português Fernando Diez, editor da revista argentina Summa+, conversa com Abilio Guerra, editor do portal Vitruvius, e comenta sobre sua trajetória profissional e intelectual.
como citar
Abilio Guerra.
“Entrevista com Fernando Diez”.
Vitruvius entrevista, ed. 14.055. 2013.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/14.055/4808
Fernando Diez, à direita, com delegação argentina, Bienal Iberoamericana, Montevidéu, 2006
Não me recordo quando conheci pessoalmente Fernando Diez. Será que foi em São Paulo, em algumas das suas diversas visitas ao Brasil? Creio ser mais provável que o primeiro contato tenha sido em algum evento internacional, talvez na Bienal Iberoamericana de 2006 em Montevidéu, provavelmente na edição do mesmo evento em 2008, em Lisboa, quando me lembro de ter conversado por diversas vezes com o intelectual argentino e de ter me impressionado com sua inteligência e perspicácia. Creio que “intelectual” seja o termo correto para designar este profissional de múltiplas atividades e interesses – arquiteto, professor, escritor, crítico, editor, consultor... –, pois seus conhecimentos e preocupações partem quase sempre das questões específicas da disciplina arquitetura e urbanismo, mas invariavelmente espraiam por outras áreas de conhecimento. Ao mesmo tempo em defende conformar arquitetura e urbanismo um único corpus teórico e prático, seus argumentos acabam se enveredando por outros temas, como sustentabilidade, economia e estética.
Justo Solsona, Fernando Diez e Julio Malo de Molina, Semana de Arquitetura Argentina em Cádiz, 2006
O seu engajamento político (não partidário, ao menos que tenha percebido) é uma faceta facilmente visível de seu caráter, pois é uma pessoa que entende que o fazer individual deve estar em alguma medida comprometido com uma demanda coletiva. Ao comentar projetos que visam diminuir o impacto da infraestrutura nas metrópoles, Diez afirma que muitas vezes nestes projetos é contrabandeado um “aspecto hedonista, puramente visual, do qual não compartilho”. Para logo a seguir sentenciar o que é de fato importante: “Enterrar autopistas para não vê-las, como se fez em Boston ou em Madri a um custo astronômico, produz belos parques na superfície, mas todo esse paisagismo que oculta o que acontece embaixo apenas adia as decisões radicais que devem ser tomadas, como os impostos sobre o combustível fóssil, investimentos em transporte publico e adensamento de cidades demasiado estendidas”.
Mas uma das coisas que mais me chamou atenção na sua personalidade é sua capacidade de ver os fenômenos de uma maneira nova ou ao menos diferente, o que é possível – penso eu – graças a uma curiosidade genuína de quem não se contenta com o lugar-comum como explicação. Em uma edição do Docomomo ocorrida em Porto Alegre há alguns anos e cujo tema era o concreto, Diez fez uma apresentação brilhante sobre fôrmas de madeira usadas na concretagem de edifícios. As marcas indeléveis deixadas pelo madeirame na superfície das estruturas à vista conferiam ao edifício seu caráter particular, sua essência tectônica. Ao final, com fina ironia, Fernando projetou uma foto que registrava um momento de descanso na obra, onde os trabalhadores braçais usavam as tábuas de madeira transformadas em sucatas como lenha para o churrasco do almoço. Uma reciclagem digna do humor portenho! Foi uma das mais belas palestras que tive o prazer de ver e ouvir em toda minha vida.
Nos blocos temáticos desta entrevista os leitores poderão verificar por si próprios as opiniões sensatas e engajadas de Fernando Diez, como também tomar conhecimento de sua trajetória de vida.
Festa de confraternização da VI Bienal Iberoamericana, Lisboa, 2008
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de Buenos Aires
Abilio Guerra: Você se formou na Universidade de Belgrano em 1979. Dê um painel sobre as principais escolas argentinas de arquitetura daquele período.
Fernando Diez: Nesse momento em Buenos Aires não havia mais que duas escolas de arquitetura, a da Universidade Nacional e a de Belgrano, que era nova.
AG: O ambiente político do período da ditadura militar teve qual impacto nas escolas de arquitetura? Era possível estudar arquitetura e urbanismo naquele período?
