português O texto apresenta conversa entre o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha e o pesquisador italiano Giacomo Pirazzoli, com o precioso suporte de Marta Moreira. O encontro aconteceu no dia 8 de setembro de 2017.
como citar
Giacomo Pirazzoli.
“Paulo Mendes da Rocha: sobre o edifício Sesc 24 de Maio”.
Vitruvius entrevista, ed. 19.075. 2018.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/19.075/7107
Sesc 24 de Maio, contexto urbano da área central de São Paulo
Apresentação de Giacomo Pirazzoli
Inaugurado em 18 de agosto de 2017, o Sesc 24 de Maio (1) – obra de Paulo Mendes da Rocha com MMBB Arquitetos – nasce do desejo do diretor do Sesc São Paulo, o refinado, intelectual e proativo Danilo Santos de Miranda. Propriamente no Estado de São Paulo, onde puramente se concentra a mais importante atividade industrial do Brasil, o Sesc – Serviço Social do Comércio – é uma instituição privada com missão de interesse público para os funcionários associados ao comércio, turismo e serviço. O seu orçamento é maior do que aquele gerenciado pelo Ministério Federal da Cultura – antes deste ser quase anulado pelo atual governo.
Em setenta anos de atividade, o Sesc construiu 36 centros no território paulista (2), dentre os quais vale a pena ao menos recordar o Sesc Pompeia (3), projetado e construído pioneiramente por Lina Bo Bardi entre 1977 e 1986, e que continua dando boas vindas, gratuitamente e diariamente, das 9 às 21 horas, a mil pessoas de todas as idades.
A entrevista a seguir – editada na forma de texto, sem as perguntas – foi realizada inicialmente no escritório de Paulo Mendes da Rocha, localizado no célebre edifício modernista de Rino Levi e equipe, o qual também já abrigou no passado a sede do escritório de Vilanova Artigas; depois continuou durante a visita ao Sesc 24 de Maio, sempre com Paulo Mendes da Rocha e Marta Moreira do MMBB Arquitetos. O texto trata-se de resumo das questões impostas pelo projeto à intervenção realizada.
Sesc 24 de Maio, jardim com espelho d’água
notas
1 O projeto está disponível no seguinte link: PORTAL VITRUVIUS. Sesc 24 de Maio. Projetos, São Paulo, ano 18, n. 206.02, Vitruvius, fev. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/18.206/6886>. Estão disponíveis no portal os seguintes artigos sobre o projeto: LIRA, José. Sesc 24 de Maio. O projeto mais fortemente urbano de Paulo Mendes da Rocha. Projetos, São Paulo, ano 17, n. 200.02, Vitruvius, ago. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/17.200/6654>; PERROTTA-BOSCH, Francesco. Categoria “Urbanidade”. Sesc 24 de Maio, Paulo Mendes da Rocha; MMBB (Marta Moreira, Milton Braga e Fernando de Mello Franco); Danilo Santos de Miranda. Drops, São Paulo, ano 18, n. 125.06, Vitruvius, fev. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.125/6884>; RODRIGUES, Felipe SS. Dois corpos ocupam o mesmo lugar no espaço. Arquitetura do Sesc 24 de Maio de Paulo Mendes da Rocha. Projetos, São Paulo, ano 17, n. 201.02, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/17.201/6673>.
3 Sobre o Sesc Pompeia, ver: FERRAZ, Marcelo. Numa velha fábrica de tambores. Sesc Pompeia comemora 25 anos. Minha Cidade, São Paulo, ano 08, n. 093.01, Vitruvius, abr. 2008 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.093/1897>.
Sesc 24 de Maio, início das obras
Este projeto inicia em 2001.
Fui convidado para uma primeira inspeção do edifício existente que o Sesc havia adquirido: uma construção dos anos 1940 com uso predominantemente comercial. A estrutura composta por pilares foi modificada e desordenada ao longo dos anos. Quase no centro, havia uma praça quadrada, a qual teve os dois primeiros andares cobertos. Imediatamente, concordei com a proposta de estabelecer funções culturais no centro da cidade, apesar de conhecer pouco o programa de necessidades. Eles me disseram que cerca de 300 funcionários trabalhariam na obra. Salientei que o edifício existente, mesmo tendo sido cuidadosamente reformado, não era capaz de acomodar adequadamente tudo o que o cliente queria. Este tipo de diagnóstico no início do projeto é fundamental.
