português O francês Antoine Picon, professor da Harvard Graduate School of Design e teórico preocupado com as múltiplas relações entre a arquitetura e a tecnologia digital, é entrevistado pela dupla de professores brasileiros Gabriela Celani e David Sperling.
english Antoine Picon, a professor at the Harvard Graduate School of Design and a theorist who is concerned with the multiple relationships between architecture and digital technology, is interviewed by the Brazilian duo Gabriela Celani and David Sperling.
como citar
Gabriela Celani.
“A arquitetura dá significado à vida”.
Vitruvius entrevista, ed. 19.074. 2018.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/19.074/7014
Antoine Picon
Antoine Picon pode ser considerado como um dos poucos teóricos contemporâneos que vem assumindo a tarefa de inscrever a arquitetura digital na historiografia da arquitetura, apontando criticamente as singularidades de sua condição ontológica, sem desvinculá-la de um lastro histórico e cultural. Sua formação em engenharia e arquitetura, e doutorado em história, confere à sua obra um claro assento na reflexão acerca das técnicas e seus desdobramentos estéticos, assim como em considerações filosóficas acerca dos atravessamentos da arquitetura com as ciências e as tecnologias.
Com uma vasta obra composta por livros e artigos, Picon vem escrevendo regularmente sobre estes temas deste 1998. Em 2003, com Architecture and the sciences: exchanging metaphors, viria a direcionar seu interesse pela historiografia e crítica da arquitetura contemporânea, diante das potencialidades e dos dilemas que se apresentam com as tecnologias digitais. Títulos como Digital Culture in Architecture: An Introduction for the Design Profession (2010), Ornament: The Politics of Architecture and Subjectivity (2013)e, o mais recente comentado nesta entrevista pelo autor,La materialité de l'architecture (2018), constroem sua fortuna crítica em um contexto marcado em grande medida pelo pragmatismo e positividade dos processos digitais.
Nesta entrevista, organizada em seis partes, Picon recupera aspectos inerentes à disciplina da arquitetura que vêm sendo reconfiguradas pelo digital. Em “Arquitetura e computadores”, afirma-se o projeto como estratégia, na qual a criação de cenários opera por meio de alteridades. Picon defende que o projeto se posiciona cada vez mais como articulação entre experimentação com materiais e “ser” computacional, apontando os modelos baseados em informação (BIM) e os modelos paramétricos como realidades distintas que se apresentam para a arquitetura no futuro.
Em “Estatutos em transformação”, o autor defende que a própria profissão estaria diante de profundas alterações, em decorrência das transformações por que passam o projeto, as formas e os modos de fabricação. Neste contexto, as lógicas que regem o star system, e o imperativo de ser um arquiteto reconhecido ou perecer, estariam sendo confrontadas por distintas formas de cooperação que permitem os sistemas digitais, além de um interesse renovado pela política e pela justiça por parte dos estudantes.
No bloco “Arquitetura e inovação” discute-se os desafios da educação em arquitetura em um mundo em transformação, a necessidade de inovação e uma certa condição do arquiteto como empreendedor, assim como as limitações das pesquisas realizadas por escritórios de arquitetura. E, como historiador, Picon acaba por defender a História e a Cultura não como receituários, mas como instrumentos para pensar sobre os problemas contemporâneos e sobre mudanças.
Em “Produção do bem comum”, o autor enfatiza a importância do resgate do ornamento pela arquitetura digital e a reconexão que promove com as subjetividades e os significados. Advoga por um realismo, assumindo que a arquitetura raramente é democrática e emancipatória, pois está vinculada a sistemas de poder. O papel da arquitetura seria, então, o de criar ambientes “com significado para a vida humana”.
Nas duas últimas partes, Picon fala de suas impressões acerca das arquiteturas brasileira e latino-americana, encerrando a entrevista com um comentário sobre seu livro recentemente publicado, acerca da materialidade na arquitetura, novamente diante da condição digital.
Detalhe da capa de “Ornament: The Politics of Architecture and Subjectivity”, de Antoine Picon
Gund Hall, Harvard Graduate School of Architecture and Design, Cambridge, Massachusetts, 1968-1972, arquiteto John Andrews
Gabriela Celani e David Sperling: Seu prefácio à Arquitetura algorítmica de Terzidis (2006) começa com a seguinte questão: “qual deve ser o escopo exato do envolvimento do computador com o projeto arquitetônico?” Você também diz: “e se o radical 'outro' encontrado dentro do computador estivesse na verdade dentro de nós?” Depois, você termina dizendo que o livro não é sobre computadores e arquitetura, é sobre arquitetura. Em outras palavras, a computação já está incorporada na profissão. Qual o envolvimento dos computadores na arquitetura nos dias de hoje, 12 anos depois desse livro?
