português O arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho, editor por dois anos da revista Acrópole, teve durante as décadas de 1950 e 1960 uma grande inserção no meio arquitetônico paulista, com diversos projetos publicados e premiados
español Entrevista con Rodolfo Ortenblad Filho, editor de la revista Acrópole durante dos años, importante arquitecto en los años 1950 y 1960 en la ciudad de São Paulo, y con varios premios y proyectos publicados
Rodolpho Ortenblad Filho em seu apartamento, janeiro de 2010
O arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho, logo após a conclusão do curso de arquitetura na Universidade Mackenzie, em 1950, teve a oportunidade de viajar para os Estados Unidos, motivado pela vontade de conhecer as “obras modernas”, que até então só havia visto em revistas. É flagrante a influência que esta viagem teve na sua forma de ver arquitetura, que acabou se refletindo na concepção de seus projetos.
Página do livro de Marlene Acayaba com a segunda casa de Rodolpho Ortenblad Filho projetada para sua família
Não é de se estranhar que os projetos residenciais de Ortenblad em geral são citados em trabalhos acadêmicos – infelizmente, em pouco número de vezes – em contextos que relacionam a produção arquitetônica residencial paulista e a casa moderna norte-americana. É o caso, por exemplo, da tese de doutorado de Adriana Irigoyen, onde aparecem as duas residências projetadas por Ortenblad para sua família, além de três séries projetadas para o Inocoop, em um total de dez tipologias de casas para classe média (1). E, no seu já clássico livro sobre as residências modernas em São Paulo, Marlene Acayaba incluiu a segunda casa própria projetada por Ortenblad em uma coleção que inclui projetos dos maiores arquitetos modernos de São Paulo do período abordado pela publicação (2).
ORTENBLAD FILHO, Rodolpho. Uma residência de Frank Lloyd Wright. Acrópole, São Paulo, n. 180, out. 1953, p. 451-453.
A obra de Ortenblad foi notada e respeitada no meio profissional, como atestam diversos depoimentos atuais de colegas de sua geração e a publicação de duas de suas casas na revista japonesa World's Contemporary Houses, ladeadas pela Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi, a Casa do Morumbi, de Oswaldo Bratke, a Casa de Canoas, de Oscar Niemeyer, a Casa Milton Guper, de Rino Levi, e casas de importantes arquitetos da Argentina, México e Uruguai.
ORTENBLAD FILHO, Rodolpho. A arquitetura de Richard Neutra. Acrópole, São Paulo, n. 230, dez. 1957, p. 56-57
Rodolpho Ortenblad Filho realizou centenas de projetos entre os anos de 1950 e 1984, muitos deles publicados na revista Acrópole – da qual foi diretor de 1953 a 1955, período correspondente às edições 182 até 200. A relação de Ortenblad com a Acrópole transcende o período em que esteve na redação, pois antes e depois publicou artigos e teve seus projetos igualmente publicados por outros editores. Durante todo o período em que esteve ativo na profissão demonstrou enorme apreço pela produção arquitetônica norte-americana, publicando artigos comentando projetos de Frank Lloyd Wright e Richard Neutra, este último merecedor de uma admiração especial.
ORTENBLAD FILHO, Rodolpho. A arquitetura de Richard Neutra. Acrópole, São Paulo, n. 232, fev. 1958, p. 152-154.
Os projetos realizados por Rodolpho Ortenblad Filho contemplam programas diversos – escola, clube, indústria, residência unifamiliar, edifício de escritório etc. – e sua trajetória de vida, rica de situações notáveis, conferem a esta entrevista um enorme interesse para os amantes da arquitetura moderna brasileira.
notas
1 ACAYABA, Marlene Milan. Residências em São Paulo: 1947-1975. São Paulo, Projeto Editores, 1987-2005, p. 95-100.
2 IRIGOYEN DE TOUCEDA, Adriana Marta. Da Califórnia a São Paulo: referências norte-americanas na casa moderna paulista 1945-1960. Tese de doutorado. Orientador Paulo Bruna. São Paulo, FAU USP, 2005, p. 354-365.
3 World’s Contemporary House, n. 5, Tóquio, 1954, p. XXX-XXX.
Edifício Parque Siqueira Campos, São Paulo. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Turma de formandos do Curso de Arquitetura da Faculdade Mackenzie de 1950. Abaixados (da esquerda): 2º Diogo Faria Cradoso; 4º Arnaldo Paoliello. Em pé ao centro (da esquerda): 1º Vicente Ignati; 2º Rodolpho Ortenblad Filho; 3º Jorge Isciter; 4º Marino Ba
Sabrina Souza Bom Pereira e Abilio Guerra: O senhor entrou na universidade para estudar engenharia. O que o levou a se transferir para o curso de arquitetura?
Rodolpho Ortenblad Filho: Eu nasci no Rio de Janeiro e de lá vim para São Paulo com dezesseis anos. Meu pai, diretor da filial carioca da Pirelli na ocasião, foi transferido para cá. Eu estranhei muito, mas teve um aspecto positivo: eu fui estudar no Mackenzie, onde o ambiente era muito alegre. A escola não era grande, tinha basicamente a Escola de Engenharia. Arquitetura era um curso que dependia de matérias técnicas do curso de engenharia – Resistência dos Materiais, Cálculo Vetorial, Cálculo Estrutural –, enfim, era tudo em comum com a engenharia.
Eu entrei na engenharia por pressão familiar. Meu avô, o dinamarquês Artur Ortenblad, era engenheiro, com uma formação mais na área de agrimensura. Meu tio Alberto também era engenheiro e defendeu uma tese nos Estados Unidos, no MIT, sobre resistência dos materiais e mecânica de solos. Realizou um trabalho muito bom, que é consultado até hoje.
Eu me adaptei bem ao espírito do Mackenzie, mas fui reprovado duas vezes seguidas na disciplina de Cálculo Estrutural pelo professor Sonino. Um dia ele me disse: “Rodolpho, você não vai ser bom engenheiro; você vive enfiado no ateliê dos arquitetos, então por que você não muda logo para a arquitetura? Eu vou te reprovar outra vez...” Decidi mudar, pois naquela época era possível fazer isso; eu tive que fazer cadeiras que faltavam de arquitetura e acabei perdendo um ano. Aí entrei para o ateliê dos arquitetos!
Naquela época o Curso de Arquitetura, que depois se tornou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, tinha pouquíssimos alunos, porque o curso durava seis anos. Ninguém queria saber de arquitetura, fazia engenharia. O diretor Christiano Stockler das Neves teve muito valor, pois ele conseguiu manter o curso de arquitetura com pouquíssimos alunos – alguns anos tinham apenas um aluno! Quando eu entrei na faculdade, o curso passou a ser de cinco anos.
Cadeira Aflalo, desenho executivo, Branco e Preto. Design de Roberto Aflalo
SSBP/AG: Qual o ano de seu ingresso no curso de arquitetura?
ROF: Entrei em 1947 e me formei em 1950. A minha turma já era maior, com dezenove alunos, da qual fazia parte gente muito competente, que se realizou bem na profissão. Eu era colega de Roberto Aflafo, um excelente designer de móveis, fundador da loja Branco e Preto com Miguel Forte e Jacob Ruchti; eram também da minha turma o Arnaldo Paoliello, até hoje um arquiteto muito competente, e o Carlos Lemos, hoje professor da USP, que adotou a carreira de pesquisador da história da arquitetura colonial brasileira.
Vou fazer um parêntese para contar uma viagem muito interessante que fiz com Carlos Lemos. Um dia ele me convidou para ir para Minas Gerais conhecer o Desemboque, que na explicação que o Lemos me deu na época era uma coisa interessantíssima: “três igrejas, das quais só restam as paredes em um descampado, vestígios de uma vila de mineração; as casas, precárias, foram construídas durante a exploração de ouro naquela vila. O ouro do rio acabou e as casas, de material precário, acabaram caindo, restando apenas cinco”. Eu ouvi a explicação e disse: “muito bem, vamos prá lá!” Não tinha estrada para chegar no tal de Desemboque.
Igreja de Nossa Senhora do Desterro, Desemboque
SSBP/AG: Vocês eram estudantes ainda?
ROF: Não, já estávamos formados. Fomos para o Desemboque, que ficava perto de Araxá. Era um descampado de capim baba de bode, não tinha estrada. Nós perguntávamos:“onde ficam aquelas três grandes igrejas do Desemboque?” e o pessoal respondia “é prá lá”. Fomos por cima do capim, com uma Rural com tração em quatro rodas e três marchas, até chegarmos no tal do Desemboque. Eu fiquei impressionado: eram três igrejas enormes, com uma escala fora do comum e paredes de alvenaria de pedra com 1,5m de espessura. De fato, só tinham cinco casas, onde moravam pessoas muito idosas. As mulheres eram rendeiras e nós fomos hospedados por um casal muito idoso, cuja casa tinha dois quartos, então ficamos em um deles. Depois saímos do Desemboque e fomos para outra cidade, Passo Bonito, que ficava na parte baixa de uma serra. A estrada era cavada na terra em patamares e tínhamos que botar uma roda aqui, outra ali, uma verdadeira loucura. Bom, esses são episódios da época que comecei a fazer arquitetura.
SSBP/AG: Voltando para o tempo de faculdade, como eram as aulas?
