português Gabriela Celani e Maycon Sedrez entrevistam a arquiteta Anne Save de Beaurecueil que atuou como Professora Especialista Visitante em Graduação no curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicamp no segundo semestre de 2012.
english Gabriela Celani and Maycon Sedrez interview architect Anne Save de Beaurecueil, who was a visiting professor at Unicamp’s undergraduate program in Architecture and Urban Design in the Spring Semester of 2012.
español Gabriela Celani y Maycon Sedrez entrevistan a la arquitecta Anne Save de Beaurecueil, que actuó como profesora visitante en pregrado en el curso de Arquitectura y Urbanismo de la Unicamp em el segundo semestre del 2012.
como citar
Gabriela Celani.
“Entrevista com Anne Save de Beaurecueil”.
Vitruvius entrevista, ed. 14.055. 2013.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/14.055/4776
Anne Save de Beaurecueil numa aula dada na Unicamp, 2012
A Unicamp possui o Programa Professor Especialista Visitante em Graduação (PPEVG), que é uma oportunidade de colocar a comunidade acadêmica em contato com pessoas reconhecidas como referências em sua área de atuação. O curso de Arquitetura da Unicamp participou pela primeira vez desse programa no segundo semestre de 2012, recebendo como visitante a arquiteta Anne Save de Beaurecueil.
A arquiteta atuou como professora na Architectural Association School, de Londres, e no Pratt Institute, em Nova Iorque. Ela publicou, expôs e palestrou sobre o seu trabalho com Franklin Lee em diversos eventos internacionais, incluindo a Bienal de Pequim, a Bienal de Rotterdam, a Exposição Synthasoris em Atenas, o Festival de Arquitetura de Londres e o Festival de Linguagem Eletrônica em São Paulo. Sua pesquisa na A.A. School foi publicada na revista AD, na ArchiCree e no livro A.A. Agendas 7 – Articulated Grounds: Mediating Environment and Culture. Atuou junto a profissionais conhecidos internacionalmente no âmbito profissional e acadêmico, tais como Bernard Tschumi, Zaha Hadid, Ken Yeang, entre outros.
Anne também coordenou o evento A.A. Visiting Schools no Brasil e trabalhou com projetos de arquitetura para ONG´s, desde associações de moradores em favelas, escolas de samba do Rio de Janeiro, e uma academia de boxe informal sob viadutos de São Paulo. Esses projetos foram realizados por meio da negociação entre entidades formais e informais, públicas e privadas, para produzir intervenções de impacto social, combinando computação e fabricação digital com técnicas construtivas, materiais e economias locais.
Zaha Hadid Architects, 2012
Gabriela Celani e Maycon Sedrez: Gostaríamos que você começasse falando sobre a sua formação e sobre os trabalhos nos escritórios em que você atuou.
Anne Save de Beaurecueil: Cursei a graduação em Arquitetura na Cal Poly em San Luis Obispo, que é uma cidade no meio da Califórnia, entre São Francisco e Los Angeles. É uma escola bem técnica e o curso tem cinco anos. Para muitos dos meus professores a sustentabilidade e o meio ambiente eram muito importantes. São Luís Obispo foi a primeira cidade a ter um programa de reciclagem. Havia uma professora em cuja casa estavam instalados tubos de água na fachada Sul, usados como estratégia de climatização passiva. Nossos professores viviam o que ensinavam. Faziam brise-soleils em suas próprias casas, e nos convidavam para vermos do que eles estavam falando. Ensinavam-nos com a prática, e isso fez uma grande diferença em minha formação. A arquitetura sustentável faz parte de minha formação; não é simplesmente uma tendência atual a ser seguida.
Depois de me formar na Cal Poly senti que me faltava uma formação na questão urbana, e resolvi ir a Paris para fazer um mestrado em Architecture Urbaine (Arquitetura Urbana). Não se tratava de planejamento de cidades inteiras; o curso era direcionado para a organização dos edifícios e dos espaços públicos na escala do quarteirão, de uma Z.A.C. (zone d'aménagement concerté). Com origens no plano de Haussmann, os Z.A.C.’s possuem regras bem definidas em termos de controle da geometria, materiais dos edifícios, e mesmo a modulação de janelas. Achei que esse tipo de urbanismo era muito rígido e não muito criativo.
