português O Portal Vitruvius entrevista os sete jovens arquitetos gaúchos que venceram os concurso nacional para a Nova Biblioteca da USP. Na conversa, eles se apresentam, falam de suas perspectivas para o futuro e discutem sobre seu projeto vencedor.
como citar
Francesco Perrotta-Bosch.
“Entrevista com Camila Thiesen, Angélica Rigo, Cássio Sauer, Diogo Valls, Elisa Martins, Jaqueline Lessa e Lucas Valli”.
Vitruvius entrevista, ed. 14.055. 2013.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/14.055/4836
Nova Biblioteca da USP, vazio interno
Na noite de 12 de agosto, dezenas de escritórios de arquitetura estavam na expectativa das notícias a serem transmitidas no aristocrático Salão Nobre na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco. O concurso para a nova Biblioteca da Universidade mobilizou parte considerável da classe arquitetônica e fomentou diversas discussões nos últimos meses.
Das 114 equipes que se inscreveram, 96 trabalhos foram entregues, índice alto, considerada a média dos concursos nacionais de arquitetura. O júri responsável pela seleção dos premiados era um dos mais respeitáveis que se teve em seleções do gênero nos últimos anos. Era grande o respaldo dos tantos arquitetos que se propuseram a pensar este importante futuro equipamento público da cidade de São Paulo, sabendo que a escolha seria feita por pessoas tão experientes e consagradas como Eduardo de Almeida - que fez um notável discurso introdutório nessa cerimônia de divulgação -, Renata Semin, André Vainer, José Oswaldo Vilela e Marcelo Morettin.
Após os discursos dos responsáveis pela promoção e organização do concurso, iniciou-se a apresentação dos projetos selecionados e a abertura dos envelopes com os nomes dos premiados. Começou com um destaque, seguiu com três menções honrosas - a cada equipe anunciada, percebia-se que menos arquitetos premiados do que era de se esperar estavam presentes no salão -, prosseguiu com terceiro, segundo e anuncia-se: a vencedora é Camila da Rocha Thiesen! Grande parte dos presentes deve ter se perguntado no mesmo instante: quem é Camila da Rocha Thiesen?
Depois de olhar em torno e ter certeza de que ela não estava ali, veio a informação, seguinte aos nomes dos coautores, de que a equipe era de Porto Alegre. Ato contínuo, comentei com a amiga sentada ao meu lado que achava não ser o nome da arquiteta do Studio Paralelo. Naquele momento, confesso não ter lembrado outro escritório gaúcho que poderia ser o responsável. Celulares e tablets à mão: caro Google, quem é Camila da Rocha Thiesen? Minutos após, a mesma amiga sentada ao lado me envia um SMS: "Metropolitano Arquitetos é o escritório do 1º lugar". Mistério desvendado em parte.
A curiosidade para saber quem eram os sete integrantes permaneceu já que não eram muitas as informações disponíveis na internet sobre eles. Na manhã seguinte, enviei uma mensagem via facebook para Camila, pedindo para realizar esta entrevista. Hora depois, a jovem arquiteta responde aceitando o convite. Durante três dias, troquei emails com os sete autores. Nas páginas que se seguem, o portal Vitruvius tem o prazer de apresentar os arquitetos dos escritórios Metropolitano Arquitetos, arquitetura pela rua e studioLAM, que serão os responsáveis pela Nova Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.
Nova Biblioteca da USP, fachada
Atrás, Cássio Sauer, Lucas Valli, Diogo Valls e Jaqueline Lessa; à frente, Elisa Martins, Camila Thiesen e Angélica Rigo.
Francesco Perrotta-Bosch: Em que faculdade vocês se formaram? Quando? Que fatos consideram relevantes no período de formação: intercâmbios, pesquisas acadêmicas, concursos para estudantes, estágios?
Camila Thiesen: Formei-me não faz muito tempo, foi no segundo semestre do ano de 2011, pelo Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter). Acho que estagiar em bons escritórios, fazer intercâmbio e participar de workshops nacionais e internacionais tiveram um grande peso, aliado ao ensino da faculdade.
