português Entrevista realizada com os arquitetos Héctor Vigliecca e Neli Shimizu, em 23 jul. 2018 em seu escritório em São Paulo, e complementada por Vigliecca em Recife, na Universidade Federal de Pernambuco em 04 out. 2018.
english Interview with architects Héctor Vigliecca and Neli Shimizu, on July 23th 2018 in his office in São Paulo, and complemented by Vigliecca in Recife, at the Universidade Federal de Pernambuco on Oct 04 2018.
español Entrevista a los arquitectos Héctor Vigliecca y Neli Shimizu, el 23 jul. 2018 en su oficina en São Paulo, y complementada por Vigliecca en Recife, en la Universidade Federal de Pernambuco el 4 de oct. 2018.
como citar
Fernando Diniz Moreira.
“Infiltrando urbanidade: a produção de habitação social de Vigliecca & Associados”.
Vitruvius entrevista, ed. 20.079. 2019.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/20.079/7400
Parque Novo Santo Amaro V, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2009-2012
A habitação social foi um dos grandes temas da arquitetura e do urbanismo do século 20 e o Brasil não se furtou a contribuir para este debate, produzindo conjuntos habitacionais de inestimável qualidade, particularmente entre 1930 e 1970. Entretanto, quando o país voltou a ter um programa federal de habitação social, na última década, os resultados foram frustantes. Apesar de ter-se alcançado números significativos de exemplares construídos ao longo de todo território nacional, as realizações do Programa Minha Casa Minha Vidaforam alvo de duras críticas: a falta de relação com o tecido urbano, a localização distante dos grandes centros, ausência de infraestrutura adequada para os moradores, a monotonia arquitetônica e sua aplicação de maneira indistinta nas diversas regiões do país são alguns dos pontos destacados. Tal conjuntura provoca alguns questionamentos como: é possível fazer conjuntos integrados e relacionados à cidade, alocando-os em áreas com infraestrutura urbana? É possível desenvolver edifícios com qualidade arquitetônica, respeitando a leitura do entorno e atendendo a necessidade da população? É, ainda, viável construí-los com poucos recursos envolvendo políticas urbanas?
Arco do Futuro, região do rio Tietê, Vigliecca & Associados, 2013
No âmbito de umas poucas iniciativas municipais e estaduais, alguns arquitetos brasileiros têm-se lançado neste desafio, acreditando que podem contribuir para o desenvolvimento de melhores conjuntos e aprimorar a relação entre habitação social e cidade. Entre estes destaca-se Héctor Vigliecca, o qual juntamente com sua equipe, já desenvolveu mais de trinta propostas de moradias coletivas – em modalidades de programas diversificados – buscando inseri-los dentro da cidade como alternativa ao modelo periférico. Seus conjuntos exploram as condições urbanas para criar mais possibilidades de integração com a cidade, buscando extrair o potencial da cidade informal. Alguns dos seus projetos tornaram-se referência como o conjunto habitacional Rio das Pedras/ Vila Mara nos anos 1990 e, mais recentemente, o Parque Novo Santo Amaro, e receberam atenção internacional por meio de premiações e exposições. Esta entrevista com Héctor Vigliecca e a associada Neli Shimizu, busca explorar o tema da habitação social na produção do escritório, do ponto de vista da sua prática no âmbito arquitetônico e urbanístico.
Morar Carioca, Rio de Janeiro, Vigliecca & Associados, 2011
Sesc Nova Iguaçu, Nova Iguaçu, arquitetos Hector Vigliecca e Bruno Padovano, 1985-1992
Fernando Diniz Moreira / Giselle Cristina Cantalice de Almeida: Conhecemos pouco sobre a escola em que você se formou, a Universidad de la Republica – Udelar, exceto por alguns arquitetos do Rio Grande do Sul que foram lá estudar com Maurício Cravotto. Parece-nos que esta escola tinha uma fonte ênfase na relação do urbanismo com a arquitetura, ao passo que no Brasil, essas dimensões foram tratadas quase como dicotomias. Como se deu, então, esse processo de formação no Uruguai? Ele influenciou sua forma de projetar?