Antoine Picon: O que eu disse nesse livro era parte de um argumento que não tinha necessariamente a ver com computadores. Significa dizer que, para ser criativo, você não pode ser apenas você mesmo, você tem que, por assim dizer, se dividir e deixar um outro “eu” emergir de dentro de você. Um pouco como a Cabala, eu acho. Em alguns momentos, há a ideia de que Deus se afasta, deixando algum espaço para que a criação possa ocorrer. Em outras palavras, eu estava dizendo: e se o uso do computador fosse algo que facilitasse essa aparição, o surgimento da alteridade dentro dos criadores? Ou seja, não tinha muito a ver com o mundo do projeto auxiliado por computador, o que eu acho extremamente importante, mas foi um argumento filosófico mais geral.
GC/DS: Você acha que isso mudou desde então?
AP: Eu acho que o computador teve um tremendo efeito na arquitetura, pois do contrário eu não teria escrito três livros sobre cultura digital, arquitetura, ornamentos, cidades inteligentes etc. etc. Então, sim, eu acho que isso está mudando muitas coisas. Está mudando os procedimentos de projeto, está mudando também o status do projeto. Uma das coisas que tentei desenvolver para um livro ou artigo é que costumávamos pensar na arquitetura como uma nova maneira de ser, como se o projeto fosse uma expressão de um tipo de ideia, uma ideia estável. Eu acho que o projeto de arquitetura está se tornando uma estratégia, mais relacionado a tarefas ou ações, então, de certa forma, o status ontológico do projeto também mudou.
GC/DS: Aqui em Harvard e no MIT podemos ver que os alunos estão usando ferramentas digitais. Mas eu acredito que eles ainda estão usando mais com o propósito de representação do que como uma ferramenta para pensar. Aqueles que fazem alguma programação só a usam para pequenos aspectos do projeto, como gerar um padrão aleatório, parametrizar uma estrutura, otimizar algo, mas não exatamente no sentido que Terzidis estava propondo em seu livro, para aumentar a percepção do arquiteto sobre as possibilidades do projeto, criando algoritmos mais complexos. Também não se vê muita integração entre o projeto algorítmico e o BIM. Qual você acha que é a razão para essa falta de integração entre idéias abstratas e concretas no mundo digital?
AP: Costumávamos, no pensamento tradicional, opor o concreto e o abstrato, mas no mundo computacional, muitas vezes, o mais concreto é justamente o computacional. Isto é, em alguns aspectos, abstrato. Portanto, há uma espécie de indefinição dessa distinção. E eu acho que cada vez mais projetar é experimentar os materiais etc. e ao mesmo tempo ser computacional. Kenneth Frampton, por exemplo, acusou o digital de desmaterializar a arquitetura. Eu acho que ela não foi desmaterializada; ela na verdade se materializou de uma maneira diferente. Há uma longa passagem no final do meu novo livro justamente sobre materialidade e arquitetura [La matérialité de l'architecture].
GC/DS: Esta questão também tem a ver com os dois caminhos que a computação vem tomando, um para o projeto paramétrico e algorítmico e o outro mais concreto, em termos de modelagem da informação da construção (BIM), simulações e representação. Eu vejo uma espécie de divisão entre essas duas tendências...
AP: Sim, acho que a divisão ainda não acabou. Mas acho que a divisão mais profunda na verdade não tem nada a ver com isso. Eu acho que a divisão mais profunda é entre aqueles que estão interessados em sustentabilidade e aqueles interessados no retorno de um uso dos computadores e de uma materialidade mais tradicionais. Acho que vamos entrar nesta contradição por algum tempo. Eu não me identifico tanto com o projeto paramétrico. Eu acho que o paramétrico é uma ferramenta. Eu não acredito, como Schumacher, que essa seja uma grande coisa. Eu acho que o BIM vai definitivamente se desenvolver, acho que é ideal para a arquitetura, na verdade. Pode ser uma chance, mas também uma grande ameaça, porque significa que, se o designer não controlar o BIM, ele será privado de poder ou de autoridade. É realmente uma questão importante. O concreto e o abstrato fazem parte da mesma evolução. Por um lado, pensando no procedimento profundo do projeto, como ele vai evoluir. Daqui a 20 anos, talvez, nós não vejamos mais nenhuma forma de projeto, mas algoritmos ou procedimentos de projeto que definem categorias de formas, que é muito o que os paramétricos querem, mas isso é uma exploração e o BIM é mais “concreto”.
