português Veja a entrevista de Antônio Agenor Barbosa e Juliana Mattos com o arquiteto Marcos Konder, cujo mais conhecido projeto é o Monumento aos Mortos da II Guerra Mundial, no Aterro da Glória, Rio de Janeiro
english Vea la entrevista de Antônio Agenor Barbosa y Juliana Mattos con el arquitecto Marcos Konder, cuyo más conocido proyecto es el Monumento a los Muertos de la II Guerra Mundial, en el Aterro de la Gloria, Río de Janeiro
español Read the interview of Antonio Agenor Barbosa and Juliana Mattos with architect Mark Konder, whose best known project is the monument to the dead of World War II, in aterro Gloria, Rio de Janeiro
Arquiteto Marcos Konder em sua residência em Santa Teresa, Rio de Janeiro Foto Antônio Agenor Barbosa
Entrevista com o arquiteto Marcos Konder (1) Antônio Agenor de Melo Barbosa e Juliana Mattos
Inaugurada no início do século XX, na gestão do então Prefeito Pereira Passos, a Av. Central (atual Av. Rio Branco), que liga a Praça Mauá à Esplanada do Castelo já possuía no eixo final do seu percurso o obelisco erguido naquela ocasião em que o Rio de Janeiro inspirava-se em Paris.
Quase trinta anos depois da inauguração da Av. Central, mais precisamente em novembro do ano de 1927, nascia em Blumenau (SC), um menino de nome Marcos Konder Netto que, por uma destas boas sacadas do destino, seria o responsável por construir também na perspectiva que se tem ao andar no eixo da Av. Rio Branco, o seu magnífico projeto que é o Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo.
Seja durante o dia ou durante a noite quando aparece imponente e bem iluminado ao fundo da Avenida, lá está a bonita visão que podemos ter do Monumento na medida em que seguindo em direção ao Castelo, a sua imagem se amplia e podemos apreciar uma das obras mais importantes da arquitetura brasileira do Século XX. Feliz intervenção do então jovem e ainda recém formado arquiteto Marcos Konder, aquele menino de Blumenau que ainda adolescente, aportou no Rio de Janeiro, para tornar-se um dos mais importantes arquitetos desta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Homem de grande cultura, poeta, pintor, e com uma memória invejável para um senhor de quase 80 anos de idade, Marcos Konder nos recebeu em sua residência no Bairro de Santa Teresa para duas longas e magníficas tardes de uma conversa muito sincera e emocionada. Dono de um papo muito refinado, sedutor e interessante, Marcos Konder certamente nos concedeu a mais completa entrevista de toda a sua vida. E ainda assim podemos já antecipar que muitas outras deliciosas histórias que nos contou sequer foram gravadas ou mesmo transcritas por nós nesta entrevista. Como o arquiteto nos disse que está escrevendo as suas memórias, deixamos para que ele mesmo possa, em breve, nos presentear com outras tantas histórias que, por diversas razões, optamos por não expor publicamente aqui neste momento.
A partir de agora, compartilhamos com os leitores do Portal Vitruvius um pouco desta excepcional experiência que foi a oportunidade que tivemos de entrevistar não apenas um grande arquiteto, mas também um grande Brasileiro em todas as suas dimensões (2).
Monumento aos Mortos da II Guerra Mundial
O mais conhecido projeto de Marcos Konder, o Monumento aos Mortos da II Guerra Mundial, foi erguido no Rio de Janeiro, no Aterro da Glória – local mais conhecido como Aterro do Flamengo. Seus arquitetos foram Marcos Konder Neto e Hélio Ribas Marinho; Alfredo Ceschiatti, o escultor; as pinturas são de Anísio Medeiros e o painel metálico, de Júlio Cateef Filho. O monumento cobre uma área de 6.850 metros quadrados e desenvolve-se em três planos: subsolo, patamar e plataforma, além de uma ampla escadaria.
O subsolo, a que se chega por uma escadaria em mármore perlado lustrado, compreende: antecâmara, câmara, dependência para a administração e acomodações para a guarda permanente, a qual é alternada pelas três Forças Armadas. A câmara fúnebre contém 468 jazigos de mármore preto nacional com tampas de mármore de Carrara, onde encontram-se gravados, nome, graduação ou posto, unidade, data de nascimento e morte. Quinze jazigos não possuem nomes gravados porque se referem a desaparecidos e a mortos não identificados: “Aqui jaz um herói da FEB – Deus sabe o nome.” À esquerda, na parede, estão gravados os nomes dos 800 homens das Marinhas de Guerra e Mercante, dos militares do Exército mortos nos torpedeamentos e dos combatentes não identificados.
O patamar compreende a instalação de um pequeno museu, jardim interior e entrada do subsolo. O museu possui mostruários de objetos ligados às operações de guerra de nossos veteranos que lutaram na Itália. O jardim interior mostra o roteiro da FEB. A entrada do subsolo apresenta painéis que representam, em cerâmica, aspectos representativos da vida e da luta no mar, e tem, no sopé, os nomes dos navios brasileiros torpedeados. À plataforma, situada a 3,50 metros do solo, chega-se por uma escadaria monumental, com 26 degraus, em granito preto. Nela está o pórtico de 31 metros de altura, constituído por dois “pilones”, em cuja base se encontra o túmulo do soldado desconhecido. Lá estão também o painel metálico cujo abstrato evoca a ação aérea, a pirâmide triface com as inscrições e o grupo escultórico, da autoria de Alfredo Ceschiatti, representando, irmanados, soldados das três Forças Armadas. Concluído em 24 de junho de 1960, para ele foram transladados naquele mesmo ano, os restos mortais de nossos pracinhas, vindos em urnas funerárias, do Cemitério Militar Brasileiro de Pistóia, Itália (3).
notas
1 Esta entrevista foi concedida para os arquitetos Antônio Agenor de Melo Barbosa e Juliana Mattos, pelo Arquiteto Marcos Konder que, gentilmente, nos recebeu em sua casa por duas longas tardes em Santa Teresa. O nosso objetivo precípuo é dar início a uma série de homenagens que pretendemos ainda concretizar pelos 80 anos de vida do arquiteto que serão comemorados em 2007.
2 Ao mesmo tempo, e com a devida permissão e ciência do nosso entrevistado, queremos dedicar esta bonita entrevista à memória da Professora Sarita Konder, esposa de Marcos Konder, falecida recentemente.
Obelisco na Av. Rio Branco e, ao fundo, a imagem do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, de autoria de Marcos Konder e Helio Ribas Marinho Foto Antônio Agenor Barbosa
Monumento aos Mortos da 2ª Guerra. Arquitetos Marcos Konder e Helio Ribas Marinho Foto Antônio Agenor Barbosa
Antônio Agenor Barbosa e Juliana Mattos: Inicialmente,gostaria que o senhor fizesse uma narração, da maneira que lhe for mais adequada e pertinente, a respeito das suas memórias da infância e da juventude. Quais os fatos, passagens e personagens deste tempo que o senhor destacaria como sendo os mais emblemáticos e importantes na formação da sua personalidade e da sua sensibilidade. Acho também relevante que o senhor enfatize algumas informações a respeito da sua família, dos seus pais, do lugar em que nasceu e foi criado e da escola onde iniciou seus estudos.
Marcos Konder: Olha, até que para falar um pouco da minha infância não me parece algo muito difícil por que neste exato momento eu estou escrevendo as minhas memórias da infância e da minha juventude. Na verdade, creio que já escrevi cerca de uma terça parte do que pretendo ainda escrever, de maneira que muita coisa está fresca na minha memória. Mas, vamos lá, eu vou começar a narrar para vocês passagens que julgo mais relevantes desde os meus primeiros anos de vida, está bem assim?
Eu nasci em Blumenau, no Estado de Santa Catarina no dia 11 de novembro de 1927. Em 2007, portanto, farei 80 anos. Sou filho de uma família tradicional de toda aquela região que é a família “Konder”. E esta família é originada de imigrantes alemães. Para ser mais preciso é uma família de alemães católicos que desde a sua origem havia a tradição do nome “Markus Konder”, assim mesmo com “U” e com “K”. Um dos filhos deste Markus Konder, meu bisavô alemão, foi o meu avô que também se chamava Markus konder. Depois este nome não se repetiu na geração de meu pai e retornou na ocasião do meu nascimento e passei a ser chamado de Marcos Konder Netto, agora o “Marcos” já sem o “K” e sem o “U”. De maneira que é uma antiga tradição na nossa família este nome “Markus”. E também tive conhecimento de muitas outras pessoas que também possuíam este nome como foi o caso do poeta, muito bom diga-se, que era o Marcos José Konder Reis que era meu primo. E na verdade este meu primo era de Itajaí e não de Blumenau.
Cabe dizer que aquele meu bisavô alemão chamado Markus Konder veio para o Brasil e se estabeleceu pioneiramente em Itajaí. Ele veio para o Brasil para ser professor, e veio a pedido de um migrante também alemão que chegara alguns anos antes no Brasil e que já havia até constituído família aqui no Brasil e tinha filhos. Então, como naquele tempo não havia no interior tantas escolas e um ensino formal e de qualidade, e também pelo fato de os alemães terem o interesse em manter o ensino da língua, o meu bisavô foi literalmente importado para ser professor, ou melhor, preceptor, dos filhos deste alemão. E o meu bisavô veio para o Brasil e depois de algum tempo se enamorou por uma brasileira, o que é um fato curioso pois, naquele tempo, era raro um alemão casar e constituir família com uma moça que não fosse também alemã. E o meu bisavô então se enamorou por uma brasileira, moreninha que não tinha muito a ver com o tipo alemão. Ele foi até bastante criticado por isto, pois muitos alemães eram muito racistas e perguntavam a ele por que ele não havia escolhido uma moça também alemã para casar e constituir família. Mas ele gostava muito dela e costumava dizer que ela era uma princesa.
Pois bem, este meu bisavô alemão teve oito filhos sendo quatro homens e quatro mulheres. E os homens desta família se desenvolveram em algumas coisas. Eu tive, por exemplo, dois tios avôs, irmãos de meu avô, que foram políticos famosos e importantes em Santa Catarina. Um deles foi o Adolfo Konder que, ainda antes dos anos 30, foi Governador do Estado de Santa Catarina e foi também Deputado Federal. O meu outro tio avô foi o Victor Konder – que tem até uma rua aqui no Rio, no Bairro da Barra da Tijuca com o nome dele – que chegou a ser Prefeito de Blumenau e também ocupou o Cargo de Ministro da Aviação e Obras Públicas no Governo do Presidente Washington Luis. E foi este meu tio-avô que abriu esta estrada Rio – Petrópolis, pois o Washington Luis tinha como slogan do seu governo a idéia de que governar era abrir estradas.
Um fato curioso é que em certa ocasião o Presidente Washington Luis esteve lá em Santa Catarina e ficou impressionado com a qualidade das estradas que tinham lá no Estado e quis saber quem era o responsável. Então informaram pra ele que tinha sido o Secretário de Obras o Victor Konder que tinha sido o responsável pelas estradas. Então a partir daí o Presidente Washington Luis convidou o meu tio-avô para ser Ministro.
Então a minha família sempre esteve ligada diretamente à política no Estado de Santa Catarina. Eu não diria que se constituía numa oligarquia, pois não havia a mesma relação entre a política e as formas de dominação e o coronelismo como nas oligarquias do Nordeste, por exemplo. Cabe dizer que estes meus antepassados eram, na sua maioria, profissionais liberais ligados diretamente à política. Não eram, como em geral ocorre no Nordeste, grandes proprietários de fazendas e terras.
Mas, de fato, é uma família que sempre ocupou várias esferas de comando em Santa Catarina, tanto é que até hoje um dos mais importantes expoentes da política no Estado é o Senador Jorge Bornhausen (PFL – SC) que é, na verdade, Jorge Konder Bornhausen e ele é meu primo. Na verdade, o pai dele era um alemão que viveu em Itajaí de nome Bornhausen que se casou com uma das irmãs de meu avô.
