português Entrevista com Tod Williams e Billie Tsien sobre a filosofia e obra do escritório, que apresenta uma arquitetura lastreada em princípios sensitivos destacando os detalhes, a exploração das texturas dos materiais e os efeitos da luz.
como citar
Julianna Santos.
“Entrevista com Tod Williams e Billie Tsien”.
Vitruvius entrevista, ed. 18.070. 2017.
Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/18.070/6498
Billie Tsien, Julianna Santos e Tod Williams
Linguagem, pensamento e imagem
Em um panorama no qual prevalece uma arquitetura de exibição plástica e de forte impacto visual imediato, o escritório de Tod Williams e Billie Tsien, do escritório TWBT, é uma exceção. Em seu escritório na cidade de Nova York, o casal de arquitetos desenvolve, há mais de trinta anos, uma arquitetura lastreada em princípios sensitivos com ênfase nos detalhes, na exploração das texturas dos materiais e dos efeitos da luz.
Essa entrevista, conduzida no escritório dos arquitetos em julho de 2015, procura oferecer ao leitor brasileiro um panorama da filosofia do TWBT – escritório que representa hoje uma referência no cenário arquitetônico para aqueles que procuram uma arquitetura que ofereça mais oportunidades para a exploração sensorial por parte do usuário.
Ateliê do escritório TWBT, de Tod Williams e Billie Tsien
Skirkanich Hall Universidade da Pennsylvania, Filadélfia 2004-2006. Escritório TWBT
Julianna Santos / Fernando Diniz Moreira: Ao mesmo tempo em que suas obras são calcadas na filosofia, há no desenvolvimento dos projetos uma intensa produção de esquemas, diagramas e aquarelas. Como e em que momento tudo isso se junta?
Billie Tsien: Eu acho interessante o uso da palavra filosofia, mas acho que poderia ser trocada por valores. Acredito que nós sempre operamos com o senso específico de valores, valores simples, como tentar fazer um mundo melhor.
Tod Williams: Eu acho que isso é a verdade para todo o nosso escritório. Acho que nós compartilhamos os mesmos valores. O que acontece é que, os valores estão conectados, como disse Tod, estamos realmente tentando ser uma família, nos conectar uns com os outros no escritório e também fazer um trabalho que pareça responsável e ético. Eu acho que esses valores estão relacionados ao fato de serem muito práticos. Começamos um projeto com o que nós acreditamos e com decisões muito práticas. Os esquemas e diagramas demonstram isto. Após chegarmos a um estágio no qual a solução dos problemas principais esteja resolvida, é que passamos a tentar pensar em algo que seja maravilhoso, algo que transcenda o prático.
TW: Gostaríamos de pensar que somos éticos em vez de autores ou artistas. Queremos nos pensar como servos, os servos mais nobres. Queremos servir pessoas na terra com o trabalho que fazemos. Acreditamos em construir bem os edifícios, por que é uma medida de nossa integridade. Então, quando começamos nossos projetos, começamos devagar, por que queremos achar a melhor forma de conduzi-lo. Billie diz que há as questões práticas e talvez elas sejam melhores resolvidas pensando, saindo juntos, tendo momentos de silêncio e talvez desenhando, olhando para algo e lembrando de alguma coisa parecida que tenha riqueza de valores.
BT: Há uma intensa produção de esquemas, diagramas e aquarelas, mas não são muitos esquemas que estamos olhando. De fato, estamos sempre pegando um esquema e tentando desenvolvê-lo. Algumas vezes quando você olha para seu esquema, você tenta esclarecer a ideia fazendo um diagrama. Então começa-se por resolver problemas, mas depois tenta-se abstrair do que você fez para tentar resolvê-los. Tod, provavelmente, faz mais desenhos à mão, mas eles estão sempre de certa forma ao lado ou nas extremidades da página. Então, nunca é, na verdade, o tema do desenho. Há a parte prática e há a parte imaginativa, que é sempre bem menor na lateral e não tanto uma aquarela composta como uma exploração ou nota sobre uma ideia.