GC/DS: Em alguns cursos de arquitetura, como o da Unicamp, os ateliês de projeto são direcionados à sustentabilidade e ao desempenho, usando o computador basicamente para fazer simulações e otimização, mas naqueles que tradicionalmente se concentravam mais em questões abstratas, como aqui em Harvard, eu esperaria outro uso da computação. Uma professora do MIT me disse que vê esse foco na representação como uma espécie de ressurgimento do pós-modernismo. Você vê algo assim em Harvard?
AP: Meu livro sobre ornamento tratou de alguns problemas relacionados a isso. Houve uma profunda evolução dos alunos nos últimos 5 a 10 anos. Há novamente uma busca pelo sentido da arquitetura no mundo. Arquitetura como forma de ação. Então a questão, por exemplo, da política, da justiça social, todas essas questões estão em ascensão. Não se trata apenas de ser um arquiteto de sucesso. Há também a questão da comunicação. Como falamos com um público mais ampliado? Como comunicamos mensagens significativas? E de certa forma vem a tentação pós-moderna. Porque o pós-modernismo é obcecado pela questão da comunicação na arquitetura, na mídia etc. Então, acho que provavelmente esse retorno ao pós-modernismo tem a ver com a questão não respondida de significado, que é uma questão que o digital também não respondeu completamente. Esta é uma das razões pelas quais escrevi o livro sobre ornamentos: para dizer que são questões importantes. Você não pode simplesmente ignorá-las. Se você não responder a essas perguntas, coisas como o pós-modernismo podem voltar, o que eu não estou defendendo, claramente.
Laboratório de prototipagem, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Unicamp
Jean Nouvel em cena do documentário “The Competition”, dirigido por Angel Borrego Cubero em 2013
Gabriela Celani e David Sperling: Na edição da AD sobre Digital Property (2016) você inicia a Introdução, com Wendy For, com esta frase: “A tecnologia digital, e a fabricação digital em particular, mudaram profundamente o status do projeto arquitetônico. Enquanto o processo de projeto foi acelerado, os resultados, geralmente em formato digital, podem circular indefinidamente. [...] edifícios inteiros agora podem ser replicados com grande fidelidade ou personalizados [...] O BIM resume isso”. Isso se assemelha ao texto A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica de Walter Benjamin (1935), no qual ele dizia que a fotografia e o cinema não apenas haviam causado uma “profunda mudança em termos de impacto sobre o público; [mas tinham] também estabelecido um lugar próprio entre os processos artísticos”. Você vê algo semelhante acontecendo em termos do uso de tecnologias digitais na arquitetura? Essas tecnologias teriam “estabelecido um lugar próprio” na arquitetura?
Antoine Picon: Eu acho que há novas formas de projeto, de cooperação, que o digital tornou possível. Por exemplo, um tipo de projeto mais em rede, em vez de apenas a integração vertical. Vê-se uma tendência a redes mais horizontais. Parte da evolução da autoria tem a ver com isso. Não tenho certeza se é comparável à questão da fotografia e do cinema. Acredito que o digital está, na verdade, desafiando profundamente as estruturas tradicionais da profissão. Todos nós falamos interminavelmente sobre como o digital está mudando a fabricação, mudando a forma etc. Mas muito poucas coisas são ditas sobre isso mudar a profissão, exceto com o BIM. O resto não é dito, mas acho que o digital está transformando a maneira como organizamos a profissão.
GC/DS: À medida que os projetos se tornam mais e mais complexos, há uma necessidade intrínseca de se ter mais e mais pessoas colaborando em um projeto e, portanto, as informações precisam ser compartilhadas. Esses super projetos geralmente incluem dezenas de consultores, empreiteiros etc., para que a autoria seja dissolvida. Mas ainda os arquitetos principais – especialmente os arquitetos estrela (star architects), como pudemos ver sob uma perspectiva etnográfica em “The Competition” (2013), um documentário por Angel Borrego Cubero – obtêm crédito por esses projetos. E a educação em arquitetura parece ensinar os alunos a reivindicar a autoria de seus projetos, ao mesmo tempo em que são incentivados a buscar trabalho interdisciplinar. Em seu texto, você fala sobre o “desafio da justa retribuição”. Por que você acha que a autoria ainda é tão importante para os arquitetos?