Em geral, a recuperação de um edifício existente através da sua transformação já expressa uma ideia de sustentabilidade. Portanto, eu articulei uma solução possível: havia um edifício pequeno, com cerca de 7 por 20 metros, vizinho ao edifício adquirido. Usei a metáfora da “oficina de barcos” que é essencialmente uma concentração de máquinas utilizadas para a manutenção e operação de grandes navios de transporte. Então, expliquei à eles que se comprassem a outra propriedade para abrigar as máquinas e os serviços, ganharíamos mais área nos vários níveis, naturalmente após a ocupação da praça quadrada.
O Sesc aceitou a sugestão e comprou o segundo edifício que, transformado, passou a abrigar os serviços e equipamentos técnicos, conectando-se ao volume principal por rampas. Abaixo destas passa uma pequena “rua” – isto é, um caminho urbano de pedestres entre duas fachadas, sendo uma delas transparente, que leva a porta secundária de acesso ao teatro.
Sesc 24 de Maio, fachada interna transparente
Esta fachada “interna” transparente é composta por uma estrutura de aço que, do ponto de vista tecnológico, difere muito das fachadas de vidro comuns no “primeiro mundo”. Neste caso, trata-se de uma estrutura modular tridimensional em aço soldado: em efeito, um elemento bastante low-tech, feito através do processo de soldagem e sem o uso de parafusos, especialmente peças fundidas ou tirantes de aço inoxidável. Para mim, deve ser claro o modo como cada coisa é feita, de maneira que possa ser compreendida. E a boa técnica é sempre clara. Então – isso é porque eu gosto de pensar como uma “nuvem estrutural” – aplicamos a mecânica dos fluídos para identificar o tamanho das lacunas que há entre as placas individuais de vidro, de modo que as gotas de chuva não penetrem.
Atrás desta fachada interna se encontra a rampa, a qual eu prefiro chamar de rua sem fim. A rampa é um dos elementos urbanos que trouxemos para o interior do edifício – identificamos uma rua em declive na cidade como ladeira. Essa tem um papel fundamental. Também não é coincidência que muitos chamam instintivamente o vão de 14 por 14 metros, localizado no nível do chão, de praça. Logo a reconhecemos felizmente como sendo outro componente da cidade que contribui na construção deste edifício. A arquitetura é uma forma de conhecimento do repertório da cidade.
Sesc 24 de Maio, “rua sem fim”
Dito isso, a cidade não é um projeto do arquiteto, mas do Homem: o saber construir faz com que seja possível habitar o planeta.
Mas, voltando a falar do vão de 14 por 14 metros. Ocupamos o subsolo com o auditório do teatro. Então, com uma série de mezaninos subimos em direção ao céu até alcançar o nível da piscina – a princípio, pensávamos que ela não poderia ser construída. Tudo isso está apoiado em quatro pilares que sobem do subsolo até o último pavimento, sem interferir na estrutura existente. É verdade que no Brasil não existem terremotos, mas os contraventamentos do ponto de vista estrutural são utilizados do mesmo modo que é no resto do mundo. Ao invés de disfarçá-los ou escondê-los, nós os usamos para construir a arquitetura da piscina e da biblioteca, reiterando que exibir o êxito da técnica é a atitude principal do arquiteto.
Então, se alguém observou que este edifício tem acabamentos simplificados desprovidos de detalhes sofisticados, e sustenta que se trata de uma abordagem ainda brutalista, eu responderia que, em geral, as classificações ou teorias críticas não me preocupam muito. Trabalho com isso que estamos vendo e tocando, e é isso o que eu respondo e sobre isso que eu posso ser julgado. É verdade que as particularidades desse edifício não têm nada a ver com o trabalho de Carlo Scarpa. Entretanto, os acabamentos e os detalhes não estão entre as minhas preocupações. Basicamente, penso que o acabamento da arquitetura da cidade são as pessoas que a completam.
Sesc 24 de Maio, “fenda horizontal”
Com relação a isso, adicionamos o [duplo] contraponto entre interior e exterior. Em um caso, através da pele transparente de vidro que envolve completamente os dois lados da “rua”. No outro caso, por meio da fenda horizontal que – como uma fileira sem vidros – interrompe a fachada plana na altura de um pavimento. A continuidade da parede de vidro é interrompida novamente na altura do Jardim da Piscina, onde o volume é desarticulado, identificando a piscina sobrejacente que ocupa agora o antigo espaço vazio. Essencialmente, o tema principal deste edifício é estar dentro da cidade, permitindo a ele exibir a presença e as virtudes da cidade.
É um interior e ao mesmo tempo uma máquina para descobrir o mundo com o olhar, criando diálogos com a paisagem urbana mais próxima e/ou distante. Além disso, a horizontalidade do espaço comprimido do Jardim é um dispositivo que induz olhar para fora, para a cidade. Este edifício é pensado de dentro para fora. O que é estranho à prática autoral de alguns arquitetos que consiste no fazer uma determinada forma que seja reconhecível como sua assinatura.