Antes dele também teve o Antônio Carlos Konder Reis que foi Deputado Federal e também Governador de Santa Catarina várias vezes. E por aí você já observa que eu sou oriundo de uma família tradicional lá do Estado de Santa Catarina.
Bem, então voltando ao que nós comentávamos, eu devo dizer que o meu avô casou com uma moça lá de Santa Catarina e um dos filhos dele foi o meu pai que foi o Gustavo Konder. E o meu pai se casou com uma carioca, pois minha mãe tinha ido com uns parentes dela lá para Santa Catarina. Na verdade minha mãe era órfã e era criada por um tio que era médico e que foi trabalhar lá em Santa Catarina numa espécie de serviço profilático do Ministério da Saúde na época. E aí minha mãe se fixou em Itajaí e por lá ela conheceu o meu pai e eles se casaram. Aliás, foi um casamento que, infelizmente, não foi muito feliz. Pois quando eu ainda era criança com cerca de 10 ou 11 anos os meus pais se separaram. E eu fui o único filho deste casamento.
Na verdade eu devo dizer que a minha mãe chegou sim a ter um outro filho algum tempo depois que eu nasci mas, infelizmente, este meu irmão morreu ainda criança por que naquele tempo as coisas eram mais difíceis e a minha mãe teve algumas dificuldades no parto e ela não podia fazer cesariana e também tinha a dificuldade de transportes pois em Itajaí não tinha um hospital com muitos recursos. E a minha mãe contava que eu quase morri também por que tive que ser levado às pressas para Blumenau que era uma cidade com uma rede hospitalar mais avançada. Daí a explicação de eu ter nascido em Blumenau. Por que a família toda era baseada em Itajaí. E Itajaí é uma cidadezinha que fica no litoral de Santa Catarina, onde tem um porto e Blumenau é uma cidade do interior do Estado. A distância até não é muito grande é como se fosse do Rio até Petrópolis mais ou menos. E Blumenau sempre foi uma cidade mais desenvolvida, com um bom hospital fundado pelos alemães, pelas freiras e pelos padres alemães.
Então, devido à morte daquele meu irmão recém nascido eu fiquei sendo filho único. Eu passei uma grande parte da minha infância em Blumenau com os meus pais durante um período em que eles se fixaram lá. E em 1930, eu com três anos, estive no Rio de Janeiro por conta até de questões políticas. Foi o período em que Getúlio Vargas chegou ao poder e derrubou o Governo do Washington Luis. E como a minha família era toda ela ligada ao Washington Luis, então tivemos que partir para uma espécie de pequeno exílio no Rio de Janeiro. Houve muita retaliação contra a nossa família de maneira que vieram todos para o Rio de Janeiro. Então, ainda bem criança eu passei uma temporada no Rio de Janeiro mas, algum tempo depois, meus pais retornaram para Blumenau por que meu pai tinha que trabalhar lá na cidade. Meu pai era escrivão de uma coletoria.
Aos sete anos eu também passei uma outra temporada aqui no Rio por que meus pais estavam meio brigados e já em um processo de crise e a minha mãe veio para cá e eu vim com ela. E fiquei um ano aqui de forma que estudei aqui numa escola pública durante um ano ainda nos anos 30. Era o tempo do Prefeito Pedro Ernesto, um grande prefeito que investiu muito em educação e que modernizou as em escolas municipais. Mas era um tempo em que as crianças eram obrigadas a participar de alguns rituais meio fascistas em que tínhamos que louvar o governo de Getúlio Vargas e cantávamos canções nativistas e por aí vai.
Então depois eu voltei novamente para Blumenau e acabei o meu curso primário lá e parte do meu curso ginasial também em um colégio de Padres Franciscanos.
Eu pra ser sincero nunca fui muito ligado a estas questões religiosas e nunca fui muito católico, até por que minha mãe era espírita e meu pai não era também muito ligado a estas questões e nunca acreditou muito naquela história toda. Mas como era a melhor escola então eu cheguei a fazer primeira comunhão e tudo mais.
Quando eu tinha 11 anos aí meus pais se separaram definitivamente e eu vim para o Rio de Janeiro com a minha mãe. A princípio fui morar com ela, mas depois eu passei a morar com a minha avó, mãe do meu pai, que desde 1930 tinha ficado residindo aqui no Rio. E como a minha mãe era uma pessoa pobre, não tinha recursos, a família do meu pai decidiu cuidar de mim.
Isto foi um golpe muito violento para a minha mãe, mas creio que também eles fizeram com boas intenções já que queriam que eu pudesse ter acesso a melhores oportunidades.
Então eu fui morar em Copacabana. Isto foi mais ou menos em 1937 ou 1938. Mas lembro-me também que logo que cheguei ao Rio eu estudei seis meses no Colégio Salesiano em Niterói. Era um colégio horrível, eu era aluno interno e eu me lembro que a gente não podia sair da escola. Então eu fiquei de janeiro até junho nesta escola que detestei. Era uma escola que não tinha saídas. As crianças somente tinham direito a receber visitas aos domingos como se nós fôssemos prisioneiros. Eu detestava aquele colégio.
Mas aí um dos irmãos de meu pai, um tio meu que me influenciou muito na minha vida, resolveu me tirar daquela escola. O nome dele era Victor Konder, que era o mesmo nome daquele tio-avô que eu já mencionei. Pois na minha família tinha muito esta tradição de repetir os nomes. E o meu tio Victor era o irmão mais novo do meu pai e foi uma pessoa importante na minha vida. Ele era ainda bem jovem quando eu vim para o Rio com a minha mãe. Eu tinha 11 anos e ele tinha cerca de 20 anos mais ou menos.
E o meu tio Victor era, embora jovem, uma cara de ideais de esquerda e um tanto quanto rebelde e já com certas opiniões e conceitos bem definidos na política. Ele era comunista, na verdade. Para você ter uma idéia ele era irmão do Valério Konder que foi o pai do Leandro Konder, um grande filósofo brasileiro, de ideais marxistas e que é meu primo. Na verdade também era “comuna”, como a gente dizia na época. Este meu tio Valério Konder, irmão do meu pai e do meu tio Victor e pai do Leandro Konder, chegou a ser preso em 1965.
Enfim, a minha família também sempre teve internamente estas dicotomias na política pois alguns eram de direita e outros eram comunistas, com idéias mais avançadas como era o caso deste meu tio Victor Konder que já mencionei. Tem tanto uma figura de direita como o Senador Jorge Konder Bornhausen como um grande homem de esquerda que é o Leandro konder, ambos meus primos.
E o meu tio Victor decidiu que eu não iria mais estudar em colégio de padre e fui estudar num bom colégio que era o Colégio Juruena que ficava na Praia de Botafogo e era um colégio leigo. E ali eu fiz todo o meu científico. Meu pai havia ficado em Blumenau e eu perdi bastante o contato com ele neste período após a separação. Somente quando eu já tinha 17, 18 anos é que pude retomar uma ligação mais constante com o meu pai.
A minha mãe, que passava muitas dificuldades financeiras, morava numa pensão na Rua do Catete. E eu visitava a minha mãe todo final de semana. Mas naquele tempo tudo isto era muito difícil pra mim, pois havia muito preconceito com relação a filhos de pais separados. E eu me lembro que eu tinha vergonha de dizer aos meus amigos que ia visitar a minha mãe lá no Catete. Eu me lembro que eu sumia, assim de repente, sem dar muita satisfação pra ninguém todo sábado à tarde quando eu ia ficar com a minha mãe. E no domingo eu voltava para a casa da minha avó em Copacabana e ia pegar uma praia com os meus amigos.
Hoje em dia, tudo isto pode até parecer uma bobagem mas, naquele tempo, foi muito complicado de administrar e eu tinha um pouco de vergonha também da situação. De forma que estas visitas que eu fazia à minha mãe era um segredo que eu guardava e não contava para ninguém.
Então eu acho importante expor tudo isto para vocês nesta nossa entrevista por que são aspectos da minha vida que, certamente, marcam a pessoa e que contribuíram para formar a minha personalidade e a minha maneira de ver e de perceber as coisas.
Então se eu pudesse resumir tudo isto eu resumiria assim estas passagens da minha infância: “memórias de um menino nem sempre feliz”. Por que eu lembro de ter vivido momentos de muita melancolia e de tristeza por conta de uma série de questões que já mencionei aqui para vocês.
E eu me lembro bem de Copacabana naquele tempo. Já estava lá o Hotel Copacabana Palace e a minha avó morava num casarão. Copacabana, naquele tempo, tinha apenas casas, ainda não tinham os edifícios de apartamentos. Mas eu me lembro que o maior edifício de Copacabana era o edifício OK que ficava ali na Praça do Lido. Um edifício art deco. E esta casa onde eu morei com a minha avó era uma mansão com três pavimentos, quintal, tinha um monta carga interno que ligava a cozinha que ficava em baixo à sala de jantar que ficava em cima. Depois a gente se mudou para um outro casarão que ficava na Rua Figueiredo de Magalhães, bem no coração de Copacabana. E isto tudo com a minha avó que era uma matriarca que tomava conta de todo mundo, cuidava dos filhos, dos netos. Ah! E tem um detalhe importante que eu tenho que dizer para vocês que é o fato de o meu pai ter nascido surdo. Este é um fato importante e que marcou a minha vida. E minha avó, lá por volta de 1910, resolveu que não ia aceitar que o meu pai também ficasse mudo. E veja você que coisa interessante, ela passou a se corresponder com algumas autoridades médicas e professores das mais importantes instituições da França e, por conta própria, a partir das informações que ela recebia destas pessoas, ela passou a ensinar o meu pai a falar e a entender o que nós falávamos a partir da leitura labial. E aos 6, 7 anos de idade meu pai já estava alfabetizado.
A minha bisavó, casada com o velho “Markus”, não gostava muito da minha avó. Por que a minha avó era uma livre pensadora, com pensamentos de esquerda. Era uma mulher avançada para a época dela. E ela foi a grande responsável pela educação do meu pai que, apesar da deficiência auditiva, adquiriu uma instrução muito boa. Quando o meu pai foi para São Paulo, ele passou um ano lá se aperfeiçoando como professor. Esta história é muito interessante por que, anos mais tarde, ela se repetiu na minha família. Eu, por exemplo, tenho um filho mais moço que também nasceu surdo. E isto é uma coisa genética na minha família e de vez em quando alguém nasce com esta deficiência. Eu tenho uma prima e uma sobrinha que são surdas também.
A minha mulher, Sarita Konder, que também é uma pessoa muito inteligente, avançada, ela é professora. Ela, já sabendo do caso do meu pai, nós constatamos logo cedo a surdez do nosso filho. Aí quando os nossos filhos nasceram a gente logo em seguida corria para fazer uma audiometria para verificar se algum deles havia nascido surdo. E quando o nosso segundo filho nasceu, o Ricardo, nós constatamos logo que tudo indicava que ele tinha nascido surdo. Aí a minha mulher teve a mesma iniciativa que a minha avó e passou a se corresponder com alguns especialistas dos Estados Unidos já que ela é professora de inglês. Ela descobriu uma Clínica Especializada em Surdez de crianças que nos orientou como proceder nos cuidados com o nosso filho. E a Sarita, minha mulher, foi a grande responsável pelo nosso filho ter sido criado dentro de um ambiente completamente normal, pois ele estudou, se formou e hoje é funcionário público e tem uma vida normal. Ao contrário de ter estudado numa escola específica de educação de surdos, onde eles ensinam apenas a linguagem de sinais e com isto, na minha opinião, vai se criando uma espécie de um gueto, por que somente as pessoas que dominam aquela linguagem é que podem se comunicar. E o meu filho também pode conhecer o meu pai que era um homem muito culto e que tinha uma biblioteca muito grande e lia muito.
