português O roteirista e cineasta Kleber Mendonça Filho é entrevistado por Abilio Guerra, Caio Guerra, Magaly Corgosinho, Maeve Jinkings e Roberto Gervitz no primeiro episódio do segundo ano do programa Transa Marieta.
como citar
Abilio Guerra.
“Kleber Mendonça Filho, o arquivador de emoções”.
Vitruvius entrevista, ed. 22.086. 2021.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/22.086/8077
Maeve Jinkings, Roberto Gervitz, Helena Guerra, Caio Guerra, Magaly Corgosinho, Abilio Guerra e Kleber Mendonça Filho
O cineasta Kleber Mendonça Filho é autor de três longas-metragens ficcionais de grande sucesso de público e de crítica – O som ao redor, de 2013; Aquarius, de 2016; Bacurau, dirigido ao lado de Juliano Dornelles, de 2019 –, feito incomum para um diretor de apenas 52 anos. Nascido e criado em Recife, Mendonça Filho está longe de ser um fenômeno fortuito. Inserido em um contexto de excelência em se tratando da arte cinematográfica, são muitos os pares e filmes locais que têm se destacado nas últimas décadas, casos de Lírio Ferreira (Baile perfumado, 1997, com o paraibano Paulo Caldas), Cláudio Assis (Amarelo manga, 2002; Febre do rato, 2011), Marcelo Gomes (Cinema, aspirinas e urubus, 2005; Viajo porque preciso, volto porque te amo, 2009, ao lado do cearense Karim Aïnouz), Daniel Aragão (Boa sorte, meuamor, 2012), Hilton Lacerda (Tatuagem, 2013), Gabriel Mascaro (Ventos de agosto, 2014; Boi neon, 2015), Leonardo Lacca (Permanência, 2015), Camilo Cavalcante (A história da eternidade, 2015).
O curioso dessa experiência é o entrelaçamento dos trabalhos, que pode ser exemplificado pela atuação de Juliano Dornelles, que além da codireção de Bacurau assina a direção de arte dos outros dois longas de Kleber Mendonça, e dos acima citados filmes de Leonardo Lacca e Daniel Aragão. Outro bom exemplo é o excelente ator Irandhir Santos, pernambucano de Barreiros, que atua em A História da eternidade; Cinema, aspirinas e urubus; Febredo rato; Tatuagem; Viajo porque preciso, volto porque te amo, além de participações importantes em Aquarius e O som ao redor. O cruzamento de experiências do coletivo de recifenses dedicados ao cinema se vê na própria carreira de Kleber Mendonça Filho, que vai se assentando em posições diferentes ao longo do tempo – público, crítico, roteirista e diretor.
Nesse universo artístico fabuloso, ao mesmo tempo cosmopolita e enraizado na cena local, parece ecoar a obra “Eu vi o mundo... Ele começava no Recife”, mural modernista pintado pelo pernambucano Cícero Dias nos anos 1930. Esse recifecentrismo estará presente em futuro documentário, com roteiro ainda em elaboração, onde Kleber Mendonça convocará a lembrança do Recife de sua infância e adolescência. Ocupa lugar especial em suas lembranças o Cine Art Palacio, espaço prazeroso das sessões de cinema nos finais de semana. Durante a pesquisa inicial, o roteirista descobriu Rino Levi, autor do edifício construído em 1937. O conjunto da obra do arquiteto paulista foi mérito de pesquisa iconográfica de Abilio Guerra, que resultou em livro publicado em 2001. Foram tais circunstâncias pessoais que colocaram em contato entrevistado e um dos entrevistadores do primeiro episódio da segunda temporada do programa Transa Marieta.
