português Este artigo amplia os conhecimentos acerca da arquitetura fenomenológica por meio de relatos de Janice Dantas Maçol, que atua sob esta perspectiva, com ênfase em arquitetura sacra.
english This paper expands the knowledge about phenomenological architecture through reports by Janice Dantas Maçol, who works from this perspective, with an emphasis on sacred architecture.
español Este artículo amplía el conocimiento sobre la arquitectura fenomenológica a través de informes de Janice Dantas Maçol, quien trabaja desde esta perspectiva, con énfasis en la arquitectura sacra.
como citar
Clarissa Freitas de Andrade.
“Arquitetura sacra e fenomenologia: Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz”.
Vitruvius entrevista, ed. 22.087. 2021.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/22.087/8238
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
Esta entrevista reune dois temas importantes no âmbito da arquitetura e de grande interesse para a contemporaneidade: a fenomenologia e o conceito de sacralidade na arquitetura.
A fenomenologia é uma abordagem ressurgida na arquitetura a partir das décadas de 1950 e 1960, como um paradigma teórico pós-modernista, em contraposição às ideias funcionalistas (1). As iniciativas nesse campo buscam traduzir fenômenos humanos em experiências multissensoriais (2), em consonância com a valorização do genius locci (3), dos processos de identidade e apropriação lugar (4) e da empatia do arquiteto em relação aos desejos e necessidades das pessoas e em prol da qualidade do ambiente. Constituindo importante tendência na área de arquitetura e urbanismo, a fenomenologia está presente na obra de vários arquitetos que ganharam prêmios Pritzker, tais como Peter Zumthor, Tadao Ando, Shigeru Ban e Herzog & Meuron. Embora as práticas arquitetônicas sejam, em geral, limitadas por fatores ligados à velocidade, custo e condições de execução de obra, os arquitetos que atuam fenomenologicamente desenvolvem uma aguçada sensibilidade para criar elementos que valorizam a percepção do ambiente e os sentidos humanos. Em geral, suas produções causam impacto e fascínio, exploram a subjetividade daqueles que delas usufruem e se tornam marcos de experiências de lugar na perspectiva multissensorial (5).
Por sua vez, a arquitetura sacra consiste na produção arquitetônica voltada para a construção de espaços sagrados, visando a transcendência e o encontro com Deus, área de estudos ligada à religião e à cultura (6). Nesse campo, e para a Igreja Católica Romana, entre 1962 e 1965, o Concílio Ecumênico Vaticano II, ocorrido durante o papado de João XXIII, é considerado um “divisor d’águas na noção de liturgia” (7), Ao aspirar a renovação litúrgica, ele trouxe inovações em vários setores, inclusive para as configurações arquitetônicas das igrejas, tais como: 1. substituir ornamentações de materiais luxuosos por elementos de beleza nobre e simples, eliminando decorações ou imagens em excesso; 2. evitar obras de arte que não sejam coniventes a uma casa cristã de oração; 3. construir edifícios para facilitar a participação ativa dos fieis; 4. produzir construções dignas, condizentes com o funcionamento de um espaço sagrado; 5. ter especial cuidado com as formas dos altares; 6. valorizar artisticamente a capela para o sacramento da comunhão; 7. incluir o batistério no projeto em desenho de modo a conciliar o seu significado de sacramento de iniciação cristã (8).
Vários arquitetos famosos aplicaram a fenomenologia à arquitetura sacra. Um dos exemplos mais conhecidos é o do suíço Peter Zumthor, que reconhece usar memórias afetivas como referências projetuais, e para quem se identifica uma arquitetura de qualidade “quando um edifício consegue comover” (9). Um dos projetos mais comentados de Zumthoré a capela dedicada ao irmão Klaus, localizada na Alemanha. Para aceitar o convite de fazendeiros da região que afirmavam sentirem paz vendo outros projetos de igrejas feitas por ele, o arquiteto impôs como condição haver tempo para projetar cada detalhe. O trabalho teve inicio em 1998 e levou sete anos para ser concluído; a obra em si foi começada em 2005 e inaugurada em 2007, tendo contado com ampla participação da população local em sua execução. O arquiteto cuidadosamente projetou desde a maçaneta da porta até pequenos detalhes de materiais, incluindo várias experiências executivas, como montar uma estrutura interna com madeira local não aparelhada, fazer a concretagem e, após aguardar o tempo de cura, incendiar o conjunto, processo que garantiu ao concreto a tonalidade imaginada por ele (10).