Sesc 24 de Maio, “horizontalidade do espaço comprimido do Jardim”
Oferecer a experiência da arquitetura na cidade com tudo o que a convivência humana contém significa opor-se ao terror difuso na metrópole, a verdadeira semente do fascismo. Depois da série de atentados que todos nós conhecemos, o mesmo sentimento de medo une diferentes partes do mundo.
A segurança que as pessoas costumavam pensar como sendo uma característica do Ocidente parece não existir mais. Raciocinando dessa maneira, o senso comum global, que construiu a narrativa a respeito da violência urbana no Brasil – o equivalente a morte por bala perdida –, passou a considerar a partir de agora que o mesmo pode ocorrer por todo o Ocidente, enquanto andamos em qualquer cidade. Nesta situação a arquitetura pode ajudar identificando as virtudes da vivência urbana através da construção de estruturas de cultura e convívio, contrastando com o terror induzido que nos faz acreditar na necessidade de um chefe, líder ou ditador.
Afinal de contas, para a arquitetura não existe espaço privado. O espaço é e sempre será apenas público, mesmo que o seu uso varie ao longo do tempo. Esta é uma das razões que guiou o projeto do mobiliário do Sesc 24 de Maio. O sócio do Sesc pertence à classe média e este mobiliário é projetado sem exibicionismo. É resistente, nem muito pesado, nem muito leve, colorido e combinável de acordo com algumas opções. Inspirado em uma peça do canteiro de obras – o tripé que suporta as estruturas temporárias e a fiação –, os pés das mesas são feitos de aço e os topos de laminado.
Existem poucas peças especiais – uma delas é a mesa cantilevered para a cafeteria do Jardim. As pernas das cadeiras são similares às pernas das mesas, enquanto os acentos das cadeiras são feitos com uma chapa de metal dobrada e colorida que resolve o projeto através de uma junta estrutural.
Penso que o arquiteto deve saber construir assim como um romancista deve saber escrever.
Sesc 24 de Maio, piscina da cobertura
Vista aérea do centro de São Paulo, edifício da Mesbla no canto inferior direito
Sesc 24 de Maio / Memorial Arquiteto Paulo Mendes da Rocha MMBB / Arquitetos Marta Moreira, Milton Braga e Fernando de Mello Franco
Acreditamos que o processo de transformação e desenvolvimento de cidades como São Paulo se faz acomodando-se lentamente às alterações dos costumes e modo de vida das sociedades que as constroem.
A nova unidade do Sesc – conjunto complexo de instalações de recreação e serviços – que ocupará o edifício sede da antiga Mesbla, localizado na esquina da Rua 24 de Maio com a Rua Dom José de Barros, centro de São Paulo, é um problema exemplar de transformação no patrimônio urbano construído.
Com estes horizontes, o projeto proposto pretende, além do simples aproveitamento e adaptação de instalações que originariamente atendiam a usos de natureza tão diversos aos que estão sendo agora propostos, contribuir de forma efetiva na desejada recuperação de área tão notável da cidade através da seguinte ordem de ideias básicas:
Loja Mesbla na Rua Vinte e Quatro de Maio, esquina com a Rua Dom José de Barros, em São Paulo
1. abrigar, com uma praça sob o edifício existente, a ideia de transformação do lugar. A “Praça do Sesc”, com caráter de galeria de passagem livre, ligada à animação da vizinhança;
2. transformar o antigo subsolo de garagem em Café e Teatro francamente ligados à Rua 24 de Maio;
3. criar um novo sistema de circulação vertical que além de atender as exigências de segurança previstas no Código de Obras seja, através do conjunto de rampas proposto, um circuito claro e contínuo, capaz de transformar, de modo arquitetônico, o largo espaço público do recinto da cidade nos diversos lugares de atividades específicas aos programas do Sesc de modo desencadeado e lúdico, um passeio;
4. distinguir o recinto Restaurante, de uso público livre, imediatamente acima do conjunto Praça e Administração do Sesc;
5. dispor alguns espaços em níveis estratégicos com o sentido de praças cobertas, sem vedação nas fachadas, jardins suspensos – Praça de Convivência, Jardim da Piscina;
6. adotar associações eventuais de dois níveis, com caráter de grande salão, parte com duplo pé direito, e galerias superiores e debruçadas, para alguns itens do programa, a fim de valorizar recintos e evitar a monotonia da simples sobreposição de andares tipo;
7. construir uma “Praça do Sol” na cobertura, com piscina;
8. deixar visível nas fachadas um caráter resultante da nova disposição para a massa do edifício, onde se vê esta inesperada sucessão de atividades superpostas, um novo e peculiar edifício na cidade com caráter próprio;
9. concentrar e isolar as instalações técnicas e principalmente mecânicas de apoio às diversas atividades sugeridas no programa da entidade, anexando-se, para tanto, a propriedade contígua na Rua Dom José de Barros – abandonada há alguns anos – para a construção de um complexo auxiliar de serviços e máquinas, Torre de Serviços.
