como consultores, tomando como referência cidades como Barcelona, entre outras. Do ponto de vista profissional, do Urbanismo Moderno ao Planejamento Estratégico, o que foi alterado?
Otilia Arantes: Acho que não podemos generalizar o que ocorreu especificamente com Le Corbusier, a partir dos anos 1920, chamado por vários governos para realizar projetos arquitetônicos ou urbanísticos, ou mesmo assessorar arquitetos locais, como foi o caso, no Brasil, na década de 1930. Arquiteto de projeção internacional, com muitos textos-manifestos publicados e figura de proa dos CIAMs, teve, realmente, um papel muito importante na difusão da arquitetura moderna, tendo sido um dos autores da plataforma da cidade funcional (ou das suas versões, sendo a mais difundida a de 1933). Além disto, a política de tabula rasa que propunha e de modelos urbanos padronizados (como no Plan Voisin) só podiam ser cogitados por governos fortes, em geral do terceiro mundo, por assim dizer predispostas a correr os riscos de tais intervenções drásticas, ou, em pleno auge de expansão capitalista, como os Estados Unidos. Poucos deles aliás executados, mas que deixaram discípulos pelo caminho – a nossa AM certamente não teria sido o que foi se não fossem as passagens do arquiteto franco-suíço por aqui. De outro lado, é preciso pensar nas lições dos mestres da Bauhaus. Muitos deles, e a própria escola, com a ascensão do nazismo, acabaram migrando para os Estados Unidos. Ali construíram e deixaram um padrão de arquitetura que logo se tornaria o chamado Estilo Internacional, mais adiante exportado por seus anfitriões como se fosse expressão americana genuína, sendo o exemplo máximo Mies Van der Rohe, não por acaso com o famoso Seagram’s. Foi quando a arquitetura de aço e vidro passou a dominar os grandes centros empresarias mundo afora. No que tange o urbanismo, intervenções a la Robert Moses, também fizeram escola –, mas aí, a responsabilidade não será mais tão diretamente dos mestres ou das lições dos CIAMs. Dos anos 1920 aos 1950 tivemos um período indiscutivelmente dominado, no plano das ideias arquitetônicas e urbanísticas, pelos Modernos. Creio ser desnecessário recapitular a pauta de uma arquitetura que se pretendia maximamente racional e cujo ideal construtivo estava totalmente sintonizado com o seu tempo – o de uma utopia técnica do trabalho, e que, uma vez destroçada, foi dando lugar a um formalismo extremado que logo se exauriu, sendo substituído por outras expectativas mais adequadas às novas formas de produção capitalista do espaço, na origem de novas concepções de arquitetura e de urbanismo.
Deixando de lado o período de transição, especialmente nos anos 1960/1970, pulo para o Planejamento Estratégico, resultado de uma concepção de cidade-empresa, ou ainda, de cidade como “máquina de crescimento”. Em primeiro lugar, nada a ver com a circulação dos Modernos e de suas ideias – a convite ou forçados –, com os escritórios de consultoria criados a partir do momento em que as cidades começaram a ser concebidas como empresas a serem otimizadas. Utilizando minha comparação no texto de abertura do livro citado no início por você sobre Berlim e Barcelona – “Gentrificação estratégica” –, se nos reportarmos à cidade-máquina moderna, a mudança de postura dos gestores urbanos e dos próprios urbanistas não deixa de ser espantosa: quando um moderno propunha uma cidade segundo o modelo de linha de montagem fordista, tinha em mente antes de tudo a presumida racionalidade construtiva de tal processo e ficaria sinceramente chocado se lhes fosse exposta a dura verdade de sua funcionalidade sistêmica por assim dizer de nascença. Hoje, o que poderia ter sido motivo de escândalo – a revelação da mercadorização integral de um valor de uso civilizatório como a cidade – tornou-se razão legitimadora ostensivamente invocada. Atualmente o urbanismo não vem mais para corrigir, mas para incrementar a proliferação urbana, para otimizar a competitividade das cidades, todo o vocabulário aliás é nitidamente empresarial. E se trata não apenas de gestão urbana like business, mas for business. Na origem desta virada, “as cidades-empresas” americanas dos anos 1970 (na denominação de Peter Hall, em Cidades do amanhã, de 1988), ou seja, os processos urbanísticos adotados de início por James Rouse em Baltimore, de cuja cidade era prefeito, e logo em outras muitas cidades americanas – não esqueçamos que é também o exemplo adotado por Harvey para diagnosticar esta inflexão em Condição pós-moderna, só que pondo a ênfase na espetacularização urbana, essencial aliás, neste processo de valorização das cidades. Lembro também que a prefeitura de Barcelona – que nos concerne mais de perto – mantinha intercâmbio com Rouse desde ao menos 1982 e o chamou como assessor na fase pré-olímpica, em 1989, especialmente para a transformação de seu maior projeto e vitrine à época – o Moll de la Fusta (o porto antigo) –, chegando a contratar a sua empresa para levá-la a efeito.