Em seguida, trabalhei por dois anos com Zaha Hadid, em Londres, e esse foi meu primeiro trabalho de verdade; não foi um trabalho de verão apenas. Foi uma boa experiência; o escritório era bem menor do que é hoje - agora ele tem cerca de quatrocentas pessoas. Eu entrei para trabalhar em um projeto para um concurso, e nesse período éramos dezesseis pessoas, mas depois do concurso, por muito tempo, havia apenas seis pessoas trabalhando no escritório. A dinâmica de trabalho lembrava o ambiente acadêmico. Não havia muita hierarquia; era como uma professora com seus alunos, onde todos estavam envolvidos em fazer muitas opções de projeto. O trabalho era muito criativo. Obviamente a estética era muito importante. Zaha queria sempre estudar muitas opções para achar a melhor solução. Ao mesmo tempo ela sempre teve uma filosofia de criar uma organização fluida para o programa e a circulação.
Entre outros projetos, trabalhei para ela no projeto para a Cardiff Bay Opera House, onde ela transformou totalmente a relação entre espaço público urbano e o programa tipicamente elitista do auditório. Era o inverso da Ópera de Paris do Garnier; em vez de muitas camadas ou filtros protegendo e escondendo o auditório da cidade, no Cardiff Opera House ela usou uma praça inclinada subindo da rua em frente como o lobby do auditório, expondo as funções do edifício para o público externo.
Posteriormente, trabalhei para Ken Yeang na Malásia. Foi uma boa experiência em termos de arquitetura bio-climática, e pude trabalhar em todas as fases do projeto, desde o início até os desenhos executivos e a fase de construção.
Depois de ter trabalhado para Ken Yeang fui fazer um mestrado na Columbia University, em Nova Iorque. Tive como professores Hani Rashid, Greg Lynn, Sulan Kolatan, Alejandro Zaera-Polo e Farshid Moussavi que nessa época eram sócios no FOA - Foreign Office Architects. Era um período de grandes inovações na Columbia, pois eram os primeiros anos dos paperless studios, onde tive contato com a arquitetura digital e a fabricação digital. Greg Lynn foi um dos pioneiros deste movimento, e tinha uma pesquisa muito produtiva na Columbia durante esta época, juntamente com os outros professores, como Jesse Reiser e Nanako Umemoto, Evan Douglis e William MacDonald. Nesse período, Alejandro e Farshid estavam construindo o terminal portuário de Yokohama, uma das primeiras manifestações físicas desse novo tipo de arquitetura.
Florida International University School of Architecture, Bernard Tschumi
Gabriela Celani e Maycon Sedrez: Você poderia falar um pouco sobre como que o uso de modelos paramétricos e programação entraram na sua formação, quando que você realmente começou a usar isso?
Anne Save de Beaurecueil:Comecei usar modelos paramétricos na Columbia. Mas foi interessante que mesmo no escritório de Zaha, onde ainda desenhávamos a mão, já trabalhávamos usando uma mentalidade paramétrica na produção de múltiplas alternativas. Fazíamos séries de iterações com sequências de rotações, operações de escala e morphing, como se estivéssemos produzindo isso em um computador. Essas construções geométricas eram feitas com maquetes ou mesmo desenhando, fazendo essas operações de virar, mudar a escala, mover, repetir. É porque Zaha pensa assim; ela faz muitos croquis. Mas acho que este método de trabalho talvez venha da primeira formação dela, que era matemática. Ela insistia nessa questão de ser bem rígida em como pensar a geometria. Mas ainda não havia nada como hoje em dia, de ser tudo controlado pelo computador com scriptings ou modelos paramétricos. Por isso eu fiquei muito contente na Columbia, onde comecei a usar o computador para fazer o que já estava tentando fazer a mão.
GC e MS: Quer dizer que na Columbia foi a primeira vez que você realmente passou a usar esses métodos usando o computador?
ASB: É, de gerar formas no computador, usar a matemática, usar a geometria. No fim estava criando conexões entre informação e geometria. Tínhamos muitas aulas de computação fora do studio como suporte para a pesquisa.
GC e MS: E essas aulas de computação eram dadas por pessoas de computer sciences ou por arquitetos?