Sesc 24 de Maio, obras de construção da piscina
Para realizar estas transformações que, de fato, caracterizam o projeto proposto e inauguram uma nova espacialidade, do ponto de vista das técnicas construtivas e previsão de instalações, foram adotadas as seguintes medidas:
1. a demolição oportuna de partes do conjunto existente, que não ofende a estrutura básica original, incluindo-se o saguão coberto da antiga Mesbla para criar um vazio no interior do edifício existente;
2. a construção de uma nova estrutura independente, apoiada em quatro pilares principais que atravessam o vazio central, que sustenta os grandes salões intercalados e o volume do solário com piscina na cobertura;
3. o rebaixamento, um tanto, da área da atual garagem no subsolo para completar o volume do Teatro e seus anexos, respeitando-se cuidadosamente os limites de proximidade e área de influência das fundações existentes e das construções vizinhas;
4. a viabilização dos andares duplos e das circulações abertas com a previsão de um elaborado sistema mecânico de controle de fumaça abrangendo todos os níveis do edifício que, por exigência do Corpo de Bombeiros, complementa os dispositivos usuais de segurança para um edifício destinado aos usos propostos.
Demonstrar as virtudes da vida futura da cidade, enquanto reivindica o privilégio de ocupar lugar tão nobre de São Paulo – Viaduto do Chá, Teatro Municipal, Barão de Itapetininga, Avenida São João, Praça da República – é o objetivo principal deste projeto.
Sesc 24 de Maio, piscina da cobertura
Giacomo Pirazzoli, Paulo Mendes da Rocha e Marta Moreira durante a entrevista
Giacomo Pirazzoli
Arquiteto (Università di Firenze) e PhD (Università di Roma La Sapienza) com pesquisa na Fondation Le Corbusier em Paris. Assessor do Architect’s Council of Europe ACE-CAE e professor de projeto na Faculdade de Arquitetura de Università di Firenze (desde 2000). Foi presidente da Academia de Belas Artes e conselheiro do Museu Stibbert, ambos em Firenze. Professor convidado em várias universidades na Europa, EUA, Austrália e China, e bolsista Capes na FAU Mackenzie de São Paulo (2017-2018). Autor de livros e ensaios, desde 1993 atua nas áreas de arquitetura sustentável, museus e patrimônio, com obras construídas na Itália e exterior. Ao lado de Francesco Collotti foi indicado para a Medalha de Ouro da Triennale de Milão.
Paulo Mendes da Rocha
Arquiteto (Mackenzie, 1954), foi professor da FAU USP. É autor de diversos projetos que se tornaram marcos urbanos – Pinacoteca do Estado, Museu da Escultura, Sesc 24 de Maio em São Paulo; Museu dos Coches em Lisboa; Museu e Teatro Cais das Artes em Vitória – e ganhador das principais láureas na área de arquitetura: Prêmio Pritzker em 2006, Leão de Ouro da 15aExposição Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza 2016, Prêmio Imperial 2016, Medalha de Ouro 2017 do RIBA – The Royal Institute of British Architects, dentre outros.
Sesc 24 de Maio, vista da piscina
Entrevista
O encontro de Paulo Mendes da Rocha e Giacomo Pirazzoli, com o precioso apoio de Marta Moreira, aconteceu no dia 8 de setembro de 2017 no escritório do arquiteto, em São Paulo. A entrevista foi originalmente publicada na revista italiana Domus n. 1017 (outubro de 2017), com o título “On the Sesc 24 de Maio building A conversation between Giacomo Pirazzoli and Paulo Mendes da Rocha”.
Tradução
O texto foi traduzido do italiano para o português pela arquiteta e doutora Silvia Raquel Chiarelli.
Agradecimentos
O autor da entrevista agradece Francesco Perrotta-Bosch, que sugeriu disponibilizar a tradução em português, ao apoio de Ruth Verde Zein à iniciativa, e ao músico e ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, por ter compartilhado alguns pensamentos antes desta entrevista. O apoio da Capes foi fundamental para a realização do trabalho.