português Entrevista do arquiteto português José Barbedo com o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, ocorrida em São Paulo, em 2018.
como citar
José Barbedo.
“A arquitetura como insurgência”.
Vitruvius entrevista, ed. 22.086. 2021.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/22.086/8108
Paulo Mendes da Rocha
Tudo começou a partir do desejo de regresso ao ponto de partida. Neste caso a São Paulo, onde tive as minhas primeiras conversas com Paulo Mendes da Rocha durante o meu estágio profissional. Agora, não eram já as suas obras de arquitetura que me interessava abordar, mas a descoberta das motivações que suscitaram o meu interesse por essas mesmas obras: Qual foi afinal, a “mola” que me levou até ali? Esta reflexão sobre o sentido mais profundo das nossas escolhas, conduziu-me muitas vezes a revisitar o aprendizado inicial que recolhi desse convívio tão marcante.
Do prazer que sempre tive nos nossos reencontros ocasionais ao longo destes 25 anos, em reler suas palavras ou revisitar suas obras através das publicações que, entretanto, se multiplicaram, foram surgindo na minha cabeça novos questionamentos, evidenciando uma tensão entre a sua coerência discursiva e as mudanças agudas que marcam o nosso tempo. Foi a partir destas contradições, no conflito latente entre o seu posicionamento intelectual e um Brasil e um mundo distópicos, que me fazia perguntar a mim mesmo de onde jorrava a força da sua mensagem, muito para além dos aspetos mais superficiais da sua arquitetura, cuja progressiva mediatização advinda do seu reconhecimento internacional, parece conduzir paradoxalmente, a um certo esgotamento e esvaziamento de sentido.
E é precisamente desse sentido do conjunto da obra enquanto discurso criativo que não nos podemos afastar, se queremos apreciar o seu alcance e relevância. Se a arquitetura comporta uma discussão e uma instabilidade do que se entende pelo seu conteúdo político, Paulo Mendes da Rocha parece ter construído toda a sua obra como um ato de confronto – uma oposição entre um estado de pensamento e uma certa realidade, entre a sua ação e o contexto que o ultrapassa. A arquitetura emerge na sua obra como um desafio e uma luta, e o seu sentido parece brotar de uma recusa contínua e uma insatisfação consciente perante as condições em que opera.
Este texto é uma tentativa de iluminar esses pontos de apoio fundamentais que norteiam o seu pensamento, procurando sublinhar aquilo que o distingue e nos incita a buscar o “essencial” na arquitetura e no discurso que gira à sua volta. E o que é então o “essencial”?
Sesc 24 de Maio, São Paulo. Arquiteto Paulo Mendes da Rocha
José Barbedo: O mote desta entrevista tem que ver com a constatação de que tem havido uma descontextualização da arquitetura, às vezes um certo esvaziamento do discurso arquitetônico das suas dimensões políticas. Mas eu cheguei a São Paulo e quando vi esta sua obra do Sesc (1), ela é precisamente o contrário, um manifesto de tudo o que tem defendido como visão de cidade aberta. Nesse aspeto, penso que a sua obra se distingue por esse conteúdo e essa afirmação política, perante uma visão de cidade que desafia sempre os seus limites.
Paulo Mendes da Rocha: Então, eu é que deveria te entrevistar. Porque você acha isso? Se você disser…é toda a graça da questão…a arquitetura também é um discurso. O que é que ela te diz? Não sou eu que tenho de explicar.
JB: Sim, no que ela diz está essa abertura que, no fundo, faz uma diferença vital no sentido em que cria oportunidades para qualquer cidadão na sua vida cotidiana. Então é uma arquitetura que marca a diferença, que marca a diferença na vida das pessoas. Mas a minha curiosidade é sobre a reflexão crítica que tem feito sobre os pressupostos do moderno, dessa visão de cidade moderna, perante também uma modernidade que num plano mais amplo, não aconteceu. Talvez seja afirmada em obras como esta, mas também se pode ler em certos detalhes uma certa frustração desta não acontecer (2). Então, o que é ser moderno neste novo milênio, no século 21?
PMR: Você sempre é moderno, você não pode ser antigo, como é que você faria? Teria que ser, o que se chama…um conservador, não é verdade? Estamos condenados a viver a vida como ela anda (3). Porém é preciso, dessas observações ao Sesc que foi inaugurado agora, não esquecer que não é o arquiteto que fez aquilo…a piscina, aquilo é uma encomenda do Sesc. Portanto você tem toda a razão quanto à questão política, mas não é uma política feita pelo arquiteto. Tem que ser solidária com o andamento…a política é desencadeada pela sociedade, é o povo que faz (4). Nesse ponto o Sesc merece todos os comprimentos, por uma questão: o programa é dele. Se o arquiteto fosse outro ele teria de realizar o mesmo programa. É o Sesc que encomenda biblioteca, sala de dança, ginástica, restaurante etc. Portanto, é nessa medida que é política, a política não é do arquiteto. O que você pode ressaltar como uma questão do arquiteto ou de qualquer perspectiva de você se formar, se educar, é a consciência de cumprir essa dimensão política dos feitos humanos.
JB: E essa consciência também tem se alterado, essa visão de modernidade, quando afirma que estamos condenados a ser modernos – no entanto hoje, por exemplo, no Brasil se vive uma afirmação das forças conservadoras, que parece estar mais presente no mundo, em certa medida. Então nós estamos sujeitos a essas tensões, mas também nossa visão do que é essa modernidade vai mudando… A minha pergunta começa por essa constatação que faço (e que gostaria que me confirmasse ou não) de que a arquitetura tem perdido algum papel nessa defesa de uma certa visão de cidade. E também em que medida a sua visão também mudou ao longo destes anos. Há muitas questões que ao longo das últimas décadas passaram a estar muito mais presentes. E há uma tomada de consciência relativamente a alguns aspectos que antes não estavam tanto na ordem do dia. E com isso a visão de modernidade mudou. O que é ser moderno hoje? O que será um projeto de modernidade para o Brasil hoje? É bem diferente do que era há cinquenta anos atrás…
PMR: Eu não penso muito assim. A questão da dimensão política do entendimento do que seria moderno, podia ter sentido no que seria oportuno. Se você considerar os quatrocentos anos de navegações que chegaram à América, ou seja o descobrimento da América, toda a América já foi inaugurada moderna. Porém como uma luta, uma contradição. Entre o conservadorismo, ou a especulação pura e simples – a escravatura, a retirada do ouro daqui etc. – ou a construção da América. Depende do seu ponto de vista. O que sem dúvida muda com os tempos são os recursos técnicos para aproximar ou tentar realizar esse projeto moderno. Mas o projeto em si, como ideologia e ideário, desejo humano, é sempre o mesmo.