TW: Isso. E como essa ideia é muito incipiente, como uma criança, como se não fosse bem desenvolvida ainda, que precisa de discussão e cuidados para chegar ao centro de algo que mereça persistência. Por isso prefiro deixa-los à margem... Me contento em não centralizá-los até que ache os meios para que eles comecem a se mostrar viáveis.
BT: Então eu diria que as pessoas estão em primeiro lugar, depois as soluções práticas, depois nos juntamos às pessoas da equipe e conversamos com eles para que comecem a desenvolver algumas das ideias e depois voltamos a conversar.
TW: Mas eu diria: é preciso falar primeiro com o cliente e depois com as pessoas da equipe.
BT: Isso.
TW: Porque precisamos nos certificar de que o cliente está interessado nessa abordagem. Muitos clientes, e em particular os clientes comerciais, querem uma resposta rápida e nós queremos que as respostas apareçam aos poucos, e que elas sejam cuidadas como uma criança e que cresçam como um adulto completo. Acreditamos que um edifício deve ser feito com integridade, e isto exige um passo mais lento.
Skirkanich Hall Universidade da Pennsylvania, Filadélfia 2004-2006. Escritório TWBT
JS/FDM: Vocês reconhecem a existência de argumentos estruturantes e de formas de organização material que se repetem ao longo de suas obras? E, caso afirmativo, como poderia identifica-los?
BT: Acho que uma das características que sempre aparecem é que queremos que nossas construções pareçam conectadas ao solo, pareçam ter emergido dele, do manejo do terreno, como no Neurosciences Institute em La Jolla. Então, usamos bastante concreto. O concreto está em grande parte de tudo que fazemos.
TW: Acho que a estrutura serve ao edifício, mas não é o edifício em si. Gosto bastante do trabalho de Angelo Bucci. A estrutura é um elemento primário no trabalho dele. Acho maravilhoso, portanto, a estrutura é crucial, da mesma forma que os ossos do nosso corpo. A estrutura é importante e os materiais também o são. Com certeza concreto é um material primordial, mas o vidro, para nós, é um material primordial. A madeira e a pedra também. Gostamos de usá-las e de explorar usas texturas.
BT: Então, eles são basicamente os materiais primordiais. Gostamos de explorar as texturas das madeiras e das pedras, pois, elas convidam ao toque, talvez o nosso sentido primordial, tão desvalorizado perante a visão. As superfícies destes materiais têm uma linguagem própria, mostram suas origens, técnicas construtivas antigas, a passagem do tempo, enfim, elas nos conectam com nossos antepassados.
TW: Exatamente, por isso a madeira e pedra sempre aparecem em nossos projetos. É algo que vem da arquitetura moderna. Por sinal, vemos isto muito na arquitetura moderna brasileira. Vocês têm madeiras e pedras maravilhosas no Brasil.
JS/FDM: Em seus trabalhos, as ideias precedem a manipulação da matéria ou do espaço? É possível falar dos conceitos antes assumam uma forma material ou se a verbalização é uma reflexão tardia, não necessariamente formulada a priori... Como vocês descreveriam suas ideias?
TW: Certamente o conceito não é um conceito completo, como muitas pessoas defendem. Um perfeito, digo, terrível exemplo, é Peter Eisenman, pois ele primeiro idealiza um projeto por meio de um conceito, que é levado até o fim, é expresso na forma do edifício quando se torna um elemento formal vazio de significado. Para nós o conceito é o início de um pensamento e este pensamento começa a crescer e é apoiado pelo desenvolvimento do projeto. Mas, outra vez, lembramos que este pensamento tem de ser embasado por valores, se não ele se esvazia, não tem méritos, em minha opinião.
BT: Então, geralmente nós tentamos fazer uma representação abstrata da ideia.
TW: São metáforas que mantemos na cabeça. Não são realmente ideias, são pensamentos.
BT: Acho que são mais metáforas. De certa forma, criamos uma imagem e voltamos a essa imagem porque é mais pura que a arquitetura...