ASB: Na realidade eram arquitetos, pois o José Sanchez já lecionava lá (http://ce.columbia.edu/Summer-Program-High-School-Students-NYC/Jos-Sanchez-Biography). Havia também alguns professores de arquitetura que usavam o software Maya. Greg Lynn, por exemplo. Alejandro Zaera-Polo usava o software AutoCAD, porém de uma maneira bem mais avançada, quase que paramétrica, com o edifício de Yokohama. Essa foi a primeira vez que usei elementos paramétricos, associando informações, números com formas e transformações geométricas.
GC e MS: Antes disso, no Ken Yeang, você já usava o computador, mas só para representação?
ASB: Sim, usava o AutoCAD apenas para fazer desenhos técnicos. Mas os engenheiros estavam usando programas avançados para fazer simulações em túnel de vento dos edifícios, para calcular a energia economizada pelo uso de brise-soleils e outros componentes ambientais.
GC e MS: E com Bernard Tschumi?
ASB: No escritório de Bernard Tschumi usei o software Maya para gerar a geometria dos dois edifícios de um complexo de cinco edifícios novos para a Flórida Internacional University School of Architecture em Miami, usando wind dynamics e force fields para esculpir as formas. Foi uma experiência boa e aprendi muito, porque os edifícios foram construídos e eu acompanhei todo o processo do projeto e da construção.
Depois que trabalhei com Bernard, comecei a trabalhar com Franklin Lee em nosso escritório, SUBDV, fazendo trabalhos na China e no Brasil, usando desenhos paramétricos. Nessa época comecei a ensinar no Pratt Institute. Quando Bernard deixou o cargo de diretor em Columbia, muitos professores que estavam ligados à questão do parametric design foram para o Pratt. Por exemplo, Evan Douglis que era um professor muito importante nos anos 1990 na Columbia, foi diretor do programa de graduação no Pratt. William MacDonald, outro professor muito importante na área de desenho, também se tornou diretor do programa de pós-graduação do Pratt, e posteriormente alguns de seus ex-alunos começaram a ensinar no Pratt. Ao menos três ou quatro professores todos os anos usavam desenho paramétrico; mas nem todos usavam esse método, é claro.
Havia um grupo de professores usando softwares e conceitos computacionais. Nas apresentações de projetos convidamos duas ou três pessoas que entendiam o que estávamos fazendo, além de outros que faziam coisas totalmente diferentes, promovendo uma discussão. É muito importante associar o digital design ao contexto urbano, ao desempenho climático e a outros assuntos importantes para a boa arquitetura. Franklin e eu sempre fizemos essa ligação com os outros aspectos da arquitetura, particularmente com projetos sociais e com projetos bio-climáticos. Nós queríamos fazer arquitetura, trabalhar o programa. Não queríamos fazer apenas digital design. Dessa maneira, tínhamos assunto para discutir com os outros professores que não usavam necessariamente recursos digitais; havia diálogo com eles.
Em 2004 parei de trabalhar com o Bernard Tschumi e comecei a trabalhar somente com o Franklin no SUBDV, mas continuei ensinando. Em 2005 fomos para a Inglaterra para dar aulas na Architectural Association School e gostamos muito de lá, porque em vez de um semestre tínhamos um ano inteiro para desenvolver os projetos com os alunos. Algumas vezes os projetos eram desenvolvidos ao longo de dois anos, porque os alunos faziam o quarto e o quinto anos conosco, aprofundando a pesquisa e desenvolvendo projetos mais interessantes. Sentimos que na A.A. fizemos realmente uma pesquisa em projeto, mas ao mesmo tempo havia uma pesquisa sobre o ground, sobre a arquitetura brasileira, e arquitetura social. Acho que para nós a arquitetura do Brasil sempre foi algo muito importante. Mesmo não havendo uma palavra em português para o conceito de ground, ele é totalmente brasileiro.
Centro Cultural São Paulo, Eurico Prado Lopes e Luiz Telles
Gabriela Celani e Maycon Sedrez:Você acha que o conceito de ground é inspirado na obra de Niemeyer?