FD: Quando eu ia começar meus estudos de arquitetura, a Faculdade de Arquitetura da Universidade Nacional estava fechada por razões políticas; assim, comecei na Universidade de Belgrano, uma escola pequena de gestão privada, mas que devido às dificuldades daquele tempo, cresceu consideravelmente nos anos seguintes, absorvendo alunos e professores que eram expulsos pelo clima hostil que havia na Universidade Nacional. Dessa forma, haviam chegado a Belgrano grandes professores, como Alfonso Corona Martínez, Manolo Borthagaray, Bucho Baliero, Marcelo Trabucco, para mencionar alguns.
AG: Durante sua graduação, você tinha predileção pelos cursos de projeto, teoria ou história?
FD: Sentia-me mais à vontade com os cursos de história e teoria, porque de algum modo eram mais abertos a uma visão crítica da arquitetura moderna. De qualquer maneira, nos últimos anos fui muito bem nos cursos de projeto, razão pela qual me convidaram a ser auxiliar na cátedra de projeto de Enrique Cottini. Fiz isso por dois anos, mas logo fui dar aulas com Corona Martínez em um curso de teoria, por ter maior afinidade com ele. Em 1984 fui convidado por Miguel Ángel Roca para ser professor da Universidade Nacional de Buenos Aires, então nesse ano voltei a ensinar no ateliê de projeto.
AG: Seu doutorado foi desenvolvido no Brasil. Qual o motivo? Como foi o processo até a defesa?
FD: Eu fazia pesquisa no Instituto de Desenho da Universidade de Belgrano e me concentrava na relação entre tipologia, tecido e espaço urbano. No princípio dos anos 1980 conheci Carlos Eduardo Comas, com quem mantinha afinidades na visão tipo-morfológica da arquitetura e da cidade. Meus trabalhos sobre regulação e produção urbana lhe interessaram o suficiente para convidar-me a participar do curso de Pós-graduação do Programa de Pós-graduação em Arquitetura – Propar, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por vários anos seguidos fui a Porto Alegre para ministrar um seminário e assim se consolidou minha relação com um grupo muito destacado de professores da UFRGS, e muitos dos alunos daqueles tempos hoje são também importantes professores. Com o tempo essa pós-graduação evoluiu para mestrado e logo para doutorado, momento no qual fui convidado a realizar minha tese. Foi uma pesquisa que se apoiava de meu trabalho como editor na Summa+, algo que vinha realizando desde 1994. Naturalmente eu tinha acesso a muita informação direta sobre as transformações nos modos de produção da arquitetura Argentina, que amadureceram radicalmente na mudança do século. A tese aborda essas mudanças, tratando de observá-las por sobre as diferenças e particularidades dos atores. Ao mesmo tempo, o trabalho analisa a relação mais ampla com o contexto disciplinar e com os mecanismos de difusão e produção simbólica em um sentido mais geral. Essa segunda parte do trabalho intitula o trabalho: “Crise de autenticidade”. O caráter ascético das conclusões foi em parte questionado durante o processo, de modo que uma terceira parte tenta colocar em relação estas questões com a perspectiva da disciplina frente aos novos desafios colocados pelas questões ambientais e a reformulação da oposição conceitual natural-artificial em que se haviam apoiado os raciocínios e as figuras estéticas da maior parte do século 20.
Universidade de Belgrano, Buenos Aires
Néstor Magariños, Fernando Diez, Clorindo Testa, Alberto Varas e Carlos Méndez Mosquera, lançamento do livro “Crisis de autenticidad”, de Diez
Abilio Guerra: Como os seus livros se tornaram realidade?