TW: Não há como falar disso e dizer “isto é meu, isto é seu”. É uma ideia, um pensamento que compartilhamos.
Barnes Foundation Filadelfia, Philadelphia, PA, 2012. Escritório TWBT
Julianna Santos / Fernando Diniz Moreira: Nos últimos anos vocês tiveram a oportunidade de projetar em diversos países, como Índia, China e México. Como norte-americanos, como foi projetar nesses lugares? Falem-nos um pouco dessa experiência, sobretudo na relação com o lugar, a arquitetura e as culturas locais.
Tod Williams: Acho que fazemos o nosso melhor em tentar ser sensíveis com o espaço e a cultura do lugar, mas acho que é bem difícil para nós fazer isso. Glenn Murcutt disse que jamais trabalharia fora da Austrália porque, o resto do mundo é culturalmente estrangeiro para ele. E acho que lutamos duramente. Nós escolhemos pegar estes trabalhos, mas eles são mais difíceis para a nós que outros projetos porque, estamos culturalmente e fisicamente distantes. Então, eu não disse “não”, mas eu acho que estou desapontado em minha capacidade, ou nossas capacidades, de fazermos o que seja nosso melhor trabalho. Acho que as pessoas se surpreenderam com os projetos de Hong Kong e da Índia, por parecerem sensíveis aos seus locais. Mas isso é porque nós começamos por reconhecer o quão pouco sabemos e quanto precisamos aprender.
Barnes Foundation Filadelfia, Philadelphia, PA, 2012. Escritório TWBT
JS/FDM: Como vocês veem a relação entre a sua arquitetura e esta cidade (Nova York)?
Billie Tsien: Bem, porque começamos a trabalhar na cidade e muitos de nossos projetos eram de interiores, fazendo projetos dentro do edifício já existentes. E acho que isso foi muito importante para nós, além de termos tido muito prazer em fazer interiores. De certa forma, nossa arquitetura é desenvolvida numa cidade em que não construímos muitas coisas, e uma das coisas, um edifício que foi muito significativo para nós (Folk Art Museum) foi demolido. Nos sentimos muito influenciados pela energia desta cidade e a importância da experiência nos interiores.
TW: Há coisas ótimas nesta cidade. Ela tem uma incrível mistura de pessoas, uma enorme diversidade social. Assim como a mistura de pessoas é mais importante que o indivíduo, a mistura de prédios é mais importante que as construções isoladas. Esta é outra forma de apreciar a cidade e se sentir entusiasmado em trabalhar aqui.
Barnes Foundation Filadelfia, Philadelphia, PA, 2012. Escritório TWBT
JS/FDM: Falem-nos um pouco de seus projetos recentes.
BT: Estamos trabalhando em dois projetos para escolas em New Hampshire, o que é estranho porque New Hampshire é um estado muito pequeno. Estamos trabalhando no projeto desse teatro que mencionamos para uma escola (College) privada chamada Phillip Exeter, provavelmente um dos dois melhores do país. Outro projeto em New Hampshire que estamos trabalhando é a renovação de uma adição do museu do Dartmouth College. Gostamos desses projetos porque, são relativamente pequenos e temos a possibilidade de nos envolvermos profundamente.
TW: Acontece que o prédio que estamos renovando em Dartmouth foi projetado por Charles Moore. Charles Moore foi revisor da tese de Billie. Então estamos trabalhando próximo a alguém com quem se estudou. Então, temos tanto uma forma de respeito e distanciamento como de proximidade. Em Philip Exeter, estamos trabalhando no mesmo campus em que Louis Kahn fez sua grandiosa biblioteca. De muitas maneiras, estamos falando tanto do lugar como um todo, como das pessoas em específico. Nós as imaginamos como vivendo ali. Isto é animador para a gente. Outro projeto que é animador e desafiador que estamos fazendo a Embaixada Americana na Cidade do México. Queriam que fizéssemos um edifício que não se sobressaísse e dissesse: “eu sou um norte-americano na Cidade do México”, mas ao invés disso queriam que mantivesse um diálogo e mostrasse que, apesar de sermos de culturas distintas, temos muito o que compartilhar. Então, estamos tentando fazer algo significativo.