Fiz estágios ao longo de toda a faculdade e sempre prezei por escritórios que eu acreditava ter um portfólio com trabalhos de boa qualidade arquitetônica. Estagiei em cinco escritórios, cada um com um objetivo diferente de aprendizado. Fui de interiores ao restauro. A maioria desses escritórios participava de concurso também, o que me fez “pegar gosto pela coisa”. Depois de formada, antes de abrir o meu próprio escritório, trabalhei em um sexto escritório.
Os workshops serviram para ter uma vivência intensa, sempre com a duração de uma a duas semanas, em Porto Alegre mesmo ou em outra cidade, como São Paulo. Neles se tem um tema para desenvolver um projeto com participantes de diferentes partes do Brasil e do mundo. Geralmente o assunto do workshop não é o abordado nas cadeiras da faculdade e as pessoas que tu conheces não são as mesmas com quem tu convives no período de aulas. Então, fora a tensão do curto período para desenvolver muito trabalho, são só ganhos.
Durante o período da faculdade sempre tive vontade de repetir a experiência de fazer intercâmbio, que tive na época do colégio. Acabei deixando para o final do curso. Então, fiz uma espécie de trabalho de conclusão “sanduíche” na Faculdade de Arquitetura de Montevidéu (Udelar). Ou seja, assessorava meu projeto de conclusão na faculdade de Porto Alegre e no Uruguai. A experiência foi muito válida. As duas faculdades têm perfis diferentes e demonstravam visões distintas sobre meu projeto. Aprender a lidar com essas diferenças foi difícil, mas fez meu trabalho ganhar força no final do semestre. O trabalho que desenvolvi no período de diplomação também era de reuso de um prédio existente e a escolha recaiu em transformá-lo na Biblioteca Estadual do Estado do Rio Grande do Sul - o que, de certa forma, me ajudou um pouco no concurso da Nova Biblioteca de Direito da USP, pois envolvia o mesmo tema e programa, apesar de estarem em situações distintas.
Diogo Erdmann Valls: Graduei-me em Engenharia Civil em 2007 e, em Arquitetura e Urbanismo, em 2012.
Cássio Sauer: Sou arquiteto formado pela UFRGS/2009, com intercâmbio na Faculdade de Arquitetura do Porto/FAUP 2007-08, e pós-graduação em Geografia, Cidade e Arquitetura pela Escola da Cidade/2012. Durante a faculdade estagiei com os arquitetos Paulo Almeida e Eliane Sommer, em Porto Alegre.
Elisa Toschi Martins: Sou arquiteta pela UFRGS/2009, com intercâmbio na Faculdade de Arquitetura do Porto/FAUP 2007-08. Fiz pós-graduação em Gerenciamento de Projetos pela FGV/2012. Atualmente faço mestrado em arquitetura na UFRGS.
Durante o período de faculdade, estagiei na construção da nova sede da Fundação Iberê Camargo, com a supervisão do Eng. José Luiz Canal e do Museu da Língua Portuguesa, com Pedro Mendes da Rocha. Tendo colaborado nos escritórios de Álvaro Siza, em Portugal, e Studio Paralelo, em Porto Alegre. Em 2010, recebi o prêmio Ópera Prima.
Angélica Magrini Rigo: Fiz o curso de Arquitetura e Urbanismo na UFRGS, entre 2004 e 2011. Nesse meio tempo, realizei intercâmbios na Universidad de la Republica de Montevidéu e no Instituto Superior Técnico de Lisboa; ambos foram essenciais para a minha formação. Outras atividades com as quais aprendi muito foram os estágios em escritórios de arquitetura e de urbanismo e um período de pesquisa no laboratório de estudos urbanos da faculdade onde me formei.