ROF: O Christiano Stockler das Neves gostava somente de arquitetura neoclássica e nós tínhamos uma estratégia para interromper a aula dele. Eu assinava muitas revistas de arquitetura, principalmente as norte-americanas, e punha uma pilha sobre a minha mesa. Quando o Christiano entrava na sala, sempre dizia bravo: “Ortenblad, o que é isso aí? Essa arquitetura decadente, germânica, não é para o nosso clima”.Nós fazíamos um círculo em volta dele e polemizávamos com o professor, principalmente eu, o Aflafo e o Paoliello; o Carlos Lemos é mineiro, mais quieto, não participava tanto. Às vezes chegava também o Plínio Croce, que estava um ano acima de nós. Ele – que era bravinho, baixinho – falava assim: “professor, assim não dá”. E o Christiano respondia: “como não dá? Vocês têm que fazer arquitetura neoclássica, que é a tradição americana do século 19”. Na época, ele fez a estação da Estrada de Ferro Sorocabana, hoje estação Júlio Prestes, que se transformou em sala de concertos. Ela é bonita, mas baseada em um estilo totalmente antiquado. Naquela época, Le Corbusier, Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright e todos os pioneiros faziam uma arquitetura totalmente desligada dessa tradição romântica.
SSBP/AG: Quais eram os outros professores?
ROF: Pedro Corona, professor de desenho artístico, nos levava para o jardim do Mackenzie, que tinha uma vegetação exuberante e um campo enorme de futebol; ali, ao ar livre, nós pintávamos com aquarela, em várias técnicas, inclusive cryon. Pedro Corona era um bom professor. Tínhamos também perspectiva, curso ministrado pelo professor Kosuta. Resistência dos materiais era dada pelo professor Evaristo Costa. Esses eram os principais professores na época.
SSBP/AG: Havia cadeira de urbanismo nesta época?
ROF: Sim, mas era só no último ano e dado muito superficialmente. O básico mesmo era projeto. Quando eu estava no 3º ano, nós fizemos greve, para modificar o sistema de ensino. Fomos procurar o professor Christiano e dissemos:“nós queremos fazer arquitetura contemporânea, com temas sociais, residências etc.” e ele respondeu: “isso eu não sei dar; comigo vocês não vão fazer não”. Ele indicou um amigo, provavelmente um discípulo dele, para conversar com a gente. Esse amigo, o Fernando Martins Gomes, era bom arquiteto e fez muitas residências em estilo neocolonial, mas de muita qualidade. Em uma rua sem saída do Jardim América, saindo da praça Guadelupe – rua Iucatan, se não me engano –, ele fez duas residências muito boas. O Fernando era sensível às nossas propostas; às vezes, dizíamos: “queremos fazer uma clínica de múltipla utilidade” e ele, que havia nos passado o programa de um anfiteatro de faculdade, permitia que fizéssemos o que queríamos, colaborando com um programa que devíamos seguir. Ele não influenciava muito com críticas nos projetos, mas depois eles eram submetidos a um julgamento, por uma comissão de avaliação. Na formatura nós pedimos para projetar um campus universitário e ele aceitou. Todos nós fizemos o projeto de um campus universitário como trabalho final e me formei em 1950.
SSBP/AG: Que tipo de programa o Christiano Stockler das Neves pedia para vocês fazerem?
ROF: Coisas como pavilhão lateral de um palácio, fonte em estilo greco-romano em um parque... Faço novo parêntese para contar uma memória que me ocorreu: eu tive que fazer um projeto com este programa quando estava na fazenda do meu avô. Tinha lá uma sede em estilo normando e coloquei uma mesa de desenho no sótão. Fazia um calor terrível, mas de lá podia divisar, a cerca de 50m de distância, uma figueira branca linda! Eu me encantei com a árvore e comecei o projeto por ela. A folha de papel era de tamanho padrão e a figueira encheu praticamente a folha inteira, sobrando um cantinho para a fonte em estilo greco-romano. Mas eu coloquei lá uma fonte em estilo dórico, que era o mais simples, e ela ficou lá no cantinho, pequenininha. Eu apresentei o projeto no julgamento para uma comissão de notas, formada por professores de outras instituições, convocada pelo professor Christiano. Então ele se aproximou e disse assim: “Ortenblad, cadê a fonte? Você fez projeto de uma árvore?” Aí todo mundo, inclusive o pessoal da comissão, deu risada. Eu respondi: “professor, não agüentei: essa árvore me impressionou muito”.De pronto, ele retrucou: “Tá bom, desta vez passa”. Eu era bom aluno e ele gostava muito de mim.
SSBP/AG: Como era o ateliê?
ROF: Nosso ateliê era um pavilhão grande, pé direito alto e todo mundo tinha uma prancheta grande exclusiva. Os trabalhos eram colados na prancheta com fita colante e eram rubricados, pois era proibido fazer em casa ou pedir ajuda a terceiros. E tínhamos também um bom armário para guardar todo o material. Os julgamentos eram feitos depois de um prazo determinado. Na ocasião, os projetos eram afixados na parede e uma comissão era convocada para dar notas. Bem, não eram exatamente notas, eram menções, primeira, segunda, terceira menção.
Edifício George Chanberlain, Universidade Mackenzie
SSBP/AG: Alguma lembrança em especial do ateliê?
ROF: Quando chegava no último dia antes da entrega dos projetos, muitas vezes a gente varava a noite, porque podíamos entrar à noite para fazer o projeto. O ateliê ficava aberto e o ambiente era muito agradável. Na nossa turma tinha um personagem interessante, o Willian Branco Trindade. Seu nome artístico era “Billy Branco” e era músico de vocação. Ele entrou na arquitetura e morava no pensionato Chanberlain, que ficava ao lado do ateliê. Essa figura tornou-se um grande sambista, tanto que meu filho Sérgio copiou matéria de dez páginas sobre ele na internet. Ele escreveu a Sinfonia do Rio de Janeiro, a Sinfonia Paulistana e outros sambas antológicos. Ele era um grande compositor, mas nas noitadas ele ficava batucando o tempo inteiro e não entregava nada.
Capa de disco de Tom Jobim e Billy Blanco
SSBP/AG: As aulas eram durante o dia?
ROF: Sim, e podíamos trabalhar à noite. Todos nós estagiávamos nos poucos escritórios da época. O principal para minha formação foi o escritório do Oswaldo Bratke. Ele morava na rua Avanhandava e tinha o ateliê ao lado, um pavilhão grande com umas vinte mesas. Todo mackenzista queria uma mesa lá e eu consegui isso graças ao Arnaldo Paoliello, que já era estagiário do Bratke. Depois passei uma temporada no escritório do Rino Levi. Na faculdade, já trabalhávamos – eu, o Arnaldo, o Marino Barros... Este último era perfeccionista e tornou-se um grande construtor; apesar de ser arquiteto, gostava mais da parte de construção, tanto que, depois de formados, nós encaminhávamos os projetos das residências para ele construir.
SSBP/AG: Qual era seu contato com a arquitetura norte-americana?
ROF: Em primeiro ligar através de assinaturas de revistas, muitas delas especializadas em residências, como é o caso da Progressive Architecture, da Architectural Record – esta, exclusivamente dedicada a residências, a L’architecture d’Aujourd’Hui – esta não era americana, era sobre arquitetura européia. Eu assinava estas revistas com um italianinho que fazia ponto na escola. Eu comprava muitos livros também. Lembro-me bem de um livro que gostava em especial, o Sun & Shadow (Sol e Sombra) do Marcel Breuer, que era um livro muito bom e importante. Eu adquiria todos os livros que saíam sobre Richard Neutra e Frank Llloyd Wright. Eu me considero um autoditada, pois, do ponto de vista de aulas, nós não tínhamos um professor que viesse dizer o que devíamos olhar. Nós somente escolhíamos temas, passávamos isso para o Fernando Martins Gomes – obviamente, após o Christiano ter passado sua cadeira de projetos para o amigo, depois de desistir de nós, pois brigávamos o tempo todo. O Fernando Martins Gomes está vivo, que eu saiba está muito bem, com mais de noventa anos de idade.
Viagem de Rodolpho Ortenblad Filho pelos Estados Unidos e Europa, com percurso recuperado a partir das entrevistas
Sabrina Souza Bom Pereira e Abilio Guerra: Como foi que aconteceu sua viagem para o exterior?
Rodolpho Ortenblad Filho: Eu queria conhecer arquitetura de qualidade, tanto dos Estados Unidos como da Europa. Eu pedi a viagem de presente ao meu pai e ele me deu, inclusive unindo o útil ao agradável. Ele me disse na ocasião: “você fica um ano fora e me traz um carro”. Naquela época, quem ficasse um ano fora do país podia trazer um automóvel sem pagar impostos, o que era muito vantajoso, pois o Brasil não tinha indústria automobilística e os carros importados eram muito caros. Então eu embarquei em Santos, em um navio frigorífico, da empresa Delta, que tinha acomodação para oitenta passageiros. No navio eu tive que falar inglês, pois quase todos passageiros eram norte-americanos. Foi uma viagem muito boa, o navio era muito confortável, tinha piscina com um deck muito bom, onde o almoço era servido; tomei tanto sol que cheguei a ficar desidratado. O navio aportou em Nova Orleans, cidade de origem e formação francesa, na ocasião em plena efervescência. Como eu gosto muito de jazz, frequentava aqueles bares onde a orquestra tocava no meio de um círculo e os expectadores ficavam em volta; vi e ouvi Louis Armstrong e vários nomes que se tornaram ícones do jazz. Há pouco tempo a cidade foi praticamente destruída por um furacão, mas na época era muito alegre e muito interessante, até do ponto de vista arquitetônico.