TWTB Barnes Foundation, Filadélfia 2007-2012
Julianna Santos / Fernando Diniz Moreira: Vocês lecionam em algumas universidades nos EUA. Como avaliam o ensino de arquitetura atualmente?
Billie Tsien: Nós temos ensinado principalmente em Yale, apesar de nos últimos semestres estarmos ensinando na Universidade de Arkansas. Apesar de não estarmos nas universidades em tempo integral, achamos maravilhosa a oportunidade de estar em contato com os estudantes e com os professores, pois nos ajudam a ter novas ideias.
Tod Williams:Depois na primavera, estaremos em Harvard. Acho que representamos um pequeno percentual de como as pessoas ensinam nos EUA. Acho que somos menos interessados em fazer a teoria primeiro. Queremos que a teoria trabalhe em conjunto com a prática. Não trazemos logo uma ideia e construímos arquitetura a partir disso. Claramente estamos nesse estágio de praticantes mais velhos. Nós não somos mainstream, nem queremos e nem podemos ser mainstream. Eu realmente acho que há professores maravilhosos vindo de fora. Angelo Bucci é um exemplo perfeito. Acho que é um excelente professor. Vem com uma ideia mais ampla do que é arquitetura. Outro da América do Sul é o Sandro Cruz do Peru. É legal ver esses visitantes de longe e também nossos colegas doa EUA. Mas lembre-se não somos professores em tempo integral. Apesar de adorarmos estar ensinando, não é nossa missão principal. Não é o principal em nossas vidas.
BT: Acho que uma das coisas que falta na educação das escolas de arquitetura é uma atenção maior à menor escala. Acho que há o desejo de se resolver problemas muito grandes, como a questão da sustentabilidade e do crescimento da cidade. Acho que também temos de prestar atenção a escalas menores, porque acho que os estudantes estão aprendendo a pensar de forma muito grande, mas não entendem quão grande deveria ser uma mesa como resolver um detalhe. Não estão entendendo as escalas humanas ainda. Talvez possam aprender isso na prática, mas acho que é algo bom se ter uma conexão com isso ainda na faculdade.
TW: Concordo totalmente com a Billie. Um exemplo perfeito que vocês têm é Brasília, que foi projetada de uma forma tão rápida e tão ampla que apresenta enormes problemas na escala mais íntima. Eu acho que há uma ênfase muito grande nos projetos de grande escala.
BT: A mesma coisa é verdade em Chandigarh por conta das ruas muito amplas.
Barnes Foundation Filadelfia, Philadelphia, PA, 2012. Escritório TWBT
JS/FDM: Vocês veem algum ponto específico no ensino atual de arquitetura que é bastante influente ou realmente importante para a arquitetura contemporânea?
TW: Acho que há alguma coisa acontecendo, não quero falar sobre a educação brasileira porque não conheço. Eu diria que nos EUA, na época em que estudava, o foco na arquitetura era o desejo arquitetônico. Não incluía interiores, paisagismo, nem a dimensão tectônica. O que acho bem positivo hoje é a abertura do ensino de arquitetura. Está mais inclusivo e pode ser concretizado de várias formas. Também posso pensar que parte desta abertura tem está claramente relacionada à inclusão das mulheres e dos diferentes grupos raciais. É m panorama bastante animador e estimulante. Entretanto, é importante lembrar que para realmente se fazer um bom trabalho demora-se mais para entender o que ele significa e não se pode fazer isso em apenas alguns anos, leva-se uma vida.
