português Entrevista com o professor português Duarte Cabral de Mello abordando sua trajetória como crítico e acadêmico
español Entrevista con el profesor portugués Duarte Cabral de Mello se acerca su carrera como crítico y académico
como citar
M. Piedade Ferreira.
“Entrevista com Duarte Cabral de Mello”.
Vitruvius entrevista, ed. 14.055. 2013.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/14.055/4830
Duarte Cabral de Mello, Elia Gutiérrez Mozo e João Cabral, VII Bienal Iberoamericana de Arquitetura e Urbanismo, Lisboa, 2008
Conheci Duarte Cabral de Mello em Madri, em novembro de 2007. Ambos éramos membros do Júri de Projetos de Pesquisa da VI Bienal de Arquitetura e Urbanismo que se realizaria em Lisboa, Portugal, na primavera de 2008. Além disso, Duarte foi o presidente da Associação Francisco d'Ollanda, articulando o convênio que viabilizou o evento e, para tanto, ele foi o Diretor Executivo do VI BIAU. Por parte do Ministério da Habitação do governo da Espanha, eu atuava como Coordenadora Geral.
Organizar Bienais Ibero-americanas não é tarefa fácil, dada a variedade de linhas de trabalho que incluem: obras, publicações, pesquisas, concursos, mostras, etc, além de catálogos, exposições, programas acadêmicos... e um grande número de pessoas envolvidas nos dois lados do Atlântico.
Então, trabalhamos duro tanto em Portugal como na Espanha, para concluir com êxito o VI BIAU em circunstâncias difíceis e anunciando a crise em que estamos imersos hoje. No entanto, lembro-me muito agradavelmente porque tive a sorte de contar com o apoio incondicional, a inteligência, a generosidade e o bom humor de Duarte, sempre.
Sobre este trabalho "ombro a ombro" e uma corrente torrencial de simpatia mútua que fluiu desde o primeiro momento, cimentamos uma amizade que foi crescendo nesse curto porém intenso período até sua morte.
Duarte foi convocado para as reuniões do Conselho de Administração da BIAU que preparou a edição de Medellín, Colômbia, de 2010, em nome de Portugal e ele foi sempre trazendo as questões substanciais que o preocupavam e com as quais se sentia comprometido, em especial e concretamente, a ética, em sua opinião, como pedra fundamental para compreender e lidar com o presente.
Fui a Lisboa para fazer um teaching staff na primavera de 2010, na Universidade Técnica em que ele era um professor e, como ele próprio gostava de dizer, "jovem doutor". Sua tese de doutorado "A Arquitetura Dita: Anamorfose & Projeto" é uma prova de sua força intelectual e sua juventude inabalável. Nela, Duarte retratou e nos deixou seu legado: a partir da dedicação à sua esposa, Maria Manuel, e seus filhos, através de Heidegger e seu "Construir, Habitar, Pensar", até a epígrafe final sobre o projeto e a responsabilidade. A vida decantada em uma proposta de ética prática da arquitetura.
Duarte veio a VII BIAU de Medellín em outubro de 2010. Antes de partir, ele me disse que sua doença. Sua companhia nessa viagem tornou esta ocasião uma das minhas memórias mais queridas. Com olhos recém operados, todos pensavam que eu estava o apoiando: posso afirmar que foi exatamente o oposto. Nós gostamos de visitar a arquitetura dos parques bibliotecas de Medellin juntos e, se possível, sozinhos. Conversar com as pessoas. Passear. Sentarmos. Tomar uma cerveja. Desfrutar. Viver.
Fui com minha família para Lisboa em setembro de 2012... para descansar e o ver. Encontramos com ele e Maria Manuel, em sua belíssima casa, voltamos a caminhar pela redor da cidade pombalina e pelo Centro Cultural de Belém. Prometemos não deixar muito tempo passar sem se ver para celebrar o dom da amizade.