Em síntese, nas palavras de Hall, o que vemos acontecer é uma nova elite financeira tomando efetivamente posse das cidades, liderando uma coalizão pró-crescimento que habilmente manipula o apoio público e combina fundos públicos e privados com a finalidade de promover uma urbanização comercial em grande escala. Ou ainda, como definiram John Logan e Harvey Molotch (já em 1976 e exposto por extenso em 1987) a cidade, enquanto growth machine, resulta da coalizão da elite, centrada na propriedade imobiliária e seus derivados, mais uma legião de profissionais caudatários de um amplo arco de negócios decorrentes das possibilidades econômicas dos lugares, com o intuito de expandir a economia local e aumentar a riqueza. O apoio da população, no afã de se projetar e consequentemente competir pelos investimentos em plano internacional, é um elemento importantíssimo e bastante reivindicado pelos catalães ao dar forma ao “planejamento estratégico” de exportação (apresentado no Habitat de 1996). A fabricação deconsensos em torno do crescimento a qualquer preço – a essência mesmo de toda “localização” – torna-se a peça chave de uma situação de mobilização competitiva permanente para a batalha de soma zero com as cidades concorrentes. Uma fábrica por excelência de ideologias, portanto: do território, da comunidade, do civismo, etc. No coração dessas coalizões, a classe rentista de sempre, hoje novamente na vanguarda dos “movimentos urbanos”: incorporadores, corretores, banqueiros etc., escorados por um séquito de coadjuvantes igualmente interessados e poderosos, como a mídia, os políticos, os promotores culturais, as empresas esportivas, etc. sem deixar de mencionar, claro, os próprios arquitetos e planejadores urbanos (que “de guarda caça se transformavam em caçadores furtivos” – Peter Hall – ou nem tão furtivos..., podemos dizer, passados mais de 20 anos).
Operação Urbana Eixo Tamanduatehy, Santo André, 2007
Edifício em Kreutzberg para o IBA 1987 ao lado de prédios restaurados. Arquiteto Álvaro Siza
Adalberto da Silva Retto Jr:O interesse particular nas intervenções urbanas realizadas em Berlim, nas últimas duas décadas do século XX, além dos resultados particulares obtidos, fundou-se, parece-me, na investigação teórico-disciplinar, que coloca dentro da discussão o problema da forma como uma questão de arquitetura, e da memória histórica, como instrumento para sua definição. A questão central do debate arquitetônico torna-se, assim, o tema da memória como ferramenta de projeto: entre nostalgia do passado e homenagem ao moderno, entre continuidade e renovação e da pesquisa das raízes históricas à ambiciosa busca por uma “Nova Berlim”. Nesse cenário, quais são as diferenças das transformações, findadas em Barcelona e Berlim, quanto a este quesito particular?
Otilia Arantes: Comecemos pelo exemplo de Berlim, visto que é nele que você se detém. Em primeiro lugar, temos que recuar um pouco no tempo. Se no pós-guerra a reconstrução de Berlim se deu a toque de caixa e sob a ação dos bulldozers, que mais destruíram do que na própria guerra, e por empreiteiros estimulados pelos incentivos estatais, sem nenhuma preocupação arquitetônica muito menos de preservação ou restauração, embora tenham restado alguns nichos de construções mais antigas (como Kreuzberg, no lado ocidental, e vários outros no lado oriental), várias iniciativas posteriores procuraram corrigir esta imagem de uma Berlim tão feia quanto cinzenta, trazendo uma arquitetura mais up to date e digna deste nome, como a criação do bairro Hansa na Interbau de 1957, do qual participaram arquitetos do mundo inteiro (entre eles, o nosso Oscar Niemeyer), ou a construção de algo como um centro de high culture, que passaria a ser um símbolo da Berlim ocidental: a Galeria Nacional, projetada por Mies Van der Rohe, compondo com o conjunto, formado pela Sala da Filarmônica e a Biblioteca – obra de outro alemão, Hans Sharoun –, algo assim como um Mix-Event-Mall (todas, iniciativas dos anos 60). Novamente um surto de renovação vai ocorrer com a Interbau (IBA) de 1987, que trouxe, desde o final dos anos 1970, inúmeros arquitetos de projeção internacional (já em plena voga pós-moderna: Vittorio Gregotti, Aldo Rossi, Hans Hollein, Léon Krier, Peter Eisenman, Carlo Aymonino, Paolo Portoghese, Rem Koolhaas e vários outros) para projetar edifícios, especialmente residenciais, em vazios mais ou menos centrais da cidade. Mas, ao mesmo tempo, seguindo as novas palavras de ordem preservacionistas e contextualistas, e cedendo a pressões sociais e políticas, visto que a cidade se dualizava de uma maneira muito evidente (e aqui estou me referindo obviamente à Berlim ocidental, objeto das iniciativas do IBA), fez parte deste grande projeto de aggiornamento berlinense a restauração de uma bairro caído no esquecimento, totalmente deteriorado, squaterizado por parte de