Abilio Guerra.
“Pesquisa e pós-graduação: desafios e perspectivas”.
Vitruvius entrevista, ed. 23.092. 2022.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/23.092/8617
Nadia Somekh, Marcos Carrilho, Angélica Benatti Alvim, Fernando de Mello Franco, Ana Gabriela Godinho Lima, Luiz Guilherme Rivera de Castro, Catherine Otondo, Abilio Guerra e Eunice Abascal
A mesa preparatória do VII Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo – VII Enanparq – organizada pelo Programa de Pós-graduação da FAU Mackenzie tem como principal objetivo discutir alguns temas que são comuns aos programas brasileiros similares, tanto no âmbito institucional como acadêmico, em especial no entrelaçamento entre o fomento à pesquisa e o debate sobre o conceito de inovação na perspectiva de nossa área.
O conhecimento gerado no interior da universidade só se justifica quando incorporado às demandas de grupos organizados ou não, por meio da gestão pública ou iniciativas sociais. Importante destacar que tal incorporação pode ocorrer de forma imediata e direta, mas também de forma mediata e indireta, situações com temporalidades diversas e variadas.
Quando tal debate se desenvolve no interior da sociedade, através das aplicações práticas do desenvolvimento do conhecimento humano, se evidenciam os aspectos éticos e morais presentes na relação umbilical entre ciência e tecnologia. O desenvolvimento da física pode levar à melhoria das telecomunicações, dando vigor a uma sociedade democrática, mas também pode estruturar redes de vigilância digital voltadas para uma sociedade totalitária. Desenvolvimentos técnicos e tecnológicos antípodas para um mesmo desenvolvimento científico.
Estamos diante de uma distinção clássica entre ciência e tecnologia. A primeira avança a passos lentos e incertos, onde o êxito e o fracasso são parceiros inseparáveis durante o processo, e em que as conquistas abrem perspectivas diversificadas e imprecisas. Ao contrário, a segunda – entendida como o conhecimento e o domínio da técnica – visa a aplicação prática imediata. Em termos ideais, a ciência possibilita a tecnologia; a tecnologia dá sentido à ciência.
No interior das pesquisas em Ciências Sociais – ou das chamadas Ciências Sociais Aplicadas, em que nos incluímos – é inescapável a discussão sobre questões éticas e morais, que fazem parte do próprio âmbito do objeto de estudo (os valores, normas e regras ditadas pelas moralidades sociais em debate e/ou entrechoque) e dos métodos e teorias adotada pelos pesquisadores (as opções, visões e perspectivas que orientam objetivos e procedimentos).
Algumas áreas da ciência justificaram a suspensão da discussão ética-moral com o argumento que suas investigações partem da Natureza e só lá na frente se encontram com a Sociedade. O sentimento trágico experimentado pelos cientistas reunidos em Los Alamos ao verem as fotos de Hiroshima e Nagasaki escancaram o quanto é inaceitável tal suspensão – ou alienação, para sermos mais precisos.
Mas as transformações ocorridas nas sociedades humanas nas décadas recentes deixam tais questões ainda mais complexas. Mesmo que seja possível imaginar um conjunto de direitos humanos abstratos como objetivo final, a multiplicação de vozes identitárias se emparelhou à tradicional luta de classes, destampando uma cornucópia de desejos, vontades e interesses motivadas por ignomínias e violências de toda ordem praticadas por grupos sociais dominantes. As vozes silenciadas de mulheres, homossexuais, populações negras e povos originários,– as chamadas “minorias” – agora reverberam pelo tecido social, amparadas pela dor e pelo conhecimento.
A complexidade da nova situação vai além. Os novos grupos de ação direta que se disseminaram pelo mundo trouxeram de volta um valor soterrado pelo tempo: o bem comum. Não se trata mais de defender o público em seu embate histórico contra o privado. O bem comum é um valor difuso, que extravasa o círculo estrito da sociedade tradicional, traz para dentro do debate direitos complexos e difusos, alguns no âmbito social – memória, patrimônio, infraestrutura, alimentação, saúde etc. –, outros a este transcendente – preservação do meio ambiente e de paisagens naturais e antrópicas em especial.