Veja você, esse ano de 2017 que findou, foi o ano onde se comemorou o primeiro centenário da revolução soviética: os dez dias que abalaram o mundo. O que se prometia e o que se intentava nessa revolução era entre outras coisas, rever a exploração do homem pelo homem e a construção da paz. Isso não cessou, isso não mudou. O que muda é que hoje você tem de discutir em relação à construção da paz, o que ninguém esperava em 1917. Não havia a bomba atômica etc. Uma Coreia do Norte e uma Coreia do Sul... Então, o cenário muda, mas o projeto não muda.
notas
1 O Serviço Social do Comércio é uma instituição privada de interesse público que promove ações no campo da Educação, Saúde, Cultura e Desporto, suportado por uma rede de unidades de assistência e centros de atividades em milhares de municípios brasileiros.
2 Se o edifício do Sesc assume um partido muito claro de trazer a cidade para dentro de si mesmo, podemos observar que a entrada no seu interior se faz de modo controlado por uma das extremidades do piso térreo, sendo os restantes planos fechados para a rua com painéis que parecem evocar uma instalação provisória. Esta solução reflete as imposições programáticas de aplicação de dispositivos de controle que afunilam permeabilidades e continuidades no espaço urbano. A solução arquitetônica resulta assim da tensão entre condicionamentos impostos e a vontade do arquiteto, indiciada através de uma materialização formal cujas intenções precisam ser descodificadas.
3 Ao colocar em oposição a ideia de modernidade à figura do conservador, PMR enfatiza o sentido inconformista e prospetivo do projeto moderno, na qual as condições do presente são continuamente questionadas através dos seus interlocutores.
4 Sendo uma instituição privada, os recursos financeiros do Sesc advêm da retenção de uma percentagem dos impostos descontados dos salários dos empregados do comércio, destinados ao financiamento de investimentos que assegurem a prestação de serviços sociais à população.
Lago Paranoá, Brasília
José Barbedo: A visão não muda? Por exemplo, vou dar um caso concreto: a matriz energética brasileira. Aquilo que se pensava e aquilo que está como legado – estamos a falar de algo que se vai construindo ao longo do tempo e que quando se opta por certos caminhos é mais difícil alterar um determinado modelo, que é um modelo centralizado dependente de grandes infraestruturas de produção e distribuição. E hoje seria interessante para o Brasil pensar em outro modelo energético, mais descentralizado, mais voltado para a produção de energia a partir de fontes renováveis em vez de estar tão suportada em recursos fósseis (5).
Paulo Mendes da Rocha: Parece que sim. Não é? Ao que parece há muito tempo é assim. Seria preciso lutar com energia para que não fosse assim. É fácil você imaginar que o petróleo tirado da massa material do planeta, se transformar em gás posto para fora é um desastre – principalmente para ser usado no automóvel, que é um instrumento estúpido – ou seja, estamos permanentemente numa luta para a realização dos altos ideais do gênero humano. É nesse sentido que eu digo que não mudou nada. Você veja o quanto que se discutiu, o tempo que se perdeu, o dinheiro que se gastou no Brasil com a construção de Brasília, tão recente – não é o caso de se discutir arquitetura em questão – é caso de discutir a política que diz que o desenvolvimento do território nacional se dará com a mudança da capital: isso é uma visão colonialista, você pôr a pata lá para dominar e conquistar... Não é assim! A fundação de novas cidades no interland é fatal se você desenvolver a navegação fluvial, se você construir a paz inclusive se associando com outros países da América Latina para fazer projetos que só podem ser feitos em comum – a ligação do Atlântico com o Pacífico – e tudo isso vai fazer surgir necessariamente inúmeras novas cidades e não a ideia de mudar a capital. Então a questão da ideia que conduz às ações é iminentemente uma questão política. O que há em Brasília é uma política errada, errática. De você primeiro desmoralizar o Rio de Janeiro, tirando a capital de lá, e veja o que aconteceu. E segundo fundando uma nova capital que não tem desenho, não tem cultura, um cenário teatral.
JB: Mas, no entanto, Brasília foi pensada por um conjunto de pessoas, inclusive intelectuais brasileiros que estiveram envolvidos nesse projeto e que acreditavam, como um sonho de modernidade, como uma força impulsionadora.
PMR: Mas, tudo o que foi feito no nazismo (6) por exemplo, que é uma infâmia que ninguém discute, que quase acabou com a Europa nesse século 20. Também foi um engano muito aprovado por muitos intelectuais. O intelectual não é um sacerdote que o que diz é verdade. Justamente a graça do que chamam de política é pôr em discussão as ações do homem. E não aceitá-las como determinantes.
JB: Voltando então ao tema apontado, o investimento que foi feito no pré-sal (7).
PMR: É um engano. Um grande engano, com certeza. Nós tínhamos que sair para uma abjuração do transporte individual, do automóvel etc. Fala-se abertamente – o próprio Brasil tem um esboço de iniciativas já determinadas, até certo ponto sacramentadas, em relação à energia atômica para fins pacíficos (8), e coisas assim, entre outras, a energia eólica. Mas precisa ver que o moinho de vento é uma coisa meio antiga, você não acha? Portanto esse negócio da energia eólica e tudo isso, é como se você dissesse: há muito tempo que temos errado politicamente.
JB: Mas, na verdade, esses grandes projetos têm sido sempre legitimados como algo necessário à emancipação do povo brasileiro.
PMR: Você pode dizer que não. Você não precisa se submeter. Sempre teve muita gente que disse não. Nós tomamos aqui o exemplo de Brasília, como uma coisa americana e moderna – que do ponto de vista da arquitetura também nos interessa – porque a ocupação de largos espaços pela atividade humana, para amparar o trabalho humano, a vida humana, não exige a fundação de cidades artificiais. O que se espera é a transformação da própria natureza para amparar a vida humana. Porque a natureza por si não é habitável. Você tem que construir o habitado, não é verdade? E essa construção implica transporte por exemplo, você tem que optar entre transporte individual ou transporte público etc.
notas
5 Segundo o Relatório oficial de Minas de Energia de 2015, a oferta interna de energia no Brasil é altamente dependente de combustíveis fósseis, na qual o petróleo representa 39,5% e o carvão e gás contribuem com 27,5 %. As monoculturas de cana de açúcar, responsáveis por uma grande parte do desmatamento e perda de biodiversidade no Brasil, contribuem com cerca de 16%, a energia hidroelétrica 11 %, e as usinas nucleares cerca de 1,3%. No cômputo geral, a geração de energia eólica concentrada no Nordeste brasileiro é a migalha na mesa da matriz energética brasileira, e a energia solar nem figura nas estatísticas. No que respeita a investigação tecnológica, segundo um estudo do IPEA, o governo brasileiro investiu menos de 0,0013% do seu PIB anual na pesquisa de energias renováveis entre 1999 e 2012. Para uma crítica mais aprofundada deste tema ver: BARBEDO, José. O Brasil potência e a potência do Brasil. Correio do Porto, Porto, 23 ago. 2016 <https://bit.ly/3pcoXJZ>.