imigrantes, artistas e estudantes, Kreuzberg. Esta grande recuperação step by step, com interiorização dos quarteirões, disponibilizando serviços para os que aí habitariam, eventualmente reconstruindo partes demolidas, seja com a participação dos moradores, muitos deles artistas, seja de arquitetos convidados, mas que se submetiam ao entorno e discutiam com usuários, que formaram um conselho local, transformou-se num modelo para muitas outras cidades, mas especialmente para a recuperação do resto de Berlim após a queda do muro. Talvez menos democrática, semelhante apenas na forma, é o que se pode ver hoje: uma postura bastante preservacionista, como no velho Mitte, por exemplo Hakesche Höfe, ou no bairro de Prenzlauerberg, e noutros mais (os efeitos gentrificadores são inegáveis, apesar da propalada mistura social daí decorrente, mas não vou discuti-los aqui). Ao mesmo tempo, após a unificação, com vistas a voltar a ser a capital da Alemanha, muitíssimas novas construções foram realizadas, como já mencionei, mais de 300 grandes escritórios de arquitetura aí se instalaram, só que agora, à diferença do IBA, para realizar grandes projetos, como Potsdamer Platz (Renzo Piano, Richard Rogers, Helmut Jahn, Hans Kollhoff, Rafael Moneo etc.), Grandes Magazines, como a Galeria Lafayette (Jean Nouvel), restauração de prédios monumentais (por vezes com intervenção também de arquitetos do star system, como Norman Foster no Bundestag), museus antigos e novos, e assim por diante. Enfim, toda uma arquitetura vistosa que desse a Berlim a imagem e correspondente status de capital e, quem sabe, de mais uma World City, possivelmente de uma capital cultural da Europa.
Hackescher Markt, no velho Mitte de Berlim, restaurado por Götz Bellmann e Walter Böhm, 1996-98
A história de Barcelona é de outra ordem, embora uma grande empreitada de recuperação urbana tenha se iniciado quase contemporaneamente, após o fim da ditadura, coincidindo também com um processo muito rápido de desindustrialização, com enormes áreas degradadas ou esvaziadas. Era necessário transformar a velha Manchester européia num grande centro de “serviços”, com especial enfoque no turismo. Iniciou-se com intervenções pretensamente “modestas” e dentro do espírito que comandou a restauração de Kreuzberg, mas, “alavancada” pelas Olimpíadas de 1992, logo áreas inteiras foram reconstruídas, de forma já não tão modesta...: reurbanização da orla, com uma progressiva privatização da mesma, grandes hotéis, a Vila Olímpica (embora projetada por catalães, de arquitetura diferenciada), museus (com destaque para o MACBA de Richard Meyer em pleno bairro antigo do Raval), teatros, e assim por diante. Se a área urbana desenhada por Idelfonso Cerdá e as amostras de arquitetura “modernista” (Gaudí acima de tudo) ficaram quase intactas, o mesmo não ocorreu com os bairros antigos e com as áreas mais populares, de velhas fábricas e residências de operários, como Poble Nou (onde foi construída a Vila Olímpica e, mais recentemente o distrito 22@, um cluster que se pretende de alta tecnologia, na verdade povoado de torres no estilo mais up to date dos grandes centros empresariais). Embora abrigasse o maior conjunto urbano medieval até então preservado e muitas destas edificações fossem mantidas e restauradas neste período de reconstrução pós-Franco, muitas foram destruídas para dar lugar a Ramblas, praças, Centros Culturais, Universidade etc. Tais intervenções representaram por vezes interferências de grande porte, com a alegação de “humanizar” áreas extremamente adensadas. Onde não havia lugar para o convívio, criaram-se “respiradores” à custa de eliminação de moradias, muitas vezes de quarteirões inteiros e isto num crescendo, como ocorrerá alguns anos mais tarde com a abertura da Rambla no coração do Raval, com seus 18.300 m2, resultante da demolição de 62 edifícios, sem contar os outros 50, contíguos à Rambla, demolidos para dar origem a um plateau que deve reunir um hotel 4 estrelas, projeto de Per Puig (já concluído), associado a um conjunto múltiplo, de habitação, comércio, garagens subterrâneas e, como não poderia deixar de ser, uma instalação cultural, a Filmoteca Nacional – região que até hoje está provocando deslocamentos ou troca de populações e atividades, num redesenho físico e social da região. É verdade que o festival de arquitetura do star system, seguindo o modelo das Cyties mundo afora, se deu especialmente a partir do final do século passado, mas sem a monumentalidade dos prédios que compõem a capital alemã. Se há diferenças na busca das raízes históricas, entre Barcelona e Berlim, ou mesmo na pretensão desta última de ser um grande centro mundial carregado de tradições (por vezes sombrias, diga-se de passagem), não esqueçamos que, guardadas as proporções, a Catalunha também procura afirmar sua identidade diante do mundo e a salvo do domínio espanhol!