AA / JM: Em que momento o senhor se sentiu despertado pela arquitetura? Havia algum arquiteto e ou artista na sua família?
MK: Esta pergunta é boa. E cabe dizer que desde que eu era bem pequeno eu já gostava de desenhar. Quando eu não tinha amigos pra brincar eu não ligava a mínima pra isto por que eu ficava distraído com meus desenhos. E instintivamente, eu até já fazia alguns “desenhos de arquiteto”, por que eu fazia cortes. Eu gostava muito de imaginar túneis e com pessoas andando ali por dentro. E talvez muitos destes desenhos deviam ter a influência de revistas de histórias em quadrinhos que começavam a chegar no Brasil naquela época tais como: Flash Gordon, o Príncipe Valente, o Fantasma Voador. E todo mundo na minha família dizia: “esse menino tem muito jeito pra desenho e quando crescer vai ser engenheiro!”
Aí eu cresci com esta idéia de que, pelo fato de desenhar bem, só me restava ser engenheiro.
E agora eu faço um corte importante nesta história que é que quando eu tinha uns 16 anos eu me mudei pra Ipanema, ali na Rua Nascimento Silva. E a Nascimento Silva lembra alguém a vocês da Música Popular? Pois bem, foi ali que nasceu a Bossa Nova e onde morava o Tom Jobim de quem eu fui grande amigo e companheiro por muitos anos. Fui amigo dele e do Newton Mendonça. Nós éramos três inseparáveis. Éramos adolescentes e eu vi nascer o Tom Jobim como músico. O Tom era filho de uma professora, proprietária do Colégio Brasileiro de Almeida. E nós nos reuníamos com mais um outro rapaz que era o Carlos Madeira que, mais tarde, se formou em medicina. E todos nós tínhamos muito interesse por arte e também por música. Uma ocasião resolvemos estudar gaita e o Newton Mendonça, que morava três edifícios além do meu, já tocava piano e violino. Todos da mesma geração, mesma idade, eu era um pouco mais moço, coisa de meses. Creio que todos até tínhamos nascido no mesmo ano em 1927. Então vivenciamos tudo isso juntos. Para o Tom, aquela coisa de “gaitinha de boca” não satisfazia. A mãe dele tinha uma garagem no colégio onde tinha um piano para a aula de música, ele ia pra lá e ficava batucando no piano, de ouvido. Lembro-me que a gente passava várias tardes por lá, eu também ia, a gente cantava as músicas da época. Isso na década de 1940, pois entrei na faculdade em 1945. O Tom Jobim era um garoto, assim como eu. A mãe dele, Dona Nilza, e o padrasto, Celso Pessoa, pessoas avançadas para a época, também perceberam seu talento para a música e contrataram uma professora de piano particular, a Dona Lúcia Branco. E o Tom começou a estudar música como se fosse para ser um pianista, um concertista. E aprendeu e reclamava muito que gostaria de ter a mão maior para ser um bom pianista. E eu ficava gravitando em torno desse universo musical e conheci a irmã dele, uma moça muito bonita, a Helena Jobim, mais moça, ela é escritora e recentemente escreveu um livro sobre o Tom Jobim. Então fomos crescendo, naquela rodinha de amigos. O Tom estudava comigo no Colégio Juliano, nós íamos de bonde, pegava o bonde lá na praça General Osório e íamos até a praia, tinha bonde no Rio de Janeiro inteiro naquela época.
Mas o fato é que a gente estava meio sem saber o que fazer da vida, e como a gente gostava muito de arte, resolvemos estudar arquitetura. Mas, inicialmente, eu comecei a me preparar para prestar o vestibular para engenharia. Naquele tempo não havia cursos preparatórios para o vestibular e sim os professores particulares. Nós éramos garotos de praia. Em uma ocasião, eu estava na praia, num domingo, e conversando com um rapaz um pouco mais velho que eu, que tinha acabado de entrar pra faculdade, e estávamos conversando sobre vestibular e ele me perguntou o que eu iria fazer. Falei-lhe que iria fazer engenharia. E ele: “Engenharia, por quê?” Respondi que iria fazer engenharia porque gostava de fazer projetos, desenhos. Não rapaz isso não é engenharia, isso é arquitetura (risos). E perguntei a ele: “E tem essa faculdade de Arquitetura?” E ele me disse que havia acabado de entrar para a faculdade de arquitetura, um curso da Escola de Belas Artes. Na época não era uma faculdade como hoje, mas apenas um curso da Escola de Belas Artes. E então decidi fazer o curso de arquitetura, num domingo na praia. E nos preparamos entre tantas farras, estudamos bem e passamos bem. Eu acho que eu passei em terceiro lugar e o Tom Jobim em quinto. O Tom era muito inteligente e tinha muita facilidade para aprender matemática e física. É engraçado, podemos ver como é curiosa a relação entre estas duas matérias com a música. Ele não tinha sido um aluno muito aplicado no ginásio e quando fomos estudar para o vestibular, compramos livros e estudamos sozinhos. E o Tom mesmo não sendo um bom aluno, como já mencionei, tinha muito mais facilidade que eu para a matemática. Entramos juntos para a faculdade de arquitetura, mas o Tom nunca abandonou a música. O Tom ficou apenas seis meses e desistiu. E nós entramos para o Curso de Arquitetura da Escola de Belas Artes no mesmo ano em que este foi transformado em Faculdade de Arquitetura. Entrei em 1945, quando, então, foi fundada a Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil. Sou, portanto da primeira turma, que concluiu o curso após essa mudança. Interessávamos-nos muito pela garotas da Escola de Belas Artes. Na época, a hoje famosa atriz Nathalia Timberg, era uma dessas alunas da Belas Artes, estudava pintura. As primeiras faculdades de arquitetura no Brasil foram essa aqui no Rio e a Mackenzie, em São Paulo. Sendo a do Rio a primeira Federal de Arquitetura do Brasil. Vindo nela estudar muitos alunos de fora como, por exemplo, o compositor Billy Blanco Trindade, que se formou na mesma turma que eu. Ele era do Pará, foi estudar no Mackenzie, e quando ele estava no terceiro ano (naquela época era por ano e não por semestre como hoje em dia) veio a ser meu colega. E ele até fez o samba da nossa formatura. O “Eu danço samba de anel no dedo”. Ele fez um samba, também na ocasião da transferência da Capital, o “não vou pra Brasília...nem eu, nem minha família...”. Ele é um bom compositor, mas assim como o Tom Jobim, não se dedicou à arquitetura.
Objeto popular na residência Marcos Konder em Santa Teresa Foto Antônio Agenor Barbosa
Monumento aos Mortos da 2ª Guerra. Arquitetos Marcos Konder e Helio Ribas Marinho Foto Antônio Agenor Barbosa
Antônio Agenor Barbosa e Juliana Mattos: Gostaria que o senhor falasse a respeito dos seus anos de formação universitária. Como foi o seu processo de escolha pela Faculdade de Arquitetura e as características mais marcantes daquele período? Como era o contexto político e social do Brasil na época da sua formação?
Marcos Konder: Bom,voltando ao assunto da minha formação, tive outros amigos importantes além do Newton Mendonça e do Tom Jobim. Por exemplo, tive a amizade de um homem que hoje é um conhecido pintor, renomado artista plástico, o Eduardo Sued. Também nos formamos na mesma época. O caso dele é interessante. Ele entrou para Engenharia, e quando estava no terceiro ano, decidiu que queria ser pintor. Foi uma decepção para a família dele, que é de sírio-libaneses, depois que o Eduardo já tinha enfrentado o vestibular para Engenharia, que era um dos mais difíceis na época. Eu tenho umas pinturas dele da época em que ele começou a se desenvolver nas artes plásticas. Éramos um grupo de jovens interessados em arte.
Certa ocasião, caiu em nossas mãos um livro chamado: “Pintura quase sempre”, nós líamos aquilo com uma atenção, sobre todos os movimentos estéticos principalmente os modernos, mas também o impressionismo, expressionismo. Então, durante a faculdade de arquitetura, eu comecei a me interessar também muito por pintura, por arte, quase virando a casaca para a pintura (risos). Devo revelar para vocês que quando comecei a faculdade, eu não era tão interessado por arquitetura. No primeiro ano eu nem ia muito às aulas. Havia uma matéria na época, matemática, que era lecionada pelo Professor Júlio César de Mello e Souza, o famoso Malba Tahan. Ele é o autor do livro “O Homem que Calculava”, que conta a história de um árabe que usa a matemática para resolver qualquer tipo de problema e esta obra dele foi até premiada pela Academia Brasileira de Letras. Mas, na minha época, ele era o terror dos estudantes de arquitetura, pois estes não tinham uma boa formação. Eu e o Tom Jobim éramos exceções, devido aos nossos intensivos estudos em matemática antes de entrarmos na faculdade.
Para vocês terem uma idéia, eu até nem freqüentava regularmente as aulas do Prof. Mello e Souza e, ainda assim, passei por média. Homem muito inteligente, ele sabia que arquiteto não gosta de matemática, e assim não se aprofundava tanto, mesmo dando o mais superficial, muitos dos meus colegas do curso de arquitetura tinham dificuldades nas aulas dele. Eu achei tranquilo o curso, fiz as provas e passei. Mas nesse primeiro ano eu não estava ainda muito certo do que queria realmente. Tudo começou quando eu estava assim na dúvida o que é arquitetura, qual é a relação da arquitetura com a arte, por que o Arquiteto projeta e qual a sua motivação ao projetar. Enfim, eu não estava achando muita graça nisso até que um dia houve uma palestra do Oscar Niemeyer na ABI, Associação Brasileira de Imprensa.
E aqui eu faço uma observação que é a de que nós éramos privilegiados, pelo fato de estudarmos em frente a dois dos maiores ícones da arquitetura mundial que são a ABI e o Ministério da Educação. E o Oscar fez uma palestra muito bonita, onde ele explicava o porquê de determinadas formas nos projetos dele. E foi aí que eu pude associar o que ele falava às idéias e aos projetos do Sullivan, onde “a forma segue a função”. Então eu percebi que a função está relacionada com a forma e a partir daí o arquiteto tira a sua motivação para conceber a forma dos seus projetos. Naquele momento eu comecei a encontrar um sentido e achei interessante esta idéia de que o arquiteto, ao projetar, nem faz uma forma gratuita ou aleatória e nem faz um edifício meramente utilitário. Então o papel do arquiteto era fazer alguma coisa que mesclasse a utilidade, a tecnologia e a beleza. E depois nós passamos a tomar conhecimento da arquitetura moderna brasileira através das idéias e dos projetos de Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e também de Affonso Eduardo Reidy. E esta turma era, na verdade, composta por arquitetos nitidamenteinfluenciados pelas idéias de Le Corbusier. E aí descobrimos também, por tabela, o Le Corbusier que passou a ser o nosso Deus. Eu tenho até hoje cinco álbuns do Corbusier. O Le Corbusier era danado pois ele de tantos em tantos anos fazia uma espécie de álbum e vendia para o mundo inteiro. Na verdade, ele vivia disso e não de arquitetura. Ele era um ótimo escritor, um desenhista excepcional. E então um livro de Corbusier passava a ser uma espécie de Livro Sagrado dos Arquitetos. E quando fazíamos prova na Escola era com o livro de Corbusier aberto na nossa frente. Copiávamos direto e sem a menor vergonha. E ficávamos procurando nos livros de Le Corbusier qual o projeto mais parecido com o que o professor havia nos solicitado. E olhávamos a história do brise-soleil, da estrutura independente, fachada cortina, proteção solar, terraço jardim, pavimento livre, pilotis... os postulados de Corbusier passaram a ser sagrados, como já mencionei.