Fernando Diez: Na realidade meus livros não surgiram porque eu havia me proposto a isso, mas foram a consequência natural da acumulação de trabalhos de pesquisa, entre as quais havia uma linha temática comum. Com o tempo me pareceu razoável pensar em reunir esses artigos em um livro. Assim aconteceu com meu primeiro livro Buenos Aires y algunas constantes en las transformaciones urbanas publicado em 1996 pela Editorial de Belgrano. É a condensação de uma série de temas que eu vinha desenvolvendo desde 1982. De fato o artigo “La influencia de los códigos de edificación en la generación del tejido urbano” havia sido publicado internamente no Instituto de Desenho em 1982, logo apareceu na revista Ideas no ano de 1984, e outra versão foi publicada na antiga revista Summa, creio que um ano depois. Este livro é a acumulação de cerca de dez anos de trabalhos de pesquisa, que no ano de 1993 decidi atualizar e reunir na forma de livro. O livro Crisis de autenticidad (Summa+Libros, 2008) também é a culminância de um processo de dez anos aproximadamente. Começa com uma série de textos preliminares, depois meu trabalho de tese de doutorado, e mais tarde sua reelaboração para o formato de livro. No caso dos livros coletivos, aqueles nos quais contribuí com um capítulo, foram o resultado da oportunidade que surge de convites, em que artigos já escritos ou conferências feitas em seminários ou congressos adquirem depois o formato adequado para o livro.
AG: Além de autor, você tem desenvolvido uma sólida carreira como editor. Como você começou?
FD: Minhas primeiras experiências como editor foram no Instituto de Desenho da Universidade de Belgrano. Na realidade devíamos buscar a forma de publicar os trabalhos de pesquisa que fazíamos, então começamos a pensar em uma publicação periódica. Com Alfonso Corona Martínez, que era o diretor do Instituto, tivemos uma reunião com Mario Gandelsonas, que nos transmitiu algo de sua experiência como editor de Oppositions. Isso nos serviu como referência. De fato a revista que propusemos para a Universidade de Belgrano tinha a mesma cor laranja de Oppositions. Ainda que a Universidade não tenha aceitado todos os aspectos da nossa proposta, Corona Martínez foi nomeado diretor e as primeiras revistas incluíram uma variedade de temas e artigos alinhados com o que havíamos pensado, com assinaturas como as de Alan Colquhoun, Steven Peterson e locais como as de Horacio Reggini e trabalhos de pesquisa desenvolvidos na própria Universidade de Belgrano. Em 1994 fui contratado como secretário de redação da revista Summa+, uma tarefa que comecei com dúvidas, pois não tinha uma grande experiência como editor, mas as circunstâncias exigiam tomar uma atitude definida para estabelecer mais nitidamente os critérios editoriais. Na medida em que esses critérios se tornaram efetivos, também fui ficando mais confiante. Mas de uma vez neste período de quase vinte anos foi necessário rever os critérios editoriais e até agora temos conseguido encontrar o equilíbrio que nos permite manter uma base de leitores suficientemente ampla.
Capas dos livros “Buenos Aires y algunas constantes en las transformaciones urbanas” e “Crisis de autenticidad”, de Fernando Diez
AG: A revista Summa+ tem um excelente padrão editorial e uma longa tradição. Como entende a realidade atual da publicação à luz desta história significativa?
FD: Summa+ é herdeira de uma longa tradição editorial que começa em 1963 quando Carlos Méndez Mosquera funda a Summa, cuja direção é assumida por Lala Méndez Mosquera, que leva a revista a um lugar de notoriedade, convertendo-a em uma referência para o mundo iberoamericano (me lembro que quando Álvaro Siza veio a Buenos Aires me contou que Summa fazia parte de suas obras de referência quando estudava). Summa+ pertence a uma época distinta, quando a globalização das publicações e a multiplicação da oferta de revistas especializadas exigiram uma revista mais abrangente. Summa+ não é uma revista de tendência, não tem um programa no sentido de promover uma determinada visão de arquitetura. Entretanto, se propõe refletir sobre o conjunto das discussões. Além das obras que gostamos, publicamos também obras que nunca faríamos, mas que são influentes e fazem parte da produção contemporânea.
Como editores temos aprendido a ser abertos, receptivos. A pluralidade de tendências e opiniões é algo que valorizamos. Do mesmo modo que dedicamos um lugar muito importante às pequenas obras. Deste modo, a arquitetura que impacta pelo tamanho, ou a exposição de seus autores, não recebe mais espaço em Summa+ do que a arquitetura que, sendo pequena, dá lugar a novas visões, que eu tenho chamado de “arquitetura de pesquisa” em vários ensaios. Interessa-nos tanto a “arquitetura de proposição” como a “arquitetura de produção”. E, sem dúvida, o mais interessante é ver como ao longo do tempo uma consegue influir a outra. Trata-se de algo que os meios de difusão deveriam assumir como uma função importante a cumprir.