Distrito 22@, Barcelona. O bairro fabril de Poble Nou vai se transformando em bairro empresarial
Edifício residencial em Kochstrasse/Friedrichstrasse para o IBA 1987, Berlim. Arquiteto Aldo Rossi
Adalberto da Silva Retto Jr: Aldo Rossi, com o livro Arquitetura da cidade (1966, ed. Alemã, 1973), coloca as bases de uma teoria urbana que entende a cidade como arquitetura, uma estrutura espacial no seu conjunto, no qual a divisão do solo, com os seus “lugares” ou “fatos primários” em sua origem e determinando sua evolução e configuração, representa a imagem da longa história da forma urbana. As posições de Rossi, as planimetrias de Colin Rowe e Fred Koetter (além das análises de Jane Jacobs, Kevin Lynch e Robert Venturi), foram discutidas em Barcelona, assim como em Berlim. Em Berlim, por razões históricas e políticas, essa discussão chegou com quase vinte anos de atraso e somente no final dos anos de 1970, que os arquitetos tornaram-se sensíveis ao contexto histórico da cidade, à sua história e à sua conservação. Como analisar esse descompasso interno na Europa?
Otilia Arantes: É verdade que em quase toda a Europa as teorias do Rossi, aliás, de todo o grupo ligado a Giuseppe Samoná e à Escola de Veneza, tiveram muita repercussão, e que Bolonha dos anos 1960 foi a Meca dos arquitetos e urbanistas em busca de alternativas para a tabula rasa dos modernos. Assim, a revalorização da arquitetura tradicional, preservação dos monumentos, etc. (os vários contextualismos: dos italianos citados, de Bernard Huet na França, de Oriol Bohigas e seu grupo na Espanha – que aliás chegam a se constituir num grupo denominado Tendenza), a concepção de cidade como uma superposição arqueológica de fases históricas (Rowe & Koetter), o urbanismo na escala humana (Jacobs) ou a valorização da arquitetura “comum” (Venturi), é o que dá o tom ao debate daquele período: anos 1960-1980. Aos poucos o pós-modernismo vai trazendo a arquitetura para um primeiro plano, marcando a revanche dos arquitetos sobre os urbanistas e, banindo do seu receituário o lema da “modéstia” (Huet), dará espaço a obras singulares, devidamente assinadas, e cada vez mais extravagantes sobrepondo-se assim a uma visão mais geral da cidade, e, especialmente, de sua história, suas tipologias arquitetônicas, morfologias urbanas, etc. (tão presentes no debate anterior) – em vez de “criar no “criado”, simplesmente “criar”, ou melhor, “inventar” – é o triunfo da “diferença exacerbada” (Koolhaas), do raro, do espetacular, das imagens feéricas, que por sua vez vão servir ao marketing urbano, e assim por diante.
Pode-se dizer que Berlim e Barcelona passaram por ambas as fases, ou combinaram as duas, como se pode deduzir do exposto nas respostas anteriores. Se o debate começou antes em Barcelona, não posso assegurar, mas as lições só foram tiradas a partir dos anos 1980, de forma que não se pode dizer que Berlim, com sua política de preservação de Kreuzberg, tenha chegado com atraso. Aliás, a combinação das duas estratégias talvez se dê até hoje em ambas e a bem dizer foi adotada concomitantemente. Volto a um ponto nevrálgico de um antigo argumento, a saber, a convergência de fundo entre duas tendências que se pretendiam contrapostas: a dos contextualistas e dos empreendedores – convergência objetiva que se expressa na cidade-empresa-cultural, da qual Barcelona e Berlim são bons exemplos.
Sonycenter em Potsdamer Platz, Berlim, 2000. Arquiteto Helmut Jahn
Altes Museum, Berlim, 1928. Arquiteto Karl Friedrich Schinkel
Adalberto da Silva Retto Jr:Três fenômenos de grande amplitude, intimamente ligados, marcaram a afirmação e expansão da sociedade industrial, do século 19 ao início do século 20: a proliferação de museus, as exposições universais e os congressos internacionais. É plausível, portanto, fazer uma comparação com os acontecimentos atuais incluindo a área do urbanismo, apesar de uma clara diferença na escala e problemática das intervenções. Quais são as permanências e rupturas mais evidentes nesse paralelo?
Otilia Arantes: Talvez possamos dizer que estava de um certo modo tudo lá, desde o início, pois tais iniciativas, no campo da cultura, do entretenimento e do turismo, estão ligados, como você mesmo lembra, à expansão da sociedade industrial e acompanham suas diferentes etapas, tanto quanto a concomitante formação de uma sociedade de mercado.