Evidentemente que nossos projetos iniciais, copiados de Corbusier, eram ainda muito esquemáticos e simplificados e, aos poucos, fomos superando e adaptando aquelas idéias à nossa realidade tropical. Então essa geração anterior à nossa, com uma distância de aproximadamente duas décadas, foi o nosso referencial. O Oscar, para minha geração, era um cara já velhíssimo naquele tempo, já tinha uns quarenta e poucos anos (risos). Ele ainda não tinha projetado os edifícios de Brasília, mas já tínhamos as referências da Pampulha. Hoje, na verdade somos dois velhinhos, eu e o Oscar.
O Oscar teve uma ascensão muito rápida. O Lúcio deu um impulso inicial em sua carreira, ao chamá-lo para compor a equipe do Ministério da Educação. E mais tarde houve um episódio muito interessante em que o Lúcio Costa foi convidado para projetar o Pavilhão do Brasil em Nova Iorque. Primeiramente houve um concurso em que Lúcio obteve o primeiro lugar e o Oscar Niemeyer a segunda colocação. Lúcio era uma pessoa excepcional e uma figura acima da média. E quem me contou essa história que vou mencionar foi o João Carlos Vital, que foi Prefeito do Rio e coordenou a organização do Concurso. Então ele me contou que o Lúcio, chegou para ele e disse que o melhor projeto não era o dele e sim o do Oscar Niemeyer. Então o João Carlos Vital sugeriu que refizessem, juntos, um novo projeto. E este novo projeto que eles fizeram foi muito mais baseado no projeto anterior do Oscar que no projeto do Lucio. E o Oscar foi subindo como um foguete, pois ele ainda teve a sorte de encontrar um “Juscelino Kubitscheck”, na época Prefeito de Belo Horizonte, que era um visionário e que tinha idéias de modernização urbana e arquitetônica para novas áreas da cidade de Belo Horizonte. Nesta época eu estava me formando e acompanhava tudo isto com atenção e interesse.
Então seu eu puder resumir tudo isto, eu digo que não só para mim como para toda a minha geração, nascida nos anos 30, estas pessoas foram fundamentais.
Já no final da faculdade, eu comecei a me sentir um pouco tolhido por estas idéias e foi aí que eu descobri, por conta dos muitos livros que adquiria, o gênio de Frank Lloyd Wright. Eu estava sempre interessado em artes, nos movimentos de vanguarda daquela época, estava sempre lendo e estudando muito sobre estes temas. De maneira que eu considero que eu até tenho um bom conhecimento de artes plásticas, em função deste meu interesse pessoal pelo tema. Cabe dizer que a faculdade não estimulava muito a nossa curiosidade por estes temas da arte, infelizmente. E aí, eu posso dizer que me entreguei de corpo e alma à arquitetura e à arte e fui resolvendo, paulatinamente, a minha dicotomia interna entre ser pintor e arquiteto.
AA / JM: Quais foram os seus principais mestres? Como era o ambiente acadêmico na faculdade e a sua relação com os colegas e professores? Em quais disciplinas o senhor se destacava?
MK: A Faculdade na minha época era dominada por professores de duas linhas bem distintas que eram: os “engenheiros” e os da linha “acadêmica” ou tradicionalista, digamos assim. Este segundo grupo, nós os desprezávamos solenemente, mas agora que eu sou mais velho eu percebo que eles eram bons arquitetos – dentro daquilo que se propunham a fazer – mas o fato é que nós os desprezávamos. E eles davam temas de trabalho tais como: um castelo, algo no estilo românico ou gótico e o nosso interesse já era pela arquitetura moderna. Mas cabe dizer que estes professores não nos perseguiam e até reconheciam o talento destes jovens alunos. E eu por exemplo, só vim a reconhecer o Archimedes Memória como um bom arquiteto e professor algum tempo depois de formado. E os melhores alunos, inegavelmente, eram os que já estavam engajados nas idéias da arquitetura moderna. Na minha turma tinham três alunos que se destacavam que eram o Flávio Marinho Rego, meu grande amigo de projetos e de noitadas, o Ulisses Burlamaqui, que era uma figura muito engraçada por que era todo “certinho”, todo almofadinha, e era ótimo em apresentação de projetos e eu. O Ulisses era conhecido tanto por que caprichava muito nas suas apresentações da faculdade com maquetes muito bem feitas e também pelo fato de copiar nitidamente as idéias do Oscar Niemeyer.
Tem até uma história engraçada do Ulisses. Por ocasião de uma exposição que organizamos pelo NEDAB (Núcleo de Estudos e Divulgação da Arquitetura Brasileira) que foi um órgão criado pelos alunos de arquitetura, e que foi realizada no Ministério. Lá havia projetos de alunos, inclusive do Ulisses. Aí contam que o Oscar esteve na exposição e, ao se deparar, com o projeto do Ulisses, exclamou que não havia mandado nenhum projeto par a exposição. Ele não era mau arquiteto, mas também não era dos mais criativos. Cabe dizer que ele tinha muito bom gosto, se vestia muito bem e ficou logo rico com a arquitetura, andava de carro conversível e etc. E o outro aluno, dentre os que mais se destacavam era eu.
Fora do âmbito da faculdade eu recebi uma grande influência do Valério Konder e do Victor Konder, ambos meus tios, como já mencionei. E como eles eram comunistas, eu logo também me tornei comunista e entrei para o Partido. Aliás, o Valério Konder, meu tio, era um médico sanitarista e pai do filósofo Leandro Konder, meu primo, que era pequenininho nesta época. A minha avó morava na Rua Nascimento Silva em Ipanema e o Leandro e o Rodolfo Konder, meus primos, moravam ao lado. Como eles eram bem mais novos que eu, nós não tínhamos muito contato. E uma informação curiosa é que o Leandro era muito amigo do arquiteto Alfredo Brito.
Então como eu dizia, eu passei a pertencer ao Partido Comunista e fiz parte de uma célula do Partido. Tínhamos uma atuação política muito engajada nas causas que o Partido defendia. E eu me lembro que na ocasião em que eu passei no vestibular, fui ao Partido e numa reunião eu pedi a palavra e disse aos companheiros que agora não poderia me dedicar tanto às causas do Partido, pois iria estudar Arquitetura. O que é curioso é que o Partido passou por uma reestruturação destas células e acabou criando uma nova célula dentro da Faculdade de Arquitetura. E eu, obviamente, fazia parte desta célula junto com alguns outros alunos e também funcionários e até os serventes da escola.
Mas aos poucos eu fui me desiludindo com o Partido por conta de seu dogmatismo e das idéias associadas ao Stalinismo que eu não concordava muito. Eu não concordava com o “centralismo democrático” preconizado pelo partido. No Socialismo eu acreditava, mas sempre associado à democracia. Então eu continuei sendo de esquerda, mas com uma visão crítica da política.
AA / JM: Quando e com quem o senhor começou efetivamente a trabalhar com arquitetura e como arquiteto? O senhor sentiu-se seguro ao sair da faculdade para o mercado ou esta segurança somente foi sendo adquirida com a realização dos seus primeiros trabalhos? Havia no tempo da sua formação um ambiente propício e favorável à crítica de arquitetura e aos debates fora da faculdade?
MK: Quando eu estava no terceiro ano da faculdade, aquele grupo Flávio Marinho Rego, Ulysses Burlamaqui, eu, e outros de turmas mais adiante como o Acácio Gil Borsoi, que era um ano na minha frente, o Almir Gadelha, que já faleceu, nós formávamos um grupo dos melhores alunos da turma “na parte que interessa”: projeto. E o Instituto de Arquitetos, que era ali na Cinelândia, numa sobreloja, fez um concurso para estudantes de arquitetura, uma espécie de embrião do concurso Arquiteto do Amanhã. O objeto do concurso era o projeto de um centro cultural, algo assim. Como o Flávio tinha o escritório dele, ele havia alugado uma sala no Centro, ou melhor, no Castelo, pois ele trabalhava com o Oscar Niemeyer, ele empreitava desenhos do Oscar. Então ficávamos, esse grupo de alunos, preparando individualmente os trabalhos para o concurso na sala cedida pelo Flávio. Então entregamos os trabalhos e o júri era composto por arquitetos como o Maurício Roberto e outros medalhões da arquitetura.
Resultado: 1º lugar o Ronaldo Esteves que é um arquiteto até de bom nível mas que depois a gente não ouviu mais falar dele. Eu sei que ele era radicado em Brasília. 2º lugar: Acácio Gil Borsoi que era um ano na minha frente como eu já mencionei. E eu fiquei em 3º lugar. Fiquei maravilhado, pois eu ainda estava no terceiro ano da faculdade e era um dos mais novos de todos os concorrentes. E eu me lembro de um fato curioso que foi um comentário que o Maurício Roberto fez para mim e disse: “olha você tem um projeto muito bom mas a sua apresentação ainda está muito fraca, você tem que melhorar muito pois este é um item importante num trabalho de arquitetura”.
E a partir desta premiação no concurso, nós começamos a ter alguma projeção no cenário arquitetônico mesmo que eu ainda fosse um estudante. De repente, o nosso nome ficou meio na moda, e a gente começou a aparecer na mídia e por aí vai. Nesse tempo o Sérgio Bernardes freqüentava muito a escola pois, apesar de já estar trabalhando profissionalmente como arquiteto, ele ainda devia algumas matérias do terceiro ano e, veja você, não tinha ainda recebido o seu diploma. Um boato que existiu naquele tempo era o de que o Sergio Bernardes pagava ao Ulisses Burlamaqui para fazer alguns trabalhos da faculdade pra ele. O Ulisses era danado e, por outro lado, o Sergio era um arquiteto já com muitos trabalhos no seu escritório e que, certamente, não tinha tanto tempo assim para se dedicar a trabalhos de faculdade. E depois de muito tempo, o Sérgio Bernardes, que já era um arquiteto conhecido e renomado, finalmente, conseguiu ter o seu diploma. Cabe dizer que o Sergio, nascido em 1919, era de uma geração intermediária entre a geração do Oscar e do Lúcio Costa e a minha geração. E desta geração o Sergio era, de fato, o mais conhecido, como eu já falei. Aí eu me formei e logo em seguida o Sérgio Bernardes me convidou para trabalhar no escritório dele.
A gente se encontrava com freqüência pois esta turma toda costumava se encontrar ali no Bar “Vermelhinho”. Era um bar de artistas e intelectuais tais como Vila Lobos, Carlos Drummond de Andrade. E naquele tempo a gente só andava de paletó e gravata. E um dia eu estava parado na porta da faculdade quando o Sérgio Bernardes passou e falou assim: “Aí Marcos, você que trabalhar no meu escritório”. E ele precisava de alguém que fosse bom de desenho e de perspectiva e acho que foi por isto que ele me convidou para trabalhar com ele. Ele precisava de alguém que também o ajudasse a refletir no processo criativo, pois os outros arquitetos da equipe eram muito bons na parte de detalhamento e execução e não na parte de criação.
E quando eu disse, todo feliz, aos meus colegas que ia trabalhar com o Sérgio Bernardes, muitos me alertaram me dizendo assim: “você está louco, o Sergio não paga a ninguém que trabalha com ele”. Ele tinha esta fama realmente de não pagar aos seus colaboradores e eu me lembro que o escritório dele era num edifício projetado pelos Irmãos Roberto, ali na esquina da Rua Senador Dantas com Evaristo da Veiga. Então o Sérgio me disse assim: “Olha Marcos, você aqui vai ser o meu braço direito no escritório”.