A presença do cineasta recifense no portal Vitruvius está longe de ser uma novidade. O papel estratégico ocupado por edifícios e ambientes urbanos em suas películas explica o interesse causado por sua obra dentre arquitetos e urbanistas e justifica os textos que observam sua obra a partir dessa área do conhecimento. Roberto Ghione, por exemplo, comenta a banalidade da vida contemporânea, onde o enclausuramento das pessoas se dá nos âmbitos psicológico e urbanístico:
“O final, a vingança de um fato antigo, rebarbas de uma época de coronelismo que ainda perdura, retrata um desenlace tão banal quanto as vivências e arquiteturas exibidas. O som da morte é o mesmo som da festa. Tudo se mistura e confunde atrás das grades da vida cotidiana: a violência implícita, a especulação, o consumismo, o medo, o tédio, o racismo, as ameaças, a inveja, a arrogância, a delinquência. Poucas manifestações de felicidade, muito estresse de uma vida pouco merecida nos espaços desolados e pouco estimulantes que oferece a cidade ao redor” (1).
Na mesma revista Resenhas Online, outros dois autores tratam do mesmo filme: João Paulo Campos Peixoto vê a história como denúncia da sobrevivência arcaica do coronelismo, que se materializa na dinâmica urbana e social não só recifense, mas brasileira (2); em seu texto, Caio Sens acompanha a estrutura do roteiro e a sagacidade com que é materializado nas cenas, dentre elas a sequência encenada no engenho do patriarca da família, onde a decadência das instalações corresponde à derrocada do antigo poder rural (3). Na revista Minha Cidade, Carlos Eduardo Japiassú e Maria de Lourdes Nóbrega se debruçam sobre as transformações urbanas vividas pela capital pernambucana, sendo a segregação espacial um reflexo da ampliação exponencial das diferenças de classe que resultam no aumento dos muros divisores de propriedade e a ampliação de sistemas de vigilância privados, com homens armados e equipamentos eletrônicos (4).
O segundo longa de Kleber Mendonça, Aquarius, mereceu duas resenhas no portal Vitruvius. A primeira, de Roberto Bottura, comenta o quanto a arquitetura dos edifícios e a própria cidade estão entrelaçadas às vidas dos personagens, em especial em suas memórias afetivas – viver é morar em um lugar, em uma cidade (5). A segunda resenha, assinada por Helena Nosek, explora o vínculo dos fartos exemplos de favorecimentos e privilégios com a clássica interpretação da formação brasileira: Raízes do Brasil, livro publicado por Sérgio Buarque de Holanda em 1936 (6). E dois dos entrevistadores de Kleber Mendonça para essa edição – Abilio Guerra e Caio Guerra, pai e filho – comentam, sob pontos de vistas diferentes, Bacurau, o último filme do diretor. O primeiro enxerga na história diversas referências aos fatos históricos da história nacional e às obras de arte de nossa tradição cultural, onde verdades e mentiras são intercambiáveis (7). No segundo texto, apresentado oralmente em vídeo, o autor demonstra de forma convincente como o desenvolvimento da estrutura narrativa é pautado pela transformação de um eu “individual” em um “eu coletivo”, que do ponto de vista político-ideológico significa a evolução da revolta pessoal ineficaz em revolução de submissos despertos, até então submetidos à ordem patriarcal secular (8).
Mesmo sendo um recorte minúsculo dentro do universo crítico imenso que mereceu os filmes de Kleber Mendonça, os artigos publicados nas revistas do portal Vitruvius demarcam características reincidentes em suas obras – dentre elas a arquitetura e o urbanismo, produtos eloquentes da estrutura socioeconômica –. que, em seu conjunto, revelam a dialética da modernização brasileira: a transformação epidérmica de um corpo social renitentemente patriarcal.
A conversa que se segue tem a participação do roteirista Caio Guerra, da atriz Maeve Jinkins, da crítica Magaly Corgosinho, do cineasta Roberto Gervitz e do arquiteto Abilio Guerra, que prepararam um roteiro de entrevista cujas partes tentam dar conta dos diversos aspectos comentados nesse texto introdutório: a presença do Recife em seu imaginário poético (“Memórias da juventude”), a mudança de perspectiva na sua evolução intelectual e artística (“O crítico e o roteirista”), as predileções, soluções e invenções recorrentes em seus filmes (“A carpintaria do cineasta”), as relações diretas e mediadas entre a narrativa cinematográfica e a realidade social (“Arte e sociedade”), a abrangência e os limites de um projeto estético dialeticamente fruto e contestador da realidade histórica (“Resistência e novos caminhos”).