Como se pode comprovar, no que concerne o primeiro caso de proliferação citado por você: os museus. Se a arte não é uma mercadoria, ela é entretanto algo que se pode expor no mercado e ser avaliada em função da demanda, como qualquer mercadoria. E não é por acaso que o aparecimento dos primeiros museus públicos no século 18 – o British Museum (1754) e o Louvre, como Museu da República (1793), deu-se simultaneamente ao das primeiras casas de leilão na Inglaterra e dos Salões de Arte na França. É quando começa a ascensão de uma burguesia que não só passa a ter acesso à cultura, como se constitui numa classe que a reivindica como proprietária, que a vê portanto como um bem de consumo, dando origem aos ditos collectors ou amateurs, sem esquecer dos “intermediários culturais” avant la lettre, os críticos de arte (um exemplo clássico são os “Salões” de Diderot, seguido, no século 19, por Baudelaire e uma sucessão de salonniers). Dito isso, não se pode desconhecer o fato de que a expansão dos museus pela Europa (e posteriormente pelos Estados Unidos) se deve também a um genuíno impulso político “democratizante”, oriundo da Revolução Francesa. Ao que logo se acrescentou, no entanto, associado ao empenho de afirmação cultural local, um concomitante gesto imperial de exibir como um triunfo cultural os despojos da acelerada expansão colonial subsequente. O conjunto embalado no mesmo pacote de celebração da Grande Arte. Mais para o último quarto de século (19), surgem os primeiros grandes marchands – não custa mencionar o mais conhecido de todos, Durand Ruel, responsável pela valorização dos Impressionistas, abarrotando com suas telas os museus e as coleções americanas. Igualmente, e não menos decisivos, os “curadores”. Uns e outros tiveram um papel importante na definição dos parâmetros da história moderna da arte, lembro, a título de exemplo, Alois Riegl, curador de tapeçarias no Museu de Viena que forjou o polêmico conceito de Kunstwollen, ou “vontade das formas” de um determinado período histórico, atribuindo portanto, a mesma importância, por assim dizer, aos objetos considerados artísticos quanto àqueles da vida quotidiana, desconsiderados de um ponto vista pretensamente estético. Mas fui me afastando do foco de sua pergunta. Na verdade – voltando e reforçando meu argumento – a relação arte-mercado tem muito a ver com os museus, são eles os grandes “avalistas”, eles é que fazem ou desfazem reputações. Há mais de dois séculos que a nossa relação com as obras de arte é indiscutivelmente “filtrada” pelos museus. Não por acaso as vanguardas, no início do século 20, como acontecerá novamente com as neo-vanguardas dos anos 60, vão sistematicamente questionar a Instituição Museu, rompendo, por vezes ruidosamente, com os padrões estéticos estabelecidos. Embora boa parte delas, mesmo em suas manifestações mais irreverentes, acabem sendo recuperadas pelos museus, como mais um “botim”, e, portanto, igualmente incluídas no rol das mostras oficiais e das obras cotados em bolsa.
Museu de Arte Contemporânea, Barcelona. Arquiteto Richard Meier
Já os Novos Museus, ditos Pós-Modernos (dando um salto no tempo), se transformaram numa das manifestações mais visíveis da lógica cultural capitalista em regime de acumulação flexível - cenários de uma vida pública inexistente porém alimentando uma sorte de estilo (altamente “produzido” aliás) estético-hedonista de consumo da vida ideológica e material nestes últimos trinta anos. “Estética pós-moderna que celebra a diferença, a efemeridade, o espetáculo, a moda e a mercantilização de todas as formas culturais” (David Harvey) – lugar privilegiado de convívio das diferenças, segundo pretendem autores os mais díspares. Na verdade, um processo de mão dupla, em que à desestetização crescente da arte corresponde uma estetização da vida, sendo a nova “cultura dos museus”, como bem constatou Christa Bürger, uma das expressões mais enfáticas desse processo de estetização. Ao contrário dos Museus Modernos, ainda projetados com intenções didáticas, ou mesmo, já nos 1970 (como o Beaubourg), vindo responder em parte às demandas pós maio de 1968 por democratização da cultura, a partir dos anos 1980, os museus optarão claramente por represar e desviar esse didatismo em favor de uma atitude crescentemente hedonista, a seu ver, requerida pela sociedade de consumo. Estetização aliás presente, em primeiro lugar, onde é mais escancaradamente visível, na própria arquitetura dos museus, arquitetura que cada vez mais se apresenta como um valor em si mesmo, como uma obra de arte, como algo a ser apreciado como tal e não apenas como uma construção destinada a abrigar obras de arte.
Em consequência, reina atualmente uma grande animação no domínio tradicionalmente austero e introvertido dos museus. Entramos neles como num show-room de variedades com cenários espetaculares, sem falar nas demais atrações: atualmente, quem visita os museus dispõe de amplos espaços para a mais desenvolta flânerie, abrigando jardins, passarelas, terraços e janelas que trazem a cidade para dentro do museu – ao mesmo tempo ponto de vista privilegiado sobre o mundo exterior e vida pública em circuito fechado, que conta também com cafeterias, restaurantes, ao lado de ateliês, salas de projeção ou de concertos, livrarias etc. As longas filas que se formam à entrada dessas novas “casas de cultura” nem sempre se devem ao antigo amor à arte, concentrada no acervo do museu, mas a essas múltiplas atrações. Sem contar o sucesso de marketing das Grandes Exposições itinerantes. Portanto: de abrigo das obras a cenários de atividades mundanas – até o mundo fashion invadindo os próprios museus: eventos oficiais, grandes Mostras, desfiles de moda, bailes de máscara, etc. –, é a própria arquitetura que se altera, transformando-se num atrativo a mais, senão o principal. Como já se disse à exaustão: não é mais tão óbvia a diferença entre museus, antes vistos como templos da cultura (as catedrais do século 20, como ainda as designava André Malraux, há meio século atrás) e shopping-centers. Como declara aliás, sem meias palavras James Stirling – o arquiteto responsável pelas ampliações da Neue Staatsgalerie de Stuttgart e da antiga Tate Gallery de Londres: se os museus são hoje em dia lugares de recreação, e as exposições apresentam uma inegável dimensão mercantil, por que tanto escrúpulo, por que economizar no projeto os elementos que podem evocar centros comerciais?
