português Beatriz Carneiro e Ingrid Colares, do grupo de pesquisa Inquérito Portugal, sediado na PUC-Rio sob coordenação de Ana Luiza Nobre, conversam com o arquiteto paisagista português João Nunes sobre sua obra, sob o ponto de vista da relação entre território.
como citar
Grupo Inquérito Portugal.
“Paisagem como transformação”.
Vitruvius entrevista, ed. 18.072. 2017.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/18.072/6785
Arquiteto paisagista João Nunes em entrevista para o grupo de pesquisa Inquérito Portugal, no solar Grandjean de Montigny, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
João Nunes é arquiteto paisagista português, fundador do escritório PROAP e autor de projetos paisagísticos de destaque como a Requalificação dos Espaços Públicos da Ribeira das Naus (Lisboa), Jardim da Cordoaria (Porto), ETAR de Alcântara (Lisboa) e Parque do Tejo e do Trancão (Lisboa).
Para Nunes a noção de transformação é essencial para o entendimento da paisagem e da vida humana na terra. A transformação condiciona a vida e a arquitetura a estados efêmeros, desse modo, pensar no passado e presente é ferramenta para uma construção do futuro, para além do nosso tempo de vida ou do tempo de vida de uma obra arquitetônica.
O projeto paisagístico é visto como resultado de um entendimento do sítio e de suas transformações em devir, visando a construção de um mundo mais produtivo, diverso e onde se reconheçam as identidades distintas do local e, consequentemente, de cada projeto. O ideal universalista moderno é recusado, e o projeto deve atender a suas especificidades e contextos de paisagem diferentes. Obra e o sítio devem estar tão bem fundidos que o desenho deve desaparecer na paisagem e no tempo.
Arquiteto paisagista João Nunes em entrevista para o grupo de pesquisa Inquérito Portugal, no solar Grandjean de Montigny, na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Requalificação da Ribeira das Naus em Lisboa, arquiteto paisagista João Nunes
Inquérito Portugal: O senhor trata paisagem como transformação, processo dinâmico de estados efêmeros. Enquanto por território se entende certa estabilidade. Em que medida isso se desenvolve na sua produção?
João Nunes: A ideia de dinâmica, de transformação, é fundamental no meu trabalho. Creio que é preciso ter a noção de que o sítio muda, e que a dinâmica é uma constante inerente à própria ideia de paisagem. Porque não há sítios estáveis, nenhuma realidade que seja fixa.
Vivemos um momento muito marcado por uma espécie de conservadorismo que de alguma maneira é uma reação ao grande otimismo modernista, quando se acreditava que a obra do homem era capaz de resolver tudo, todos os problemas da Terra e da humanidade. E de repente percebemos que não era bem assim, e que muitos esforços que fizemos para resolver problemas criaram mais problemas do que os que resolveram. Então caímos na vertente oposta, que é de um excessivo conservadorismo. Uma tendência para fazer uma leitura moral do problema da transformação, e sobretudo marcar com o ferrete do mal, hoje, o toque do homem. Aquilo que há 100 anos era visto como a salvação de todos os problemas do homem agora existe como um grande risco. E, por outro lado, tem-se a ideia também errada de que se pode congelar as situações, os sítios, as paisagens e as cidades. Creio que é importante, em primeiro lugar, perceber que com essa moral caímos todos numa dimensão um pouco nostálgica. Aquela ideia profundamente errada de que antes é que se estava bem. Na verdade, antes estava-se bastante mal. Sofria-se mais, morria-se mais e mais cedo, e vivia-se pior. Apesar da poluição, dos riscos atômicos, do efeito estufa, temos agora um grau de distribuição transversal da cultura e do conhecimento, uma possibilidade de discutirmos os assuntos e de confrontarmos opiniões que creio que nunca houve no mundo. E isso é muito bom. Se somarmos o fato da taxa de mortalidade infantil ser hoje a mais baixa e a esperança de vida a mais alta desde a existência do homem, acho que conseguimos perceber claramente que se vive melhor.