Héctor Vigliecca: Sim, eu me formei lá, mas não tínhamos uma formação tão sólida no que diz respeito à cidade como a que temos hoje. Era muito superficial porque o Uruguai não tinha tantos trabalhos de escala urbana. Então, tudo que estudávamos sobre a cidade na escola era muito superficial, muito teórica, nada que podemos dizer que você fica formado em urbanismo. Entretanto, tínhamos ali perto o ambiente de Buenos Aires.
FDM/GCCA: Conte-nos um pouco sobre como vocês viam o ambiente argentino naquela época.
HV: Em Buenos Aires aconteceu um processo interessantíssimo entre as décadas de 1960 e 1970. A produção era absolutamente extraordinária. De fato, era uma releitura do que acontecia na Europa. Nós líamos a Europa através da arquitetura produzida na Argentina. Tanto que nessa época existiam arquitetos que eu particularmente considero extraordinários e que influenciaram muito minha vida profissional, como Justo Solsona e José Ignacio Díaz. Solsona e seus associados fizeram um conjunto habitacional maravilhoso como o La Rioja no final dos anos 1960. Díaz dominou o tijolo como ninguém e fez edifícios magníficos em Córdoba. Alguns deles já morreram, mas eram escritórios, naquela época, jovens mas com um enorme potencial.
A Argentina tinha uma capacidade econômica de construir essas coisas. Também teve naquela época uma extensa produção teórica. Eles também tiveram muitas oportunidades devido aos concursos que concederam espaço para jovens arquitetos. Bom, eu poderia te lembrar uma meia dúzia de pessoas. Só vou te contar uma coisa curiosa, acabei de voltar de Buenos Aires, dei duas palestras lá e eu falava dos arquitetos argentinos daquela época, mas notei que a plateia não se lembrava bem. Os próprios argentinos parecem não ter uma ideia muito clara do que eles produziram naquela época.
FDM/GCCA: E sua experiência na Itália e na Europa? Naquela época o panorama europeu era dominado por uma visão muito crítica em relação à arquitetura e ao urbanismo moderno. Como estas posturas críticas transformaram e/ou interferiram na sua prática projetual?
HV: Após me formar, passei três anos na Europa, primeiramente em uma pós-graduação em urbanismo na La Sapienza, depois viajando pelo continente. Este período foi muito importante em minha formação, particularmente por que foi um momento de questionamento das soluções modernistas para a cidade e de valorização das pré-existências, do homem na comunidade onde estava inserido, do contexto, da rua e do pedestre, por parte de arquitetos como Aldo Rossi, o casal Smithson, Aldo Van Eyck, James Stirling, entre outros. O casal Smithson, por exemplo, não entendia a habitação apenas como espaço de moradia. Para eles, agregados a essa moradia estavam os espaços de convívio e os espaços públicos. A proposta deles para o concurso do Golden Lane tinha passagens aéreas, as street in the sky, que criariam possibilidades de encontros e de vida comunitária. Nesta época o Archigram ainda estava em alta e aprendi com eles que o arquiteto não define a arquitetura, mas que pode criar uma estrutura que a realidade transforma depois na obra final. O projeto não pode ser algo fechado, concluído e intocável, mas como um objeto inicial a ser transformado mediante as necessidades e as mudanças que o tempo requerer.
Outro arquiteto importante para mim foi o James Stirling. Veja só o edifício daquela galeria em Stuttgart (Neue Staatsgalerie), Ele buscou criar uma nova galeria de arte fazendo conexão com a antiga galeria de 1843 ao lado. O projeto novo é um U tradicional que faz referência ao neoclássico da antiga galeria, mas ele aproveita o declive do terreno como parte de um passeio arquitetural que direciona a passagem pública através do edifício. Ele buscou se integrar como o lugar e com o passado. É um projeto de grande sabedoria. Aliás, é isto que devemos procurar na história, sabedorias e não questões formais ou estéticas.