Não por acaso, os Estados nacionais do capitalismo central, mobilizaram o atual star system da arquitetura internacional, no intuito de criar grandes monumentos que sirvam ao mesmo tempo como suporte e lugar de criação da cultura e reanimação da vida pública. Enquanto vão atendendo às demandas de bens não materiais nas sociedades afluentes também vão disseminando imagens mais persuasivas do que convincentes de uma identidade cultural e política, e política porque cultural, da nação ou das cidades, utilizando-os por isto mesmo como “imagens de marca” a atrair atenções e investimentos. Alguns governos, acossados pela crise e pela voga neoliberal, não temeram em ao mesmo tempo restringir o orçamento do sistema previdenciário e investir no campo do culturel em expansão (de retorno seguro e rápido), fundindo publicidade e animação cultural. É o que tem feito deles, como já dissemos aqui, peças importantes da engrenagem das máquinas de crescimento, como passaram a ser vistas as cidades, servindo de isca para os grandes negócios imobiliários, nos processos ditos de “requalificação” urbana. O exemplo extremo foi sem dúvida o Guggenheim de Bilbao.
Abertura oficial da Grande Exposição, Palácio de Cristal, Londres, 1851
Passando para as Grandes Exposições Internacionais: elas mais ou menos reproduzem o mesmo movimento, pelo menos desde a Grande Exposição de 1851, em Londres – que vai se transformar no modelo por excelência das exposições subsequentes –, tendo como tema central a Indústria. Associada, evidentemente, às demais manifestações culturais, dos países centrais aí representados e de seus Impérios (no Palácio de Cristal havia, por exemplo, uma Indian Court, que expunha dos chás às sedas da Índia). A França, inicia 4 anos depois uma série de exposições adotando o mesmo modelo, mas acrescido de um tempero local: a afirmação dos valores republicanos, especialmente na relação capital-trabalho (talvez tenham razão os autores que vêem nestes eventos antes de tudo uma forma extremamente sofisticada de controle social). Impossível aqui detalhar todas elas e seus conteúdos, nem eu teria meios de fazê-lo. A verdade, no entanto, é que tais exposições, que passam a se multiplicar, tem uma função primordialmente econômica explícita (à diferença dos museus), embora sem dúvida também política, não só de afirmação dos valores (e do poderio!) locais frente aos demais países, mas internamente também, ao lançarem mão de todo tipo de atrações e de entretenimento (da arte aos esportes, que logo vão passar a ter os seus eventos exclusivos, especialmente, no caso destes últimos, as Olimpíadas – volto a elas logo adiante) para reforçar o sentimento de nacionalidade. Esses traços nacionalistas vão se acentuar no entre guerras, num primeiro momento, associados ao esforço de reconstrução dos países atingidos pela Primeira Grande Guerra, logo a seguir, como afirmação autoritária e xenófoba dos países totalitários, com a ascensão do nazi-fascismo, ou mesmo do stalinismo (a Exposição Internacional de Paris de 1937, em pleno Trocadero, terá, ladeando o Palais de Chaillot, construído no lugar do antigo Palais du Trocadero expressamente para o evento, e face a face enquadrando a Tour Eiffel – resquício, como se sabe, da grande Exposição de 1889, centenário da Revolução – os dois pavilhões monumentais: o pavilhão nazista, projetado por Albert Speer, encimado por uma “vistosa” águia alemã, e, em frente, o da URSS, com uma escultura, não menos monumental, de dois trabalhadores do campo, empunhando uma foice).
Depois da Segunda Guerra Mundial tais exposições mudam a forma, sem perder evidentemente a dimensão política, mas se voltando cada vez mais para o mercado, em geral elegendo “temas” ligados aos avanços da ciência e da tecnologia de produção, ainda povoadas de pavilhões de diferentes países, mas agora numa competição interna, seja quanto às especificidades e virtualidades locais, seja na demonstração de maior competência nas áreas-tema – da tecnologia de ponta aos usos da natureza, meio ambiente e sustentabilidade (que aliás vem sendo a tônica, ao menos desde Lisboa 1998, sobre OsOceanos, ou Hannover 2000, Humanidade, natureza e tecnologia - origem de um novo mundo; e, mais recentemente, Xangai 2010, Better city, better life) –, ao mesmo tempo que pretendem estar propiciando, às cidades-sedes “ocasionais” (para voltarmos ao início desta entrevista), a possibilidade de entrarem no circuito das “cidades à venda”. Mais um ingrediente portanto nas estratégias de desenvolvimento urbano.