Além dos três longas-metragens – vencedores de importantes prêmios em festivais ao redor do mundo –, a conversa se enveredou por documentários (A Copa do Mundo no Recife, 2015; Recife frio, 2009; Crítico, 2008) e curtas-metragens (Noite de sexta, manhã de sábado, 2006; Eletrodoméstica, 2005; Vinil Verde, 2004; Enjaulado, 1997). Na conversa, o diretor confirmou os vínculos temáticos e expressivos entre os curtas e os longas sugeridos pelos entrevistadores.
O quanto a pretensão original foi fiel à sua proposta original poderá ser avaliada na comparação entre o roteiro elaborado previamente e sua efetivação na forma de entrevista.
Fotograma de Bacurau, 2019, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
4 QUEIROZ, Carlos Eduardo Japiassú de; NÓBREGA, Maria de Lourdes Carneiro da Cunha. O Recife d’O som ao redor’. Cidade de muros. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.01, Vitruvius, maio 2017 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6519>.
Cine Art Palacio, Recife, 1937. Arquiteto Rino Levi
Bloco 1. Memórias da juventude
Abilio Guerra: Nosso primeiro contato foi quando você mostrou interesse pelo Cine Art-Palácio em Recife, de 1937. Como sou editor e um dos autores do livro sobre Rino Levi, arquiteto responsável pela obra, acabei atendendo ao apelo de um amigo comum e entrei em contato. Compreendi, em nosso diálogo, o enorme apreço que você tem por esse cinema, uma memória antiga e poderosa. Você poderia falar desse garoto, ou jovem rapaz, e sua relação com o edifício e com o que ocorria lá dentro, a projeção de filmes?
Caio Guerra: No final dos anos 1980, você, o Marcelo Gomes e outros amigos organizaram o cineclube “Jurando Vingar”. Você poderia nos contar um pouco sobre como foi a experiência? E também sobre a importância de criarmos uma cultura de cineclubes no Brasil?
Magaly Corgosinho: Em 2006, você fez o curta Noite de Sexta, Manhã de Sábado. O filme é “descolado” formal e tematicamente da sua obra. Em que contexto surge esse curta? Quais são o desejo, a experiência e a observação que o motivou na realização?
Fotograma de O Som ao Redor, 2012, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho
Bloco 2. O crítico e o roteirista
Roberto Gervitz: Eu assisti a uma projeção do filme Crítico em uma sessão “work in progress”, durante o Festival “É Tudo Verdade”, em 2008. Me lembro que a plateia era formada em sua grande maioria por críticos e eu, depois da sessão, expus que me senti bastante desconfortável com reações dos espectadores que riam de alguns cineastas que expunham suas tristezas ou suas queixas da crítica, fragilizados que estavam no delicado momento de lançamento de seus filmes. Os críticos entrevistados no filme, por sua vez, me pareciam bem mais à vontade, pois eram entrevistados em situações bastante cômodas e cotidianas e pouco eram postos em cheque sobre os dilemas de sua profissão. Uma única crítica, a Deborah Young, do Variety me chamou a atenção, pois revelou a angústia que sentia pelos erros cometidos. Quando fiz o meu comentário, me pareceu que você não levou tal diferença em consideração, talvez porque até ali, a sua função de crítico fosse a sua principal ocupação. Como você vê o filme hoje? Se o refizesse, mudaria alguma coisa?