Lucas Valli: Cursei Arquitetura e Urbanismo na UniRitter de Porto Alegre, entre 2005 e 2011, e, no primeiro semestre de 2009, no Uruguai. Durante a formação procurei entender realmente a profissão, buscando estágios em todas as áreas possíveis. Comecei em uma empresa de engenharia, no final do primeiro semestre da faculdade, depois trabalhei em um escritório de arquitetura efêmera, em seguida em um escritório que desenvolvia projetos para construtoras e também trabalhavam com interiores e, por último, no escritório3C Arquitetura e Urbanismo, no qual pude participar de projetos de diversos tipos e escalas, como plano diretores, parques, reformas, projetos de restauro, edificações, etc. Em paralelo, durante toda a faculdade, trabalhava com projetos de visualização arquitetônica.
Em 2009 fiz um intercâmbio com a Universidad de la Republica (Udelar), no Uruguai. Esse semestre foi, sem dúvida, o período de maior aprendizado durante o meu processo de formação. Lá, em uma realidade completamente diferente, há uma dedicação total por parte dos arquitetos e uma qualidade inquestionável na produção arquitetônica.
Participei de alguns cursos, concursos e workshops como estudante, mas acredito que, além da faculdade, os estágios - que me orientar na escolha do melhor caminho - e uma experiência de intercâmbio foram fatores decisivos na minha formação como arquiteto.
Jaqueline Lessa: Sou graduanda da FAU - PUCRS, fiz intercâmbio na Faculdade de Arquitetura de Lisboa - FAUTL no período 2010.2011. Acredito que as viagens de estudo, o intercâmbio entre estudantes e profissionais de realidades diversas e a colaboração em escritórios com trabalhos de boa qualidade arquitetônica foram determinantes para a complementação da formação acadêmica.
Francesco Perrotta-Bosch: Que professores ou mesmo arquitetos de fora do meio acadêmico foram determinantes nesse período?
Camila Thiesen: Duas pessoas em especial marcam minha trajetória acadêmica.
Uma delas é a arquiteta Helena Karpouzas. Minha professora em algumas cadeiras de projeto no UniRitter, minha orientadora de TFG e minha ex-chefe.
A outra pessoa são na verdade três: Luciano Andrades, Silvio Lagranha e Rochelle Castro, do escritório Studio Paralelo, onde estagiei.
Com todos eles reafirmei o gosto pela boa arquitetura, saber enxergar oportunidades e encarar as adversidades que aparecem na nossa profissão. Eles foram, praticamente, propulsores do meu potencial. Viam que podia ir além. Desafiavam-me a ser melhor e a correr atrás dos meus objetivos.
Não quero ser injusta com os demais arquitetos que estiveram por perto ao longo da minha formação, ao apontar esses nomes, mas são as pessoas a quem recorro até hoje, já profissional, como se fossem uma espécie de gurus. E eu, a pupila deles.
Cássio Sauer: O intercâmbio em Portugal, os estudo em São Paulo, as constantes viagens de estudos e a colaboração em escritórios nacionais e internacionais foram determinantes para o desenvolvimento de projetos próprios.
Angélica Magrini Rigo: Meu aprendizado foi influenciado por um conjunto de profissionais, arquitetos ou não. Não há um que se sobressaia a todos.
Lucas Valli: Alguns professores tiveram grande importância nesse período, como o ex-professor da Uniritter Paulo Cesa Filho, pela sua entrega à arquitetura; Daniel Pitta Fischmann, referência para mim durante toda a formação; Leonardo Marques Hortencio e Tiago Holzmann da Silva, professores e amigos com quem também tive o privilégio de trabalhar e Maria Isabel Milanez, por ser a minha mentora e motivadora enquanto estudei fora. No intercâmbio poderia citar dois grandes professores titulares do TallerDanza (ateliê de projeto da UDELAR): Andrés Gobba e Sergio Barreto.
Francesco Perrotta-Bosch: Como se deu o processo de transição entre a universidade e a prática profissional, com a abertura do próprio escritório?
Camila Thiesen: Uma vez formada, saí em busca de escritórios onde pudesse trabalhar. Se não conseguisse a vaga na minha cidade, teria ido fazer algum mestrado fora do Brasil ou ido morar em São Paulo, em busca de oportunidades nos escritórios de lá.
