entrevista ISSN 2175-6708
074.02 · ano 19, jun. 2018

sinopses

português
O francês Antoine Picon, professor da Harvard Graduate School of Design e teórico preocupado com as múltiplas relações entre a arquitetura e a tecnologia digital, é entrevistado pela dupla de professores brasileiros Gabriela Celani e David Sperling.

english
Antoine Picon, a professor at the Harvard Graduate School of Design and a theorist who is concerned with the multiple relationships between architecture and digital technology, is interviewed by the Brazilian duo Gabriela Celani and David Sperling.

como citar

Gabriela Celani. “A arquitetura dá significado à vida”. Vitruvius entrevista, ed. 19.074. 2018. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/19.074/7014

Antoine Picon
Antoine Picon

Antoine Picon pode ser considerado como um dos poucos teóricos contemporâneos que vem assumindo a tarefa de inscrever a arquitetura digital na historiografia da arquitetura, apontando criticamente as singularidades de sua condição ontológica, sem desvinculá-la de um lastro histórico e cultural. Sua formação em engenharia e arquitetura, e doutorado em história, confere à sua obra um claro assento na reflexão acerca das técnicas e seus desdobramentos estéticos, assim como em considerações filosóficas acerca dos atravessamentos da arquitetura com as ciências e as tecnologias.

Com uma vasta obra composta por livros e artigos, Picon vem escrevendo regularmente sobre estes temas deste 1998. Em 2003, com Architecture and the sciences: exchanging metaphors, viria a direcionar seu interesse pela historiografia e crítica da arquitetura contemporânea, diante das potencialidades e dos dilemas que se apresentam com as tecnologias digitais. Títulos como Digital Culture in Architecture: An Introduction for the Design Profession (2010), Ornament: The Politics of Architecture and Subjectivity (2013) e, o mais recente comentado nesta entrevista pelo autor, La materialité de l'architecture (2018), constroem sua fortuna crítica em um contexto marcado em grande medida pelo pragmatismo e positividade dos processos digitais.

Nesta entrevista, organizada em seis partes, Picon recupera aspectos inerentes à disciplina da arquitetura que vêm sendo reconfiguradas pelo digital. Em “Arquitetura e computadores”, afirma-se o projeto como estratégia, na qual a criação de cenários opera por meio de alteridades. Picon defende que o projeto se posiciona cada vez mais como articulação entre experimentação com materiais e “ser” computacional, apontando os modelos baseados em informação (BIM) e os modelos paramétricos como realidades distintas que se apresentam para a arquitetura no futuro.

Em “Estatutos em transformação”, o autor defende que a própria profissão estaria diante de profundas alterações, em decorrência das transformações por que passam o projeto, as formas e os modos de fabricação. Neste contexto, as lógicas que regem o star system, e o imperativo de ser um arquiteto reconhecido ou perecer, estariam sendo confrontadas por distintas formas de cooperação que permitem os sistemas digitais, além de um interesse renovado pela política e pela justiça por parte dos estudantes.

No bloco “Arquitetura e inovação” discute-se os desafios da educação em arquitetura em um mundo em transformação, a necessidade de inovação e uma certa condição do arquiteto como empreendedor, assim como as limitações das pesquisas realizadas por escritórios de arquitetura. E, como historiador, Picon acaba por defender a História e a Cultura não como receituários, mas como instrumentos para pensar sobre os problemas contemporâneos e sobre mudanças.

Em “Produção do bem comum”, o autor enfatiza a importância do resgate do ornamento pela arquitetura digital e a reconexão que promove com as subjetividades e os significados. Advoga por um realismo, assumindo que a arquitetura raramente é democrática e emancipatória, pois está vinculada a sistemas de poder. O papel da arquitetura seria, então, o de criar ambientes “com significado para a vida humana”.

Nas duas últimas partes, Picon fala de suas impressões acerca das arquiteturas brasileira e latino-americana, encerrando a entrevista com um comentário sobre seu livro recentemente publicado, acerca da materialidade na arquitetura, novamente diante da condição digital.

Detalhe da capa de “Ornament: The Politics of Architecture and Subjectivity”, de Antoine Picon
Detalhe da capa de “Ornament: The Politics of Architecture and Subjectivity”, de Antoine Picon