Caio Guerra: Em suas obras, você quebra muitas convenções de roteiro. Temos incidentes incitantes falsos ou extremamente atrasados, como no caso de O Som ao Redor e Bacurau, mudança de protagonistas ao longo da obra antes da resolução de conflitos previamente estabelecidos como centrais à narrativa, além de uma série de outras pequenas tramoias que não vou listar porque tomaria tempo demais. Sinto que sempre que você quebra uma convenção, tem um movimento deliberado em busca de objetivos maiores, algo que você coloca acima da estrutura. Como você definiria esses objetivos? O que você diria que está buscando trazer para o mundo com seus filmes?
Magaly Corgosinho: Estou interessada em saber como você faz a mediação entre crítica e sua própria obra cinematográfica. No seu filme Crítico, Carlos Reichenbach e Fernando Meirelles mencionam que tiveram outra percepção sobre o que fizeram a partir do olhar de críticos. Em outra oportunidade, Cao Guimarães comentou que só teve noção do que tinha feito quando Consuelo Lins falou para ele sobre como ela enxergou o filme. Você, que foi crítico de cinema, filma com um olhar simbiótico crítico-diretor ou consegue dissociar essas personas? Como você enxerga, hoje, o papel da crítica, e ela já fez você perceber novos aspectos sobre os seus filmes?
Fotograma de Enjaulado, 1997, curta-metragem de Kleber Mendonça Filho
Bloco 3. A carpintaria do cineasta
Caio Guerra: Eu percebo que a maior parte das suas estórias têm premissas relativamente simples, com situações iniciais básicas pequenas, mas que sempre se desenrolam em conflitos potentes, levando em consideração questões históricas, estruturais, conceituais e imagéticas essencialmente brasileiras. É possível ver que existe uma pesquisa profunda sobre brasilidade nos seus filmes. Em geral, como funciona o processo de pesquisa para preparar seus roteiros?
Roberto Gervitz: O Som ao Redor trouxe um olhar original ao cinema brasileiro. Usando de uma narrativa em que o espectador não domina exatamente o que está acontecendo ou para onde está indo, mesmo nas situações mais prosaicas, o seu filme cria uma tensão nada óbvia nas relações entre as pessoas que nos transmite a sensação de que algo está para acontecer. Com isso ele escancara os arcaísmos estruturais da sociedade moderna brasileira. Você acha que o fato de ser Pernambucano, estado de grandes contrastes, permitiu que seu olhar fosse mais agudo a respeito da permanência dessas estruturas coloniais que são essenciais para entender as relações entre as classes no Brasil?
Magaly Corgosinho: Entendo que os curtas Enjaulado e Eletrodoméstica contêm elementos desenvolvidos no seu longa de 2013, O Som ao Redor, sendo a crítica à classe média o “cordão umbilical” que liga esses três filmes. Há uma consonância muito clara – especialmente entre Eletrodoméstica e O Som ao Redor –, que replica, inclusive, algumas passagens e cenas icônicas (como a da máquina de lavar) do curta de 2005. Gostaria que você comentasse como se deu esse processo de dilatação de sua percepção sobre a classe média desde Enjaulado, passando por Eletrodoméstica, até chegar a O Som ao Redor. Houve alguma motivação especial que te levou a “retomar” Eletrodoméstica e realizar O Som ao Redor?
Caio Guerra: Entendo que você gosta de induzir o público a pensar que a história será sobre uma personagem ou uma situação, só para depois subverter essa expectativa e desenvolver a história para um caminho inesperado. O que te leva a fazer esse tipo de escolha? Como você espera que isso impacte o público?
Fotograma de Eletrodoméstica, 2005, curta-metragem de Kleber Mendonça Filho
Bloco 4. Arte e sociedade
Maeve Jinkings (vídeo 1): Leitura de Walter Benjamin, Sobre o conceito da história, Aforismo IX
Abilio Guerra: Seus filmes parecem articular dois planos temporais. O primeiro, aderente ao desenrolar da trama, acompanha a evolução dos personagens. O segundo, mais denso e cifrado, é o tempo histórico mais largo, como se você dialogasse com os grandes intérpretes da formação brasileira, casos de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Junior e tantos outros, onde fica claro que as mazelas que nos afligem hoje são legadas pela história da opressão e da ignomínia. O que me parece especialmente interessante em seus filmes é a contaminação sofrida pela arquitetura, e até mesmo objetos, por essas sobrevivências do passado. Ilustro a questão com o casarão decrépito do patriarca Francisco (Waldemar José Solha) de O Som ao Redor, ou mesmo o cinema arruinado dentro da propriedade. Também o edifício Aquarius, que passa a sofrer de patologias em momentos dramáticos da história. Você poderia comentar um pouco essas questões?