Fui contratada no escritório Arquitetura Nacional, e depois de três meses, recebi um convite, de um colega de faculdade, para abrirmos um escritório próprio. Assim, surgiu o Metropolitano Arquitetos em 2012. O escritório foi montado na mesma casa onde o Studio Paralelo tem seu escritório. A convivência diária com outros arquitetos no mesmo local é muito positiva. Foi daí, também, que surgiu a nossa equipe do concurso para a nova Biblioteca de Direito da USP. Das amizades de dentro dessa casa, chamada Coletivo. A maioria dos integrantes da equipe teve passagem pelo Studio Paralelo (eu, Elisa, Diogo e Jaqueline).
Diogo Erdmann Valls: Atuei como colaborador e engenheiro estrutural na Vanguarda Sistemas Estruturais Abertos 2003-2010. No ano seguinte, atuei como colaborador no Studio Paralelo, entre 2010 e 2012. Simultaneamente, desenvolvo projetos estruturais para diversos escritórios gaúchos. Paralelo a estas atividades tenho interesse na área de tecnologia da informação. Em 2012, desenvolvi o Primaverah, uma plataforma social premiada pelo Centro de Inovação Tecnológica da PUCRS, que consiste em uma ferramenta web de comunicação entre estudantes de arquitetura. A transição se deu de forma natural, com a recente abertura do studioLAM.
Cássio Sauer: Em 2009, após nos formarmos, eu e a Elisa optamos por criar um escritório. A vontade de ampliar o conhecimento profissional nos motivou a trabalharmos também em outros escritórios e desde lá O arquitetura pela rua tem funcionado concomitantemente com períodos de práticas profissionais em São Paulo e no Chile. Eu colaborei com o Elemental, no Chile, em 2011 e, no ano seguinte, com a Triptyque, em São Paulo. Sempre mantendo trabalhos em paralelo em Porto Alegre.
Elisa Toschi Martins: Neste período, colaborei com o Bernardes & Jacobsen, entre 2010 e 2012, como parceiros locais do projeto de Herzog & de Meuron para o Complexo Cultural Luz.
As experiências nestes escritórios, somadas às experiências de tempos de faculdade têm sido fundamentais para o acréscimo de qualidade ao trabalho próprio. A participação em concursos tem sido outro ponto importante para o desenvolvimento do escritório, tendo sido premiada em 2010, finalista no Concurso YouthandWomenLeadership Center - RJ/ Architecture for Humanity.
Angélica Magrini Rigo: Depois de formada, me afastei um tempo para trabalhar num voluntariado, mas, em seguida, comecei a trabalhar em escritórios de urbanismo e arquitetura.
Lucas Valli: Não foi fácil optar por abrir um escritório logo após a formatura, mas o processo foi natural, uma vez que este era o nosso sonho. Decidimos nos arriscar, mesmo sabendo o quão difícil seria no início.
Jaqueline Lessa: O Studio LAM é uma prática recente, vem acontecendo simultaneamente ao período de graduação e colaboração no Studio Paralelo.
Nova Biblioteca da USP, acesso
[os entrevistados responderam conjuntamente as seguintes questões]
Francesco Perrotta-Bosch: Para além do meio acadêmico no qual se formaram e desse espaço compartilhado por diferentes escritórios de arquitetura, como vocês observam o meio arquitetônico de Porto Alegre e a qualidade dos edifícios e de cidade que estão sendo construídos?
Todos: Porto Alegre, assim como a maioria das metrópoles brasileiras, vem sofrendo um período de crescimento desordenado, gerado principalmente pela especulação imobiliária. A qualidade dos projetos e da construção, em sua maioria, é muito baixa, acarretando em uma desvalorização da arquitetura como disciplina e gerando na cidade uma produção desvinculada do contexto urbano.
Apesar disso, e mesmo tendo uma produção arquitetônica muito menor do que a de centros urbanos como São Paulo, Porto Alegre tem mostrado, nos últimos anos, uma geração de jovens arquitetos preocupados com o desafio de intervir na cidade existente e com a relação e uso dos espaços públicos, buscando também soluções construtivas alternativas e inovadoras, a fim de reaver a qualidade construtiva e eficiência das edificações que foram deixadas de lado pelo mercado imobiliário.
