português Entrevista realizada com o arquiteto Héctor Vigliecca em seu escritório, onde falamos sobre seu selo de publicações, inspirações, obras e como a arquitetura e construção se entrelaçam no espaço coletivo e individual.
english Interview with the architect Héctor Vigliecca in his office, where we talk about his house, inspirations, works and how architecture and construction intertwine into collective and individual space.
español Entrevista con el arquitecto Héctor Vigliecca en su taller, donde se habla de sus publicaciones, inspiraciones, obras y como la arquitectura y construcción se entretejen en el espacio colectivo e individual.
Héctor Vigliecca em lançamento do livro O terceiro território, nos Estados Unidos
Héctor Vigliecca é atualmente um dos arquitetos mais importantes em atividade no país. Uruguaio radicado no Brasil, desde os anos 70 desenvolve uma arquitetura sensível às questões do território e da paisagem, projetando desde habitações coletivas até bibliotecas, parques, escolas e planos urbanísticos. Sempre atento à realidade humana e material de cada novo sítio, o arquiteto e sua equipe notabilizam-se pela delicadeza e expertise e atuar com situações urbanas críticas. Recentemente começou a publicar livros sob selo próprio, permitindo um amplo acesso e debate ao material de décadas de atividade, especialmente os concursos nacionais e internacionais, muitos dos quais tendo sido premiado.
Capa do livro O terceiro território
Jaime Solares: Como se deu o processo de publicar livros sob selo próprio, de obras e do conjunto de projetos que vocês vêm desenvolvendo no escritório? Quando que deu essa vontade e por quê o senhor o fez?
Héctor Vigliecca: Pouca obra construída e muitos projetos feitos e guardados nas gavetas foram o ponto de partida. Poder tornar públicas nossas reflexões de 40 anos de trabalho é uma necessidade quase imperiosa. Não é possível que quase meio século de trabalho profissional fique apenas arquivado. No entanto, como trabalhamos principalmente com o poder público, e este dificilmente destina verba para livros sobre as obras dos arquitetos, decidimos então, produzir os livros em nosso escritório e com recursos próprios.
Além disso, somos procurados, com bastante frequência, por estudantes, pesquisadores e instituições na busca de material sobre nossos projetos e conceitos; sintetizar esse material e disponibiliza-lo em formato didático seria uma maneira de contribuir no âmbito acadêmico.
Todo projeto e desenvolvimento gráfico fazemos aqui no escritório. Montamos um pequeno setor de desenho dos livros e enfrentamos esse desafio, que não foi fácil. Dar nome ao selo editorial utilizando a expressão “La Mar en Coche” talvez tenha sido uma forma de se apropriar dessa “liberdade” para nos lançarmos a esse desafio; um esforço de investimento nosso, mas com total consciência de que não se ganha dinheiro com dois mil volumes; no entanto, ainda assim estamos satisfeitos. La Mar en Coche é uma expressão utilizada em países de língua espanhola que tem origem no início do século XX, época do surgimento do automóvel. Refere-se à ideia de que quem podia ir à praia de carro podia fazer qualquer coisa.
JS: Quais são, hoje, as suas principais referências em arquitetura no Brasil e no mundo?
HV: Não temos referências únicas quando fazemos uma obra. Nossa referência é a história da arquitetura, ou seja, qualquer coisa desde o Renascimento até aqui nos interessa. Ministro aulas em universidades nas quais mostro nossos projetos e nossos referenciais, que são atemporais. Nelas, procuramos sabedorias e não questões formais ou estéticas.
Foto do Sesc Nova Iguaçu
JS: É recorrente em suas obras o uso de diferentes tipos de materiais, além de uma grande atenção ao detalhe, naquilo que o arquiteto italiano Vittorio Gregotti entende do termo, ou seja, a articulação o dos diferentes tipos de materiais. Como o senhor pensa o material em sua obra?
HV: Não fazemos arquitetura em função de um material novo. A definição do material faz parte da condição de um tipo de projeto e da interpretação de uma condição peculiar. O Sesc Nova Iguaçu, por exemplo. Ele está localizado em uma área industrial e cercado por áreas habitacionais de arquitetura muito simples. Dessa condição especifica surgiu a ideia de fazer um grande conjunto de interesse social e coletivo acessível à compreensão da população geral. Usamos o tijolo tradicional, o telhado de duas águas. Esses elementos são escolhidos a partir da interpretação de uma condição local e de um uso social muito importante que é tradição do Sesc. Isso funcionou muito bem. Aos finais de semana, o Sesc fica pequeno, pois chegam a ir oito, 10 mil pessoas. Na época da inauguração, era a praia da cidade, com piscina de 5 mil metros quadrados, foi um sucesso e continua sendo.
JS: O senhor desenvolve o conceito de “hipótese de cidade”, tanto que esse é o nome de um de seus livros. O senhor acredita que a arquitetura brasileira hoje é capaz de formular uma hipótese de cidade, ou ainda estamos muito voltados ao projeto de arquitetura enquanto “design”, enquanto objeto isolado?