Nesta primavera, Duarte morreu em Lisboa. No dia primeiro de maio, Maria Manuel escreveu:
Queridos amigos, Lamento muito em lhes dizer que Duarte morreu ontem. Como sabiam, ele tinha leucemia, que se agravou há três semanas. Estava em boa forma até dois dias antes de morrer. abraços
Perdemos um amigo. Um companheiro. Um homem sábio e bom. Alguém que fazia o mundo tornar-se mais amável, mais compreensível, mais habitável. Alguém cujo modo de estar e agir no mundo era reflexo da forma como o via. Um arquiteto.
Descanse em paz.
Duarte Cabral de Mello
Cabe-me neste artigo a difícil tarefa de fazer aquele que será, incrivelmente, o primeiro esboço da biografia do Arquiteto Duarte Cabral de Mello, ou Professor Cabral de Mello, no ano em que este apresenta o júbilo na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa. Esta será apenas uma introdução da história ainda por escrever de uma figura incontornável da arquitetura portuguesa, em aspectos tão diversos como a prática, a teoria, a crítica e o ensino. Teve ainda um papel fundamental na divulgação da mesma no contexto internacional, em particular nos EUA, durante os anos 70, década que viu surgir o interesse extramuros pela obra de autores como Álvaro Siza Vieira, na época ainda em início de carreira. Colaborou a convite de Peter Eisenman no Institute of Architectural and Urban Studies – IAUS, onde contatou de perto com nomes de relevo internacional como Mário Gandelsonas, Diana Agrest, Kenneth Frampton, Anthony Vidler, Joseph Rykwert, Robert Slutsky, Stanford Anderson, Emílio Ambasz, Richard Meyer e Michael Graves. A isto se acrescenta a sua importante obra enquanto autor em colaboração com a Arquiteta Maria Manuel Godinho de Almeida no atelier “UTOPOS”, dos quais se destacam em particular os projetos de habitação de custos controlados para a Cooperativa CHUT, em Vila Nova da Caparica em Almada (1986-1988) e o projeto de requalificação urbana para a zona oriental de Lisboa, a quando da Expo98, mais concretamente o trecho correspondente ao PP4 (1994-1998). A sua obra tem vindo a ser selecionada para representação da arquitetura portuguesa em diversos eventos expositivos - Lisboa (1986, 1987, 1989, 1998), Porto (1991), Bruxelas (1991) Tokyo (1992), Nova Iorque (1994) e Munique (1997) – e foi publicada em diversas revistas da especialidade onde se incluem Arquitectura, Architectí, Arquitectos, Domus, Architecture d’Aujourd’hui, A&V. Mais recentemente e, no contexto acadêmico, tem-se dedicado à investigação no âmbito da criatividade e ética aplicados ao projeto de Arquitetura. Como sustento intelectual a uma carreira que se manifestou sob tão diversos aspectos, Duarte Cabral de Mello desenvolveu ao longo da sua obra um comprometido trabalho de pesquisa no âmbito da teoria, crítica e história da Arquitetura, mantendo sempre a mesma curiosidade e abertura por outras áreas do Conhecimento que considera vitais para sustentar a sua visão “do que se entende por projetar”, atitude que cunhou a sua atividade enquanto docente. Foi também esta preocupação interdisciplinar que escolheu desenvolver com maior incisão na sua tese de Doutoramento, a que deu o nome “A Arquitetura Dita: Anamorfose & Projeto”, onde concentra um conjunto de preocupações acerca da relação entre Projeto e Conhecimento no contexto da Arquitetura, mais concretamente no que se refere à sua dimensão Semiótica.
Duarte Cabral de Mello
Estudou Arquitetura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, onde usufruiu da promiscuidade entre a prática artística e a da arquitetura, bem como do contacto com outras áreas do conhecimento como a Química, a Física, a Matemática, a Geometria e a Sociologia, lecionadas na altura na Faculdade de Ciências nas Ruas da Escola Politécnica. Na sua aula do júbilo, a que chamou “Primeira Aula” referiu também a sua experiência enquanto aluno no ensino primário onde conviveu no mesmo contexto de “sala de aula” com vários níveis de ensino.
