português O arquiteto e cenógrafo português João Mendes Ribeiro, fala de arquitetura efêmera, reciclagem e cenografia em entrevista a José Mateus, arquiteto do ARX Portugal
english The architect and designer Portuguese João Mendes Ribeiro, speaks about ephemeral architecture, recycling and stage design in an interview with José Mateus, ARX Portugal architect
español El arquitecto y escenógrafo portugués João Mendes Ribeiro, habla de arquitectura efímera, reciclaje y escenografía en la entrevista de José Mateus, arquitecto del ARX Portugal
Palheiro. Vista de sudeste Foto João Mendes Ribeiro
O perene e o efêmero José Mateus
Se você pediu uma bebida nos quiosques da expo em 98 ou na Casa de Chá do castelo de Montemor-o-Velho, se visitou o Centro de Artes Visuais de Coimbra ou viu os cenários de Propriedade Privada de Olga Roriz, esteve perante a arquitetura de um mesmo autor: João Mendes Ribeiro, natural de Coimbra que estudou na Faculdade de Arquitectura da ESBAP, no Porto.
João Mendes Ribeiro vive a sua profissão de uma forma particular e intensa, entre projetos de raíz, obras de recuperação, objetos ou cenários para teatro e dança. Visitamos um palheiro transformado em habitação, obra sua que serviu de pretexto para falar sobre as suas idéias para esta casa, sobre a especificidade de um projeto de recuperação e sobre as intersecções entre a sua atividade de arquiteto e de cenógrafo. Tem 44 anos, integra a representação portuguesa na Bienal de Veneza e possui, tal como os cenários que desenha, um caráter multifacetado.
O palheiro antes da intervenção Foto João Mendes Ribeiro
Palheiro. Vista parcial da parede sul. Foto João Mendes Ribeiro
José Mateus: Um dia e curiosamente por recomendação de um arquiteto com quem trabalhou – Fernando Pinto Coelho – telefonou-lhe a cliente…
João Mendes Ribeiro: Foi, e disse-me que achava que eu era a pessoa indicada para recuperar um edifício agrícola que tinha em Cortegaça. Tratava-se de um conjunto articulado de construções de várias épocas e obedecendo a lógicas diferentes: uma adega, uma casa de habitação e a Sul, junto ao pátio, o edifício a recuperar: um palheiro em ruínas.
JM: Já havia a idéia de transformar o palheiro numa habitação ou era uma questão em aberto?
JMR: A cliente já tinha a intenção de fazer uma pequena habitação para aí se poder reunir com os amigos. Era acima de tudo um pretexto para recuperar o palheiro. Inicialmente a sua idéia era unir o palheiro à casa principal através de um volume contendo várias salas. Achei que isso não faria sentido pois na casa principal existiam já muitos quartos e salas e propus um percurso de ligação que constituísse uma espécie de corredor-garrafeira. Seria uma ligação dissimulada e que assegurasse a autonomia das construções.
JMR: Sendo estas obras de recuperação mais caras e complexas, nunca pensaram demolir o palheiro e, como muitos fariam, construir no seu lugar um edifício inteiramente novo respeitando apenas a volumetria antiga?
JMR: Não, porque achamos sempre que o palheiro, embora sendo um espaço condicionado e de pequena escala, possuía inúmeras qualidades: era interessante como equipamento agrícola, não só em termos dos sistemas construtivos e da composição mas também em termos de espaço interior. Gostei da sua implantação e do modo como se relacionava com a casa principal, com a quinta e com a paisagem envolvente. Era um edifício modesto, mas com muitas qualidades (melhor que muitas construções recentes).
Palheiro. Sala de estar Foto João Mendes Ribeiro
Palheiro. Sala de estar Foto João Mendes Ribeiro
José Mateus: Como surgiu esta idéia de construção mista de xisto e madeira?
João Mendes Ribeiro: Na construção original predominavam dois materiais: o xisto, na parede a Norte, e uma solução mista de madeira e xisto na fachada voltada a Sul. A justaposição de materiais leves e transparentes, e pesados e opacos era um dado preexistente. E esse foi então um dos temas de projeto. Procedeu-se também à recuperação das estruturas de suporte da cobertura que, embora substituídas porque irrecuperáveis, mantêm a lógica das originais.
JM: Afinal o que foi demolido?