Roberto Gervitz: Clara, a protagonista de Aquarius, é uma mulher cujo comportamento e universo cultural estão ligados às conquistas libertárias dos anos 1960. Em Bacurau, temos novamente a presença de músicas ligadas a movimentos culturais deste período (na MPB e no cinema), bem como certos ícones daquela época, como o disco voador e seu design claramente Pop 60's. Temos também a luta armada e, me parece, uma referência à droga que depreendi ser produzida pelo casal nu em uma horta de sua casa. Já os vilões têm uma apresentação mais contemporânea e pop-futurista quase de Histórias em Quadrinhos. Para mim está claro que você promove nestes dois filmes um resgate daqueles tempos. Você concorda com essa observação? Se concorda ou mesmo se não concorda, como você vê essa presença dos anos 1960 em ambos os filmes?
Magaly Corgosinho: Vou retomar Eletrodoméstica, que foi escrito em 1994 e filmado dez anos depois. O que mudou nessa década que separa o primeiro roteiro e a filmagem do curta? Alguns desses eletrodomésticos, por exemplo, ainda não existiam em 1994, o que fazia com que a relação entre as pessoas, a relação com o tempo e até com suas casas fosse outra. Como você analisa a classe média nesse período entre Eletrodoméstica e O Som ao Redor?
Caio Guerra: Existem muitos signos que se repetem nos seus longas: discussões sobre sistema de poder, com oposições bem marcadas, caso da construção de comunidades e indivíduos; comunicação e isolamentos; e também da cordialidade afiada e de um afeto real, que são absolutamente opostos. Como você acha que essas questões surgiram para você como cineasta? Além disso, gostaria de aproveitar pra pedir que você falasse um pouco sobre a dicotomia entre o abandono e o progresso no Brasil.
Roberto Gervitz: Bacurau é o seu filme mais popular e é, sem dúvida, um belo trabalho de co-direção com o Juliano Dornelles, assim como também são os teus outros dois filmes. Nele notei uma narrativa claramente inspirada nos westerns, por exemplo, Sete Homens e um Destino, ou ainda o seu original, Os Sete Samurais. Ao mesmo tempo, há um resgate de ícones e valores dos anos 1960, entre os quais se destaca a Luta Armada, tematizada na música de Geraldo Vandré. Há também uma amálgama dessa luta política com o Cangaço. Ou seja, a aliança entre a guerrilha com sua luta "anti-imperialista" e o banditismo resgatado do passado e agora redivivo com Pacote, o matador de aluguel que resolve se engajar (ele estaria mais para Volante/Milícia do que para cangaceiro). Há também o bando de Lunga que se coloca a favor da população de Bacurau e que é protegido por grande parte dos moradores, apesar de bandido movido(a) por seus próprios interesses. Arrisco dizer que Lunga poderia facilmente ser associado com os traficantes que ocupam as comunidades e as tiranizam, mas também as tornam dependentes de suas benfeitorias. Nesse sentido, muitos veem o seu filme como uma perigosa associação dos que lutam contra a opressão e contra a morte, com aqueles que se mobilizam primordialmente por interesses pessoais e mercantis e não são menos cruéis em ação. Como você vê essa interpretação de seu filme?