M. Piedade Ferreira: Pensa que terão sido estas experiências que o levaram a ter uma maior abertura a diferentes áreas do conhecimento, construindo os alicerces para uma perspectiva mais alargada do que é projetar?
Duarte Cabral de Mello: Também eu gostaria de ter uma resposta simples para a essa pergunta. Só que são sempre complexas as situações, ou os diferentes estados de coisas, presentes sempre que tomamos decisões.
Quero acreditar que as experiências que referi nessa Primeira Aula terão marcado muitas das minhas escolhas sobre o que é projetar. Não sei é se foram mais ou menos determinantes do que as conversas com as pessoas que faziam parte do meu círculo familiar – artistas plásticos, poetas, escritores, engenheiros, músicos, filósofos, médicos, juristas – ou com os amigos de várias idades, nacionalidades e formações que têm vindo a enriquecer-me a vida.
MPF: Até que ponto o seu contato com os colegas na Escola de Belas Artes o levou a interessar-se pela “poesia concreta”? Tratou-se sempre de um interesse estético em si mesmo ou já na altura se preocupava em cruzar esta dimensão semiótica da transmissão das ideias através da imagem e/ou da palavra, no contexto da Arquitetura?
DCM: A escrita sempre fez parte da minha vida que nunca consegui encarar como uma seleção de “atividades discretas”, mas como um jogo entre pensar, registrar, transmitir e operar sobre o retorno de tudo isto, não necessariamente por esta ordem. E foi a minha vida quando, aos vinte anos e após duas operações oftálmicas, estive privado da visão durante uns meses.
A poesia concreta surgiu do cruzamento do que ia escrevendo e o convívio breve mas muito intenso que, no final dos anos 60, tive com a artista Mira Schendel e a escritora Vilma Arêas, ambas brasileiras, que conheci através do meu amigo Luís Noronha da Costa.
Álvaro Siza Vieira e Duarte Cabral de Mello, VII Bienal Iberoamericana de Arquitetura e Urbanismo, Lisboa, 2008
Nos anos 70, depois de uma série de contatos com colegas de várias nacionalidades em congressos Portugal e Barcelona, dos quais se destacam figuras ilustres como Fernando Távora, Nuno Portas, Carlos Duarte, Álvaro Siza Vieira, Oriol Bohigas e Frederico Correa, tem a oportunidade de jantar com Peter Eisenman. Após levar com “um dedo na ferida” Eisenman convida-o para se lhe juntar no IAUS.
O seu trabalho de investigação no IAUS debruçou-se principalmente sobre os jogos que iniciara com a “poesia concreta”, de modo que foi responsável pelo lettring e grafismo da revista publicada pelo instituto, a “Oppositions”. No entanto, também escreveu artigos que na altura não foram considerados publicáveis mas cujos temas desenvolveu nas sua restante obra escrita, especialmente na tese de Doutoramento.
M. Piedade Ferreira:Esta atitude crítica, que aliás transportou consigo para o ensino e a prática, surgiu instintivamente de uma necessidade de afirmação intelectual ou foi também influenciada pelo contexto social e político da época, no sentido de corresponder a um desejo de libertação?
Duarte Cabral de Mello: O que me tem movido e feito viver é a curiosidade e a vontade de entender melhor o mundo em que estou, tentando construir a sua maior legibilidade apoiado num coletivo alargado; empenhado em que ele seja, ou volte a ser, a base do florescimento da vida na Terra. A afirmação intelectual não me interessa porque vai ao arrepio disto.
O desafio do Peter Eisenman animou-me durante anos. Valeu e vale.
MPF: Pode falar-nos um pouco acerca destes temas e porque na altura terão sido considerados demasiado arriscados para publicação?