AP: Nunca nos livraremos da autoria na arquitetura, porque com a autoria vem o prestígio, o dinheiro. Nos últimos 20 a 30 anos, vimos uma forma extremamente hiperbólica de autoria em um domínio tradicionalmente marcado por formas de produção relativamente coletivas. Eu acho que a autoria não vai desaparecer, mas pode ser menos determinante comparada com o que ela é hoje, e devemos reconhecer que o digital possibilita novas formas de autoria e novas formas de autoria em camadas. O problema, com frequência é, em primeiro lugar, que a organização profissional está evoluindo muito rapidamente. Não é apenas a disciplina, mas também a estruturação profissional. Da mesma forma, a figura do arquiteto não é necessariamente apenas a do proprietário heroico de uma prática, maior ou menor, ou a do empregado. Existem várias formas entre esses dois, hoje. Existem modos de cooperação que estão em ascensão e são diferentes. Com os computadores, você pode ter nichos de conhecimento que não existiam antes. E, como eles atualmente se multiplicam, eles criam uma ecologia alternativa ao sistema de arquitetos famosos (star architects) que vem reinando nos últimos 20 anos.
Mas acho que agora há um interesse maior na política e na justiça pelos estudantes, e estamos caminhando para um mundo um pouco mais equilibrado, no qual o papel dos arquitetos será mais diversificado. O sistema dos star architects e a web 2.0 têm tido uma lógica do tipo “o vencedor leva tudo”. E isso está muito ligado à competição entre cidades. Cada cidade queria ter um edifício assinado por seu arquiteto famoso. Se a cidade ao meu lado já tiver Zaha Hadid, é melhor eu ter Herzog e De Meuron, para me diferenciar melhor dela. Uma maneira mais equilibrada de imaginar o mundo seria provavelmente acalmar essa competição. Não podemos continuar tendo apenas construções de grife sofisticadas como a única coisa que a profissão simboliza. Por exemplo, é muito impressionante para mim que arquitetos como Jeanne Gang estejam defendendo um retorno aos valores da comunidade. Há uma necessidade de redescobrir uma ética mais fundamental para a arquitetura. Eu não sou contra arquitetos famosos. Alguns deles são muito talentosos. É mais para re-diversificar os critérios em que a profissão funciona. Os estudantes precisam ter uma alternativa além do star system ou nada.
GC/DS: Mas talvez os prefeitos ainda estejam interessados nisso…
AP: Bem, quando Napoleão III contratou Garnier para construir a Ópera de Paris, ele definitivamente queria um prédio de grife. Sempre haverá a necessidade de marcos urbanos monumentais. Mas nós só temos que perceber que esta não é a única maneira de ser um arquiteto de sucesso. O sucesso na arquitetura pode ser medido de várias maneiras. Eu visitei a Casa Curutchet na Argentina, a única casa que Le Corbusier construiu na América Latina. É uma casa muito pequena, mas é admirável. É pequena, mas extremamente complexa. De certa forma, é um edifício modesto. É uma casa com um consultório médico. Trata-se de um patrimônio mundial, não é um museu gigantesco. Le Corbusier sonhava em projetar cidades inteiras na América Latina e acabou fazendo apenas essa casinha, mas ela pode ter mais significado do que tantas coisas grandes. Acho que a arquitetura não é fundamentalmente quantitativa, apesar do Koolhaas tentar nos persuadir disso.
GC/DS: Esse é um exemplo perfeito!
Casa Curutchet, La Plata, Argentina, 1948-1953. Arquiteto Le Corbusier
Gabriela Celani e David Sperling: Todas as principais universidades estão enfatizando a inovação hoje em dia. Stanford, MIT, Harvard. No GSD vocês têm o programa de mestrado em Design Engineering, de cujo corpo docente você faz parte. Algumas pessoas dizem que essa ênfase é, na verdade, uma forma de preparar a geração dos millennials para ser empreendedora por causa das mudanças no século 21 nos padrões de emprego. Você pode me falar um pouco sobre a motivação da GSD em criar esse programa e descrever seus objetivos e resultados?