Não saberia o que dizer dos Congressos, embora, em parte, associados a esses mesmos eventos a que nos referimos. Sabemos que existem todos os tipos de Congresso, e que aqueles que nos dizem respeito mais de perto, ou seja, os acadêmicos, também sofreram a mesma inflexão mercantil, expressa aliás na contabilidade dos currículos... Mas paro por aí.
Parque do Fórum das Culturas, Barcelona, 2004
Palácio dos Esportes San Jordi, Olimpíadas de 1992. Arquiteto Irata Isosaki
Adalberto da Silva Retto Jr: Na sequência, o que a Sra. teria a dizer sobre as Olimpíadas, visto que foi um evento importante no processo descrito sobre Barcelona? E, como no Brasil, grandes eventos estão ocorrendo e outros serão realizados, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, quais são as consequências possíveis, positivas e negativas, que podem ocorrer nas cidades brasileiras, quando comparadas a exemplos já existentes?
Otilia Arantes: Como disse, as Olimpíadas, retomadas em Atenas, em 1896, tanto quanto a Copa do Mundo, no início do século 20, estarão, durante quase 50 anos, associadas às Grandes Exposições, talvez, segundo John MacAloon , como fruto natural dos novos símbolos e rituais inaugurados por estes festivais/espetáculos de eventos internacionais, devotados ao progresso da ciência, arte e indústria, e portanto à “inventividade”, da qual os jogos atléticos se apresentariam como expressões privilegiadas – algo como o “espírito esportivo” da modernidade (num paralelo com a religião enquanto “espírito do capitalismo”, na interpretação de Weber). Com a ascensão dos regimes totalitários de entre-guerras, no entanto, as Olimpíadas vão se transformando num espetáculo político de massa, revivendo sua origem ancestral: a exibição coreografada do aparato militar de dominação (como não hesita em afirmar Maurice Roche, antes de evocar o reencantamento bastardo do mundo como uma das características primordiais destes mega-eventos performáticos). O que vai culminar na Olimpíada de Berlim, em 1936. Se, depois da Guerra, estes espetáculos vão ganhando cada vez mais autonomia, não deixam de ser a expressão maior do poderio e da performance dos países ou cidades-sedes, no fundo replicando a espetacularidade, associada à disciplina de origem militar destes eventos. Portanto, permanência da matriz de 1936, mas agora combinada ao “espírito dos negócios”, pelo menos a partir da gestão do COI por Samaranch (de 1980 a 2001), figura de destaque do franquismo, responsável por transformar as Olimpíadas, de evento em geral deficitário (como ocorreu com Tóquio, Montreal, Munich, Moscou e Los Angeles), num empreendimento altamente lucrativo, através do recurso aos patrocínios e à mídia encarregada da transmissão dos jogos. Já então “o espírito esportivo”, de que falávamos, passa a funcionar cada vez mais na alavancagem da reprodução do capital, e, os eventos esportivos, como verdadeiros meganegócios, especialmente os ligados à FIFA e ao COI. A marca Olimpíadas vai assim ser explorada tanto pelas empresas (de natureza as mais variadas, mas especialmente as da mídia), quanto pelas cidades, que, obedecendo ao standard fixado pelo Comitê para uma cidade Olímpica (na verdade, sua transformção num grande Parque temático) com seus equipamentos, arquitetura, infraestrutura viária e turística, etc., pretendem atrair capitais e competir internacionalmente como um centro urbano capaz de oferecer vantagens especiais aos investidores, transformando-se portanto num importante ingrediente nas políticas de city marketing.
Estádio Olímpico de Pequim, o "Ninho de pássaro", com tocha olímpica ao fundo. Arquitetos Jacques Herzog e Pierre De Meuron
As Olimpíadas passariam assim, após esse remanejamento empresarial de Samaranch, a ser vistas também, e de forma privilegiada, como uma “alavanca” fundamental às máquinas de crescimento urbano (ainda uma vez), ou seja, se transformam em instrumento importante para ativar os grandes negócios urbanos – não por acaso Barcelona adota o Planejamento estratégico, de matriz empresarial, às vésperas das Olimpíadas. O que, na verdade, não redunda obrigatoriamente em benefícios, inclusive financeiros, para a cidade-sede, nem mesmo no caso tido como o mais bem sucedido de todos, Barcelona 1992 (como tento mostrar nesse meu último livro). Independentemente das intenções dos que, na prefeitura, apostavam num urbanismo “cidadão” e advogavam uma gestão que contemplasse as verdadeiras necessidades de seus habitantes, o que vimos acontecer, em parte pela urgência de obedecer às exigências impostas pelo Comitê Olímpico (afinal foi Samaranch que conseguiu a vitória de Barcelona na competição por sediar os jogos) e a necessidade de fazer da cidade tanto um grande centro esportivo, quanto atraente aos investidores e turistas, obrigou-os a mudar na mesma escala o diálogo urbano, passando a negociar diretamente com os grandes operadores: “operações urgentes que deveriam eludir as mais lentas e conflitivas, com os pequenos operadores e com as reivindicações sociais”, como observa Josep Maria Montaner. Logo, as parcerias público-privadas foram assumindo um papel preponderante, nos moldes que se sabe: fundos públicos e ganhos privados; a tal ponto que, acabadas as Olimpíadas, o déficit público da cidade era superior ao total que ela poderia arrecadar em um ano (de acordo com historiadores do período) e muitas das obras sequer tinham sido concluídas, arrastando-se até quase o final da década. Um novo evento foi imaginado para novamente gerar investimentos e atrair mais turistas, o Fórum das Culturas, de 2004, cujo sucesso foi ainda menos significativo do que o do anterior – os tempos afinal já eram outros, nada tinham a ver com o boom econômico resultante da entrada no Mercado Comum Europeu, na década de 80, e que ajudou a patrocinar as Olimpíadas e outras tantas iniciativas similares, naquele mesmo ano de 1992, como a Feira industrial de Sevilha, Madri Capital Cultural da Europa, dentre as comemorações do Quinto Centenário do descobrimento das Américas. De qualquer modo, os investidores não deixaram de comparecer, Hines à frente, cercando a praça do Fórum, com shoppings, Hotéis e outros empreendimentos rentáveis.