JMR: Aquilo que dificultava a clarificação da estrutura espacial ou que estava muito degradado. A idéia foi manter as características estruturais e formais do edifício, introduzindo no entanto, uma ruptura, com a escala, na sala de pé direito duplo. Não houve qualquer abertura ou demolição das paredes para além da passagem central entre as salas do piso térreo. Tudo existia. No fundo tratou-se de fazer uma avaliação do que existia, introduzindo em alguns casos uma nova linguagem.
Palheiro. corredor do piso térreo. Vista desde a sala de refeições Foto Pdro Grandão
Palheiro. Vista Noturna Foto Pedro Grandão
José Mateus: Uma das dificuldades dos projetos de recuperação é eleger aquilo que permanece, o que se deve demolir, etc… No limite, todas as partes são antigas, importantes. Como é que faz essa escolha?
João Mendes Ribeiro: É muitas vezes um processo intuitivo. Tento sobretudo saber olhar, perceber o que é estruturante, entender os sistemas construtivos, a organização e tipologia do edifício, e depois inserir o programa funcional realizando apenas as intervenções absolutamente necessárias para cumprir as novas necessidades.
JM: Quais são as mais-valias de um projeto de recuperação relativamente a um edifício novo?
JMR: Aquilo que me parece mais importante e estimulante é a existência de regras muito claras e a possibilidade de trabalhar uma estrutura preexistente acrescentando-lhe matérias novas.
JM: Mas trabalhar com essas regras não pode tornar-se uma limitação à criatividade?
JMR: Antes pelo contrário, a existência dessas regras permite evoluir depressa e obter resultados bastante interessantes. E este foi o caso, dado que não possuía grandes imposições de programa e entendi muito rapidamente o que tinha de fazer.
JM: Ganha-se também complexidade com a justaposição de tempos diferentes…
JMR: Isso é muito interessante. O fato de trabalhar uma construção agrícola, uma peça de pequena escala, onde às referências do mundo rural, como por exemplo os lavatórios dentro dos quartos, como existia na casa do meu avô, acrescento outros modelos decorrentes de uma arquitetura urbana contemporânea. Isso se observa também em aspectos como o mezanino, o pé-direito duplo da sala, ou no modo como são desenhados os sanitários. Outro aspecto interessante é a utilização de materiais tradicionais, atualmente em desuso, como o óxido de ferro misturado nas argamassas que confere um tom encarnado muito bonito. São soluções que se perderam mas que eram utilizadas até há pouco tempo na arquitetura tradicional. Neste projeto, essas soluções são utilizadas para criar uma imagem contemporânea.
Palheiro. Plantas térreo e superior
Vista da Sala de estar deste a mezanine Foto João Mendes Ribeiro
José Mateus: Falando um pouco do modo como a casa se vê do exterior: qual era a sua intenção com este ripado virado para sudoeste.
João Mendes Ribeiro: O que existia era um plano de madeira onde aparentemente não havia portas nem janelas (estavam dissimuladas na fachada). Foi essa imagem um pouco abstrata que me agradou e que quis reter no projeto: um plano onde não se tem uma idéia exata da dimensão dos vãos. Por outro lado era necessário filtrar a luz nesta face fortemente exposta ao sol. A casa deveria funcionar como uma espécie de casa-de-fresco – espaço interior com uma forte comunicação com o exterior –, com um ripado fixo semelhante ao dos espigueiros através do qual passam linhas de luz. As janelas atrás do ripado abrem-se permitindo ventilar a sala que assim funciona como um espaço exterior.
JM: Como foram pensados os espaços exteriores em volta da casa?
JMR: Foi um trabalho conjunto com a arquiteta paisagista Teresa Alfaiate. O limite da propriedade será reconstruído sob a forma de muros de xisto, criando uma plataforma de assentamento da casa que hoje se encontra demasiado exposta. No lado Sul serão plantadas árvores de grande porte para criar sombra. Nesse lado existia um antigo pátio em lajedo de pedra que queremos recuperar como prolongamento exterior da sala de jantar. Esse pátio era protegido da rua por uma plantação de milho que queremos repor, para funcionar como peça de fechamento daquele espaço.
Palheiro. Vista e cortes
Vista de frente do quiosque da expo 98 Foto João Mendes Ribeiro
José Mateus: Há no modo como avalia o papel da plantação de milho, mas também, no aspecto aparentemente transitório ou efêmero de algumas soluções dos seus projetos, reflexos da sua experiência como cenógrafo de espetáculos de palco?
João Mendes Ribeiro: Eventualmente. As duas atividades não são estanques, há níveis de intersecção. Mas apesar de a cenografia e a arquitetura serem duas disciplinas distintas, a verdade é que em termos de metodologia de trabalho não encontro grandes diferenças.