Anne Save de Beaurecueil: Niemeyer, Escola Paulista, Artigas, o Museu da Escultura, a FAU-USP... esse estudo do ground quebrando as hierarquias que existiam em um edifício tradicional. Na FAU-USP, por exemplo, você entra e não há portas. Existe uma fluidez entre fora e dentro, entre os departamentos e os studios... tudo é ligado por rampas. Essas ideias exerceram grande influência sobre os arquitetos europeus dos anos 80, começando com Rem Koolhaas, Zaha, e depois FOA, MVRDV, etc., inspirados por essa arquitetura brasileira do ground.
GC: Niemeyer eu já imaginava, mas inclusive o Artigas era conhecido? O Paulo Mendes era conhecido?
ASB: Não sei se para eles. Mas para nós sim, pois fizemos o mestrado na Columbia, que tinha a parte de projeto, mas também de teoria. A Columbia é muito boa em termos de teoria. Tem a maior biblioteca do mundo de arquitetura. Eu estava fazendo uma pesquisa mais histórica. Eu fiz uma comparação entre Frank Lloyd Wright e Artigas; mostrei que Frank Lloyd Wright viajou para o Brasil e foi influenciado pela arquitetura brasileira. E também, quando ainda era estudante, Artigas foi viajou aos Estados Unidos para conhecer a arquitetura do Frank Lloyd Wright. Havia ligações entre o Guggenheim e a arquitetura brasileira da época. Todo mundo conhece Niemeyer; na minha pesquisa eu queria mostrar a outra arquitetura brasileira, a da escola Paulista, como Artigas e Mendes de Rocha, que estavam trabalhando com o conceito de ground. Há também uma nova geração, entre eles os arquitetos Eurico Prado Lopes e Luiz Telles, que projetaram o Centro Cultural São Paulo (http://www.centrocultural.sp.gov.br) entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, aplicando o conceito de ground. Pode-se dizer que esse projeto é o avô de Yokohama do FOA, porque é realmente um landscape building, um edifício de paisagem, inserido no contexto. O edifício tem uma fluidez incrível. O exterior é ligado ao interior, com uma entrada inclinada que faz continuar a calçada da rua dentro do edifício, e com todos os espaços conectados por um sistema de rampas.
Essa arquitetura do ground foi a base das pesquisas que fizemos no A.A., só que nós queríamos transformar essa arquitetura dos anos 1980, pois já nos anos 2000 ninguém mais falava do ground. Nós queríamos retomar essa pesquisa, mas de maneira mais articulada. O Yokohama é incrível, mas é muito monolítico. Não tem uma articulação para fluxos e forças menores, como os fluxos do meio ambiente, como o sol, o vento. Nós queríamos incorporar mais fluxos. Um novo tipo de articulação. Por isso criamos o conceito de articulated ground. Usar o ground dos anos 80 e 90, mas com uma articulação com as componentes mais inteligentes dos anos 2000. Todas as pesquisas de arquitetura paramétrica eram bem mais sensíveis aos fluxos de sol, vento, pessoas. Talvez o Maya fosse melhor para controlar as superfícies, mas agora, com o projeto paramétrico, podemos controlar componentes para fazer um edifício mais responsive, menos monolítico.
Essa foi mais ou menos a base das pesquisas no A.A.: considerar sempre o meio ambiente, mas com uma visão diferente da sustentabilidade ensinada por nossos professores da Cal Poly. Nós queríamos ligar o controle do meio ambiente à cultura e aos fluxos urbanos. As manipulações do ground ajudam a mediar forças culturais. Usamos o ground para articular o movimento das pessoas e as relações entre as pessoas, o programa e os eventos.
GC e MS: Você poderia falar um pouco sobre o que você acha da arquitetura brasileira e da formação do arquiteto no Brasil?
ASB: Acho que o Brasil passou recentemente por uma época em que não havia muita intensidade em termos de arquitetura interessante. Os que têm esse fundamento de arquitetura de ground são os arquitetos modernos. Estou mais interessada no projeto do ground, na ligação entre programas, do que na parte formal do moderno e do modernismo. Eu acho interessante que o modernismo importado da Europa foi totalmente transformado aqui para ser mais ligado ao meio ambiente, mais tropical. O modernismo que começou na Europa para representar uma filosofia, foi totalmente comercializado industrializado nos Estados Unidos, com a produção em massa, como nos sistemas de curtain wall padronizados. Aqui foi interpretado para criar uma coisa mais aberta, o free ground.