Por isso creio que é fundamental sair de uma dimensão moral, em que se associa a ideia de transformação à ideia do mal e a ideia de conservação à ideia de bem, e construir a noção de que não conseguimos viver sem transformar. O ser humano só sobrevive no mundo se o transformar. E isso porque o homem é frágil, não é dotado fisicamente de capacidades que todos os outros animais têm e os fazem ser resistentes ao frio, a voar bem, nadar bem, defenderem-se bem. Nós temos todas essas capacidades reduzidas a dimensões ridículas, e a única forma que temos de sobreviver no mundo é transformá-lo.
Claro que o mundo que estamos a transformar, inicialmente, era um mundo natural, agora é um mundo antropizado. E as questões que surgem a alimentar a nossa capacidade crítica já não são questões exclusivamente ligadas à inaptidão do contexto natural para servir como nossa casa, mas tem a ver com a aplicação de uma ideia crítica em relação à nossa própria obra. E portanto, com um reconhecimento dos nossos erros, e o reconhecimento de que as transformações têm que ser corrigidas para melhorar a nossa performance, sobretudo na relação com as outras comunidades.
Mas creio que a ideia de transformar é fundamental. Transformação é vida, e a construção da paisagem é transformação. Mesmo quando a nossa decisão se aproxima de uma curadoria conservativa, essa ideia é uma ideia transformativa. O projeto passa a ser conservar, a transformação passa a ser fixar. Porque sem essa ação, naturalmente o processo tenderia para um outro estado, outra condição. Então quando queremos conservar, temos que aplicar um esforço enorme para que a coisa não se altere, ou para que não se alterem as coisas que consideramos importantes e às quais atribuímos um valor pelo menos afetivo.
Isso tem a ver com uma mensagem muito importante em relação ao mundo contemporâneo, em relação à necessidade de lutar contra todas essas falácias de uma natureza boa, macia, gentil, quando de fato a natureza tem tanto de gentil quanto de cruel, tanto de bom quanto mau, porque é completamente indiferente a qualquer tipo de valoração de caráter moral. A natureza é assassina, é brutal, é violenta, produz o mais profundo sofrimento, causa a destruição de tudo, da mesma forma que é maravilhosa, extraordinária, apaixonante. E a nossa capacidade crítica serve precisamente para nos proteger daquilo que é mau para nós, e celebrar, com convicção cada vez maior, aquilo que é bom para nós.
Creio que neste momento a natureza é nosso último deus. De certa maneira, é nosso deus indiscutível, que encerra precisamente essa mesma dimensão terrível e maravilhosa que a divindade desde sempre ofereceu. Por outro lado, creio que para a conceituação do que nós andamos aqui a fazer, todos, padeiros, ciclistas, motoristas de táxi, é fundamental ter essa ideia de transformação e de dinâmica.
Aplicada concretamente à análise do sítio, essa ideia é fundamental para percebermos que aquilo que estamos a ver do sítio é o último fotograma de um filme que começou há muitos anos. E nesse filme se foram sobrepondo extratos diferentes, correspondendo a transformações às vezes radicais, que correspondem a contextos diferentes, de todo tipo e de toda ordem: climáticos, geomorfológicos, políticos, econômicos – já entrando no domínio do antrópico. E portanto, aquilo que estamos a ver é um momento de qualquer coisa que para ser compreendida tem que ser buscada muito atrás, tentando separar a emanação de uma imagem que resulta de um processo do processo mesmo. Nosso projeto vai intervir não na imagem, mas no processo. Se tentamos intervir na imagem, estamos a fazer cosmética. Se estamos a intervir no processo, estamos a fazer um trabalho que entende a estrutura daquilo que existe e tenta, através da construção de cumplicidades com essa estrutura, modificar ligeiramente o caminho evolutivo desse sítio em favor da ideia do projeto.
