português O arquiteto português José Mateus, titular do escritório ARX Portugal, conversa com um dos mais renomados arquitetos atuais, Eduardo Souto de Moura, sobre o novo Estádio de Futebol em Braga
english The Portuguese architect José Mateus, holder of the office ARX Portugal, talk with one of today's most renowned architects Eduardo Souto de Moura, on the new football stadium in Braga
español El arquitecto portugués José Mateus, titular del estudio ARX Portugal, conversa con uno de los más renombrados arquitectos actuales, Eduardo Souto de Moura, sobre el nuevo Estadio de Fútbol en Braga
como citar
José Mateus.
“Eduardo Souto de Moura”.
Vitruvius entrevista, ed. 05.019.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/05.019/3325
Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
O Estádio de Braga, de Eduardo Souto de Moura José Mateus
Para muitos, o estádio mais belo e arrojado do Euro 2004 encontra-se em Braga. Uma obra ímpar, fruto do encontro entre diversos saberes e talentos e que já motiva excursões de arquitetos e engenheiros vindos de várias partes do mundo. Há também quem afirme que foi a maior derrapagem orçamental entre os estádios do Euro.
O mérito desta obra pluridiciplinar pertence a diversos intervenientes — Eduardo Souto de Moura (arquiteto e autor do projeto), Daniel Monteiro (arquiteto paisagista), AFA (engenharia de estruturas) e Soares da Costa (empreiteiro geral), para mencionar apenas alguns.
Eduardo Souto de Moura (ESM), arquiteto portuense, concebeu, entre outros, a exposição do Pavilhão de Portugal, a Casa das Artes do Porto (prêmio Secil 1992), e a extraordinária adaptação das ruínas do Convento de Santa Maria do Bouro. Viu reconhecida a sua carreira em 1998 ao receber o Prêmio Pessoa. ESM, como os grandes arquitetos que conheço, é obsessivo. Transporta consigo uma enorme quantidade de memórias, de viagens, leituras, lugares e coisas vividas. A sua arquitetura revela um sentido crítico e transformador da paisagem, específico para cada contexto. Em cada novo caso questionam-se as soluções mais óbvias; cada parte da obra é pensada como se fosse decisiva.
Depois de falar com ESM, e de fazer a viagem por quatro vezes para visitar o estádio, há uma frase do arquiteto francês Jean Nouvel que não esqueço: “Ser moderno é fazer o melhor uso da memória e arriscar-se a inventar”.
Balcões das escadarias da arquibancada. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
Arquibancadas frontais. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
José Mateus: Como surgiu a hipótese de desenhar um estádio?
Eduardo Souto de Moura: Telefonou-me um vereador da Câmara de Braga a contar-me a história de que o estádio do Braga tinha um desenho, feito por um engenheiro da cidade, para se candidatar ao Euro 2004, o qual já tinha sido aprovado e até se havia pedido uma verba, creio que seis milhões de contos, e que depois disso tinham pedido um projeto ao arquiteto Norman Foster. Pelo meio, à Câmara desagradaram-lhe os elevados honorários pedidos por Foster e o fato de o estádio vir a ter uma imagem muito próxima à do estádio de Wembley, que o Foster está a fazer. Não sei, porque não vi. Deduzi que iria ser uma adaptação “liofilizada” do estádio de Wembley. Então, a Câmara pensou em encomendar este projeto ao arquiteto e engenheiro Santiago Calatrava. E como não tinham o contacto dele, telefonaram-me. Pessoalmente, não tenho nada contra o Calatrava, que é das pessoas simpáticas que eu conheço, mas devo dizer que não é propriamente o meu expoente máximo de engenharia ou de arquitetura. Eu tinha feito um parecer sobre os honorários do Rem Koolhaas para a Casa da Música e fui forçado a informar-me sobre honorários por esse mundo fora. As pessoas acham muita graça a ter nomes sonantes mas depois quando vem a fatura...
JM: …E muitas vezes não fazem a mínima idéia do tempo que envolve um projeto destes.