DCM: Importa esclarecer que o trabalho de investigação que desenvolvi no IAUS se centrou nos problemas da aquisição e mudança de sentido do Meio Físico Construído; mesmo quando participei nos projetos encomendados a este Instituto com objetivos mais operativos e concretos. O meu trabalho real foi o de estudar aquele Meio e procurar, sincrônica e diacronicamente, a articulação entre o seu desenho e o seu impacto sobre a vida das pessoas que o habitam, estudo esse que me parece hoje ainda mais pertinente, mais necessário e mais urgente do que há quarenta anos.
Na altura esse trabalho, necessariamente rudimentar ainda que pioneiro, caía fora do quadro de referência dominante no Instituto e, por isso, os referidos escritos terão sobrado do plano inicial de publicação das Oppositions.
Por fim, as minhas incursões na poesia concreta foram meramente operativas para construir com o Mario Gandelsonas o nome da revista que tínhamos decidido publicar.
MPF: Até que ponto pensa que esta mistura entre a Arquitetura e um contexto assumidamente artístico influenciou o trabalho que se realizava no Instituto? Existia mais espaço para o erro e a experimentação no projeto, assim como a abertura para a crítica de arquitetura através de meios como a performance e a instalação? Até que ponto considera que isso hoje ainda é possível?
DCM: É comum imaginar-se que instituições como o IAUS se constituam como verdadeiras torres de marfim; espaços de liberdade sem peias nem limites. Mas, na verdade, o IAUS, como muitas instituições congêneres, vivia de promover e/ou de responder a investigações muito concretas, como por exemplo os dois projetos em que colaborei: (1) o The Street as a Component of the Urban Environment, estudo sobre o papel das ruas no espaço urbano, para U.S. Dept. of Housing and Urban Development (1970-1973) e o The Design of Alternative Low-Rise High-Density Housing, feito conjuntamente com a New York State Urban Development Corporation (UDC) entre 1970 e 1973. E, o projeto Generative Design Research Program, que, entre 1972 e 1973, desenvolvi conjuntamente com o Peter Eisenman, o Mário Gandelsonas e a Diana Agrest, foi financiado pelo US National Institute for Mental Health (NIMH).
Tudo o resto – as exposições, as conferências, os debates e convívios abertos que, no início dos anos 70, transformaram o IAUS numa instituição muito viva e num lugar de passagem quase obrigatório para um número crescente de pessoas com formações e nacionalidades diferentes – resultou do grande empenhamento dos membros do Instituto, da gestão dos projetos encomendados, de uma rede alargada de contatos e do apoio de mecenas que consideraram essas atividades polarizadoras da vida cultural novaiorquina.
Duarte Cabral de Mello, VII Bienal Iberoamericana de Arquitetura e Urbanismo, Lisboa, 2008
Regressa a Portugal em 1973, no final da Primavera Marcelista com a bagagem cheia de ideias para partilhar com um novo mundo em transformação. Nessa altura decide dedicar-se mais intensamente à pratica profissional, no Atelier dos arquitetos Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, onde se manteve como associado até à Revolução de 25 de Abril, depois com Vítor Figueiredo (Alto do Zambujal), a seguir no Ministério da Habitação Urbanismo e Construção, especialmente em projetos que tenham uma componente de ação cívica na comunidade através do projeto, tais como o trabalho para a Cooperativa CHUT em Almada.
Em 1979, já com uma significativa obra construída e publicada, bem como a participação em júris de concursos como o Prêmio Mies Van de Rohe, inicia a sua atividade como docente na Faculdade de Belas Artes de Lisboa, onde lecciona Projeto. Continua-a posteriormente na Faculdade de Arquitectura da UTL até 2011.
M. Piedade Ferreira:Pensa que esta opção foi influenciada maioritariamente pelo contexto político da época ou viu uma oportunidade para aplicar uma série de reflexões que tinha vindo a construir desde que partira para os EUA e que cresceram com o trabalho no IAUS?