Portanto, em primeiro lugar vem o entendimento geral do que estamos a fazer aqui; depois o entendimento do sítio, e portanto aquilo que em termos metodológicos poderia corresponder a uma espécie de formulação de um método de análise. Em terceiro lugar, a formulação de um método de projeto, que exatamente da mesma maneira que a análise, tem que entender que o projeto não acaba numa construção da qual nos libertamos, mas é um pontapé de saída para um processo que vai ter acréscimos, transformações, mutações. E portanto, que aquilo que nós fazemos não é uma escultura sagrada para pôr dentro de uma redoma, mas qualquer coisa que vai se transformar numa parte de um processo de vida, ativo, que vai ser digerido, transformado, adaptado, destruído, reconstruído, mantido... que vai conseguir ou não ganhar o amor das pessoas que o usam, que vai cair na completa indiferença e seguir outros caminhos… Nós temos que entender que é isso. E perceber o que queremos fazer. Queremos fazer uma coisa que ao fim de trinta anos se solta e se transforma noutra, ou qualquer coisa que daqui a dois mil anos ainda continua através da sua capacidade de afirmação – não propriamente física e monumental, mas na afetividade das comunidades e das pessoas?
IP: O senhor falou em nostalgia, tema muito presente nos textos do pensador português Eduardo Lourenço. Ele diz que a saudade é intrínseca ao português, algo que atravessa passado, presente e futuro. Já o senhor fala de camadas de tempo e de sobreposição. Como essa relação com o tempo é trabalhada em seus projetos de requalificação, sobretudo na Ribeira das Naus – ponto de partida das Grandes Navegações e símbolo histórico da saudade?
JN: Detesto a saudade “choramingas”, aquela saudade melada e pastosa. Se a saudade for só o repisar da perda, não serve para nada. A saudade é interessante se for um ingrediente para a construção do futuro, como um sólido tempero para a produção de qualquer coisa que aposte na ideia de um mundo melhor.
Creio que a saudade interessa para conseguir perceber, das perdas do passado, o que nós queremos que possa sobreviver no futuro. E portanto para nos fazer perceber que nossa passagem pela vida, este momento absolutamente efêmero que é o privilégio de estar vivo, é a oportunidade de encontrar uma maneira de ligarmos o passado ao futuro. Entender que o presente existe enquanto projeção de todos esses passados, e que o futuro só é um futuro terrível se nós quisermos. Ao contrário de uma ideia fatalista de saudade, não acredito num futuro diabólico e terrível, como um animal feroz escondido numa esquina do tempo à nossa espera. O futuro é consequência do que nós fazemos. E nessa medida, a ideia de passado me interessa não numa perspectiva nostálgica, mas como algo que tem que ser conhecido. Um passado que tem que construir uma consciência clara do que é o presente, do que é o sítio, e um futuro escolhido em função de uma ética, em função daquilo que queremos deixar para o mundo dos nossos filhos. Aquilo que queremos que os nossos filhos consigam ter do mundo que herdamos. E não pode ser “herdei uma coisa ótima e deixo-te uma porcaria estragada”. Temos que conseguir perceber que a nossa passagem, mais que manter tem que construir, valorizar.
Isto coloca-nos uma pergunta sobre o que são esses valores, o que é importante passarmos aos filhos. A primeira coisa que nós queremos é que eles consigam comer, portanto que o mundo não fique reduzido em termos da sua produtividade. E logo começamos a pensar em termos de solo, começamos a pensar em termos da proteção do solo produtivo, em termos da construção de solo produtivo. Seja o solo que colocamos na cobertura de um edifício, seja o solo que salvamos porque retiramos uma infraestrutura que já não serve, ou o solo que pura e simplesmente cultivamos porque estamos a fazer um jardim que substitui uma fazenda de oitenta ou cento e cinquenta anos atrás. Com a água é a mesma coisa. Todos esses valores têm a ver com a produtividade do mundo e com a salvaguarda de recursos básicos para que as pessoas consigam viver e sobreviver com qualidade.