ESM: Não, realmente não fazem. E já que estamos a falar da Casa da Música, o projeto tinha sido pedido em 1999 ao Siza. Tínhamos Porto Capital da Cultura, Siza, uma figura sólida da arquitetura portuguesa, e Casa da Música, um edifício emblemático... Pede-se ao Siza, que diz: 'este edifício necessita no mínimo de 4 anos: 1 ano para projeto, 2 para construção, e depois mais algum tempo para retificações e equipamento'. E o Siza não aceitou, e depois foi acusado de ausência de eficácia, aquela conotação de arquiteto sonhador, 'imaginem, 4 anos para fazer a Casa da Música…' e já vamos em 5 e vamos acabar em seis…. Era portanto minha obrigação dizer 'não pensem que com Calatrava será mais barato'. No seguimento da conversa percebi que não me tinham convidado por eu ter recusado um projeto da Câmara, ao que eu respondi: 'eu recusei um projeto mas posso fazer um estádio'. E posteriormente chegamos a acordo.
Acesso sob a arquibancada. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
Vista lateral da arquibancada. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
José Mateus: Começou então o projeto. Tratava-se de um objeto isolado ou havia um conjunto planejado?
Eduardo Souto de Moura: Foi-me entregue um Plano para um Parque Desportivo, onde o estádio está inserido, feito por uns arquitetos de Braga e um paisagista. Eu fiz um consórcio com essas pessoas, não seria correto ficar com o trabalho e eles desaparecerem. Ainda por cima havia muito trabalho, e achei que todos deveríamos participar, não só por questões de ética, mas também porque a cidade e o território devem poder socorrer-se de muitas mãos. Surgiu então a proposta de contrato para um estádio que tinha, como base, o que já estava no plano e na candidatura. Daí falar-se num custo de seis milhões de contos e num grande desvio orçamental.
JM: O sítio era já um dado adquirido. E o estádio era encaixado naquele local onde se encontra hoje?
ESM: Era um dado adquirido no Plano mas eu mudei-o completamente, desviei-o uns cem ou duzentos metros. O estádio era encaixado numa linha de água com as curvas de nível simétricas, em que as quatro arquibancadas ficavam assentes em terra. Era um estádio mais convencional e foi assim que iniciei o trabalho. Mas, à medida que fui visitando o local, sobretudo quando o vi de cima, deduzi que era muito mais interessante mudá-lo e usar a montanha, onde estava a pedreira desmontada, e usar a pedra como hipótese de uma modelação para fazer uma arquibancada. Então, desenvolvi dois estádios, o das quatro frentes, e o outro, de duas, que apresentei à Câmara. Mas, antes, certifiquei-me de que obedecia aos parâmetros da FIFA e da UEFA.
JM: Havia um caderno de encargos da UEFA, com as especificações a que o projeto tinha de obedecer?
ESM: Havia mas eu não o tinha… isso aparece muito mais tarde. Marquei então uma reunião na Suíça, na FIFA e UEFA, para saber se era possível fazer o estádio das duas arquibancadas. Para surpresa minha, eles disseram 'os estádios não têm que ter uma arquibancada, nem duas, nem três, nem quatro, pode até fazer um estádio em hexágono com seis arquibancadas'.
JM: E depois, como reagiu a Câmara?
ESM: Eu apresentei as duas soluções ao presidente da Câmara 'tenho uma solução dentro dos valores que me pediram, com quatro arquibancadas, e outra, que acho mais interessante, em que desloco o estádio 200 metros... é preciso escavar uma pedreira’. Expliquei-lhes os motivos pelos quais considerava que esta última seria a solução que deveria ser feita: o estádio deixaria de ser um sítio onde só se faz desporto, e toda a informação que eu tinha da FIFA e da UEFA é que fundamentalmente o desporto, ou o futebol em particular, é um espetáculo para televisão, logo precisa de atores. Eu deduzi, não percebendo muito de futebol, que tinha de fazer um palco verde para 22 pessoas mais 3 árbitros, com 105 câmaras a filmar, para ser transmitido para todo o mundo e cujos direitos são de milhões de contos. O que eu tinha de fazer era um estúdio de televisão. E o melhor estúdio de televisão é a aquela imagem americana dos estádios verticais dos jogos de boxe, com luz de cima, tudo concentrado ali e com as melhores imagens possíveis para a transmissão. O presidente da Câmara disse-me 'arquiteto, eu nem hesito, gosto muito mais deste. O outro é mais um, como há dez mil na Europa. E, pelo que me está a dizer, este representa o futuro, mas quanto é que isto custa?'. Respondi-lhe: 'à volta dos dez milhões de contos'. Ele pensou e disse 'eu gosto tanto dele que aceito fazer isto com os sacrifícios todos…'. E assim começou.