6 Não é por acaso que os momentos históricos evocados por Paulo Mendes da Rocha são os horrores do nazismo alemão e as promessas da revolução soviética – se o primeiro nos serve como exemplo da mais absoluta barbárie (mesmo que ultrapassados em larga escala pelos genocídios que ocorreram na América, também frequentemente presentes nas suas reflexões), o segundo nos leva a questionar como a tentativa de superação de regimes opressivos pode ser subvertido através da eliminação da liberdade dos indivíduos, seja pelo despotismo do poder do estado ou qualquer outro projeto hegemônico de dominação capitalista.
7 Para além das incertezas quanto à viabilidade económica de extração de petróleo em águas profundas face às recentes flutuações do seu valor de mercado, o debate público sobre a exploração do pré-sal tem sido marcado por egoísmos locais e nacionais. Quando em 2008 o barril de petróleo estava a USD$160, a a repartição de recursos entre os diferentes estados brasileiros estava no centro do debate doméstico. No Rio de Janeiro este debate foi extremamente disputado, reclamando as receitas provenientes do pré-sal na sua área marítima para os cofres do estado. Mais recentemente, a queda do preço do barril de petróleo pôs em causa as receitas federais provenientes do pré-sal previstas destinadas para investimento público em saúde e educação.
8 O Ministério de Minas e Energia Brasileiro anunciou em abril de 2017 a construção de quatro usinas nucleares até 2030, e de acordo com o seu plano de longo prazo, o número de unidades de produção deverá aumentar 500% até 2050 com a construção de outras oito usinas nucleares. Relativamente aos riscos ambientais associados à mineração e enriquecimento de urânio para exportação e produção de energia nuclear, é preocupante a ausência de um debate sério na sociedade brasileira sobre possíveis acidentes nucleares como o de Fukoshima, entre muitas outras catástrofes ambientais que poderiam ser aqui citadas. Para uma crítica do programa nuclear brasileiro ver: BARBEDO, José. A galinha dos ovos de ouro de Temer e o dilema nuclear brasileiro. Correio do Porto, Porto, 9 jul. 2016 <https://bit.ly/3uHYh4A>.
Ponto final, escultura de Elisa Bracher, Sesc 24 de Maio
José Barbedo: Hoje há uma consciência maior dessa questão da natureza enquanto suporte, o clima. Tudo é uma construção humana. Isso é algo novo, não tínhamos esse dado. Quando falamos que estamos numa nova era – não sei como se posiciona relativamente à ideia de uma nova era geológica, que estamos no Antropoceno, que o homem adquiriu e se assume como uma força transformadora capaz de alterar as nossas condições de vida, exatamente através desses processos de troca de matéria do subsolo para a biosfera... É um pouco como aquela escultura que vi agora no Sesc, do “Ponto final” (de Elisa Bracher). Então o Homem será os tirantes dessa peça, que perante o desequilíbrio que provoca terá que encontrar um novo equilíbrio para sustentar o planeta. Isso são dados novos para uma visão de modernidade?
Paulo Mendes da Rocha: Não são tão novos assim... Temos que nos preparar para esse andamento. E não é finito o conhecimento. Só que esse (conhecimento) não leva a nada que seja definitivo para garantir a existência humana no planeta. Nós podemos ser extintos como tantas espécies já foram, a qualquer momento. Inclusive por imprevisibilidades, por algo imprevisível que não tínhamos pensado ainda, que pode ocorrer.
JB: Então essa reflexão é que é nova. Pode não ser novo, mas… a nossa reflexão, talvez ainda não tenhamos tido tempo para refletir. No Brasil parece que se vive neste momento essa situação de que não houve ainda tempo para fazer uma reflexão, para que se vislumbre uma outra visão de futuro.
PMR: Você falou no Brasil não houve tempo e onde é que houve?
JB: Eu penso que no Brasil e no mundo.
PMR: Ah, já não é mais uma particularidade deste ou daquele país. As questões da condição humana hoje, para quem pensa, não tem nada que ver com este ou aquele. Somos habitantes de um pequeno planeta.
JB: Mas de certa forma existe um legado, um vislumbre de possibilidades no Brasil, de superar a sua própria matriz que está na gênese deste país enquanto algo que se formou sobre determinados movimentos de exploração, e que no fundo se refletem no seu modelo econômico (9).
PMR: Você faz uma crítica que mostra que não tem que ser assim necessariamente. É nessa variante que está a experimentação e a ideia de atuação política. Você parece que se desvia da ideia fundamental que é gozar da liberdade. Quando você quer dizer o que está determinado – não está nada determinado.
JB: Não está determinado, mas há uma constatação de que existem vetores de relutância.
PMR: Então, você tem que combatê-los. Ou não?
JB: Como? A questão que se coloca hoje, para as gerações mais jovens.
PMR: A única arma que se tem é o discurso. Você não vai querer comprar armas não sei aonde para combater à bala. Combate-se com discurso, escola, educação. Política se faz com palavras. Você vai dizer, não, se faz com ações. Mas a partir de palavras. Precisa combinar, precisa viver um regime onde se discutem as questões, amplamente. Tudo o que é dogma e dogmático não vai bem nesse quadro de raciocínio. Não lhe parece?
JB: Sim.
PMR: Tem que partir de uma liberdade total.
notas
9 As características do modelo econômico brasileiro, e sua dependência de um sistema de depredação de recursos naturais com profundas raízes históricas no patrimonialismo brasileiro, é analisado em outro artigo publicado pelo entrevistador. Ver: BARBEDO, José. A crise política brasileira e a pesca do bacalhau. Correio do Porto, Porto, 4 jun. 2016 <https://bit.ly/3pc37pQ>.
Saturno fotografado pela nave norte-americana Cassini, 2009
José Barbedo: Volto à questão inicial: o que é que mudou, como autorreflexão que nós podemos fazer...
Paulo Mendes da Rocha: Mas, eu te interrompo para dizer que não mudou nada. Há algumas novidades no quadro, mas a questão fundamental não é novidade. Que o dogma não é para ser aceite. Isso não é novidade. Como novidade? Só as religiões são muito antigas, a própria católica é recente, tem dois mil anos…
JB: Eu referia-me à reflexão sobre os riscos de determinadas tecnologias, que nos coloca numa posição nova.
PMR: Mas, você é livre, você não é obrigado a usar as tecnologias só porque elas existem. Aí que entra a política, o que você decide fazer.