E eu comecei a ajudá-lo na parte de criação dos projetos. Fazia perspectivas e etc. E então eu disse pro Sérgio: isto é o que eu quero mesmo. Aí comecei, foi ótimo porque o Sérgio dava desenhos mirabolantes, mas aí ele mesmo empacava nas suas idéias. Dizia o Sérgio: “Marcos, aqui eu não sei mais o que faço.” Eu dizia: “Deixa comigo Sérgio, eu vou tentar resolver pra você.” E então eu desenvolvia muitas das idéias originais do Sérgio Bernardes. Eu me lembro de uma Igreja sobre a qual o Sérgio disse: “Eu quero que ela seja redonda” e deu outras pistas mas questionou por exemplo como seria o acesso da tal Igreja. E então eu sugeri um acesso por baixo, por uma espécie de rampa, como mais tarde o Oscar Niemeyer fez na Catedral de Brasília. Ficávamos até altas horas da noite, discutindo idéias, projetos. O Sérgio tinha uns clientes “picaretas”, a maioria de São Paulo, que vinham com umas idéias mirabolantes, que era tudo pra ganhar dinheiro, pra “vender papel”.
Mas mesmo com este tipo de clientela não muito confiável, o Sérgio me deu uma lição muito interessante de vida. Uma vez estava com ele, nós dois sozinhos no escritório, trabalhando no projeto de um cara, já eram 11 horas da noite. Eu disse: “Sérgio, isso aqui é uma picaretagem. Você não está vendo que esse cara não vai fazer nada disso. Nós estamos aqui, virando a noite, perdendo nosso tempo. O Sérgio me respondeu: “Marcos, eu tenho a seguinte filosofia: quando me pedem um projeto, eu não quero saber se vai ser feito ou não. Para mim ele vai ser feito e então eu levo a sério até o fim.” Foi um período interessante da minha vida profissional. Trabalhei por 1 ano com o Sérgio Bernardes, o que poderia ser considerado uma raridade, ninguém ficava tanto tempo, porque ele não pagava ninguém. O meu caso era um pouco diferente. O Sérgio dependia muito das minhas perspectivas, de toda parte de desenhos que eu fazia para ele. Então, todo mês eu pressionava o Sérgio e ele me pagava. Mas para os outros ele costumava dizer que já havia gasto o dinheiro todo. Quando ele ia receber o pagamento de algum projeto ficava todo mundo rodeando ele.
Quando eu resolvi me casar, comuniquei ao Sérgio. Ele estava me devendo um dinheiro. Eu disse: “Sérgio, você está me devendo, você vai me pagar, não é mesmo?” E ele respondeu que não só me pagaria como me daria um bom presente de casamento. Bom, o presente ficou só na promessa. E quanto à dívida aconteceu o seguinte: Logo que me casei, comprei um carro de segunda mão. Fui até o Sérgio e combinei com ele que todo mês ele me daria uma quantia para que eu pagasse a mensalidade do carro. O Sérgio cumpriu o combinado e depois consegui quitar minha dívida. Depois do Sérgio, fui trabalhar com o Affonso Eduardo Reidy. Foi uma sugestão do Hélio Ribas Marinho, que depois viria a ser meu sócio. Um dia encontrei o Hélio, que me perguntou: “Marcos, você não quer vir trabalhar com o Reidy no Departamento de Urbanismo?” O Reidy havia assumido um cargo no departamento de Urbanismo e feito o plano do Morro de Santo Antônio. Enfim, era um dos arquitetos da geração do Oscar Niemeyer e muito conhecido por alguns de seus projetos. O Reidy, como todo mundo sabe, também tinha participado da equipe do MEC e feito o projeto do Pedregulho. Fomos os 3 trabalhar com o Reidy: eu, o Hélio Ribas Marinho e o Flávio Marinho Rêgo, que era extremamente alto tendo o apelido de “pé-direito” e que depois fez um conjunto habitacional aqui no Rio bem parecido com os projetos do Reidy e mais tarde foi um dos autores do Projeto da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) em parceria com o arquiteto Luiz Paulo Conde.
Mais tarde, o Flávio se interessou cada vez mais por pintura e foi passar uma temporada na Europa. Eu e o Hélio continuamos mais um tempo no Reidy, onde participamos de vários projetos importantes. Infelizmente o Hélio Marinho faleceu em 2004. E essa minha transição do escritório do Sérgio Bernardes para o do Reidy se deu num momento importante da minha vida: me casei e precisava de mais segurança e estabilidade, o que eu não tinha enquanto trabalhava com o Sérgio. Mas mesmo com o Reidy, eu fui trabalhar com um contrato temporário, inicialmente de apenas 6 meses. E o Reidy era um cara bacana que gostava muito de delegar tarefas e responsabilidades nos seus projetos, o que para um jovem arquiteto como eu era muito importante, dava muita experiência. E eu comecei a admirar o Reidy, dada a sua seriedade e competência. Eu gostava muito dele e estou certo de que ele também gostava muito de mim. Eu era muito amigo do Reidy e ele me dizia que eu era, dos jovens arquitetos, o que ele mais admirava e respeitava.
Com as mudanças políticas o Reidy foi transferido e passou a trabalhar com a engenheira Carmen Portinho, com quem ele, supostamente, já teria um romance. Eles eram duas figuras curiosas porque não gostavam de demonstrar no ambiente de trabalho esta relação mais íntima que possuíam. Cabe dizer que o Reidy era um solteirão e a Carmen, na época, era uma mulher separada, o que não era tão comum. Além disso ela ocupava um cargo importante que era a diretoria de habitação popular, o DHP. Ela foi uma das primeiras mulheres engenheiras do Brasil. E fomos todos trabalhar com a Carmem, o Hélio Marinho, o próprio Reidy, como eu já mencionei, e eu também fui. Nesta época o Flávio Marinho Rego, que era do nosso grupinho de arquitetos, já tinha se mandado para a Europa. E ali trabalhamos sob a coordenação do Reidy por algum tempo. Naquele momento eu presenciei o nascimento das primeiras idéias do Reidy para o Projeto do Museu de arte Moderna (MAM) que foi construído ali no Parque do Flamengo. O Reidy era uma pessoa que não tinha soberba e, além disso, ele gostava muito de ouvir opiniões das pessoas que o cercavam, inclusive nós que éramos arquitetos mais jovens que ele. Era uma figura muito interessante, eu gostava muito dele. O Reidy, na verdade, parecia um lorde inglês. E cabe dizer até que ele realmente tinha uma ascendência inglesa na família. Era muito alto, elegante, muito bem educado, magrinho e com um “bigodinho” do tipo inglês e bem cortadinho. Uma ocasião, quando o Reidy foi fazer a Escola Brasil Paraguai e teve que visitar o Paraguai para fazer uma visita ao terreno, o único arquiteto que ele levou fui eu. Passamos lá uns três ou quatro dias e ele me levou para que eu também pudesse opinar sobre o local e também sobre as idéias que ele já tinha para a Escola. Eu aprendi muito nesta minha convivência com o Reidy. Tanto na parte pessoal como na parte profissional. Destacava-se a sua seriedade e grande preocupação que ele tinha com os detalhes.
Aliás, aqui eu faço um corte para relatar um episódio que eu considero que foi muito traumático na vida do Reidy. Naquele tempo, antes de eu chegar para trabalhar com ele, houve um concurso que era o do Centro Técnico da Aeronáutica, ali em São José dos Campos. Foi um concurso fechado em que foram convidados cinco dos mais importantes escritórios do Brasil na época. O Oscar Niemeyer, os Irmãos Roberto, o Reidy e outros. E os arquitetos modernistas do Rio, naquela época, trabalhavam todos juntos numa grande sala em um edifício no centro da cidade. Os ambientes de trabalho de cada arquiteto eram divididos apenas por algumas baias que separavam os espaços. De maneira que cada um circulava livremente pelas pranchetas dos outros e podiam conhecer os projetos e as idéias dos demais colegas.
E o Oscar que, inegavelmente, é um arquiteto muito talentoso, mas que nunca foi de se aprofundar muito nas coisas, ao contrário do Reidy que, talvez até tivesse menos talento que o Oscar, mas que era muito estudioso. O Reidy então se dedicou com o seu tradicional profissionalismo a estudar de maneira muito aprofundada o programa, os organogramas e outras questões sobre o projeto do CTA. O Oscar ficou muito interessado nas idéias e nos estudos do Reidy e, vez por outra, passava nas pranchetas do Reidy para observar e também fazer perguntas ao Reidy sobre determinadas questões que ele havia estudado.
Depois cada um foi pro seu canto desenvolver os seus projetos individualmente. Mas, talvez devido àquele convívio tão próximo entre os principais concorrentes do concurso, o fato é que os projetos realmente ficaram muito semelhantes, principalmente nos critérios de implantação. O Júri desclassificou a proposta do Reidy alegando que, de certa maneira, havia influências em relação à proposta apresentada pelo Oscar que, já naquele tempo, gozava de muito mais prestígio do que o Reidy. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário. Não estou dizendo que o Oscar tenha plagiado o Reidy, mas que ele conheceu toda a sistematização do projeto que o Reidy tinha proposto. E muitas coisas ele usou deste estudo na proposta que ele apresentou ao concurso do CTA.
Na verdade esta história era meio que um tabu na vida do Reidy e ele, na sua sempre discreta elegância, ele era um gentleman, nunca ficava remoendo estes fatos. Mas, até onde eu sei, isto contribuiu muito para o gradativo afastamento do Oscar e do Reidy a partir daquele momento. Ao que sei eles nunca brigaram mas, este episódio foi um divisor de águas na relação que os dois passaram a ter dali em diante.
A Carmem Portinho era uma espécie de anjo da guarda do Reidy. Eles saiam do DHP praticamente na mesma hora. Primeiro a Carmen ia embora e, alguns minutos depois saía também o Reidy. Todo mundo sabia que eles viviam juntos, mas eles faziam questão de sair separados do ambiente de trabalho.
Bem, aqui eu só retomo um aspecto importante. Naquele tempo as minhas possibilidades de me desenvolver como arquiteto diminuíram muito, pois o Reidy já estava totalmente envolvido com os trabalhos no MAM. E a parte toda de habitação popular tinha um arquiteto de muita qualidade, que ainda está vivo, que é o Francisco Bolonha. O Bolonha era um arquiteto diretamente ligado à Carmem Portinho. Eu fui ficando, aos poucos, meio deslocado.
E aí eu relato também para vocês como eu me tornei funcionário público, mesmo sem ter esta ambição no início da minha carreira. Foi uma casualidade, posso dizer assim. Acontece que nós trabalhávamos como contratados por um pequeno período no DHP e ficamos cerca de quatro meses sem receber nenhum pagamento. Certa ocasião, o Reidy foi falar com o Prefeito o João Carlos Vital, que foi até o nosso departamento e ali ficou muito entusiasmado com a nossa produção. Aí o Reidy, sabiamente, aproveitou este entusiasmo do Prefeito e disse: “pois é Dr. Vital, esta garotada é muito competente, mas o fato é que eles não recebem seus salários há cerca de quatro meses”. Aí logo nos dias seguintes saiu uma publicação no Diário Oficial e o Prefeito nos nomeou como funcionários públicos, agora em caráter definitivo. Era um cargo “Letra O” que era um dos mais altos cargos do funcionalismo público naquele tempo. Fui nomeado como arquiteto do Departamento de Estradas e Rodagens e foi aí que me tornei funcionário público. E o Hélio Marinho também foi nomeado junto comigo e, aos poucos, ficou mais ligado à parte administrativa da Prefeitura, coisa com a qual eu nunca me interessei.