Casa da Cascata, Pennsylvania. Frank Lloyd Wright
SSBP/AG: Nos Estados Unidos, o senhor foi conhecer o que viu nas revistas?
ROF: A minha viagem não foi só de pesquisa arquitetônica, pois queria conhecer a cultura americana. Após desembarcar em Nova Orleans, comprei um carro e com ele comecei a viagem sozinho; como dava carona para mochileiros, fui desenvolvendo minha fluência em inglês. Segui pelo Leste passando vários por museus e parques nacionais, que eram muito bonitos. Também conheci a Louisiana, que tinha uma formação original holandesa. Como era difícil estacionar carro – já naquela época os motoristas tinham muitos problemas para estacionarem os carros nas cidades maiores –, eu desenvolvi um estratagema: alguns quilômetros antes de uma cidade grande eu me hospedava em um motel de beira de estrada, que eram muito bons e baratos, e somente depois eu ia visitar a cidade. Passei por Nova York, onde fiquei uns quinze dias e conheci a boa arquitetura – o Guggenheim, a sede das Nações Unidas, os edifícios de Mies van der Rohe e Philip Johnson – e depois fui até Quebec, no Canadá, voltando posteriormente por outro itinerário. Passei por Chicago, visitando algumas obras do Frank Lloyd Wright, que naquela época já eram preservadas – a Casa da Cascata, por exemplo, já não era mais habitada. Passei também por Detroit e retornei a Nova York, que estava em plena temporada turística.
Edifício da Nações Unidas, Nova York. Arquitetos Oscar Niemeyer e Le Corbusier
SSBP/AG: A viagem para o Canadá aconteceu por curiosidade ou havia algo que do seu interesse?
ROF: Não, fui por curiosidade. A arquitetura lá era muito tradicionalista naquela época. Em 1990 eu voltei ao Canadá e vi boa arquitetura moderna. Depois de voltar do Canadá, parti para Europa.
SSBP/AG: Como foi sua viagem para a França?
ROF: Bem, a única forma que encontrei para levar o carro foi embarcá-lo em um navio cargueiro grego. Foram quinze dias de viagem entre Nova York e o porto de Le Havre, relativamente próximo a Paris. Eu gostava muito de viajar de navio. Outro parêntese: no tempo de estudante no Mackenzie, participávamos do “MackNav”, competição entre Mackenzie e a Escola Naval. Eu e meus irmãos – os três bons nadadores – embarcamos uma vez em um destróier no porto de Santos. Era malandragem dos alunos da Escola Naval, pois o destróier é que nem um cabrito, balança muito, fazendo os novatos enjoarem, caso de um dos meus irmãos, que enjoou de uma forma feia. Ele era o melhor nadador da escola em grandes distâncias e chegou no Rio de Janeiro, nosso destino, muito abalado. Eu não, pois não enjoo.
Porto de Le Havre, França
SSBP/AG: Como foi quando chegou lá?
ROF: Era verão de 1951 e minha futura esposa, Vilma, ganhou uma viagem do pai para a França, para onde foi acompanhada de duas amigas e suas respectivas avós. Pensei: vou aproveitar e me encontrar com a Vilma. Viajei em um cargueiro usado para comboio durante a guerra. Chamava-se Liberty Chips, um navio horroroso, que só levava, além da tripulação, cinco passageiros. Os companheiros de viagem não eram muito agradáveis: um, professor primário, era muito ignorante; outro, um norte-americano, vivia acabrunhado; o comandante, vivia bêbado... No Atlântico Norte, pegamos uma tempestade com ondas de mais de 5m e o navio parecia que ia se desconjuntar. Depois de cinco dias, a tempestade passou e eu pedi ao comandante para descer ao porão, preocupado se meu carro estava inteiro. Estava bem amarrado!
Quando cheguei à Europa, dei carona para este professor primário até Paris, onde me encontrei com Vilma e suas amigas. Éramos namorados; eu quis ficar noivo antes da viagem, mas minha sogra não deixou. Ela disse:“você vai arrumar uma francesa e vai deixara a Vilma mal vista”. Mas eu me encontrei com ela e me engajei no passeio que ela organizou. Elas iriam fazer uma viagem de ônibus pela Europa e eu logo fiquei amigo do guia. O rapaz disse assim:“tem um banco lá atrás, você pode ficar lá; mas tem um detalhe importante: nas paradas você vai ter que arrumar lugar para dormir, pois você é carona e não pode participar da hospedagem”.Percorremos toda a Provance, e conheci suas cidades muito interessantes com sua arquitetura medieval; depois passamos pelas Rivieras francesa e italiana, por Monte Carlo, pela República de San Marino. Voltamos pela Suíça, conhecemos uma parte do sul da Alemanha e o norte da França, passmos por Paris e descemos até Marselha, onde Vilma embarcou em um navio, retornando ao Brasil.
Palácio da Assembleia Legislativa, Chandigarh, India
SSBP/AG: Mas você continuou por lá, não é mesmo?
ROF: Eu tinha uma boa indicação, de um arquiteto português amigo do Carlos Lemos, que conheci aqui em São Paulo. Quando ele me disse que já tinha trabalhado no ateliê de Le Corbusier e que estava voltando para lá, eu disse: “será que você não me arruma uma prancheta para ficarmos juntos?”. Ele me respondeu: “Vamos ver. Lá muda muito, tem um revezamento muito grande; sabe, são arquitetos do mundo inteiro, um cai fora, o outro volta”. Quando cheguei a Paris, eu tinha o endereço desse arquiteto português e o procurei. Quando ele me viu, disse: “você deu sorte, tem uma mesa, mas é lá no fundo; você quer entrar?”. Quando disse que queria, ele completou: “então vai lá numa manhã e se inscreve”. Eu fui, me inscrevi, apresentei um currículo, fui chamado e trabalhei lá durante três meses no detalhamento de um palácio de Chandigarh. Le Corbusier estava na época projetando os edifícios públicos da nova capital do Estado de Punjab, na Índia. Uma vez, ele parou na minha mesa e me perguntou em francês: “você é brasileiro?” Ele queria saber sobre o Brasil, não tanto sobre a arquitetura, mas principalmente como era o país. Eu disse: “lá é tudo grande, professor, tudo muito grande; as propriedades agrícolas são enormes, têm rebanhos de 30, 40 mil bovinos”.
SSBP/AG: Ele já tinha vindo para o Brasil, não é?
ROF: Já tinha, mas conhecia só o Rio de Janeiro e um pouquinho de São Paulo. Ele se limitou a dar assessoria para o projeto do Ministério de Educação e Saúde, a convite do Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde. Capanema era um homem muito inteligente, evoluído. Já existia um projeto para o ministério em estilo, vamos dizer, “eclético” (rs), ganhador de um concurso que foi anulado. Foi constituída uma equipe formada pelos arquitetos brilhantes da época, chefiada por Lúcio Costa, da qual fazia parte Oscar Niemeyer e Affonso Eduardo Reidy, que era excelente arquiteto. Posso fazer um parêntese? Em Paris, nós tínhamos um grupo que se reunia no Café du Flore, do qual participavam vários brasileiros, como o médico Ivo Pitanguy e um arquiteto da equipe do MES, o Ernani Vanconcellos. Ele me confidenciou que, de todos os arquitetos da equipe, o mais influente era o Affonso Eduardo Reidy, que, de certa maneira, era o chefe da equipe. Retomando o fio da meada, lembro que Le Corbusier nunca falava de arquitetura, ele comparecia relativamente pouco no escritório e tinha muitos assessores de caráter internacional. O ateliê era perto do meu hotel e eu ia andando até lá; o escritório do Le Corbusier ocupava parte de um porão enorme, dependente de iluminação artificial. Nós tínhamos que comer fora: não tinha nem cozinha, só tinha banheiro!
SSBP/AG: Depois do estágio com Le Corbusier, o que aconteceu?
ROF: Quando eu encerrei o detalhamento que estava fazendo, resolvi viajar. Eu encontrei por acaso dois brasileiros que iam fazer um circuito enorme de carro. Eram dois irmãos – Flávio e Sérgio Almeida Prado – e eles tinham alugado um carrinho econômico, um Renault Chuvaicar, que no Brasil tinha o apelido de “rabo quente”, porque tinha motor traseiro. Quando souberam que eu ia viajar também, me convidaram:“guarda seu carro e venha conosco”.E eu fui, deixando o carro em Tour, uma cidade próxima, o que foi ótimo, pois o estacionamento era muito caro em Paris. Fizemos toda a Riviera espanhola, participamos de uma festa em Valência onde tinham os maiores toureiros da época, Domingui, Litre, Arruça... Voltei por Marselha e rumamos para Paris. Foi uma maravilha.
Unidade de Habitação, Marselha
SSBP/AG: O senhor visitou alguma obra do Le Corbusier?