Outro valor que eu creio que é evidente é o da diversidade. Não queremos passar aos nossos filhos um mundo mais pobre. E não é pela perspectiva do colecionista, dizendo “Olha, o meu pai me passou esta coleção de selos e eu perdi três”. Não é isso. É porque a diversidade, além da dimensão colecionista, corresponde efetivamente à defesa de condições melhores de sobrevivência. A diversidade é construída através de processos de mutação tornados possíveis pela sexualidade – e essa é a grande evolução na história da vida. E a diversidade é um valor. Nós não morremos todos quando há uma gripe porque somos diversos, temos capacidades diversas de resistir. Não somos todos biologicamente iguais, temos códigos genéticos diferentes que nos atribuem características diferentes de sobrevivência, e isso é fundamental. Portanto, quando falamos de um mundo diverso não falamos só de um mundo capaz de produzir um atlas muito rico, falamos de um mundo seguro, capaz de enfrentar desafios muito grandes e sobreviver a crises.
O terceiro valor que eu creio ser fundamental, e que no Brasil se entende muito bem, é o da identidade. Não queremos transmitir aos nossos filhos um mundo empobrecido no que diz respeito ao que a cultura construiu, ao que a cultura conseguiu colher da diversidade natural na construção de uma identidade para cada sítio, para cada lugar e para cada maneira de viver, de cantar, cozinhar e comer. Portanto, temos a obrigação de entender cada sítio como um sítio e cada projeto como um projeto, de recusar a facilidade do estereótipo e da aplicação de tipologias universais.
Creio que se nós defendermos esses valores, e se tivermos esses valores presentes nos nossos projetos, podemos apostar numa transformação com uma certa tranquilidade.
IP: Eduardo Lourenço também discute uma certa capacidade do português de se fundir na paisagem e fazer disso sua maior identidade. O senhor considera isso válido para a arquitetura portuguesa contemporânea? Reconhece isso em obras suas?
JN: Bem, em primeiro lugar vocês estão a fazer aqui um sacrilégio, porque estão a pôr lado a lado o Eduardo Lourenço, que é de um valor gigantesco da nossa cultura, comigo, que sou um arquiteto paisagista que anda aí a esgravatar terra pelo mundo afora. Mas acho que é evidente que uma característica muito portuguesa é essa a que ele se refere. Ao contrário de outras culturas colonizadoras, como a inglesa, na cultura portuguesa, muito mais do que impor um tipo, um padrão, um estereótipo, há sempre uma certa adaptação. Talvez por preguiça, talvez por pobreza. Não digo que por trás disso esteja um valor muito nobre, agora que o resultado é bom, eu acho que é. Porque o resultado da produção da mistura, da produção de diversidade, da produção de outra coisa nova, é muito melhor do que a imposição de algo num contexto completamente absurdo, que é o que muitas vezes nós encontramos. O exemplo dos ingleses nem sequer é muito feliz, porque eles, apesar de tudo, tiveram a inteligência de produzir culturas coloniais relativamente bem adaptadas. Mas estou a pensar, por exemplo, nas colonizações contemporâneas, dos padrões anglo-saxônicos contemporâneos, estou a pensar nos grandes estereótipos da arquitetura e no fato de que encontramos edifícios em Luanda, Tel Aviv e Helsinki com a mesma peça, a mesma marca, a mesma maneira de colocar e de construir um sistema de fachadas, por exemplo – não o design, mas o sistema construtivo da fachada. Como isso é possível? Como é que se pode universalizar uma coisa que nasce precisamente de uma ideia de contexto?
Há duas dimensões muito diferentes em relação à maneira como a arquitetura surge como produção de espaço. Há uma dimensão que me parece evidente, que é a dimensão da concha. Nós estamos a construir uma concha que é feita à medida do nosso corpo, dos nossos gestos, das nossas funções, da nossa família e do nosso grupo. Estas conchas partem sempre da dimensão do nosso corpo, da dimensão do nosso corpo coletivo e do funcionamento do grupo. E isto produz um tipo de arquitetura que, apesar de tudo, tem uma dimensão relativamente universal, porque o nosso corpo não é assim tão diferente. Mas tem também uma dimensão contextual porque aquilo de que o nosso corpo se protege não é sempre a mesma coisa. Num sítio nos protegemos de animais selvagens, noutro nos protegemos da chuva mas não precisamos nos proteger do frio, e noutro nos protegemos do frio mas não precisamos nos proteger da chuva.
