Um dos livros mais famosos na educação infantil, A casa sonolenta (1), conta a história de uma casa “onde todos viviam dormindo”. Nesse conto, vó, menino, cachorro, gato e rato, deitam-se um sobre o outro em uma aconchegante cama. No entanto, uma pulga, que está acordada, pica o rato, que cai em cima do gato, e assim por diante, até que todos acordam e quebram a cama. Para um leitor atento às ilustrações, desde a guarda do livro há indícios de que o enredo se desenrola em um dia chuvoso e, página a página, ao observarmos a janela da casa, conforme as personagens despertam, a chuva dá lugar ao sol e a um arco-íris. Ao final da narrativa, todos estão do lado de fora da casa, ao ar livre, aproveitando o jardim.
É sabido que a população urbana explora o espaço público sobretudo no verão, visitando parques ou praças, caminhando sob o sol e até os trajes escolhidos refletem leveza e praticidade. Em dias de chuva ou muito frio, quando possível, as pessoas permanecem em espaços internos, evitando saídas desnecessárias e apressam-se nos deslocamentos de um lugar a outro, experienciando a cidade de forma ainda mais utilitarista e veloz.
Assim como na narrativa de A casa sonolenta, em uma publicação em redes sociais realizada pelo Coletivo Trilhares, em que foi postado um áudio com sons de chuva junto à pergunta: “O que esse som desperta em você?”, a tônica das respostas envolveu temas como preguiça, recolhimento, “vontade de ficar em casa, embaixo do cobertor” ou “voltar para a cama".
Contudo, o fenômeno da chuva convoca nossos sentidos mesmo quando estamos abrigados em espaços fechados. Os raios, trovões e gotas nos telhados, janelas e quintais, rompem as barreiras físicas, iluminando, escurecendo, sonorizando, molhando e compondo o novo cenário que transforma a atmosfera do lugar, como retrata David Le Breton em Antropologia dos sentidos (2).
Considerando o momento histórico que vivemos, cuja recomendação é “ficar em casa”, a chuva tornou-se um bom pretexto para deslocar a atenção para o “lado de fora”. Foi com essa intenção, que o Coletivo Trilhares criou o projeto Pé-de-Chuva, como possibilidade de inverter a lógica de se abrigar nesses momentos, provocando uma nova relação das pessoas com a cidade em dias chuvosos.
A atividade vai ao encontro do objetivo central do Coletivo Trilhares, que realiza ações no território que vão na contramão do consumo, da alienação e apatia contemporâneos, convocando crianças, jovens e adultos a experimentar uma nova relação com o espaço público urbano, mais atuante, brincante e investigativa.
De uma maneira geral, a atividade consiste em crianças e seus cuidadores realizarem caminhadas pelo território em dois momentos. Primeiro em dias ensolarados, com o propósito de elaborar e registrar hipóteses sobre a interação da chuva com o espaço urbano construído, orientando-se por perguntas como: “Quais são os caminhos prováveis e improváveis da chuva?”, “Em que lugares a água se acumula?”, “Por onde ela se infiltra?”. Depois, em dias chuvosos, percorrer os mesmos trajetos, averiguando as hipóteses e brincando de descobrir o destino da água da chuva.
Esse exercício possibilita uma presença investigativa nos deslocamentos cotidianos, pois convoca a observação atenta do espaço urbano, ao levantar hipóteses, registrar e trocar conhecimentos sobre a infraestrutura urbana. Como em um processo de investigação, todas as ideias são consideradas, registradas e verificadas, de modo que as teorias provisórias são refutadas, confirmadas e re-elaboradas ao observar novamente o mesmo território em um dia de chuva.
As caminhadas exploratórias pelo território envolvem uma expectativa pelos dias de chuva, que é alimentada pelo desejo das descobertas e mobiliza a saída pelas ruas no tão esperado dia chuvoso.
