O Minhocão, como é conhecido o Elevado Presidente João Goulart, é uma infraestrutura urbana construída na década de 1970, cuja função principal era dar maior fluidez ao tráfego de veículos automotores, especialmente aqueles privados, no eixo Leste e Oeste da cidade de São Paulo. Recentemente, a Lei 16.833/2018 implementou o Parque Minhocão, com o objetivo de transformar a via expressa em parque público e prevê, em um primeiro momento, a desativação gradativa do Elevado João Goulart, com progressiva restrição à circulação de automóveis e, posteriormente, implantação de projeto de intervenção urbana. Atualmente, a circulação de veículos automotores está autorizada de segunda a sexta-feira entre às 7h00min e às 20h00min, estando livre para pedestres nos demais horários.
Tendo em vista esta situação, e antes que o parque seja de fato implementado em sua totalidade, ofertamos algumas provocações que consideram seu estado atual, identificam nele alguns paradoxos e, por fim, interpretam o Minhocão como um espaço suspenso.
A reflexão sobre o Minhocão enquanto intervenção urbana em seu contexto espaço-temporal, foi por nós lida como uma infraestrutura planejada a partir de preceitos do urbanismo moderno e da modernidade no geral, tais como a construção de espaços estáveis a partir do reconhecimento do móvel e autonomia da obra construída com relação ao sítio. A via elevada levou às últimas consequências a sobreposição, já em curso, da circulação rápida de veículos às demais funções do espaço público, desconsiderando, de forma geral, a vida de bairro e os impactos da vida urbana que deviriam sob a estrutura de concreto.
Por outro lado, e apesar de ter sido concebido para ter uma única função, o Minhocão permite o reconhecimento de instabilidades e a incorporação de mutações, enquanto acolhe uma multiplicidade de usos para o qual não foi projetado, constituindo-se como “uma materialidade estável que permite a mobilidade inquietante da contemporaneidade” (1). Como o rizoma deleuze-guattariano (2), a infraestrutura é um território de alianças improváveis, pois que não importa menos como materialidade, ao passo que ganha valor no confronto e nos vínculos que possibilita. Fazer vínculos é uma forma de resistir à brutalidade e à imposição da estrutura. Como na ideia de ritornelo (3), cada vez que seus portões são fechados para os carros, o Minhocão é novamente reterritorializado: um novo começo, intensidades que mudam conforme a repetição, novos liames que perturbam a lógica espacial. O Minhocão pode ser comparado, ainda, ao texto aberto de Barthes (4), o que é privado de sentido único ou significado final: desvela possibilidades e não se cansa de desvelar possibilidades de uma liberdade em processo de conquista. No desenvolvimento desta interpretação, identificamos que o Elevado pode carregar em si três paradoxos.
O primeiro é o de ser uma obra organizadora e opressora em relação às pré-existências, ao passo que, desde sua fundação, foi incubadora de atitudes questionadoras por parte de pessoas que o utilizam, residentes ou trabalhadores do entorno: sua presença maçante, física e simbolicamente, fomentou uma postura ativa dos cidadãos que se relacionam de alguma forma com o Minhocão.
O segundo paradoxo identificado nasce a partir do primeiro e se resume em ser a via elevada, quando está Parque Minhocão, um espaço público propício a encontros, práticas esportivas, ócio, festas, manifestações culturais, artísticas, enquanto, sob esta efemeridade democrática e fértil, seus baixios escondem (ou escancaram) a presença histórica dos excluídos desta democracia. Além de servir de abrigo a pessoas em situação de rua, o Minhocão, em toda a sua extensão, cria áreas de pouca insolação e muita umidade no nível do chão da cidade, áreas eventualmente sem visão do céu, com alta reverberação de ruídos causados por ônibus, motos e automóveis e, de noite, caminhões.
