português Roberto Boettger e Olivia Marra entrevistam Angelo Bucci, responsável pela exposição sobre o futuro do MAM de São Paulo, exibida no Arsenale durante a The Biennale Architettura Venezia 2016, “Reporting from the front”, curadoria de Alejandro Aravena.
A 15ª Bienal de Arquitetura de Veneza – aberta ao público de 28 de maio a 27 de novembro de 2016 – pretende engajar a disciplina na esfera social. Apropriando-se de jargão bélico, o curador chileno Alejandro Aravena alistou arquitetos de todas as partes do mundo para mostrarem suas armas: projetos que “relatam da linha de frente” ou report from the front, como anuncia em inglês o tema deste ano.
Segundo Aravena (o primeiro Latino-Americano a comandar o evento), os inimigos em questão são o capital desenfreado e a burocracia excessiva, ditos responsáveis pela “banalidade e mediocridade” do ambiente construído. Sustentabilidade, tráfego, lixo, migração e catástrofes naturais são alguns dos campos de batalha. Dentro dessa agenda, a arquitetura é tratada como um instrumento para solucionar “problemas que não só interessam aos arquitetos, mas também à sociedade civil”.
No entanto, algumas das participações provam que o front não se resume à precariedade ou ao risco ambiental. Certamente, esse é o caso do projeto para o futuro do Museu de Arte Moderna – MAM de São Paulo, proposto por Angelo Bucci do escritório SPBR. Único Brasileiro entre as 88 participações convidadas, o arquiteto formado pela FAU USP conversou conosco ao lado de Ciro Miguel, um de seus colaboradores, durante a abertura do pavilhão do Arsenale.
“Aravena nos convidou a participar especificamente com esse projeto, antes de considerar como ele poderia relacioná-lo ao tema da mostra”, conta-nos Angelo Bucci dentro de sua instalação: um recinto definido por quatro painéis expositivos que pairam ao redor de uma grande maquete de madeira e acrílico. Ao se aproximar, o visitante percebe que se trata do Parque Ibirapuera aqui circunscrito por quatro prismas idênticos dispostos entre si para formar um edifício quadrado. A entrevista começa abordando a concepção da proposta e acaba se ampliando para questões sobre forma e prática de arquitetura. Vê-se com clareza não apenas como o projeto responde à Bienal, mas também como suscita um modo de compreender a cidade.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Roberto Boettger e Olivia Marra:Qual foi a motivação para esse projeto?
Angelo Bucci: O projeto surgiu do convite para nossa participação na exposição Panorama 33, curada por Lisette Lagnado em 2013 no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Além dos artistas, foram sete escritórios de arquitetura convidados, a responder sobre como seria um futuro desejável para o MAM, na sua relação com a cidade e o Parque. Em geral, trabalhamos com demandas específicas de projetos para construção, não era bem esse o caso, pois aqui trata-se sobretudo de um projeto teórico.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Mas o Ciro Miguel e a Juliana Braga se entusiasmaram muito com o convite e decidimos seguir em frente para responder ao desafio proposto pela Lisette. Afinal, reflexões similares a esta são constantes nas nossas conversas sobre a cidade de São Paulo e também sobre o Parque do Ibirapuera que nos convida a considerar algumas experiências arquitetônicas, tais como: 1) escalar a Oca como toda criança planeja; 2) explorar o trecho de túnel rodoviário sob o parque (o braço para a 23 de Maio sentido centro) que nunca foi aberto aos carros; 3) notar que a altura do obelisco coincide com o diâmetro da Oca; 4) imaginar um negativo do obelisco, como um poço cavado no chão; 5) inverter a forma da Oca como uma calota impressa na superfície do parque e assim por diante.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Além disso, os edifícios do Parque nos oferecem parâmetros de medidas; todos sabemos o pavilhão da Bienal mede 250 x 50m; o Museu Afro e seu edifício gêmeo 150x35m; a Oca com 70m de diâmetro. Enfim, considerando sobre o convite da Lisette, conversando através de croquis sobre o contexto do parque a partir deste tipo de consideração, a gente se dá conta que os edifícios de Oscar Niemeyer para o Parque estão ordenadas com grande rigor geométrico, por isso todos eles podem ser contidos por um quadrado: eis que isso poderia ser o próprio Museu! Há um interesse especial nessa relação, inclusive pela singularidade do seu contexto: um museu que tem na coleção permanente os edifícios de Niemeyer e jardins de Burle Marx! Não é pouco. Tal projeto não seria possível noutro lugar senão o Parque do Ibirapuera em São Paulo.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
RB&OM:Como vocês chegaram a definir a medida do quadrado? Há alguma relação com os objetos que este emoldura?