Trazendo a fenomenologia para a realidade brasileira e, mais especificamente, para o contexto nordestino e cearense, a arquiteta e urbanista Janice Dantas projetou a Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, cujo percurso de projeto inclui conhecimento da técnica arquitetural e sensibilidade para comunicar arquétipos, provocando experiências multissensoriais. A obra de Janice Dantas tem sido mencionada positivamente por profissionais da área e, principalmente, pelos usuários. Apresenta-se aqui uma entrevista realizada por telefone com a arquiteta cearense, tendo como objetivo compreender seu percurso criativo.
A obra: Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz
O projeto da igreja Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, foco desta entrevista em função do processo de projeto utilizado em sua concepção, foi solicitada pela Comunidade Católica Shalom de Fortaleza, Ceará. A Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz possui área interna com 1.440m², altura de 21m e capacidade para receber mil pessoas sentadas. Ela se encontra no município de Aquiraz (região metropolitana de Fortaleza CE) e está em execução desde 2013, construída por meio de doações. Embora, ainda não tenha sido concluído, o espaço tem atraído muitos comentários, bem como passeios culturais, retiros individuais, missas, visitas de estudantes de engenharia e arquitetura, e eventos diversos (shows, peças).
Para desenvolver o projeto a arquiteta fez imersões naleitura de temas ligados à projetação de templos e estudou materiais, além de ter investido na elaboração de maquetes e na construção de protótipos em marcenaria (como o banco feito para ambientação da Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz).
Nos muitos detalhes é perceptível a sensibilidade de uma profissional que se preocupa com a incitação dos sentidos humanos e com detalhes de projetos voltados para traduzir a cultura e valorizar a experiência das pessoas, auxiliando-as a transformarem espaços em lugares.
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
notas
1 NESBITT, Kate (org.). Uma nova agenda para a arquitetura: antologia teórica 1965-1995. São Paulo, Cosac Naify, 2008.
2 GOMES et al., 2008;
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Petropolis, Vozes, 2004.
3 NORBERG-SCHULZ, Christian. Genius Loci: towards a phenomenology of Architecture. Nova York, Rizzoli, 1980.
4 TUAN, Yi-Fu. Espaço e lugar: a perspectiva da experiência. São Paulo, Difel, 1983
5 GUILHERMINO, Leila. Atmosferas arquitetônicas: projeto e percepção na obra de Peter Zumthor. Dissertação de mestrado. Natal, PPGAU UFRN, 2015 <https://bit.ly/3DBA9qk>.
6 SEGERER, Christian Michael. Arquitetura sacra contemporânea: levantamento e análises de obras (2000-2015). Dissertação de mestrado. São Paulo, PPGAU UPM, 2019.
7 PASTRO, Cláudio. Guia do espaço sagrado. São Paulo, Loyola, 1999, p. 4
8 VATICANO. Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia. Roma, 1963; SEGERER, Christian Michael. Op. cit.
9 PEREIRA, Rafaela Peres Fontes Ramos. Para uma arquitetura emocional: as obras de Peter Zumthor, Álvaro Siza Vieira e João Luís Carrilho da Graça. Dissertação de mestrado. Lisboa, Universidade Lusíadas, 2018, p. 11.
10 GUILHERMINO, Leila. Op. cit.
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
Clarissa Freitas de Andrade: Como foi o processo criativo da igreja?
Janice Dantas: Na encomenda inicial ela seria menor e desenvolvemos maquetes físicas. Depois a intenção de atender a um público maior já era clara. Passamos ao anteprojeto. Nesta etapa desenvolvemos maquetes eletrônicas e fizemos reuniões com a comunidade. Tenho muita abertura especialmente nessa etapa para acolher as ideias mais variadas. Logo em seguida vieram os engenheiros e a obra iniciou. Então o projeto executivo de arquitetura foi sendo desenvolvido de acordo com as demandas da obra e com os projetos complementares de cada etapa. Dessa forma a edificação foi praticamente concluída. Então agora estamos desenvolvendo o executivo de ambientação. Para concluir esta etapa solicitei totalimersão no projeto, sem atender novas demandas da obra. E o que posso dizer é que tem sido das experiências mais alargadoras que já vivi. Toda a concepção inicial está sendo revista, aprofundada. Um deleite! Tenho também absorvido muita música, teatro, exposições de arte e leitura. São alimentos que me alinham à atividade projetual. Tenho procurado também entender o que “o projeto pede”, mesmo que nenhum outro tenha solicitado algo parecido.