Duarte Cabral de Mello: Por vezes esquecemo-nos que a Arquitetura é um ofício e, como foi o caso, no pós 25 de Abril, a habitação de baixo custo, dita social, constituiu-se como o trabalho dominante que me coube como profissional.
Tentei fazê-lo o melhor possível com o Nuno Teotónio Pereira e o Nuno Portas (1973-1974), o Vítor Figueiredo (1975), o GACH - Grupo de Apoio às Cooperativas de Habitação, criado Secretaria de Estado da Habitação e Urbanismo, do Ministério da Habitação Urbanismo e Construção, ao abrigo dos programas governamentais de cooperação luso-sueca para o setor da habitação. (1976-1978) e na Utopos com a Maria Manuel Godinho de Almeida (1978-2003). Isto para referir apenas os autores principais.
MPF: Considera que o afastamento do ensino da Arquitetura do contexto de uma escola artística poderá ter influenciado negativamente várias gerações de futuros arquitetos?
DCM: A qualidade, a exigência, a abertura e a ética dominante das pessoas que se dispuseram a desenvolver conjuntamente as suas competências de arquitetos, e não a bandeira artística – ele há tanta arte acéfala! – é que terão marcado as gerações dos arquitetos formados “fora” do sistema das Belas-Artes. Eles estão aí. Basta ver o que fazem; criticamente.
MPF: Em termos culturais e, num contexto mais alargado, qual é a sua opinião acerca das novas gerações de arquitetos portugueses?
DCM: Como a pergunta tem um sujeito indeterminado, não tenho resposta para ela.
Duarte Cabral de Mello, Elia Gutiérrez Mozo e João Cabral, VII Bienal Iberoamericana de Arquitetura e Urbanismo, Lisboa, 2008
Na “Primeira Aula” deu uma série de pistas acerca das questões que considera fundamentais no contexto da arquitetura contemporânea, tais como a sustentabilidade e as relações entre construir e projetar, os humanos e a natureza, as ciências e as tecnologias, o progresso e o crescimento econômico.
Acerca do seu interesse pela semiótica. Na sua tese de Doutoramento dedica um capítulo à reflexão acerca dos objetos produzidos para a exploração e transmissão do projeto de Arquitectura, a que chamou “Objetos Intermediários”.
M. Piedade Ferreira:Considera que existe entre os pares da profissão, no contexto global, vontade por parte dos intervenientes em procurar soluções sustentadas na prática coletiva e interdisciplinar através da troca de conhecimento ou parece-lhe que este continua a ser utilizado como capital para benefício privado?
Duarte Cabral de Mello: Em qualquer caso, penso que o culto do conhecimento como capital para benefício privado aponta para a anulação do florescimento da vida na Terra, sobretudo a nossa: a dos humanos.
MPF: Do ponto de vista do Professor, até que ponto considera que os meios digitais de representação ainda estão a ser ensinados majoritariamente como ferramenta de habilitação profissional do que propriamente enquanto meios de estímulo à produção e reflexão criativa?
DCM: Tanto quanto sei – exceção feita àqueles que têm a capacidade de programar e, por isso, a oportunidade de os usar criativamente – os meios de representação digital utilizáveis em arquitetura são tão só suportes intermediários entre a construção mental de um projeto e a sua transmissão a terceiros para permitir os processos conducentes à sua concretização. Tudo o resto é a procura de orientação do pensamento de quem projeta e/ou participa desse processo.
O único risco que posso antever é o de quem recebe treino na manipulação de representações digitais confunda o seu rigor visual aparente com o rigor exigível a qualquer projeto.
MPF: Para as futuras gerações de arquitetos que já não terão o privilégio de ser seus alunos ou colaboradores e que nós esperamos que leiam este artigo, qual pensa que é o conselho mais útil que lhes pode dar?
DCM: Não me cabe dar conselhos a ninguém. Mas atrevo-me a sugerir-lhes que vivam o presente, com intensidade, rigor, ética e alegria.