ROF: Sim, visitei a Unidade de Habitação de Marselha, que estava quase pronta. Por sinal, eu não gostei muito do projeto; os quartos eram muito pequenos, o teto, muito baixo, os móveis eram todos de concreto, tudo meio esquisito. Era uma concepção muito restrita de espaço: pequenos cubículos com uma cama e uma banqueta... A obra estava praticamente pronta, mas não tinha sido inaugurada. Passei pela Ville Savoye, uma bela residência, inovadora na época, pela Capela de Ronchamp, que achei mais bonita em fotografia, pois é pequena e não tão espaçosa... Depois, já com meu carro e sozinho, fui até Estocolmo, na Suécia. Passei pela Dinamarca, para conhecer os parentes do meu avô, e encontrei seu irmão e suas duas irmãs, gêmeas, que eram donas de uma tabacaria. Fiquei lá por uns dez dias e outros parentes vieram me conhecer. Uma curiosidade sobre a família Ortenblad: meu avô – topógrafo muito ativo, que abriu a região de São José do Rio Preto – veio só para o Brasil; aqui teve dois filhos, meu pai e meu tio, mas a família cresceu e hoje tem mais de quarenta descendentes. Na Dinamarca, ela ficou reduzida a apenas um membro, pastor, casado, que teve quatro ou cinco filhos, e é o único que está dando continuidade ao nome no país de origem.
Edifício-sede do Instituto de Arquitetos do Brasil, São Paulo, 1946. Arquitetos Rino Levi, Abelardo de Souza, Galiano Ciampaglia, Hélio Duarte, Ruchti, Miguel Forte e Zenon Lotufo
Sabrina Souza Bom Pereira e Abilio Guerra: Como foi sua participação no Instituto de Arquitetos do Brasil?
Rodolpho Ortenblad Filho: Eu fui diretor do IAB-SP a partir do fim da década de 1950. Eu freqüentava muito o Clube dos Artistas, que era no subsolo do IAB, e me dava muito bem com os pintores. O local era frequentado pelos artistas Volpi e Bonadei, que formavam o núcleo paulista de pintores de vanguarda. Estes relacionamentos me tornaram muito conhecido como arquiteto e fui convidado para participar da diretoria. Eu era secretário quase permanente e redigia as atas. Fiquei bastante tempo no IAB.
SSBP/AG: Quem participava do IAB na época?
ROF: O arquiteto Ícaro de Castro Mello, muito influente socialmente, foi presidente durante muito tempo. Depois houve um período em que o pessoal de esquerda tentou várias vezes dominar a diretoria do IAB e não conseguiu; mas depois conseguiu e eu me afastei, pois entendi que não dava mais – era só blá, blá, blá e não se construía nada.
SSBP/AG: O IAB promovia ações culturais?
ROF: Nas gestões do Ícaro de Castro Mello e outros arquitetos importantes, o IAB teve uma projeção muito grande. Tinham artistas que faziam a exposição e depois doavam obra de arte, como o Alexander Calder, que deu uma escultura para o IAB. Eu e o Carlos Lemos conseguimos viabilizar no jornal Folha de S. Paulo um caderno semanal que publicava trabalhos e notícias sobre arquitetura, o que deu uma projeção para a profissão no meio social. Carlos Lemos era muito amigo de um dos donos da Folha, o Otávio Frias, e foi através dele que conseguimos o caderno sobre arquitetura. Naquela época o IAB era representativo da categoria, orientando os associados sobre a legislação, explicando sobre as modificações de leis municipais e eventualmente até federais.
SSBP/AG: Sobre o que falava este caderno?
ROF: Concursos, exposições, coisas assim. Todos os anos havia o Salão Paulista de Arte Moderna, ali embaixo da Praça do Patriarca, na Galeria Prestes Maia. Era um salão de arquitetura, pintura, escultura e artes gráficas. A partir de um salão, eu passei a expor e ganhei vários prêmios com projetos meus; depois comecei a fazer parte do júri, na área de arquitetura, com Carlos Milan e Oswaldo Bratke; Aldemir Martins participava também, mas na parte de artes plásticas. Havia muita atividade paralela ao exercício profissional de projeto, na qual eu participava e nunca deixei de colaborar.
SSBP/AG: Vocês conseguiam interferir na legislação da cidade?
ROF: Algumas coisas, mas não muitas. O código de obras, o código Saboya, era obsoleto e o IAB de certa forma conseguiu interferir, inclusive na parte urbanística. Alguns arquitetos, como Alberto Botti e Jorge Wilheim, que foi secretário de obras, gostavam desta parte política.
ORTENBLAD FILHO, Rodolpho. A residência do arquiteto. Acrópole, São Paulo, n. 192, set. 1954, p. 543-549
SSBP/AG: Como você se tornou editor da revista Acrópole?
ROF: Quando era diretor do IAB, a revista Acrópole, propriedade de pai e filho judeus, precisou de um brasileiro como diretor responsável. Em 1953 foi exigido às publicações em geral, que tivessem um editor responsável nascido no país. Eu já redigia o Boletim mensal do IAB – Departamento de São Paulo, que, em formato de “separata”, circulava inserido na Acrópole. Sr. Max Gruenwald e seu filho Manfredo me conheciam por ter fornecido para publicação projetos de residências de minha autoria. Comecei a projetar e construir desde 1948, quando cursava o 2º ano da Faculdade de Arquitetura Mackenzie.
Eles me registraram como diretor responsável; constava até salário, que eu não recebia, pois trabalhava de graça. Mas foi muito bom para mim, porque passei a ser correspondente de várias publicações internacionais. Como eu era diretor da maior revista de arquitetura e praticamente a única aqui do Brasil, eu recebia livros para fazer resenhas, que eu publicava em uma separata da revista Acrópole, onde saíam notícias sobre livros, revistas, comentários diversos... Eu era o único redator dessa separata, que era distribuída anexada à revista Acrópole. Curioso é que eu não guardei nenhum exemplar delas.
SAMMARTINO, Edmundo. Revestimento em litocerâmica. Acrópole, São Paulo, n. 193, out. 1954, p. 34-35. Ortenblad usou muito litocerâmica em seus projetos
SSBP/AG: Qual era a sua função e os critérios para publicação?
ROF: Minha função era apenas editorial. A seleção do que seria publicado era da competência principalmente do Sr. Max e do Sr. Manfredo. Não eram publicados trabalhos de engenheiros e de caráter antiquado. Mas raramente eram recusados projetos para publicação, pois era conhecida a orientação da revista Acrópole: arquitetura contemporânea. Os trabalhos podiam ser de todo o Brasil, raramente do exterior, mas precisavam ser modernos e atuais. Foram editados artigos de pesquisas históricas de arquitetos dedicados ao ramo, como, por exemplo, dos professores Luiz Saia e Carlos Lemos.
Bloco04.04. ORTENBLAD FILHO, Rodolpho. Palácio das Indústrias. Comissão do IV Centenário de São Paulo. Acrópole, São Paulo, n. 193, out. 1954, p. 53-57
SSBP/AG: Quais foram os números memoráveis?
ROF: Publicamos os projetos do arquiteto Oscar Niemeyer para o Ibirapuera por ocasião do IV Centenário de São Paulo, o Edifício Copan, residências e edifícios públicos de relevante qualidade, muitos deles premiados em concursos e nos Salões de Arte da Galeria Prestes Maia, organizados por um idealista, Sr. Gomes Cardim.
SSBP/AG: Qual o motivo do término da revista Acrópole?
ROF: Os motivos foram de ordem econômica, falta de anunciantes etc. Por muitos anos ela foi a mais importante publicação brasileira dedicada à arquitetura.
Mapa dos 24 congressos internacionais da União Internacional de Arquitetos durante sua história. O congresso de Cuba, em 1963, foi a sétima edição
Sabrina Souza Bom Pereira e Abilio Guerra: Como diretor do IAB, o senhor participou de algum congresso?
Rodolpho Ortenblad Filho: Sim, estava na delegação que foi para o Congresso da União Internacional de Arquitetos, ocorrido em Cuba. Foi na véspera da revolução de 1964; se não me engano, foi em setembro de 1963. Eu tenho até uma bolsa que tem as datas do congresso. Cuba organizou um congresso de arquitetura internacional que continuaria no México. A primeira etapa da viagem foi complicada; por causa da Guerra Fria, os aviões não podiam passar sobre o território norte-americano. Então, fizemos o seguinte: o Instituto de Arquitetos, dominado então por elementos de esquerda, conseguiu da Air France passagens até Paris. Eu, que era diretor do IAB, fui convidado. Os estudantes participantes do Congresso foram de navio.
SSBP/AG: Quais arquitetos foram neste congresso?
ROF: Ruy Ohtake, Paulo Mendes da Rocha, Pedro Paulo de Melo Saraiva e muitos colegas do Rio de Janeiro também. Foi uma viagem cheia de etapas. Nós chegamos a Paris e ficamos em um hotel bom, destinado ao pessoal do IAB; dois dias depois, fomos para Praga, onde tivemos que aguardar a vinda de um avião que nos levaria a Moscou. Se não me engano, era um Tupolev, avião quadrimotor. E quando nós entramos neste avião em Praga, constatamos que não havia bancos para sentar, mas apenas uma caixa no meio do que deveria ser a cabine de passageiros. Era uma viagem muito longa e nós dormíamos em cima das malas. Em Moscou, tivemos que aguardar a passagem de um furacão em um alojamento militar, com ordem terminante de não sair. Ali havia uma parte para mulheres e outra parte para homens, com beliches e banheiros separados. Conhecemos alguns africanos que estavam fazendo curso de pilotagem de jato e fizemos amizade com um deles, enorme, com quase 2m de altura, que era da tribo Massat. Então fugimos do alojamento, guiados por ele.
SSBP/AG: E vocês fugiram para onde?