Visões de mundo até há pouco tidas como anacrônicas são reabilitadas e se tornam ativas nas discussões sobre o futuro do planeta. O pensamento ameríndio descrito pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que entende o homem como parte de uma complexa rede de entes naturais, é colocado, pelos filósofos Antonio Negri e Michael Hardt, como um dos vetores do pensamento contemporâneo revolucionário ao negar à humanidade autonomia em relação à Natureza. Somos parte ativa e passiva do meio ambiente.
Tais questões estão presentes nas pesquisas e nos debates acadêmicos. Em nossa escola e em nosso programa de pós-graduação – como em todas e escolas e programas de pós-graduação de nosso país – se conversa cotidianamente sobre tópicos como patrimônio, gênero e meio ambiente ao se discutir sobre quaisquer temas que merecem a atenção e o projeto do arquiteto. Contudo, para que essas questões se tornem presentes de forma vigorosa e ativa em nossas pesquisas é fundamental a equação de problemas inerentes ao fomento e à inovação.
A inovação em nossa área de conhecimento não se restringe a inovação tecnológica ou desenvolvimento técnico. Mesmo que estes estejam sempre presentes, o aporte de conhecimento humano é o diferencial. São muitas as novas tecnologias sociais que tornam possível a equação de problemas que se estendem ao longo do tempo. Nestes casos, o grande desafio de pesquisa é detectar as emergências de novas modalidades de arranjos sociais para que se lhe deem teoria e método. Uma nova posição encarnada por intelectuais: a de mediação entre saberes.
Para exemplificar, podemos mencionar os movimentos sociais de moradia, que ocuparam e adaptaram às suas necessidades edifícios abandonados, arruinados e obsoletos, contando com eficaz gestão coletiva, com suportes especializados nas áreas de arquitetura, direito, educação e cultura. Outro bom exemplo se apresenta na atuação de grupos de ação direta, que transformaram em realidade o Parque Augusta. O estudo sistemático destes e de outros exemplos são essenciais para lhes dar universalidade e visibilidade.
Por fim, como se sabe, não há pesquisa acadêmico-científica sem recursos humanos e financeiros. A segunda modalidade é cada vez mais escassa nas áreas de Ciências Humanas em geral, escassez quase sempre motivada pelo entendimento restrito e inadequado do que seja inovação. A atuação em bloco de nossa área deveria aprofundar o entendimento mais largo do conceito de inovação, relacionando-o aos âmbitos do dever ético e das necessidades coletivas, tanto as imediatas como as difusas no tempo e no espaço. Negligenciar essa luta implicará na diminuição constante das áreas merecedoras de fomento.
Tendo nossa produção acadêmica como material de discussão, as três mesas que se seguem visam apresentar de forma sintética situações concretas onde se revelam potenciais no desenvolvimento de pesquisas, o debate interno e a propagação dos temas pelo universo da graduação (onde, por seu turno, nascem outros tantos temas que vão ser incorporados pela pós-graduação) e sua disseminação pela sociedade via estratégias de difusão do conhecimento.
Abilio Guerra
Arquiteto (FAU PUC-Campinas, 1982), mestre e doutor em História (IFCH Unicamp, 1992 e 2002), professor adjunto da FAU Mackenzie (graduação e pós-graduação). Com Silvana Romano Santos e Fernanda Critelli, é editor da Romano Guerra Editora e do Portal Vitruvius. Autor dos livros Architecture and Nature / Arquitetura e natureza (Romano Guerra/Nhamerica, 2017, Cica Awards 2017) e organizador, entre outras obras, de dois volumes dos Textos fundamentais sobre história da arquitetura moderna brasileira (Romano Guerra, 2010). Curador da exposição Arquitetura brasileira: viver na floresta (Instituto Tomie Ohtake, 2010, Cica Awards 2011) e das três mostras Território de contato (com Marta Bogéa, Sesc Pompeia, 2014).