JB: Mas, como…
PMR: Parece que você tem a preocupação de chegar a uma verdade final e definitiva. O conhecimento assim não tem graça enquanto uma coisa fluente. Eu sinto nas tuas perguntas, uma aflição para chegar a uma conclusão. Não vai chegar nunca. A não ser isso sim, isso não. Você tem que ter em relação às suas ações uma visão dialética de julgamento. Você pode nunca saber exatamente o que deve fazer. Entretanto pode ter a serenidade de saber o que é possível, e exatamente saber o que não fazer. Se um automóvel pesa 700 quilos você não pode enchê-lo de gasolina tirada do petróleo nas profundezas da Terra para enfiar lá dentro um cretino de 60 quilos para ser levado individualmente num engenho que ocupa 4 metros por 2 de largura, etc. etc. etc. Só o transporte público, que é um dos paradigmas de uma grande cidade, é um desiderato e um problema político – para desenvolver – e nunca o transporte individual. O meio de transporte individual com máquinas parece meio tolo. A graça de andar é melhor não perdê-la nunca. Não vejo nada que possa substituir. Um cara correndo com umas rodinhas no pé parece que não interessa.
JB: (risos) Sim.
PMR: Pode ter graça como esporte, como diversão, para jovens, para crianças, mas não é para ser meio de transporte, é uma coisa meio estúpida, me parece. Podemos julgar essas coisas. Mas você não vai proibir isso ou aquilo. Viver num regime democrático é algo que estamos aprendendo sempre a fazer. É uma experimentação que não vai cessar nunca. Outra coisa são fenômenos, já – deixamos acontecer como fenómenos, que não seriam propriamente fenômenos, fomos nós que fizemos, porém tem um desenvolvimento do quadro fenomenológico, que é a superpopulação do mundo. Se você constatar que o planeta não suporta uma superpopulação, você tem que se precaver (como estamos já fazendo) controlar…a multiplicação da espécie…muda completamente, a introdução de valores e horizontes no plano da moral, no plano da ética, no comportamento humano. A sexualidade mudou completamente as relações masculino-feminino…nós vivemos numa revolução. Quais são os paradigmas fundamentais? A preservação da espécie etc.
Os filósofos não fazem muito mal a ninguém – como reflexão, não como produtores de dogmas, não vamos entrar em contradição. Mas algumas reflexões são estimulantes. Um deles disse o seguinte: todos nós sabemos que a vida é curta, sabemos que vamos morrer. Entretanto sabemos também que não nascemos para morrer. Nascemos para continuar (10). Ora, continuar é dizer ao outro a sua experiência. É educação, discurso, política etc. – tá todo o bojo da questão. Nós não sabemos até hoje de onde viemos, nem o que somos nem porquê. E por outro lado, a natureza inteira é isso. Você não sabe porquê existe uma pequena abelha que se alimenta do néctar das flores, e que existe as variedades infinitas quase, de espécies vegetais, de espécies animais – quantas não existem mais e já existiram –, nada garante que nós sejamos eternos, mas enquanto podemos providenciar, podemos voltar aquela afirmação (não que eu queria ter razão, estou perguntando o que é que você acha) que não nascemos para morrer, nascemos para continuar? O discurso e o que ele quer dizer, portanto, a educação, é a base e a chave de tudo. Não uma educação que introduz a disciplina nas crianças, ao contrário. Uma educação que se propõe ao desenvolvimento da mente humana em relação à organização em sociedade sobre o seu próprio destino. Não é uma bobagem, é uma coisa para pensar.
JB: Eu acho isso fundamental e concordo plenamente. A Hannah Arendt falava muito nisso e eu por vezes tento lembrar essas mesmas palavras porque hoje parece que a autoestima do ser humano está tão em baixo que se criou um pouco a ideia de que o mundo seria melhor sem nós. Que vai também ao encontro dessas teorias malthusianas…
PMR: Você tem que imaginar, que o mistério é tão grande que é fácil imaginar – para manter esta nossa conversa que está muito agradável, muito interessante – que sem nós, o mundo não existiria. Sem nós! Existe porque nós estamos observando e dizendo, se não, o que é que é existir alguma coisa? É a nossa consciência ter uma visão daquilo. Seja um asteroide, seja os planetas, seja a incrível dimensão do espaço universal, as leis da mecânica celeste... Coisas que pouco a pouco vamos vendo, uma ou outra manifestação dessa incrível fenomenologia da natureza. Uma ou outra manifestação que é possível manipular: mecânica dos fluídos, e coisas assim, que já fazemos. Mas o horizonte é infinito. Não estamos aqui para resolver coisa nenhuma.
JB: Tem um filósofo português, Agostinho da Silva, que falava que nunca devemos resolver nada, devemos ir sempre adiando. Para não nos fecharmos ao futuro. Ele falava isso.
PMR: É. Você pode dizer hoje, nós falamos da descoberta da América, nessa altura imagina, uma pequena caravela de madeira flutuante, movida a vento nas velas, guiada pelas estrelas, fantástico aqueles homens. Equivale aos astronautas de hoje. Mas hoje um desses homens que está fora da estratosfera aqui, já vê o planeta inteiro. Uma coisa fantástica, como é que vê terra do outro lado, vê o planeta inteiro.
JB: Essa ideia…
PMR: Você pode dizer hoje tranquilamente – tranquilamente no sentido de dizer que não está falando um absurdo, não está querendo bancar o vidente do futuro – que o homem está experimentando a hipótese da expansão da vida humana no universo. Existe um engenho nosso nos anéis de Saturno que está enviando notícias etc. Existe uma estação orbital onde os homens podem passar um ano...
JB: Mas existe também uma ideia, que podemos falhar aqui na Terra e começar em algum outro lugar, isso não reforça a ideia de que o planeta é descartável? É uma ideia aqui que gostaria de discutir, que vem um pouco de volta a essa ideia de modernidade que está muito condicionada por essa visão do planeta azul. Essa ideia de que nós vivemos num globo terrestre esférico, e de nos identificarmos com essa ideia, e hoje estarmos a compreender que afinal apenas habitamos numa pele, nesse pequeno invólucro muito delicado que está à volta dessa esfera. E isso até é muito difícil de representar o que é esse mundo. Já não é um globo, já não é um planeta, é apenas uma película, uma pele. Isso talvez nos dê uma outra visão do que é ser moderno. Talvez seja um grande erro pensar que podemos ir daqui para outros planetas, ou pelo menos esse pensamento tem sido uma forma de legitimar o desastre que se tem feito aqui na Terra. São questões que eu coloco, algo que pode alterar a forma como nós vemos, essa própria ideia de expansão... Será que ela é benéfica ou ela está a contribuir também para a nossa autodestruição?
PMR: Não tenho a menor ideia. Porque é que você acha que deveria ter uma ideia? Eu só acho um absurdo, não tinha pensado nisso, que a hipótese de expansão da vida humana no universo – com providências humanas – não significa que se vá abandonar a Terra. Expandir é habitar novos espaços, além da própria Terra.
JB: Mas estamos perante um horizonte novo em que as condições de vida no planeta, podem realmente, num futuro relativamente próximo, não ser mais viáveis para a vida humana. Portanto, neste momento os esforços que estão a ser feitos, inclusive por empresas privadas, é de ser fácil construir barcos salva-vidas para algumas pessoas que terão a hipótese de ir para outros planetas. Isso é uma realidade. Então, essa ideia de expansão, que também está ligada a uma ideia de crescimento, e que também está ligada a uma ideia de progresso, podem no fundo ser ideias e ideais que legitimam os erros que têm marcado a nossa história.
