português Em depoimento a Isabella de Serro Azul, o arquiteto e professor Sidney de Oliveira relata a sua experiência com a pré-fabricação em concreto armado nos projetos realizados em sociedade com o arquiteto professor Eduardo Kneese de Mello.
english In this interview, the architect professor Sidney de Oliveira relates his experience with the prefabrication in reinforced concrete in the projects carried out in partnership with the architect professor Eduardo Kneese de Mello.
español En esta entrevista, el arquitecto profesor. Sidney de Oliveira relata su experiencia con la pre-fabricación en concreto armado en los proyectos realizados en sociedad con el Arquitecto profesor Eduardo Kneese de Mello.
como citar
Isabella Silva de Serro Azul.
“Sidney de Oliveira”.
Vitruvius entrevista, ed. 20.080. 2019.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/20.080/7490
Conjunto Residencial da USP - Crusp, Cidade Universitária, São Paulo, 1961, arquitetos Eduardo Knesse de Mello, Joel Ramalho Jr. e Sidney de Oliveira
O primeiro edifício pré-fabricado de concreto armado com múltiplos pavimentos do Brasil foi o Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo – Crusp, projetado em 1961 por Eduardo Kneese de Mello, Sidney de Oliveira e Joel Ramalho.
Neste depoimento, o professor Sidney de Oliveira relata a sua experiência com o pioneirismo do Crusp e com os outros edifícios pré-fabricados projetados em sociedade com o professor Eduardo Kneese de Mello, como o Ambulatório Médico de Especialidades – AME Várzea do Carmo, o AME Vila Maria Zélia, a Faculdade Farias Brito e o Cemitério Vila Paulicéia.
O arquiteto entrevistado conta que, apesar dos prejuízos financeiros, a persistência do seu sócio no emprego da pré-fabricação lhes trouxe a motivação necessária para a realização dos empreendimentos.
nota
NE – Esta entrevista foi inicialmente publicada em: AZUL, Isabella Silva de Serro. Sistemas construtivos pré-fabricados de concreto armado: habitações contemporâneas no Brasil. Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU Mackenzie, 2018, p. 161-170.
Conjunto Residencial da USP - Crusp, Cidade Universitária, São Paulo, 1961, arquitetos Eduardo Knesse de Mello, Joel Ramalho Jr. e Sidney de Oliveira
Isabella Serro Azul: Como foi a experiência de projetar o Crusp?
Sidney de Oliveira: A ideia inicial era do Crusp ser construído para os IV Jogos Panamericanos de 1963 e depois ser utilizado para a habitação. Para os jogos, não teríamos tempo de empregar a pré-fabricação porque não tinham indústrias nem livros disponíveis. Nós não conseguimos nenhum livro de pré-fabricação na época.
Conseguimos um adendo na concorrência pública para que a construtora se comprometesse a utilizar o pré-fabricado do projeto original. Nós fizemos isso para comover mesmo: ninguém melhor do que a Universidade de São Paulo – USP para fazer algo inovador! A firma que pegou a concorrência teve que mandar um engenheiro estudar sobre pré-fabricados na Europa.
Não tínhamos grua, então foi montado um trilho no sentido do comprimento do prédio e foram utilizadas rodas de trem mesmo. Era mais seguro ter o trilho para o guindaste não oscilar. Esse trilho era reaproveitado nos outros edifícios.
Nós, o [João Batista Villanova] Artigas, o Ícaro de Castro Mello e o Rino Levi nos reuníamos na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Rua Maranhão para fazermos o planejamento da Cidade Universitária, foi quando decidimos onde ficaria o Crusp. Nós queríamos que os estudantes andassem de um prédio para o outro no coberto. Fizemos os edifícios intercalados, mas os intervalos projetados não foram mantidos como projetamos.