AG: Qual sua opinião da produção periódica na área de arquitetura?
FD: É difícil opinar sobre o que fazem os colegas, mas em geral creio termos um alto nível de publicações na América Latina. Para mencionar apenas dois exemplos, lembro do trabalho liderado por Patricio Mardones (continuando o trabalho de Monserrat Palmer) em ARQ no Chile, tanto com a revista como com os livros. No México, Miquel Adriá faz um trabalho magnífico com Arquine. As revistas de arquitetura são difíceis de manter e só sobrevivem quando conseguem conquistar uma base ampla de assinantes fieis. Além disso, é necessário um apoio econômico, e nesse ponto a independência editorial é algo que valorizamos muito, e conquistamos em Summa+ total liberdade. Por outro lado, não se pode fazer boas revistas de arquitetura se não há boas obras. O sucesso da arquitetura espanhola tornou possível o êxito de projetos editoriais magníficos, como El Croquis e 2G.
Capa Revista Summa n. 1, 1963
Projeto Elemental Iquique, Chile, 2004. Elemental / Alejandro Aravena e outros
Abilio Guerra: Como a maior parte dos editores latino-americanos, você tem viajado muito nestes últimos anos, participando de eventos diversos. Qual o papel destes – Bienal de Veneza, Bienal de São Paulo, Bienal de Buenos Aires, Trienal de Lisboa, Bienal Iberoamericana etc. – na discussão da produção contemporânea?
Fernando Diez: Respondo com as palavras de Silvia Arango, que escreveu um ensaio excelente sobre a crítica, onde diz que os prêmios de arquitetura são uma parte importantíssima da crítica, porque fixam pautas e dão parâmetros para os mais jovens. Ao mesmo tempo, Arango observa como muitos dos prêmios sofrem condicionamentos que estão dados pela própria mecânica dos jurados coletivos. Por exemplo, muitas vezes os segundos prêmios são melhores que os primeiros. Mas o melhor é ler o artigo de Silvia publicado na Summa+ (1). As Bienais são muito importantes, lugares naturais de intercâmbio. A Bienal de Buenos Aires, na qual participei ativamente em várias edições nos anos 1990, a de Quito, para onde estamos viajando em breve, ou também a Bienal Iberoamericana, onde fui representante argentino em duas ocasiões, são encontros mobilizadores e, sobretudo, lugar para o intercâmbio de ideias.
AG: O que acontece hoje com a arquitetura e o urbanismo? Estamos diante de um final de era ou já vivemos uma quebra paradigmática? Quais são os novos vetores que direcionam as novidades?
FD: Faço parte do grupo dos que consideram que não se pode analisar nem discutir a arquitetura alijada dos problemas ambientais e sociais. Desde os anos 1980 estamos lutando para impor uma visão onde arquitetura e urbanismo são uma mesma coisa, onde há uma continuidade cultural e condicionamentos práticos. Uma arquitetura idealizada, hedonista, alheia às necessidades e circunstâncias reais – ou seja, uma arquitetura como pura arte – pode ser inspiradora, mas só terá significado se for útil tanto no terreno espiritual como no terreno prático. A quebra de paradigma consiste no desencanto com os discursos épicos, que prometeram muito, mas terminaram oferecendo pouco. A visão mecanicista da sociedade e do meio ambiente produziu uma cidade desumana, apagou nosso registro histórico e destruiu vínculos comunitários e tradições culturais. Os benefícios da era da máquina foram erodidos pelos resíduos dessa produtividade e agora tentamos pensar de uma maneira menos arrogante, buscando um equilíbrio e uma racionalidade ambiental. A superprodução e o hiperconsumo são necessidades da máquina e do sistema de produção. Sua virtude foi a baixa dos preços dos produtos sofisticados – lava-roupas, automóveis, telefones ou computadores –, mas não conseguiu superar o descarte sistemático e a obsolescência programada. Esse é um desafio ao qual a arquitetura não é alheia. Como especialistas, poderíamos dizer que é a relação entre técnica e civilização, nas palavras de Lewis Mumford, ou entre técnica e cultura como gosto de dizer, onde caberia à arquitetura o poder de aportar ao processo uma relação mais racional com o meio ambiente, para torná-la viável no tempo, ou seja, sustentável.