JM: Se o desenho de um estádio se coloca muito nessa sua dimensão de palco relvado para um espetáculo televisivo, será que não se perde um pouco o impacto do outro espetáculo, o da assistência nas arquibancadas, muito forte nos estádios em anel fechado ou caixotão como se vê nos estádios ingleses?
ESM: Tanto recebo elogios (propicia uma assistência ao jogo muito vivida porque se está quito próximo e se tem uma boa visão do relvado), como críticas (perde-se o ambiente de futebol). Mas o que é o futebol? São as duas ou três mil pessoas que vão ver o jogo ou é a transmissão televisiva desse desafio a que assistem dois milhões de pessoas? Aí é que está a questão. Colocamos a hipótese de suspender um robô, nos cabos da cobertura, que deslizasse longitudinalmente sobre o relvado. Esse robô pode filmar a cara do jogador como depois inverter a posição e filmar a cara do guarda-redes no momento da defesa. A partir daí, o espetáculo deixa de ser aquele que observa um tipo sentado a 45 metros de altura que vê o canto que é um pontinho. Passa a ter os grandes planos. Para mim o futuro é o futebol feito num estúdio de televisão.
Cabos de aço sobre o gramado. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
Arquibancadas junto à pedreira. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
José Mateus: Visitou outros estádios de futebol?
Eduardo Souto de Moura: Comecei a visitar estádios por razões técnicas: em Sevilha vi dois, em Itália vi o estádio que me parecia mais bonito, o de Bari, do Renzo Piano, que tem fortes influências no de Braga. Depois, acabei naquele que se diz ser o “último grito”, o de França, onde eu e os meus colaboradores fomos quatro vezes. Claro que também estudei futebol e comecei a ir ao futebol com cronômetros a medir o tempo de evacuação dos estádios, pois tem de se poder sair em sete minutos. Aproveitava os Boavista-Benfica que eram aqui ao lado, o Porto-Barcelona... Agora sou um fervoroso adepto de futebol. É de fato um espetáculo lindíssimo ao qual nunca tinha ligado.
JM: Muita gente deve ter a idéia de que Souto de Moura faz uns desenhos extraordinários e depois sai um estádio daqueles. Sabemos que as coisas não são bem assim: trabalha-se muito e os resultados vão evoluindo, aos poucos, e com os esforços de uma equipa pluridisciplinar extensa…
ESM: Eu sou, ou era, um arquiteto de escalas pequenas, fazia muitos projetos de casas, e depois apareceu esta oportunidade. As pessoas agora elogiam e pensam que tudo se processou exatamente como eu queria. Não é verdade. É um bocado como os cirurgiões que estão aflitos agarrados ao coração a ver se um tipo não vai à vida, e eu estava aflito com uma maquete e muitas vezes pensava 'isto não cabe, é pequeno, a que escala está?'. Isto não é humildade, não se controlam facilmente aquelas escalas. Braga foi uma oportunidade única, agarrei-a com os dentes todos. Aquele não foi apenas “mais um projeto”. Eu mudei a minha maneira de viver, quero dizer, os tempos eram apertados, a informação faltava... há pessoas que vão para retiros, outras preferem momentos de reflexão junto aos monges na Índia ou no Tibete. Eu fui para o estádio do Braga. Fiz um gabinete só de estrangeiros — não é que eu tenha algo contra os portugueses, mas era preciso trabalhar dia e noite e isso é mais fácil para um japonês que vem trabalhar para o Porto. Havia uma grande intensidade, as pessoas só viviam para aquele projeto. Começamos a viajar e era informação, cinema, televisão, Suíça, UEFA, FIFA, regulamentos, segurança, etc. Uma simples guarda era um problema, pois tinha que suportar as cargas tremendas de uma multidão em tumulto, e tinha de ser calculada pelos engenheiros. Depois, nas viagens, íamos confirmar algumas dessas soluções, 'deixa lá ver como em Paris resolveram essa guarda, ou em Bari…'. E o projeto foi alterado inúmeras vezes durante a obra. Trabalhou-se noite e dia, havia um carro a fazer permanentemente a ligação Braga-Porto, e um grupo de arquitetos que saía do estádio às nove, dez da noite, desenhava durante a noite, e às nove da manhã entrava outra equipa para dar a informação à obra. Mais do que arquitetura, isto é um certo heroísmo.