Fotograma de Bacurau, 2019, longa-metragem de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
Bloco 5. Resistência e novos caminhos
Magaly Corgosinho: Nos seus trabalhos, a memória e a resistência estão muito presentes e funcionam como um motor narrativo em Bacurau, de uma maneira mais explícita e como chaves importantes para compreensão da história; em Aquarius, através da resistência da protagonista em manter suas próprias memórias; e em O Som ao Redor, uma resistência não-subversiva – como acontece em Bacurau, por exemplo –, mas a resistência a uma estrutura social de exploração extrema, aos moldes de Casa Grande & Senzala. Para você, fazer cinema, mais do que uma forma de expressão, é forma de resistência? Em eventuais trabalhos que você já tenha encaminhado ou apenas pensado, esses aspectos também estão presentes ou teremos uma “mudança de eixo”?
Roberto Gervitz: Clara, protagonista de Aquarius, afora as características já colocadas acima, é uma mulher fortemente apegada à sua história que está plasmada em seu apartamento. Tal espaço parece ser indissociável, pois é parte constitutiva de sua identidade. Portanto, temos aí uma temática existencial. Ao mesmo tempo, a resistência de Clara em permanecer no apartamento pode ser lida como parte de uma agenda liberal em que a propriedade é algo sagrado e deve ser respeitada acima de tudo. Por outro lado, a insistência de Clara ganhou cores de uma contestação revolucionária e estética. Eu li que você chegou a comparar Clara a Dilma. Qual é a sua visão de Clara e das questões em jogo em Aquarius?
Kleber Mendonça Filho
Kleber Mendonça Filho
Formado em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco, tem um trabalho abrangente como crítico e programador. Foi responsável pelo setor de cinema da Fundação Joaquim Nabuco durante 18 anos, e escreveu para o Jornal do Commercio, no Recife e outros veículos como a revista Continente e Folha de S.Paulo. É também diretor artístico do Janela Internacional de Cinema do Recife e curador do departamento de cinema do Instituto Moreira Salles. Como realizador, migrou do vídeo nos anos 1990, quando experimentou com ficção, documentário e videoclipes, para o digital e o 35mm na década de 2000. Seus curtas metragens (Vinil verde, Eletrodoméstica, Recife Frio, entre outros) receberam mais de 100 prêmios no Brasil e no exterior. Sua primeira experiência no longa metragem é o documentário Crítico (2008), realizado ao longo de nove anos. O Som ao Redor (2012) foi seu primeiro longa-metragem de ficção, exibido em mais de 100 festivais internacionais, lançado comercialmente em 14 países, e vencedor de 32 prêmios. O filme foi o representante brasileiro no Oscar 2014 e considerado “Um dos 10 Melhores Filmes do ano” pelo jornal The New York Times. Aquarius (2016), seu segundo longa, teve uma carreira ainda mais prestigiosa, estreando na competição do Festival de Cannes e distribuído em mais de 100 países. Em 2018, codirigiu o longa Bacurau (com Juliano Dornelles), que estreou na competição do Festival de Cannes em maio de 2019 e ganhou o Prêmio do Júri.
Maeve Jinkings
Maeve Jinkings
Formada em Comunicação Social pela Universidade da Amazônia (PA), e em Artes Dramáticas pela Escola de Artes Dramáticas da USP – EAD, com passagem pela escola do Centro de Pesquisa Teatral do diretor Antunes Filho. Estreia como atriz de cinema no longa metragem Falsa Loura, de Carlos Reichembach, ainda durante os estudos, período em que se dedicou muito ao teatro. Participou de filmes prestigiados do cinema brasileiro, como os longas O Som ao Redor (2013), de Kleber Mendonça Filho, Amor Plástico e Barulho (2014) de Renata Pinheiro, Boi Neon (2016) de Gabriel Mascaro; Aquarius (2016), também de Kleber Mendonça Filho, A Torre (2019) de Sergio Borges, Açúcar (2018) de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira. Além de uma extensa carreira na teledramaturgia brasileira, na TV Globo, como na novela A Regra do Jogo, A Dona do Pedaço e nas séries Onde Nascem os Fortes e Todas as Mulheres do Mundo. Atualmente Maeve se prepara para protagonizar Pedágio, primeiro longa metragem da realizadora Carolina Markowicz (SP), a ser filmado em maio de 2021. Participou como Diretora de Narração nos filmes Guaxuma (2017) de Nara Normande, Por Trás da Linha de Escudos (2018) de Marcelo Pedroso e Zona Árida de Fernanda Pessoa (2019). Foi preparadora de elenco no curta metragem Sem Coração (2014), dirigido por Tião e Nara Oliveira, vencedor do Troféu Illy de Melhor Curta na prestigiada Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes.