À esquerda, Summa+ 115, casa no Paraguay, Gabinete de Arquitetura / Solano Benìtez, 2008; à direita, Summa+ 58, edifício em Rosário, Rafael Iglesia, 2003
AG: Summa+ é hoje uma revista internacional, que circula pela América Latina, o que te permite uma visão do que está ocorrendo em outros países. Como está a produção da América Latina em geral? Qual o balanço comparativo que você poderia fazer entre as arquiteturas mais sólidas, caso da argentina, chilena, brasileira e colombiana?
FD: Hoje observamos como uma nova geração de arquitetos criou uma rede de colaborações e influências na América Latina, onde as influências cruzadas mostram o surgimento de sensibilidades e experiências que também se tornam mais visíveis para a Europa e os Estados Unidos. Sem dúvida, a arquitetura chilena produziu uma geração muito interessante de arquitetos, mas sua produção não está isolada do que acontece em outros países da região. Por exemplo, o chileno Alejandro Aravena mantém contatos muito estreitos com o argentino Rafael Iglesia, com o paraguaio Solano Benítez e com o brasileiro Angelo Bucci. Diria que por um momento se moviam em conjunto, se recomendavam mutuamente, e mantinham uma discussão comum muito ativa. Mas temos também os arquitetos mexicanos, como Javier Sanchez, Michel Rojkind, Castillo e Springall, que têm sido muito publicados nas páginas de Summa+, e creio que através de nós esta obra ficou mais conhecida em nosso meio. Pessoalmente, creio que a qualidade da arquitetura produzida por esta nova geração da América Latina é muito boa, ainda que talvez o problema seja outro: em que medida estas obras exemplares conseguem contagiar a produção geral. Porque também é certo que há uma grande proporção de arquitetura de baixa qualidade, sem preocupações maiores com o meio ambiente e a cidade.
Edifício 13 de Setembro, México DF, Higueras-Sanchez, 2005
AG: Com o peso cada vez maior da infraestrutura no destino das cidades, há uma tendência cada vez mais forte do arquiteto trabalhar naquilo que Alberto Varas, grande arquiteto argentino, chama de “arquiteturizar a infraestrutura”. O que você pensa desta situação?
FD: Há pouco estive em Los Angeles participando de um seminário organizado por Princeton e UCLA, onde precisamente o tema era as infraestruturas, em particular as relacionadas à água. Um dos aspectos que eu destaquei é o interesse em criar infraestruturas cada vez mais descentralizadas, mais adaptadas ao meio. O interesse pelo paisagismo, que cresceu consideravelmente nas últimas décadas, parece estar relacionado com a ideia de arquiteturizar as infraestruturas, mas tem também um aspecto hedonista, puramente visual, do qual não compartilho. Não se trata apenas de embelezar as infraestruturas, como se fez cobrindo de verde os lixões nos arredores das grandes metrópoles (com impensados mas terríveis efeitos hidráulicos no caso de Buenos Aires), mas se trata de desativar a produção de resíduos e isso deve ser feito nos balcões de venda e nos domicílios urbanos. Creio que devemos focar o aspecto conceitual e causal de nossos problemas. Enterrar autopistas para não vê-las, como se fez em Boston ou em Madri a um custo astronômico, produz belos parques na superfície, mas todo esse paisagismo que oculta o que acontece embaixo apenas adia as decisões radicais que devem ser tomadas, como os impostos sobre o combustível fóssil, investimentos em transporte publico e adensamento de cidades demasiado estendidas.
AG: Quais são hoje os principais arquitetos argentinos? Quais são os jovens que estão se destacando?