BT: Eu também diria, como Tod mencionou, que a educação esta se ampliando, seria muito importante incluir uma maior abertura a diferentes formas culturais. E um dos problemas com as faculdades de arquitetura é que fazem as pessoas estreitarem sua visão, quando deveria ser o oposto. Acho que um arquiteto deveria saber sobre arte, história das nações, dança, literatura. Não é que devem deixar de ser experts, mas estamos lidando com tantos aspectos da vida das pessoas que não podemos adotar uma visão estreita, mas, pelo contrário, uma visão mais ampla.
TW: É interessante. Quanto mais ferramentas modernas nós temos, como os computadores que nos ajudam a modelar as coisas, na verdade, sabemos menos sobre a construção e a relação entre a gente e formas tradicionais de se construir que estão desaparecendo. Pensamos que estamos mais poderosos, mas, na verdade, estamos menos confiantes. Sabemos menos porque imaginamos que sabemos fazer mais coisas do que realmente podemos. Como David Chipperfield disse em outras palavras... como foi mesmo, Billie?
BT: “Quando perdemos a confiança em construir nós passamos a depender da forma”.
TW: Forma como imagem. Não somos confiantes. Por isso somos atraídos pelas estrelas de cinema. A imagem é bonita, mas não nos preocupamos com seu interior. Como estamos mais interessados pela imagem, estamos menos interessados pelo interior, na minha opinião.
Barnes Foundation Filadelfia, Philadelphia, PA, 2012. Escritório TWBT
David Rubinstein Atrium, Lincoln Center, New York, 2009. Escritório TWBT
Julianna Santos / Fernando Diniz Moreira: A arte parece ser uma referência constante no discurso de vocês. Como definiriam as relações entre arte e arquitetura?
Billie Tsien: Bem, eu acho que Tod e eu olhamos muita arte e fazemos isso como uma forma de arejar nossos cérebros. Arte e arquitetura não são a mesma coisa de forma alguma. Apesar de muitos artistas também estarem também servindo ao mercado, acredito que eles tenham mais liberdade. Eu não sei... mas, nós, arquitetos, servimos sempre aos outros. Isto é uma diferença muito grande. Mas essa liberdade que nós vemos na arte é interessante para a gente, porque é uma espécie de exploração dos nossos limites.
Tod Williams: E Billie e eu, como passamos muito tempo juntos no estúdio, discutimos muito sobre a arquitetura. Apreciamos e discutimos arte em conjunto para encontrar momentos de diversão e nossa discussão não tem de necessariamente estar atrelada à arquitetura. Então, ela nos liberta e é uma parte muito importante de nossas vidas. É um prazer de pensar sobre arte. Ontem mesmo, passamos algumas horas no estúdio de um artista chamado Shen Wei, que é dançarino e que agora é pintor. Ele foi o coreógrafo da cerimônia de abertura das Olimpíadas. Foi emocionante para nós, ficar falando sobre o seu trabalho. Foi um prazer, é tudo que posso dizer.
JS/FDM: Seus trabalhos lidam principalmente com a percepção de materiais, espaço, luz, peso, textura e outras características que podem ser consideradas fenomenológicas. Gostaríamos que fossem mais específicos sobre como consideram esses elementos na relação entre a ideia e o projeto.
TW: Bem, acho que dissemos isto antes, mas vou dizê-lo de uma forma diferente. Acho que é um fato que a forma como o material é trabalhado pode realmente dar significado a uma obra arquitetônica. Houve um período em que as pessoas diziam que a materialidade não era importante. Tudo tratava-se de espaço e forma. Mas acreditamos que materiais são essenciais: eles nos conectam ao mundo, o mundo material. Podemos tocá-los e senti-los. Eles também nos dão uma conexão emocional que, forma e espaço não podem, de certa forma, nos dar. Forma e espaço até podem nos dar uma conexão emocional, mas não a mesma que a materialidade pode dar. Isso não significa que devemos exagerar na materialidade. Eu acredito, como Louis Kahn que, os materiais falam com a gente e à medida que nos movemos através de um edifício, todo o edifício começa a falar conosco, assim como nós falamos com eles. Esta forma de conversar toma vida.