Estas influências foram importantes para mim, mas na verdade, aprendi a trabalhar com essas escalas maiores quando vim aqui para o Brasil. Aqui, eu aprendi por meio dos trabalhos que fizemos para os concursos que participamos. Devo mencionar a ótima experiência que tive com Joaquim Guedes, para quem fui trabalhar, logo quando cheguei ao Brasil, em um projeto de um hotel no Morumbi. Fiquei lá por três anos, quando o volume de trabalho do escritório era em planejamento urbano. É lógico que aprendi muito em uma cidade como São Paulo. Edifícios como o Conjunto Nacional de Libeskind e muitos edifícios no centro me impressionaram muito pela forma como traziam a cidade para dentro deles.
Já no meu próprio escritório, fizemos aqui trabalhos grandes e importantes, como o projeto da Luz e o projeto do Arco do Futuro aqui em São Paulo, e o Morar Carioca no Rio de Janeiro. São áreas urbanas imensas, estamos falando assim em áreas com 1600 hectares. Fizemos um projeto lá em Salvador muito grande para toda capital. Não sei se me esqueço de algum outro, mas esses são os principais. Depois fizemos os parques esportivos para as Olimpíadas, um trabalho muito importante em quase dois anos. Então, tive uma formação inicial da Udelar mais uma formação que eu fiz aqui no Brasil sem escola, em cima de trabalhos profissionais. Enfim, isso é o que posso dizer em relação a formação.
Parque Novo Santo Amaro V, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2009-2012
Fernando Diniz Moreira / Giselle Cristina Cantalice de Almeida: Nos anos 1960 e 1970, o ambiente brasileiro não estava tão atento às estas críticas internacionais à arquitetura e ao urbanismo modernos, como o Team X, Archigram, Jane Jacobs, Robert Venturi etc. Você notou isto quando chegou no Brasil?
Héctor Vigliecca: Quando eu cheguei no Brasil em 1972, falava sobre o que acontecia na Europa principalmente e percebi que as a maioria das pessoas desconheciam estas ideias e autores e muito menos colocavam em prática na arquitetura. Quando cheguei aqui, eu fiquei até assustado, me lembro que eu falava dos irmãos Krier e aqui ninguém sabia quem eles eram. Mas isso mudou radicalmente hoje em dia. Primeiro, porque o sistema de informação disponibilizou muito mais literatura sobre o tema, por meio de livros, e, evidentemente, a internet. Lá nós vivíamos muito antenados com o que acontecia na Europa e em Buenos Aires.
Parque Novo Santo Amaro V, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2009-2012
FDM/GCCA: Quando chegaste ao Brasil em 1975, já tinhas uma obra relevante em termos de habitação social como o Bulevar Artigas. Como foi sua impressão em relação ao contexto brasileiro de reprodução maciça do Banco Nacional de Habitação – BNH?
HV: Bom, quando eu cheguei no Brasil eu fiquei muito interessado em fazer habitação principalmente habitação para baixa renda e tudo isso. Nós tínhamos uma boa experiência, eu trabalhei no Centro Cooperativista Uruguaio que foi referência naquele momento. Mas eu não conseguia acessar a esse mercado. Isto mudou na época da gestão da Erundina, cujo secretário de habitação era o Nabil Bonduki, que tinha conhecimento do que nós havíamos feito no Uruguai. A prefeitura abriu algumas licitações e promoveu alguns concursos que nós ganhamos e então começamos a dar os primeiros passos aqui no Brasil em relação a habitação de interesse social.
Parque Novo Santo Amaro V, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2009-2012
FDM/GCCA: Na época em que chegaste ao Brasil, o BNH empreendeu um dos maiores programas de habitação no país, mas ao se priorizar a quantidade, perdeu-se muito da qualidade.
HV: Sim, os exemplos que nós vimos na época eram péssimos, mas isto continua hoje. Quando chegamos ao Minha Casa Minha Vidavemos que é um desastre ainda maior. Foram construídas quase 3 milhões de casas e os arquitetos foram banidos do processo. Ainda bem que estamos de acordo com isso.