ROF: Para o centro de Moscou, para a Praça Vermelha. Nós fomos até uma grande galeria, com vários andares, chamada Boom. Era o único lugar que vendia coisas um pouco mais sofisticadas – as vestimentas, em especial os sapatos, que os russos podiam comprar na época eram muito feias. Eles usavam uns sapatões horrorosos, tanto que no metrô de Moscou os russos queriam comprar os keds e os mocassins que estávamos usando, pois eram artigos melhores. Na galeria Boom, em pleno inverno, se tomava sorvete com champagne, que era uma das coisas mais saborosas que eles tinham à disposição. Nesse lugar, uma espécie de galeria com vários andares, muito bonita por sinal, circulava o dólar.
Voltamos para pegar o ônibus e nos demos conta que havíamos perdido a hora de voltar ao alojamento. Já era 22h30 ou 23h e não havia mais nenhum ônibus disponível, pois neste horário iam todos para o centro, para a Praça Vermelha, e só começariam a circular novamente no dia seguinte. E para voltar? Fazia muito frio, talvez 2 ou 3 graus abaixo de zero, e os cariocas não levaram agasalhos. Decidimos ficar junto aos motores ainda quentes dos ônibus e destacamos alguns colegas para procurarem táxis, que nos levariam de volta para o alojamento, decisão que se mostrou acertada.
Localização da cidade de Murmansk, União Soviética (atual Rússia)
SSBP/AG: E partiram para Cuba no dia seguinte?
ROF: Não; esperamos mais um ou dois dias até haver condições climáticas para partirmos. Entramos novamente no grande avião, com o caixotão enorme no meio da cabine; essa caixa era frigorífica e acondicionava antibióticos e outros medicamentos que eram levados para Cuba; nós nos acomodamos como deu, sentando em cima das mochilas, das malas... O trajeto de Moscou até Cuba seria pelo círculo Ártico e deveria ser uma viagem sem escala, mas, por algum motivo, houve uma parada em Murmansk, uma cidade muito fria no círculo Ártico. E na Europa era inverno... Como no avião não havia alimento algum, nos permitiram descer e entrar na cafeteria do aeroporto, onde conseguimos comer alguma coisa, tomar um café quente, suficiente para seguir viagem. Saímos de Murmansk com 30 graus abaixo de zero e chegamos, quase vinte horas depois, em Cuba, em Havana, com 38 ou 40 graus positivos, uma mudança terrível de temperatura.
SSBP/AG: Como foi a chegada em Cuba?
ROF: Os diretores do IAB ficaram no Havana Hilton, um hotel moderno que estava em bom estado de manutenção, mesmo que tivesse algumas coisas quebradas. Depois da Revolução seu nome foi trocado para “Havana Libre”. As camareiras e demais empregados eram todos cubanos e nos confidenciaram muitas coisas: a partir das 21 horas era obrigatório permanecer dentro de casa, não poderia haver reuniões em residências com mais de dez pessoas, cada quarteirão tinha um fiscal indicado pelo regime e outras coisas do tipo.
Os cubanos queriam demonstrar que o país estava bem organizado e nos proporcionavam muitas coisas especiais. A comida do hotel, por exemplo, era de primeira qualidade, mas tudo vinha de outros lugares – presuntos, enlatados, embutidos e até pão eram importados de Moscou ou do bloco soviético. Enquanto isso o povo... não digo que passava fome, mas havia uma restrição alimentar muito grande. Os cubanos eram obrigados a usar tickets de racionamento para tudo: alimento, vestimenta, sapato etc. Para se conseguir uma bicicleta, o cubano entrava em uma fila que podia durar um ano, um ano e meio; automóvel, nem se fala, e nessa época os automóveis, todos norte-americanos, já estavam em estado deplorável. A revolução tinha quanto tempo? Cinco ou seis anos.
Hotel Habana Libre, antigo Havana Hilton, Havana
Recebemos um boleto que nos permitia usar táxi, que parava na porta do hotel e nos levava para qualquer destino. Eu e Vilma, que me acompanhava, saímos bem cedo de manhã e pegamos um táxi e fomos até Varadeiro, onde passamos um dia inteiro. Varadeiro não tinha hotelaria, mas apenas algumas instalações muito simples, pois estavam iniciando o turismo, uma condição geral por lá. O motorista de táxi nos mostrava as residências e comentavam coisas assim:“olha, aqui era a residência de um milionário,agora é uma escola de jovens”. A revolução transformou as grandes residências dos ricaços em clínicas e outros usos. Em outro momento, ele nos disse:“eu vou levar vocês para conhecer uma granja, avícola, que é a última novidade aqui”.E nos levou em uma granja avícola, que não tinha galinhas!!! Bem, havia lá umas trezentas galinhas, em uma instalação para mais de vinte mil galinhas. E o motorista completou:“aqui do lado tem uma granja de vacas leiteiras”. Como tinha muito interesse nessa área, eu fui até lá e encontrei apenas umas trinta vaquinhas... O leite era importado, tudo era importado. A Rússia sustentou Cuba durante muitos anos, enviando alimentos, medicamentos e até roupas.
SSBP/AG: Como foi o Congresso?
ROF: Eu me inscrevi para ministrar duas palestras. Uma delas foi motivada pela regulamentação proposta pela Prefeitura de São Paulo, que começou a limitar a construção em até quatro vezes as áreas dos terrenos, dependendo do zoneamento. Eu comparei esta lei com o que aconteceu em Copacabana, que não fez nenhuma restrição ou limitação para as construções, o que resultou em um bloco contínuo, com um prédio grudado no outro; ou seja, da praia para as ruas posteriores não há ventilação. Em São Paulo se propunha algo diferente, com recuos frontais e laterais. As cidades, de certa forma, são muito diferentes. Na Europa, por exemplo, as construções encostam umas nas outras. Paris é assim, apesar de ter um limite de gabarito de altura. Em São Paulo, além de limite de gabarito havia a obrigatoriedade de recuos laterais e índices de ocupação que variavam de duas a quatro vezes a área do terreno. Eu era contra o que foi feito em Copacabana. Eu morei lá até completar dezesseis anos, na época do boom imobiliário, quando a prefeitura permitiu que construísse os prédios grudados um no outro de frente para o mar, um absurdo. No Guarujá e em Santos a situação é muito melhor, pois existem limitações de ocupação do terreno... Eu fazia essa preleção, mas quando eu estava no meio, o público começou a sair. E sabe por que? A maioria dos presentes no Congresso era de esquerda, tanto estudante como dirigentes, e só queria temas políticos, não queria saber de arquitetura.
A segunda palestra marcada era sobre o clima e houve bastante interesse. “O Brasil é continental” – falei, começando a palestra – “talvez vocês não saibam, mas Brasil é um continente que tem desde o clima amazônico, tropical ao extremo, até um clima de temperado frio no Rio Grande do Sul, inclusive a topografia e a vegetação são completamente diferentes”. Pena que eu não tivesse imagens para projetar, pois não levei, mas essa palestra causou bastante interesse.
SSBP/AG: Então, predominou a discussão política?
ROF: Tem um precedente que ilustra o que encontraríamos em Cuba. Antes de eu ir para esta viagem fui procurado pelo chinês Max Ouang, sócio do Marino Barros, que era meu construtor. Ouang, que era muito amigo do cônsul americano em São Paulo, me disse:“o cônsul quer conversar com você; ele quer que você faça uma espécie de documentário sobre o evento em Cuba”. Eu perguntei: “Ele quer que eu banque o espião? Eu não vou fazer isso de forma alguma”. E não fiz. Ele queria que eu passasse informações para o consulado norte-americano, mas eu disse que não, “afinal o Brasil é um país independente, eu sou neutro, não vou me meter nisso”. No Congresso, só se falava de política. Eu fui um dos únicos brasileiros que se inscreveu para fazer palestras, os outros passeavam ou faziam comícios. Todas as palestras tinham um caráter político, com frases do tipo “porque a burguesia domina, a arquitetura é muito limitada para o comunismo...”
SSBP/AG: Depois vocês foram para o México?
ROF: O congresso continuou no México, que já era uma cidade caótica em 1963. Você não calcula o trânsito naquela época... No México havia mais liberdade e a cultura mexicana é muito parecida com a nossa. Conheci um museu maravilhoso, o Museu de Antropologia, que era lindo! O zóculo – a praça principal, onde está a matriz, principal igreja mexicana – é uma área enorme, que estava afundando, pois tudo aquilo foi construído em cima de pântano. Como a Cidade do México foi construída sobre um tipo de aterro, parte do subsolo era muito frágil. Para se entrar na catedral era necessário descer degraus, porque ela tinha afundado. Como era uma estrutura muito bem construída, ela não rachou, mas ia afundando devagar. Uma cidade moderna, com parques municipais muito bonitos, canais ajardinados, avenidas modernas. O trânsito era horrível, pesado.
Residência Rodolpho Ortenblad Filho, São Paulo, 1957. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Sabrina Souza Bom Pereira e Abilio Guerra: Como foi o início de sua carreira?
Rodolpho Ortenblad Filho: O período mais ativo da minha carreira foi até 1980. Eu e meu irmão construímos várias casas no Brooklin, na Praça Moreira Cabral, Ibirapuera. A empreiteira era a construtora Panamericana e eu sempre dirigia e fiscalizava as obras.
SSBP/AG: Como eram feitos os contatos para se conquistar os clientes?