E há uma outra dimensão, que é a das arquiteturas que não tem nada a ver com a nossa dimensão, mas com a dimensão do metabolismo ao qual nós temos que reagir para nos defender. Falo, por exemplo, das arquiteturas relacionadas com a água, os diques, barragens. Tudo que tem a ver com a questão da água nasce de uma necessidade de proteção, e nasce também de uma necessidade de otimização de um percurso, que já não tem nada a ver com a ideia de arquitetura concha a partir da dimensão do corpo, mas com o entendimento de um metabolismo à escala do território. Isso gera uma produção arquitetônica completamente diferente, movida por outras formas. E então esta é que evidentemente tem que ser contextual.
Um dos temas que me interessa tem a ver precisamente com a dimensão muito abstrata da infraestrutura, a dimensão da infraestrutura construída que perdeu de alguma maneira a capacidade de se debruçar sobre a espacialidade que constrói e a possibilidade de ser entendida como uma arquitetura. Que transformou-se numa coisa completamente abstrata, guiada só pelo cumprimento de regras de funcionamento que tem a ver com a largura da faixa, a sinalização, o raio, coisas que são absurdamente abstratas, esquecendo completamente que apesar de tudo essas regras convivem com territórios que são diferentes, que vão mudando, que tem circunstâncias completamente diferentes.
Jardim da Cordoaria no Porto, arquiteto paisagista João Nunes
Inquérito Portugal: O senhor tem projetado em muitos países, inclusive participado de concursos aqui no Brasil, como o Parque Urbano da Tamarineira, em Recife, e o Parque Olímpico da Barra, no Rio de Janeiro. É uma preocupação sua manter uma identidade projetual atuando em contextos tão diferentes?
João Nunes: Não. Quer dizer, a identidade é metodológica, o resultado é evidentemente diferente. E eu espero que isso seja visível, porque não quero andar aí a repetir padrões pelo mundo afora. Aquilo que me interessa é chegar a um sítio e tentar dialogar com esse sítio, reagir a ele. Claro que temos uma mochila cheia de tiques, mas também cheia de referências de outras soluções, de outros caminhos, que nos ajudam a interpretar aquilo. A riqueza de participar destes desafios pelo mundo afora está também em perceber que aquilo que aprendemos em um sítio consegue ajudar a interpretar outro. Mas isso não significa se apegar a uma solução e espetá-la em outro lado. Até porque não tem graça nenhuma. O que tem graça é descobrir o sítio e perceber como o entendimento deste sítio acaba por produzir um projeto. Portanto, sim, acho que claramente sim, tenho uma preocupação com a identidade, mas a nível metodológico, não a nível físico. E Deus queira que nossos projetos sejam sempre diferentes, e que sejam sempre surpreendentes, inclusive para nós próprios.
IP: Nossa maior referência paisagística, no Brasil, é o Roberto Burle Marx, que realizou importantes projetos no Rio de Janeiro e em outras cidades, inclusive no exterior. A obra dele influenciou de alguma forma a sua produção? Como o senhor vê hoje a concepção de paisagem do Burle Marx?
JN: A obra do Burle Marx influenciou e continuará a influenciar o mundo todo porque é universal. É uma das poucas obras do campo da paisagem que conseguiu atingir essa dimensão ligada a um nome. Depois há referências que podem ser atribuíveis também a autores, mas que não conseguiram construir essa espécie de consistência de obra. O Frederick Law Olmstead, por exemplo, é uma referência universal ainda hoje para todos os parques. De maneira mais ingênua ou mais sofisticada, toda gente quando começa a desenhar um parque desenha à maneira do Olmstead, com clareiras estruturadas pela topografia, orlas de bosques e caminhos.