PMR: Legitimam os erros?
JB: Sim, A ideia de progresso, a ideia de que há um A para um B e o A é melhor que o A.
PMR: Mas quem falou em progresso é você. Eu não falei em progresso. Andamento não é progresso. Essa visão de progresso depende muito do seu ponto de vista.
JB: Eu gostaria de saber a sua opinião, se essa ideia de progresso ainda é válida, se o Brasil não precisa de novas bandeiras?
PMR: Eu acho que a ideia de progresso nunca foi válida. Crescimento, progresso, são palavras muito ligadas a uma perspectiva capitalista: lucro, sucesso... Uma empresa progride.
JB: No entanto a ideia de sucesso é válida, como condição essencial à continuação da vida, algo necessário à vida. Falo no seu sentido mais prolífico, de um sucesso mais feito de ciclos talvez.
PMR: O sucesso de uma experiência científica por exemplo, pode-se usar a expressão. Mas esse mesmo sucesso tem matado muita gente por exemplo. A exploração da imagem, você já viu isso. A maioria dos grandes sucessos da televisão, da música popular, acabam se matando, drogados etc. Essa (Amy) Winehouse é um exemplo muito recente, de uma criatura maravilhosa que se complicou por excesso de exposição, por excesso de sucesso. Portanto as palavras podem às vezes dizer coisas que não é muito legítimo aceitar. Não é esse o significado mais vivo, mais frutífero da palavra. Você faz por exemplo um experimento de uma perspectiva do que quer provar e consegue, diante de um grupo científico, pode dizer que sua experiência teve sucesso. Você demonstrou que a água aquecida evapora e ocupa um espaço maior etc. em ambiente de laboratório, e chama aquilo de sucesso. Mas você fabricar, imaginar já, uma nova forma de fabricar os novos veículos que vão levar o homem para outros (espaços), isso é uma estupidez. É uma visão puramente de andamento dos ideais que parecem retrógrados do sistema de fabricar para vender e ter lucro – o que se chama o estrito capitalismo. No imediatismo, a gente mede o lucro em dinheiro como sucesso. Portanto é preciso ver como você está usando as palavras. As palavras – é preciso ter muito cuidado com elas. Quando o homem disse: a Terra é azul, não é para você pensar que a Terra tem que ser azul ou verde. O que ele disse, que foi notado, é que ele estava vendo a Terra inteira (11). Ele quis dizer que estava a ver o planeta todo.
notas
10 Na reflexão Arendtiana de que não nascemos para morrer, mas para continuar, somos chamados a agir com absoluta liberdade no discernimento do que é oportuno fazer, embasados no conhecimento adquirido através da nossa experiência prática. Pensar nossa acção com base na continuidade da vida e do conhecimento permite-nos afirmar as realizações humanas, incluindo a arquitetura, como um testemunho de consciência do ser no mundo, como uma expressão da vontade subjetiva do indivíduo não alienado (ARENDT, Hannah. Vita Activa. Stuttgart, Kohlhammer, 1960; ARENDT, Hannah. On Violence. Londres, Allen Lane, 1970).
11 Ao evocar o sonho mais fantástico do homem moderno, de escapar ao aprisionamento do planeta, não é tanto a ideia de expansão associada à conquista de novos territórios que lhe interessa verdadeiramente, e sim a conquista de um ponto de vista fora da terra que importa ao modo como o arquiteto lê o mundo.
Península ibérica vista à noite de satélite
Paulo Mendes da Rocha: A dimensão artística das coisas que o homem faz precisa ser compreendida. Porque você emprega às vezes a palavra como um instrumento de sedução para atrair o outro para aquilo que você quer dizer. Mas não é estritamente aquilo que você quer dizer, o que as palavras significam. Você usa as palavras a que se chamam metáforas, ou, visão lírica e poética do discurso. Então quando por exemplo, esse astronauta, que foi num dos primeiros voos – eu acho até que foi no primeiro voo – esse mesmo que disse que a terra é azul – ele foi levado lá para fora 30 ou 40 anos depois, estava com 70 anos. Acontece que hoje já é mais possível você prever como seria o tempo, enfim, sabia-se que ele passaria no zênite de Camberra justamente no momento em que aquela parte do mundo estava às escuras e combinou-se então que Camberra inteira acenderia as suas luzes. Isso quer dizer o seguinte: combinaram que todas as casas acenderiam todas as suas luzes, todas as ruas acenderiam todas as suas lâmpadas, os automóveis seriam postos na rua e todos acenderiam os seus faróis, faria-se a produção máxima possível de luz artificial. Porque as luzes da cidade já seriam visíveis, mas aquilo brilharia estupendamente, justamente quando a nave entrasse no zênite da cidade. E ele foi avisado para olhar, a atmosfera estaria límpida, era previsto pelos sistemas que são cada vez mais competentes para isso, não é? E de fato deu-se isso e ele exclamou – todos ouviram aqui no mesmo momento na televisão: “A Terra agora possui luz própria”. É evidente que ele não queria dizer isso exatamente. É um modo de explicar a magnitude, a emoção de ver aquilo. Ele sabia que era luz artificial, mas ele disse isso como uma imagem poética, lírica, com dimensão artística enquanto sua ação. Como quem dança ou como quem fala no teatro: “agora a Terra possui luz própria”. Então você está entendendo o que é verdade, o que é metáfora, o que é vontade de dizer. Não é para discutir se a Terra é azul ou não.
José Barbedo: Mas aí está um exemplo desse fascínio que marcou o século 20, pelas capacidades tecnológicas, inclusive de produzir energia, até produzir energia nuclear, possibilidades que se colocaram e que pareciam inaugurar um horizonte de esperança…
PMR: Na minha visão inaugurar já é um erro seu – raciocinar como inaugurar. Inaugurado estava há muito tempo. A perspectiva do conhecimento que descobre o conhecimento, e que, cada vez que você conhece percebe quanto mais não conhece. Não foi inaugurado quando aparecemos, não tem data de inauguração.
JB: Mas existem revoluções tecnológicas, a própria industrialização...
PMR: A descoberta do fogo foi uma revolução tecnológica imensa.
JB: Naturalmente, mas a industrialização e a mecanização também. E nós neste momento estamos a compreender os efeitos colaterais dessas possibilidades, e os riscos que elas comportam. E por isso, talvez todo esse fascínio por determinadas possibilidades hoje já não encanta mais. A própria produção artística no início do século 20, havia um elogio à velocidade e tudo isso contribuiu para que o homem acreditasse em possibilidades de aceleração de processos de desenvolvimento que hoje vemos que foram catastróficas. Por exemplo, na segunda metade do século 20, o que a mecanização de determinados processos resultou em perdas de biodiversidade, destruição de wetlands e desmatamento de florestas, foi absolutamente inédito. Portanto nós estamos perante uma percepção desses efeitos perversos que antes não tínhamos consciência. Por isso é que eu falo de uma revisão do que é ser moderno, e do que é realmente benéfico e como é que isso se traduz numa arquitetura que realmente possa nos ajudar a vislumbrar uma outra forma de vida que seja mais compatível com o imperativo de continuarmos aqui na Terra.