O fato de ser elevada é o terceiro paradoxo da famigerada via. Por um lado, tem a potencialidade de se transformar em uma extensa via para pedestres com 3,4km de extensão, sem cruzamentos ou interrupções. Por outro lado, esta mesma condicionante, faz com que o espaço, mesmo aberto, possa carecer de urbanidade ― que incorpora o inesperado, as diferenças, a mistura, o enfrentamento da realidade, o convívio com diferentes, dando lugar às múltiplas funções do espaço público e as outras tantas situações e possibilidades que estar na rua nos coloca em contato.
Seu tempo de utilização, pelo momento, é pré-definido e seus acessos, condicionadores. Não se pode estar ali por acaso, é preciso querer estar ali. É estar na rua e ao mesmo tempo não estar, pois uma vez dentro, perde-se o contato com o chão, com os excluídos abrigados sob sua estrutura, com sua falta de luz, sua umidade, ruídos e odores.
É, então, por ora suspenso no tempo e no espaço.
Certamente, o Minhocão aberto equilibra algumas tensões sociais, dando vazão ao desejo por espaços abertos na cidade e pontuamos que o Elevado como presença ou função não é uma realidade que está dada: seu processo de significação e ressignificação é constante. Como pontuam também Passos e Eirado:
“O consenso e o senso comum não são tão comuns assim, porque eles se fazem a partir de um ponto de vista que opera na comunidade (coletivo social), anulando as diferenças (ou só incluindo-as através de uma operação comparativa que as destitui de sua singularidade)” (5).
Desta maneira, esperamos que, a partir da implementação do Parque Minhocão, se possa imaginar contaminações possíveis entre este ente suspenso, e o outro, o chão, o avesso, o baixio. Para que, quando Parque, seja espaço público vivo e fértil.
notas
NA ― Este texto foi parcialmente desenvolvido durante a disciplina Urbanismo contemporâneo e espaços públicos, ministrada pelo professor doutor Luiz Guilherme Rivera de Castro e pelo professor doutor Igor Guatelli, junto ao PPGAU Mackenzie, em 2017.
1
MACHADO JÚNIOR, Juscelino Humberto Cunha. Arquitetura do porvir ― o entre, o neutro e o plural. O Percevejo Online, v. 8, n. 1, jan./ jun. 2016, p. 197-213.
2
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. V. 1. Rio de Janeiro, Editora 34, 2000.
3
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. V. 4. Rio de Janeiro, Editora 34, 2012.
4
PASSOS, Eduardo; EIRADO, André do. Cartografia como dissolução do ponto de vista do observador. In PASSOS, Eduardo. KASTRUP, Virgínia. ESCÓSSIA, Liliana da (org.). Pistas do método da cartografia: Pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre, Sulina, 2015.
5
Idem, ibidem.
sobre os autores
Larissa Francez Zarpelon é mestre e doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Cursou o Master Paesaggi Straordinari: Paesaggio ― Arte ― Architettura no Politecnico di Milano (2008). Pesquisa espaço público e arquitetura contemporânea latino-americana e atua como docente na Universidade Paulista nas disciplinas de Projeto Arquitetônico, Projeto Urbano-Paisagístico e Trabalho de Conclusão de Curso.
Hugo Louro e Silva é doutor, mestre e graduado em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Professor convidado nos Programas de Pós-graduação lato sensu da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade Municipal de São Caetano do Sul. Nsta última, é coordenador do curso de Empreendimentos Imobiliários.
preâmbulo
O presente artigo faz parte de Preâmbulo, chamada aberta proposta pelo IABsp e portal Vitruvius como ação para alavancar a discussão em torno da 13ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, prevista para 2022. As colaborações para as revistas Arquitextos, Entrevista, Minha Cidade, Arquiteturismo, Resenhas Online e para a seção Rabiscos devem abordar o tema geral da bienal – a “Reconstrução” – e seus cinco eixos temáticos: democracia, corpos, memória, informação e ecologia. O conjunto de colaborações formará a Biblioteca Preâmbulo, a ser disponibilizada no portal Vitruvius. A equipe responsável pelo Preâmbulo é formada por Sabrina Fontenelle, Mariana Wilderom, Danilo Hideki e Karina Silva (IABsp); Abilio Guerra, Jennifer Cabral e Rafael Migliatti (portal Vitruvius).