JM: Mas quais serão essas diferenças?
JMR: As principais diferenças decorrem da perenidade da arquitetura em contraste com o caráter efêmero da cenografia. Outro aspecto que distingue os processos de concepção em arquitetura e em cenografia, é por, um lado o tempo/ritmo e por outro a proximidade entre o ateliê (projeto) e a oficina (construção/experimentação). Em cenografia, testar as soluções na oficina é simultâneo com o ato de projetar. Inicialmente desenhava o projeto completo e só depois me envolvia com a construção, na oficina. Com a experiência percebi que essa não era a metodologia mais adequada, pois tinha muito a aprender com os técnicos do teatro e passei a testar com eles as soluções, antes de concluir os desenhos. A verdade é que o trabalho de cenografia tem um caráter muito mais experimental resultante dessa forte articulação entre ateliê e oficina. Num projeto de arquitetura, tudo tem de ser previamente definido na prancheta.
JM: E em que difere pensar um espaço arquitetônico ou um cenário para teatro ou dança?
JMR: Quando faço arquitetura penso mais na relação do meu próprio corpo com o espaço, como um corpo abstrato. Quando concebo cenografias penso em função dos corpos dos intérpretes. O diálogo que eu tenho com os intérpretes, que vão habitar o espaço cênico, é naturalmente mais intenso e personalizado. Mas a relação que crio entre o espaço, os objectos cênicos e os atores é em boa medida ditada pelo guião (1) e nisso difere da arquitetura. Embora no caso do palheiro houvesse um "guião" (a preexistência e o objetivo de a recuperar), frequentemente isso não acontece: muitas vezes há um relativo desfasamento entre as intenções dos interlocutores. Na arquitetura, em cada projeto conhece-se um novo cliente e parte-se um pouco do zero. No teatro e na dança tenho tido a oportunidade de trabalhar repetidas vezes com as mesmas pessoas e por isso já existe um entendimento e uma cumplicidade que permitem partir facilmente para situações experimentais.
JM: Nos seus primeiros trabalhos em cenografia esse sentido experimental não existia?
JMR: Quando desenhei a primeira cenografia, as dúvidas levaram-me a “jogar” pelo seguro e a trabalhar com aquilo que conhecia. Depois fui sendo “contaminado” por outras áreas artísticas e acabei por desenvolver um tipo de experiências nas quais se reconhecem uma série de pontos de contato com a arquitetura.
JM: Há coisas que faz quando trabalha para o palco do Teatro que depois transporta para o palco real da vida das pessoas?
JMR: Diretamente não, mas pelo fato de fazer mais trabalhos de cenografia acumulo uma série de experiências que me levam a descobertas úteis em termos operativos e conceituais também nos projetos de arquitetura. Quando fiz os quiosques da Expo 98 e os apresentei ao arquiteto Manuel Salgado no período de avaliação, expus-lhe a minha solução que possuía diversos mecanismos aparentemente complexos e inexequíveis. Perante a dúvida se não seria uma solução demasiado complicada, eu convenci o júri mostrando-lhes alguns cenários com mecanismos semelhantes que tinha feito para a Olga Roriz. No projeto que desenvolvi para Rivoli em Turim, pôde verificar-se uma forte ligação em termos conceituais da arquitetura com a dança. Como se tratava de desenhar uma escada mecânica, uma espécie de condutor de espaço que levava as pessoas de um ponto para outro, construí uma "arquitetura de movimento". Um espaço contínuo e orientado, funcionando como um somatório de ações e reações ritmadas e intensas, construído a partir dos deslocamentos. Os temas e a terminologia que utilizei provém da dança, como a noção de movimento condicionado – a dança é quase sempre feita de gestos ensaiados, de espaçamento, de respiração, tensão e ritmo. Neste projeto desenvolveu-se uma dicotomia entre espaço-movimento-acontecimento.
nota
1 Guião é o estandarte que vai à frente de procissões, irmandades ou tropas.
Centro de Artes Visuais de Coimbra. Bloco dos laboratórios Foto Luis Ferreira Alves
Cena de “Propriedade Privada“ com encenação de Olga Roriz Foto de José Fabião
José Mateus: Para si os cenários são o lugar gerador da ação ou onde a ação se desenrola?
João Mendes Ribeiro: Ficaria muito triste se não fossem impulsionadores da ação… Os meus cenários são normalmente objetos multifuncionais que se transformam e que necessitam da intervenção dos atores para serem entendidos. É a partir do movimento dos atores que são reconhecidos e adquirem sentido.