CFA: Você usou o termo “percurso legítimo” de criação ao invés de “processo”...
JD: Sim, prefiro percurso a processo, porque processo diz sobre um passo-a-passo, uma ação contínua, já percurso designa um caminho, um movimento em direção a um resultado, é algo muito singular e pode ser bem mais orgânico. Cada artista pode encontrar ao longo da vida seus próprios caminhos para se expressar. Quando falo em legitimidade é para dizer da abertura à criação a partir da percepção do objeto e de seu objetivo. Não que faremos “bará” (1), invenções a partir do nada. Mas também não vejo legitimidade em criações alicerçadas em imagens de referências, senão o risco é de apenas repetir elementos, irrefletidamente.
CFA: A arquitetura é uma expressão artística com muitas condicionantes: terreno, clima, legislação etc. Qual seria o ponto de partida em comum em suas produções?
JD: Além dessas chamadas condicionantes de projeto, parto das motivações mais profundas que nos levam a aplicar esforços, alterar a paisagem e construir algo. Procuro chegar a esse lugar do motivo, “tocar’’ esse ponto ao iniciar um projeto. Começo refletindo sobre o conteúdo, ampliando a percepção sobre o assunto, anotando, escrevendo, lendo. Por exemplo, se é um projeto voltado à justiça, mergulho nesse universo, na necessidade atávica de justiça, em seu processo histórico e em sua simbologia, não em obras de arquitetura. Não é absolutamente uma incursão técnica, mas filosófica. Por isso acredito que o conteúdo antecede a forma, não o contrário. É assim na natureza: a forma é sobre o conteúdo.
CFA: Como essas experienciações artísticas entram no seu processo criativo?
JD: Elas impregnam, passam a fazer parte de mim. Procuro me alimentar delas continuamente, faço anotações. Leio cada vez mais filosofia, psicanálise, sociologia. Tudo isso é combustível para a arquitetura e o urbanismo. Acredito que quanto mais profundamente se entra em contato com a substância humana, mais hábil se está a atender suas demandas interiores. E o que um trabalho artístico pode fazer de mais potente é atender exatamente a essas demandas.
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
nota
1 Bará: verbo usado para expressar a ação criadora de Deus, segundo o capítulo 1 do Gênesis.
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
Clarissa Freitas de Andrade: Na arquitetura de igrejas católicas, comumente se vê reformas, restauros ou intervenções. Não é muito comum haver construções desse gênero hoje em dia se compararmos a outros períodos históricos. E espaços sagrados tendem a se tornar lugares de visitação também cultural. Diante disto, como é ser arquiteta de uma obra do porte da Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz?
Janice Dantas: Um encargo de muita responsabilidade; não pelo porte, já que existe uma equipe de engenheiros muito empenhada em propor soluções técnicas. A questão que exige zelo é atender ao significado. Os ritos católicos são ricos em símbolos, e como esta obra é a primeira igreja de uma comunidade nova, o principal trabalho é compreender a forma própria de viver a espiritualidade e as celebrações dessa instituição e traduzir tudo isso em arte. Igrejas costumam atravessar os séculos, tendem a viver muito mais do que nós. Então, há o empenho em produzir um lugar que testemunhe esse nosso momento histórico e também o transcenda, que consiga comunicar realidades atemporais. A narrativa bíblica faz isso: conta histórias arquetípicas, que se atualizam desde que o mundo é mundo. Projetar um edifício espiritual é como transliterar essas narrativas universais sem atrapalhar a assimilação. O cuidado é para compreender ao ponto de transmitir sem atravancar esse manancial, que existe desde muito antes de nós. Há, sobretudo, uma postura de respeito pelos que nos legaram essas riquezas, pelos contemporâneos que participam dessa construção coletiva, e pelos que virão, para fazer uma entrega incólume. Tudo além disso é vento que passa e não tem tanta importância, respondendo como é ser arquiteta dessa obra.
CFA: Quais tipos de pesquisas são exigidos para a realização de um projeto sacro?