Antoine Picon: É um programa interessante porque diz algo sobre todas as formas de ser um projetista. Projetar no limiar da arquitetura e da engenharia, mas também no limiar de projetar coisas e projetar sistemas. Nos próximos anos teremos que redefinir profundamente a educação em projeto. Isso inclui o papel da história e da teoria, que sempre se concentraram nos objetos. Objetos são importantes, mas precisamos encontrar novas maneiras de ampliar o escopo dos alunos para os novos problemas contemporâneos.
GC/DS: Muitos escritórios de arquitetura também enfatizam o empreendedorismo e a inovação. Talvez o melhor exemplo seja a empresa AMO, de Rem Koolhaas, que é uma firma de consultoria geral, mas há muitos outros exemplos, como o The WHY Factory, da MVRDV e da Universidade Tecnológica de Delft, o Open Source Architecture (http: //www.osa.com/studio/LA, Tel-Aviv/Montreal) e o Laboratory for Visionary Architecture – LAVA (Stuttgart, Berlin, Sidney), que se apresentam como escritórios baseados em pesquisa. Você acha que a profissão do/a arquiteto/a como a conhecemos no século 20 está mudando? Como ela será no século 21?
AP: Eu sou um pouco crítico sobre a pesquisa feita por arquitetos porque muitas vezes é [apenas] uma justificativa, na maioria das vezes apresentada pelos arquitetos famosos, e quando você olha para o resultado, eu não acho que é fabuloso, para ser honesto. Para ser um arquiteto de sucesso, você precisa de um discurso, precisa abordar as coisas de uma maneira mais sistemática, e há uma tendência hoje em dizer que isso é pesquisa. Eu não acho que é sempre pesquisa. Certamente, é bom que as pessoas da AMO ou do MVRDV recebam a tarefa de pensar mais a longo prazo, mas sou um pouco cético quanto a isso ser o que transformará a profissão de arquiteto. Mas talvez eu esteja sendo preconceituoso porque sou acadêmico. Mas acho que você não tem tempo, em um grande escritório; você está sempre correndo atrás da questão. O que acontece, com muita frequência, é que não temos tempo para pensar profundamente sobre muitos assuntos. Porque você está correndo o tempo todo. E você está correndo ainda mais se você estiver em um escritório [de arquitetura].
GC/DS: Então, não há conexão entre o programa de Design Engineering da GSD e esses escritórios de arquitetura orientados para a inovação?
AP: Em empresas muito grandes, como a Microsoft, por exemplo, você tem pesquisa. E você tem problemas ligados ao espaço construído e problemas de projeto. Portanto, o projeto é um campo em expansão e precisamos preparar as pessoas para projetar as coisas em uma escala mais ampla do que apenas um edifício.
GC/DS: A arquiteta Amanda Levete recentemente deu uma palestra aqui na GSD e mencionou a necessidade de os arquitetos serem empreendedores.
AP: Eu acho que arquitetura sempre foi ligada ao empreendedorismo. Se você é um/a arquiteto/a de sucesso, acaba contratando funcionários. E você tem que alimentá-los todo mês. Se você tem cem funcionários, isso significa que você precisa ganhar milhões ao ano apenas para pagar seus salários. E há mais e mais grandes empresas de arquitetura. Sem entrar em um discurso sofisticado sobre pesquisa, eu acho que os arquitetos são empreendedores. Uma das diferenças fundamentais entre os empreendedores e a academia é que os empreendedores precisam ser otimistas. Um aluno meu que era um empreendedor e veio fazer seu mestrado me disse isso. Você não pode ser um empreendedor se pensa que o futuro será pior do que o presente. Os acadêmicos tendem a ser pessimistas. Se você é um/a arquiteto/a, mesmo sendo cínico/a como o Koolhaas, você tem que ser um pouco otimista, pelo menos, sobre as possibilidades de você crescer, se desenvolver etc.
GC/DS: Vocês estão preparando os alunos para serem empresários aqui no GSD?
AP: Estou tentando fazer isso promovendo a flexibilidade intelectual, o que requer cultura. Cultura não é uma coleção de receitas estáticas, é aprender a evoluir. História é mudança. Não é algo fixo. O lugar da história numa escola de projeto não se restringe a apresentar exemplos; é fazer pensar em mudanças.