FD: É um pouco difícil mencionar apenas alguns, o inclusive injusto, porque há muitos. Mas sem mencionar os já consagrados como Clorindo Testa ou MSGSSS, é interessante mencionar a maneira em que um grupo muito amplo de arquitetos jovens produziu uma renovação da habitação coletiva urbana, construindo pequenos edifícios de apartamentos, em um processo que eu tenho chamado de “táticas de infiltração”. Quando se observa em perspectiva o trabalho destes arquitetos, se evidenciam as influências recíprocas e a maneira em que a multiplicação destas obras em bairros antes deprimidos tem sido capaz de criar verdadeiros fenômenos de renovação urbana. Entre os precursores de Palermo Viejo, que construíram as primeiras casas, pode-se mencionar Lacroze-Miguens-Prati e a Hampton-Rivoira. Na geração seguinte, concentrados em edifícios de apartamentos, temos Caram-Robinsohn e Blinder-Janches; e ainda há uma geração mais nova, entre os quais posso citar Adamo-Faiden e A77 (Dieguez e Gilardi). Este fenômeno se vê também em Rosário, quiçá com uma quantidade menor de exemplos, mas com uma altíssima qualidade em cada um deles. Basta mencionar Rafael Iglesia, Gerardo Caballero, Marcelo Villafañe e, na geração mais nova, Nicolás Campodónico. Não quero deixar de mencionar alguns nomes destacados de Córdoba, como Bertolino-Barrado, Ana Etkin e Dutari-Viale.
À esquerda, dormitório infantil, Boulonge sur Mer, Buenos Aires, A77 / Gustavo Diéguez e Lucas Gilardi, 2006; à direita, Edifício Conesa, Buenos Aires, Adamo-Faiden, 2008
nota
1 ARANGO, Silvia. Crítica y premios de arquitectura. Summa+, Buenos Aires, n. 124, set. 2012, p. 76-81.
Casa PR34, Tecamachalco, México, Michel Rojkind, 2003
Abilio Guerra: Você tem atuado com grande dedicação à docência. Como vê o papel do professor nos dias atuais?
Fernando Diez: As escolas de arquitetura sofrem a mesma crise que a disciplina em seu conjunto. A sociedade deve reorientar seus esforços do mero produtivismo para uma racionalidade sustentável, tanto social como ambiental. A arquitetura moderna elegeu as metáforas que exaltavam a produtividade da máquina e o poder da tecnologia. Suas figuras estéticas foram o balanço, o esforço estrutural dos grandes vãos, a transparência incondicional e o ar condicionado, o uso do aço sem restrições, a oposição artificial-natural. Trata-se do poder da vontade humana se impor ao meio ambiente que pode ser exemplificado em começar sempre da tábula rasa. Hoje não podemos pensar em uma renovação da arquitetura repetindo essas figuras que produziram os edifícios climaticamente mais ineficientes, menos adaptados ao sítio e mais irracionais em termos da energia usada para sua construção. A façanha estrutural sobre o meio natural produziu algumas das casas mais espetaculares do século XX, mas eram também arquiteturas narcisistas que não prestavam suficiente atenção ao custo energético de manufatura, ao custo da construção, nem à reutilização do construído. As escolas de arquitetura se deparam com a necessidade e a dificuldade de rever estes princípios, que estão profundamente mergulhados na tradição moderna e que fazem parte dos reflexos, por assim dizer, dos professores mais experimentados.
À esquerda, Summa+ 113, edifício Maipu, Rosario, Carlos Campodónico, 2010; à direita, Summa+ 90, adega Don Bosco, Mendoza, Ana Etkin, 2009
AG: Como professor visitante, você tem conhecimento da realidade de várias escolas de arquitetura, inclusive no exterior. Há muita diferença entre as escolas? Quais?