MPF: Sabemos que, como sempre, tem na manga um projeto novo para realizar a curto/médio prazo, o ∫AL – Integral Architectural Lab. Pode falar-nos um pouco acerca desta ideia?
DCM: A ideia de suporte desse projeto é muito simples, e de modos diferentes, tem vindo a informar uma procura que iniciei nos anos 60:
A arquitetura, como forma de pensar o mundo – que, sob pena da sua extinção como suporte do florescimento da vida no planeta, terá de o fazer com responsabilidade ética – obriga-a a apoiar-se num número enorme de dados técnico e científicos que nenhum projetista, ou equipe de projetistas, de pessoas que decidem ou fruidores finais, por mais geniais que sejam, poderá utilizar com eficiência e rigor – dados da investigação médica, da economia, das ciências do ambiente, da geografia, da agro-pecuária, das engenharias, entre muitos outros. Só uma rede de inteligências e conhecimento convergentes poderá alcançar esse fim, o que não está mas pode e deve ser feito urgentemente com o apoio do que, à falta de melhor termo, chamamos Inteligência Artificial.
O propósito do ∫ A.L. é demonstrar que esse trabalho é possível, para que ele se faça e mantenha aberto e operativo, com responsáveis; nem donos nem autores.
Joaquín Arnau Amo, Elia Gutiérrez Mozo e Duarte Cabral de Mello, Lisboa, 2012
Duarte Cabral de Mello
Diplomado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1970). Estagia nos EUA, onde trabalha nos domínios do desenvolvimento urbano e privado com muitos arquitetos que serão referências fundamentais da arquitetura mundial, nomeadamente ligados ao jornal Oppositions (1973-1984). As suas ligações aos EUA (e ao mundo anglo-saxônico) e, também, a Espanha, serão fundamentais para a internacionalização da arquitetura portuguesa.
Foi muito ligado ao ensino, em particular na Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, pela qual é doutorado.
Enquanto profissional e muitas vezes em parceria com a Arquiteta Maria Manuel Godinho de Almeida (assim como com os Arquitetos Vítor Figueiredo ou Vicente Bravo Ferreira), a sua ação incluiu o Planejamento Urbano e a Habitação Social, com particular destaque para as cooperativas de habitação, designadamente Alverca (1978), Alto Zambujal (1975-81) e Vila Nova da Caparica (1976-88).
Mais recentemente Duarte Cabral de Melo foi presidente do Júri do Prêmio Secil Arquitectura 2010 e em 2011 homenageado como Membro Honorário da Ordem dos Arquitetos.
Nascido em 1941, Duarte faleceu no dia 30 de abril de 2013.
Elia Gutiérrez Mozo
Doutora em Arquitetura. Professora assistente na área de composição arquitetônica do Departamento de Expressão Gráfica e Cartografia da Escola Politécnica da Universidade de Alicante. Docente no Mestrado em Arquitetura e Urbanismo Sustentável. É autora de várias publicações sobre arquitetura e urbanismo contemporâneo de cidades médias espanholas.
M. Piedade Ferreira
Arquiteta, graduada pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL), pós-graduada e candidata a Doutoramento pela mesma instituição. É membro colaborador do Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design (FAUTL) e presentemente “Visiting Scholar” na Digitale Werkzeuge da TU Kaiserslautern onde leciona a disciplina “Corporeal Architecture” e desenvolve investigação dedicada à exploração artística da relação entre o Corpo, o Movimento e o Espaço e a arquitetura enquanto condição para o bem-estar psicofísico do utilizador, numa abordagem inspirada na performance art. Desenvolve ainda escrita na àrea da teoria e história da arquitetura.
Entrevista
A presente entrevista foi publicada originalmente na revista Ascensor, n. 2, Lisboa, jan. 2012, p. 29-35. Sua reprodução no portal Vitruvius foi uma sugestão da arquiteta Elia Gutiérrez Mozo e a autorização foi dada pelo editor da revista portuguesa.