Conjunto Residencial da USP - Crusp, Cidade Universitária, São Paulo, 1961, arquitetos Eduardo Knesse de Mello, Joel Ramalho Jr. e Sidney de Oliveira
Depois dos jogos, seis prédios estavam prontos e seis, só o esqueleto. Nessa época, começou a Revolução de 1964 e foi colocado um reitor na USP [...] que quis desmontar o prédio do eixo da avenida para ele poder ter aceso direto ao Crusp. Isso mostra uma vantagem do pré-fabricado: a possibilidade de desmontar os edifícios. As peças puderam ser usadas em outros lugares e perdemos só a fundação.
As peças já vinham com os vazios feitos para as instalações que eram artesanais. Não tivemos nenhum problema para içá-las e as fôrmas eram metálicas.
Fizemos um prédio de cada cor [...]. Não eram para serem pintados. Pré-fabricado não é para ser pintado no canteiro de obras.
Fiz uma excursão para o Rio de Janeiro pelo Instituo de Arquitetos do Brasil – IAB e fui na empresa Formiplac, na cidade de Niterói. Eles fabricavam fórmica colorida que era o que estávamos precisando. A fórmica na fachada desgasta com o tempo e continua colorida. A placa tinha que ter 1 cm de espessura. Voltei para São Paulo com uma sacola de amostras da Formiplac.
Naquela época, podíamos fazer o elevador parar a cada meio nível e isso gerou economia porque era muito caro fazer cada parada. Com o primeiro meio nível acima do térreo, não precisamos fazer as molas enterradas com impermeabilização.
Conjunto Residencial da USP - Crusp, Cidade Universitária, São Paulo, 1961, arquitetos Eduardo Knesse de Mello, Joel Ramalho Jr. e Sidney de Oliveira
Fachada do Ambulatório Médico de Especialidades – AME Várzea do Carmo
Isabella Silva de Serro Azul: Como foi a experiência de projetar o ambulatório Várzea do Carmo?
Sidney de Oliveira: Estávamos em plena Revolução e fomos chamados para fazer o posto de saúde. Eles foram ambiciosos, queriam juntar todas as especialidades lá. Foi o maior projeto que já fizemos: a planta possui 200 por 50 metros.
Nessa época, já tínhamos a firma que fazia pré-fabricados. Fomos na Prefeitura, pegamos os recuos e delimitamos o retângulo que seria o edifício.
O terreno inundava muito, é na várzea do Tamanduateí, tinha até a marca de água das enchentes nas paredes dos vizinhos [...] O prédio é estanque por causa das inundações, é como um navio.
Fizemos o prédio com várias alas e iluminação natural pelas claraboias. Na época, a empresa Sobraf já possuía um catálogo das peças pré-fabricadas.
Com componentes moldados in loco, fizemos as bocas para marcar os acessos ao prédio. Apelidamos de “papa-filas” porque eram onde as pessoas podiam esperar abrigadas se chovesse.
O edifício possui as áreas de serviço e as partes do público. Fizemos no projeto linhas coloridas com epóxi para guiar os pacientes [...], mas isso não foi executado.
Não tem elevadores, só rampas. Rampas principais, de emergência e de serviços. Todas elas com inclinações suaves para permitir a acessibilidade.
Veja como evoluímos na fachada! Eram peças que podiam ser abertas para fora ou para dentro. Isso possibilitava a colocação de bancos, armários e outros mobiliários em função das necessidades.
Propusemos o paisagismo com coqueiros para quebrar a horizontalidade do prédio. Nós sempre fazíamos isso.
Eram três pavimentos com 7000 m² em cada. As caixas d’água eram individuais, assim era mais barato e da rua não dava para enxergá-las.
A parte hidráulica vinha junto com o painel. O forro era de alumínio dourado com lã de vidro, o que melhora o desempenho acústico [...] chama-se Luxalon e tem fácil manutenção.
Eram dezessete clínicas, o que permitia a centralização de todo o sistema de atendimento em um prédio. Fizemos visitas, clínica por clínica, para saber qual era a necessidade do programa e se precisávamos aumentar a área. Antes, estas clínicas estavam em prédios alugados onde não eram permitidas reformas para melhorar o atendimento.
Pátio Interno do AME Várzea do Carmo
AME Vila Maria Zélia
Isabella Silva de Serro Azul: Como foi a experiência de projetar o ambulatório Vila Maria Zélia?