Ana Gabriela Godinho Lima
Arquiteta e mestre (FAU USP, 1994 e 1999), doutora (FE USP, 2004) e pós-doutora (School of Creative Arts/ University of Hertfordshire, Inglaterra, 2009). Professora e pesquisadora da FAU Mackenzie (graduação e pós-graduação). Editora temática do periódico Cadernos de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Diretora suplente da Associação Nacional de Pesquisa em Arquitetura. Autora de livros, capítulos de livro e artigos em periódicos nacionais e internacionais sobre crítica e história da arquitetura, educação e cidades e gênero, é autora de Arquitetas e arquiteturas na América Latina do século XX (Altamira, 2013) e organizadora de Cidade, gênero e infância (com Rodrigo Mindlin Loeb Romano Guerra, 2021).
Angélica Benatti Alvim
Arquiteta (Belas Artes de São Paulo, 1986), mestre e doutora (FAU USP, 1996 e 2003). Pesquisadora, bolsista produtividade CNpq nível 1D, professora titular (graduação e pós-graduação) e diretora da FAU Mackenzie. Autora de livros, capítulos de livro e artigos em periódicos nacionais e internacionais, é organizadora de Avaliação de políticas urbanas: contexto e perspectiva (com Luiz Guilherme Rivera de Castro, Editora Mackenzie, 2010), Research Tracks in Urbanism: Dynamics, Planning and Design in Contemporary Urban Territories, (com Alessia Allegri, Eunice Abascal, Joaquin Sabaté, João Pedro Costa e Maria Cristina S. Schicchi, Taylor and Francis, 2021) e Sustentabilidade em projetos para urbanização de assentamentos precários no Brasil – contexto, dimensões e perspectivas (com Viviane Rubio, Manole, 2022).
Catherine Otondo
Iniciou seus estudos em Arquitetura na École D`Architecture Paris la Seine (1987), arquiteta e doutora (FAU USP, 1993 e 2013). Pesquisadora e professora adjunta da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Presidente do CAU-SP (2021-2023), é sócia diretora do escritório Base Urbana, ganhou o Prêmio Melhor Urbanidade da APCA 2014 pelo projeto de reurbanização da Favela do Sapé em São Paulo. Autora de artigos em periódicos, é organizadora de Maquetes de papel – Paulo Mendes da Rocha (com Marina Grinover, Cosac Naify, 2008), Itinerarios de arquitectura – Paulo Mendes da Rocha (com José Paulo Gouvêa, Fundación Arquitectura Contemporanea, 2012), Casa Butantã – Paulo Mendes da Rocha (com Marina Grinover, Ubu, 2016) e Paulo Mendes da Rocha: homenagem pelas recentes premiações (com Cesar Shundie Iwamizu e Helena Ayoub, FAU USP, 2016).
Eunice Helena S. Abascal
Arquiteta (FAU Mackenzie, 1982), mestre em Ciências Sociais (Escola de Sociologia e Politica, 1986) e Comunicação e Letras (PPGL Mackenzie), doutora (FAU USP, 2004) e pós-doutora (ETSAB UPC, 2018-2019). Pesquisadora, bolsista produtividade CNPq nível 2, professora titular da FAU Mackenzie (graduação e pós-graduação). Autora de artigos em periódicos nacionais e internacionais e organizadora de Projetos urbanos em áreas próximas a cursos d’água em bairros em transformação (com Roberto Rocco e Heraldo Borges, Editora Mackenzie, 2019) e Research Tracks in Urbanism: Dynamics, Planning and Design in Contemporary Urban Territories (com Alessia Allegri, Angélica Benatti Alvim, Joaquin Sabaté, João Pedro Costa e Maria Cristina Schicchi, Taylor and Francis, 2021).
Fernando de Mello Franco
Arquiteto e doutor em Estruturas Ambientais Urbanas (FAU USP, 1986 e 2005). É professor na FAU Mackenzie e sócio fundador do Instituto ZeroCem. Consultor em agendas de estruturação de projetos urbanos e formulação de políticas públicas para diversas instituições multilaterais e do terceiro setor, tais como AECID, BID, Banco Mundial, GIZ, Instituto Escolhas, ITDP, Lincoln Institute of Land Policy, ONU Habitat, PNUMA e Urbem, com atuação na América Latina e África. Ex-Secretário de Desenvolvimento Urbano do Município de São Paulo (2013-2016). Foi sócio fundador do escritório MMBB Arquitetos e colaborador associado do Arquiteto Paulo Mendes da Rocha.