No Brasil, logo no início do modernismo, foi feita essa ligação entre Le Corbusier e Niemeyer dentro do escritório do Lucio Costa, esse acordo para fazer o Ministério da Saúde. Essa interação entre países e ideias é muito importante. O modernismo começou assim: o Le Corbusier veio falando de seus fivepoints, mas foi interpretado. Quando o Brasil era mais fechado havia menos conversações; parece que agora em função da economia as coisas estão mais abertas. Os arquitetos estrangeiros que estão vindo para cá não deveriam simplesmente importar as ideias de fora – eles precisam entender os materiais e a cultura local. Nós gostamos da ideia do high-low para introduzir tecnologias novas dentro do contexto brasileiro. Existe esse estudo do high tech de lá, mas como misturar isso com as baixas tecnologias daqui? É uma maneira de introduzir tecnologias do exterior, mas com coisas de baixa tecnologia de projeto. Por exemplo, usar materiais reciclados com componentes para encaixes fabricados em máquinas de corte a laser ou fresadoras CNC. É preciso repensar o que é universal, a arquitetura contemporânea, de uma maneira mais brasileira, usando técnicas locais, usando culturas locais. Acho que é uma coisa que está começando no Brasil, havendo essa fase de troca de ideias com arquitetos daqui, podemos ter novamente o que aconteceu nos anos 30 com Le Corbusier e Niemeyer, e criar uma nova geração de arquitetura brasileira.
FAU-USP
Gabriela Celani e Maycon Sedrez:Você poderia falar um pouco sobre o que você acha da formação do arquiteto brasileiro? Você acha que o arquiteto brasileiro está preparado para, por exemplo, como você, ir trabalhar com o Ken Yeang a Zaha Hadid? Está preparado para enfrentar arquitetura no mundo?
Anne Save de Beaurecueil: De uma maneira sim, porque aqui é tudo muito prático. Eles podem entrar em um escritório e ser úteis; parece que todos os alunos fazem estágio. Acho que este é um ponto positivo. Por outro lado, como eles têm oito matérias e trabalham todos os dias, eles têm menos foco na pesquisa, menos foco no projeto Simplesmente porque eles têm menos tempo. Não é que eles não queiram, eles têm energia, são inteligentes, são animados para aprender a fazer, mas parece que não têm o tempo. Acho que é o luxo da A.A.: ninguém trabalha. Em Nova Iorque, também, ninguém trabalha durante o ano acadêmico. Eles trabalham apenas durante o verão, durante as férias, mas ninguém trabalha durante o ano. Além disso, eles fazem apenas quatro outras matérias e se concentram mais no projeto, são mais produtivos, o que no fim eu acho que ajuda muito para criar arquitetos que vão fazer arquitetura original e criativa em cinco anos. Quando estudei na Cal Poly, as pessoas me diziam: “você vai achar um trabalho muito facilmente, pois está tendo uma formação muito técnica”. Mas depois grande parte dos arquitetos que saem da Cal Poly não abre seu próprio escritório; no início, a maioria trabalha como cad monkeys e só depois de uns cinco anos, alguns começam a fazer seu próprio trabalho, mas a maioria não faz um trabalho muito inovador porque não havia este tipo de formação durante a escola. É importante de ter uma boa educação não só na parte técnica, mas em projeto, em pesquisa, ter um tempo para realmente desenvolver a sua própria pesquisa em projeto.
GC e MS: Ainda com relação à formação do arquiteto no Brasil, você acha que a falta de formação na maioria das escolas na área de fabricação digital, arquitetura paramétrica, é um problema, uma dificuldade para depois ir para o mercado exterior?