AB:Sim, existe uma relação direta. O quadrado tem 750 metros de lado. A medida está dada pelo desenho de Niemeyer e é suficiente para emoldurar o conjunto. Cada face é formada por um edifício com seção quadrada de 10 metros, elevado do solo por 11 colunas, portanto são 10 vãos de 75 metros. Cada uma das colunas é um canteiro de obra, assim seriam 44 canteiros simultâneos O vão, 75m, é vencido por uma treliça metálica. Portanto, seriam 88 treliças que poderiam ser fabricadas no Brasil inteiro. Além de oportuno na sua relação com o Parque e com a cidade, este museu tem um estratégia clara e conveniente para sua construção.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
RB&OM:É interessante como um projeto essencialmente conceitual é pensado de maneira bastante tangível.
AB: Mas esse é essencialmente o nosso modo de pensar sobre arquitetura. Não há como ser diferente e, portanto, o mesmo raciocínio conduz a maneira de desenhar e de iniciar qualquer discussão – por mais teórica que se possa parecer. Se fosse para ser realizado, esse projeto pode ser construído em 6 meses!
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
RB&OM:O museu se estenderia para além do Parque Ibirapuera?
AB: Sim. Aliás o museu é um grande tema no contexto de São Paulo. Justamente no Parque, há obras de Oscar Niemeyer e de Roberto Burle Marx como uma espécie de diálogo da cidade paulista com a arquitetura carioca. O Ibirapuera foi construído em 1954 para celebrar os 400 anos da cidade, abrigando exposições de indústria e de arte. Originalmente, sua área era muito maior do que é hoje. Mas ela foi gradualmente invadida por outras construções, enquanto que outras áreas foram doadas.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Portanto, a pergunta sobre o futuro do MAM embutia uma polêmica de arquitetura importante para São Paulo. Foi muito oportuno colocá-la na 33° edição da Panorama, que começou no próprio Museu em 1969. Inclusive, naquele momento da história, este já passava por uma crise administrativa. Com sede inaugurada no edifício dos Diários Associados, no centro de São Paulo, o acervo havia sido dissolvido e transferido para a USP. Em 1969, o MAM ressurge para sediar a primeira Panorama. A mostra foi feita no pavilhão construído dez anos antes por Lina Bo Bardi, sob a marquise do Ibirapuera. Originalmente erguido para a exposição “Bahia”, na 5° Bienal de Arte de São Paulo, o pavilhão tinha até então, digo desde o final da exposição Bahia, servido como depósito para a Fundação.
Sua permanência e depois sua ampliação foi motivo de controvérsia entre Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer, com troca de cartas nos jornais na década de 1970. Finalmente, ambos entraram num consenso. Mas a questão sobre a liberação da marquise nunca foi de fato resolvida.
Desse modo, este projeto que apresentamos por ocasião da 33º Panorama dialoga com essa discussão ao propor o novo MAM dentro e, ao mesmo tempo, fora do Parque.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
RB&OM:Você poderia falar sobre a planta?