Creio que isso tem a ver com o fato da obra do Burle Marx ser muito pouco paisagística – no meu entendimento de paisagem. Porque é uma obra muito centrada numa espécie de expressão pessoal, imagética, gráfica, e portanto que tem a ver com o transporte da oportunidade que a paisagem oferece para uma dimensão artística que é de fato uma outra coisa, e por isso pode ser celebrada de uma maneira tão pessoal e autoral. Porque aquilo que eu creio que a paisagem tem de maravilhoso é precisamente essa característica, que uma pessoa faz alguma uma coisa e desaparece. Se não desaparece é porque aquilo não é exatamente um trabalho de paisagem.
IP: Burle Marx teve uma relação bastante complicada com alguns arquitetos, como Oscar Niemeyer. Como é sua relação com os arquitetos com os quais trabalha e demais agentes da arquitetura?
JN: Com uns me entendo maravilhosamente, como irmãos. Não trabalhamos sequer já num sentido de atribuições disciplinares: se surge um problema, vamos jantar na casa de um, discutimos e chegamos a soluções, se não temos que fazer outro jantar e por aí vai. Mas tenho tido também experiências horríveis com arquitetos fantásticos, cuja obra admiro. Trabalhei com Charles Correa em Portugal, por exemplo, e a relação foi um desastre. Creio que, exatamente como a relação com o sítio, a relação com o outro autor que está a trabalhar no mesmo projeto tem que ser vista de uma maneira muito impessoal. Ou seja, eu tenho a sorte de ter estabelecido grandes e profundas amizades com muitos arquitetos, mas quando trabalho com outros arquitetos aquilo que eu tento fazer é centrar naquele trabalho. Estou com ele para resolver aquele projeto, e portanto creio que, muito mais do que disputar maneiras de pensar, interessa entender qual a melhor maneira de pensar para aquele problema. Às vezes há entendimentos comuns e às vezes não há, mas também não temos que trabalhar com toda gente.
Durante muitos anos a relação entre a arquitetura e a arquitetura paisagista foi vista como uma relação de marginalíssima complementaridade, em que o arquiteto paisagista fazia uma espécie de acompanhamento verde, uma espécie de salada que se punha ao lado do prato principal, e que era concebida depois do prato principal estar pronto. Hoje em dia, sobretudo com os arquitetos mais inteligentes, que entendem que a relação entre o edifício e o contexto é um valor muito importante para seu projeto, o arquiteto paisagista é chamado para a discussão e para a investigação acerca do projeto desde o primeiro momento, desde a primeira instância da leitura do sítio. Claro que há deliberações que são específicas: com as questões de arruamentos, incêndios, acústica e questões térmicas do edifício, por exemplo, não temos muito a ver, ou raramente temos a ver. Mas tudo que são questões de implantação, de discussão de contexto remoto e imediato são em geral assuntos que faz sentido debater com alguém que consiga ter uma visão muito rápida e que seja muito ágil no entendimento do território. Portanto, é uma mais valia que, se o arquiteto é inteligente, não deixa de usar.
Requalificação ambiental em Etar de Alcântara, Lisboa, Portugal, arquitetos paisagistas João Nunes e Carlos Ribas
Inquérito Portugal: O senhor indicaria alguma referência para nós, que somos estudantes de arquitetura?
João Nunes: Há uma referência que eu costumo indicar aos meus alunos e amigos, que é a tentativa de entendimento dos sítios como uma partitura complexa de música, feita de uma quantidade incrível de coisas que não tem nada a ver umas com as outras. Se vocês lerem a partitura de um contrabaixo numa peça de orquestra, por exemplo, vão encontrar a expressão de uma estrutura e de um ritmo que mal se consegue adivinhar quando se ouve a peça toda. Se fizerem esse exercício para cada uma das linhas de uma orquestra – e quanto mais a peça for complexa, melhor, como uma peça de Wagner, por exemplo – creio que conseguirão ter o entendimento de que nada é acessório, e de que as coisas que parecem mais insignificantes têm uma consequência extraordinária na construção do conjunto. Em segundo lugar, entenderão a necessidade de encontrar uma maneira de ver que é suficientemente próxima para que cada detalhe seja importante, mas suficientemente distante para conseguirmos entender tudo como uma coisa só.