PMR: Eu estou de pleno acordo com você. Quer dizer que estamos nas vésperas de inventar alguma coisa, é isso?
JB: No fundo essa é a minha pergunta: o que é que imagina que será essa casa no futuro? Perante a realidade que temos hoje. No Brasil, e podíamos falar de outras realidades, mas, no Brasil também há inúmeras realidades muito diversas, mas se falarmos de habitação, há uma carência de 7 milhões de unidades de habitação (12). Portanto, talvez a forma como o arquiteto pensava poder resolver essa questão – não querendo resolver, mas enfrentar esse problema – talvez hoje procure outras formas de enfrentar o problema que não seja apenas a produção de edifícios, como um produto acabado entregue a uma família que vai para lá viver, embora em muitos casos, esta seja obviamente a melhor solução. Mas perante a escala dos desafios que existem hoje talvez não seja a única via. Como a questão do acesso à terra urbana, que permite às pessoas viver próximo de oportunidades de trabalho, de educação, saúde, mas que não implica necessariamente a entrega das chaves de um apartamento que tem a tal máquina de lavar, fogão etc. Às vezes as pessoas só precisam de um pouco de terra, mas esta ideia pode ser um pouco retrógrada aos olhos de quem imagina que o direito à habitação é universal e portanto nós deveríamos ser capazes de prover essas necessidades enquanto sociedade solidária.
PMR: Então, devemos ser capazes. Se você disse que devemos ser capazes é porque você sabe como seriam algumas hipóteses. Senão você não afirmaria isso. Você não diria que devíamos ser capazes se soubesse que somos incapazes.
JB: Para sermos capazes temos que também começar por fazer bons diagnósticos. De perceber como é que as coisas funcionam. A questão da especulação do valor do solo urbano, por exemplo.
PMR: A vida tem que fluir, não tem que funcionar. A palavra funcionar na vida urbana para mim não serve. E para fluir, uma série de horizontes devem ser constatados. O não crescimento populacional, que é uma questão esperada, dentro de horizontes razoáveis, pode levar você a dizer que haveria habitação para todos já construídas aí. Se você considerar a técnica que o homem já adotou muitas vezes, da transformação do que se chama ocupação – nova ocupação de construções já existentes – você não teria problema de habitação, acho que nenhum. O que há de apartamentos aí de 300 m2, de 400 m2, até de 100 m2 que já são dois de 50 m2… Eu não sou favorável a habitações de 30 m2, não é o caso, me parece que ninguém vive bem. Outra questão é a ideia de propriedade privada, você não precisa de ser proprietário de sua casa. Aqui existe um partido político que lançou uma campanha a seu favor, para seduzir: “Minha casa minha vida”. Eu podia ver isso como uma campanha negativa porque inteligente é dizer: “Mas você quer que eu dedique a minha vida toda para obter uma casa? Me endividar 20 anos, isso é um desastre! A vida é uma coisa mais extraordinária, mais esperançosa, mais exuberante do que uma casa. Aí você faz uma porcaria de duas águas, que juntam como em casinhas de cachorro, milhares num arrabalde da cidade, e faz um cara se sacrificar por 20 anos... Uma estupidez. Então, política. Políticas erráticas para enfrentar um problema que, ele existe. E quando você afirma como verdade o problema – isso é o que se chama demagogia – você monta na verdade e diz uma série de estupidez que te leva a ter sucesso em eleições e coisas assim (13).
Era preciso ouvir com tranquilidade quem pensa serenamente e tomar principalmente medidas no coletivo, do grupo que discute as questões. Existem os poderes democráticos, representação popular... Você pode chegar a conclusões interessantíssimas, inclusive porque a questão da habitação, enquanto uma exigência no universo das construções, que parece que é da competência dos arquitetos e que tem particular interesse discutir enquanto arquiteto: não implica em propriedade do solo, é preciso transformar o que já está aí. E isso também não é uma novidade, eu não gosto da ideia de novidade. Não há novidade nenhuma se você refletir, como eu gosto de pensar, como uma razão política da questão. Porque se você imaginar um dos museus mais falados e notáveis do mundo, já há cinquenta anos atrás, onde está a Vitória de Samotrácia, o sorriso da Gioconda, o Louvre. Mas o Louvre não era o palácio do Rei, dos anexos que ele fez para as suas amantes? Como é que é museu agora? Isso não é novidade. A Prefeitura de São Paulo sabe onde fica hoje?
JB: Deve estar espalhada…
PMR: Não, a sede onde fica o Prefeito. Está na Praça do Patriarca. No edifício chamado Edifício Matarazzo, que foi construído para ser os escritórios das indústrias reunidas Francisco Matarazzo. Hoje é sede da prefeitura. Ou seja, há muito tempo que se conhece o que se chama de nova ocupação, daquilo que já existia antes. Sob esse aspecto, você poderia dizer, numa atitude política – ainda que se faça um levantamento para chegar a outros números, que não necessariamente diriam que a questão está resolvida, mas que não poria a demanda de habitação popular nos níveis que está se pondo por demagogia compreende? – não faltaria habitação, estão aí. Principalmente muito bem localizados, pela genealogia histórica da própria cidade, esses edifícios que se destinaria a nova ocupação, são muito bem situados em relação a rede de transporte público, à rede de distribuição de serviços domésticos, das escolas, de tudo o mais que faz a casa do homem ser muito mais que quarto, sala, cozinha e banheiro. A casa verdadeira do homem é a cidade, na sua complexidade total.
JB: Isso está absolutamente certo, os recursos estão aí, inclusive as habitações já prontas, só precisamos cuidar do que está já construído e que está muitas vezes ao abandono. Mas existe uma certa forma de fazer, um processo de reprodução…
PMR: Você está pensando nos aspectos formais da arquitetura?
JB: Não. Refiro-me a uma certa tecnologia política que existe para que perdure uma contínua reprodução das tais habitações precárias sem qualidade nenhuma. Existe uma forma, que está instalada, de reprodução do capital, que é contrária a esse uso econômico daquilo que temos ao nosso dispor. Se existisse a possibilidade real, hoje, de colocar à disposição das pessoas os tais 7 milhões de habitações, isso detonava completamente o mercado imobiliário. É por esses processos especulativos…
PMR: Você está ao serviço do mercado ou está discutindo os ideais humanos?
JB: Eu estou reconhecendo que existe um problema, no qual os arquitetos, pelos meios em que se movem, normalmente estão ao serviço desses interesses, muito mais do que representando anseios coletivos.