FPB: Analisando mais amplamente a realidade da profissão no Brasil, como vocês enxergam as perspectivas para um escritório de arquitetura novo e fundado por arquitetos recém-formados?
Todos: A falta de empregos formais em arquitetura no mercado e o relativo crescimento econômico possibilitam que surja um maior número de escritórios novos, formados por profissionais jovens. A realidade profissional, porém, é bastante difícil para quem está começando. A falta de reconhecimento da profissão e a dificuldade de executar os projetos tornam a tarefa de manter um novo escritório ainda mais complicada. Mas, acreditamos que há espaço e oportunidades, principalmente através do trabalho colaborativo entre escritórios e uma visão multidisciplinar da profissão.
Nova Biblioteca da USP, subsolo
[os entrevistados responderam conjuntamente as seguintes questões]
Francesco Perrotta-Bosch: De que maneira o fato de vocês terem ganho esse concurso modifica suas perspectivas pessoais?
Todos: Participar de um concurso é uma oportunidade muito importante na prática profissional, pois propicia o acesso a projetos significativos e possibilita trabalhar com questões que nos interessam desde a proposta do edital, além de nos proporcionar uma maior visibilidade. Acreditamos que este projeto em específico relaciona temas muito atuais de transformação de uso e adaptação de um espaço existente, que vão além do programa da biblioteca, conceitos fundamentais para o desenvolvimento de futuros projetos.
FPB: Tendo em vista que muitos de vocês trabalham em escritórios distintos, como vocês descreveriam o processo de pesquisa e elaboração nesse encontro de vocês sete durante o período do concurso da Nova Biblioteca?
Todos: A participação de vários escritórios em um mesmo nível de hierarquia foi bastante interessante para o desenvolvimento do projeto. Foram aproximadamente dois meses de trabalho em conjunto, no qual os escritórios formaram uma equipe. O fato de serem sete arquitetos autores, com formações e referências diferentes, se mostrou produtivo, pois desde o início trouxe várias interpretações de como o projeto poderia ser resolvido. As diferentes formas de abordar o tema e estratégias de intervenção, trazidas por cada escritório, foram exaustivamente discutidas a fim de que fossem selecionadas as soluções mais eficazes dentro do conjunto do projeto. Acreditamos que esse processo de discussão, com diferentes pontos de vista, foi muito importante para qualificar a proposta.
Nova Biblioteca da USP, sala de leitura
Nova Biblioteca da USP, terraço
[os entrevistados responderam conjuntamente as seguintes questões]
Francesco Perrotta-Bosch: Quais foram as principais questões e referências que nortearam a concepção do projeto?
Todos: As principais questões trabalhadas na concepção no projeto foram relacionadas à importância do programa proposto - tanto para a Faculdade de Direito e seus alunos, professores e comunidade acadêmica em geral, como para o entorno urbano - e à necessidade de propor uma arquitetura contemporânea em um meio urbano histórico, marcado por arquiteturas significativas de várias épocas.
Também podemos citar a preocupação com a viabilidade construtiva da proposta, que foi constantemente questionada pela equipe, a fim de conseguirmos compor um projeto racional e exequível, que tirasse o máximo proveito da estrutura e infraestrutura existentes, renovando-as para atender as demandas de funcionamento e de espacialidade requeridas pela mudança de uso e pela importância do programa. Buscou-se desde o princípio o posicionamento de um núcleo de serviços definido e compacto, que pudesse garantir a máxima flexibilidade de uso dos pavimentos e que proporcionasse a maior integração entre os setores de leitura e de acervo. Também houve preocupação em estudar como abrigar e dispor o acervo existente, e, além disso, como o edifício poderia comportar a expansão do mesmo, sem, no entanto, prejudicar a espacialidade da biblioteca.
A intenção de propor um edifício mais aberto à cidade e acessível ao cidadão em si foi trabalhada também com a disposição dos programas de uso público contíguos à rua, proporcionando acesso mais amplo aos programas culturais oferecidos pela Biblioteca, assim como a loja e o café.