Garage Museum of Contemporary Art, Moscou, Rússia, 2011-2015, arquitetos Rem Koolhaas e Ekaterina Golovatyuk
Siamese Towers, Campus San Joaquín da Universidad Católica de Chile, Santiago, Chile, 2005, arquiteto Alejandro Aravena
Gabriela Celani e David Sperling: No livro Ornament: The Politics of Architecture and Subjectivity (2013) você apresenta uma posição crítica sobre o ornamento ao longo da história da arquitetura, colocando-o entre subjetividade e política. Como você diz na introdução do livro: “O retorno do ornamento está ligado tanto ao novo tipo de subjetividade característica da era digital quanto à possibilidade de contribuição da arquitetura para os significados e valores coletivos emergentes”. Se o retorno do ornamento está claramente ligado à era digital, em termos de subjetividade, poderíamos dizer que ele está intimamente ligado à própria lógica da produção digital e às forças estruturais que lideram a indústria criativa e o neoliberalismo? Isso não é, em última análise, um reforço ao poder de muito poucos de decidir e produzir o que será consumido como bens comuns? Se sim, que tipo de significados e valores coletivos você vê emergindo dos star architects da era digital?
Antoine Picon: O ornamento está, obviamente, ligado à lógica da produção digital. Por exemplo, o computador permite brincar com texturas, modular a forma etc. Mas acho que o aspecto mais profundo tem a ver com novas formas de subjetividade, o que também está relacionado ao que eu disse sobre a competição entre cidades. A experiência urbana tornou-se uma dimensão completamente estratégica do urbanismo contemporâneo. Então, vai muito além da lógica da produção digital. É realmente um anseio por uma arquitetura que, como a moda, como a culinária, fará parte dessa experiência. Eu acredito que com o digital podemos compartilhar experiências, sensações. Isso reforça o poder dos poucos que decidem e produzem o que consumimos como bens comuns? Eu acho que a arquitetura não é democrática. Ela está ligada ao poder, gostemos ou não. E, em geral, ela não é emancipatória. Ela pode ser mobilizada para objetivos emancipatórios, mas raramente é emancipatória. Tomemos Aravena como exemplo. É muito impressionante como ele vem construindo com muito mais frequência para a Universidade Católica do que para os pobres.
GC/DS: ...que é o que vem sendo mais divulgado...
AP: O que a arquitetura pode fazer é rever a realidade de uma situação. O ornamento é um bom revelador de estruturas de poder, significados sociais, incluindo ideologias. Esta é uma das razões pelas quais eu tenho clamado pela volta do ornamento, porque a negação do ornamento é ainda pior; está ligado à ficção de que a arquitetura pode tratar a todos como iguais, o que não é verdade.
GC/DS: O que também está relacionado com a industrialização.
AP: Provavelmente, a grande ambição dos modernos era que todos pudessem ser tratados da mesma forma através da arquitetura. Mas isso na verdade falhou. Eu gostaria que a arquitetura fosse diferente, mas é por isso que a maioria dos textos sobre arquitetura e política falham; porque não existe arquitetura democrática.
GC/DS: Uma coisa que eu tenho ouvido muito é que os edifícios têm que ser bonitos para que as pessoas os amem e eles os mantenham, e isso é mais sustentável do que destruí-los.
AP: Minha interpretação disso é que, para ser suportável, a vida precisa ter significado. O papel da arquitetura é criar um ambiente com significado para a vida humana. O que a arquitetura faz acima de tudo é criar ambientes, ambientes em que a ação humana pareça ter um significado. A arquitetura torna a vida significativa, razão pela qual devemos mantê-la, não apenas porque ela é bonita. Significativo é mais profundo do que bonito. Isso quer dizer que o ser humano tem um lugar lá. Sem arquitetura não há lugar para os humanos; há apenas um lugar para os animais e para os fenômenos naturais. Existe uma história sobre Roma, na qual Romulus traça o limite da cidade, e o limite da cidade transforma o que está dentro dele. É o lugar que pertence à vida pública cívica, a um conjunto de valores etc. Para mim, a arquitetura é isso. É traçar uma espécie de limite e criar uma arena na qual a ação humana tem um significado.
GC/DS: E você acha que a beleza está relacionada ao ornamento?