PMR: Quer dizer que não deviam estar, ao serviço desses ideais mercantilistas. Eu que te pergunto qual é a sua opinião, afinal de contas o jovem é você, não sou eu. Se você não souber, estamos fritos. Porque eu, estou saindo, você é que está chegando. Você tem que se obrigar a saber. A dizer eu sei, ou melhor eu quero. Isso é a manifestação da vontade. Um ato político.
notas
12 Este número refere-se a dados de 2010, de acordo com o relatório da Fundação João Pinheiro, que contabilizou um déficit habitacional de quase 6 940 000 unidades, com cerca de 2 milhões de unidades em falta nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro – 1.495 e 515, respectivamente (FJP. Déficit habitacional no Brasil 2009. Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro / Centro de Estatística e Informações, 2012).
13 A crítica ao reacionarismo das políticas de habitação popular mostra o posicionamento de Paulo Mendes da Rocha face à problemática habitacional, evidenciando a necessidade de uma renovação da cidade a partir de mudanças estruturais que permitam uma re-equação do problema da habitação no seu todo. Embora o direito à habitação seja considerado um direito constitucional inalienável reconhecido pela lei brasileira desde 2000 (PIOLI, Maria Sulema M. de Budin; SALLES, Cintia Philippi; PHILIPPI JR, Arlindo; CASTRO, Mary Lobas de. Estatuto da Cidade – o desenvolvimento urbano e o direito à habitação. In: Anais do XXVIII Congreso Interamericano de Ingeniería Sanitaria y Ambiental. Cancún, Asociación Interamericana de Ingeniería Sanitaria y Ambiental, 2002) e reafirmado pelo Estatuto da Cidade, as políticas nacionais de habitação no Brasil tem sido tratadas sem consideração dos riscos ambientais e problemas sociais associados a programas assistencialistas como o programa referido “Minha Casa Minha Vida”. Para uma avaliação dos programas habitacionais no contexto brasileiro ver: BONDUKI, Nabil. Do Projeto Moradia ao Programa Minha Casa Minha Vida. Teoria e Debate, n. 82, São Paulo, 2009, p. 8-14; NASCIMENTO NETO, Paulo; MOREIRA, Tomás Antonio; SCHUSSEL, Zulma das Graças Lucena. Conceitos divergentes para políticas convergentes – descompassos entre a Política Nacional de Habitação e o Programa Minha Casa, Minha Vida. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 14, n. 1, São Paulo, mai. 2012, p. 85-98 <https://rbeur.anpur.org.br/rbeur/article/view/1907/1870>; SANTO AMORE, Caio, SHIMBO, Lúcia Zanin; RUFINO, Maria Beatriz Cruz (Org.). Minha casa... e a cidade? Avaliação do programa Minha Casa Minha Vida em seis estados brasileiros. Rio de Janeiro, Letra Capital, 2015.
Aurora boreal fotografada de estação espacial internacional
José Barbedo: Para mim é uma constatação, que os arquitetos estão ao serviço do capital.
Paulo Mendes da Rocha: Não, eu não estou falando de simples constatação. Que posição você vai tomar.
JB: Exatamente. Esse posicionamento é muito importante. Até pelas tecnologias que promovemos através da nossa arquitetura.
PMR: O agente é você. Você se põe muito de fora, como quem quer saber.
JB: Não, o que eu estou a questionar é como enfrentar determinados problemas.
PMR: Então você tem que escrever. Me parece, pela riqueza das suas indagações, que está na hora de você experimentar responder. Agora você tem que ser o que sabe, é você que tem que saber.
JB: Saber e ser. Nós somos, antes de qualquer outra coisa, somos.
PMR: Então seja. Na maioria das considerações – para não chamar de respostas determinadas, mas de considerações interessantes a partir das suas indagações – é você mesmo que tem que elaborar. Consciente que outros já fizeram isso, toda a biblioteca está aí. As ideias estão aí há muito tempo. Se o homem não tivesse consciência disso não inventava as línguas. Não falava. Não procurava se transmitir e transmitir suas ideias para o outro como conseguiu. Em tantas línguas, só isso! O planeta é muito pequeno para hoje em dia, com a comunicação que temos, possuir várias línguas, haveríamos de ter uma língua só. As informações serão gigantescas. Essa ideia de moderno, modernismo é muito ultrapassada (14). Nós somos os vivos ao mesmo tempo – curto – que não nascemos para morrer, mas para continuar. Essa é a questão. Não é uma questão que está resolvida e nunca estará resolvida. É a nossa existência posta sempre em questão. Não é para concluir, é para agir. Experimentando. Nunca vai ter certeza de nada. A descoberta do campo magnético, da existência do campo magnético para a eletricidade como ela é hoje, o caminho foi longo. O homem experimenta. Agora estamos comemorando os dez dias que abalaram o mundo, é preciso considerar. Não se sabe exatamente como é, mas se sabe como não é. Isso não dá certo. Isso não foi feito para.
JB: Sabemos o que não dá certo, não sabemos ainda o que poderá dar certo...
PMR: Aí entra o campo da experimentação.
notas
14 Podemos aqui constatar os diferentes sentidos aos quais PMR se refere à modernidade: se a dissolução dos pressupostos instituídos na modernidade industrial refletem premissas ultrapassadas, isso não significa que os ideais que estão na origem do projeto moderno se tenham tornado obsoletos. E se a modernidade jamais aconteceu como sustenta Bruno Latour, a pós-modernidade é um conceito problemático, no qual o prefixo “pós” obscurece mais do que esclarece, no sentido em que pretendia assinalar um desaparecimento sem precisar no que nos tornamos (LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. São Paulo, Editora 34, 1994. Ver também: LIPOVETSKY, Gilles; CHARLES, Sébastien. Os tempos hipermodernos. Lisboa, Edições 70, 2014). O reconhecimento de diferentes sentidos históricos da modernidade pode ser melhor compreendido através do discernimento entre princípios e instituições da sociedade moderna – segundo Ulrich Beck, vivemos hoje uma segunda modernidade, a que ele chama de modernidade reflexiva – desta perspectiva a modernidade impulsionada pela industrialização, da qual o modernismo emergiu, foi ultrapassada pela sua autocrítica (BECK, Ulrich. World at Risk. Cambridge, Polity Press, 2009). O que acontece na modernidade reflexiva é uma reformulação permanente das questões que estão na sua origem, onde os desafios que estas colocam se ampliam no reconhecimento de problemas éticos e ecológicos decorrentes de novos riscos globais.
Baía de Montevidéu, maquete. Arquiteto Paulo Mendes da Rocha
O toque do telefone do escritório precipitou o fim da conversa. De relance foi-me dito ainda, que o mais jovem não tem o direito de indagar o mais velho sobre certas questões para as quais buscamos, por vezes, respostas impossíveis: “Sobre essas questões, nós não temos idade, elas são constantes da existência humana”.