Realizar essa exploração debaixo d’água requer disposição e roupas adequadas ― uma boa inspiração para essas experiências são as escolas da floresta (3), nas quais não existe “tempo ruim”, somente roupas adequadas ou inadequadas ― e a preparação faz parte desse grande evento, que envolve guarda-chuvas, galochas e roupas confortáveis, além de celulares a postos para os registros, já, na porta de casa, a chuva anuncia o início da atividade, servindo como guia do percurso.
É interessante notar como esse assunto mobiliza as crianças (4), pois passam a buscar dentro do território que habitam marcas, pistas e possibilidades dos caminhos da chuva. Caminhar seguindo os rastros da água pluvial, percorrer os relevos da cidade por quarteirões e quarteirões até encontrar uma boca de lobo ou um curso d’água, além de brincadeira, se transforma em fonte de conhecimento, desvendando a infraestrutura urbana.
Como afirma Kevin Lynch (5), refletir sobre os elementos móveis da cidade é tão importante quanto se atentar sobre os elementos estáveis. Crianças e adultos modificam sua vivência como cidadãos enquanto tecem e entendem que o espaço urbano construído e a cidade estão em constante transformação, mesmo em momentos que parecem tão estáticos, como o que estamos vivendo.
Nesse sentido, cabe ressaltar que a atividade foi desenvolvida de forma a guardar todos os protocolos de segurança contra a Covid-19, buscando abandonar a espera de um futuro semelhante ao mundo pré-pandêmico, vivenciando o presente e explorando as possibilidades desse momento.
Estar ao ar livre é uma possibilidade segura de se relacionar com o mundo durante a pandemia e também uma grande oportunidade de explorar formas de interação menos individualizadas e mais ativas, reconhecendo o território em que vivemos, saindo de nossas casas sonolentas, faça chuva ou faça sol.
notas
1
WOOD, Audrey; WOOD, Don. A casa sonolenta. São Paulo, Ática, 2019.
2
BRETON, David Le. Antropologia dos sentidos. Petrópolis, Vozes, 2016.
3
Forest School Association <https://bit.ly/3DMmUld>.
4
O interesse das crianças pelo tema pôde ser observado de forma empírica, no cotidiano das autoras, que atuam tanto em projetos do Coletivo, quanto como educadoras na educação infantil.
5
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. São Paulo, Martins Fontes, 2011.
sobre as autoras
Regina Izzo Fusco é co-fundadora do Coletivo Trilhares e do Grupo Amora. É pedagoga (USP), formadora de professores e professora de educação infantil e pós-graduada em Gestão e Formação em Educação infantil (Vera Cruz) e em Escutas antropológicas e poéticas das infâncias (A Casa Tombada).
Juliana Petrarolli é co-fundadora do Coletivo Trilhares. É arquiteta e urbanista (USP) e mestra em Planejamento e Gestão do Território (UFABC). Atuou no projeto Ônibus Andante realizado pelo Museu da Língua Portuguesa.
Cristiane Dutra faz parte do Coletivo Trilhares. É pedagoga (USP) e pós-graduada em Gestão e Formação em Educação Infantil (Vera Cruz) e pós graduanda em A natureza que somos: teorias e práticas para uma atuação genuína no mundo (A Casa Tombada).
preâmbulo
O presente artigo faz parte de Preâmbulo, chamada aberta proposta pelo IABsp e portal Vitruvius como ação para alavancar a discussão em torno da 13ª edição da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, prevista para 2022. As colaborações para as revistas Arquitextos, Entrevista, Minha Cidade, Arquiteturismo, Resenhas Online e para a seção Rabiscos devem abordar o tema geral da bienal – a “Reconstrução” – e seus cinco eixos temáticos: democracia, corpos, memória, informação e ecologia. O conjunto de colaborações formará a Biblioteca Preâmbulo, a ser disponibilizada no portal Vitruvius. A equipe responsável pelo Preâmbulo é formada por Sabrina Fontenelle, Mariana Wilderom, Danilo Hideki e Karina Silva (IABsp); Abilio Guerra, Jennifer Cabral e Rafael Migliatti (portal Vitruvius).