Creio ser essa a maior dificuldade, sobretudo neste momento, em que o período Moderno nos viciou numa leitura cada vez mais fragmentada, na tentativa de encontrar através da especialização um conhecimento mais profundo das coisas. E aquilo que genericamente aconteceu foi que esse conhecimento mais profundo das coisas nos tornou incapazes de ter uma visão global, holística, capaz de entender o edifício, mas também o edifício no sítio, o sítio na cidade e a cidade no mundo. Creio que a construção dessa sequência é o que torna difícil o trabalho do arquiteto. Quando nos perguntamos porque um projeto é extraordinário, muitas vezes a resposta tem a ver com o fato dele ter conseguido entender sua posição como uma peça absolutamente essencial de algo que é muito maior do que ele, em termos espaciais e físicos, sem perder a coerência entre essa posição e cada um de seus detalhes.
Outra coisa importante é tentar perceber como os problemas que os arquitetos clássicos resolviam são exatamente os mesmos que nós resolvemos. Se lermos Palladio, por exemplo, percebemos que por trás das suas interrogações, que são resolvidas com uma segurança muito grande, estão exatamente as mesmas angústias que constantemente minam os projetistas contemporâneos. Portanto acho que vale a pena vocês estudarem também a obra desses grandes mestres, não no sentido de uma espécie de divinização, mas tentando entender o seu trabalho como resposta a angústias que também são as vossas, ou serão as vossas.
Também acho importante a questão do método. A contemporaneidade desenhou uma maneira de nos relacionarmos com as coisas que é bastante fragmentada. Há um texto didático americano que diz que as pessoas só conseguem prestar atenção em uma aula durante seis minutos, localizados em um momento absolutamente preciso da audição. Em suma: que vocês são todos uns patetas, que não são capazes de se concentrar por mais de seis minutos e ao fim de seis minutos já tem o cérebro a relembrar os desenhos animados que viram ontem. E eu acho que as pessoas que são tratadas como atrasadas mentais ficam mesmo atrasadas mentais, se são tratadas como pessoas válidas e cheias de qualidades, tornam-se pessoas válidas e cheias de qualidades. Aquilo que é preciso cultivar é a capacidade de imersão. Aquilo que as escolas devem ser capazes de construir é a vossa capacidade de imergir num assunto de arquitetura. Não podemos trabalhar em arquitetura das 9 às 10 horas, depois ir correr, depois trabalhar em arquitetura do meio dia às 15 horas. A arquitetura exige a construção de um espaço virtual que só existe na nossa cabeça, do qual o desenho e o trabalho do computador são só a expressão. Portanto, nada daquilo existe se não existir na nossa cabeça antes. Pensar que aquilo que conseguimos construir no computador substitui a construção virtual na nossa cabeça é um erro profundo.
Nosso esforço de fazer um projeto passa por construir cada vez mais coerentemente e detalhadamente essa realidade que estamos a prever. Cada vez que pensamos no assunto, se tivermos essa capacidade de imersão, transpomo-nos para dentro desse mundo. Claro que isso tem algum custo social, porque em geral produz um estado de imbecilização em que não respondemos às pessoas, deixamos cair coisas… construímos efetivamente qualquer coisa que substitui 100% nossa presença na realidade. Ficamos um pouco entontecidos com essa necessidade, mas o ser humano é capaz de gerir sua presença nesse mundo virtual com algum grau de normalidade nas relações sociais do cotidiano.