Insatisfeito com as minhas tarefas de natureza mais burocrática no DHP eu parti, paralelamente, para uma sociedade com dois colegas numa sala que tínhamos ali na General Justo, bem próximo à sede do DHP. A nossa sociedade tinha como objetivo fazer empreendimentos comerciais, incorporações e etc. Isto já era no final dos anos 50. Eram dois sócios judeus e a sociedade, infelizmente, não durou muito tempo e eu depois me separei destes colegas. Foi aí que surgiu o concurso do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra em meados dos anos 50. Eu comecei a esboçar muita coisa e desenvolvi as questões centrais do Projeto. Quando já tinha muita coisa avançada e uma idéia já bem alinhavada eu procurei o Helio Marinho para colaborar comigo, pois os prazos estavam muito apertados e eu tive receio de não dar conta sozinho. O Hélio Marinho topou colaborar comigo e nós entramos como sócios. Na verdade, aqui cabe esclarecer que, embora nós tivéssemos entrado como parceiros no Projeto do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra, eu não tenho nenhum pudor e nem falsa modéstia de dizer que era, na verdade, um projeto da minha autoria em que o Hélio foi meu colaborador em função das questões que já mencionei.
Cabe dizer que foi um concurso em que tinham cerca de trinta equipes participando, e na primeira eliminatória ficaram seis equipes, entre elas, a do Francisco Bolonha. Nesta última etapa é que seria escolhido o vencedor. Além do nosso projeto e do Bolonha eu me lembro que tinha um arquiteto grego que morava no Rio, tinha o Almir Gadelha, um arquiteto que morreu prematuramente, e tinha também uma equipe de Pernambuco. E o resto da história todo mundo sabe, pois nós vencemos o concurso e o Monumento foi construído.
Para mim foi uma excelente notícia já que eu era ainda um jovem arquiteto, tinha menos de trinta anos, e ganhar um concurso daquele porte foi muito bom para alavancar a minha carreira.
AA / JM: Como foram recebidos os seus principais trabalhos pela crítica especializada? Alguma crítica mais contundente que o senhor discorda? Em quais arquitetos (brasileiros e estrangeiros) o senhor se espelhou no início da sua carreira?
MK: Na verdade o meu primeiro grande projeto foi o do Monumento. E mesmo tendo vencido o concurso houve sim, muitas críticas desfavoráveis ao projeto. Houve por exemplo um crítico de arte chamado Jaime Maurício que era muito ligado à velha guarda dos arquitetos. Ele escrevia muito bem e a coluna era publicada no Correio da Manhã. Os arquitetos em geral até que gostaram muito, mesmo por que era tudo muito diferente das formas que estavam acostumados a ver na cidade. O Monumento fugiu à rotina visual da cidade.
Nós ganhamos algum dinheiro e eu comprei um carro e o Hélio também comprou um carrinho para ele. Eu estava também recém casado e do ponto de vista pessoal também foi muito bom para mim.
Mas cabe dizer que certa ocasião com o Monumento já construído, o Le Corbusier esteve no Brasil e você acredita que as pessoas que estavam guiando o Corbusier não iam levá-lo para conhecer o Monumento? Mas o fato é que ao passar de carro ali pelas pistas do Aterro do Flamengo o Le Corbusier fez questão de descer e de ver e passear pelo Monumento. Pois saibam que ele ficou uma hora e gostou muito do que viu. De maneira que para mim isto foi também um fato muito importante, pois é como se eu tivesse sido legitimado por um grande mestre. Naquela ocasião eu recebi um telefonema do Lúcio Costa narrando este episódio e dizendo que o Corbusier gostaria de conhecer os arquitetos responsáveis pelo Projeto do Monumento. O fato é que ao saber disto eu logo depois tomei um porre de felicidade (risos).
E, ao que sei, o Le Corbusier deixou também isto por escrito em uma carta que ele enviou ao Lúcio Costa agradecendo pela receptividade na sua última viagem ao Brasil. Nesta carta ele elogiava, entre outras obras, o Projeto do Monumento. E o Lúcio Costa me deu uma cópia desta carta que eu a tenho guardada até hoje.
Agora eu devo dizer para vocês que, mesmo tendo um “padrinho” como o Le Corbusier, eu fui, aos poucos, me desencantando com aquele tradicional racionalismo Europeu. Foi aí que tomei conhecimento de arquitetos como Frank Lloyd Wright e, principalmente, Alvar Aalto. A arquitetura orgânica, aberta e digamos, mais “humanista” talvez, desses mestres e que não tem aquela rigidez do racionalismo ao qual me referi anteriormente. Inclusive, durante a minha trajetória escrevi diversos textos, sendo um deles, um artigo sobre a arquitetura do Alvar Aalto.
Cabe dizer que na essência da minha produção e pensamento permaneci um racionalista, pois tal vertente parece que já estava entranhada em minha visão de mundo.
Monumento aos Mortos da 2ª Guerra. Arquitetos Marcos Konder e Helio Ribas Marinho Foto Antônio Agenor Barbosa
Capa do livro de poesia de Marcos Konder
Antônio Agenor Barbosa e Juliana Mattos: Fora do âmbito da arquitetura o senhor tinha ou ainda tem outras áreas de interesses e aptidões? Que tipos de atividades chegou a desenvolver?
Marcos Konder: Como já mencionei, posso falar que além da arquitetura, encantaram-me sempre a música, a pintura, sendo esta uma atividade que cheguei a ter como hobbie. Também me aventurei na atividade da poesia chegando, até mesmo, a publicar recentemente o livro de poesias “Dimensões”, uma coletânea de diversos poemas meus, com os mais variados temas, inclusive a arquitetura. Relembro aqui também minha militância nas lutas pela classe dos arquitetos, bem como a participação no Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), tendo exercido inclusive o cargo de presidente do mesmo instituto, no departamento do Rio de Janeiro, no início dos anos 60. Na verdade, minha linha sempre foi a de um profissional essencialmente ligado à arquitetura. Dessa forma, atuei tanto na esfera particular, no caso com um pequeno escritório, quanto na esfera pública onde, como já mencionei, destaca-se o período de trabalho na Prefeitura e o privilégio de conviver com profissionais como Affonso Eduardo Reidy e Carmen Portinho. Mas, de certo modo, fiquei à margem de tudo isso, pois, não fui fundo em nenhuma dessas esferas. Nem tive um grande escritório de arquitetura, nem fiz questão de alçar grandes cargos no funcionalismo público, como fizeram muitos dos meus colegas. Assim, paralelamente, uma outra atividade à qual exerci foi a de professor, tendo lecionado durante 20 anos na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, antiga Universidade do Brasil.
AA / JM: O senhor tem uma idéia de quantos projetos e obras suas já foram executadas?
MK: Tenho poucas obras de grande interesse, apenas cerca de uma dezena de edifícios construídos. Por outro lado, tenho muitos projetos, mais de 60, e muitas idéias lançadas no papel. Isso aconteceu, principalmente, por causa do meu interesse em sempre participar de concursos de arquitetura. Acreditava que o concurso era uma maneira de encarar desafios que, em geral, as atividades profissionais convencionais, o dia-a-dia do arquiteto não me proporcionava. Eu sempre encarei os concursos de forma muito séria, como uma maneira de expor minhas idéias, e com muita motivação, mesmo que eu não tenha vencido muitos dos concursos dos quais participei. E, talvez, devido ao sucesso que obtive logo cedo, ainda estudante ou recém-formado, como foi o caso do concurso do Monumento, eu posso dizer a vocês que me tornei, praticamente, um arquiteto viciado em concursos.
E cabe dizer que eu sempre prezei muito a minha liberdade de pensamento projetual, de maneira que, mesmo tendo algumas oportunidades e convites para trabalhar em nichos de mercado imobiliário de natureza mais especulativa, confesso que nunca tive nem talento nem interesse para me desenvolver nesse ramo.
Posso citar, por exemplo, as poucas obras que tenho no Rio de Janeiro: o Monumento aos Pracinhas, o Centro Administrativo São Sebastião, que é a Sede da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, onde posso dizer, que é uma obra minha que foi recentemente “emporcalhada” pelo atual prefeito César Maia, o Restaurante Rio´s, ali no Parque do Flamengo, esta minha casa, onde estamos agora, aqui no bairro de Santa Teresa, uma outra casa que projetei no bairro do Itanhangá, mas que infelizmente foi totalmente descaracterizada. Tenho algumas casas em Petrópolis, entre outras poucas obras de menor notoriedade.
AA / JM: Quais foram os seus projetos mais recentes?
MK: Como já mencionei, eu nunca tive um grande escritório de arquitetura. Sempre fui um franco-atirador. De maneira que, à medida que fui envelhecendo, minha atividade profissional se reduziu muito. Mas nunca deixei de produzir, às vezes mesmo sem ter um cliente. Estou sempre desenhando e pesquisando e mantenho ainda um grande interesse pela arquitetura e pelo projeto. Por exemplo, em 1992, eu já tinha 65 anos de idade e ganhei novamente um concurso de arquitetura. Foi o Pavilhão para a Conferência Internacional de Meio Ambiente, a Rio 92. E da mesma forma fiquei emocionado, pois concorri com muita gente jovem. Recentemente, concluí um projeto de um Memorial em Itajaí, Santa Catarina. Fiz até mesmo, para a minha empregada, o projeto da casinha dela, aqui numa comunidade em Santa Teresa.
AA / JM: O senhor foi presidente do IAB, nos anos 60, e professor da FAU, durante 20 anos. Poderia nos falar um pouco sobre essas experiências?
MK: Minha ligação com o IAB começou já na época de estudante e seguiu desde então. O Antonio Pedro de Alcântara, que foi meu colega de turma, e o Altino Neves haviam entrado para o IAB e me convidaram para algumas reuniões. O IAB funcionava, na época, como um clube de gentlemans, todos muito bem vestidos, de colete, terno e gravata e, em geral, titulares de grandes escritórios de arquitetura. Sei que grandes figuras ocuparam a Presidência do IAB como o Paulo Antunes, o Ary Garcia Rosa e o Maurício Roberto. Convivi no Instituto com alguns dos mais importantes arquitetos brasileiros como os irmãos Roberto, Paulo Antunes e o meu saudoso amigo Maurício Nogueira. No IAB passei a conviver com diversas visões de mundo, mas identifiquei-me muito com o Maurício Roberto sendo seu vice-presidente. Depois de algum tempo tornei-me Presidente do IAB. No entanto não concordava com o Maurício Roberto quanto à questão dos concursos, que ele era contra por achar uma exploração já que não se pagava o arquiteto durante o processo de desenvolvimento dos projetos. Ele, que era titular de um grande escritório, defendia que os arquitetos deveriam ser contratados diretamente e serem pagos pelos seus serviços. No máximo, o que ele aceitava era que fossem organizados pequenos concursos privados e não mais que isto. Eu, que como já disse anteriormente, sempre fui viciado em concursos, defendia a realização dos mesmos de forma ampla para que se escolhesse a melhor idéia para determinados projetos. E uma das nossas realizações mais importantes daquele tempo do IAB foi o fato de que nós fundamos uma Revista de Arquitetura que era, creio, uma das únicas revistas da classe de arquitetos feitas no Brasil. Esta revista durou muito tempo e eu devo dizer que foi graças ao empenho e à dedicação do Maurício Nogueira que era, na verdade, a alma de revista. Eu passei 15 anos de minha vida militando no IAB mas, depois de tanto tempo, eu me afastei um pouco e fui perdendo contato com as diretrizes do Instituto.
Quanto à minha atividade acadêmica eu faço aqui uma confissão íntima para vocês. A minha entrada como professor se deu, a princípio, por meros interesses pecuniários. Eu estava numa pior, sem grana, e eu me dava bem com o Ulisses Burlamaqui e ele me convidou para ser Professor. Foi exatamente assim como relatei para vocês que eu me tornei Professor.
E ele conseguiu que eu fosse inicialmente contratado por um pequeno período e depois fui efetivado como Professor Assistente e depois fui Adjunto e por aí vai. Comecei como Professor de composição, na verdade o Projeto de Arquitetura. Eu era um professor jovem, tinha boas idéias e alguma criatividade, a despeito de não concordar com algumas das propostas curriculares que eu era obrigado a desenvolver. Mas o fato é que ainda hoje, vez por outra, eu encontro colegas na rua que me param e falam assim: “olha, eu fui teu aluno e gostava muito das suas aulas”. Então eu acho que até pude contribuir e influenciar, no bom sentido, na boa formação de muitos arquitetos. O fato é que no meu tempo a Escola de Arquitetura ainda era fortemente dominada por grupos conservadores e isto era muito difícil de ser modificado. Mas eu tive muitos bons alunos e alguns que até se desenvolveram muito na profissão como foi o caso do Carlos Nelson Ferreira dos Santos.