Sidney de Oliveira: Logo depois do AME Várzea do Carmo, fomos chamados para fazer o da Vila Maria Zélia. Hoje, é um posto que atende ao bairro.
Era um campo de futebol antes. O terreno era do Instituto Nacional da Previdência Social – INPS e, em comodato, o clube de futebol usava o local. O terreno tem ruas de todos os lados.
Como já tínhamos estudado sobre as clínicas para o outro posto do INPS, já conhecíamos as necessidades que elas teriam. Colocamos as clínicas como um baralho, formando um círculo e então, precisávamos resolver os dentes que ficaram.
Eu tinha visitado o México, fui em um congresso [...] visitei as pirâmides e isso foi importante para pensar nesse projeto. Pegamos as peças do catálogo da firma do Otacílio Ribeiro de Lima e escolhemos uma viga parecida com um trapézio, que tinha uma inclinação como a das pirâmides.
Fomos na firma do Otacílio, o arquiteto que trabalhava com pré-fabricação. Quando ele viu o projeto, chamou todos para verem também e gritou: quem disse que não dá para fazer um prédio redondo com pré-fabricado? E eram vários trapézios.
São três prédios e todos com peças da firma do Otacílio Ribeiro de Lima: o posto grande e redondo, dois edifícios no formato de meia lua e trezentas vagas de carro nas ruas internas. Um prédio tem saída para o subsolo que foi escavado e ia para o miolo do terreno, onde também estava o heliponto.
Fachada do AME Várzea do Carmo
Edifício da Faculdade Farias Brito, atual Universidade de Guarulhos
Isabella Silva de Serro Azul: Como foi a experiência de projetar a Faculdade Farias Brito?
Sidney de Oliveira: Essa é a joia da coroa! Nós nos colocamos no lugar do Artigas quando fez a FAU na Cidade Universitária, imagina a satisfação dele?
Lá no terreno já existia a Igreja com sino e tudo, atrás tinha um convento e uma Faculdade de Filosofia. O terreno vai descendo até chegar em um brejo.
Estávamos dando aulas em salas adaptadas nos prédios antigos e a cantina era lá no pátio das clausuras. A gente ia adaptando as salas, demos aula até no salão de festas do prédio do vizinho.
Em um almoço, me perguntaram o que achávamos dessas construções e dissemos que estávamos ocupando horizontalmente [...]. E qual era a solução? Na nossa opinião, era vim de baixo para cima. Eles toparam, mas precisava ser bem econômico, então fizemos com pré-fabricado.
Nessa época, já tínhamos a grua para montar o edifício. Os alunos que estudavam lá viram as máquinas montando toda a estrutura. Era uma aula!
Primeiro, cravaram as estacas. A partir da estaca, as demais peças pré-fabricadas encaixavam. Os pilares já encaixavam do tamanho do prédio todo e aí vinham as vigas berço. Encaixaram todos os pilares. Vieram as carretas com as vigas berço. Depois vinham as vigas laje com “abinha” e a obra continuava mesmo quando chovia porque era com peças pré-fabricadas. Na cobertura colocamos a iluminação zenital.
Foi feita a torre de banheiros em concreto aparente ligada ao outro prédio pela escada. A escada é arredondada e moldada in loco. Para fazer as fôrmas arredondadas foram utilizadas chapas de madeirite com furos para passar os torniquetes de ferro que as deixavam envergadas. Esses furos foram mantidos nas peças para que os alunos pudessem vê-los.
Tínhamos que dar originalidade na fachada e sermos econômicos, então fizemos o quebra sol. Fizemos com todos com ângulos do esquadro. Fomos em vários fabricantes de telha de fibrocimento e eles falaram que não dava para executar porque a peça quebraria. Aí fizemos de fibra de vidro na firma de um ex-aluno. Ele disse que a peça era ideal para desencaixar do molde porque era cônica. E ele fez um protótipo. E o perigo do fogo? Ele tinha uma solução com resina antichamas e me mostrou no protótipo.