O que é fundamental é estar 100% dentro desse mundo e isso demora muito, mas muito, muito tempo… Ao fim de 30 anos a coisa se torna um pouco mais rápida. Eu, a princípio, fazia trabalhos que duravam um dia, uma noite e um dia, porque me assustava a possibilidade de sair daquele estado, e portanto daquela capacidade de conhecer tão bem aquele sítio que não existe e de mover-me por dentro dele. Custava-me tanto construir essa consciência que interromper, sair, tomar banho, ir almoçar ou fazer outra coisa qualquer era pôr em risco a coerência dessa construção, era arriscar não conseguir entrar ou demorar outra vez a entrar nesse estado.
Ensinar isto, ou mais do que ensinar, aprender isto é aprender a construção desse mundo imaginário. Produzir o projeto, sob o ponto de vista do desenho, é facílimo a partir daí. Qualquer pormenor é só “peraí, que já vou ver onde ele está” e ele está lá, não sei onde, mas está lá. Esta imersão nos torna profundamente conscientes de uma realidade antes dela existir sequer no desenho – o desenho vem depois, para esclarecer coisas que não ficaram claras ou dúvidas entre alternativas, ou para comunicar dúvidas. Desenhamos para contar às outras pessoas coisas que já sabemos como são dentro da nossa cabeça. Para além disso, o que aquilo produz é uma capacidade tão grande de absorver a solução que quando estamos dentro desse mundo, quando estamos dentro dessa realidade que construímos, as soluções chovem das coisas mais imbecis que se possa imaginar. Quando há coisas que não resolvemos mas temos ali, listadas, e vamos a uma exposição, por exemplo, de repente vemos um pormenor de um quadro que é a resposta que queremos. Porque nos transformamos em imãs que estão constantemente a atrair a resposta de todas as fontes possíveis. E isso nos torna muito ricos em relação à capacidade de resolver problemas. Mas é preciso estar nesse estado. Por isso é preciso transformar uma escola que antes era um manancial de informação – o que agora já não faz sentido porque a informação está acessível em todo mundo – numa espécie de mosteiro budista, onde aquilo que se aprende é sobretudo uma atitude, uma prática. Se vocês através dessa prática tiverem algum auxílio para filtrar essa informação, já não é nada mal.
Requalificação Parque do Tejo e do Trancão, Lisboa, arquiteto paisagista João Nunes
João Nunes
Arquiteto paisagista pelo Instituto de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa (1985) e mestre pela Escola Técnica Superior d’Arquitectura de Barcelona, na Universitá Politecnica de Catalunya (1996). É professor em Mendrisio. É fundador e diretor do PROAP – Ateliê de Arquitectura Paisagista (Lisboa, Luanda e Treviso) e autor de projetos paisagisticos de destaque como a Requalificação dos Espaços Públicos da Ribeira das Naus (Lisboa), Jardim da Cordoaria (Porto), ETAR de Alcântara (Lisboa) e Parque do Tejo e do Trancão (Lisboa).
Inquérito Portugal
A pesquisa Inquérito Portugal: Arquitetura, Paisagem e Território, sediada no Departamento de Arquitetura da PUC-Rio sob coordenação da Profa. Ana Luiza Nobre, indaga a produção arquitetônica contemporânea em Portugal (pós-1974) do ponto de vista da sua relação com o território e a paisagem – dois conceitos centrais a serem problematizados em relação aos processos mais recentes de modernização e urbanização do país. Pretende-se contribuir para a atualização das relações entre Brasil e Portugal, em termos de arquitetura, buscando ativar seus possíveis pontos de cruzamento, para além do passado histórico e da língua que os aproxima.
Entrevista
Entrevista concedida ao grupo de pesquisa Inquérito Portugal (Ana Luiza Nobre, Antonio Sena Batista, Beatriz Carneiro, Bruno Bins, Eduarda Abbud, Gabriela Sad, Ingrid Colares, Isabela Moraes, João Favaret, Joana Martins e Matheus Amorim) e realizada no Solar Grandjean de Montigny, PUC-Rio, em 27/04/2017.
Transcrição
Gabriela Sad, Isabela Moraes e Joana Martins Pereira