Talvez eu arriscasse responder então, que o essencial será reconhecer que os termos fundamentais do confronto entre o homem e o mundo são sempre os mesmos. Buscar o “essencial” na arquitetura, passa por não escamotear esses termos fundamentais, que permanecem como uma luta sem repouso entre a vontade do homem e a realidade que o esmaga. Nesta tensão que resulta da consciência do homem no mundo, não há lugar para a renúncia a uma luta obstinada contra a gravidade, a opressão, a injustiça e a violência, já que a sua resignação põe em causa a sua própria existência.
A contribuição fundamental de Paulo Mendes da Rocha neste contexto mais amplo, está no enquadramento ontológico da arquitetura, que pode ser lida a partir da identificação dos seus elementos constitutivos essenciais: a paz como condição básica das construções humanas, um sentido espacial da justiça como busca da dimensão justa das coisas (enquanto problema de proporção do ser no mundo), e a liberdade como fundação primordial do gesto criativo.
O discernimento destes princípios é bastante central no seu discurso, que se pode observar em permanente relação dialética com uma conceção dinâmica do conhecimento, rejeitando qualquer tipo de apriorismo determinista. É a partir desta dialética que a sua obra pode ser lida como um contributo para reencontrar um sentido e uma profundidade da arquitetura, enquanto discurso ético-prático ancorado na realidade do seu tempo, a que Paulo Mendes gosta de chamar de “andamento da vida”. Este sentido não corresponde a nenhum código moral prescritivo, mas antes ao reconhecimento da justa medida em que o arquiteto se posiciona perante a sua circunstância, no confronto permanente com os constrangimentos estruturais que condicionam a sua ação.
No extenso percurso profissional de Paulo Mendes da Rocha, toda a sua obra é marcada por uma visão ampla dos horizontes humanos, traduzida em representações tectónicas que resultam em arquitetura fluente para falar da cidade desejada. É esta força ilocucionária da sua arquitetura que constitui uma das suas marcas distintivas, e que ainda carece de um exame mais profundo. Nas obras mais ilustrativas do seu pensamento, as transformações que cada arquitetura indicia, podem ser interpretadas a partir da metalinguagem sedimentada na coisa construída, através da qual a ideia dessa coisa se assume como uma espécie de metáfora política: é no que sua arquitetura diz sobre o processo e o modo de fazer a cidade, que se pode encontrar a macroestrutura decisiva do seu sentido. Esta é uma tarefa para a investigação teórica em torno da sua obra, que poderá contribuir para uma melhor compreensão desta no que respeita às possibilidades da sua descodificação formal e significado.
Entre outros aspetos menos compreendidos, as suas propostas para a cidade do Tietê carecem de um melhor entendimento pela crítica, como é equivocadamente feita na leitura de um dos comentadores da sua obra (15). Não se trata como este crítico afirma, de um projeto técnico tendente a se reduzir a uma solução de logística, mas muito mais que isso, trata-se de um gesto político – um gesto que não se assemelha à mera repetição de erros do colonialismo, como Paulo Mendes da Rocha observa criticamente sobre a construção de Brasília. Ao invés de uma visão determinista que imagina a cidade ideal como um produto acabado na sua monumentalidade simbólica, a proposta da cidade do Tietê resulta de uma leitura estratégica da geografia que pretende tocar o território com a economia de meios necessária para acolher e servir de suporte a um conjunto de fluxos espaciais mapeados pelo arquiteto num contexto muito mais alargado de dimensão continental.
Uma constante na arquitetura de Paulo Mendes da Rocha pode ser observada na forma como esta exprime simultaneamente uma afirmação das possibilidades de ação do arquiteto, e uma resposta aos constrangimentos práticos que limitam essa mesma ação. A expressão desta contradição parece ter um papel enquanto método de projeto, que também resulta num determinado testemunho material e simbólico capaz de pôr em evidência as tensões próprias da constante dinâmica de transformação do mundo. Neste sentido, é no resgate da noção do poder simbólico da arquitetura enquanto discurso transversal sobre as possibilidades do presente, em oposição a uma restrição da prática do arquiteto ao seu campo disciplinar, que se encontra um dos traços mais definidores do legado de Paulo Mendes da Rocha. A afirmação destas possibilidades encontra testemunho tanto nas suas obras mais iconográficas, expresso na poética subjetiva do grande gesto, como de forma mais discreta nas suas últimas grandes obras públicas, através das respostas que formula aos problemas ditados por um determinado enunciado ou programa.
É nesta transversalidade necessária à realização dessa potência da arquitetura, que Paulo Mendes da Rocha afirma que é preciso gozar de uma liberdade total para a realização da autonomia de pensamento necessária ao ato criativo – no plano mental que considera ser o único espaço verdadeiramente privado, onde essa liberdade no seu sentido mais radical, é materializada em intenção lúcida, ou seja, intenção que não ignora os limites práticos de atuação possível num determinado contexto. E é dessa intenção que nasce do entendimento da sua condição concreta, que permite ao arquiteto projetar a semente de algo novo no mundo. E se cada semente depende das condições que esta encontra no chão da história, ela representa também, como Paulo Mendes da Rocha enfatiza, um “nascer para continuar” sempre renovado no tempo e no espaço onde o problema ético da arquitetura se joga. É neste sentido de continuidade que podemos entender a arquitetura enquanto campo ampliado de ação coletiva, com base no reconhecimento de valores fundados em elementos constitutivos essenciais do ser humano, que Paulo Mendes da Rocha generosamente nos ensina a ver.
notas
15 PISANI, Daniele. Paulo Mendes da Rocha – obra completa. Barcelona, Gustavo Gili, 2013.
Capela São Pedro, Campos do Jordão. Arquiteto Paulo Mendes da Rocha
Paulo Mendes da Rocha
Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) é um dos mais influentes arquitetos brasileiros, distinguido com o prémio Mies Van der Rohe (1999 e 2000) o prémio Pritzker (2006), o Leão de Ouro da Bienal de Veneza (2016) o Praemium Imperiale da Associação de Arte do Japão (2016) e a Medalha de Ouro Real do Royal Institute of British Architects (2017), entre outras distinções nacionais e internacionais.
José Barbedo
José Barbedo (1974) realizou o seu estágio profissional com Paulo Mendes da Rocha em São Paulo em 1995 e 1996. É arquiteto (FAUP, 1998) e Urbanista (FEUP, 2007), Doutorado em Engenharia Civil na área de Meio Ambiente (COPPE/UFRJ, 2016). Ao longo das últimas duas décadas tem desenvolvido o seu percurso profissional no Brasil, Índia, Angola, Reino Unido, Líbia e Portugal.
Entrevista
A entrevista ocorreu no escritório de Paulo Mendes da Rocha, no prédio do Instituto dos Arquitetos Brasileiros, em São Paulo, a 12 de janeiro de 2018.
Bibliografia
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