Magaly Corgosinho
Magaly Corgosinho
Graduada em Comunicação Social – Jornalismo (Universidade Federal de Goiás, 2007), com especialização em Gestão de Projetos Culturais (USP-SP), se apaixonou pelo cinema no longínquo ano de 2004, quando, ainda jornalista em formação na Universidade Federal de Goiás, foi sacudida por Close-Up, de Abbas Kiarostami. De lá para cá, se dedica ao estudo do cinema documentário brasileiro, se aprofundou na narrativa kiarostâmica e pesquisa a produção de cineastas indígenas. Segue sonhando ser uma mulher de Almodóvar.
Roberto Gervitz
Roberto Gervitz
Diretor e roteirista, estreou em longa metragem com o documentário Braços Cruzados, Maquinas Paradas (1978), em parceria com Sérgio Toledo, Prêmio Especial do Júri no Festival de Leipzig-79 e representante do Brasil no Fórum do Festival de Berlim. Feliz Ano Velho (1987), seu primeiro filme de ficção, recebeu sete prêmios entre os quais o de Melhor Filme para o Júri Popular, Melhor Roteiro (escrito por Gervitz) e Prêmio Especial do Júri, no Festival de Gramado 1988. Jogo Subterrâneo(2005) teve sua estreia mundial no Festival de San Sebastian e participou de inúmeros festivais internacionais. Em 2013 dirige e roteiriza Prova de Coragem, inspirado no livro Mãos de Cavalo de Daniel Galera. Para Renato Tapajós, roteiriza e edita os documentários Linha de Montagem (1981)e Em Nome da Segurança Nacional (1984). Em 1990, dirige a 2a unidade de Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco. Para a televisão, conceituou a série Gente Que Faz, que esteve no ar por quatro anos (1992-1995), e dirigiu quatro dos dez episódios da série Carandiru, Outras Histórias (2005), também de Hector Babenco. De 2006 a 2010, desenvolve roteiros para produtores brasileiros e americanos independentes. Atualmente escreve com Bernardo Carvalho seu novo filme de ficção Yaguar.
Caio Guerra
Caio Guerra
Roteirista, montador e diretor cinematográfico, formado no Curso de Cinema da FAAP em 2014. É co-diretor do espaço cultural Marieta e sócio diretor da Irmãos Guerra Filmes, onde escreveu e dirigiu diversos filmes, publicidades e videoclipes – com os quais ganhou prêmios nacionais e internacionais, incluindo diversos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Videoclipe Brasileiro pelo MIS e Fest CLIP entre os anos de 2014 e 2017. Vencedor do edital Proac 21/2014 para desenvolvimento de roteiro. Em 2017, se especializou em roteiro com o Course TV Writing Intensive, ministrado por Joe Cacaci, professor na School of the Arts da Columbia University (NYC). Em janeiro de 2019, foi assistente da roteirista Julia Priolli durante o Curso de Roteiro para Série de Televisão no Centro Cultural B_arco. Atualmente, ministra o curso livre de roteiro intensivo “A Jornada do Roteirista”, atualmente em sua décima edição, e coordena dois Grupos de Desenvolvimento de Roteiro pelo Marieta.
Abilio Guerra
Abilio Guerra
Arquiteto, mestre e doutor em História, professor da FAU Mackenzie. Membro fundador do projeto Marieta, é editor da Romano Guerra Editora e do Portal Vitruvius ao lado de Silvana Romano. É autor dos livros Rino Levi – arquitetura e cidade (com Renato Anelli e Nelson Kon, 2001), O primitivismo em Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Raul Bopp (2010), Arquitetura brasileira: viver na floresta (2011) e Arquitetura e natureza (2017).