Luiz Guilherme Rivera de Castro
Arquiteto (FAU USP, 1986), mestre (FAU Mackenzie, 1998) e doutor (FAU USP, 2006). Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU UPM), foi coordenador adjunto do Curso de Arquitetura e Urbanismo (2013-2018) da FAU Mackenzie, onde é professor (graduação e pós-graduação). Membro do Public Space Research Working Group (PSRWG/SUNTA), é integrante do Advisory Board on Public Space de City Space Architecture. Autor de artigos em periódicos nacionais e internacionais, dentre eles “Bringing theory and practice closer together: FAU-Mackenzie at São Paulo Calling” (com Angélica Benatti Alvim, Domus, Milão, 2012) e “Densidades, formas urbanas e urbanidades: relações de natureza complexa” (Arquitextos, 2019). É organizador de Avaliação de políticas urbanas: contexto e perspectivas (com Angélica Benatti Alvim, Romano Guerra, 2010).
Marcos José Carrilho
Arquiteto (UFPR, 1977), mestre e doutor (FAU USP, 1994 e 2003). Foi pesquisador visitante na Graduate School of Architecture, Planning and Preservation – GSAPP Columbia University NY. Pesquisador e professor adjunto da FAU Mackenzie, é arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan. Vencedor, com o Sobrado Aguiar Vallim, do concurso de apoio a projetos para restauração de imóveis tombados pelo Condephaat, Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo (com VD Arquitetura, 2013). Em 1977, com a cenografia para o filme Aleluia Gretchen, ganhou o prêmio APCA e o Prêmio Governador do Estado de São Paulo.
Nadia Somekh
Nadia Somekh Arquiteta e Urbanista (FAU USP,1976), especialista em Patrimônio Ambiental Urbano (FAU USP,1978), mestre e doutora em arquitetura (FAU USP,1987 e 1994) e pós-doutora (EHESS, 2011), com bolsa do Fundo Mackpesquisa. Pesquisadora, bolsista produtividade CNpq nível 1D, é professora emérita da FAU Mackenzie (graduação e pós-graduação), é presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo – CAU-BR (2021-2023). Foi presidente do Conpresp e diretora do DPH (São Paulo, 2013-2016), presidente da Emurb e secretária de Desenvolvimento Econômico de Santo André. É autora de artigos em periódicos nacionais e internacionais e dos livros A cidade vertical e o urbanismo modernizador (Editora Mackenzie/Romano Guerra, 2014) e Preservando o patrimônio histórico – um manual para gestores municipais (CAU SP, 2014), e organizadora de Bexiga em três tempos: patrimônio cultural e desenvolvimento sustentável (com José Geraldo Simões, Romano Guerra, 2020, prêmio IAB-2022). Recebeu a Palma Acadêmica “Chevalier dans l Ordre des Palmes Academiques” (Ministério da Educação Nacional do Ensino Superior e da Pesquisa da Republica Francesa, 2018) e a medalha presidencial e o cargo honorífico de membro do Instituto Americano de Arquitetos AIA (2022).
Evento
A mesa preparatória do VII Encontro Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo – VII Enanparq –, intitulada “Pesquisa e pós-graduação: desafios e perspectivas” e organizada pelo Programa de Pós-graduação da FAU Mackenzie, ocorreu no dia 3 de outubro de 2022, das 19h às 21h, dentro da plataforma virtual Zoom, com transmissão direta via canal PPGAU FAU Mackenzie no YouTube.
O evento contou com a seguinte programação:
19h | Abertura: Eunice Abascal
19h10 | Gênero: Ana Gabriela Godinho e Catherine Otondo
19h40 | Meio ambiente (mudança climática e desenvolvimento local): Angélica Benatti Alvim e Fernando Mello Franco
20h10 | Patrimônio arquitetônico e urbanístico: Nadia Somekh e Marcos Carrilho
20h40 | Comentários da assistência
20h55 | Fechamento: Abilio Guerra
Organização
promoção Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
direção Angélica Benatti Alvim
coordenação Luiz Guilherme Rivera de Castro
professores responsáveis Abilio Guerra, Ana Gabriela Godinho e Eunice Abascal
apoio técnico Eva Guadalupe Galdamez Garcia e Gilvanete Maria da Silva