ROF: Pelas placas de obra, na época nós colocávamos placas grandes. No início da minha carreira eu projetava e construía, contratava um empreiteiro e dirigia a obra até o final. As mais de trinta casas que projetei para minha família no Itaim foram construídas por empreiteiros e dirigidas por mim. A minha casa da Rua Campos Bicudo, fui eu que construí (sua esposa comenta: “as placas naquela época eram muito importantes, porque tinham poucos arquitetos, então as placas influenciavam muito”). As pessoas viam uma casa, a achavam bonita e de qualidade, e me procuravam. Eu também era procurado por indicação e assim criei um acervo de clientes.
Marino Barros, que foi meu colega de turma, construiu muitas casas que eu projetei. Ele, por sinal, era um perfeccionista, construía muito bem. Fez muitas casas que projetei, inclusive a da Rua México, esquina da Rua México, que foi demolida e no lugar foi feito uma casa que parece um pombal. Essa casa está publicada na Acrópole e foi resultado de um concurso que a proprietária, Sra. Clemância Assad, fez convocando cinco arquitetos. Ela resolveu comprar a casa do meu pai na Praça General San Martin e, na época, meu pai não quis vender. Então ela disse: “quem a projetou?”. Meu pai respondeu: “foi meu filho, Rodolpho”. E Dona Clemância decidiu: “então eu quero que ele faça um projeto para mim”. Como eu estava de viagem marcada para a Europa, fiquei um ano fora, ela esperou que eu voltasse. Quando voltei, eu fiz a casa e a família morou lá muito tempo. Durante a construção, ela teve mais um filho e foi preciso fazer mais um dormitório.
As obras demoravam de um a dois anos, eram construções artesanais – bem, ainda é assim... Eu detalhava bem as casas, fazia questão de detalhar tudo, usava muito a solução com pátios, quando possível no fundo, mas quando não era possível, colocava na frente mesmo. Ou seja, minhas casas sempre tinham pátio, tornando necessário um sistema de segurança. Em geral, eu usava aquelas vigotas de concreto, que além de serem estéticas, quebravam um pouco o excesso de luz e davam segurança. Voltando a sua pergunta, como naquela época havia poucos arquitetos, principalmente nesta especialidade de fazer casas, eu me tornei muito conhecido como arquiteto especialista em residências e muitos vinham por indicação, porque visitaram a casa de um cliente e gostavam. Com isso, passei a ter muitos clientes e projetos. Eu fazia questão de colocar na placa “projeto e fiscalização”.
Residência Alfredo e Clemância Assad, Jardim América, São Paulo, 1952. Arquiteto Rodolpho Ortenblad
SSBP/AG: Como desenvolvia os projetos de arquitetura e complementares?
ROF: Eu visitava o terreno, conversava com o cliente, observava o programa, o orçamento. Uma das coisas que eu mais dava prioridade era o orçamento. Recordo-me de um cliente, um advogado aposentado, que queria fazer uma casa muito grande. Quando me consultou, eu perguntei: “qual é a sua condição financeira para construir essa casa? O senhor não quer aguardar ou reduzir o programa?” Mas ele insistiu tanto que eu fiz o projeto quase como ele pretendia, mas ele parou no meio, levou mais um ano ou dois para terminar. Eu entregava um projeto detalhado, com todos os elementos para tocar a obra: fazia o cálculo estrutural, pedia o projeto de formas para o calculista para conferir se não havia interferências no projeto arquitetônico, solicitava o projeto de hidráulica também. Quando o projeto estava inteiro, vamos dizer assim, eu iniciava a obra. Eu contratava outros profissionais para fazer os projetos complementares.
A parte estrutural da casa da D. Clemância Assad foi projetada pelo engenheiro Roberto Zuccolo. Ele ficou muito conhecido com suas inovações – usava o sistema de concreto protendido –, mas era um homem difícil, que entregava as coisas em cima da hora; mas era muito bom profissional. O projeto estrutural do edifício na Cidade Universitária foi feito por um engenheiro japonês, mas nunca mais ouvi falar dele. Muitos construtores tinham seus calculistas de confiança. O projeto hidráulico, quando eu podia, indicava um amigo, o engenheiro Eurico Freitas Marques. O projeto elétrico era menos importante e os pontos de luz e energia faziam parte do projeto executivo, que não era complicado, pois não havia Internet e usar ar condicionado incorporado à obra era muito raro. Este prédio onde moro, por exemplo, foi projetado para receber ar condicionado, tem o lugar para o equipamento, mas só um morador resolveu fazer, aqui não houve necessidade. Eu contratava os projetos complementares, mas eles sempre passavam por uma análise final minha.
SSBP/AG: Como era o acompanhamento da obra?
ROF: Eu ia quando era chamado ou espontaneamente. Eu me dedicava a isso na parte da manhã, visitando obras, orientando o engenheiro, resolvendo algumas dúvidas que ele ou outro profissional pudesse ter.
SSBP/AG: Como eram as participações em concursos?
ROF: Eu participava com colegas. Com Carlos Lemos, fiz a ampliação do Clube Atlético Paulistano, o projeto da Concima foi com o Arnaldo Paoliello e o Marino Barros. Com o Marcello Fragelli foi o concurso do Clube da Orla, no Guarujá, mas que não foi executado, apesar de premiado. O Marcello insistiu em fazer um telhado que eu não concordava; era um projeto muito agradável, mas no fim o incorporador escolheu o projeto do Sérgio Bernardes, que fez uma coisa que nunca funcionou, pois era inadequada para função de clube.
Bloco 06.03. Mesa Aranha, Branco e Preto, São Paulo, 1952. Design Roberto Aflalo
SSBP/AG: Como era a especificação do mobiliário?
ROF: Na época eram poucas as lojas brasileiras de mobiliário. Havia aquelas que importavam móveis, como a Forma, que tinha uma loja no subsolo do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Eram móveis concebidos na Bauhaus ou desenhados por Mies van der Rohe, Alvar Aalto, Saarinen. Foi quando apareceu a Branco e Preto, de propriedade de um grupo de quatro arquitetos brasileiros muitos bons, que se tornou a primeira produtora de moveis com qualidade no Brasil. Eles criaram uma linha de móveis artesanais e usavam um tipo de tecido de lã produzido pelo lanifício Fileco, de propriedade de Miguel Forte, um dos sócios da empresa de móveis. O grande desenhista de móveis da firma era o Roberto Aflalo, que criou muita coisa interessante. Ele era meu colega de turma e o mais influente na parte de criação. Eu usei os móveis da Branco e Preto na minha casa da Rua Campos Bicudo, na casa da Capitão Antonio Rosa e aqui nesse apartamento que estou hoje, onde tenho uma mesa, duas cadeiras, sofás, e a “Mesa Aranha”, desenhada pelo Aflalo.
Bom, quando o cliente me permitia orientá-lo neste item, eu sugeria que ele não contratasse decorador antes de acabar a obra, pois eles geralmente palpitavam no projeto de uma maneira desastrosa. Indiquei muito a Branco e Preto, alguns móveis do Joaquim Tenreiro também. Na minha fazenda eu tenho uma mesa dele. Mas muitos móveis da fazenda eram integrados com o projeto e foram todos desenhados por mim, com muita influência do mobiliário japonês. Eu gostava muito da arquitetura japonesa e de certa forma ela me influenciou também nos detalhes de arquitetura. Na sala de estar, o tema da composição de lambris de madeira e painéis brancos sofreram muita influência japonesa.
SSBP/AG: Como foi sua participação no Inocoop?
ROF: Eu fui convidado a trabalhar como funcionário no Inocoop, o Instituto de Orientação às Cooperativas Habitacionais de São Paulo. Era uma instituição que comprava terrenos e construía residências. Eu fiz protótipos que começava com núcleos de sala, cozinha, banheiro e um dormitório. Essas casas foram concebidas para ter a facilidade de ser ampliadas sem alterar o núcleo principal, graças ao telhado de apenas duas águas, voltado para o fundo do terreno. Inicialmente esses terrenos tinham 5m por 10m, depois aumentaram para 10m x 20m. Eu saí da empresa quando formei um grupo com os arquitetos Marcello Fragelli, Telésforo Cristófani e José Ghiu.
SSBP/AG: Como foi a experiência das casas em Campinas?
ROF: Eu projetei muita coisa para o Banco Hipotecário Lar Brasileiro, inclusive um conjunto de dez casas na rua Barão de Itapura. Era uma rua em declive, que chegava a um parque muito bonito. E o BHLB pediu que eu as fizesse todas diferentes. Eu desenvolvi alguns partidos bem parecidos, mas com soluções diferentes de fachada. Algumas tinham um pátio entre os dormitórios e outro na sala.
Sesi, Sorocaba SP, 1967. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Sesi, corte transversal e plantas Ambulatório e Delegacia, Sorocaba SP, 1967. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
SSBP/AG: Como chegou a encomenda do projeto do Sesi em Sorocaba?
ROF: Na época, o diretor do Sesi já conhecia meu trabalho e me convidou para fazer o projeto. Era um terreno muito ruim, doado pela prefeitura. De um lado, havia uma grota com uma nascente; existia ainda um desnível grande entre um lado e outro do terreno, de quase 10m. Adotei um partido onde coloquei o ginásio de esporte e a piscina no lado próximo à grota e a água da nascente foi usada para abastecer a piscina. Dispus então duas alas paralelas de três níveis. Embaixo tinha os pilotis e mais dois níveis para salas multiuso, que abrigava cursos de culinária, costura, e diversos outros. Esse projeto, de 1967 ou 1968, foi premiado com o prêmio “Governador do Estado”.