Entrevista
A entrevista com Kleber Mendonça Filho ocorreu no dia 12 de abril, segunda-feira, às 18h30. O encontro ocorreu virtualmente, via Zoom, e foi transmitido ao vivo no Facebook, na página do projeto Marieta (www.facebook.com/projetomarieta), com as participações dos entrevistadores Caio Guerra, Magaly Corgosinho, Maeve Jinkings e Roberto Gervitz, com mediação de Abilio Guerra e participação do público, que encaminhou antecipadamente perguntas por escrito, material que serviu de base e referência para as perguntas.
Transa Marieta
A primeira temporada do programa Transa Marieta começou no dia 20 de abril de 2020, no segundo mês após a decretação de pandemia de Coronavírus pela Organização Mundial de Saúde. Até o mês de dezembro foram dez programas, envolvendo entrevistados, entrevistadores, mediadores e equipe térrea. A segunda temporada do programa começou no dia 12 de abril de 2020. Os episódios do Transa Marieta, publicados na revista Entrevista do portal Vitruvius, são os seguintes:
QUEIROZ, Carlos Eduardo Japiassú de; NÓBREGA, Maria de Lourdes Carneiro da Cunha. O Recife d’O som ao redor’. Cidade de muros. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.01, Vitruvius, maio 2017 <https://vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6519>.
Caio Guerra, Helena Guerra, Silvana Romano, Abilio Guerra e Giovanni Pirelli, fundadores do centro cultural Marieta
Projeto Marieta
O projeto Marieta é um centro cultural comunitário colaborativo, fundado em 2015 com a proposta de ser um espaço de pesquisa, difusão e produção de arte e cultura contemporânea. A diretoria e conselho curatorial é da responsabilidade do coletivo formado por Abilio Guerra, Caio Guerra, Giovanni Pirelli, Helena Guerra, Silvana Romano Santos. Atualmente conta com as participações de Lucas Minari (tuttofare), Magaly Corgosinho e Neliane Simioni (assessoria de imprensa); Marcella Arruda e Marina Frúgoli (pesquisadoras residentes); Ana Júlia Travia, Julia Rantigueri, Julia Zylbersztajn, Pedro Santiago e Paula Monroy (colaboradores internos); André Scarpa, Bianca Leite, Felipe Rodrigues, Marina Dias Teixeira e Pablo Figueroa (colaboradores externos); Lírios Spacca (design gráfico). O grupo conta com a adesão fundamental de Claudia Romano, Emiliana Romano Santos, Norma Romano Santos (apoio moral) e de Garibaldi Maria Pirelli Guerra, Martino Pirelli Guerra, Piero Pirelli Guerra, Tom Guerra, Francesca Tosi, Francesco Pirelli (apoio emocional). Nos tempos atuais de pandemia, o espaço está se mantendo aberto e atuante (virtualmente) graças ao apoio de amigos do Marieta, via apoio cultural no website benfeitoria.com/marieta.
Banner de divulgação do programa Transa Marieta com Kleber Mendonça Filho
Ficha técnica
programa Transa Marieta – ano 2, episódio 11
entrevistado José Miguel Wisnik
mediador Abilio Guerra
entrevistadores Caio Guerra, Magaly Corgosinho, Maeve Jinkings e Roberto Gervitz
pesquisa Abilio Guerra
organização Abilio Guerra, Caio Guerra, Helena Guerra, Giovanni Pirelli e Silvana Romano Santos
edição Helena Guerra
produção Coletivo Marieta / Abilio Guerra, Caio Guerra, Helena Guerra, Giovanni Pirelli e Silvana Romano Santos
data 12 de abril de 2020, 18h30
divulgação transmissão ao vivo via Facebook e YouTube publicação posterior no portal Vitruvius