JM: A minha percepção do estádio é que, sendo desenhado com o sítio, não constrói com ele uma idéia de harmonia...
ESM: Não é nada amável, ele compete com o sítio, mas isso é um tema que eu gosto imenso: a expressão 'natureza e artefato' é uma frase bastante batida mas vêem-se as energias naturais e de como elas se contrapõem à arquitetura, quer em termos de paisagem e silhuetas quer em termos físicos. Mal foi aprovado que o estádio iria ser feito como eu sugeria, fui a Epidauros, na Grécia, porque o tema era aquele. Eu não fazia a mínima idéia do que era a relação com a paisagem, como se faziam os cenários de filtragem... Não há arquitetura aberta, mas há filtros. Há os bosques, que para além de garantirem a acústica criavam um primeiro limite e davam um ambiente, e há a paisagem com a silhueta ao fundo. Coisas que os gregos faziam muito bem. E fui a Corinto, ver o canal. Foi nesses sítios e nas visitas que fiz aos estádios que fui encontrando as sugestões para Braga.
JM: Fala-se do Braga como 'o mais arrojado dos Estádios'. Que arrojo?
ESM: Há vários tipos de arrojo: o do dono da obra, que teve de arranjar o dinheiro para o estádio existir, e mesmo antes disso, por exemplo, tiramos um milhão e quinhentos mil metros cúbicos de pedra. Depois, colocou-se a questão da pala, que em princípio era para ser contínua, e aí a referência era a pala do Pavilhão de Portugal do Siza, mas enquanto a do Siza tem 60 metros, a do estádio tem 220. Existe ousadia por parte do arquiteto por dizer: 'é assim'. Para os engenheiros era 'um problema complicado porque nunca se fez nada igual, seria a maior pala do mundo'.
JM: Se um estádio é um investimento tão grande faz de fato sentido ser pretexto para uma obra significativa...
ESM: Não há ninguém que defenda mais a sua obra que os arquitetos, mesmo entrando em grandes contradições. Reparo que eu, os meus amigos e pessoas com quem eu convivo defendem as obras como os filhos, até ao ridículo quase. É raríssimo um arquiteto abandonar uma obra, só se for chicoteado, porque ele agüenta as humilhações, agüenta que não lhe paguem, agüenta que lhe pintem aquilo de roxo e ele depois tem a esperança de lá ir a um domingo de manhã e pintar da cor que quer. Nas minhas viagens eu percebi que um estádio é também um lugar de atração para as famílias. Quando fui ao Estádio de França vi que as pessoas reservam espaços, vendem livros, etc. Um estádio é uma empresa para dar lucro: paga-se bilhete, come-se lá, vai-se às lojas, e todas as semanas pode haver um evento qualquer, como corridas de tratores, de motas, exposições de casas pré-fabricadas, etc. Portanto, se um estádio for bem gerido, esta idéia de que as vedetes ganham imenso dinheiro mas os clubes estão falidos não tem de ser assim.
Escadaria da arquibancada. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
Sala debaixo do gramado. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
José Mateus: Atualmente tende-se a pensar o estádio como um edifício multifuncional, que possui um relvado onde se joga futebol, onde se organiza uma ópera ou um concerto de rock. Foi assim para o estádio de Braga?
Eduardo Souto de Moura: Há infra-estruturas preparadas para poderem vir a ser zonas comerciais, bowlings, restaurantes no futuro. O próprio campo de futebol pode vir a ser outras coisas, até uma discoteca. A sala por baixo do relvado, onde se podem cruzar 15000 pessoas, tem uma dimensão brutal que pode ser rentabilizada com eventos. O presidente da Câmara até disse uma vez 'Isso é uma boa idéia. Como há muitas reclamações em Braga por causa das discotecas, podem passar-se todas para a sala debaixo do relvado' (risos).