SSBP/AG: Você e o arquiteto Jose Luiz Fleury de Oliveira trabalharam juntos para o Clube Alto de Pinheiros. Como foi essa parceria?
ROF: Um grupo de moradores nos escolheu para desenvolver o projeto para o clube, mas, infelizmente, um desacordo entre os moradores fez com que fosse escolhido um novo arquiteto para finalizar o projeto. Quem fez isso foi o arquiteto Fábio Penteado. Uma parte do clube – a primeira sede, a parte das piscinas e das quadras – é projeto nosso.
Prédio de Histologia da USP, São Paulo, 1967. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Prédio de Histologia da USP, cortes longitudinal e transversais, São Paulo, 1967. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
SSBP/AG: Como você se envolveu com o projeto do Prédio de Histologia da USP?
ROF: Em 1967 foi feito um programa para construção dos prédios principais da USP no Butantã. O coordenador era o arquiteto Paulo Camargo e eu fui indicado pelo professor Junqueira, companheiro meu de pesca submarina no Iate Clube de Santos. Ele era o catedrático da cadeira de Histologia e me convidou para fazer o projeto do prédio da Histologia. Hoje funciona a Faculdade de Veterinária; como o edifício é muito versátil, pôde ser modificado para o novo uso. O partido é interessante. Eu organizei o edifício com a estrutura totalmente independente, com tubulações horizontais e verticais visitáveis; como o terreno era bem inclinado e possibilitava dois níveis, situei o prédio com laboratórios na parte superior, que é maior. Ele se liga ao prédio de aulas teóricas, situado na parte baixa do terreno, através de uma passarela. Ainda existe.
Residência Rodolpho Ortenblad Filho II, São Paulo, 1956. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Sabrina Souza Bom Pereira e Abilio Guerra: Dentre seus projetos, quais você destacaria?
Rodolpho Ortenblad Filho: A minha casa da Rua Capitão Antônio Rosa é muito importante, inclusive ganhou prêmios. Eu me dediquei muito à casa da fazenda Santa Cecília, para a qual desenhei trinta e tantas pranchas de projeto em escalas de 1:50 e 1:20; detalhei os telhados, o escalonamento das telhas de cimento amianto, fiz questão de procurar a Eternit para resolver a sobreposição das telhas e evitar entrada de água. Eu queria um telhado muito baixo, que não aparecesse, com dez por cento de inclinação. Eles recomendaram uma sobreposição de 30cm e nunca entrou água, mas tinha que ser parafusado, o que é bom, porque com vento forte, principalmente pelo fato de ter pouco caimento, não cria obstáculo para o vento, a casa já tem cinqüenta e quatro anos e nunca deu problema, o telhado está funcionando bem até hoje, as telhas eram de 6mm de espessura, bem reforçadas.
Já a residência da rua Capitão Antônio Rosa era bem articulada, uma casa que tinha espaços muito bonitos, como era o caso da sala de estar com vigamento de madeira de oito por 20cm, que ia até o fundo do terreno, incorporando o pátio ao espaço interior. As residências de Arnaldo Mellão e de Olavo Quintelo – que existem até hoje, mas foram reformadas – tinham beiral grande de um 1,40m. Eu fui aos poucos introduzindo uma seleção de soluções, como é o caso da ventilação do forro, um espaçamento bem grande entre o telhado e a laje.
Eu fazia um projeto preliminar, apresentava para o cliente, sempre frisava que eu não gostaria que o partido fosse alterado, alguns detalhes de banheiro, cozinha, coisas menores, podiam ser modificados, mas o partido era aquele. Geralmente os clientes aceitavam e eu, de certa maneira, afastava a interferência da esposa (no meio dos risos de entrevistador e entrevistada, a esposa de Ortenblad comenta: “quando o cliente não aceitava, ele dispensava”).Realmente, eu não mudava, porque quando eu assumia um partido, achava que ele era o melhor. Quando passei a ensinar no Mackenzie e depois na Faap, eu frisava muito isso: quando o partido não é bom, é melhor apagar e começar de novo! Quando o cliente tinha um construtor ou empreiteiro da sua confiança, eu não interferia nisso; quando ele não tinha, eu indicava um responsável pela obra, como era o caso de Marino Barros, um construtor de qualidade, e de Delto Teixeira. Este era dono da Construtora Panamericana, uma construtora modesta, mas que era muito boa e construía muito bem.
SSBP/AG: Quais os materiais que costumava usar?
ROF: Eu tinha uma influência muito grande de Frank Lloyd Wright e, posteriormente, de Richard Neutra. Wright dava muita importância aos materiais naturais – pedra, tijolo, madeira – e minhas casas têm muitos detalhes com materiais naturais. Não usava pastilhas na fachada, coisa que eu nunca gostei. Usei pouco concreto à vista, quando ainda se usava pouco.
Residência Rodolpho Ortenblad Filho II, São Paulo, 1956. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Residência Rodolpho Ortenblad Filho II, plantas térreo e superior, São Paulo, 1956. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
SSBP/AG: Comente o projeto residência da Rua Campos Bicudo, no Itaim.
ROF: Logo que voltei da viagem aos EUA e Europa, eu me casei. Já tinha projetado essa casa e a construí para morar. Ficamos lá por oito ou dez anos. Ela foi demolida e no lugar construíram condomínios, escritórios, flats etc. O partido da casa era um muito bom. A planta é bem aproveitada e detalhada. Havia três pátios, sendo o da frente destinado à área de serviços. O quarto e o banheiro de empregada, a lavanderia e a cozinha foram dispostos anexos ao pátio murado; este, posicionado na frente, permitia acesso fácil para entrega de alimentos e mercadorias. O segundo era um pequeno pátio no hall de entrada e acesso ao andar superior; o terceiro era o pátio principal, que ficava na no fundo do terreno, com duas salas voltadas para ele. A garagem, que era fechada, servia de acesso para jardineiros e para a manutenção do pátio interno. Em cima ficavam dois dormitórios com banheiro conjugado, a suíte e outro quarto com terraço. O terreno era pequeno, de 10x30m, mas a casa era bastante confortável.
Eu fui um dos primeiros arquitetos na época a incorporar os serviços – que antes ficavam em uma edícula – ao corpo da casa. Era um partido bastante novo na época, pois ainda se usava muito a edícula, um recurso que eu praticamente abandonei a partir dessa ocasião. Claro que houve exceções. Em uma casa na Rua Guadelupe – cujo terreno era bem grande, com 1200m² – a pedido do proprietário Fábio Lima Verde Guimarães, eu fiz parte de serviço em uma edícula.
Nesta casa, em relação aos materiais e acabamentos, usei rachão de granito no muro da frente e tijolo aparente no embasamento. No terraço superior tinha brise-soleil de madeira Cabreúva. O telhado era com telha Eternit com 10% de caimento e com calha central. Foi a única casa que eu fiz sem beiral; depois, nunca mais deixei de usar.
Fazenda Santa Cecília, Uchoa 1955. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
SSBP/AG: Comente o projeto da casa da Fazenda Santa Cecília.
ROF: O terreno que meu pai adquiriu tinha uma terra bastante degradada. Nas proximidades passava uma estrada – a primeira ligação entre Uchoa e Tabapuã, como fiquei sabendo muito tempo –, que acabou ficando bem ao lado da ala com os dois dormitórios. Esse projeto é de 1955 e a obra não demorou muito – apenas um ano e pouco – sendo realizada porpedreiros e serventes da própria região. Foram usados muitos materiais que existiam na própria fazenda. Na época havia uma olaria na propriedade que fazia tijolos grandes de boa qualidade. Então eu usei estes tijolos. O arenito veio de Araraquara, do Chibarro, uma jazida de arenito rosa. Fiz todos os pisos da casa, inclusive os internos, com este arenito. Usei pedra tipo moledo, que veio de Atibaia, de outra fazenda do meu pai. Usei a madeira amendoim, que era retirada de toras adquiridas de um vizinho e desmembrada na própria fazenda.
Fazenda Santa Cecília, planta, Uchoa 1955. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Meu pai adquiriu uma oficina completa de marcenaria, com todas as ferramentas. Nós tivemos muita sorte de conseguir um mestre de obras português, o Sr Aníbal, que era muito competente e perfeccionista. Por isso, usei muita madeira nessa casa. Os forros são de amendoim, o vigamento é de Ypê. Usei também muito vidro, em especial na sala, que tem vidro em toda a volta. Uma curiosidade: o tipo de janela que eu usei nesta casa de 1955 é idêntico ao daquela casa japonesa do Parque Ibirapuera, que foi construída muito tempo depois. Aliás, na época eu era muito influenciado pela arquitetura japonesa. Inclusive tem um recanto na sala que lembra muito a arquitetura japonesa tradicional. A mobília foi toda desenhada por mim e feita na própria fazenda, pelo mestre de obra português.