O cliente disse que ia estourar o orçamento com o quebra, aí falamos que o seguro caía para a metade e ele falou: pode fazer! Ficou sendo, até hoje, o logotipo da Universidade de Guarulhos – UnG (antiga Faculdade Farias Brito). Essas peças de fibra de vidro têm 10% de transparência, elas protegem do Sol e deixam a iluminação natural entrar.
Nós convidamos outros professores da escola para fazerem os projetos de instalações de elétrica e hidráulica. O projeto de elétrica foi feito pelo professor Elia Cury. Ele fez um sistema que os professores recebiam uma caixinha de alumínio com o projetor de slides e eles injetavam isso na parede para acender a luz. Desse jeito, não tinha como ninguém deixar a luz acesa na sala de aula que não estivesse sendo usada. O projeto de hidráulica foi feito pelo professor Adolfo Coihem. Os banheiros estavam na torre de concreto aparente, a cuba também era de concreto e pintada por dentro de branco com tinta epóxi. No feminino, tinha um plano na parede para as moças deixarem suas maquiagens. As instalações hidráulicas foram projetadas para serem todas aparentes e isso era uma verdadeira aula para os alunos!
Terminamos no prazo e o cliente ficou feliz. Ele quis outro prédio só que disse que dessa vez sem ser pré-fabricado. Aí ele mexeu conosco! Fizemos protendido!
O outro prédio tem o mesmo quebra sol que funciona como brise vertical e horizontal. Em cada fachada as peças ficam em uma posição, dependendo da incidência do Sol.
Fachada do edifício da Faculdade Farias Brito, atual Universidade de Guarulhos
Cemitério Vila Paulicéia, São Bernardo do Campo SP, 1969, arquitetos Eduardo Knesse de Mello e Sidney de Oliveira
Isabella Silva de Serro Azul: Como foi a experiência de projetar o Cemitério Vila Paulicéia?
Sidney de Oliveira: Nunca me esqueço: um terreno maravilhoso! No filé mignon do terreno fica o cemitério. La é lugar para gente morar e ficou para os mortos. Já que não iam ser cremados, que tal fazer o cemitério com tubos pré-fabricados?
A ideia era essa: um tubo para pôr o caixão dentro. Para o acabamento final, pensamos em uma grade de alumínio vazada, pintada de preto, onde poderia ser colocado o nome da pessoa. Queríamos usar o tubo pré-fabricado mesmo e a empilhadeira colocaria o caixão lá dentro.
Cemitério Vila Paulicéia, São Bernardo do Campo SP, 1969, arquitetos Eduardo Knesse de Mello e Sidney de Oliveira
O ossário fizemos protegido com espelho d’água. Quem fosse usar, poderia atravessá-lo para chegar. E conseguimos substituir o muro pelo alambrado.
Não foi fácil de aprovar. Tivemos que ir lá na engenharia sanitária e explicar que antigamente enterravam as pessoas nas criptas das igrejas e nos muros dos conventos.
Cemitério Vila Paulicéia, São Bernardo do Campo SP, 1969, arquitetos Eduardo Knesse de Mello e Sidney de Oliveira
Arquiteto e professor Sidney de Oliveira
Sidney de Oliveira
Arquiteto graduado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, foi sócio do escritório de arquitetura com o professor Eduardo Kneese de Mello e atuou como professor nas faculdades de Arquitetura e Urbanismo Farias Brito e na da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde também foi diretor do curso.
Isabella Silva de Serro Azul
Mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde também se graduou com Trabalho Final de Graduação – TFG Internacional em parceria com a École d'architecture de la ville et des territoires à Marne-la-Vallée. Atualmente, atua como pesquisadora colaboradora no Grupo de Pesquisa Arquitetura e Construção da FAU Mackenzie.
Entrevista
A entrevista foi realizada em 15 de setembro de 2017 às 15h00 na residência do arquiteto professor Sidney de Oliveira na cidade de São Paulo.
Agradecimentos
Agradecimentos às professoras Dra. Maria Augusta Justi Pisani e Dra. Luciana Monzillo de Oliveira.