ASB: Sim, mesmo aqui, porque a construção é tão atrasada em comparação às outras indústrias brasileiras que são bem mais avançadas. Se os arquitetos não estiverem usando técnicas novas eles não vão pressionar a indústria de construção para mudar. Nós estamos fazendo um projeto agora e todo construtor que encontramos está tão fechado às novas tecnologias. Acabamos buscando pessoas que produzem barcos, pois eles são os únicos abertos, que entendem a nossa língua. Eles usam Rhino, eles fazem objetos paramétricos, usam superfícies curvas. Então acho que, para realmente avançar na construção, é preciso começar com os alunos, pois eles irão pressionar a indústria, irão inspirar a indústria. Isso ocorre em todo lugar. Na Inglaterra há muitas empresas que realmente podem fazer coisas mais complicadas, mas isso também começou com a demanda dos arquitetos, e hoje outros escritórios podem usar essas tecnologias mais avançadas. É muito importante incorporar essas novas tecnologias à cultura dos arquitetos; não pensar isso apenas como uma novidade, pois isso pode economizar muito tempo em termos de projeto, e dinheiro em um escritório. É uma maneira de avançar e de fazer coisas mais inovadoras, mais interessantes, não apenas repetir coisas que estão acontecendo lá fora. É preciso fazer essa fusão da arquitetura, da cultura brasileira com a nova tecnologia que vem de fora.
Changsha Cultural Complex, SUBDV
Gabriela Celani e Maycon Sedrez:Havia também pessoas da área de matemática e computação nessa equipe trabalhando na A.A.?
Anne Save de Beaurecueil: Não na equipe, diretamente, mas dentro do Specialist Modeling Group (SMG) do escritório de Norman Foster. Havia, por exemplo, o Hugh Whitehead. que começou o SMG., o Robert Aish, que criou o Generative Components, e o filho dele, Frank Aish, que ainda trabalha com o Norman Foster. A pessoa do SMG com quem trabalhamos era o Adam Davis, que estudou matemática antes e depois fez arquitetura no Institute of Architecture de Penn (University of Pennsylvania). Começamos com o Generative Components, mas depois o Grasshopper virou uma ferramenta importante nos anos de 2008-2009. Gostamos de Rhino, pois facilita a fabricação digital. Tudo começava no Generative Components, no Maya, mas tudo tinha de ser finalizado no Rhino. Com o Grasshopper podíamos fazer tudo no Rhino.
Uma coisa boa na A.A., que ajudou nossa pesquisa, foi trabalhar diretamente com engenheiros dos escritórios Buro Happold e Arup. Além disso, podíamos contar com pessoas do Specialist Modeling Group de Norman Foster, que ofereciam workshops de Generative Components. Nessa época, antes de 2008, algumas grandes empresas inglesas estavam colaborando muito com as universidades. Era uma maneira de desenvolver pesquisa.
GC e MS: Quer dizer que, como professora de projeto, você tem tido melhores resultados com o Grasshopper do que você tinha com antes com o Generative Components?
ASB: Não sei. Bons resultados não estão ligados ao software usado. O que é mais importante é a criatividade e a inteligência do design. A última vez que nós usamos o Generative Components os alunos fizeram projetos muito legais. Nós nunca ensinamos somente um software; oferecíamos workshops e os alunos escolhiam; o software não era a coisa mais importante. Muitas coisas eram feitas a mão, mas quase todo mundo no studio tentava usar softwares paramétricos ao menos para a parte inicial do projeto. Na A.A. dá-se muita independência aos alunos. Por exemplo, se eles querem usar apenas Excell e FormZ, eles podem. Mas eles precisam ter o mesmo rigor, produzir o mesmo tipo de experimentações e obter a mesma qualidade de resultados que se estivessem usando os programas mais sofisticados. Dentro do Unit [disciplina de projeto] oferecíamos workshops, mas, além disso, os alunos tinham cursos de Media Studies de seis semanas, e outros workshops de um dia para aprender a usar os programas. Apesar da disciplina de projeto ter apenas duas aulas semanais, os alunos trabalhavam muito fora do horário de aula. O treinamento de Grasshopper e de Generative Components, por exemplo, era dado era um Sábado ou em sessões à noite, para podermos ter os professores do Foster, pois eles não tinham disponibilidade para vir durante o dia. Eu também participava com os alunos, para ir aprendendo. Comecei ensinando o que eu já conhecia, mas depois convidei pessoas de fora e fui avançando meu conhecimento.
GC e MS: É interessante ter as oficinas em paralelo com o desenvolvimento do processo. Você acha que em algum momento a falta de conhecimento das ferramentas prejudicava o desenvolvimento do projeto na disciplina?