JD: Existe uma vasta bibliografia de arte sacra, mas acho equivocado começar por ela. Vejo muitos projetos repetindo estilos que não têm mais ressonância com o período corrente, como que relacionando espiritualidade à reprodução do passado. É preciso ir à fonte das necessidades do espaço: a sagrada liturgia. A partir dela usar uma linguagem atual, legível pelo homem de hoje. Começando pelos documentos oficiais do Vaticano, como o livro “Catecismo da Igreja Católica”, para compreender a razão de construir templos e o significado de seus elementos. Há também um documento da CNBBdenominado “Orientações para projeto e Construção de Igrejas e disposição do Espaço Celebrativo”, que está bem desenvolvido. Depois existem inúmeros documentos oficiais e livros de liturgistas. Com esse conhecimento, aí sim, somar a literatura de arte sacra, compreender os tipos e significados dos arcos e das cruzes, por exemplo, para não utilizá-los de forma aleatória, sem noção dos sentidos específicos que guardam. Nesta seara, os livros do artista sacro brasileiro Claudio Pastro, frutos de anos de trabalho e pesquisa, prestam um grande serviço. Há tanta riqueza simbólica para nos apropriarmos nos projetos, e está tudo disponível. Penso que quando não estamos dispostos a compreender o sistema simbólico no qual cada trabalho está inserido, podemos oferecer um resultado raso.
CFA: Quando unidos, os vitrais das quatro fachadas da igreja formam o círculo cromático. Pode explicar como se deu o desenvolvimento desses elementos e sua simbologia?
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, planta, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
JD: A igreja do Ressuscitado é composta por figuras geométricas muito simples e simbólicas. Em planta, vemos um círculo inscrito num retângulo: o divino inscrito no humano. Quando se tocam, surgem as aberturas – portas e vitrais. Já nos vértices do retângulo se formam quatro espaços: Batistério, Capela do Santíssimo, Capela da Mãe de Deus e Capela da Reconciliação. Esses espaços fazem alusão a mistérios cristãos, que por sua vez possuem cores em sua simbologia. Assim, os vitrais que saem a partir do Batistério são vermelhos, porque vermelha é a cor litúrgica da solenidade de Pentecostes; os que nascem a partir da Capela do Santíssimo são amarelos, já que dourado é utilizado na liturgia da Páscoa; os que surgem a partir da Capela da Mãe de Deus são azuis, cor litúrgica mariana e, por fim, os vitrais que saem a partir da Capela da Reconciliação são roxos, cor litúrgica dos ritos penitenciais. Seguimos fielmente as cores litúrgicas e então, os vitrais que existem entre um e outro espaço são ligados pelas matizes cromáticas. Quando fechamos o desenho, percebemos que naturalmente completamos o círculo cromático. Ou seja, todo o arco-íris, todas as cores perceptíveis ao olho humano, estavam contempladas nos vitrais. Ao que Moysés, o fundador da Comunidade, logo entendeu como uma alusão à criação, à gênese. Mas havia um incômodo: o vitral da fachada principal, feito pelas cores entre o roxo e o vermelho ficaria muito escuro, e com o púrpura como cor central, poderia acarretar num aspecto sombrio. Dizendo desse desconforto, falei que ficaria muito sanguíneo, e então Moysés relacionou imediatamente ao sangue e água do Ressuscitado. E aconteceu uma catarse criativa, a ideia de atravessar o púrpura sanguíneo com o amarelo/ dourado da Ressurreição. E, dessa ideia, esse sangue e água, símbolos da Ressurreição, atravessariam toda a igreja, “rasgando” todo o espaço sagrado com uma gloriosa fenda: vitral, porta, piso, elementos do presbitério e ícone central.
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, perspectiva, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / StaleroIgreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, círculo cromático, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
CFA: Na igreja há, ainda, o uso massivo de materiais naturais. Por que essa prerrogativa?
JD: Há na arte sacra o princípio da veracidade dos materiais, que determina que a matéria empregada nos espaços sagrados seja verdadeira, natural. Tudo para exprimir a primazia da verdade. E se entendemos que as edificações existem como expressões humanas, chegamos à conclusão de que também nós, como parte das construções, devemos nos colocar com nossa verdade. Daí nasce a beleza. Tomando a trilogia da beleza-bondade-verdade da antiguidade clássica, o conceito fica ainda mais amplo.
CFA: Você fez uma imersão em um laboratório de madeiras para desenvolver protótipos. Algo chamou sua atenção?