JM: Um dos aspectos mais interessantes deste estádio é a dificuldade em eleger um determinado ângulo como o mais interessante ou significativo... Tudo muda consoante o ponto de aproximação.
ESM: O estádio é uma surpresa porque é fotogênico. Isto é, se eu entro por cima, pela praça, mete medo porque é impressionante. Tem a praça que se prolonga visualmente sobre a cobertura onde estão as fixações dos cabos, que parecem uma espécie de leões. Depois, desço e entro num espaço fechado, sob a pala, e logo mais adiante encontro-me num jogo de escadas como num ambiente do Piranesi. Realmente, se se entrar pela praça, o estádio tem um caráter, se se entrar por baixo ou se se subir encontram-se as galerias com os buracos, à Kahn, com uma perspectiva que varia de piso para piso. A imagem mais forte do estádio são os montantes da arquibancada poente metidos dentro da pedra e que são fixados com cabos que entram 25 metros no terreno. Esses montantes vão segurar a cobertura de 220 metros que tem de agüentar um vento com 200 km/hora. É impressionante a tensão provocada pela pedra entre cada dois montantes. É o betão a querer socorrer-se da pedra e a pedra a responder, os dois estão"de mão dada".
JM: Esse espaço interessantíssimo entre a encosta e o estádio propriamente dito foi então sendo descoberto aos poucos.
ESM: Quando vi o programa da UEFA apercebi-me que um estádio é uma cidade. Lá encontrar-se-ão dois mil jornalistas, VIPs, super VIPs, seguranças, vedetes. E tudo com exigências funcionais e em termos de circuitos. Então decidi deslocar a arquibancada e consegui uma espécie de metrópole em altura, com elevadores e escadas. Não foi pré-programado. Foi uma resposta direta aos condicionalismos.
JM: Que outras condicionantes chegaram a ser impulsionadoras do projeto?
ESM: As regras de circulação num estádio são a coisa mais complicada do mundo: ninguém se pode encontrar mas toda a gente tem de se encontrar: Um VIP não pode encontrar-se com o Zé da Esquina; O Figo não pode chegar e cair-lhe tudo em cima a pedir autógrafos; um jornalista não pode encontrar um Chirac ou um Jorge Sampaio e começar ‘ó sr. Presidente, o que é que acha da pedofilia e tal’. Temos jornalistas separados, jogadores separados, público separado, árbitros separados, VIPs separados, super-VIPs ainda mais separados, equipas separadas, e hooligans separados. E agora um tipo pega num lápis, arranja cinco cores e diz assim, VIPs a vermelho, os outros a azul. E depois pensa ao contrário: então, o que acontece quando acaba o jogo? É preciso entregar a taça, o super-VIP tem de estar com a equipa, os jornalistas têm de filmar e fotografar... Existem circuitos separados mas bastidores onde todos se encontram. Dessas dificuldades é que se extrai o encanto, a complexidade das coisas. Eu tive uma grande vantagem em não perceber nada de estádios.
O especialista tende a sentir-se mais seguro, não usa tanto a autocrítica. Aquele que não é especialista sente mais ansiedades... Tem o temor da ignorância. Se eu nada soubesse e nada estudasse, teria um resultado desastroso. Assim, questionei coisas convencionais, pensei: se o futebol mudou, porque não muda também a forma?
Balcões das escadarias da arquibancada. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
Corredor de acesso à arquibancada. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
José Mateus: As obras de maior dimensão são “organismos” complexos que, por vezes, começam a ultrapassar o arquiteto. Chegamos a dar conta que corremos atrás delas. Sentiu isso alguma vez?