Parque Novo Santo Amaro V, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2009-2012
Reurbanização do Complexo Paraisópolis, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2004-2005
Fernando Diniz Moreira / Giselle Cristina Cantalice de Almeida: Muitos dos seus projetos foram feitos utilizando a estratégia de infill, de se costurar ao traçado existente. Você pode comentar um pouco mais sobre isso? Como você articula com a pré-existência? E se as circunstâncias não forem ideais, como você tenta compensar essas dificuldades?
Héctor Vigliecca: Bom, olha, tem preexistências que tem valores e tem preexistências que não tem valores. Não é porque é preexistente que tem um valor que você precise respeitar. Ou seja, nós tentamos extrair das preexistências, do que está oculto, os elementos que podem nos dar alguma nova leitura. Então a preexistência é importante quando você consegue extrair dela elementos que te dão caminhos, caminhos diferentes e frutíferos. Então não é questão apenas de costurar, é costurar e extrair da preexistência valores que você não vê nesse momento porque eles não ficaram muito claros nos processos de construção da cidade. Mas devemos fazer um esforço de extrair da preexistência realmente os elementos de valor. Por exemplo, às vezes temos de nos imaginar tirando tudo o que está construído, para verificar como é a topografia e ver como a partir desta podemos estabelecer hierarquias na maneira de projetar essa área urbana. Falamos de demolirmos tudo, mas nós nunca promovemos a demolição das coisas, teoricamente eliminamos o existente para permitir o que está por baixo. Entendemos que as situações urbanas hoje resultam de anos e anos de sobreposições e coisas, não é? Temos que extrair delas uma leitura positiva.
Reurbanização do Complexo Paraisópolis, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2004-2005
FDM/GCCA: Em países como o Brasil, onde boa parte da população de menor renda vive em assentamentos informais, o que é importante considerar desta realidade nos projetos de habitação social?
HV: Como transformamos esses lugares chamadas favelas? Nós chamamos isso de infiltração. Para atuar nesses lugares, nós infiltramos urbanidade. Visitando áreas carentes, observamos que em uma rua asfaltada, com calçada e iluminação, mesmo que precárias, o morador cuidava da fachada que dava para esta rua, enquanto que dentro da quadra por pequenas vias, víamos que o desleixo era total, eram os excluídos. Assim, se quisermos que os habitantes se sintam cidadãos, se sintam parte da cidade, temos de inserir alguma infraestrutura urbana legível que o vincule ao espaço da cidade. É um modo de operar simples e eficiente. Em suma, é preciso trazer mais cidade formal (infraestrutura, calçada, equipamentos) para dentro da cidade informal, mas sem fazer tábula rasa. Chamamos isto de cunhas de infiltração: a introdução de urbanidade em pequenas inserções que espalham por toda a área. Essas infiltrações tem a possibilidade de contaminar todo. É a introdução de algo que é necessário e que é legível e valoriza a estrutura existente.
Nós fizemos projetos grandes em Paraisópolis e no Rio de Janeiro. Lamentavelmente, todas essas experiencias não foram adiante. No Rio, criaram a expectativa de que iriam ser feitas grandes transformações urbanas nas favelas, mas terminaram sem fazer nada, absolutamente nada. Participamos de um concurso nacional, o qual ganhamos, mas não fizeram nada. Aqui em São Paulo, fizemos um projeto grande para Paraisópolis. Fizemos propostas de grande, digamos originalidade, mas que não foram realizadas. Ou seja, as próprias prefeituras do Rio e de São Paulo aplaudiram o trabalho e eu apresentei isso centenas de vezes, mas o resultado final foi não fazer nada. Aqui houve uma mudança administrativa e eles jogaram no lixo o projeto de Paraisópolis.
FDM/GCCA: O que tudo isso tem a ver com o título do seu livro, O terceiro território?