JD: Sim. Fui desenvolver o protótipo dos bancos da nave. Historicamente, eles não carregam questões simbólicas, como por exemplo, a cadeira do presidente da celebração (sédia). Mas percebi que poderiam expressar a dignidade e a singularidade de cada um que os ocupará. Como se trata de uma obra executada a partir de doações, este significado fica ainda mais latente. Então fui desenvolver o protótipo com uma ideia: cada banco seria diferente, expressaria o singular de cada um de nós. Depois de muito refletir sobre como fazer a diferenciação, recebi a sugestão de que fossem feitos com madeiras com costaneiras, as marcas da casca de cada árvore. Era isso! A singularidade da madeira refletiria a singularidade humana: nenhum banco seria exatamente igual ao outro. Mas após procurar o material nas lojas varejistas de toda a cidade, por valores acessíveis para produzir apenas um banco, só consegui encontrar uma sobra de madeira com costaneira, toda empenada, furada por bichos, muito danificada. Quando cheguei com essas tábuas no laboratório, foi um estranhamento: pareciam impróprias para uso. Mas seguimos. Acontecia que procurei a madeira dando-lhe sentido, mas à medida que me aproximava dela, manuseava, cortava, lixava, ela ia me devolvendo significados: lixando as camadas superficiais e chegando ao seu cerne, ela mostrava sua beleza e dignidade. Veja: eu não lhe dei dignidade, ela mostrou apenas o que já tinha internamente. Assim é a madeira, assim somos nós. E a arte é fecunda quando evidencia verdades como esta. Os furos feitos pelos bichos, que a princípio incomodaram, não foram tamponados. Ao contrário, deixaram transparecer a força da árvore, que resistiu, sobreviveu. Tais marcas se tornaram sua beleza mais pascal. E não é assim conosco? Isso tudo não fala da condição humana?
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, banco singular, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, banco singular, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
Clarissa Freitas de Andrade: É visível o peso que você dá à simbologia nos projetos. De onde vem esse interesse pela linguagem simbólica?
Janice Dantas: Levo isso muito a sério. Os símbolos sempre foram o grande norte da arte para mim. São também o elo que me liga à arquitetura. Na minha vida existia sempre uma tensão interna entre trabalhos artísticos e sociais. De modo que decorrido um ano de graduação em arquitetura, tranquei a matrícula na faculdade para estudar algo mais voltado às necessidades humanas básicas. Ali eu ainda não enxergava a potência da arte como necessidade da alma humana, àquela altura eu não a tinha experimentado como hoje experimento. Então, no período afastada da arquitetura, me aproximei da liturgia. Desvendar todos aqueles símbolos, compreender o alcance dessa linguagem me encheu de saudades da arquitetura. Depois disso, nunca mais desgrudei, nem dos símbolos, nem da arquitetura.
CFA: Você tem se constituído uma referência especialmente em arquitetura sacra. Essa dedicação é uma profissão de fé?
JD: Toda construção é uma profissão de fé. Tudo que se vê materializado no mundo sinaliza que alguém creu.
CFA: E como você experiencia a arte hoje?
JD: Diz-se muito que estamos vivendo um culto ao corpo. Mas acho que não. Nem o amamos. Vivemos sim um culto à imagem, no sentido daquilo que parece ser, não daquilo que é de fato. E a arte não tem compromisso com a imagem, mas com a verdade. Por isso é potente. Experienciar a arte é experienciar a verdade da condição humana, seja na música, na literatura, na arquitetura.
CFA: Seus projetos têm uma marca própria?
JD: Não considero que tenha uma marca própria. Até evito. Meu compromisso é atender necessidades, não criar um portifólio com estilo particular. Os projetos não são sobre mim. Tenho entendido que passam pelo olhar do arquiteto, mas são para atender demandas do outro, não dos egos. No entanto tenho algumas premissas que estão nos fundamentos de como entendo a arquitetura: primeiro busco cavar a história, o sentido, a finalidade última e os arquétipos para usar em cada projeto; segundo, procuro lançar mão da geometria, criando módulos, simplificando os projetos complementares e a execução da obra; terceiro, não usamos biblioteca de blocos nos softwares para não repetir detalhes nos projetos, que entendo como uma premissa da criação, da produção autoral, pois não tem sentido copiar nem a si mesmo; quarto, uso pouca variedade de materiais por trabalho. É possível alterar essas premissas com o tempo, mas se acontecer, acredito que será de forma consciente.
CFA: Você transita entre desenvolvimento de arquitetura residencial, comercial, sacra e urbanismo. Você se considera uma artista? O que é arte para você?
JD: Sou entusiasmada com as possibilidades de atuação que a Arquitetura e o Urbanismo oferecem. E gosto de me envolver com temas variados como forma de enriquecer a vida. Nesse aspecto me considero artista: o artista é hábil em ler entrelinhas. E acredito que um percurso legítimo de criação recruta essa qualidade: perceber as sutilezas subjetivas e traduzi-las em linguagem, em matéria. Talvez a arte seja uma maneira de ver o mundo, uma percepção apurada; deste modo um artista experiencia o mundo com uma forma peculiar de atenção e absorção.