Eduardo Souto de Moura: Não, no sentido de dizer ‘aquela parte escapou-me, ficou mal porque não consegui acompanhar ou tratar dela’. Senti surpresas devido a incidentes durante a obra, coisas que fui encarando, apesar de tudo, como fatos normais de uma obra. Incidente, considero a obrigação a certa altura imposta de introduzir dezenas de ventiladores na grande sala debaixo do relvado. Gostava tanto daquela sala, era uma coisa quase emblemática, tem a beleza de um espaço sem função aparente, calmo, e com uma luz bonita. Agora está cheio de ventiladores. O que me custa é que, contrariamente a uma casa de banho onde as pessoas vêem torneiras e percebem para que estão ali, neste caso ninguém percebe, sendo um espaço aberto, a razão para aqueles ventiladores. E há também umas luzes que ficaram maiores do que era suposto, uns “charutos” horríveis.
JM: Para si, que está habituado a desenhar a obra até ao ínfimo detalhe, como foi projetar um estádio, que vive sobretudo do grande gesto? Prescinde-se de detalhes mais finos?
ESM: A preocupação pelo detalhe foi exatamente igual à que existe para uma obra pequena. Simplesmente, tive de reduzir a variedade de detalhes, ou enlouquecia. Um estádio é uma obra de sistematização de meia dúzia de detalhes. Para lá chegar tive de trabalhar duramente e testar protótipos, fizemos quase tudo numa dimensão real. E aconteceu uma coisa com piada: até certo ponto, o projeto era muito mais “janota” que a obra. Ou seja, havia guardas em inox e pavimentos epoxy auto-nivelantes. Quando percebi a escala, e de certo modo a grosseria do betão, que eu não podia controlar, retirei estes materiais. Neste contexto resultam melhor guardas galvanizadas, e são mais baratas; adequa-se mais um cimento afagado no chão que um auto-nivelante suíço. Foi um trabalho quase ao contrário, de retirar desenho, retirar presença das coisas.
JM: Para materializar um projeto destes é necessário uma enorme “cumplicidade” entre todos os intervenientes.
ESM: O número de pessoas envolvido foi tremendo, os paisagistas, outros arquitetos, as engenharias infinitas. Há algumas semanas, o estádio foi tema de um Congresso da Ordem dos Engenheiros em Braga. Eu fiz uma apresentação mas falei em termos de engenharia pois não sei explicar a arquitetura do estádio sem falar da maneira como trabalhei com os engenheiros. Depois falaram os engenheiros, que disseram: 'Então, já que o arquiteto explicou a engenharia, nós vamos falar da arquitetura'. O presidente da Câmara fechou: 'Gostava de dizer uma coisa: isto é uma loucura completa e eu sou louco porque aderi a outro louco que é aquele senhor que está ali com barba, mas só queria dizer que, se fosse hoje, eu repetia tudo desde o início'.
Arquibancada em meio à pedreira. Estádio de Futebol de Braga, arquiteto Eduardo Souto de Moura
Arquiteto Eduardo Souto de Moura
Eduardo Souto de Moura
Eduardo Elísio Machado Souto de Moura nasceu na cidade do Porto em 1952. Foi estagiário de Álvaro Siza Vieira durante o período de estudante de arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto, aonde se graduou em 1980 e aonde se tornou professor assistente entre 1981 e 1990. É professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e professor convidado de diversas outras escolas – Geneve, Paris Belleville, Harvard, Dublin, ETH Zurich e Lausanne. Ganhou diversos prêmios e concursos, tanto em Portugal como no exterior.
José Paulo Mateus
Arquiteto pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa em 1986, tendo trabalhado em diversos escritórios entre 1983 e 1991, entre eles o Estúdio de Daniel Libeskind em 1991. Em 2000/2002 foi professor convidado da cadeira de Arquitetura II no Curso de Arquitetura do ISCTE. Idealizador e editor da revista trimestral de arquitetura, design e paisagem "Linha", encarte do semanário "O Expresso". Apresentador da série de programas (15) de TV "Tempo e Traço" para a Sic-Notícias, sobre arquitectura, design e paisagem. Em 1991 fundou ARX Portugal com seu irmão Nuno Mateus.
Entrevista
Entrevista publicada originalmente na revista Linha, encarte do Jornal Expresso, Lisboa, 29 de novembro de 2003. A entrevista foi disponibilizada em Vitruvius em agosto de 2004.
Conversa de arquitetos: Eduardo Souto de Moura sendo entrevistado por José Mateus