HV: Sim, acredito. Existe uma tendência que a arquitetura se transforme em um objeto de design. Nós consideramos arquitetura como outra coisa, como modo de construir cidade. Quando não se tem cidade, se tem a paisagem, a topografia. Então se trata de como você se integra a essa condição pré-existente, e não trata arquitetura como um objeto que está totalmente isolado, apesar de eu não ser contra o objeto isolado. Existem só duas maneiras de se enfrentar a arquitetura: como objeto isolado ou como objeto integrado. Esse conceito já está estabelecido desde as construções primitivas, o Trílito e o Cromlech,que são duas formas de se estabelecer o espaço. Então tudo é possível, a questão maior é saber se você está usando a solução exata naquela condição, naquela problemática. Quando estou fazendo uma casa, não estou pensando nela como objeto de arte; quando estou fazendo cidade, muito menos.
Projeto Mooca Vila Carioca
Perspectiva aérea do Projeto Sol Nascente
Jaime Solares: Recentemente saiu uma pesquisa do CAU que indica que 85% das casas ou reformas feitas no Brasil não são executadas com o auxílio de um profissional habilitado – arquiteto ou engenheiro. A autoconstrução - que vai das casas na favela até os sobrados no subúrbio – constitui a face mais comum das cidades brasileiras. Por que isso ainda acontece?
Héctor Vigliecca: A arquitetura foi sempre assim. No Renascimento, o arquiteto trabalhava nos palácios, nas igrejas, mas não fazia cidade. As casas eram feitas por construtores. São raras as cidades em que todas as edificações foram construídas por arquitetos, e que bom que foi assim, senão seria um tédio!
JS: Na Europa, especialmente em países como a Holanda, a participação do arquiteto é expressiva na construção da cidade, em oposição ao o que acontece no Brasil, onde o arquiteto ainda á muito pouco acessível à maioria da população...
HV: Realmente é difícil pagar um arquiteto para quem tem poucos recursos. Na Holanda 90% do construído são coisas repetitivas, como na França, principalmente no interior. Agora dentro das cidades, como Roterdã, os centros são muitos novos, a participação dos arquitetos é muito grande.
Contudo, a participação do arquiteto no Brasil, se comparada com vinte anos atrás, está muito maior. Primeiro porque a qualidade do arquiteto tem melhorado. Há também a maior participação das prefeituras, como na gestão Paulo Conde no Rio de Janeiro, que demonstrou que nossa participação pode melhorar a cidade e fazer boa arquitetura. Aqui também, com o Renova São Paulo, entre outros concursos que tem ocorrido.
Até os anos 1980 os arquitetos não entravam na prefeitura para fazer Habitação de Interesse Social, era a COHAB que fornecia os cadernos – os mesmos que você comprava na banca, “como fazer a sua casa”. Te dava toda a ferragem, os caixilhos, etc. Era ruim, e isso mudou totalmente, para melhor. Eu sou otimista.
Se você olhar para trás, quantas vezes se fez um concurso para habitação na cidade de São Paulo? Isso só foi acontecer nos últimos dez anos. Me lembro que estava em São Paulo na época de Celso Pitta, e diziam que “amanhã é lançado o novo plano diretor de São Paulo”. Foi um momento histórico.
Parque Novo Santo Amaro
JS: O senhor acha que essa aproximação com o Estado tem a ver com o Estatuto da Cidade, com o Plano diretor da cidade?
HV: O plano diretor que fora feito era mais para cumprir obrigação, e o arquiteto era mal remunerado pelo governo. Hoje a situação se inverteu: quem paga bem é o poder público e não o privado. Isso mudou completamente o panorama da atuação dos arquitetos e urbanistas no Brasil. O único grande desastre foi o Minha Casa Minha Vida, quando os arquitetos foram banidos do processo. Foram construídas quase 3 milhões de casa, 10 milhões de habitantes! É quatro vezes a população do Uruguai. É um desastre, dificilmente os arquitetos atuavam.
Me lembro quando apareceu o plano chamamos várias construtoras nos colocando à disposição, e eles diziam que não precisavam de arquitetos, já tinham as plantas da CDHU. Os arquitetos não participaram, e os que participaram fizeram papel de desenhista apenas. Então não falta trabalho no Brasil, falta atitude política tanto do governo quanto dos profissionais.
Urbanização de Heliópolis Gleba A
Héctor Vigliecca
Arquiteto e urbanista, sócio-fundador do Vigliecca & Associados. Indicado ao Mies Van Der Rohe, recebeu mais de 50 prêmios em concursos. Entre seus principais projetos estão o Sesc Nova Iguaçu e o Parque Olímpico de Deodoro Rio 2016. Foi professor no Mackenzie e na UNIP. Tem três livros publicado, dentre os quais “O Terceiro Território - Habitação Coletiva e Cidade” (2014).
Jaime Solares
Arquiteto formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), teve como tema de Trabalho Final de Graduação a “Crítica de arquitetura no Brasil: 1985-2010”, e desde 2016 coordena o blog Ensaios Críticos, escrevendo também para diversas plataformas.
Entrevista
Entrevista feita no escritório do arquiteto, localizado no Jardim Paulista, no dia 16 de Março de 2016, por volta das 13h.