Abril de 2022 marcou os sessenta anos da Universidade de Brasília – UnB e do seu mais antigo campus, inaugurado em 21 de abril de 1962. O Campus Universitário Darcy Ribeiro, cujo projeto urbanístico original coube a Lúcio Costa, integra o Conjunto Urbanístico de Brasília que é reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco como patrimônio mundial. Em cerca de 400 hectares quase uma centena de edificações constituem um acervo diverso em relação a autorias e a linguagens arquitetônicas. Nesses sessenta anos a relevância dos seus espaços instiga a criação das mais diversas narrativas fotográficas.
Alguns inspirados projetos arquitetônicos e urbanísticos do campus foram criados no edifício atualmente designado Centro de Planejamento Oscar Niemeyer – Ceplan. Também conhecido como SG 10 – sigla que remete a Serviços Gerais – a edificação foi projetada por Oscar Niemeyer, primeiro Diretor do Centro de Planejamento da UnB, e detalhada por João Filgueiras Lima, o Lelé. A inauguração do SG 10 se deu em 1963 depois de apenas 45 dias de construção. Uma pintura mural de autoria de Niemeyer recebe os visitantes desse espaço icônico que evoca o conceito de síntese das artes e que foi realizado com a pioneira técnica de pré-moldado no Brasil. Da elegância singela dos pavilhões de Serviços Gerais de um pavimento – ao todo são cinco edifícios –, mais um destaque é o SG 8 que abriga o Auditório de Música.
Outra parceria entre Niemeyer e Lelé foi o edifício nomeado de Protótipo. Construído em 1962, se trata de um protótipo em estrutura pré-fabricada de uma unidade de habitação para estudantes. Infelizmente somente um exemplar foi executado.
A realização de uma seleção de fotografias, mais ainda, de uma narrativa fotográfica, como apresentada aqui, permite aproximar imagens de edifícios criados em diferentes épocas e contextos. São bem mais recentes a Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Gestão de Políticas Públicas – Face, e o Instituto de Química – IQ. Os originais cobogós do IQ já constituem uma referência iconográfica para a comunidade universitária. Há outros elementos construtivos, porém, que talvez somente possam ser identificados pelas pessoas que circulam nos recantos da universidade.
A intensa rotina acadêmica cria memórias afetivas dos seus diversos espaços. Dentre os edifícios da UnB um induz mais ainda a esse sentimento: o multidisciplinar, multifuncional e monumental Instituto Central de Ciências – ICC. Seus 700 metros de comprimento inspiraram o apelido Minhocão. A vivacidade dos seus espaços instiga a aplicação de arte adesivada, uma peculiar forma de apropriação do edifício. As camadas do tempo podem ser registradas por fotografias dos extensos jardins internos e das numerosas sobreposições de imagens refletidas nas esquadrias.
No Campus Darcy há alguns edifícios com estrutura metálica, como o Oficinas Especiais – que ostenta painéis em azulejos de Athos Bulcão –, o Centro de Convivência Negra e o Instituto de Ciências Biológicas – IB. Porém, o material mais frequente nas edificações é o concreto. Ele está presente em muitas construções, como na escultural cobertura – conhecida como Chapéu de Freira – da Faculdade de Tecnologia e nas estruturas do Restaurante Universitário – RU e da Reitoria. Aliás, a Reitoria abriga escultura de Jayme Golubov que direciona o olhar e revela uma característica comum a muitos prédios do campus: a integração entre os espaços internos e externos.
A integração e permeabilidade dos espaços permite observar a farta vegetação, o marcante céu de Brasília – a Maloca é um bom exemplo disso – e os dinâmicos efeitos de luz e sombra. Também dinâmica é a paisagem do campus como um todo, onde a vegetação se transforma a cada período de chuva e de seca, e onde intervenções artísticas podem surgir em diferentes lugares.
O Campus Darcy é fracionado em três partes. As duas menores margeiam o Lago Paranoá. É próximo ao lago que está a Casa do Estudante Universitário – CEU e o Centro Olímpico – CO. Nesses locais a natureza está mais presente ainda. Contudo, esses espaços ainda carecem de uma maior infraestrutura para propiciar à comunidade da universidade e de Brasília um contado mais adequado com as águas e com a paisagem do Lago.
Por meio de narrativas fotográficas se pode registrar de forma pessoal as características da arquitetura e do paisagismo das cidades, dos bairros, dos campi universitários. Cada imagem é carregada da expressão de quem a realizou. Some-se a isso que a seleção e o encadeamento de imagens é fruto de escolhas racionais e afetivas de quem, como eu, vivencia diariamente o campus da UnB.
O sessentão campus da UnB, devido à sua relevância arquitetônica e histórica, instiga a criação das mais diversas narrativas. Que continue acolhendo e encantando seus milhares de visitantes por muitas décadas.
nota
NA – Imagens de minha autoria integram a plataforma do Google Arts & Culture, em que por meio das páginas Caminhando pela Universidade de Brasília (UnB) Parte 1 e Parte 2 pode-se conhecer um pouco mais do Campus Universitário Darcy Ribeiro. A iniciativa dessas galerias partiu do Departamento Distrito Federal do Instituto de Arquitetos do Brasil – IAB-DF e contou com a elegante edição de Maribel Del Carmen Aliaga Fuentes, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UnB.
sobre o autor
Eduardo Oliveira Soares é doutor em Arquitetura e Urbanismo (2021) e servidor da Universidade de Brasília/UnB. Possui mestrado em Arquitetura e Urbanismo (2013) e especialização em Reabilitação Ambiental Sustentável Arquitetônica e Urbanística (2009), também pela UnB. É graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Pelotas/UFPEL (1995).