Nada diferente está acontecendo ou vai ocorrer no Brasil, apenas com consequências mais desastrosas, dadas as condições sociais e econômicas do país, ou a total inexistência de infra-estruturas para por em funcionamento uma máquina como esta, tanto que já recebemos vários pitos e ameaças de retirar do Brasil seja a Copa, seja a Olimpíada. Só os gastos com os Estádios para a Copa já são um despropósito sem paralelo – nem a catástrofe que foi a da África do Sul teve a intensidade da que está ocorrendo entre nós. Desnecessário comentar, nestas alturas, fatos cuja aberração já esteve na pauta dos protestos durante as jornadas de junho, e que, com certeza, devem se intensificar até as Olimpíadas do Rio de Janeiro. A respeito de tudo isso há grupos de estudos em toda parte, para não falar dos comitês populares, igualmente estudiosos e combativos, especialmente no Rio de Janeiro, com dados precisos e de que não disponho. Confesso que já não tenho mais idade e ânimo para uma pesquisa detalhada que possa acrescentar algo ao que já vem sendo dito, até nas ruas...
Arena Mineirão para a Copa do Mundo de 2014, Belo Horizonte, 2012. BCMF Arquitetos / Bruno Campos, Marcelo Fontes e Silvio Todeschi
Otilia Arantes em Seminário sobre Arte/cidade, com os atores da Cia. São Jorge de Variedades, 2010
Otília Beatriz Fiori Arantes
Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1961), mestrado em Filosofia pela Universidade de São Paulo (1968), doutorado em Filosofia - Universite de Paris I (Pantheon-Sorbonne) (1972) e Livre docência pela USP (1992)
Atualmente é professora aposentada da Universidade de São Paulo, onde ministrou cursos, especialmente na área de Estética, no Departamento de Filosofia e na FAU (graduação e Pós-graduação). Presidiu o Centro de Estudos de Arte Contemporânea (1979 a 1992). Publicou vários ensaios, livros e capítulos de livros, dentre os quais, pela Edusp: O lugar da arquitetura depois dos modernos (1993), Urbanismo em fim de linha (1998), Chai-na (2011); em colaboração com Carlos Vainer e Ermínia Maricato, A cidade do pensamento único (ed. Vozes, 2000). Seu último livro publicado foi Berlim e Barcelona, duas imagens estratégicas (Annablume, 2012).
Adalberto da Silva Retto Júnior
Atua como Professor de Desenho Urbano e História do Urbanismo na Universidade Estadual Paulista Unesp e como Professor Visitante no Master Erasmus Mundus TPTI (Techiniques, Patrimoine, Territoire de l Industrie: Histoire, Valorisation, Didactique) da Universitè Panthéon-Sorbonne Paris I, na Universidade de Évora; Possui Pós-doutorado no Doutorado de Excelência do Istituto Universitario de Arquitetura de Veneza Italia (2007); Doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitario de Arquitetura de Veneza (2003).
Geise Brizotti Pasquotto
Colaborou na entrevista, tanto na discussão que estabeleceu o enfoque da entrevista, como na revisão final do texto publicado. Atua como professora nos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Desenho Industrial na Universidade Paulista - Unip em Campinas. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Unesp Bauru (2006), mestre na área de Arquitetura e Construção pela Unicamp (Edifícios culturais e a reabilitação de áreas centrais: o Complexo Cultural Teatro da Dança de São Paulo, 2011); e Doutoranda em Planejamento Urbano e Regional pela Usp São Paulo.
Sobre a entrevista
Embora destinada ao portal Vitruvius, foi realizada como parte do material didático do curso “A dimensão paisagística no projeto da cidade contemporânea: um itinerário de estudo nas cidades de Berlim, Barcelona e Atenas”.