FPB: De que maneira vocês visam analisar a recomendação do júri para uma revisão da proposta de conexão entre a biblioteca e o edifício histórico da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco?
Todos: Precisamos, primeiro, entender melhor as reais necessidades da conexão por parte da Faculdade.
FPB: No dia da premiação, algumas pessoas, ao analisar o projeto, encontraram relações formais na solução de tratamento da fachada para a biblioteca com a proposta do SANAA para a Samaritaine de Paris. Vocês veem fundamentos nessa comparação?
Todos: O projeto do SANAA para a Samaritaine não foi uma referência para a proposta. Entretanto, a estratégia de intervenção no edifício do Anexo IV se mostra bastante semelhante às adotadas pelo SANAA, principalmente no que diz respeito à intenção de conservar o edifício existente, sua volumetria, porém intervindo fortemente no que se refere aos usos e às relações interior x exterior. A fachada proposta proporciona uma nova relação com a cidade, evidenciando uma situação ao mesmo tempo de diálogo e contraste com os demais edifícios do entorno. Neste ponto, os projetos se mostram semelhantes.
Na proposta para a Biblioteca, era muito importante que a fachada funcionasse não só como um elemento novo de intervenção, um elemento marcante no contexto urbano, mas que fosse extremamente funcional, qualificando o espaço interior, como um filtro da luz natural.
FPB: O júri, em sua ata, fez uma menção especial a “distribuição de vazios que orientam e criam identidade e diversidade dos lugares – com diferentes momentos” dentro da proposta projetual elaborada por vocês. Comparando com outros concorrentes, inclusive os premiados, sobressai a escolha que fizeram por interromper o vazio relativo ao antigo prisma de variação e criando novos vazios internos em distintos trechos da edificação a partir do recorte de lajes existentes. Como vocês chegaram a essa variação espacial? E como vocês a justificam enquanto virtude?
Todos: Este foi um ponto chave de discussão desde o princípio de desenvolvimento da proposta, pois acreditávamos que o vazio central teria esta potencialidade de articulação entre os dois blocos originais do edifício assim como entre os pavimentos.
Atualmente, o edifício está dividido em duas partes devido à existência de um poço de luz. Para o funcionamento do programa, esta separação não nos parecia fazer sentido, pois setores como a administração não seriam beneficiados por este elemento. Além disso, as proporções originais do vazio não agregavam qualidade espacial ao edifício.
Sua articulação possibilitou o rompimento da rigidez da planta, proporcionando espaços variados e momentos diferentes no edifício, de acordo com a disposição do programa – difícil, aliás, em prédios em altura como este.
A decisão de interromper o vazio nos pavimentos de administração e das salas fechadas de leitura em grupo e individual potencializou o funcionamento programático destas áreas. A ocupação eventual do vazio nos permitiu, além de ganhar áreas importantes de convívio e leitura, a possibilidade da criação de espaços mais diversificados e proporcionais.
A intenção de fazer recortes nas lajes, principalmente junto à fachada, era de fazer com que a luz natural entrasse e alcançasse mais área interna do edifício. Além disso, criar uma espacialidade maior entre os pavimentos através do pé direito duplo. Assim criaram-se momentos de descompressão com pé direito mais amplo e entrada de luz, proporcionando espaços diferenciados de leitura e estar com diferentes sensações aos usuários.
Francesco Perrotta-Bosch é arquiteto e ensaísta. Foi editor assistente do portal Vitruvius entre 2012 e 2014. Vencedor do Prêmio de ensaísmo da revista Serrote em 2013, com o texto "A arquitetura dos intervalos". Coautor do livro Entre: entrevistas com arquitetos (Viana e Mosley, 2012). Pesquisador da X Bienal de Arquitetura de São Paulo,em 2013. Colaborou com os escritórios de Christian de Portzamparc e SIAA.
Entrevista
A entrevista foi realizada via email durante os dias 13 a 15 de agosto de 2013.