BT: Eu acho que a fenomenologia é uma palavra tão longa, mas é realmente sobre o que se sente. Eu estou muito interessada nas sensações que nossos edifícios podem provocar. Quando você começa a moldar o espaço, ele precisa ser mais quente? De que forma podemos torna-lo mais quente? Então acho que é se animando espaço por espaço. Qual a sensação? Como você iria querer que ele parecesse e o que faria parecer dessa forma? E acho que também estamos muito interessados na produção dos materiais. Estivemos mês passado numa olaria, onde fazem tijolos, porque você vê as coisas em seu processo de fabricação. Nós vimos coisas que são difíceis de serem vistas on line, porque não se pode ver, de fato, como os tijolos são feitos. Vimos as mãos em ação, vimos como eles fabricam as coisas, vimos que eles poderiam fazê-las ligeiramente diferentes.
TW: Uma das coisas que falamos muitas vezes: se você quer aprender sobre vegetais, você vai à fazenda. Você vai a uma fazenda e começa a aprender porque alguns vegetais são melhores que outros em algum período. Acho que é bastante importante para nós retroceder e perceber que há sempre pessoas conectadas, independente de aquilo ter sido feito por máquinas ou pensando naquela porção do projeto. A produção de um tijolo, o esmaltar de um tijolo. Há diferentes pessoas, diferentes peritos e eles nos ajudam a intender melhor o tijolo. O mesmo vale para outros materiais para outras coisas como a comida. Não simplesmente aceitamos o que vai sair.
David Rubinstein Atrium, Lincoln Center, New York, 2009. Escritório TWBT
JS/FDM: Constantemente vemos o nome do TWBT relacionado a Louis Kahn, como sendo herdeiros do pensamento dele. Falem-nos um pouco sobre isso.
TW: Eu vejo. Eu nunca havia estudado sobre Kahn, mas vi uma palestra, a essa distância que você está de mim. Eu não sabia o que fazer com ele. Eu estava...(perplexo) Era ele um deus? Alguns diziam que ele era um deus, outros que era um idiota. Mas como estudante eu não sabia o que fazer com ele. Mas ele certamente é importante para nós, mas há muitas outras pessoas que são importantes para nós de diferentes formas. Acho melhor mencionar os que já não vivem. Eu achava que conhecia bem Le Corbusier, mas suas obras continuam a me intrigar e a me ensinar. Acho que conheci melhor Louis Kahn e Aldo Rossi. Acho que não conheço Frank Lloyd Wright tão bem como deveria.
BT: Eu diria que é interessante porque apesar de serem pessoas com quem aprendemos, são também pessoas esmagadoras para mim. Kahn é para mim a representação da sobriedade de uma forma maravilhosa. A simetria e a perfeição, são demais. Eu olho para Le Corbusier e a invenção é maravilhosa. Eu acho que somos muito temerosos em sermos tão puros como ele podia ser. Em termos de que se você olha para alguns de seus trabalhos e diz “isso é feito de uma forma tão dura”. Eu acho que não somos bravos o suficiente para fazer isso.
TW: Billie está sempre dizendo que não somos corajosos o suficiente. Acho que não tem a ver com coragem. Acho que não podemos ser outra pessoa. Não podemos ser outra pessoa.
BT: Eu diria que Rossi para mim também é bastante interessante, porque talvez corajoso o suficiente não seja a palavra certa, mas há certos projetos que quando olho para eles, parecem-me que se sustentam sozinhos, por inteiro. Com Kahn isso sempre acontece, mas Rossi apenas parece se sustentar por inteiro, porque há várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. Eu gosto bastante disso também. Eles não são simplesmente deuses. Nós tentamos segui-los, mas...
TW: Também conhecemos de certa forma alguns grandes arquitetos brasileiros, Niemeyer, por exemplo. Foi um prazer enorme, para mim, conhecê-lo por meio do edifício que mais amamos dele, o Palácio do Itamaraty. Nós estávamos falando com ele, estávamos falando com o homem em nossa imaginação.