HV: Eu imaginei usar terceiro território, inspirado num paisagista francês que não me lembro agora que chamava a terceira paisagem. Li isto há muito tempo e achei muito interessante. Decidi chamar terceiro território porque na verdade eu pensava no exemplo da passagem da cidade medieval para a cidade renascentista. O que o renascimento fez? Ele não fez uma cidade própria, apesar de que existem algumas cidades renascentistas como Palmanova e algumas cidades aqui na América também. Na verdade, os ideais renascentistas trabalharam em cima da cidade medieval, ou seja, naquela malha introduziram praças regulares, palácios, a catedral, intervenções pontuais mas que conferem um novo sentido. Digamos que eles fizeram uma infiltração. A superposição de duas épocas diferentes transforma a cidade em um terceiro território. Era uma maneira de incorporar a preexistência através de um projeto novo que não precisava, e nem podia, fazer toda a cidade nova. Você precisa inserir alguns elementos que transformam a cidade como todo. Mas isso é uma imagem bastante didática.
Reurbanização do Complexo Paraisópolis, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2004-2005
Conjunto Habitacional Rio das Pedras, São Paulo, Vigliecca & Associados, 1991-2003
Fernando Diniz Moreira / Giselle Cristina Cantalice de Almeida: Como conciliar os interesses do capital imobiliário, em áreas valorizadas, e a habitação social, que geralmente precisa ser subsidiada? A habitação social precisa mesmo de subsídios?
Héctor Vigliecca: Bom, habitação social também pode ser construída a partir de iniciativa privada. Sempre existem regras e financiamentos que se adequem a esse tipo de financiamento, mas eu acredito que a grande ação sobre habitação social precisa vir do Estado, porque essa é a única maneira de você mudar um paradigma. No nosso contexto, esse raciocínio só pode ser feito por um Estado que se propõe a fazer uma transformação. Isso não vai acontecer nunca a partir de uma iniciativa privada. Isso não quer dizer que a iniciativa privada não pode entrar em planos que o governo estabelece. Portanto, eu acredito que a iniciativa pública é fundamental. Se falamos de habitação social e cidade, a iniciativa pública tem imensa responsabilidade, pois ela deve definir o que tem que ser feito, como tem que ser feito e por que tem que ser feito. Enfim, isso é uma coisa que a gente sempre fala que o Minha Casa Minha Vida é uma operação extraordinária do ponto de vista quantitativo: atingiu três milhões de habitações, mas só fez porcaria. Infelizmente, o Brasil perdeu uma grande oportunidade histórica de repensar a questão da habitação, repensar o que significa urbanidade, para repensar tudo! Mas não aconteceu nada, não houve mudança no ponto de vista tecnológico, não houve mudança do ponto de vista conceitual do que é cidade e do que é habitar, não houve mudança de nada, nem conceitual nem em termos de métodos de construção. Aquele foi o momento de repensar as coisas e a obrigação do governo deveria ter promovido essa transformação. Era a grande oportunidade que o Brasil perdeu! Primeiro os arquitetos e urbanistas ficaram fora do processo, que foi conduzido pelas construtoras. Isso é uma coisa muito triste. Nós tentamos fazer habitação social quando fizemos nesse esquema de financiamento, tudo isso através da prefeitura. Nós ganhamos uma licitação e tivemos uma boa acolhida na Prefeitura. Fizemos um projeto muito grande, mas as obras estão paradas e não sei se vão terminá-las. Nosso futuro agora é de vocês. Porque o meu já acabou.
Conjunto Habitacional Rio das Pedras, São Paulo, Vigliecca & Associados, 1991-2003
FDM/GCCA: Tendo em vista o caso do Parque Novo Santo Amaro V, que virtudes e problemas emergem quando os edifícios são construídos em uma área de urbanização precária? O caso de gerar urbanidade em zonas de “não-cidade”?