Fazenda Santa Cecília, elevações, Uchoa 1955. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
O partido desse projeto é muito interessante. Eu não gostava das soluções de varanda das casas coloniais, que geralmente ficavam em frente e em volta da casa. Eram muito expostas ao sol, em alguns casos muito estreitas, e por isso optei por uma grande varanda unindo as duas alas da casa. Essa grande varanda é dividida por um muro de pedra com 2,10m de altura, ficando uma parte maior voltada para frente vista para a paisagem, ficando a parte menor para trás, como abrigo para quatro automóveis. Mais tarde foi construído um abrigo separado, tipo edícula, e esse salão atrás da parede virou sala de jogos. Então essa varanda ligava o corpo principal da casa – com salas, área de serviços, copa, cozinha, cinco dormitórios e dois quartos de empregada – ao apartamento que eu usava.
Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho na Casa da Fazenda Santa Cecília, Uchoa, 1955
No apartamento havia o quarto do casal e um banheiro composto, com box, chuveiro e lavatório para fora, solução muito versátil que permitia ser usado por até três pessoas ao mesmo tempo. E tinha o quarto grande, com três camas para nossos três meninos. Como havia uma inclinação razoável no terreno, eu fiz a piscina em um nível em torno de 1,80m mais baixo, com acesso por uma escada toda em arenito. O piso em volta da piscina também é todo em arenito. É uma piscina semiolímpica; nós – eu e meus irmãos – éramos nadadores na época.
Residência Fábio Lima Verde Guimarães, São Paulo, 1970. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Residência Fábio Lima Verde Guimarães, plantas térreo e superior, São Paulo, 1970. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
SSBP/AG: Comente o projeto da casa da Rua Guadelupe
ROF: Essa casa, localizada no Jardim América e de propriedade de Fábio Lima Verde Guimarães, está muito bem conservada. Um pátio muito grande atrás se voltava para as salas. Tinha um pórtico de acesso para entrada principal, garagem para dois automóveis. Nesse caso, o setor de serviços ficava separado em uma área grande; ele era fazendeiro e tinha muitos empregados... Na época havia um tipo de lajotinha da São Caetano; chamada litocerâmica, era um material de primeiríssima qualidade, mas, infelizmente, a empresa e o produto não existem mais. Eu usei esse material para o embasamento da casa. O telhado com beiral é de madeira com telhas de cimento amianto, que são muito duráveis. Eu gostava dessa telha, pois permitia pouca inclinação e o telhado não ficava aparente.
Residência Leopoldo Raimo, São Paulo, 1952. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Residência Leopoldo Raimo, plantas térreo e superior, São Paulo, 1952. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
SSBP/AG: Comente o projeto da casa do Jardim Paulistano.
ROF: Essa casa foi feita para um médico, o Dr. Leopoldo Raimo. Era uma casa simples, de esquina, uma das primeiras que eu fiz. Eu procurava sempre destacar o andar de baixo, um pouco recuado em relação ao andar superior. Também tinha um pátio. Esta casa ainda tinha edícula com acesso lateral, já que o terreno era de esquina, pela Rua Sampaio Vidal. Eu fiz várias casas nesse bairro. Não foi publicada, mas eu fiz uma casa para o meu irmão Dorival, que ficava também em um terreno de esquina; como o terreno tinha um caimento grande, adotei um partido muito interessante, com a parte dos serviços e a garagem embaixo. Em cima coloquei a cozinha e as salas. Meio lance de escada acima se chegava aos dois dormitórios e banheiro; e mais um lance acima, se chegava à suíte superior. Meu irmão vendeu a casa, mas ainda deve ter as pranchas com o projeto. A casa – que fica na rua acima da rua Capitão Antônio Rosa – ainda está lá, íntegra.
Residência Olavo Quintela, São Paulo, 1952. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Residência Olavo Quintela, plantas térreo e superior, São Paulo, 1952. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
SSBP/AG: Comente o projeto da casa do Itaim.
ROF: Esta foi a primeira casa que fiz para Olavo Quintela, meu dentista. É um lote de esquina e foi a primeira vez que eu usei o recuo de uma das ruas para fazer um pátio com vigotas na parte superior, que além de integrar às salas, tinha a função de segurança. Antigamente, como havia muito ladrão arrombador de casas, não se usava vidros grandes e se optava até por portas pantográficas, mais seguras. Então, para usar vidros grandes e não comprometer a segurança, eu usei na parte de cima do pátio uma pérgula feita com vigotas de cimento armado. A iluminação do interior da sala era feita com um desnível de mais ou menos 30 ou 40cm entre as lajes, solução que usei em outras casas. Eu também indiquei os móveis.
SSBP/AG: Comente o projeto da casa de Alto de Pinheiros
ROF: Essa casa, projetada para um terreno muito grande, era para Carlos Moraes Barros, que tinha uma família grande, com muitos filhos. Está situada na Avenida Professor Fonseca Rodrigues. Ela existe ainda, só que foi vendida posteriormente para o Maurício de Souza e ele murou a casa toda.
SSBP/AG: Comente o projeto da casa projetada para Ademar de Barros Filho.
ROF: Foi uma casa interessante, construída em um terreno de esquina no Pacaembu. Como o desnível da rua superior para a inferior era de 18m, eu adotei um partido que previa o acesso ao setor de serviço pela rua superior, onde ficavam a garagem, a lavanderia, e o quarto de empregada. Depois se descia um ou 2m e se chegava ao nível das salas, que se conectavam a um pátio com piscina. No nível mais inferior ficava um salão com atividades multiuso. Essa casa existe e está perfeita. É no final da Avenida Paulista, onde sai uma rua no sentido do Pacaembu. A segunda esposa de Ademar de Barros Filho quis morar no Morumbi; então ele comprou uma casa lá e conservava essa casa para passar os finais de semana. Agora não é mais dele. Essa casa não foi publicada. Foi construída pelo Marino Barros, com ótima qualidade. Após o falecimento de Marino Barros, sua viúva, Cristina, manteve o escritório ativo – inclusive eles foram os responsáveis pela reforma da Casa das Rosas –, mas depois fechou.
Residência Arnaldo Melão, São Paulo, 1956. Arquiteto Rodolpho Ortenblad Filho
Rodolpho Ortenblad Filho
Arquiteto formado pela Universidade Mackenzie, em 1950. Teve a oportunidade de viajar para os Estados Unidos assim que se formou, motivado pela vontade de conhecer as “obras modernas”, que até então só havia visto em revistas. Realizou centenas de projetos entre os anos de 1950 e 1984, muitos deles publicados na revista Acrópole – da qual foi diretor de 1953 a 1955, período correspondente às edições 182 até 200. Sua obra foi notada e respeitada no meio profissional, como atestam diversos depoimentos atuais de colegas de sua geração e a publicação de duas de suas casas na revista japonesa World's Contemporary Houses, ladeadas pela Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi, a Casa do Morumbi, de Oswaldo Bratke, a Casa de Canoas, de Oscar Niemeyer, a Casa Milton Guper, de Rino Levi, e casas de importantes arquitetos da Argentina, México e Uruguai. Também elaborou os projetos para o Sesi de Sorocaba e para os edifícios do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo.
ORTENBLAD FILHO, Rodolpho. Portas e janelas de correr a beira-mar. Acrópole, São Paulo, n. 286, set. 1962, p. 322-323
Sabrina Souza Bom Pereira
Arquiteta, mestre em arquitetura pela Universidade Mackenzie com a dissertação intitulada Rodolpho Ortenblad Filho: estudo sobre as residências, defendida no dia 03 de setembro de 2010, tendo como banca os professores Abilio Guerra (orientador), Ruth Verde Zein (FAU Mackenzie) e Mônica Junqueira de Camargo (FAU USP).
Abilio Guerra
Arquiteto (FAU PUC-Campinas), mestre e doutor em História pelo (IFCH Unicamp), professor adjunto de FAU Mackenzie (graduação e pós-graduação). Com Silvana Romano Santos, é editor da Romano Guerra Editora e do Portal Vitruvius. Organizador do X Foro Internacional de Arquitectura (Quito, Equador, 2009) e curador da exposição Arquitetura brasileira: viver na floresta (Instituto Tomie Ohtake, 2010). É autor de O primitivismo em Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Raul Bopp. Origem e conformação no universo intelectual brasileiro (Romano Guerra, 2010) e co-autor de Rino Levi - arquitetura e cidade (com Renato Anelli e Nelson Kon, Romano Guerra, 2001) e organizador de diversas publicações, dentre elas os dois volumes dos Textos fundamentais sobre historia da arquitetura moderna brasileira (Romano Guerra, 2010). Trecho do manuscrito de Rodolpho Ortenblad Filho, respondendo a perguntas sobre a revista Acrópole
Entrevista
A entrevista aqui publicada é uma síntese de cinco entrevistas, quatro delas realizadas com o objetivo de obter subsídios para a dissertação de mestrado de Sabrina Souza Bom Pereira. Estes encontros, com as conversas gravadas e posteriormente transcritas e editadas, ocorreram nos dias 04 e 21 de maio, 13 de outubro e 01 de dezembro do ano de 2009. A quinta entrevista, com perguntas específicas sobre a revista Acrópole, foi respondida por carta datada de 18 de setembro de 2011. Os roteiros das perguntas foram elaboradas pelo orientador e pela orientanda, cabendo à segunda a realização das entrevistas e sua transcrição, e ao primeiro a preparação do texto e a edição final da entrevista, organizando-a por tópicos temáticos. A edição de imagens é da responsabilidade de Abilio Guerra, com pesquisa própria e a partir de levantamento de Sabrina Souza Bom Pereira.
ORTENBLAD FILHO, Rodolpho. Edifício de apartamentos na Aclimação. Acrópole, São Paulo, n. 232, fev. 1958, p. 140-141