FD: As diferenças não são tantas, ainda que o jargão popular diga que “o gramado do vizinho sempre está mais verde”. Creio que nas escolas muito grandes há uma dificuldade em se estabelecer um controle sobre a qualidade dos formandos, porque elas contam com alguns profissionais formados de altíssima qualidade, mas a média não é necessariamente boa. Por outro lado, nas escolas de uma escala mais controlada é mais viável assegurar o nível da média dos graduados. A qualidade de uma escola não é resultado obtido pelo melhor de seus formandos, mas pelo pior: esse é seu nível. Ao mesmo tempo vejo um atraso no desenvolvimento dos estudos de pós-graduação, mais na Argentina do que no Brasil, o que faz com que haja certa confusão sobre o que deve se ensinar em cada nível: creio que na graduação deve ser dada menos ênfase na originalidade e mais na aprendizagem das soluções conhecidas, e que na pós-graduação é o âmbito onde se deve buscar a experimentação e a inovação.
AG: Você tem também atuado como consultor nas áreas urbana e ambiental. Que tipo de consultoria você dá?
FD: Na área do urbanismo eu tenho trabalhado com as agências governamentais no estudo e no projeto de regulamentação de edificação e em critérios de desenvolvimento urbano. No âmbito da educação, tenho participado da comissão que estabeleceu os critérios para o processo de credenciamento universitário, um processo que se baseia na auto-avaliação, e através dessa comissão também estivemos atuando no âmbito do Mercosul. O que mais me interessa a alguns anos é o que antecede à elaboração especificamente técnica, ou seja, os critérios para a formulação das políticas públicas relacionadas especialmente ao meio ambiente e à cidade. Agora se encontra no prelo meu livro Agenda pendiente, que é precisamente uma coletânea de artigos sobre meio ambiente publicados na coluna “Opinião” do jornal La Nación entre 2001 e 2011.
AG: Qual o papel do editor nos dias atuais?
FD: O editor deve ter suas próprias ideias e participar de todas as discussões importantes. Parece-me que está no desígnio dos tempos reconhecer que não sabemos todas as respostas, pois inclusive pode ser que não haja uma única resposta. Nesse sentido, não sou adepto dos dogmatismos, acredito mais na dúvida. É precisamente porque duvidamos que necessitamos escutar outras posições, discuti-las, e ainda assim precisamos estar conscientes da falibilidade de nossas conclusões. Por outro lado, a diversidade é um dado da riqueza cultural, de modo que o pluralismo é algo produtivo. Agora sabemos que o universalismo eurocentrista era uma miragem de uma certa superioridade técnica; hoje sabemos que não estamos no controle dos acontecimentos. O bom editor deve aceitar que há um campo desconhecido que é o futuro, e que não há uma receita pronta. Todas as opções sérias devem ser exploradas, e nenhum plano é infalível. Melhor é poder discutir e avaliar constantemente o rumo e ser capaz de fazer correções a todo o momento. Não podemos nos permitir o luxo de descartar boas ideias porque não são as nossas. Essa é a marca da crise atual, na qual a arquitetura deveria ter uma palavra que dizer.
À esquerda, Edifício Rua Aimbare, São Paulo, Andrade Morettin, 2009; à direita, Edifício Maipu, Carlos Campodónico, Rosário, 2010
Fernando Diez
Fernando Diez
Argentino (1953) arquiteto formado na Universidade de Belgrano (1979), doutor pela Universidade Federal de Río Grande do Sul, Brasil (2005). Foi professor e pesquisador nas universidades de Belgrano e Buenos Aires, e professor convidado em universidades argentinas e estrangeiras. Atualmente é professor de urbanismo da Universidade de Palermo, onde também é coordenador do Departamento de História e Teoria da Faculdade de Arquitetura. Atuou como consultor em temas urbanos e ambientais em entidades públicas e privadas. É membro da Academia Argentina de Ciências do Ambiente. É diretor editorial da revista Summa+ e colaborador do jornal La Nación de Buenos Aires. É autor de vários livros publicados na Argentina e no exterior, entre eles: Buenos Aires, constantes en las transformaciones urbanas (Editorial de Belgrano, 1997) e Crisis de autenticidad, cambios en los modos de producción de la arquitectura argentina (Summa+, 2008). Foi jurado do prêmio Holcim Awards for Sustainable Construction Latin America 2008.
Abilio Guerra
Abilio Guerra é arquiteto, professor da FAU Mackenzie, editor do Portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.
Entrevista
A entrevista foi realizada via email durante os meses de julho e agosto de 2012.
Fernando Diez, Workshop Green_2013 no Holcim Fórum