AP: O ornamento tem mais a ver com prazer do que com beleza. E acima de tudo, tem a ver com significado. Eu escrevi um livro que tem uma contraproposta em comparação à de Farshid [Moussavi], que fala sobre afeto. Acredito profundamente que o ornamento ajuda a tornar o mundo significativo. A palavra ornamento tem a mesma etimologia, em latim, da palavra ordem, que é uma das razões pelas quais Gombrich deu o título a seu livro [The Sense of Order: A Study in the Psychology of Decorative Art]. O ornamento contribui para criar um mundo ordenado, onde os humanos podem ver que existe uma ordem humana. Então, há um lugar para eles.
Loja de departamentos e Cineplex John Lewis, Leicester, Inglaterra, 2008, arquiteta Farshid Moussavi
Cassino da Pampulha, Belo Horizonte, 1942, arquiteto Oscar Niemeyer
Gabriela Celani e David Sperling: Quando e onde você esteve no Brasil? Qual a sua opinião sobre a arquitetura brasileira e sobre a arquitetura latino-americana em geral?
Antoine Picon: Eu não tenho ido com muita frequência à América Latina. Fui apenas duas ou três vezes ao Brasil e a última vez foi há muito tempo. Fui convidado pela Universidade [Federal] de Belo Horizonte, mas ainda não conseguimos encontrar uma data. Fui uma vez à Argentina e uma vez ao Chile, porque estou na [comissão administrativa da] Fondation Le Corbusier.
GC/DS: Você já esteve em São Paulo?
AP: Sim, e eu amo São Paulo. É uma cidade magnífica. Todas as vezes que fui ao Brasil, estive em São Paulo. Mas tenho uma visão muito superficial [da arquitetura brasileira]. O modernismo [no Brasil] é uma coisa admirável. Quando você vê a Pampulha em Belo Horizonte, isso é magnífico. Quando você vê Artigas ... existe essa grande tradição modernista na América Latina. Mas acho que a América Latina não abraçou tão entusiasticamente o digital. Eles estão um pouco presos à utopia modernista e talvez seja hora de acordar. Mas esta é a minha impressão muito superficial. Mesmo no Chile e na Argentina [a arquitetura] ainda é muito moderna e ainda não completamente contemporânea. Mas eu não conheço bem o continente. Na minha experiência, achei a estrutura educacional um pouco conservadora. Mas o presente chega mais cedo ou mais tarde. Os franceses têm o mesmo problema, e é por isso que os franceses e latino-americanos concordam com frequência com as coisas. Às vezes, há a tentação de recusar as tendências mais recentes.
Edifício da FAU USP, São Paulo, 1961-1969, arquitetos Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi
Páginas do livro “Digital Culture in Architecture”, de Antoine Picon
Gabriela Celani e David Sperling: Já que você acaba de me presentear com seu último livro, La materialité de l'architecture (Parenthèses, 2018), por que você não fala um pouco sobre ele?
Antoine Picon: O livro é uma mistura de história e teoria. Começa com a ideia de o que a arquitetura faz, na verdade, é ordenar a matéria e formar uma estrutura. E a partir disso eu faço uma reflexão sobre o tipo de relação que temos com a matéria, tentando mostrar que, de algum modo, o que a arquitetura tenta fazer é animar a matéria. Fazer com que os materiais criem esse quadro dentro do qual a ação humana tenha um significado. Então chego à ideia um pouco mais complexa de que o que os arquitetos trabalham é a materialidade, mas defino a materialidade de uma maneira muito específica. A materialidade, para mim, não é a matéria; é o tipo de relação que temos com a matéria. A arquitetura trabalha no tipo de relação que temos com a matéria e com o mundo físico de maneira mais geral. O capítulo final é sobre o digital, como um novo regime de materialidade. O digital está redefinindo a materialidade. É algo que chamo de regime de materialidade, que venho desenvolvendo de livro para livro. No livro Digital culture in architecture, que publiquei há 8 anos, já havia a ideia de que o núcleo de uma revolução digital na arquitetura é, na verdade, uma mudança na definição de materialidade. Eu quero mostrar que não há uma desmaterialização com o computador; é uma materialidade diferente.
GC/DS: Provavelmente no final do século 20 houve uma desmaterialização.
AP: Acho que desde o começo, porque se tratava de reeducar o olho, os sentidos ... começou com um distanciamento dramático da construção. Eu acho que o digital redefiniu quem você é, e a maneira como nos relacionamos com as coisas, com os materiais etc. O capítulo final é completamente sobre isso.
GC/DS: Agradecemos, Professor Picon, por compartilhar suas reflexões.