JM: Houve casos em que essa interação “revelou“ um potencial multifuncional dos cenários surpreendente?
JMR: Por exemplo em Propriedade Privada, que fiz com a Olga Roriz. Foi uma cenografia difícil pois para além de ter sido o primeiro trabalho que fizemos juntos vivia muito do trabalho da Olga com os bailarinos. Era um objeto apropriável de diversas maneiras e nunca conseguimos esgotar todas as situações que aquele mesmo cenário poderia proporcionar. Foram feitos três espectáculos diferentes utilizando o mesmo objeto em que este era simplesmente disposto perante o público de maneira diferente, configurando cenografias distintas.
JM: O caráter econômico ou abstrato de uma cenografia pode ser bastante interessante. Por exemplo em Dogville – filme de Lars von Trier – toda a ação se passa num mesmo espaço: um plateau onde casas e ruas são linhas traçadas no chão e existe apenas um número mínimo de objetos. É a partir destes elementos que construímos mentalmente uma idéia de aldeia.
JMR: Há formas muito econômicas ou simbólicas de sugerir coisas. Em Uma Visitação, com uma peça única que se desdobrava de diversas maneiras, tentei recriar simbolicamente vários espaços/situações distintos. Por exemplo, quando ela tomava a forma de escada, sugeria a existência de uma elevação, num espaço exterior que efetivamente não estava construído. Também na cenografia de "Pedro e Inês" o cenário é marcado por uma arquitetura voluntariamente minimal: no palco vazio existe apenas uma plataforma ligeiramente elevada. Este dispositivo delimita, por um lado, o espaço concreto da ação e simultaneamente contém – esconde e revela – os diversos objetos cenográficos utilizados ao longo da atuação. De maneira paradoxal reproduz-se em palco um espaço exterior – a Fonte dos Amores da Quinta das Lágrimas. O efeito de ilusão é ainda reforçado pela utilização de materiais orgânicos concretos, reais, como água e terra, fora do seu contexto natural. No entanto, por muito que queiramos estabelecer uma ligação entre o cenário e o referencial físico concreto, o que permanece é uma idéia conceitual do mundo exterior reinterpretado cenograficamente dentro do palco.
JM: Na sua arquitetura há sempre um sentido analítico e uma procura de sínteses, uma redução ao essencial?
JMR: A procura do essencial, de uma clarificação estruturante, eu diria que sim. Mas depois tenho sempre vontade de acrescentar algo mais e por vezes de um certo expressionismo. A possibilidade de transformação, e a flexibilidade na arquitetura é algo que gosto muito de explorar. Mas há sempre uma procura de coisas que, à partida, não são muito imediatas nem evidentes.
Cenário de “Uma Visitação“ de Gil Vicente com encenação de António Augusto Barros e José Vaz Simões Foto João Mendes Ribeiro
João Mendes Ribeiro
João Mendes Ribeiro
Arquiteto formado pela pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Porto, em 1986. É professor assistente no Departamento de Arquitetura na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra desde 1991. Sua obra passa pelas cenografias, interiores, recuperações e intervenções urbanas de maior escala. Ganhador de vários prêmios e concursos, com destaque para dois Prêmios Architécti, foi selecionado para participar da representação portuguesa na Bienal de Veneza de 2004.
José Mateus
Licenciou-se em arquitetura pela FAUTL em 1986. Colaborou em diversos ateliês em Portugal entre 1983 e 1991. Trabalhou com com Daniel Libeskind em 1991. É autor do magazine televisivo de arquitetura; design e paisagem da SIC Notícias “Tempo & Traço”. É editor da revista trimestral de arquitetura, design e paisagem “Linha”, encarte do semanário “O Expresso”. Proferiu conferências em Houston, Salamanca, Santiago de Compostela, Budapeste, Bruxelas, e em diversos eventos em Portugal. Participou em 2003 do Fórum de Debates da 5ª Bienal Internacional de Arquitetura e Design de São Paulo.
Ficha técnica do projeto
Projeto: Reforma do Palheiro / Localização: Cortegaça, Mortágua, 2000-2004 / Cliente: Maria Alexandre Lalanda Ribeiro / Arquitectura: João Mendes Ribeiro / Arquitectura Paisagista: Teresa Alfaiate.
Entrevista
A entrevista foi publicada originalmente na revista, Linha, encarte do Jornal Expresso, Lisboa, 06 nov. 2004, p. 32-39. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em dezembro de 2004.
Cena de ”Pedro e Inês“ com encenação de Olga Roriz Foto de Alceu Bett