HV: Bom, não era uma área de favela, era uma área urbanizada, não 100% urbanizada, mas que tinha grandes entraves de infraestrutura. Essa urbanização foi feita por empresas que loteavam áreas aprovadas pela prefeitura. Tinham até locais com boas casas, mas nós tínhamos um problema grande que era a total ausência de áreas de lazer e cultura. Você constrói em um ponto pequeno, constrói um espaço de lazer, um parque, uma nascente, por exemplo. Você transforma aquela área, em uma área disputada. Quando se inaugurou aquela área ela foi literalmente invadida pelo bairro inteiro. O pessoal começou a fazer festas à noite, os moradores não gostaram e foram aos poucos fechando os acessos, transformando em condomínio privado, o que era justamente para não ser feito. Então isso foi um tiro que saiu pela culatra, mas nós achamos que isso de qualquer maneira, foi um projeto denuncia: um projeto que denuncia aos outros habitantes da área como poderiam ter sido melhor as coisas, como é bom ter uma área com verde, com nascente, com parque, como ter conexões mais fáceis através dos vales. Isso mostra como em um pequeno lugar você pode conseguir essas coisas. Então se tivéssemos vários lugares que tivessem parques e áreas de lazer não teria ocorrido a invasão/ocupação daquelas pessoas que estão no entorno daqueles lugares. Tínhamos até propostas em que essa introdução de urbanidade acontecia em vários lugares. Eram aqueles lugares que poderiam contaminar a área.
FDM/GCCA: Tendo em vista a trajetória de projetos de habitação popular produzidas pelo escritório, foi possível identificar diferentes modalidades de políticas de incentivo. Por exemplo, o Rio das Pedras-Vila Mara foi pelo sistema de mutirão e autogestão; no Vila dos Idosos o interesse e iniciativa partiu da comunidade; o caso do Parque Novo Santo Amaro nasceu em parceria com a prefeitura e ainda pode-se acrescentar as novas demandas do MCMV. Falem-nos a respeito de como essas diferentes modalidades interferem e desafiam a prática projetual deste tipo de conjuntos.
HV: Para nós, todos os projetos, independentemente da modalidade, sempre são desafiantes, mas nós também temos que levar as particularidades de cada modalidade em consideração. Quando fizemos na modalidade mutirão nós trabalhamos com lote bem dimensionado, mas isso não tem mudado muito a maneira nossa forma de projetar. Pensamos no projeto e na cidade, enfim.
Neli Shimizu: A gente faz o projeto, pensamos a arquitetura e o desenho urbano e depois vamos adaptando conforme as diretrizes. Ela não vai influenciar de forma decisiva.
HV: Em relação aos projetos que fizemos, quando se trata de habitação você cuida do projeto para fazê-lo pré-fabricado, para fazer o bloco, com alguns sistemas. Bom, agora estamos fazendo prédios em altura, não? Porque agora se aceita colocar elevadores. Agora em trabalhos com mutirão, fazer prédios com elevadores é muito mais complexo. Então, cada modalidade tem suas particularidades.
Conjunto Habitacional Rio das Pedras, São Paulo, Vigliecca & Associados, 1991-2003
Renova SP – Morro do S4, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2011
Fernando Diniz Moreira / Giselle Cristina Cantalice de Almeida: Quando vocês vão realizar os projetos, como é o diálogo com a comunidade?
Héctor Vigliecca: Isso é fundamental, inclusive é obrigatório por lei! Fazemos assembleias, mostramos o projeto para comunidade, etc. Entretanto, nosso papel como arquitetos não é só fazer o que a comunidade pede. Temos de ouvir, entender o que tem de ser feito, mas é preciso interpretar esta realidade. Nem tudo o que a comunidade pede é o que deve ser feito.
Não expomos as carências da área nem um programa de equipamentos a ser implantado, mas oferecemos uma visão de nossa interpretação da cidade. Não dizemos dessa maneira: “ah, falta uma escola, falta um parque”. Nós analisamos se realmente precisa de uma escola, entendeu? Ou seja, duvidamos dessas leituras dos levantamentos iniciais. Tem empresas que vivem disso, fazendo diagnósticos imensos que não param nunca. Nosso processo é diferente, é formulado por meio de hipóteses. Então você já sabe o que quer, por isso fazemos um diagnóstico bem pequeno. Você já tem a hipótese do que quer fazer. Tem empresas que enriquecem com isso e o interessante é que o poder público paga muito bem para esses diagnósticos, mas para o projeto querem pagar o mínimo possível. Essa é a nossa realidade.