AB: Gosto de pensar que esta planta quadrada foi desenhada por Oscar Niemeyer. O que fizemos foi desenhá-la com a máxima precisão sobre a topografia do parque. Com este desenhos em mãos visitamos o Parque para fazer as fotos destas fotomontagens feitas pelo Ciro Miguel para a apresentação do projeto. Naquela visita, eu era uma espécie de navegador com a carta em mãos, íamos decidindo as vistas melhores e o Ciro clicava para inserir o edifício proposto de modo a mostrar a sua relação com o existente.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Assim, confirmávamos o partido e verificávamos como os quatro prismas se relacionavam com os edifícios precedentes. Por exemplo: 1) quando um prisma atravessa um bosque mais denso, as lajes são recortadas de modo que as árvores as atravessem; 2) uma ponte permite que a cobertura do Museu Afro Brasil seja desfrutada como um terraço; 3) a conexão com o edifício da Bienal sugeriu o compartilhamento do uso do seu auditório; 4) seções de piso transparente permite que as pessoas no parque ‘visitem’ visualmente trechos de museu; 5) fachadas transparentes coloca outro trecho no acesso visual da 23 de Maio e assim por diante. O prisma sul abriga a entrada principal de público, ali um mezzanino administrativo funciona como um edifício autônomo. Do lado oposto, o prisma norte, paira sobre a rua, oferece um endereço próprio para artistas convidados num outro mezanino totalmente independente com programa de apartamentos e ateliês. Ao mesmo tempo, o museu funciona independentemente destes espaços.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Além disso, há um carro, como um monotrilho interno, que faz o giro completo,3km, pelo museu em apenas 5 minutos; claro, isso permite que um grupo de pessoas visite os destaques de uma exposição guiados por um monitor, multiplica as formas de visitação. Também, alçapões no piso podem ser abertos para içar peças de maior porte e transportá-las por ponte rolante a qualquer posição do prisma. Quanto às fachadas, pode-se regular filtros [insolação e controle de luz] conforme a orientação, vistas desejáveis ou demandas expositivas. Tudo funciona de tal modo que não se pode dizer se estamos trabalhando com a escala da arquitetura ou com a escala urbana. É um edifício que não se pode divisar inteiramente, embora o seu perímetro completo possa ser facilmente inferido a partir de um ou alguns fragmentos.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Apesar da grande escala, o projeto apresenta a precisão de uma relojoaria pela precisão pela qual ele se ajusta ao contexto. Os pilares se ajustam perfeitamente em relação às ruas, sem qualquer conflito e sem que se precise fazer qualquer exceção à regra, digo aos constantes 75 metros de vão e os 3,5 metros de diâmetro de cada pilar. Tudo se encaixa como se tivesse sempre existido.
A possibilidade da riqueza possível destas relações entre o novo e o existente já pode ser percebida nas colagens que o Ciro.
Projeto Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR
Exposição Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR, Arsenale, Bienal de Arquitetura de Veneza 2016
Roberto Boettger e Olivia Marra: Esse projeto já foi exposto em vários eventos e está agora no pavilhão do Arsenale da XV Bienal de Veneza. Sob qual guisa o curador Alejandro Aravena convidou sua participação?
Angelo Bucci: Aravena conheceu o projeto em 2013 quando fizemos o primeiro giro de America No Del Sur em homenagem a Rafael Iglesia, também estavam conosco como palestrantes o próprio Rafael, Solano Benitez, José Maria Saez e Ricardo Sargiotti. Talvez tenha sido por aí que ele nos deu a honra deste convite para a Bienal de Veneza sob o tema Reporting From the Front. Então, consideramos mais uma vez as ideias ali a partir da primeira pergunta que nos cabia responder para Veneza: “qual é a batalha?”
A questão revelou-se extremamente oportuna, pois o projeto trata de modo notável com um confronto recorrente na atividade da arquitetura: o conceito de herança – para designar todo o acervo cultural que nos chega – e legado – para se referir ao que vamos deixar às futuras gerações. O quanto o passado, ou o futuro, nos arma e quanto ele nos paralisa? O momento presente sempre contém essa dimensão de batalha histórica.
É uma questão relevante, também no contexto atual da Itália, porque um passado poderoso também tem um efeito paralisante. É um privilégio estudar arquitetura no contexto em que trabalharam Alberti, Brunelleschi ou Palladio, mas é também um desafio desenhar em diálogo com a dimensão desta antecedência. Mas de certa maneira, as vezes o que paralisa o sujeito é um plano absurdo para o seu futuro, como nos contextos que estimulam como meta uma arquitetura espetacular e condenam o sujeito a uma frustração certa por não ser possível iniciar nada já como uma celebridade. Não é preciso ser assim.
A questão neste projeto que apresentamos era sobre como você se relaciona com um legado precioso com toda a admiração e, ao mesmo tempo, não se deixa paralisar.
Aqui, diante dos maiores exemplos deste moderno brasileiro que construiu o Ibirapuera, nosso projeto os homenageia e, ao mesmo tempo, procura trazer um desenho propositivo para aquele contexto e para a cidade. O parque de 1954, que herdamos, pode se desdobrar como um legado estimulante para as novas gerações.
Exposição Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR, Arsenale, Bienal de Arquitetura de Veneza 2016
RB&OM: Aravena foi muito enfático ao criar uma lista de “instrumentos políticos para a arquitetura”, tal como sustentabilidade, tráfego, lixo, migração e catástrofe naturais. Mas há uma categoria que não foi incluída: a da forma. Você acha que a forma pode ser um instrumento político?