Páginas do livro “Digital Culture in Architecture”, de Antoine Picon
Páginas do livro “La matérialité de l'architecture”, de Antoine Picon
O livro La materialité de l’architecture, recém-publicado pela editora Parenthèses na França, parte da tese de que o papel da Arquitetura é conferir expressividade à matéria. A partir desse pressuposto, Picon faz uma revisão da história da Arquitetura sob essa ótica para chegar, no capítulo final, à materialidade na era digital. Segundo ele, a era da informação não teria se iniciado com o surgimento ou com a popularização dos computadores, mas muito antes disso, desde o final do século 19, com a necessidade de se tratar as informações visando o “bom funcionamento das empresas e dos setores de administração”.
O desenvolvimento dos computadores seria, portanto, a consequência, e não a causa da sociedade de informação. No entanto, as finalidades do computador teriam mudado significativamente ao longo do século 20, de máquina de calcular (computer), passando por máquina de ordenamento lógico (ordinateur) e chegando, finalmente, a uma hibridização pervasiva com outros equipamentos, chegando a mediar nosso relacionamento com a realidade física, e assim influenciando nossa concepção de materialidade.
Contudo, o autor afirma que, ao mesmo tempo em que a arquitetura contemporânea estaria rompendo com alguns pressupostos da modernidade, ela continuaria fiel ao movimento moderno no que diz respeito à questão do simbólico, o que se manifesta claramente apesar do retorno do ornamento, tema já tratado pelo autor em outras publicações.
O livro termina com algumas questões bastante interessantes quanto ao futuro da Arquitetura. Por exemplo, diante da constatação de que o projeto de Arquitetura se desloca progressivamente da concepção de espaços para a concepção de eventos possibilitados pelas capacidades dos edifícios de se comunicarem e de atuarem, Picon se pergunta se, ao transformar-se em atriz principal, a Arquitetura não estaria perdendo seu importante papel de cenário, capaz de conferir sentido à existência humana.
Páginas do livro “La matérialité de l'architecture”, de Antoine Picon
Capa de “Ornament: The Politics of Architecture and Subjectivity”, de Antoine Picon
Antoine Picon
Engenheiro e arquiteto, com doutorado em História, Picon é diretor de pesquisa da École Nationale des Ponts et Chaussées, em Paris, e membro do Laboratoire Techniques, Territórios e Sociétés (https://latts.fr/chercheur/antoine-picon). Ele também é professor da Graduate School of Design da Universidade de Harvard (GSD). Publicou numerosos artigos e livros em inglês e francês sobre as relações entre o espaço construído e a ciência e a tecnologia, e sobre os limites entre a arquitetura e a engenharia. Picon editou edições especiais da revista Architectural Design sobre Ornamentos, Smart Cities e Open Source Architecture.
Gabriela Celani
Graduada e mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP) e PhD em Design and Computation pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Foi pesquisadora visitante na Universidade Técnica de Lisboa (UTL) e no MIT. É professora de Projeto e Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desde 2004, onde fundou o Laboratório de Automação e Prototipagem para Arquitetura e Construção (LAPAC). Foi vice-presidente da Sociedade Iberoamericana de Gráfica Digital (SIGraDi) e atualmente é membro do comitê executivo da CAADFutures Foundation. Em 2017, recebeu da SIGraDi o prêmio Arturo Montagu por sua trajetória acadêmica. Entre outras publicações editou, com Maycon Sedrez, o livro Arquitetura contemporânea e automação: prática e reflexão (ProBooks, 2018).
David Sperling
Graduado, mestre e doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP). Professor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP e coordenador do Núcleo de Estudos das Espacialidades Contemporâneas (NEC.USP). Membro dos Corpos Editoriais do International Journal of Architectural Computing (IJAC) e do Journal of Architectural Research and Development (JARD), e membro dos Comitês Executivo e Assessor da Sociedade Iberoamericana de Gráfica Digital (SIGraDi). Foi curador da exposição Homo Faber: Digital Fabrication in Latin America. É o chair do XXII Congresso da Sociedade Ibero-Americana de Gráfica Digital 2018 – Technopolíticas.
Entrevista
A entrevista com Antoine Picon, realizada por Gabriela Celani e David Sperling, ocorreu no dia 23 de abril de 2018 na Harvard Graduate School of Design.
Agradecimentos
Os autores agradecem à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – Fapesp pelo financiamento da bolsa de estudos de Gabriela Celani no MIT no 1o semestre de 2018 (processo 2017/08171-0).