CFA: Qual é a meta de produção do seu tipo de arquitetura?
JD: Fui arrebatada pela leitura de um livro de Paulo de Lencastre. Ele trata de um projeto de intervenção, citando o cuidado em produzir uma arquitetura de síntese, que une tradição e inovação, pensando sempre no conjunto da obra, da estrutura da edificação aos detalhes do mobiliário. O termo traduz o que acredito que seja das qualidades mais consistentes que a nossa atividade possa trazer. Para isso a ideia é me entregar à aventura única de cada criação, como uma atividade intelectual que exige tempo e silêncio: dois recursos dos quais não mais abro mão.
CFA: Exigir tempo e silêncio parece colocar o escritório na contramão do mercado, não?
JD: Sim. Quero que a atividade profissional amplie também a minha vida, me humanize. É uma demanda minha e escolhi atendê-la, com tudo que isso me traz e me nega. Entendo que diferentes indivíduos funcionam de formas diversas, têm objetivos variados, e o mercado está aí para suprir as demandas de quase 8 bilhões de pessoas, que são vastíssimas. Atendemos aqueles que desejam cavar significados e se rendem, como nós, às exigências dessa escolha; que respeitam e confiam na quietude necessária para ruminar os conceitos até que estejam prontos para serem materializados.
CFA: Você é moradora de São Paulo há 12 anos. A sua relação com a cidade influencia sua atividade profissional?
JD: Aqui incorporei o pedestrianismo; e adotar o caminhar como principal forma de locomoção qualificou especialmente os projetos urbanisticos. As sensações ao transitar a pé por vias largas ou estreitas, por edificações sem muros, com muros ou grades, por áreas mais residenciais ou mais comerciais em diferentes horários: todo esse conteúdo fica encarnado e é naturalmente recrutado ao pensar os espaços.
CFA: O fazer arquitetura e urbanismo passa então por uma experienciação que permeia toda a sua vida?
JD: Sem dúvidas, é um envolvimento estrutural. Entendi que sou arquiteta fenomenológica: é muito confortável quando encontramos a linguagem que traduz a experiência que vivemos! Um espaço que apenas atenda suas funções é o mínimo que a arquitetura e o urbanismo podem oferecer. Torná-los belos apenas plasticamente também é muito superficial. Ele pode muito mais, pode tornar-se um lugar, um lugar de experiências. É sempre nesse resultado que quero chegar, cada vez mais volto o olhar para esse objetivo. Certa vez um cliente comentou o quanto sua casa recém-construída era elogiada pelos amigos, e que ele tentava expressar como era bom viver ali, mas não encontrava palavras para dizer desse conforto interior. Eu respondi: é porque essa casa atende às necessidades da sua alma, o tempo todo nós tentamos ler a sua alma para responder a essas necessidades espacialmente. Para mim, arquitetura é sobre isso.
Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz, Aquiraz CE, 2013. Arquiteta Janice Dantas Maçol / Stalero
Janice Dantas Maçol
Arquiteta e urbanista (Unifor, 2007), possui cursos de Espaço Litúrgico e Arte Sacra (Unisal, 2009), e Construção Sustentável (Anab Brasil, 2009) e especializações em Conforto Ambiental e Eficiência Energética (USP, 2011) e em Reabilitação Sustentável Arquitetônica e Urbanística (UnB, 2009). Foi membro da Comissão de Arte Sacra da Arquidiocese de Fortaleza e participou do Grupo Paulista de Arquitetura e Arte (Mosteiro de São Bento | Pateo do Colégio). Desde 2007 atua em escritório próprio, o Stalero.
Clarissa Freitas de Andrade
Arquiteta e urbanista (Unifor, 2007), mestra em Psicologia (Unifor, 2014) e doutoranda em Arquitetura e Urbanismo (PPGAU UFRN, 2019).Membro do Grupo de Estudos Inter-Ações Pessoa-Ambiente e professora do CAU Unichristus.
A entrevista
A entrevista semi-estruturada, realizada em 2019, teve como objetivo ampliar conhecimentos práticos sobre a arquitetura fenomenológica e a arquitetura sacra, por meio do entendimento do desenvolvimento do projeto da Igreja do Ressuscitado que Passou pela Cruz.