AB: De fato, a palavra forma pode significar muitas coisas diferentes. Para mim, forma é um modo de pensar. Não existe pensamento sem forma. Mas o termo ficou desgastado por uma associação à ideia de formalismo, quando a forma deixa de servir ao arquiteto e o escraviza. É importante restaurar o sentido da palavra e a função da forma como estrutura do pensamento em arquitetura.
Para esse projeto a forma requer clareza. Ela, nesse caso, realiza a ideia do começo ao fim. O edifício de escala territorial nunca seria percebido por inteiro, mas somente em partes. Então, é uma forma que põe em foco não ela mesma, mas aquilo que emoldura ao centro: o acervo de pavilhões existentes.
Hoje a arquitetura é muito dominada pelo sentido visual e a forma fica reduzida à tal dimensão, sem que suas relações espaciais sejam compreendidas. Mas aqui, você não precisa olhar. A forma não existe apenas para ser forma. Ela existe pelo raciocínio, pelo que revela sobre o lugar e sobre seu contexto na cidade. A apreensão do projeto está mais ligada ao modo de compreender a cidade do que ao modo de compreender a arquitetura.
RB&OM:Como este pensamento se traduz na sua prática de arquitetura?
AB: A arquitetura é uma atividade extremamente sensível e delicada. Digo, ela é vulnerável porque não pode e não deve ser protegida. Por isso, não é raro que a gente testemunhe discursos amadurecidos noutras atividades e campos de saber que se alojam na arquitetura para dizer o que não pertence à atividade (da arquitetura). É uma espécie de usurpação discursiva, uma apropriação oportunista da voz que a arquitetura pode ter num contexto tão dominado pelas imagens.
Nossa proposta para o MAM tem uma grande escala. Então, há uma contradição? Depende! Se ela corresponde aos anseios, é legítima. Se não, não serve e nós partimos para outra. Quando se faz um projeto teórico, ele tem um campo para existir. É o campo das ideias, das publicações, dos debates, das exposições. Entrar nesses canais de diálogo, é o modo como um projeto teórico se realiza. Por isso, é tão especial trazer esse projeto para Veneza.
Exposição Futuro do MAM São Paulo, Angelo Bucci / SPBR, partes sequenciais de prancha da exposição
Angelo Bucci
Angelo Bucci
Arquiteto, mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (1987, 1998 e 2005). Honorary Fellow of the American Institute of Architects – HF AIA (EUA, 2011). Fundador e sócio do MMBB arquitetos (São Paulo, 1996 a 2002). Fundou e dirige até hoje o escritório SPBR Arquitetos (São Paulo, 2003). Professor da Universidade de São Paulo FAU USP (desde 2001) e professor visitante de diversas universidades estrangeiras: MIT, Cambridge (EUA, 2008; 2016), ETH Zurich (Suíça, 2013-2014), Yale University (EUA, 2013), Torcuato Di Tella (Argentina, 2006; 2010), The University of Texas at Austin (EUA, 2010), Università IUAV Venezia (Itália, 2008; 2009), Harvard Graduate School of Design (EUA, 2008), Universidade de Cuenca (Equador, 2005; 2007), University of California, Berkeley (EUA, 2006), Arizona State University (EUA, 2005), Andres Bello University (Chile, 2005). Foi membro do júri do Holcim International Sustainable Construction Award (2011).
Roberto Boettger
Arquiteto formado pela Architectural Association, baseado no Rio de Janeiro e em Londres. Trabalhou na Holanda no escritório OMA e colabora com as revistas Domus, The Architectural Review e AU.
Olivia Marra
Arquiteta formada pela UFRJ, com pós-graduação pelo Berlage Institute. Trabalhou no escritório L’AUC em Paris, e atualmente escreve sua tese de doutorado pela Architectural Association, em Londres.
Entrevista
A entrevista ocorreu durante a abertura do pavilhão do Arsenale, no dia 28 maio de 2016. A entrevista contou com a participação do entrevistado Angelo Bucci, dos entrevistadores Roberto Boettger e Olivia Marra, e de Ciro Miguel, um dos arquitetos colaboradores do escritório SPBR.
Exposição
The Biennale Architettura Venezia 2016, “Reporting from the front”, curadoria de Alejandro Aravena, Giardini e Arsenale, Veneza, Itália, de 28 maio a 27 de novembro de 2016. A exposição sobre o futuro do Museu de Arte Moderna – MAM de São Paulo, de Angelo Bucci e escritório SPBR, foi montada no Arsenale.