FDM/GCCA: Em um de seus vídeos no Youtube, intitulado “Habitação social – diferentes configurações através de elementos componíveis” (1), é possível identificar um estudo preliminar com protótipos para o projeto do Morro S4 (Renova SP). Como se dá esse processo projetual? Você parte de algum pressuposto relacionado aos materiais e estruturas ou ao custo e depois partem para adaptá-los ao contexto onde serão inseridos?
HV: Ah, vocês viram aquele filminho? Bom, em certa medida isso foi uma exigência da prefeitura. Eles queriam algum “modelinho” que servisse para as diferentes condições, para não ter que pagar hidráulica, mas que possibilitasse que cada projeto fosse diferente. Então a gente começou a pensar em elementos componíveis que poderiam se adaptar a diferentes formas de lotes e topografias. Isso é resultado de um raciocínio, de como fazendo duas ou três unidades [...]
Neli Shimizu: Na verdade é só uma unidade que se adapta a lugares diferentes.
HV: Mas isso foi uma iniciativa nossa para atender o que a prefeitura estava pedindo.
NS: O nosso projeto era o que tinha os maiores terrenos e mais áreas, se não me engano, 23 terrenos.
HV: Esse, por exemplo, nem chegamos a construir. Ainda me lembro que eu estava de férias, não estava aqui no Brasil, e recebo uma ligação da prefeitura a dois dias antes do Natal. Dizendo assim, olha é para parar o projeto. Olha que bonito presente de Natal você me deu! Para parar o projeto até nova ordem, e paramos. Nós já estávamos no projeto executivo desse trabalho.
NS: Nós agora vamos investir em concursos fora do Brasil.
HV: Sim, o arquiteto deve ser capaz de interpretar diversas realidades e trazer coisas novas, imprevistas.
FDM/GCCA: É possível perceber o interesse do escritório por concursos, sabemos que vocês já concorreram a 77, ganharam 41 prêmios e nove primeiros lugares. Por que essa paixão por concursos? O que eles oferecem ao arquiteto?
HV: Não [...] não é paixão, é necessidade. É necessidade de ter trabalhos. Eu não sou brasileiro. Então quando cheguei ao Brasil, a única possiblidade de acessar a um trabalho grande era o concurso e também percebia que o concurso para o escritório, nós aprendemos a trabalhar juntos, a fazer coisas em equipe. Isso foi muito positivo e continua sendo um espaço de reflexão. Os concursos são também uma oportunidade única para experimentar, inventar e refletir sobre arquitetura.
Renova SP – Morro do S4, São Paulo, Vigliecca & Associados, 2011
Em pé: Fabiano Diniz, Julieta Leite, Fernando Diniz, Pascal Machado, Gilson Gonçalves e Roberto Ghione; sentados: Bruno Lima, Hector Vigliecca, Livia Nóbrega; na frente: Amanda Silvestre e Matheus Dantas, Enio Laprovítera e Vera Pires
Héctor Vigliecca
Arquiteto e urbanista uruguaio formado pela Universidad de la República – Udelar e naturalizado brasileiro. Possui uma vasta produção que abarca desde projetos de habitação de interesse social, arenas esportivas e edifícios nos âmbitos cultural, educacional e institucional, além de intervenções urbanas.
Neli Shimizu
Arquiteta, sócia-diretora desde 2004, é responsável pelos projetos de Habitação Econômicas e Sociais do Vigliecca e Associados, incluindo os projetos de grandes intervenções urbanas em áreas de precárias urbanidades, atuando na concepção, desenvolvimento e gestão.
Fernando Diniz Moreira
Arquiteto pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e Ph.D. em arquitetura pela Universidade da Pensilvânia. Professor Associado do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFPE. Foi o coordenador geral do Docomomo Brasil (2016-17) e Conselheiro Federal nas duas primeiras gestões do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil – CAU/BR (2012-17).
Giselle Cristina de Almeida Cantalice
Arquiteta e urbanista, formada pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE (2018), com Trabalho Final de Graduação – TFG sobre a obra de habitação social do escritório Vigliecca & Associados.