ASB: No início, como em todo lugar, as pessoas acham muito difícil aprender tudo. Nós dizemos que as primeiras quatro semanas de aula são o bootcamp, o treinamento básico. Mas como os alunos da AA fazem poucas disciplinas - história, matemática e estrutura, matérias com menor carga horária - eles têm mais tempo para se dedicar à disciplina de projeto, especialmente no início do ano, para aprender a usar os programas. Nós também trabalhávamos muito com os engenheiros e com o diretor do programa de Sustainable Environmental Design, Simos Yannas para ajudar a desenvolver as partes mais técnicas dos projetos.
Quando dávamos aula no Pratt, em Nova Iorque, éramos mais ditadores; todos os alunos deviam seguir nossa metodologia. Mas na A.A. precisávamos ser mais abertos. Isso funciona muito bem para alunos bons; eles encontram a sua própria maneira de trabalhar dentro do framework que nós oferecemos. Eles sabem o que você está propondo em termos de uma estrutura, mas eles fazem coisas que lhes interessam, encontrando outras forças e influências. Eu e Franklin gostamos disso; quando temos alunos bons funciona muito bem. Por outro lado, quando tínhamos alunos que queriam um projeto muito fora da realidade, era mais difícil. Nós os aconselhávamos a elaborar uma estrutura ou a seguir nossa sugestão, pois sabíamos que iria funcionar. Essa é a coisa mais difícil da A.A.: você tem toda a liberdade de propor o que quer, de fazer o que quiser com os alunos, ninguém te fala nada em termos do que fazer, mas no fim do ano você não tem direito de mudar a banca, que é escolhida pelo diretor. Na banca sempre há alguém que simpatiza com a pesquisa e alguém que pode ser totalmente contra. Esses três ou quatro professores convidados decidem se o aluno é aprovado ou não. Não havia notas A, B ou C; apenas pass ou fail, e às vezes era muito difícil. No fim do ano os alunos precisavam saber explicar os projetos de uma maneira que os professores entendessem, tratando dos assuntos que interessavam a eles; assuntos mais gerais, mais ligados a questões urbanas. Isso era muito bom, pois tínhamos a oportunidade de fazer uma coisa bem focada na nossa pesquisa, mas também éramos forçados a pensar em outros aspectos. Enfim, era sempre como uma luta para defender a nossa pesquisa, e isso nos ajudou a avançar, porque aprendemos como argumentar melhor. Em Nova Iorque era muito fácil: convidávamos para a banca final todos os nossos amigos, nossos antigos professores... era quase como uma festa. Era bom, mas às vezes não havia crítica. As pessoas eram muito diplomáticas. Na A.A. eu acabei me tornando mais crítica com os alunos.
Terminal Internacional do Porto de Yokohama, FOA Arquitetos, 1995-2002
Anne Save de Beaurecueil
Graduada em Arquitetura pela California Polytechnic State University, com Pós-Diploma em Arquitetura Urbana pela Ecole d'Architecture de Paris e mestrado em Advanced Architectural Design: Columbia University. Foi diretora e professora em São Paulo e Rio de Janeiro da Architectural Association Visiting Schools, professora do Diploma Unit 2 Masters – Graduação na Architectural Association School (A.A. School), e Professora Visitante de Pós-Graduação do Pratt Institute. É diretora e sócia do SUBdV Architects, São Paulo.
Gabriela Celani
Graduada em Arquitetura e Urbanismo pela USP, mestre em Arquitetura e Urbanismo – Estruturas Ambientais Urbanas pela USP, PhD em Computational Design pelo Massachusetts Institute of Technology, tem livre docência em Informática Aplicada pela UNICAMP e pós-doc pela Universidade Técnica de Lisboa. Leciona na UNICAMP desde 2004, onde coordena o Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção (LAPAC).
Maycon Sedrez
Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Regional de Blumenau e mestrado em Arquitetura e Urbanismo – Planejamento e Projeto de Arquitetura pela UFSC. Desenvolve pesquisa de doutorado em Arquitetura, Tecnologia e Cidade – Tecnologias do Projeto pela UNICAMP, com bolsa da CAPES.
A entrevista foi realizada no LAPAC – Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção, na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Campinas, SP, Brasil.
Entrevista
A entrevista foi realizada no dia 1 de outubro de 2012