Mas o fato é que eu comecei a me cansar das rotinas acadêmicas e eu tinha muito mais gosto, e até mais talento, para atuar como arquiteto e não como Professor. Também contribuiu o fato de que a mudança da faculdade da Praia Vermelha para a Ilha do Fundão me desestimulou um pouco. Era muito longe para ir para o Fundão, e isto coincidiu com um período mais produtivo da minha carreira. Tinha que conciliar as minhas atividades como profissional liberal no escritório, o trabalho na Prefeitura e ainda, por dois ou três dias na semana, as aulas na Escola de Arquitetura.
Depois de algum tempo o Governo Federal lançou um programa de aposentadoria para funcionários com menor tempo de carreira e eu aproveitei este programa e me aposentei com apenas vinte anos de trabalho como professor, mesmo recebendo uma aposentadoria mais baixa do que o padrão de quem trabalha os 35 anos que o Governo exige.
AA / JM: Como o senhor percebeu e apreendeu algumas das mais importantes transformações do Brasil e, em particular, do Rio de Janeiro a partir dos anos 50? Tais como a transferência da Capital, a construção de Brasília, a construção do Parque do Flamengo – onde alguns anos depois iria ser construído o seu projeto do Monumento aos Mortos da Segunda Guerra – e o Plano Lúcio Costa para a Barra da Tijuca. E a respeito da Fusão da Antiga Guanabara com o Estado do Rio o senhor tomou partido na época? O que acha de alguns movimentos recentes que se propõem a desfazer a fusão e retomar os limites geopolíticos da Guanabara?
MK: Olha, quando nós nos formamos, nos anos 50, o mercado para os arquitetos era muito restrito. Inclusive até na construção civil, pois nós sofríamos a concorrência de Engenheiros Civis que atuavam nas grandes construtoras. Eles não faziam projetos, eles tinham desenhistas profissionais que faziam os projetos e eles apenas assinavam.
Mas o fato é que o Rio de Janeiro era a Capital e, por este motivo, quase todos os projetos de arquitetura que teriam que ser feitos até em outros Estados do Brasil passavam por aqui, pelos ministérios que estavam sediados aqui. E tudo isto tinha um jogo político. Alguns arquitetos bem relacionados conseguiam pegar trabalhos em outros Estados. Com a mudança da Capital para Brasília tudo isto acabou. Mas, por outro lado, muitos arquitetos começaram a se impor profissionalmente. O arquiteto Paulo Casé, por exemplo, foi um dos que começaram a trabalhar em grandes empresas da construção civil. Ele trabalhava em uma grande firma que eu, para ser sincero, não me lembro agora do nome.
O Rio passou a sofrer grandes transformações e eu pude presenciar todas estas mudanças como o desmonte do Morro de Santo Antonio, a construção do Parque do Flamengo onde logo depois eu venci o Concurso do Monumento. As duas obras pioneiras do Aterro do Flamengo foram o MAM do Reidy e o Monumento. Houve muita polêmica sobre as transformações viárias geradas pelas pistas do Aterro e muitos arquitetos eram contra.
Sobre Brasília eu me lembro que fui à Cidade logo depois da inauguração. E naturalmente para nós, Brasília representou não só um avanço como também uma grande conquista para a arquitetura e para o urbanismo no Brasil. Mas, por outro lado, os arquitetos mais jovens, entre os quais eu me incluía, começaram a reagir àquelas imposições de que em Brasília tudo era sempre feito por um pequeno grupinho de arquitetos ligados ao Governo. O Lúcio era um sujeito muito sério, sem dúvida, mas eu discordava de certas diretrizes e normas que ele lançou em Brasília que me pareciam uma espécie de “censura estética”, podemos dizer assim.
E aqui no Rio nós também começamos a lutar com certas imposições da Prefeitura. Uma das coisas que eu lutei muito, e da qual eu me orgulho, foi para que os arquitetos e também os engenheiros autônomos pudessem assinar seus projetos sem estarem vinculados a nenhuma grande empresa ou incorporadora da construção civil como era até aquele momento. Ou seja: o arquiteto tinha que ser sócio de uma construtora para poder aprovar seu próprio projeto, perante a Prefeitura. E eu disse, certa ocasião, aos funcionários responsáveis da Prefeitura o seguinte: “Olha, o nosso diploma de arquiteto, nos outorga a responsabilidade de assinar nossos próprios projetos. Podemos até não nos responsabilizar pela execução da obra, mas o Projeto de Arquitetura é de nossa total responsabilidade.”
Quando surgiu o Plano da Barra, de fato, foi de grande impacto na Cidade. Eu trabalhava no DER e foi o próprio DER que convidou o Lucio Costa para fazer o Plano da Barra da Tijuca, no intuito de se prevenir contra a especulação imobiliária. E como se sabe, o Lucio fez aquele plano idílico, mas que foi totalmente desfigurado posteriormente. E o próprio Lúcio Costa repudiou estas mudanças que foram feitas no seu plano original.
Dedicatória de Marcos no livro de poesias "Dimensões", volume da biblioteca do IAB-RJ
Centro Administrativo São Sebastião, Prefeitura do Rio de Janeiro Foto Antônio Agenor Barbosa
Antônio Agenor Barbosa e Juliana Mattos: E o Restaurante Rio´s também no Aterro do Flamengo. Como foi a sua concepção e implantação em um sítio tão privilegiado e com uma paisagem exuberante no entorno?
Marcos Konder: A questão do restaurante é a seguinte: Primeiro tínhamos que fazer tudo muito rapidamente, em apenas seis meses, e segundo eu tinha que construir uma obra que respeitasse a paisagem. Então parti para uma idéia que, do ponto de vista construtivo, é muito simples, ou seja, fácil de executar. Foi aí que pensei logo em propor uma modulação. Propus estruturas modulares de 5 x 5 metros. E também a minha maior preocupação era a de não fazer algo que fosse muito agressivo ou que aparecesse demais na paisagem. Então parti para a idéia das arcadas, que me pareceu a mais adequada.
Ah! E eu conto aqui uma história interessante para vocês que, de alguma forma me acompanha já há muito tempo. E talvez saia um pouco do centro da pergunta original mas acho que vale a pena relatar para vocês. Um dia desses eu estava numa copiadora fazendo reproduções de algumas imagens, croquis e outros desenhos que eu tinha do meu projeto do Monumento. Pois aí uma senhora se aproximou de mim e disse-me: “olha, eu acho lindo este Projeto. Fica ali no Aterro do Flamengo e, em minha opinião, é uma das obras mais bonitas do Oscar Niemeyer”.
AA / JM: O senhor também é o autor do Projeto do Edifício Sede da Prefeitura do Rio de Janeiro (o famoso “Piranhão”) no Bairro da Cidade Nova. Quais são as principais características que o senhor destaca neste trabalho? Recentemente o Prefeito César Maia mandou pintar com a cor laranja – a cor da Prefeitura, usada desde os uniformes das escolas municipais até na publicidade oficial – todo o coroamento do Edifício da Prefeitura. E lá no alto mandou escrever – em letras garrafais – o nome “Prefeitura” e também o endereço do Portal da Prefeitura na internet. Então eu pergunto: O senhor foi consultado a respeito desta “intervenção” que descaracterizou o teu projeto que é todo em concreto aparente e monocromático? O que o senhor achou desta idéia do Prefeito?
MK: Eu gosto deste apelido “Piranhão” (risos). Acho um apelido simpático e nada tenho contra. Ele faz referência ao fato de que aquela região onde foi construído o edifício era, originalmente, uma região famosa de prostituição naquela área que se chama Cidade Nova. Quanto à concepção eu fiz um projeto de um modo geral composto por um grande edifício e dentro de uma estrutura modular. Eu fiz ali na verdade dois edifícios que se comunicam horizontalmente e lá vocês poderão observar que existem duas prumadas de elevadores o que faz com que eles sejam independentes verticalmente.
E um outro aspecto que eu tinha receio era de que o fato de tratar-se de uma obra pública, esta poderia não ser bem executada e bem construída como em geral ocorre com este tipo de coisa no Brasil, infelizmente. Então eu parti para um projeto relativamente simples, sereno, baseado na tal estrutura modular que já mencionei. Mas, ao mesmo tempo, é um edifício que marca a presença na paisagem e criou, a meu ver, uma boa referência como Sede da Prefeitura Municipal.
E é um edifício muito funcional, parti para uma planta livre que pode ser adaptada como for necessário. E a estrutura é feita apenas por apoios externos que aparecem na fachada do edifício. E as tais colunas de apoio, que são côncavas, também recebem internamente toda a parte de dutos de infra-estrutura do edifício. É um projeto que eu gosto muito e que atende bem a uma função de edifício público.
Mas, infelizmente, o nosso pequeno imperador o César – o Prefeito César Maia – resolveu fazer aquilo que eu considero, como autor do projeto, uma barbaridade. Ele mandou pintar, sem que eu fosse consultado, no topo do edifício uma faixa enorme, cor de laranja, que é a cor da COMLURB (empresa de limpeza urbana do município), fazendo referência à Prefeitura e ao site da Prefeitura e etc. Um dia eu fui surpreendido por um repórter do jornal O Globo que me ligou perguntando se eu concordava com a faixa que havia sido pintada no topo do edifício. Eu confesso que tomei um susto ao ser informado. O que soube é que o Prefeito tinha a idéia de que a tal pintura fosse provisória mas, ao que parece, infelizmente ela já está lá há muito tempo descaracterizando a integridade do meu projeto. Espero que o próximo prefeito tenha o bom senso de tirar aquilo.
Centro Administrativo São Sebastião, Prefeitura do Rio de Janeiro Foto Antônio Agenor Barbosa
Monumento aos Mortos da 2ª Guerra. Arquitetos Marcos Konder e Helio Ribas Marinho Foto Antônio Agenor Barbosa
Antônio Agenor Barbosa e Juliana Mattos: Qual a sua avaliação sobre as intervenções urbano-arquitetônicas ocorridas no Rio de Janeiro na última década, tais como Rio Cidade e Favela Bairro? O senhor já foi consultado pelo Poder Público em algum momento para opinar a respeito ou para participar de algum projeto ligado a estes temas?
Marcos Konder: Eu não tenho sido muito consultado. Quanto ao Rio Cidade eu acho que é um projeto que cumpre sim suas funções embora seja tudo muito de natureza mais “cosmética” infelizmente. Mas acho que há um valor de fazer com que haja uma reflexão sobre as obras públicas na cidade, no espaço público, mesmo que eu não seja totalmente a favor de muita coisa que foi realizada. Mas eu até participei sim de uma equipe do Rio Cidade em que fizemos um projeto para a Rua São Clemente, no bairro de Botafogo, mas que nunca foi executada.
Quanto ao Favela-Bairro eu acompanho sim e acho que há um grande mérito neste programa. Eles foram desenvolvidos pelo Sergio Magalhães que é um arquiteto de valor. Mas este é, ao mesmo tempo, um programa perigoso, pois a meu ver parte da premissa de que aquilo que lá está na informalidade é algo bom e que cabe a nós apenas uma correção de certos parâmetros e etc. Quando na verdade não podemos achar que a favela é uma coisa totalmente positiva e digna de se viver. As pessoas só estão lá, como todos sabem, devido à falta de oportunidades de terem acesso a uma rede de crédito para financiar e construir suas casas em áreas mais dignas, organizadas e, sobretudo, bem servida por uma rede de infra-estrutura e de transporte. Mas isto ainda está muito longe de acontecer, infelizmente. De maneira que o Programa Favela-Bairro atua mais como um instrumento de correção de certas áreas mais desorganizadas e até perigosas do ponto de vista da segurança de algumas construções. E buscam, a medida do possível, levar algo de infra-estrutura a estes lugares. E sou a favor sim de uma política clara de controle da favelização da cidade.