David Rubinstein Atrium, Lincoln Center, New York, 2009. Escritório TWBT
JS/FDM: Vocês consideram alguns de seus projetos como obras-primas?
TW: Primeiro nós realmente sabemos se a obra é prima quando o autor morre. Em vida, continuamos a crescer e mudar, a história nos dá a possibilidade de ver mais claramente. Quando estamos no meio de uma pesquisa criativa é difícil tanto para o autor ver claramente como para nós que estamos de fora. É bem fácil para mim olhar o trabalho de Kahn e dizer que é uma obra prima e saber que seu trabalho é magistral. Eu acho realmente que existem trabalhos magistrais sendo feitos hoje em dia mas, devemos ser cautelosos em usar esse critério. Por exemplo, Peter Zumthor fez trabalhos magistrais. Eu fico animado em ver o trabalho de David Chipperfield, na renovação do Neues Museum em Berlim. Eu poderia dizer que é um belo trabalho. Alguns trabalhos primorosos são feitos mas, não temos necessariamente que presumir que David é um mestre ou até mesmo o Peter seja também um mestre. Foi como eu falei, temos que ter um certo distanciamento. Eu olho o trabalho das pessoas para melhor me encontrar.
BT: Eu adoro olhar os trabalhos de Glenn Murcutt e de O’Donnell + Tuomey Architects. John Tuomey e Sheila O’Donnell, são nossos amigos e adoramos observar o trabalho deles.
TW: Temos amigos que fomos visitar no Canadá, semana passada, Brigitte Shim e Howard Sutcliffe, cujo trabalho eu gosto muito de apreciar.
BT: Há muitas pessoas das quais gostamos muito de olhar o trabalho.
TW: Renzo Piano é um mestre, porém, mas acho que atualmente ele não tem feito o seu melhor. De fato, ele fez um trabalho terrível, que foi construir algo em frente a Ronchamp. Isso mostra para mim uma terrível falta de bom senso, e eu sinto profundamente consternado que ele não tenha sido mais modesto e tenha se afastado daquele belo edifício (Ronchamp).
American Folk Art Museum New York, New York, 2001. Escritório TWBT
Tod Williams
Nasceu em Detroit, em 1943, e recebeu seu diploma de graduação em arquitetura da Universidade de Princeton em 1965. Estudou arquitetura em Cambridge e terminou seu mestrado em Princeton em 1967. Após trabalhar seis anos como arquiteto colaborador no escritório de Richard Meier, em Nova York, iniciou sua atividade solo em 1974. Lecionou na Cooper Union entre 1974 e 1989 e foi professor visitante em diversas universidades norte-americanas, a exemplo de Parsons, Harvard, Southern California Institute of Architecture, Yale e Universidade do Texas. Atualmente, compartilha com Billie Tsien a cadeira Louis I. Kahn na Universidade de Yale.
Billie Tsien
Nasceu em Ithaca, Estado de Nova York, em 1949. Filha de imigrantes chineses de Taiwan, recebeu seu diploma de graduação em Belas Artes da Universidade de Yale em 1971 e de Mestre em Arquitetura pela University of California em 1977, mesmo ano em que começou a trabalhar com Tod Williams. Tornou-se sócia do escritório em 1986 e também lecionou nas escolas anteriormente citadas.
Julianna Jamille Ferreira de Freitas Santos
Arquiteta e Urbanista, formada pela Universidade Católica de Pernambuco, Mestre em Desenvolvimento Urbano pela UFPE Atualmente combina a prática da criação arquitetônica com a docência acadêmica. Desenvolve pesquisa acadêmica que explora a interface entre arquitetura e a fenomenologia.
Fernando Diniz Moreira
Arquiteto pela UFPE, PhD em Arquitetura pela University of Pennsylvania, Professor Associado do Depto de Arquitetura e Urbanismo da UFPE. Atualmente é Coordenador-geral do Docomomo Brasil (2016-2017) e Conselheiro Federal no CAU/BR (2015-2017).
American Folk Art Museum New York, New York, 2001. Escritório TWBT