Monumento aos Mortos da 2ª Guerra. Arquitetos Marcos Konder e Helio Ribas Marinho Foto Antônio Agenor Barbosa
Centro Administrativo São Sebastião, Prefeitura do Rio de Janeiro Foto Antônio Agenor Barbosa
Antônio Agenor Barbosa e Juliana Mattos: O senhor costuma acompanhar a produção arquitetônica contemporânea tanto no Brasil quanto internacionalmente? Como faz isso, através de leituras ou viagens?
Marcos Konder: Olha, estou com 79 nanos e você me pergunta de perspectivas de futuro. Acho engraçado. (risos) Mas me interesso ainda por muita coisa, gosto muito de música, faço minhas viagens onde aprendo muito, e ainda leio, estudo, desenho, pesquiso. Tiro muitas fotografias, faço algumas viagens e procuro sempre me atualizar. Mas não faço viagens de arquitetos “fominhas” que só querem ver arquitetura. (risos) Se houver uma obra de interesse que esteja no meu caminho e vou lá e visito. Mas me interesso por muitas outras coisas.
AA / JM: Quais as dicas que o senhor daria para o jovem que pretende estudar Arquitetura ou que já está prestes a se formar em Arquitetura e Urbanismo?
MK: Olha, eu tenho uma frase de efeito que sempre digo para os mais jovens: “Arquitetura não é profissão, arquitetura é devoção!”. E acho que isto resume não só o que eu fiz na minha vida de arquiteto como também o que eu acredito que seja um bom conselho para os mais jovens.
AA / JM: O senhor é um arquiteto muito requisitado para proferir conferências e palestras nas Faculdades de Arquitetura?
MK: Sim, mais até do que posso atender. E aqui quero registrar o meu protesto desta mania que se tem no Brasil de não remunerar os conferencistas. Não se reconhece, por exemplo, que um sujeito experiente, às vezes com mais de cinqüenta anos de profissão e já aposentado, vai sair da sua comodidade e não se tem o respeito em se considerar essa conferência como uma atividade produtiva e que, portanto, deveria ser bem remunerada.
Também sempre fui muito requisitado para ser membro de júri de concursos, já participei do julgamento de mais de 30 concursos, e sempre fui muito exigente com os trabalhos, chegando por vezes, a fazer voto em separado para que um projeto ao qual não acreditava ser bom e que já tinha o voto favorável dos outros julgadores, não ganhasse por unanimidade, pois nesse caso era como dizia Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”, e eu definitivamente acreditava que não se podia dar valor em excesso para um projeto que não merecia tal reconhecimento.
Monumento aos Mortos da 2ª Guerra, roteiro da FEB Foto Antônio Agenor Barbosa
Monumento aos Mortos da 2ª Guerra. Arquitetos Marcos Konder e Helio Ribas Marinho Foto Antônio Agenor Barbosa
Antônio Agenor Barbosa e Juliana Mattos: Para finalizarmos esta entrevista, queremos propor ao senhor um “bate-bola” rápido, direto e objetivo em que o senhor fale um pouco a respeito de alguns mestres da arquitetura e de outras personalidades que iremos mencionar:
Marcos Konder:
Lúcio Costa – “o maior pensador da arquitetura do século XX”.
Oscar Niemeyer – “o mais talentoso arquiteto brasileiro do século XX”.
Irmãos Roberto (MMM Roberto) – “um escritório de arquitetos muito criativos que deram uma boa contribuição à arquitetura brasileira”.
Le Corbusier – “um dos gênios da arquitetura contemporânea”.
Affonso Eduardo Reidy – “um arquiteto de grande talento que, infelizmente, morreu cedo e então não pôde dar uma contribuição ainda maior do que a que nos deixou. O seu legado já é uma amostra de que ainda poderia fazer muito mais”.
Burle Marx – “um dos maiores paisagistas do mundo que teve o mérito de resgatar a flora tropical para o paisagismo, construindo o jardim moderno brasileiro”.
Carlos Lacerda –“apesar da nossa divergência ideológica, ele de direita e eu de esquerda, reconheço que ele foi um bom governador do Estado da Guanabara”
Lota Macedo Soares – “uma mulher dinâmica, influente e que foi a mola propulsora do projeto do Parque do Flamengo”.
César Maia – “esse eu prefiro nem comentar. Ele desfigurou totalmente o meu projeto do Centro Administrativo São Sebastião, que é a Sede da Prefeitura. Aquela faixa horrenda que ele mandou colocar no topo do edifício é uma falta de respeito à integridade do projeto”.
Marcos Konder – “me considero um arquiteto de talento, sem falsa modéstia, e que fez o que pôde fazer na vida e na arquitetura. E acredito que aqui na cidade do Rio de Janeiro, certamente deixei uma boa contribuição para a arquitetura. Para vocês terem uma idéia, no Aterro do Flamengo existem obras de apenas três arquitetos: Lúcio Costa, Affonso Eduardo Reidy e Marcos Konder”.
Centro Administrativo São Sebastião, Prefeitura do Rio de Janeiro Foto Antônio Agenor Barbosa
Marcos Konder Foto Antônio Agenor Barbosa
Marcos Konder Netto
Natural de Blumenau (SC), o arquiteto Marcos konder Netto, nasceu em 11 de novembro de 1927. Formou-se pela Universidade do Brasil (atual UFRJ), onde foi, durante vinte anos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (1952-1972). Foi presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil / Departamento do Rio de Janeiro (IAB/RJ), de 1962 a 1964. É autor dos projetos do Monumento aos Mortos da II Guerra Mundial (colaboração de H.R. Marinho), Restaurante Rio’s e Centro Administrativo São Sebastião, localizados no Rio de Janeiro. Foi premiado em diversos concursos de arquitetura. Trabalhou como funcionário público em órgãos do Estado e do Município do Rio. Foi muitas vezes homenageado. Em 1960 recebeu a “Medalha Comemorativa do Monumento”; em 1965 foi “Professor Homenageado na FAU”; em 1995 o Sindicato dos Arquitetos concedeu-lhe o título de “Arquiteto do Ano”; em 2003, recebeu do IAB o “Colar de Ouro” e “Homenagem Especial” na 5ª Bienal de Arquitetura de São Paulo. Tem vários textos publicados: “Sonhadores sim, com muita honra” (Arquitetura,1964), Menção Honrosa na Premiação do IAB/RJ; “Alvar Aalto – Impressões pessoais” (1976); “O Marechal Mascarenhas de Moraes visto por um jovem arquiteto” (Revista do Exército Brasileiro,1983); “Pós-moderno é obsoleto” (JB,1987); “Arquitetura Carioca Contemporânea” (1988), Menção Honrosa na Premiação do IAB/RJ; “Maurício Nogueira” (Arquitetura,1991); “Segurança Já” (Veja,1992) e “Maurício Roberto: Um arquiteto a serviço das boas causas” (Arquitetura,1997).Também são de sua autoria, o discurso de posse como presidente do IAB/RJ (Arquitetura,1962) e as palestras: “Arquitetura e conhecimento” (XIII Congresso Brasileiro de Arquitetos, publicada no livro Arquitetura e Cidade (1993); “O que é a arquitetura”, quando recebeu o título de “Arquiteto do Ano” (1995); “Considerações sobre o ensino de arquitetura” (aula inaugural da FAU/UFRJ,1996); “Setenta e Cinco Anos de Arquitetura Moderna Brasileira” (Simpósio “A Herança Modernista”, 2003). Seu conto “O purista” classificou-se em 1º lugar no concurso patrocinado pela SEAERJ em 1983 e foi publicado pela revista da entidade. Teve o poema “A casa e a moça” publicado na Antologia da Nova Literatura Brasileira,Volume II (Shogun,1987). É autor do livro de poemas “Dimensões”, recentemente publicado pela Editora Ibis Libris (2005).
Antônio Agenor de Melo Barbosa
Natural de Aracaju (SE) e radicado no Rio de Janeiro há 16 anos, Antônio Agenor de Melo Barbosa (35 anos) é arquiteto e urbanista (USU-RJ), cursou Pós-Graduação em História da Arte e Arquitetura no Brasil (PUC-RJ), é Mestre em Urbanismo pelo Programa de Pós-Graduação em Urbanismo (PROURB) da FAU-UFRJ, onde defendeu dissertação sobre os espaços públicos do Rio de Janeiro no século XIX e a transição da cidade colonial para a cidade capitalista. Doutorando em Ciências da Arquitetura pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura (PROARQ) da FAU – UFRJ, onde no momento pesquisa as interfaces entre a política e a cidade; bem como os seus desdobramentos nos espaços públicos da cidade do Rio de Janeiro entre os anos de 1968 a 1985; o período da Ditadura Militar que vigorou no Brasil. É pesquisador do Projeto Brasil 500 anos de Arquitetura da UFPE (www.arqbr.com.br), ex-professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFJF-MG (1996 a 1998). De 2001 a 2004 foi Professor de Urbanismo e de Evolução e História Urbana do Rio de Janeiro na FAU-UFRJ. Atualmente leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Plínio Leite (UNIPLI) em Niterói (RJ) e no Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora em Minas Gerais. Também é coordenador do curso de graduação e pós-graduação em Paisagismo, ambos na Escola de Design da Universidade Veiga de Almeida (RJ). É Professor do Curso de Graduação em Turismo da Universidade Veiga de Almeida. É também colaborador do Portal da Cidadania na Internet (www.cidadania.org.br), do Portal Arquitetura Brasil (www.arqbr.com.br) e do site: www.levantario.blogger.com.br. Tem artigos publicados em jornais, revistas e livros.
Juliana Mattos
Arquiteta e urbanista (FAU/UFRJ/2003), mestranda do PROURB/UFRJ e foi vice-diretora cultural do IAB/RJ, em 2005. Participou da organização das exposições: “20º Prêmio Arquiteto de Amanhã”; “Arquitetura Premiada IAB/RJ 2004”; “Núcleos IAB/RJ”; “Ópera Prima 2004”; “Cidades Universitárias na América Latina” e “Teatros Monumentos do Brasil”. Organizou a exibição, no IAB, do filme “Lembranças do Futuro – um documentário sobre Affonso Eduardo Reidy”, de Ana Maria Magalhães. Colaborou com o PROURB na organização do Ciclo de Palestras “Arquitetura e Educação”, que aconteceu em 2005, no IAB/RJ. Coordenou, em 2004 e 2005, o “Prêmio Arquiteto de Amanhã”. Recebeu Menção Honrosa no Concurso “Um Assentamento Sustentável” promovido pela Universidade de Cuenca (Equador/1997). Participou da ExpoFau2000 com o trabalho: Parque Temático na Ilha do Fundão – Rio de Janeiro, publicado no Academia III. Participou em pesquisas para os livros: “Guias da Arquitetura do Rio de Janeiro” e “Brasil 500 anos de arquitetura” e nas pesquisas do PROURB: “70 anos de Lúcio Costa como diretor do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade do Brasil” e “Evolução dos Ícones urbanos e arquitetônicos do séc. XX no Rio de Janeiro”. Colaborou na recuperação de arquivos sobre arquitetos no Núcleo de Pesquisa e Documentação (NPD/FAU/UFRJ).
Entrevista
A presente entrevista, exclusiva para o Portal Vitruvius, foi realizada em duas tardes de setembro 2006 na residência do arquiteto Marcos Konder, no Bairro de Santa Teresa na cidade do Rio de Janeiro. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em março de 2007.